O Irresistível Charme da Insanidade 3.3

Novembro 21, 2009

O amor insano. O amor desafiador do tempo. O amor que descortina as mais absurdas possibilidades do ser.

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CAPÍTULO 3
3a parte
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E houve também a cena da cobra. Foi ainda à tarde, quando caminhavam pela estradinha de areia. De repente uma cobra cruzou o caminho, uma cobra verde, quase um metro. Quando ela surgiu, serpenteando, eles suspenderam o passo e observaram, ela admirando, ele retraído de medo. A cobra atravessou a estradinha, indiferente, e sumiu no mato.

- Luca… Você viu?

- Que diabo é ílichi? – perguntou ele.

- Como?

- Ílichi. Quem é?

- Ílichi?

- Sim. Não foi o que você falou?

- Eu? Eu não falei nada. Ílichi?! O que é isso?

- Justamente o que eu tô perguntando. Você não falou mesmo, Isadora? Juro que escutei.

- Vai ver foi a cobra.

- Tenho pavor de cobra.

Ele terminou de tomar o caldo e ficou olhando para ela, se deliciando com o que via: o rosto moreno, o cabelo negro molhado e caindo nos ombros, a boca bem torneada, os seios se insinuando por baixo da camiseta… e maluca, deliciosamente maluca.

De repente ela ergueu o rosto e seu olhar cruzou com o dele. Ele sentiu-se flagrado em seu desejo.

- Pensando em quê, Luca de Luz Neon?

- Ahn… nada.

- Por que não diz?

- Ah, eu pensei… tava pensando que…

- Você acha que eu sou louca, né?

- Eu?

- Hum, hum. Acha que eu sou meio pirada, né? Diga a verdade.

- Ahn, não. Quer dizer, é só um pouco diferente, assim, assim meio…

- Meio louca.

- Mais ou menos…

- Luca, seu bobinho, eu sou louca mesmo. Muito louca. Nunca tenha nenhuma dúvida quanto a isso. E eu sei o que você tava pensando. Quer que eu diga?

Que mulher louca!, ele pensou, enquanto ria e fazia que sim com a cabeça. Ela tomou a última colher do caldo, limpou a boca e falou, naturalmente:

- Nos meus peitos.

Ele não acreditou no que escutou.

- E, se quer saber, eu tava a-do-ran-do…

Primeiro foi o olhar de idiota dele. Depois foram as mãos, apertando-se sobre a mesa. Depois as bocas, o beijo ávido. Depois a conta paga com urgência, pode ficar com o troco, o último gole apressado de cerveja, o caminho de volta para a barraca, correndo, debaixo de chuva…

Chegaram ofegantes e enlameados, às gargalhadas. Entraram e sentaram um de frente para o outro. Ela suspendeu a camiseta, lhe exibindo os seios nus.

- Direto das mangueiras de Belém, pra você…

Ele se lançou sobre aqueles seios com todas as mãos e bocas e línguas que possuía, mangas maduras e suculentas para um esfomeado. Ela agarrou sua cabeça e o puxou para si, enquanto arrancavam o que tivessem de roupa e rolavam pelo chão, quase derrubando a barraca. Depois ela pôs-se por cima, prendeu seus braços e o cavalgou, subindo e descendo, subindo e descendo, até sentir-se descontrolada, enlouquecida. Até não sentir-se mais.

Louca… Por que não? Era isso mesmo que ela queria, ser louca, muito louca. Andar nua por aí pela chuva, descabelada, pega a doida! Queria ser louca, inconsequente, morrer de rir no velório. Gritar seu prazer bem alto na igreja. Escandalizar a pudicícia, mulher sem moral. Subindo e descendo,.. Abrir as pernas feito frango sacrificado no altar da devassidão execrável, escancará-las para todo mundo ver de perto a anatomia de sua loucura e depois puxar o mundo inteiro para dentro de si, bem fundo. Subindo e descendo, subindo e descendo… Muitas vezes louca aquela noite, louca para ele, louca para os deuses todos, todos os demônios, louca para a noite, a chuva… Queria apenas isso, ser louca, tantas vezes quantas conseguisse, e mais, tantas vezes mais quantas houvesse, mais e mais, mais, mais…

Luca abriu os olhos e de repente percebeu-se no espaço, flutuando na escuridão total, sozinho. Não via nada, nada havia para ser visto ou tocado. Não existiam paredes nem existia chão. Nem existia qualquer referência. Flutuava, apenas isso. No vazio da escuridão total e do silêncio sem fim. Há pouco estava na barraca e agora não tinha ideia de onde podia estar. Talvez houvesse adormecido e estava sonhando…

Então… sentiu. Em algum ponto do vazio absurdo… sentiu. No meio da escuridão algo se moveu devagar. Não tinha forma nem cor, não estava em lugar nenhum, não dava para ver. Apenas o engolia, de algum ponto o engolia, em sucções contínuas… ritmadas… o engolia… e de repente… a explosão! Num segundo seus pedaços foram lançados para todos os lados numa velocidade impensável, milhões de fragmentos expelidos para o Cosmos sem fim, mensagens de socorro para o espaço sideral. Alguém receberia? Ou já era tarde demais? Então, enfraquecido de tanto esforço, sentiu que deixava de existir, lentamente, devagar, diminuindo, apagando, morrendo… Para sempre.

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(continua)

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TRILHA SONORA

Este romance possui uma trilha sonora própria, com músicas compostas por RK e parceiros. Adquirindo o livro (impresso ou eletrônico), você recebe as músicas em mp3 por e-mail.

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Trem dos sonhos

Julho 19, 2009

TremDosSonhos-01d

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TREM DOS SONHOS
Ricardo Kelmer
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Ela levantou cedo e se mandou
Foi atrás de um sonho maior
Deixou um beijo de saudade
E essa cidade ao meu redor
Esses prédios que abafam
Todo sonho de crescer
E ela se foi no trem do amanhecer

Porque os sonhos, meu amor
São um trem que não virá
Se a gente ficar esperando acontecer

A cidade se acende
Em luzes de neon lilás
Manchetes sedutoras, paraísos irreais
No fim de tarde o horizonte
Traz notícias de você
E os meus sonhos morrem de fome
Sem a cidade perceber

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Ricardo Kelmer 2000 – blogdokelmer.wordpress.com

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> Esta é a letra de Trem dos Sonhos, um rock-balada que eu e Flávia Cavaca compusemos pra trilha sonora de meu romance O irresistível charme da insanidade. Luca arrasado porque Isadora se mandou, deixando-o sozinho e perdido. Depois mostro a música aqui no blog.


O Irresistível Charme da Insanidade 3.2

Abril 5, 2009

O amor insano. O amor desafiador do tempo. O amor que descortina as mais absurdas possibilidades do ser.

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CAPÍTULO 3
2a parte
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Um dia perfeito.

Ainda caía um resto de chuva quando a noite desceu em Tibau do Sul. No pequeno restaurante da dona Zezé Luca e Isadora tomavam um caldo de peixe, ele saboreando cada pedaço daquele delicioso momento: o caldo de peixe, a chuva, a musiquinha na rádio… Luca sentia a cabeça flutuar leve e os pensamentos vagar sem critérios. Pela primeira vez naquela viagem sentia-se verdadeiramente descontraído. Os problemas que o esperavam em Fortaleza pareciam tão distantes… Pertenciam a uma outra realidade e a realidade em que estava naquele momento era feita de chuva, caldo de peixe e uma alegria mansa no coração. E Isadora.

Ele olhou para ela à sua frente, entretida em seu prato, e admirou-se de como ela combinava com o momento, com a chuva que caía lá fora, a simplicidade do lugar… Isadora parecia estar num outro patamar de apreensão das coisas, um patamar que ele não alcançava inteiramente. Sim, era isso, ela sabia perceber a essência daquelas coisas com naturalidade, sem se esforçar, enquanto ele precisava de muitíssimo esforço para… ser simples.

Ele pensava como ela era meio louca, aquelas idéias sobre a vida, sobre deixar-se levar, não fazer planos, aquela confiança cega no destino… Não, aquilo não era normal. Aquela história de vida passada, achar que ele foi seu amante… Aquilo era viagem e das grandes. Na noite anterior, ao redor da fogueira, sentiu-se entre três loucos de hospício, de um momento para o outro eles o agarrariam e o jogariam às chamas.

Mas ela compensava o risco. Pensando bem, ele concluiu, talvez fosse mais vantajoso deixar que ela acreditasse naquela história de amante…

Que horas? Talvez algo entre sete ou oito, calculou. Ou nove ou dez, algo assim. O tempo já não importava, era como estar fora dele. Com Isadora os momentos se tornavam intensos e os detalhes das coisas mais interessantes. Ela o havia arrancado de seu sono e o levara para conhecer as delícias de uma tarde chuvosa, um velho prazer de infância. Correram pela estrada, tomaram cachaça e olharam a chuva debaixo de tetos de palha. Riram de velhas piadas, jogaram pedras ao mar do alto da encosta, comeram milho assado, pegaram carona em caminhão. E agora estavam ali, tomando caldo de peixe. Um dia perfeito. Como todos os dias deveriam ser.

- Eu vi mesmo uma mulher de branco, Isadora – ele falava sobre o afogamento do dia anterior. – Nitidamente. Não deu pra ver o rosto mas me passou uma sensação de paz… Nunca tinha me acontecido nada dessas coisas. Aliás, eu nem gosto dessas coisas.

- Ela era familiar?

- Era como se eu já conhecesse. Vai dizer que também já viu…

- Não, nunca vi.

- Deixa ela pra lá. Me fala mais de você. Fala do taoísmo. Fiquei curioso.

- Quer mesmo ouvir? É meio louco.

- Não diga… – Ele riu. – É uma religião?

- Tem um lado religioso e outro mais filosófico. Prefiro o filosófico. Tem umas contradições desconcertantes. Entorta o raciocínio, sabe? O jeitão ocidental de analisar a realidade, com toda sua lógica científica, engancha nos paradoxos do taoísmo.

- Tá. Mas como é mesmo?

- O taoísmo é um modo intuitivo de entender a realidade. Ensina a captar os movimentos da vida pra agir em harmonia com eles. Tem uns cinco mil anos.

- Como é um taoísta?

- É alguém que tá conectado com as verdades simples e naturais da vida. Hoje em dia a maioria das pessoas se desligou dessas verdades e complicou o que sempre foi simples. Mesmo vivendo no ritmo louco da cidade grande, é possível se manter unido com a alma do planeta, a mente da Natureza. É essa conexão que guia o taoísta por entre todo o caos.

- Conectar-se com a mente da Natureza? Você andou fumando?

- Papo de maluco, né? Mas é a coisa mais natural que pode haver. A Natureza é a vida e a vida, no fundo, é muito simples. Por exemplo, sabe quando a gente se apega demais a uma coisa? Isso é antinatural. Porque aquela coisa tá se transformando o tempo todo e a gente continua apegado a algo que não existe mais. Pessoas, lugares, idéias, tudo muda. Se não mudar, apodrece. Esse dinamismo é o Tao. Se você se harmoniza com ele, fica mais simples viver. A primavera sempre vem, não é? Por quê?

- Pros costureiros lançarem suas coleções.

- Bobo. Ela vem porque as folhas nunca são as mesmas.

- Ahn… Como assim?

- As coisas mudam pra sobreviver. A vida morre pra poder continuar viva. Esse dinamismo, esses ciclos, isso é o Tao.

- O Tao seria Deus?

- O Tao não é uma entidade personalizada como os deuses das religiões. Ele não tem vontade nem tem moral. O Tao já é a própria ação. É o que acontece.

- Não sei se entendi. Aliás nem sei o que é que tem pra entender nisso aí.

- Não dá pra explicar o Tao. Só dá pra sentir o Tao, intuir na vivência do dia-a-dia. É a unidade de tudo que existe, aquilo que liga todas as coisas. É o fluxo natural da realidade, do Universo. Movimento.

- Ah, por isso que você gosta tanto de viajar… Vai uma cerveja?

- Dinamicamente gelada.

- Estar em harmonia com as coisas… Isso me cheira a uma certa passividade, não?

- Pelo contrário. Captar o fluxo do Tao é um trabalho interno. Depois que consegue, você se ajusta às forças da vida. Você muda o mundo mudando a si mesmo. Isso é alquimia interior. Porque o que realmente transforma o mundo são os movimentos internos. Não tem nada de passividade nem preguiça.

- Se o Tao é o fluxo da vida, então nada escapa dele?

- Nada.

- Então pra estar em harmonia com o Tao, basta você ficar parado que o Tao te leva junto. Óbvio. Se isso não é passividade, o que é então?

- Viu? Começaram os paradoxos… – Ela riu. – Não é fácil relaxar no meio da correnteza, Luca. Poucos conseguem. Tem que se soltar, não pode ser rígido. Tem que confiar na correnteza. Se você consegue isso, foi só porque você se tornou uno com a força da correnteza. Tudo tem seu próprio ritmo, seus ciclos de crescimento e morte. E todos os ritmos estão interligados. Capte o seu, relaxe e se harmonize com ele. É assim que a gente se integra com tudo ao redor.

- E se eu quiser ir contra a correnteza? O Tao vai me impedir?

- Se quiser ir contra, pode ir, mas vai viver cansado. Vai ter sempre aquela sensação de que as coisas podem ser melhores mas nunca são. Vai sempre estar começando, lutando, se cansando…

Podem ser melhores mas nunca são… Luca escutou o eco daquelas incômodas palavras.

- Quem é uno com o Tao não precisa fazer nada. E, no entanto, não deixa nada por fazer.

- Agora eu tenho certeza que você fumou.

- Dá um nó, né? – Isadora riu, se achando meio ridícula no meio daquelas explicações todas. – Faz parte. A mente não se rende fácil.

- Me desculpe mas acho que não é dessa vez que vou me converter.

- Converter? Ninguém pode se converter ao taoísmo! O Tao é a natureza das coisas, inclusive a própria natureza da pessoa. Converter alguém ao taoísmo é como forçar alguém a ser natural. Já pensou? Vamos, seja natural, seja natural! Eu tô mandando!

Luca soltou uma gargalhada. Era mesmo um contra-senso.

- O ideograma chinês que corresponde ao Tao é feito de pé mais cabeça. O caminho, o sentido.

- Pra mim tá mais pra “sem pé nem cabeça”… – Ele ria daquele absurdo todo.

- Quem pergunta sobre o Tao não o imagina. E quem responde não o conhece.

- Isso é que é uma discussão de alto nível! Quem pergunta não sabe e quem responde não faz idéia!

- Não faz sentido explicar, Luca… É ridículo! – Ela tentava falar sério mas já não conseguia. E assim se deixaram ficar, num riso sem fim. Se não houvesse gargalhadas não seria o Tao.

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(continua)

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TRILHA SONORA

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O Irresistível Charme da Insanidade 3.1

Fevereiro 3, 2009

O amor insano. O amor desafiador do tempo. O amor que descortina as mais absurdas possibilidades do ser.

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CAPÍTULO 3
1a parte
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Luca abriu um olho, depois outro e finalmente os dois juntos. Ainda estava escuro e fazia frio. Ajeitou-se sob a coberta, lembrando a noite anterior, Isadora e sua tal vida na Espanha, Catarina, o bruxo português…

Súbito escutou seu nome. A voz de Isadora. Levantou-se e, enrolado na coberta, puxou o zíper da barraca. Chovia fininho.

- Serviço de despertador, senhor. Meio-dia.

- Meio-dia! – ele se assustou. – Dormi demais…

- A gente vai embora amanhã. Que tal um passeio de despedida?

- Com essa chuva aí?

- Claro. Há quanto tempo você não brinca na chuva?

Ele esfregou os olhos, pensando na capacidade que ela tinha de dizer certas coisas como se fossem as mais simples e lógicas do mundo. Isadora sorria à sua frente, tão bela e natural que passear na chuva tornou-se de um segundo para outro a coisa mais lógica da vida.

Quinze minutos depois seguiam pela estradinha de areia em direção à praia. A chuva caía leve, formando poças e emprestando ao ar um frescor relaxante. Em pouco tempo estavam ensopados.

- Se eu chegar gripado na copiadora vai ser uma merda…

- Ai, Luca… Esqueça que pode ficar doente. Não vai ficar. Depois da curva tem uma bodeguinha. Lá você toma cachaça com limão.

- Peraí, eu não comi nada ainda…

Mas ela já saía correndo à sua frente. Luca apressou o passo, desajeitado, a água escorrendo pelo rosto. Isadora já havia sumido. Ele começou a correr e um chinelo atolou na poça de lama.

- Isadora, me espera!

Então de repente ele lembrou que um dia… muito tempo atrás… uma noite… E parou de correr, tomado pela inquietante sensação de já ter vivido aquele momento antes, em algum tempo longínquo, quando? Isadora sumindo na chuva, sumindo, os pingos nos olhos, um trovão ecoando, ele ali parado, ofegante, ela sumindo, ele gritando seu nome… Onde vivera aquela mesma cena, e quando, em que impossível tempo?

Continuou ali, parado sob a chuva, absorvido pela sensação de já ter vivido tudo aquilo. Mas foi por pouco tempo pois logo dominou-o um angustiante pressentimento de que se não corresse, aquela mulher sumiria de sua vida mais uma vez.

Mais uma vez?

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(continua)

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O Irresistível Charme da Insanidade 2-2

Dezembro 31, 2008

O amor insano. O amor desafiador do tempo. O amor que descortina as mais absurdas possibilidades do ser.

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CAPÍTULO 2
2a parte
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- O que ela tá fazendo?

Uma lua minguante e milhões de estrelas salpicavam o céu de Tibau do Sul. A pequena fogueira à frente da barraca mantinha afastado o frio da noite. Havia vinho e comida. Deitado sobre a toalha, Guilherme olhava as estrelas. Ao seu lado Marcela folheava um livro e mexia com varetas.

- Consultando o I Ching.

- Já ouvi falar. Serve pra que mesmo?

- É um oráculo – Guilherme respondeu. – Serve pra você obter respostas sobre você mesmo e os acontecimentos. Tirar uma foto da situação em movimento.

- Como assim?

- Como tudo se transforma a todo momento, a foto mostra uma tendência, uma situação mudando pra outra. Por isso é chamado de livro das mutações.

- Muito místico pro meu gosto…

- Mas funciona. De certa forma é só um truque pra se investigar psicologicamente. Você se concentra na questão e mexe as varetas, ou as moedas, anotando os resultados. Dá pra fazer sem nada disso mas ai tem que estar muito conectado com o mundo. Um dia eu ainda consigo.

- E pra quem não acredita? Como eu?

- Sempre funciona. Mas talvez você não veja sentido na resposta.

Luca levantou e serviu vinho para Isadora. Depois despejou em sua caneca e sentou ao lado dela.

- Vai me dizer de onde me conhece ou preciso consultar o I Ching?

- Também não me respondeu se crê ou não em reencarnação.

- Faz diferença se eu disser sim ou não?

- Bem… Acho que não.

- Pois bem, não acredito.

- Por quê?

- Ah, porque só se morre uma vez na vida. E esse negócio de ter que pagar o carma… Você acredita?

- Claro que sim.

- Já lembrou de alguma vida passada?

- Hum, hum.

- Sério? E pode contar?

Ela perguntou se ele queria mesmo saber. Ele disse que sim. Isadora e Marcela trocaram um rápido olhar. Por um segundo ele viu nos olhos de Isadora o reflexo inquieto das labaredas e foi como se elas o prendessem. Ele sentiu-se escorregar lentamente para um outro estado de ser, as chamas nos olhos de Isadora, vermelho e amarelo e laranja e azul…

Luca sacudiu a cabeça, sentindo um princípio de vertigem.

- Dois anos atrás comecei a ter uns sonhos… – ela prosseguiu, sem perceber sua ligeira perturbação. – Era sempre o mesmo lugar, um povoado pequeno… Parecia final da Idade Média. No sonho tinha uma criança brincando mas eu nunca via os olhos dela. Esse sonho se repetiu durante meses. Fiz hipnose com uma terapeuta e aí as imagens vieram mais fortes. Eu pude ver os olhos da menina e… bem, eu me vi naqueles olhos, foi isso. E percebi que aquela criança era eu.

- Que século?

- Dezesseis. Sei disso porque depois fui pesquisar. A gente aprofundou a terapia e mais imagens vieram. Sensações também, muito fortes. Vi vários fatos da vida dessa menina passarem diante de mim, como num filme. Não só vi – eu vivi, não sei se dá pra entender. Não lembrei tudo mas lembrei muita coisa dessa vida. Reencarnação sempre fez sentido pra mim mas lembrar, lembrar mesmo de uma vida é diferente.

- E aí, o que aconteceu?

- Catarina, o nome dela. Espanhola do sul. Era uma adolescente pobre quando se casou com um alemão. Ele a levou pra viver na Alemanha. Ele era um homem rico e ela aprendeu a ser uma dama. Ela tinha tudo pra levar uma vida tranquila e confortável mas um dia conheceu um missionário português e se apaixonou perdidamente… Enrique. Era jesuíta. Lembro bem da expressão, os olhos negros, profundos, o olhar duro. Enrique conhecia pessoas importantes, viajava pra muitos países, sabia outras línguas. E era meio bruxo.

- Como assim?

- Pertencia a uma ordem secreta, essas coisas. Usava os sonhos pra saber o que acontecia na Corte, as tramas políticas da Igreja, entrava no sonho dos outros…

- No sonho dos outros?

- Sim. Ele visitava Catarina nos sonhos, planejavam os encontros. Ela teve um filho de Enrique mas achou mais prudente não revelar a ninguém e deixou o marido achar que era dele. Um dia o marido descobriu que não era e aí ela fugiu com Enrique, teve de deixar o filho pra trás. Mas algo deu errado na fuga e Enrique desapareceu.

- O que houve com ele?

- Não lembrei disso. Porque na verdade Catarina nunca soube. Mas é uma curiosidade que eu tenho. É bem provável que tenha sido preso ou algo assim. Catarina procurou pela península toda, durante anos, de cidade em cidade. Mas todas as pistas eram falsas. Nem nos sonhos ele aparecia mais. Até que um dia…

- O bruxo apareceu.

- Não.

- O marido apareceu.

- O filho. Anos depois, já crescido. Encontrou a mãe num convento, doente, meio fraca do juízo. Aqueles anos todos na estrada, procurando…

- Ela ficou doida?

Isadora fez uma pausa. Segurou a caneca de vinho quente com as duas mãos e por alguns segundos olhou para o céu.

- Ela voltou com o filho pra Munique. O marido já tinha morrido e o filho cuidou dela. Ele sabia quem era seu pai verdadeiro e por um tempo também tentou localizar Enrique. Mas nada conseguiu. Ela morreu assim, esperando notícias.

Durante algum tempo ninguém falou nada. Foi Luca quem quebrou o silêncio:

- Você lembrou de tudo isso?

- É mais que lembrar. Eu vivi de novo.

- Você acredita mesmo que foi essa Catarina?

- Hum, hum.

Isadora olhou para a fogueira. Apanhou algumas pedrinhas e atirou contra as chamas. Depois, sem desviar o olhar do fogo, perguntou:

- E você? Essa história não lhe diz nada?

- É interessante. Dava um bom filme.

- E o bruxo português?

- O que é que tem ele?

Isadora olhou para Marcela com o canto do olho.

- Ainda não entendi a pergunta, Isadora.

Ela continuou jogando pedrinhas na fogueira.

- Peraí. Não vá me dizer… Você acha que eu fui… esse Enrique?

Isadora olhou para ele, séria.

- Mas por quê?

- Percebi quando você apareceu no meu sonho.

- Eu disse isso no sonho?

- Não. Mas quando acordei, entendi tudo. Você tá diferente, claro… Mas eu sei que você é ele. Eu sei.

Luca riu constrangido. Olhou para a fogueira à sua frente, as fagulhas subindo e sumindo no ar. Levantou e foi buscar mais vinho.

- Aposto que você tá achando que isso é uma cantada, né, Luca?

- Se for, já ganhou o troféu criatividade. Mais vinho?

- Homem, tenha mais respeito por alguém que esperou quatrocentos anos por esse momento! – brincou Guilherme.

- Não liga, Luca – interrompeu Isadora. – Ele adora tirar sarro dessa história.

- Você não acredita, Guilherme?

- Não. Mas é divertido. Tenho uma prima que jura que já foi Cleópatra. Lembra até das posições prediletas do Marco Antonio…

Todos riram. Luca serviu-se de bolachas e voltou ao seu lugar.

- Mas respeito muito Isadora – prosseguiu Guilherme. – Ela é uma taoísta exemplar.

- Taoísta? Que diabo é isso?

- Taoísmo é a filosofia que tem por trás do I Ching. – respondeu Isadora, servindo mais vinho.

- Ah, tá. E você, Marcela, o que acha desse negócio de vidas passadas?

- O que eu acho é que você não devia zombar do que Isadora lhe contou.

- Isso tá parecendo a Inquisição… Eu não tô zombando. O problema é que Isadora pensa que eu fui alguém e eu não fui esse alguém. O que posso fazer?

- Isadora, você aceita Luca como seu legítimo ex-amante? – brincou Guilherme, fazendo novamente todos rirem.

- Um brinde a quem você é hoje, ok, Luca? – Isadora propôs.

- Ah, melhorou. E a este encontro.

- Encontro, não. Reencontro! – completou Marcela.
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(continua)

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O Irresistível Charme da Insanidade 2-1

Dezembro 1, 2008

O amor insano. O amor desafiador do tempo. O amor que descortina as mais absurdas possibilidades do ser.

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CAPÍTULO 2
1a parte
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Luca levantou ao amanhecer. Preparou o café e pegou a trilha, dessa vez para o outro lado, rumo à praia. Veio-lhe a imagem de Isadora. Paraense maluca…, ele pensou, ela e suas idéias de levar a vida sem planos. Mas era divertida. Por ela valia a pena ficar ali em Tibau do Sul. E era boa de copo, acompanhou-o na cerveja a tarde inteira. Ele ainda sugeriu continuarem em sua barraca mas ela recusou, no outro dia iriam a Natal, mas poderiam se reencontrar à noite.

Ainda era cedo quando ele chegou à encosta e sentou-se para admirar o encontro do rio com o mar. Andava mesmo precisando disso. A vida nos últimos anos se resumira a um contínuo e angustiante esforço de se estabilizar e economizar dinheiro. Quando tinha vinte anos imaginava que antes dos trinta estaria numa situação tranquila, sem afobações financeiras. Mas o futuro não lhe reservara nada disso. Entrava ano e saía ano e tudo continuava difícil, empacado.

O emprego de gerente de copiadora lhe garantia o aluguel da quitinete, onde morava sozinho. Quatro ou cinco shows por mês ajudavam a manter a duras penas o velho fusca, as contas e pronto, era só. As despesas eram medidas e contadas e recontadas nos mínimos detalhes, um sufoco permanente, o plano de comprar um computador e finalmente entrar para o mundo da internet sempre adiado para o mês seguinte. A mãe, dona Glória, viúva aposentada, já desistira de aconselhá-lo a tentar concurso público.

A vida bem podia ser mais interessante – ele sempre considerava. Devia haver mais tempo para realizar velhos projetos, ler mais, tocar, viajar, conhecer outros lugares… Em vez disso, resumia-se a uma luta sem fim, sol a sol, correndo atrás de sonhos que insistiam em sumir de vista na curva adiante. Olhando para trás, a sensação era de que, apesar de todos os esforços dos últimos dez anos, continuava andando em círculos, avançando mas sem realmente avançar, caminhando sem sair do lugar, girando sobre o mesmo ponto, sempre. Valia a pena?

Sísifo. Vivia o mito de Sísifo em sua própria vida. Empurrar penosamente uma enorme pedra montanha acima só para, no fim, vê-la escapar e descer até embaixo e ter de começar tudo de novo para depois acontecer a mesma coisa e começar novamente, eternamente, estar sempre começando… Valia a pena?

Mas havia a banda. Ela sim era um oásis de alegria no meio de todo aquele cinza. A Bluz Neon lhe proporcionava bons momentos e os shows eram sempre divertidos. Festa é o que nos resta – o lema da banda. A noite, com seus bares, uísques e mulheres, a noite e sua trilha rock´n´roll… Ela lhe permitia esquecer o que sempre o aguardava no outro dia.

Uma gaivota rasante de repente o trouxe de volta à praia. Que diabos! Até ali aquelas preocupações o perseguiam? Gaivotas… Então lembrou do sonho. Sonhou que flutuava no céu. Voava feito uma gaivota, o corpo tão leve… Sentia o vento passar entre seus cabelos, entre seus dedos e mexia o corpo em movimentos imperceptíveis, o suficiente para se ajustar ao vento e manter a rota. Lá embaixo havia um negro abismo mas ele sabia que estava seguro, que tudo que precisava era se ajustar ao vento…

Ficou ali se deliciando com as sensações do sonho até ser despertado pelos garotos que, mais para a esquerda, pegavam onda. Ficou olhando, encantado com a habilidade deles, os corpos feito pranchas, deslizando firmes na água. Desceu a encosta, disposto a se divertir. Quando chegou percebeu que as ondas eram maiores que imaginava. Mas não resistiu e entrou.

Já na água, um dos garotos o preveniu sobre o perigo, as ondas eram fortes, havia uma depressão naquele lugar, tomasse cuidado. Ele agradeceu. Na primeira onda que se ergueu à sua frente, faltou coragem e mergulhou para escapar, quase sendo arrastado pelo repuxo. Desistiu também na segunda. Na terceira também. Começou a se achar ridículo.

Quando a onda seguinte veio, ele não desistiu e deixou-se erguer. A onda, porém, de repente o largou e ele viu-se solto no ar, caindo, e a onda toda por cima dele. Perdeu o controle do próprio corpo e passou a girar para todo lado dentro dágua. Em certo momento bateu a cabeça na areia e com isso foi-se o ar que ainda lhe restava. Ainda girando e totalmente zonzo, tentou se localizar mas sequer sabia para que lado estava o céu.

O desespero alcançou o ápice quando começou a respirar água e a tossir e engolir mais água. A força da onda brincava com seu corpo e ele nada podia fazer. Zonzo e esgotado, já não acreditava que pudesse se salvar e por alguns instantes deixou-se arrastar pela correnteza. Nesse instante entendeu que podia tentar o último esforço… ou deixar-se levar de vez, sem dor.

Foi quando, de repente, tudo ficou calmo e silencioso. Já não se debatia. Parecia não estar mais na água. Nesse momento surgiu a mulher de vestido branco. Não podia ver seu rosto mas sabia que ela olhava compreensiva para ele e estendia a mão delicada em sua direção. Soube instantaneamente que a conhecia de muito tempo atrás, tanto tempo que seria inútil tentar lembrar. Sua presença o acalmou e era como se ela o abraçasse carinhosamente, sem tocá-lo. Ele precisava apenas segurar sua mão e todo sofrimento se dissiparia como um sonho do qual se desperta. Apenas segurar sua mão, só isso…

Então sentiu agarrarem seus cabelos e o puxarem à superfície. Por um segundo pensou em pedir para ficar ali mas não teve forças. Uma vez na areia, vomitou e aos poucos recuperou as forças. Ainda estava tonto. Os garotos explicaram que aquelas ondas já mataram muita gente. Ele agradeceu e continuou sentado enquanto eles voltavam para o mar e continuavam desafiando as ondas com naturalidade. Qual seria o segredo para se controlar tamanha força?

Quando chegou ao camping foi que se deu conta de que quase morrera. Por um triz. Sentou-se, assustado, envolvido pelas imagens e sensações. Por um rápido instante teve em suas mãos a decisão do que aconteceria. Poderia tentar o derradeiro esforço para se salvar ou poderia aceitar a morte…

Não teve tempo de decidir pois logo lhe puxaram pelos cabelos. Mas e se realmente tivesse tido chance de optar? Prosseguiria lutando, se debatendo e sofrendo até o último instante ou se deixaria levar, tranquilamente, para longe da dor, junto… à mulher de branco?

A lembrança da mulher o fez estremecer. Então levantou, buscando afastar o incômodo. Não gostava daquelas coisas, a morte, o além, espíritos… O sobrenatural era sempre pavoroso.

Armou a espreguiçadeira e pegou o violão. Um pouco de música para afugentar o mal-estar.

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(continua)

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O Irresistível Charme da Insanidade 1-5

Novembro 14, 2008

O amor insano. O amor desafiador do tempo. O amor que descortina as mais absurdas possibilidades do ser.

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CAPÍTULO 1
5a parte
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- Não leve a mal mas como você consegue ser tão… otimista?

- As coisas sempre dão certo se a gente tá no caminho certo.

- E como eu sei que tô no caminho certo? Pelas placas indicativas?

- O caminho certo tem sempre uma plaquinha com um coração.

Caminho com um coração. Ele riu. O que era aquilo? Uma aula do jardim da infância?

- Mas você há de convir que o normal é ter sempre alguma garantia na vida, um trabalho, planos…

- Concordo com a garantia mas não com os planos.

- Mas você tem de planejar alguma coisa. Essa é a garantia. Se não planejar, as coisas saem do controle.

Ela riu alto, como se ele houvesse contado uma boa piada.

- Se não há tentativa de controle, Luca, como as coisas vão sair do controle?

Lógica perfeita…, ele suspirou, admitindo. Mas absurda.

- Você prefere que as coisas estejam sempre fora de seu controle?

- Sabe o que eu acho? Que o controle sobre as coisas começa no exato momento em que a gente abdica dele.

Ele pensou um pouco mas aquilo parecia tolo demais para ser levado a sério.

- Desculpe, Isadora, mas eu sinceramente acho que você não tá falando sério. Ninguém pode pensar assim. Mais cerveja?

- A vida me dá tudo o que preciso, Luca. Por isso não faço planos. Vivo um dia a cada vez. Se eu fizer o certo hoje, o amanhã já vai começar certo também.

- Qual a sua religião?

- Viver a vida. Conhece?

- A mesma minha. Também vou levando a vida.

- Não. Eu não levo a vida. Eu deixo que ela me leve. É diferente.

- Pra mim é a mesma coisa.

- Levar a vida é cansativo. Prefiro fazer minha parte e relaxar.

- Aí a vida se resolve sozinha?

- Ela se resolve da melhor maneira possível.

Levar a vida sem planejar nada…, ele repetiu em seu pensamento. Aquilo lhe soava inteiramente absurdo, um desatino. Como tantas coisas podiam se ajeitar por si próprias, o trabalho, a banda?… E o aluguel do apartamento, quem pagaria? E as contas? E o carro? E as relações pessoais, os casos amorosos? Como tudo isso se ajeitaria por si só? Definitivamente não era possível. A vida era uma grande boiada e era preciso domá-la o tempo todo, conduzindo-a pelos caminhos certos. Talvez a vida de Isadora fosse mais simples, mais fácil de gerenciar… Mas não, não. Aquilo era uma ilusão, um romantismo. Podia-se levar a vida com bom humor, tudo bem. Mas deixar correr solta, sem planejamento? No entanto ela parecia acreditar firmemente em cada palavra que dizia. Tinha de admitir que, vindo dela, aquela loucura toda até que possuía um certo charme. Mas mesmo os loucos são convincentes.

Luca tomou mais um gole. Talvez fosse melhor fazer o que ela dizia: relaxar.

- E essa cicatriz aí? Posso pegar?

- Lembrancinha de um passeio de jangada. Fizemos um blues pra ela. Quer ouvir?

Ela riu, disse que sim e ele cantarolou:

Não quero a dor de mais um bis
Depois só resta a cicatriz
Então não me peça, babe…
Não me peça pra te amar…

- Você se feriu no amor e ficou com medo de amar de novo.

- Normal, né?

- Ferida cicatriza, Luca.

- Mas algumas ardem forte até o fim…

Ela quis saber sobre a banda e ele contou dos outros componentes, os shows que faziam, os planos de gravar um CD, tocar em outras cidades. Isadora contou das praias que conheceu naquelas semanas, o quanto se sentia em casa em todos os lugares, o quanto se sentia mais perto de si mesma assim solta pelo mundo.

- Luca, você acredita em vidas passadas?

- Por quê?

- Acredita ou não?

Ele pensou rápido. Não acreditava, claro, impossível acreditar em bobagens daquelas. Mas e se o sucesso da noite dependesse de uma boa resposta?

- Depende.

- Como depende?

- Depende do dia.

- Sei… E como tá o dia hoje?

Ele olhou para o céu, coçou a cicatriz. Tomou um gole.

- Hoje eu acho que acredito em tudo.

- Humm… Isso é ótimo. Então olhe pra trás.

Ele se virou e viu um casal entrando no restaurante.

- Marcela e Guilherme, meus amigos de Belém. Pode acreditar.

Os três se apresentaram.

- Prazer. Luca.

- É Luca ou Lucas? – quis saber Marcela.

- Sem o S. Você também estava no sonho?

- Não. – Marcela riu. – Mas eu sabia que vocês iriam se encontrar.

- Vocês têm de convir que essa história é meio…

- Meio, não, totalmente louca – interrompeu Marcela, rindo com Isadora. – Mas acho tão romântico!

- Ei, Luca. Você disse que hoje é um dia para acreditar em tudo – lembrou Isadora.

- É. Mas preciso beber um pouco mais.

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(continua)

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O Irresistível Charme da Insanidade 1-4

Outubro 7, 2008

O amor insano. O amor desafiador do tempo. O amor que descortina as mais absurdas possibilidades do ser.

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CAPÍTULO 1
4a parte
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- Não vai dizer de onde me conhece? – Luca empurrou o prato para o meio da mesa, satisfeito. – Por favor, outra cerveja.

- Memória fraca…

- Mas que mistério!

- Como é mesmo o nome da banda?

- Bluz Neon.

- Bluz Neon… – ela pronunciou, experimentando as palavras. – Bom de falar. Bluz Neon…

- Esse nome me veio num sonho. Mais cerveja?

- Num sonho? Hummm… – Ela abriu um sorriso e se ajeitou na cadeira. – Começamos a nos entender.

Novamente aquele brilho perturbador dos olhos dela. Luca desviou o olhar, incomodado. Mulher estranha, ele pensou, cheia de reticências, umas insinuações que não entendia bem… Talvez não batesse bem da cabeça. Mas era uma gracinha, isso era.

- Fiquei intrigado… Por que achou que meu nome era Lucas?

- Você mesmo me disse.

- Eu disse? Quando?

- No sonho.

- Sonho?!

- Já vi que também não lembra.

- Peraí, calma. Que sonho?

Ela pareceu decepcionada.

- Seis meses atrás você me surgiu num sonho. Me disse seu nome e pediu que eu viesse encontrá-lo nessa praia. Lembrei tudo quando acordei, menos o nome da praia. Mas sabia que era por aqui. E que havia um rio.

- Você tá brincando…

- Foi um sonho bem nítido. Você disse que eu precisava vir pra salvá-lo, que a tempestade estava chegando…

- Tempestade?!

- Foi o que você disse.

- Juro que não sei de nenhuma tempestade.

- Você estava com uma camiseta listrada, azul e branco. Tem uma camiseta assim?

- Tenho mas…

- Você fica lindo nela.

Ele não soube o que pensar. Com certeza ela estava brincando. Ou então era doida mesmo.

- Estamos viajando pelo litoral faz dois meses. Pernambuco, Paraíba e Rio Grande do Norte. Quando botei o olho em Tibau do Sul, senti que seria aqui que eu encontraria você.

- Por quê?

- Era o rio do meu sonho.

Ele sorriu, tentando disfarçar o incômodo.

- Agora vamos pro Ceará. Quer se juntar a nós?

- Ahn… Tenho que voltar no domingo.

Que maluca! – ele estava impressionado. Como podia fazer tal convite a alguém que acabava de conhecer? E aquela história do sonho… Pediu mais uma cerveja.

- Não deve ser uma viagem barata.

- Eu tinha umas economias.

- E quando volta pra Belém?

- Não sei. Acho que o vento não quer isso agora.

O vento… Ele sorriu. Ela falava como navegadora.

- Você é sempre despreocupada assim?

- E por que eu me preocuparia, Luca?

- E quando a grana acabar?

- Ué? Sempre aparece algo pra fazer.

- E se não aparecer?

- Sinal de que não tô no caminho certo, ora. Aí é só mudar de rumo.

Ele balançou a cabeça. Como podia ser tão despreocupada? Ou era desajuizada mesmo? Aquele brilho estranho no olhar bem podia esconder uma loucura…

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(continua)

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O Irresistível Charme da Insanidade 1-3

Setembro 3, 2008

O amor insano. O amor desafiador do tempo. O amor que descortina as mais absurdas possibilidades do ser.

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CAPÍTULO 1
3a parte

No dia seguinte Luca levantou com a primeira claridade. Fazia um pouco de frio. Ferveu água, tomou café com biscoito, comeu uma tangerina. Botou boné, óculos escuro e saiu pela trilha da encosta, subindo pela margem do rio na direção da rodovia, respirando o cheiro do mato verdinho e curtindo a trilha sonora dos pássaros. E, é claro, queimando umas gordurinhas.

Retornou perto do meio-dia, as pernas já implorando descanso. Desceu a encosta, tomou banho no rio e depois voltou à barraca para trocar de roupa. Era uma manhã ensolarada, bela e radiante. Como todas as manhãs bem que podiam ser, pensou ele enquanto pendurava a toalha num galho.

- Oi!

Ele se virou rápido.

- Desculpa, não quis assustar.

Uma garota. Sozinha.

- Eu sou a Isadora.

- Oi…

- Não diga! Não diga!

- Como?

- Não diga seu nome. Deixa adivinhar. Posso?

- Tá bom. – Ele sorriu por trás do óculos escuro. Ela era uma morena bonita. Sorridente. E queria adivinhar seu nome, que meigo.

- Você se chama… Tchan, tchan, tchan, tchan! Lucas!

Ele ficou surpreso.

- Nossa… Errou por um S.

- Como assim?

- Não é Lucas, é Luca.

- Ah, é Luca? – Ela parecia desapontada. – Tem certeza?

- Claro que eu tenho certeza do meu nome. Mas… você já me conhece?

- Tenho a impressão que sim… – Ela sorriu, insinuante. – Você também não tem?

- Impressão? Ahn… sim. Quer dizer… – Ele coçou a cicatriz, desconcertado. Conheciam-se mesmo? Mas de onde?

- Não lembra? Ah, faz um esforço…

- Captei! Algum show da Bluz Neon.

- O que é isso?

- Minha banda.

- Acho que não é daí.

- Então de onde?

- Você por acaso nunca esteve na Espanha?

- Espanha?! Que eu saiba não.

- Olha que sim…

Ele estava intrigado. Ela o confundia com outro, devia ser isso.

- Estava indo pra algum lugar?

- Vou comer. Tá sozinha?

- Com uns amigos. Foram pra Pipa mas voltam hoje. A gente tá naquela barraca azul.

- Quer almoçar comigo?

- É o que eu ia sugerir. Lucas sem S.

Luca sorriu em pensamento, felicitando-se. Segundo dia e um almoço com uma morena daquele naipe… Ela tinha os cabelos negros, lisos, caindo nos ombros, os olhos também negros, meio puxadinhos, lembrava um pouco uma índia amazônica. E tinham um brilho estranho os olhos dela… Ele desviou o olhar.

- Este rio me lembra Belém.

- Você é paraense? – Ele perguntou e ela fez que sim com a cabeça. – Um pouco longe de casa, não?

- Minha casa é isso aqui! – Ela abriu os braços e girou o corpo num quase passo de dança.

Ele riu do jeito dela. Reparou no short jeans e na camiseta branca. Era um pouco mais baixa, talvez a mesma idade. E continuava agindo como se o conhecesse.

- Por que não tira esse óculos só um pouquinho?

Impossível desobedecer àquele sorriso.

- Castanhos? – ela observava seus olhos, confusa. – Pensei que continuassem negros.

- Como assim, “continuassem”?

Mas ela mudou de assunto.

(continua)

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O Irresistível Charme da Insanidade 1-2

Agosto 14, 2008

O amor insano. O amor desafiador do tempo. O amor que descortina as mais absurdas possibilidades do ser.

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CAPÍTULO 1
2a parte

Olhou o violão encostado na entrada da barraca. A música… Sua grande paixão. No início tocava apenas para os amigos e namoradas seu repertório de rock e mpb. Tímido, demorou a mostrar as próprias músicas que compunha na solidão do apartamento, entre doses generosas e viajantes espirais de fumaça.

Uma noite conheceu Junior Rível, o bluseiro, e ele o convidou a cantar na banda que estava montando, ainda não tinha nome, seria uma banda de blues. Blues?, pensou Luca. Bem, não era exatamente sua praia…

- A gente faz junto as músicas, vai ser moleza.

- Não sei compor blues, Junior.

- Sem bronca. Você faz as letras e eu musico.

É, podia ser divertido…

- Pensa bem, cidadão: shows, uísque, mulheres!

Argumento irresistível.

- Topado – respondeu Luca, apertando a mão do novo amigo. – Festa é o que nos resta.

Nascia assim a amizade entre Luca e Junior Rível e nascia também a Bluz Neon. Blues e rock na noite de Fortaleza. E muita, muita irreverência. Os cachês eram baixos, muitas vezes se apresentavam de graça, mas o prazer de tocar compensava tudo. Quem sabe um dia fariam sucesso, seriam reconhecidos…

A banda era o passaporte perfeito para fugir da realidade cinza e opressiva. O rock era ideal para gritar, protestar, botar tudo para fora. E o blues traduzia em música aquela tal melancolia, aquele sentir-se distante, a solidão da alma…

- Sabe quando você tá há muito tempo longe de casa, a sensação de que já tá na hora de voltar?

- Sei não, cidadão. Mas isso dá um blues… De volta pra casa…

- Estamos todos indo, babe…

- Heim? Estão me introduzindo?

- Não avacalha, Junior Rível.

(continua)

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O Irresistível Charme da Insanidade 1-1

Agosto 6, 2008

O amor insano. O amor desafiador do tempo. O amor que descortina as mais absurdas possibilidades do ser.

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CAPÍTULO 1
1a parte

Luca esticou o braço direito e fez o sinal de carona. O caminhão diminuiu a velocidade e parou no acostamento. Ele pegou a mochila no chão e correu para mais uma carona, o violão debaixo do braço.

- Indo pra onde, jovem? – perguntou o motorista.

- Em frente.

- Assim é que se diz! Sobe aí.

Luca subiu, pôs a mochila e o violão entre as pernas e acomodou-se no banco. Seguia de Fortaleza para Pipa, litoral sul do Rio Grande do Norte. Pegara uns dias de folga da copiadora, ficaria longe das cópias coloridas tamanho A3, panfletos para cortar, folhetos para missa de sétimo dia… Tudo que queria era armar a barraca e descansar a cabeça, escapar por uns dias do círculo vicioso do cotidiano. Sair da gaiola.

Tirou o óculos escuro e esticou o pescoço para fora da janela, sentindo o vento no rosto. Pelo espelho pôde ver a cicatriz na face direita e lembrou do passeio de jangada em Paracuru, a onda forte desequilibrando-o, o rosto batendo no pau da vela… Tudo porque queria impressionar uma antiga paixão. Amar era mesmo um perigo. Ficou a cicatriz enfeiando seu rosto e no início pensou em cirurgia mas agora já não se imaginava sem a velha cicatriz de estimação, até um blues ela ganhara de presente. Achou o rosto gordo e pensou que talvez fosse hora de outro regime, já começava a engordar novamente. Os trinta anos estavam chegando, precisava fazer exercício, andava se cuidando pouco.

Duas horas depois o caminhão parou num posto de combustível e ele desceu. Agora era esperar pelo ônibus que iria para Pipa. Ele não ia se arrepender, foi o que o motorista disse, a praia era bonita e as meninas muito bacanas. Luca sorriu. Meninas bacanas.

Poucos quilômetros antes de Pipa, o ônibus passou pelas ruas de uma cidadezinha e parou quase à beira da encosta para que os passageiros pudessem tirar fotos. Luca desceu do ônibus e teve uma surpresa: à sua frente descortinou-se a paisagem que o deixou abobalhado. Lá embaixo o rio se unia ao mar, num encontro tranquilo. Não era muito largo, dava para atravessar a nado, e havia uma pequena ilha bem na foz, complementando a beleza do quadro. Além da margem, por sobre a copa das árvores, o Sol se punha devagar, salpicando a água de reflexos, e vez em quando um boto saltava.

- Que cidade é esta? – perguntou ao motorista.

- Tibau do Sul. Daqui a gente segue pela costeira até chegar em Pipa. Quinze minutos.

Luca lembrou do que os amigos falavam sobre Pipa, as praias lindas, as pousadas, o agito dos barzinhos, gente do mundo todo… Aquela súbita visão, porém, o fez mudar de idéia. Ficaria um ou dois dias ali.

Mochila às costas, ele caminhou pela trilha que seguia para oeste margeando o rio, afastando-se do mar. À sua direita ficava a encosta e ele podia escutar, pouco abaixo, as águas do rio estalando na margem, batendo de leve nas rochas. Minutos depois alcançou o camping, na verdade um pequeno espaço arborizado onde viajantes armavam suas barracas. Ao lado um boteco que anunciava refeições simples e mais adiante uma barraca azul, nenhuma outra mais. Uma frondosa mangueira seria seu teto. Alguns passos e pronto, estaria à beira da encosta, o rio quinze metros lá embaixo esperando-o para um banho.

Já escurecia quando abriu a espreguiçadeira na beira da encosta. Dali via bem o encontro do rio com o mar, a ilhota na foz, a encosta do outro lado. Ergueu um solitário brinde ao momento e virou a dose de uísque. Depois um sonzinho no violão para saudar o lugar. Cinco dias largado na praia, longe dos problemas do dia-a-dia, sem pensar em dinheiro, trabalho, aluguel do apartamento, contas atrasadas, as multas do fusca…

Por que a vida não era mais fácil de ser vivida?, ele pensou. Por que ela sempre insistia em desarrumar seus planos? Era como se a mão pesada do destino, estúpida e intransigente, sempre se metesse em suas chances de ser feliz. Era preciso então ser mais esperto que a mão do destino, controlar os acontecimentos para que a vida não trouxesse más surpresas. Talvez o segredo da vida fosse esse: tratá-la como a uma boiada, sempre atento para os bichos não saírem do controle. Viver era isso, uma luta sem tréguas contra o imprevisível, contra a mão injusta e traiçoeira dos acidentes de percurso. Era preciso controlar a vida.

(continua)

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O Irresistível Charme da Insanidade 1-0

Julho 20, 2008

O amor insano. O amor desafiador do tempo. O amor que descortina as mais absurdas possibilidades do ser.

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PRÓLOGO

Ele a abraçou forte e assim se deixou ficar, juntinho a ela, sem nada dizer. Olhou para o céu, o coração pesando no peito… Reparou no desenho das nuvens, uma imagem se transformando em outra que se transformava em outra, num movimento contínuo que nunca se repetia exatamente… mas que prosseguia mudando sempre, sempre…

Abraçado a ela, no meio da pressa dos funcionários do cais, ele de repente sentiu. Sentiu como se já houvesse vivido aquele momento antes, aquele abraço, o mar, as gaivotas… Fechou os olhos e tentou lembrar quando vivera aquela mesma situação mas tudo que lhe veio foi a sensação de estar girando, girando… Era como se estivesse num círculo, girando, sempre passando por aquele mesmo lugar no cais, girando, girando…

Abriu os olhos assustado, voltando a si. Sentia-se tonto. Ela ainda estava abraçada a ele, em silêncio. Quanto tempo se passara?

- O que foi? – ela perguntou.

- Só uma tontura…

- Claro. Você nem quis tomar café. Aliás, faz dias que você está estranho.

- Preciso ir agora.

- Tem certeza que não posso mesmo ir?

- Já falamos sobre isso.

- E se você não voltar?

- Claro que voltarei. Dentro de um mês. Não foi o que combinamos?

- Estou com medo… – Ela o abraçou novamente, mais forte.

- Já estão a subir as velas.

Ele a beijou rapidamente e saiu caminhando em direção ao navio, o passo rápido, decidido, sem olhar para trás.

Minutos depois o navio começou a afastar-se do cais. Da amurada ele acenou pela última vez, enquanto a imagem dela, sozinha e triste no cais, sumia na distância. Nesse momento sentiu um medo imenso, como uma imensa onda que chegasse, levando tudo pela frente com sua força descomunal. Ele fechou os olhos e se segurou na amurada, sentindo a força da onda, sentindo que não suportaria mais tempo…

Quando abriu os olhos não havia onda alguma. Mas o medo continuava e seu coração batia acelerado. Preciso de um trago, ele pensou. E se dirigiu à cabine.

Ele sabia que era só o início de uma longa e difícil viagem.

(continua)

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O Irresistível Charme da Insanidade EM CAPÍTULOS

Julho 20, 2008

O amor insano. O amor desafiador do tempo. O amor que descortina as mais absurdas possibilidades do ser.

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A partir de agora, em capítulos, no Blog do Kelmer

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O Irresistível Charme da Insanidade é o segundo livro de Ricardo Kelmer. Publicado pela primeira vez em 1996, foi reescrito e republicado em 2005.

A história de Luca e Isadora são na verdade duas histórias. Uma acontece no século 21, pelas praias do Nordeste, entre shows e agitos da noite, e a outra aconteceu no século 16, num mundo de intrigas políticas e religiosas, ordens secretas e rituais misteriosos.

Aconteceu? Talvez seja mais correto dizer que as duas histórias acontecem pois ambas parecem se cruzar e se influenciar, levando os personagens a questionar suas noções sobre o tempo, a vida e a morte, e a viver no limite da própria sanidade.

Existirá mesmo a reencarnação? Ou essa crença é apenas o nível superficial de um entendimento bem mais profundo e abrangente da realidade? Haverá outros “eus” vivendo vidas simultâneas? Será possível alterar o passado?

O encontro, ou reencontro, de Luca e Isadora trará à tona todas essas questões. Convidamos você a acompanhá-los nessa aventura intrigante e divertida, cheia de erotismo e mistério.

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INTRIGANTES POSSIBILIDADES

Luca é um músico, obcecado pelo controle da vida, que se envolve com Isadora, uma viajante taoísta que afirma ser ele a reencarnação de seu mestre-amante do século 16. Ele inicia uma estranha aventura onde somem os limites entre sanidade e loucura, real e imaginário e, por fim, descobre que para merecer a mulher que ama terá antes de saber quem na verdade ele é.

Nesta insólita história de amor, que acontece simultaneamente na Espanha quinhentista e no Brasil do século 21, os déjà-vu (sensação de já ter vivido certa situação) são portais do tempo através dos quais temos contato com nossas outras vidas.

Blues, sexo e uísques duplos. Sonhos, experiências místicas e ordens secretas. Este romance exercita, numa história divertida e emocionante, intrigantes possibilidades do tempo, da vida e do que seja o “eu”.

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