Ricardo Kelmer 2004
Mulheres que amam, arriscam, sofrem, morrem… E sobrevivem
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Faca, lâmina, estilete. Fora a saudade cortante que as mensagens trazem, ela não tem do que se queixar. Aliás, também não gosta de reclamar da saudade pois ainda que traga sempre consigo a melancolia, a saudade de sua terra e seus amigos é uma companhia, uma espécie de presença que no fim das contas faz com que não se sinta tão só.
A distância e a solidão, que no início pesavam cruéis sobre todo seu ser, acabaram ensinando-a a extrair forças de si mesmo, a arrancar de dentro de sua alma aquilo que hoje a fortalece nos momentos em que a vontade é de largar tudo e pegar o primeiro voo de volta. Ela então para e respira fundo. Depois vai à janela olhar a rua, o movimento das pessoas. Lá fora o mundo segue seu caminho, tudo está como sempre esteve e como deve estar. É somente dentro dela que os ventos sopram fortes, agitando sua alma feito roupa no varal.
Banir de si o medo de arriscar o novo. Despir-se das armaduras que a protegem dos perigos do mundo. Mas que perigos? Haverá perigo maior no mundo que a recusa de viver o que é preciso viver? Ela compreendeu isso saltando no abismo de seu próprio medo de arriscar. Aprendeu saltando, arriscando, pagando para ver até onde era capaz. E ainda hoje se surpreende ao perceber que sempre é capaz de mais um pouco, sempre um pouquinho mais. É, para a alma imensa tudo vale a pena.
Intuitivamente ela sabe que nasceu para ser feliz, sempre soube, mas… ah, esse diabinho tagarela! Sempre tentando convencê-la a boicotar a própria felicidade. Tantas vezes ela lhe deu ouvidos, a boba. E estragou tudo. E depois olhava o estrago e não conseguia acreditar que ela mesmo fez aquilo, um gol contra no último minuto. Mas agora é diferente. O diabinho ainda está lá, sim, mas ela não o escuta ou, se escuta, ri das artimanhas do danado. A maior tentação hoje é seguir as pistas de sua sagrada felicidade.
Aprendeu também que o amor é uma chama que ilumina e dá sentido à vida, chama a aquecer corpo e espírito nas noites frias. Mas a chama um dia se apagou e ela demorou um pouquinho mais para entender que não adianta tentar reacendê-la. Para quê? Para iluminar o que ela já conhece? Para aquecer o que não mais sente frio? Foi o amor que a levou para longe, foi por amor que ela fez tudo que fez, sim, mas agora ele não tem mais forças para conduzi-la pois ela mudou, já não é a mesma, a vida mudou, tudo mudou. Haverá outros amores? Esbarrará em outra paixão irresistível na próxima esquina? Perguntas, perguntas…
Nas tardes de outono gosta de olhar as árvores, as folhas em tons de laranja, vermelho e amarelo caindo em rodopios. Ela também rodopia mas em pensamento, girando pelas memórias, lembrando das verdades que antes tão bem sabiam movê-la. As verdades que a levaram ao lugar onde agora está, onde ficaram? Ficaram pelo caminho, como as folhas que caem das árvores quando não são mais úteis. Caem e voltam à terra, para se decompor e depois retornar à arvore em forma de nutrientes e ser folha novamente, outra folha, outra utilidade. A vida como passagem para algo maior. As verdades como trampolins para outras verdades mais abrangentes. O amor como portal para outros níveis de si mesma. O si-mesmo como guia maior de toda uma vida.
A rua lá fora, as pessoas caminhando, as árvores do outono… Ela dá por si, enxuga uma lágrima e volta o olhar à tela do computador, as mensagens dos amigos, notícias frescas da terrinha, as palavras lhe trazendo os cheiros dengosos de um tempo antigo e tão presente, o calor dos abraços, a urgência dos desejos, velhas paixões que não morrem, um aperto no coração. Ai, a saudade é mesmo um punhal encravado, impossível de retirar… Nesses momentos, mais que nunca, ela se sente longe, muito longe de tudo… Mas então fecha os olhos e respira fundo, uma vez, depois outra… Ela abre os olhos e pela janela vê que o mundo continua o mesmo mundo. Tudo normal, tudo seguindo seu caminho, tudo bem. Fora esse punhal enterrado no fundo da alma está tudo bem, nada a reclamar.
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Ricardo Kelmer – blogdokelmer.wordpress.com
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Este texto integra o livro
Vocês Terráqueas – Seduções e perdições do feminino
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en español
EL PUÑAL
Ricardo Kelmer 2004
Cuchillo, lámina, estilete. Afuera la añoranza cortante que los mensajes traen, ella no tiene de lo que quejarse. Por el contrario, también no le gusta reclamar de añoranza pues aunque traiga siempre consigo la melancolía, la añoranza de su tierra y de sus amigos es una compañía, una especie de presencia que a fines de cuentas hace con que no se sienta tan sola.
La distancia y la soledad, que en principio pesaban crueles sobre todo su ser, acabaron enseñádola a extraer fuerzas de sí misma, a arrancar de dentro de su alma aquello que hoy la fortalece en los momentos en que la voluntad es de largar todo y coger el primer vuelo de vuelta. Ella entonces se para y respira hondo. Después va a la ventana mirar la calle, el movimiento de las personas. Allá fuera el mundo sigue su camino, todo está como siempre estuvo y como debe estar. Es solamente dentro de ella que los vientos soplan fuertes, agitando su alma como ropa en el colgador.
Expulsar de sí el miedo de arriesgar el nuevo. Desnudarse de las armaduras que la protegen de los peligros del mundo. ¿Pero qué peligros? ¿Habrá mayor peligro en el mundo que la repulsa en vivir lo que es necesario vivir? Ella comprendió eso saltando en el abismo de su propio miedo de arriesgar. Aprendió saltando, arriesgando, pagando para ver hasta donde era capaz. Y todavía hoy se sorprende al darse cuenta que siempre es capaz de un poco más, siempre un poquito más. Es eso, para el alma inmenso todo vale la pena.
Intuitivamente ella sabe que nació para ser feliz, siempre supo, pero ¡ah, ese diablito parlanchín! Siempre intentando convencerla a boicotear la propia felicidad. Tantas veces ella le dió oídos, la tonta. Y estropeó todo. Y después miraba el estrago y no conseguía creer que ella misma había hecho aquello, un gol contra en el último minuto. Pero ahora es diferente. El diablito todavía está allá, sí, pero ella no lo escucha o, si lo hace, se ríe de sus artimañas y sigue las pistas de su felicidad.
Aprendió también que el amor es una llama que ilumina y da sentido a la vida, llama a calentar cuerpo y espíritu en las noches frías. Pero la llama un día se apagó y ella tardó un poquito más en entender que de nada adelanta intentar reencenderla. ¿Para qué? ¿Para iluminar lo que ella ya conoce? ¿Para calentar lo que no más siente frío? Fue el amor que la llevó para lejos, fue por amor que hizo todo lo que hizo, sí, pero ahora él no tiene más fuerzas para conducirla pues ella ha cambiado, ya no es la misma, la vida cambió, todo ha cambiado. ¿Habrá otros amores? ¿Desbarrará en otra pasión irresistible en la próxima esquina? Preguntas, preguntas…
En las tardes de otoño le gusta mirar los árboles, las hojas en tonos de naranja, rojo y amarillo cayendo en volteos. Ella también voltea pero en pensamiento, girando por las memorias, acordándose de las verdades que antes tan bien sabían moverla. Las verdades que la llevaron al lugar donde ahora está, ¿dónde quedaron? Se quedaron por el camino, como las hojas que caen de los árboles cuando no son más útiles. Caen y vuelven a la tierra, para descomponerse y después retornar al árbol en forma de nutrientes y ser hoja nuevamente, otra hoja, otra utilidad. La vida como pasaje para algo mayor. Las verdades como trampolines para otras verdades más encerradas. El amor como portal para otros niveles de sí misma. El sí-mismo como guía mayor de toda una vida.
La calle allá fuera, las personas caminando, los árboles del otoño… Ella se da cuenta de sí misma, seca una lágrima y vuelve la mirada a la pantalla del ordenador, los mensajes de los amigos, notícias frescas de la tierra querida, las palabras traéndole los olores mañosos de un tiempo añejo y tan presente, el calor de los abrazos, la urgencia de los deseos, viejas pasiones que no mueren, un aprieto en el corazón. Ay, la añoranza sí es un puñal enclavado, imposible de retirar… En esos momentos, más que nunca, ella se siente lejos, muy lejos de todo… Y entonces cierra los ojos y respira hondo, una vez, después otra… Ella abre los ojos y por la ventana ve que el mundo continúa el mismo mundo. Todo normal, todo bien. Afuera ese puñal enterrado en el fondo del alma está todo bien, nada a reclamar.
TRADUÇÃO: Candice Graziani (candicegraziani@ig.com.br)
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COMENTÁRIOS
001- Eu te conto. Ela está lá, sozinha e tem certeza de ter aprendido. E aprendeu. Mas as vezes ela faz questão de esquecer que aprendeu, pra não se privar… De sentir falta, de sentir tristezinha…. A vida muda diante de seus olhos. De fato, a vida é a mesma, ela so não conhecia assim, tão aberta à sua frente. /// Eu me mudei pra outro pais ha quase 8 meses. E parecia que vc descrevia alguns dos meus momentos.. Até deu pra pensar que vc me espionou. Gostei do texto. E ja que tava lá, tão facil de te escrever, e já que são 3h da manhã e minha cabeça se recusa a repousar (não me pergunte porquê), lá me venho eu, escrever mais uma a um desconhecido. Sem nem saber se terei ouvidos. Enfim, gostei do seu texto e é isso. Boa sorte! Fernanda, França – fev2005
002- Uma pergunta: poderia v. me explicar como vs (compositores, escritores…) falam de mim como se fosse eu mesma? V. naum estava pensando em mim qdo escreveu este ‘punhal’ ? Estava? Teté Bastos, California-EUA – fev2005
003- Ricardinho Te amo, com todo respeito e admiração! Fiquei encantada com esta crônica, você é fera em matéria de mulher, sabe unir a razão e a sensibilidade como ninguém, sorte de sua digníssima, parabéns!!!! beijões. Roberta Passos, Fortaleza-CE – mar2005
004- Valeu Kelma! André Rola, Rio de Janeiro-RJ – mai2005
005- Rika, Torno a dizer: amei o seu texto, lindo!!! Você é um homem com a alma feminina. Por isso, nos encanta e nos faz tanto bem. Por favor, não deixe nunca de escrever pra gente,tá? Obrigada e mais uma vez, parabéns! Beijos… Anabela Alcântara Pinto, Fortaleza-CE – mai2005
006- Ricardo, Conheci seu site é muito legal, adorei o texto o Punhal que por coinscidência ou não parece um pouco com minha vida, vivo bastante algumas passagens dele e a vida é assim mesmo, lá fora as pessoas vivem e nós é que teremos que lidar com os nossos punhais do dia-a-dia. Abraços. Vânia Cavalcante, Fortaleza-CE – mai2005
007- Oi Ricardo, amei O Punhal. Fala de você. Beijos e saudades. Valeska, Fortaleza-CE – mai2005
008- ah, sacanagem…agora li outra crônica…Punhal..ah q linda… parabéns! Muito bem, me explique como conseguiu tirar uma idéia tão feminina e atual??? putz, agora vou virar baba ovo…rs beijos de novo. Débora Pissarra, São Paulo-SP – jun2005
009- Óptimo texto, Ricardo. Bom lembrar, no entanto, que é importante que o punhal esteja enterrado dentro, bem fundo, a carne cicatrizando em volta, o gume calcificando. Mas a ponta saida, impedindo de nos acomodarmos, espetando na pele e fazendo sangrar ao primeiro sinal de resignação. Beijos de além-mar. Susana X. Mota, Leiria-Portugal – jun2005
010- estou mandando o link para duas amigas brasileiras que moram aqui em Pittsburgh e vieram casadas com maridos americanos que já ficaram no passado – vão se assustar e achar que vc as conhece secretamente e escreveu diretamente para elas :-). E sob uma ótica perfeitamente feminina, o que é um feito e tanto para um escritor do sexo masculino! AB, Pittsburgh-EUA – ago2005