Dia do escritor e sorteio de livro

julho 25, 2011

Ricardo Kelmer 2011

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Hoje é o dia do Escritor. Obrigado a você, que me lê e dá sentido às minhas palavras e ao meu caminho.

Pra comemorar, sortearei um exemplar do meu livro O Irresistível Charme da Insanidade. E pra concorrer basta postar seu nome/sobrenome e cidade. Farei o sorteio em 17ago. O sorteado receberá o livro pelo correio (válido pro Brasil e exterior).

E quem mais indicar esta promoção a seus amigos, ganhará um exemplar independente de sorteio e receberá o livro pelo correio (válido pro Brasil e exterior). Pra isso, peça a seus amigos que mencionem seu nome como “quem indicou”.

Boa sorte!

RESULTADO DA PROMOÇÃO (18ago)

O sorteio foi realizado e quem ganhou foi… Guilherme Pinho, de Rio de Janeiro-RJ. Parabéns, Guilherme. Por favor, entre em contato comigo pelo rkelmer(arroba)gmail.com através do email com o qual você participou da promoção. O livro será enviado com dedicatória para você.

E quem mais indicou a promoção foi… Baco (Max Honorato), de Nilópolis-RJ. Parabéns, Baco. Por favor, entre em contato comigo pelo rkelmer(arroba)gmail.com através do email com o qual você participou da promoção. O livro será enviado com dedicatória para você.

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O Irresistível Charme da Insanidade

Um músico obcecado pelo controle da vida. Uma viajante taoísta em busca de seu mestre e amante do século 16. O amor que desafia a lógica do tempo e descortina as mais loucas possibilidades do ser.

> mais sobre o livro e comentários de leitores

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– Promoções e sorteios exclusivos
Basta enviar e-mail pra rkelmer(arroba)gmail.com com seu nome e cidade e dizendo como conheceu o Blog do Kelmer. (saiba mais)

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Insanidade – Lançamento em São Paulo

julho 3, 2011

Ricardo Kelmer 2011

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Viva! Meu livro O Irresistível Charme da Insanidade será lançado em São Paulo esta semana. Serão dois eventos:
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06jul, quarta-feira – 19h a 21h30
Fnac – Av. Paulista, 901 (metrô Masp)

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09jul, sábado – 14h a 18h
Esp Cult Alberico Rodrigues
Pça Benedito Calixto, 159 – Pinheiros – 11-3064.3920

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O evento da Fnac acontecerá naquele espaço do café onde rolam shows musicais. E depois provavelmente me baterá a vontade de esticar a noite pra prosseguir a comemoração. Quem sabe a velha Augusta de guerra… Estão todos, desde já, convidados a esticar também. E no evento no espaço do Alberico Rodrigues, ficarei a tarde toda por lá, papeando com os amigos e leitores e curtindo o fuzuê da feirinha da Benedito Calixto. E às 19h30 o músico Heraldo Goez fará um show. Ou seja, a coisa vai render.

Eu, geralmente, não gosto muito de eventos de lançamento. Se por um lado é bom porque sempre revejo amigos e conheço pessoalmente alguns leitores, por outro lado sempre fico com medo de não aparecer ninguém e eu ficar lá, com cara de estátua viva. Deviam logo inventar a profissão de leitor contratado de lançamento.

A promoção de pré-lançamento foi ótima: meia centena de leitores adquiriram no total setenta exemplares. Um amigo carioca, que havia comprado um exemplar nessa pré-venda, gostou tanto do livro que depois comprou mais cinco pra dar de presente. E depois comprou mais cinco, pra presentear mais amigos. Onze livros. Vou acabar propondo que ele seja um distribuidor no Rio de Janeiro!

Num lançamento num bar em Fortaleza, um cara que nem me conhecia comprou um pra ele e outro pro amigo que o acompanhava. Depois ficou bebendo comigo em minha mesa e no fim comprou mais dezessete exemplares. Uau! E ainda comprou mais nove exemplares do Vocês Terráqueas. Superdemais, não? Fiquei tão emocionado que quase não consegui fazer as contas do total da compra. Quem disse que não existem mais mecenas?
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O IRRESISTÍVEL CHARME DA INSANIDADE
Romance, 2011, Editora Arte Paubrasil
> Um músico obcecado pelo controle da vida. Uma viajante taoísta em busca de seu mestre e amante do século 16. O amor que desafia a lógica do tempo e descortina as mais loucas possibilidades do ser.

> MAIS SOBRE O LIVRO

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Ricardo Kelmer – blogdokelmer.wordpress.com

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01- Parabenssssssssssssssssssssssssssssssssss. Eduardo Duda, São Paulo-SP – jul2011

02- Ola querido Ricardo, Parabéns pelo lançamento do livro em São Paulo,se eu estiver por ia com certeza vou prestigiá-lo na Fnac, pode ter certeza… Saudade d’oce. Beijos. Nalva, Santos-SP – jul2011

03- Estarei lá, cumpadre! Mas, com certeza nos veremos antes. Aquele Abraço. Téo Lorent, São Paulo-SP – jul2011

04- Vamos lá, ler Ricardo Kelmer é muito bom. Aliás, ver, ouvir, ler…Ele é um artista completo! Renata Regina, São Paulo-SP – jul2011


Sorteio do Insanidade no FaceBook

junho 14, 2011

Ricardo Kelmer 2011

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Você gostaria de ganhar um exemplar do meu novo livro, O Irresistível Charme da Insanidade? Se você tem conta no Facebook, pode participar do sorteio que acontecerá nesta sexta-feira 17jun. Serão sorteadas duas pessoas, que receberão o livro pelo correio, com dedicatória. A promoção é válida pra quem mora no Brasil ou no exterior.

A página do sorteio é esta:
https://www.facebook.com/event.php?eid=214032888630707

Pra participar, basta confirmar presença no sorteio e compartilhar o link que mostra a capinha do livro: http://blogdokelmer.wordpress.com/livros/o-irresistivel-charme-da-insanidade.

Quem participar e não for sorteado, poderá adquirir o livro por um preço especialíssimo: R$ 20, já incluído o frete. Espero que a promoção ajude a divulgar o livro e me traga novos leitores. E pra você que tá concorrendo, boa sorte!

> SOBRE O LIVRO

Um músico obcecado pelo controle da vida. Uma viajante taoísta em busca de seu mestre e amante do século 16. O amor que desafia a lógica do tempo e descortina as mais loucas possibilidades do ser.

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A insanidade está de volta às livrarias

abril 29, 2011

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Após alguns anos atuando apenas no circuito editorial alternativo, eis que tô de volta às livrarias: a Editora Arte Paubrasil acaba de lançar meu livro O Irresistível Charme da Insanidade. Os eventos de lançamento acontecerão em Fortaleza (10 a 14mai) e em São Paulo (julho). Os leitores que participaram da promoção de pré-venda receberão seus livros pelo correio no início de maio e poderão ver seus nomes na seção Galeria de Leitores Especiais (pag 157), aqui nesta postagem e na seção do livro neste blog.

A história de Luca e Isadora e seu amor que desafia a lógica do tempo foi publicada pela primeira vez em 1996, pela Editora Universalista (PR). Anos depois reescrevi a história e em 2005 publiquei alguns exemplares por conta própria, em formato de bolso (selo Miragem Editorial). Em 2010 finalmente escrevi a versão definitiva e negociei com a Editora Arte Paubrasil. A essência da história é a mesma mas houve alterações nos personagens e em algumas passagens, o final foi mudado e a narrativa ficou mais cinematográfica.

Este livro tem um diferencial: ele tem uma trilha sonora, composta especialmente pra ele por mim e meus parceiros. Se não for o primeiro, certamente é um dos primeiros casos do tipo na literatura brasileira.

A narrativa cinematográfica revela meu desejo de ver esta história transformada em filme. Vamos ver se algum produtor ou diretor se interessa…

> Mais sobre o livro e trilha sonora

> Pra adquirir o livro

> Lançamento em Fortaleza
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FALARAM DO LIVRO POR AÍ

- Conexões atemporais  – Jornal Diário do Nordeste, Fortaleza, 10.05.11
- O herético e o erótico segundo Ricardo Kelmer – Por Jeite Jr., 20.05.11

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LEITORES ESPECIAIS

Obrigado a todos os leitores que adquiriram este obra antecipadamente na promoção de pré-lançamento (até 24fev2011). Eles ganharam desconto, tiveram seus nomes inseridos na obra e serão os primeiros a receber o livro, pelo correio. Mais que leitores, estas pessoas são grandes incentivadoras do meu trabalho.

Mariana Melo (Maceió-AL), Thais Souza (Manaus-AM), Pat Maria (Salvador-BA), Fernando Veras (Camocim-CE), Paula Izabela (Juazeiro do Norte-CE), Alzira Aymoré, Ana Érika Galvão, Ana Karine Oliveira, Arthur Valente, Eugênio Leandro, Fabiano Brilhante, Glaucia Costa, Iana Bezerra, Marta Aurélia, Monica Fuck, Sandra Macedo, Verônica Guedes, Viviane Avelar (Fortaleza-CE), Meg Lia (Paracuru-CE), Suely Andrade (Brasília-DF), Mardônio Veras (São Luís-MA), Aluska Cavalcanti, Emerson Figueiredo (Campina Grande-PB), Christiane de Oliveira, José Maria Teixeira Jr. (João Pessoa-PB), José Carlos Neves (Belo Horizonte-MG), André de Sena, Rógeres Bessoni (Recife-PE), Joelson Maximiniano (Curitiba-PR), Gabriel Falcão, Maria Emília Lino da Silveira, Pedro Camargo, Regina Coeli Carvalho, Waldemar Falcão, Wilza Mazur (Rio de Janeiro-RJ), Larissa Azevedo (Natal-RN), Arlene Amorim, Edgar Powarczuk, Gisela Symanski (Porto Alegre-RS), Jamile Mileipe (São Carlos-SP), Virginia Mancini (Leme-SP), Antonio Venâncio, Bárbara Leite, Bia Rocha, Celia Terpins, Cesar Veneziani, Graziely Camargo, Kátia Regis Albuquerque, Juliana Cupini, Leopoldo F. Noschese, Lucilene Pacheco, Maria do Carmo Antunes, Renata Regina, Roberta Lossio e Tarcius Guedes (São Paulo-SP), Katiê Ribeiro (Plymouth-Inglaterra), Francisco Fontenele Neto (Lourinhã-Portugal), Luciana Bergstrom (Suécia).

Obrigado também: Gilvanilde Oliveira (Fortaleza-CE). Obrigado pelas observações valiosas: Rosa Emília Costa (Fortaleza-CE), Daniela Ramos (Rio de Janeiro-RJ) e Marcelo Gavini (São Paulo-SP). Obrigado por tudo: Wanessa Bento (Fortaleza-CE).

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Adriana Cardoso (Jundiaí-SP, mai2011)
estreando a seção Insanos Olhares

Envie sua foto com o livro pra rkelmer(arroba)gmail.com

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01- Uauuuuu…..Parabens pelo novo livro e que este seja um sucesso como os outros que escrevestes…..Bjs e muita paz no coração! Sandra Abou Dehn, Cuiabá-MT – mai2011

02- Parabénsss papai! Tim tim! Beijo_ ;-). Kátia Régis Albuquerque, São Paulo-SP – mai2011

03- Parabéns pelo livro… Sucesso!!! Enorme abraço. Michelle Fávero, São Paulo-SP – mai2011

04- Parabéns, querido! Vc está em SP? Eu estou passando uns dias. Só compro se for pessoalmente!!!!rsrsrssrs Beijos. Maria Theodora, Rio de Janeiro-RJ – mai2011

05- adorei saber de vc. sucesso, sempre. há braços. Iumê Colombo, Brasília-DF – mai2011

06- Viva!!! Abraço. Jamile Mileipe, São Carlos-SP – mai2011

07- VAGABUNDO-MOR! Meus Parabéns, Kelmer… Amanhã é meu aniversário (dia 4) e notícias boas como esta sua, servem como um grande presente! Muito feliz mesmo com esta notícia, garoto! Aquele Abraço. Téo Lorrent, São Paulo-SP – mai2011

08- Parabéns, Kelmer! Octávio Roggiero, São Paulo-SP – mai2011

09- Parabéns! Como não tenho champagne estou brindando com “licor de merda” para dar bastante sorte. Aguardando chegar meu exemplar. bjs. Regina Coeli, Rio de Janeiro-RJ -mai2011

10- Parabéns, muito sucesso com o livro!!! Glauco Wiltenburg Nunes, Rio de Janeiro-RJ – mai2011

11- Olá Kelmer, Fico feliz pela vitória e espero que esse livro publicado seja só o começo de muitos outros. Como escrevi para você a um tempo atrás, sou fã do seu livro “Matrix e o Despertar do Herói” e como combinado, quando você publicá-lo novamente me avisaria. Seria legal se, quem sabe, a mesma editora o publicasse também… Um grande abraço e espero ansioso por comprar esse livro com dedicatória e tudo… Jackson Cruz, Belém-PA – mai2011

12- SINCEROS E EFUSIVOS PARABÉNS! \o/ Creio que estarei presente no lançamento em São Paulo. QUEBRA TUDO! ;) Abração. Sandro Fortunato, Natal-RN – mai2011

13- Grande Ricardo, PARABÉNS !!!! Orgulhosamente já carimbei a compra. Desejo sucesso total e apareça pelo planalto. Forte abraço. Mauro Galvão, Brasília-DF – mai2011

14- Parabens Kelmer! Mereces nao um mas uma caixa de champangne! Vai rolar ai em julho o salão de turismo e em agosto o Piaui Sampa…creio que vale a oportunidade pra divulgar seu livro… Sucesso! Marcos Fonteles, Parnaíba-PI – mai2011

15- Parabéns,querido! Muito sucesso pra vc! “Xêros” recifenses. Mônica Burkleward, Recife-PE – mai2011

16- Parabéns…vc é demais!!!!! Bj. Regina Lucia Fernandes, Fortaleza-CE – mai2011

17- Parabéns amigo! André Luis Cabral, São Paulo-SP – mai2011

18- grande ricardo, acabei de adquirir seu livro pela paubrasil. aguardo ansiosamente a chegada para devorá-lo. aquele abraço e feliz preço baixo. Aroeira, Belo Horizonte-MG – mai2011

19- Parabéns, Kelmer! Estou aguardando meu exemplar. Pela sinopse enviada, parece apetitoso. Mas… é mesmo! Qd vc vai oferecer champagne em SP? Espero q seja numa 5a feira. Abração, mestre! Maria Emília Lino da Silveira, Paraty-RJ -mai2011

20- Parabéns amigo querido!!! Orgulho!!! Bjks. Ana Karla Dubiela, Fortaleza-CE -mai2011

21- Ricardo querido, Que maravilha! felicidades e muito sucesso ai! Forte abraço daqui. Airam, Belo Horizonte-MG – mai2011

22- Que notícia boa, Ricardo! Parabéns! Caesar Moura, Rio de Janeiro-RJ – mai2011

23- deu vontade de começar a ler agora! pode ir pensando em uma dedicatória… estarei no lançamento pra comprar o meu! boa sorte! Erika Zaituni, Fortaleza-CE – mai2011

24- Tá mais pra mãe do que pra pai. Uuuups, melhor dizendo mãe/pai. Amei a capa, e mais ainda o olhar sensual e misterioso da tigresa – tua Alma. Alma que guia, inspira e borogodoza a Estrada do caminhante musical. Bárbaro, ERRIKÁ, tu é da linhagem dos fininhos mui talentosos. Senti a marca no arriar das malinhas. Nunca te vi, sempre te senti. :-) champanhe aberta, brindemos. Beeeeijo e reverência for ever after. Pat Maria, Salvador-BA – mai2011

25- Parabéns Kelmer, por mais essa vitória!! Grande abraço. Cecília Colares, Niterói-RJ – mai2011

26- Nuossa ! Tô ficando chique demais, com meu nome no seu livro. Vai até alavancar as vendas, rsrsrsrsrs. Volta logo, estamos com saudades! Bjs. Maria do Carmo Antunes, São Paulo-SP – mai2011



O dilema do escritor seboso

outubro 7, 2010

Ricardo Kelmer 2010

Certos escritores amadurecem cedo. Tenho inveja desses. Porque nunca viverão o constrangimento de não se reconhecerem em suas primeiras obras

Dia desses acessei o Estante Virtual e digitei meu nome no sistema de buscas. E encontrei, espalhados pelos sebos constantes no site, noventa livros meus. Foi aí que caiu a ficha: sou um escritor seboso! Fiquei feliz porque pra um escritor, ter seus livros expostos é sempre bom, claro. E estar exposto numa imensa livraria virtual que reúne centenas de sebos e livrarias de todo o país é a certeza de que qualquer pessoa, do Oiapoque ao Chuí, poderá localizar facilmente meus livros e comprá-los sem precisar sair de casa.

Entre os títulos que encontrei, o único com exemplares novos é o Vocês Terráqueas, de 2008, que eu mesmo deixei num sebo paulistano. Os demais títulos são livros usados de edições antigas, inclusive o Quem Apagou a Luz?, de 1995, meu livro de estreia, da minha fase esotérica. Sim, eu já fui escritor esotérico, juro que fui. E este livro, que é prova disso, é meu campeão de vendas, com uns sete mil exemplares vendidos pela Universalista, uma minúscula editora do interior do Paraná. Quatro anos depois a editora Record desejou comprar os direitos de publicação mas eu já não gostava mais do livro e ele nunca mais foi reeditado. Mas essa história eu conto melhor outro dia, prometo.

No Estante Virtual encontrei também O Irresistível Charme da Insanidade, meu romance místico-erótico de 1996. Estavam lá também o Guia de Sobrevivência para o Fim dos Tempos, livro de contos fantásticos, de 1997 (e a edição de 2000, pela editora Elevação), e o Baseado Nisso, meu livro independente de 1998, com seus contos de humor sobre o universo folclórico dos usuários de maconha e o glossário de termos e expressões.

Foi interessante ver esses livros lá, à disposição de quem quisesse adquiri-los. Mas foi também constrangedor esse encontro com o meu passado literário. Explico. É que a partir de 2004, estando sem editora, decidi republicar meus livros em edições independentes. E daí? Daí que, ao relê-los, fiquei morrendo de vergonha pois percebi que estavam mal escritos, as histórias não estavam bem contadas como deveriam. Então reescrevi e republiquei.

Isso é comum entre escritores, desejar reescrever seus livros ao relê-los tempos depois. Eu não fujo à regra pois a cada releitura de qualquer texto meu, sempre sou tentado a mudar alguma coisinha. Mas de alguns anos pra cá isso felizmente diminuiu e nos textos mais recentes cada vez menos desejo fazer alterações. Sinal de maturidade estilística? Tomara. O campeão de mudanças é O Irresistível Charme da Insanidade: ele tem uma versão publicada em 1996, outra em 2005 e em 2010 reescrevi novamente. Dessa última vez usei minha experiência de roteirista e me concentrei no que era absolutamente indispensável à história, agilizando as situações e dando à narrativa o ritmo que ela sempre necessitou ter. Quinze anos após parir o rebento, só agora sinto que ele tá realmente pronto pra ganhar o mundo.

Certos escritores amadurecem cedo. Tenho inveja desses. Porque nunca viverão o constrangimento de não se reconhecerem em suas primeiras obras. Nunca olharão pros seus livros nos sebos e secretamente desejarão que fiquem lá encalhados por toda a eternidade. A mim, do time dos que demoram a amadurecer, me resta esperar que alguns leitores comparem as edições antigas e novas e digam: É, até que ele deu uma melhoradinha…

Enquanto isso, aiai, lá no Estante Virtual o meu passado seboso me condena. Quer saber? Amanhã mesmo voltarei lá. E roubarei todos os exemplares de quem um dia eu fui.

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Ricardo Kelmer – blogdokelmer.wordpress.com

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Lançamento: Guia Prático de Sobrevivência para o Final dos Tempos (1997)

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Lançamento: Baseado Nisso. Encarnando Lord Kelmer (1998)

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Bienal do Livro, Fortaleza (2006)

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Vocês Terráqueas, Bienal de São Paulo (2010)

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LIVROS PUBLICADOS
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Quem apagou a luz?
(Ensaio, 1995)
Certas coisas que você deve saber sobre a morte para não dar vexame do lado de lá

O irresistível charme da insanidade
(romance, 1996/2005)
Uma história de amor e vidas passadas, com erotismo e rock´n´roll

Guia de sobrevivência para o fim dos tempos
(contos, 1997/2005)
O fantástico e o sobrenatural invadirão sua realidade. Você está preparado?

Baseado nisso
Liberando o bom humor da maconha
(contos/glossário, 1998/2005)
Contos sobre o folclore dos usuários + glossário de termos e expressões

A arte zen de tanger caranguejos
(crônicas, 2003)

Seleção de crônicas publicadas em jornal, 1992 a 2003

Matrix e o despertar do herói
A jornada mítica de autorrealização em Matrix e em nossas vidas
(ensaio, 2005)

Blues da vida crônica
(crônicas, 2007)
Seleção de crônicas publicadas em jornal, 2003 a 2006

Guia do escritor independente
Como publicar livros e gerenciar a carreira literária
(dicas, 2007)

Vocês terráqueas
Seduções e perdições do Feminino
(contos/crônicas, 2008)
Coletânea de textos sobre a Mulher

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LEIA TAMBÉM

> Meu fantasma prediletoDiziam que era a alma de alguém que fora escritor e que se aproveitava do ambiente literário de meu quarto para reviver antigos prazeres mundanos

> O encontrão marcado – Fechei o livro, fui até a janela e olhei pro mundo lá fora. E disse baixinho, com a leveza que só as grandes revelações permitem: tenho que ser escritor

> Kelmer no Toma Lá Dá Cá - Aqueles aloprados moradores do condomínio Jambalaya descobriram meu livro

> Pesadelos do além - O pior pesadelo prum escritor é ser psicografado. Ou melhor: ser mal psicografado.

> O escritor grávido - Será um lindo bebê, digo, um lindo livrinho, sobre o mais belo de todos os temas

> Livros e odaliscasMeia-noite. Volto do banho. Elas estão todas deitadas em minha cama, lânguidas odaliscas a me aguardar.

> O dilema do escritor seboso – Certos escritores amadurecem cedo. Tenho inveja desses. Porque nunca viverão o constrangimento de não se reconhecerem em suas primeiras obras

> Mais textos na categoria “Profissão escritor”

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Comentarios01 COMENTÁRIOS
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01- Meu, tu é o máximo… abração!!! Heraldo Goez, São Paulo-SP- out2010

02- EI SEBOSO Como você também demorei para ficar amarelinha… se é que fiquei, pois adoro a cor verde e gostaria de ficar assim Estou curiosa para ler seus rebentos mais antigos, não pegue todos……………………. beijão. Mônica Fuck, Fortaleza-CE – out2010

03- Querido amigo “seboso”, Quem apagou a luz? é um bom livro, você devia deixar que reeditassem. um bj . Danielle Fernandes, Fortaleza-CE – out2010

04- Que pena Kelmer! eu adoraria ler seus livros antigos! Rs… Não suma com eles não! Adicionei vc hoje no facebook, vou matar o orkut em breve. Um abraço! * Larissa Azevedo, Natal-RN – out2010

05- Kelmer, Mesmo que vc teime em condenar-se com esta sua irritante auto-crítica, é inútil, porque eu simplesmente gosto de vc em todos os tempos verbais rsrsrs literariamente falando ehehhe….beijokas da sempre fã, Adriana Alves, São Paulo-SP – out2010

06- É, Kelmer, ser escritor seboso é curioso. Eu também encontrei dois antigos livros meus na Estante Virtual. E posso atestar que também fico constrangido ao ler textos antigos e querer mexer em tudo! Ou quase tudo. Normal, claro, afinal mudamos de acordo com nossas fases de vida. Muito bom receber sua crônica.  Parabéns! Abração Felipe Moreno, São Paulo-SP – out2010

07- Olá Ricardo, Quando vens à Fortaleza?Tens demorado a retornar e dar o ar da graça. Comentamos sobre os teus livros,inclusive o primeiro estilo literário. Bj. Marta, Fortaleza-CE – out2010

08- Oi gatinho adorei,bjs. Léa Simonetti, São Paulo-SP – out2010

09- É, meu amigo … Confesso ter outros  amigos escritores e roteiristas . Alguns até conhecidíssimos e famosíssimos . Mas esses são só conhecidos … Amigo assim,  que me manda email e me mantem informada da produção de sua criação , só vc . E mais que isso : “seboso” assim , só vc. Que orgulho ! Boa sorte, cada vez mais … Kenya Costta, Rio de Janeiro-RJ – out2010

10- Amigo Kelmer, muito bom seu texto. Will Duran, no seu magnífico livro, A história da filosofia, diz que a imaturidade o tempo conserta. O Marx tentou várias vezes modificar o seu Manifesto Comunista, pois a cada vez que lia via possibilidades de mudanças. Em 2000 publiquei um ensaio sobre a violência urbana, Violência: causas, conseguencias e soluções,  e jamais imaginei que tudo que escrevi estaria acontecendo, mas devo te confessar que não gosto hoje do texto, pois ainda era neófito como publicista e fico até acabrunhado por tê-lo escrito. Mas o importante é escrevermos nossas histórias e ter a certeza de que um dia valeu a pena ter escrito, mesmo que depois não nos reconheçamos mais dentro do texto, como você genialmente dissertou. Forte abraço. Luís Olímpio, Fortaleza-CE – out2010

11- Ricardo, acho super saudável essa eterna busca para se aperfeiçoar. Isso quer dizer que vc não está numa posição cômoda e, ainda, não está na “perfeição”, ainda bem, porque ser perfeito deve ser muito chato… rsrs.. bjs. Elizabete Claudio, São Paulo-SP – out2010

12- O dilema do escritor seboso é ótimo! Parabéns cara! Eu também de vez em quando mexo nos textos. É neura mesmo. Abraço. Fernando Veras, Camocim-CE – out2010

13- Ricardo Vou esperar pela historia de “Quem apagou as Luzes”….. um dos meus livros preferidos, com lugar cativo em minha biblioteca… e marco da minha paixão pelo seu trabalho. Porque ele tambem me ajudou esotericamente  em uma passagem da minha vida. Um grande beijo. Isabel Belém, Rio de Janeiro-RJ – out2010

14- Ricardo querido! Bom dia! Grande texto, este teu. Minha pergunta é: será que existem, DE FATO, escritores que amadurecem cedo? Porque, se sim, eu sem dúvidas não sou um deles. Vira e mexe, quando leio escritos meus de um, dois anos atrás, já fico de cabelo todo em pé e penso: quem foi a SEMI-ANALFABETA que escreveu isso??? Hahaha. Por um lado é bom, porque significa que amadurecemos, né? Por outro, é terrível e vergonhoso. Mas vamos em frente. Teus escritos, como sempre, uma delicinha! Um grande abraço. Jana Lauxen, Passo Fundo-RS – out2010

15- Cara, tu é muito engraçado… realmente fazemos coisas das quais nos constrangemos, mas como não sou escritora, essas coisas estão nas minhas memórias e na de poucos que as compartilharam comigo. Que alívio!!! Tem que ter coragem pra ser escritor. Parabéns. Raquel Brasil, Fortaleza-CE – out2010

16- Um homem sensível, criativo e além do mais, escreve que é uma beleza. Olha que eu xono. kkk abçs. Regiane Rocha, Fortaleza-CE – jun2011

Will Duran, no seu magnífico livro, A história da filosofia, diz que a imaturidade o tempo conserta. O Marx tentou várias vezes modificar o seu Manifesto Comunista, pois a cada vez que lia via possibilidades de mudanças. Em 2000 publiquei um ensaio sobre a violência urbana, Violência: causas, conseguencias e soluções,  e jamais imaginei que tudo que escrevi estaria acontecendo, mas devo te confessar que não gosto hoje do texto, pois ainda era neófito como publicista e fico até acabrunhado por tê-lo escrito. Mas o importante é escrevermos nossas histórias e ter a certeza de que um dia valeu a pena ter escrito, mesmo que depois não nos reconheçamos mais dentro do texto, como você genialmente dissertou. Forte abraço,

Luís Olímpio

Blues pra esquentar ninfeta (Blues de luz neon)

abril 29, 2010

Ricardo Kelmer 2010

E a ninfeta maluquete acabou inspirando um blues bem quentinho, ideal pra suas noites frias, já que minhas mãos nem sempre estarão por perto

Eu morava em Fortaleza quando fiz a letra de Blues de Luz Neon. Foi numa noite de 2001, eu sozinho em meu quarto, secando uma vodca e pensando numa ninfeta maluquete com quem eu tinha um rolo. Carente, atazanada, rueira e olhar levado – vixe, a outra era um perigo. A gente na boate, ela dizia que tava com frio, coitadinha, e aí pegava minha mão e botava discretamente por baixo de sua blusa, pra esquentá-la, enquanto todos passavam pertinho sem perceber nada. Era cheia desses fetiches, a ninfeta. Ela nunca soube que foi ela a inspiração da letra, qualquer dia eu digo.

No ano seguinte mostrei a letra pra minha amiga Lily Alcalay, uma cantora incrível, que todo sábado rasgava o blues naqueles poéticos entardeceres praianos da barraca Opção Futuro promovidos pela Cristina Cabral. Convidei-a a participar da trilha sonora do meu romance O Irresistível Charme da Insanidade e dei-lhe um exemplar do livro. Ela leu, gostou e topou musicar a letra. Mas infelizmente o câncer em minha amiga seguia acelerado e a irmã morte a chamou algumas semanas depois. Lily até chegou a cantarolar pra mim a melodia que fizera, ela deitada em seu leito no hospital, mas sua voz tava tão fraca que não consegui escutar. Deixei o hospital triste, sem querer crer que Lily em breve nos deixaria, e deduzi que nosso blues, que eu jamais conheceria, partiria com ela pra sempre.

Aí entra em cena meu amigo Joaquim Ernesto, que foi proprietário do Cais Bar, o bar inesquecível. Ele também gostou da letra e pediu pra musicá-la. Pensei: se eu aceitar, estarei traindo Lily? Entendi que não pois, na verdade, aquele blues precisava mesmo sair, e seria uma homenagem a ela, a bluseira venezuelana-cearense arretada. Toma, Ernesto, a letra agora é tua, manda ver – eu disse. E tomamos uma pra comemorar o início da parceria. E outra por Lily.

Joaquim Ernesto musicou e em 2004 chamou Lúcio Ricardo pra gravar. Putz, que sábia escolha. Lúcio é um dos melhores intérpretes que já conheci. Sua voz rouca e seu jeitão rasgado de cantar incorporam maravilhosamente bem a alma do soul e do blues, é uma diliça. Pra mim é uma grande honra ter um blues gravado por esse cara. E acho que Lily foi devidamente homenageada. E a ninfeta maluquete acabou inspirando um blues bem quentinho, ideal pra suas noites frias, já que minhas mãos nem sempre estarão por perto.

O Irresistível Charme da Insanidade é a história de Luca e Isadora, o músico que conhece a mochileira taoísta e vive com ela uma louca aventura amorosa que os faz viajarem no tempo pra entender porque é tão complicado o amor deles. Esse blues que Lúcio Ricardo canta integra a trilha sonora do romance e, se você quiser baixar a música, é só clicar aqui.

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BLUES DE LUZ NEON
(Ricardo Kelmer e Joaquim Ernesto)

Quando esse blues
Tocar no sonho do seu coração
Devagar você vai despertar
Na madrugada
Bem de mansinho, assim
Vai lembrar de mim
Abra a janela do quarto
Lá fora no meio da rua brilha um letreiro
O luminoso do nosso amor é vermelho
Então sinta, viaje
Voe nesse tom
Foi pra você, meu bem, que eu compus
Esse blues de luz neon

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Ricardo Kelmer – blogdokelmer.wirdpress.com

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Clipe: Blues de Luz Neon

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> Baixe o mp3 desta música

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Mais sobre Lúcio Ricardo (matéria)
- Jornal Diário do Nordeste, fev2009

Lúcio Ricardo canta Ray Charles (vídeo)
- TV O Povo, Música de A a Z (2009)

Lúcio Ricardo canta Eu vou rifar meu coração, de Lindomar Castilho, em versão blues – mp3

Lúcio Ricardo – Em cada tela uma história
(do histórico disco Massafeira, de 1980 – mp3)

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Comentarios01

COMENTÁRIOS
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01- Adoro esta música! Lígia Eloy, Lisboa-Portugal – fev2011

02- virei sua leitorinha e sua ouvintezinha rsrsrs. Renata Regina, São Paulo-SP – fev2011

03- A musica é tão gostosa e tão fascinante quanto o livro. Parabéns Kelmer por tanta criatividade! Maria do Carmo Antunes, São Paulo-SP – fev2011

04- Blues de Luz Neon é bárbaro, muy sensual. A tua fêmea de dentro não é moleza não – uma demônia linda, ninfeta, erótica, sexy, sedutora e muuuuy perigosa. Com este tipo de demônia quem é que pode? Até o diabo enlouquece. ;-) Patrícia Lobo, Salvador-BA – fev2011


Trem dos sonhos

julho 19, 2009

TremDosSonhos-01d

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TREM DOS SONHOS
Ricardo Kelmer
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Ela levantou cedo e se mandou
Foi atrás de um sonho maior
Deixou um beijo de saudade
E essa cidade ao meu redor
Esses prédios que abafam
Todo sonho de crescer
E ela se foi no trem do amanhecer

Porque os sonhos, meu amor
São um trem que não virá
Se a gente ficar esperando acontecer

A cidade se acende
Em luzes de neon lilás
Manchetes sedutoras, paraísos irreais
No fim de tarde o horizonte
Traz notícias de você
E os meus sonhos morrem de fome
Sem a cidade perceber

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> Esta é a letra de Trem dos Sonhos, um rock-balada que eu e Flávia Cavaca compusemos pra trilha sonora de meu romance O Irresistível Charme da Insanidade. Luca arrasado porque Isadora se mandou, deixando-o sozinho e perdido. A letra é de 2000 e Flávia musicou em 2005.

Baixe a música

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Ricardo Kelmer – blogdokelmer.wordpress.com

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COMENTÁRIOS
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O Irresistível Charme da Insanidade – cap 3

setembro 3, 2008

O amor insano. O amor desafiador do tempo. O amor que descortina as mais absurdas possibilidades do ser.

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O IRRESISTÍVEL CHARME DA INSANIDADE

CAPÍTULO 3
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A AGENDA DA SEMANA estava animada. Na quinta a Bluz Neon faria um show no Papalégua, barzinho famoso no bairro da boêmia Praia de Iracema. Na sexta seria o aniversário do Balu, o tecladista da banda. E no sábado a Bluz Neon tocaria num festival de rock na praia do Cumbuco, a meia hora da cidade. Para Luca seriam boas oportunidades para se refugiar sob o manto generoso da noite e esquecer que o dia o aguardava do outro lado.

– Tenho a honra de apresentar… – Carlito, o dono do Papalégua, anunciou. – Junior na guitarra, Ranieri no baixo, Balu nos teclados, Ninon na bateria, Luca na voz e no violão.

– E no uísque! – alguém gritou da plateia.

– Com vocês, a nossa atração de toda quinta… Bluz Neon!

Todos no palco, Luca cumpriu o velho ritual: virou uma dose de uísque e depois cumprimentou o público.

– Boa noite. Festa é o que nos resta.

Fizeram, como sempre, um show bastante alegre, tocando as músicas próprias e alguns clássicos do rock e do blues. Luca homenageou a Praia de Iracema, falou de suas meninas bonitas, dos personagens folclóricos do bairro e da magia que se espalhava pelas ruas feito maresia. Desceu do palco e cantou sentado numa mesa de garotas, bebendo no copo delas. No fim anunciou que estava à venda o CD demo, gravado durante um show em Canoa Quebrada. Encerraram, como sempre faziam, com o Umbigo blues, quando chamavam para o palco as meninas que estivessem com o umbigo à mostra e todos dançavam numa divertida mistura de blues com baião. Festa é o que nos resta.

Depois do show, voltando do camarim, Luca estacionou no balcão e pediu um uísque duplo. Tomou um gole e cantarolou o rock que andava compondo.

No balcão há um lugar
Pra quem não sabe aonde ir

 

Nesse momento lembrou de Isadora… Isadora e seus beijos, seus peitos, sua loucura. Aqueles papos de Tao, sonhos, abismos, vidas passadas… Três dias com ela e agora três semanas sem ideia de onde pudesse estar. Será que ainda a veria outra vez?

– Oi, Luca.

Ele tomou um susto e virou-se, buscando a dona da voz. E deu de cara com uma garota. Tinha o cabelo vermelho e estava sentada ao lado no balcão. Ela sorria e dizia ser fã da banda, tinha o CD gravado em Canoa Quebrada, será que podia autografar?

Claro que sim, respondeu Luca, despedindo-se da lembrança de Isadora e pedindo uma caneta ao barman. A menina era simpática, ele reparou, e tinha um jeitinho delicioso de safada. Mas, caramba, devia ter uns dezesseis anos, como deixavam aquelas ninfetas entrar ali?

Festa é o que nos resta
E eu tô com pressa, beibe

 

Ele tomou um longo gole, sentindo o líquido descer pela garganta, ah, a bendita ardência, a fronteira proibida da noite… Aquela era a entrada no nível seguinte da realidade, onde tudo podia acontecer.

– Gosta de uísque? – ele perguntou.

– Adoooro.

Luca deu um gole em seu uísque, puxou rapidamente a garota pela cintura e a beijou na boca, passando-lhe devagar o uísque de sua boca para a dela.

– Putaquipariu… – ela murmurou depois, ainda surpresa. – Foi o beijo mais embriagante da minha vida!

Uma hora depois, enquanto Ângela Ro-Ro cantava Mares da Espanha na sala do apartamento de Luca, a garota acendeu um baseado enquanto ele pela segunda vez abaixava o volume do som.

– Ah, cara, desencana! Festa é o que nos resta! – ela protestou, passando o cigarro para ele.

– Também acho. Mas tem um vizinho que não concorda comigo.

– Então canta um blues pra mim, vai…

– Pô, gatinha, já canto blues demais na banda.

– Então vou botar o CD pra gente ouvir!

Ele pensou em acender um incenso mas não encontrou a caixinha. Como conseguira perder se estava com ela um minuto antes? Abriu outra cerveja e se divertiu ouvindo a garota cantar as músicas da Bluz Neon, sabia todas de cor, até os comentários nos intervalos, incrível. A banda não tá precisando de uma vocalista ruiva?, ela perguntou. Ruiva, loira, morena…, ele respondeu, rindo. Onde diabos estava o incenso? Ela pôs para tocar novamente a primeira música e ele foi sentar no sofá. Mas errou o cálculo e caiu no chão, derramando a cerveja.

– Caramba… acho que a faxineira mudou o sofá de lugar.

Ele riu da própria piada e saiu cambaleando para pegar um pano de chão. Na volta escorregou na cerveja derramada e quase caiu de novo.

– Caramba, o que é isso, um complô?

Após enxugar o chão, sentou no sofá e fez sinal para a garota sentar ao seu lado. Quero ver de perto seu famoso umbigo blues, ela disse. Ele riu e suspendeu a camisa, mostrando o umbigo. Ela sorriu, passou a língua provocantemente entre os lábios e foi se ajoelhar entre suas pernas.

– Ei, psiu… Quantos anos você…

– Eu já disse, Luca.

Ela beijou seu umbigo e lhe fez cócegas com o piercing da língua. Depois puxou o zíper da calça.

– Disse mesmo? Então eu esqueci.

– Dezoito.

– Ah… claro… – Ele esticou o braço em busca da latinha de cerveja mas não encontrou. Definitivamente os objetos estavam de sacanagem com ele. – Que tal dezesseis?

– Tá bom, Juizado. Dezessete e meio.

A latinha estava no chão. Como fora parar lá? Aquele piercing na língua dela, era estranho… Mas era bom.

– Acho que não acredito.

Ajoelhada entre suas pernas, ela interrompeu os carinhos e ergueu o rosto, meio sorrindo, meio impaciente. Pôs o cabelo para trás da orelha e o encarou:

– Última oferta, Luca. Dezessete. Vai querer ou não?

– Fechado.

Ele tomou outro gole, largado no sofá. E sentiu-se relaxar… A sala era uma penumbra agradável e a garota estava novamente absorta em seus carinhos, entre suas pernas, o cabelo feito uma cortina vermelha à frente do rosto. É, pensando bem não seria má ideia ter umas vocalistas na banda. Botariam anúncio no jornal, banda muito próxima do estrelato procura vocalistas de fino trato, tratar com Luca à noite… Afastou a cortina vermelha para o lado e surgiu o olhinho azulado dela, sorrindo para ele. Não, mulher na banda não ia dar certo. Melhor deixar as meninas como estavam. Por trás das cortinas. Por trás das cortinas… das cortinas…

Tchum! De repente deu-se conta. Onde estava? Que horas eram? Estava bêbado demais, que merda. Pela janela entrava um pouco da claridade da rua. À frente, umas luzinhas verdes… piscando… dizendo que ali havia um aparelho de som…

Em casa! Claro, estava em casa. Na sala do seu apartamento, no sofá, claro. Luca suspirou, ufa, que alívio. Só um princípio de brancão, tudo bem, já passou. Muita birita, estômago vazio. E aquelas duas ali, ajoelhadas no chão, entre suas pernas…

Duas?! Ele esfregou os olhos, intrigado. Procurou lembrar… Uma era a ruivinha do bar, tiete da banda. Mas e a outra? Não fazia a menor ideia. A vizinha de baixo, talvez? Tentou fixar o olhar mas não a reconheceu. Talvez amiga da ruivinha. Quem abrira a porta para ela entrar?

Finalmente entendeu: estava tão louco que via tudo em duplicata. E desatou a rir. Sexo com duas mulheres era uma delícia mas não exatamente daquela forma…

A garota suspendeu os carinhos e perguntou se ele estava mesmo a-fim.

– Só um instante, lírou beibi… – Ele ajeitou-se no sofá, rindo da própria chapação. – Teu nome… como é mesmo?

– Ah, não, Luca. Não digo mais.

– Bem… eu não queria te assustar mas… tem outra gata aí do teu lado.

E voltou a rir. Aquilo era a coisa mais engraçada do mundo.

– É minha irmã gêmea – Ela sorriu contrariada. – Você também pode ver?

– Heim?

– Ela morreu quando eu era pequena. Vez em quando aparece.

Luca parou de rir. Irmã gêmea? Morta? Aquilo era sério mesmo? Olhou mais uma vez para as duas mulheres ajoelhadas entre suas pernas e sentiu-se incomodado.

– É só não ligar que ela vai embora.

Ah, não. Transar com espírito já era rock´n´roll demais.

– Desculpa… – ele disse, afastando a cabeça dela de seu colo. Depois levantou-se e subiu a calça. – Hoje tá complicado.

Foi à cozinha e abriu a geladeira. Ainda havia uma cerveja, pelo menos isso. Tem dia que não é dia. Devia mesmo era ter ficado no bar com os caras.

Quando voltou à sala, elas olhavam a cidade, os corpos nus encostados à janela, displicentes, ambas na mesma posição. Por um instante admirou-os, tão belos e convidativos. Ainda pensou em reconsiderar a decisão… mas não. Pedofilia astral não era brincadeira.

– Posso dormir aqui, Luca?

– Ahn… Melhor eu deixar vocês em casa. Vamos.

Meia hora depois ele parou o carro em frente ao prédio delas.

– Não é por mal que minha irmã faz isso, Luca.

– Tudo bem.

– Não sabia que você era sensitivo.

– Eu?

– A gente se vê de novo?

– Se sua irmã deixar…

Ele esperou que elas entrassem no prédio e ligou o fusca. E saiu, vendo as primeiras luzes da sexta-feira surgindo por cima da cidade. E lamentou. Como sempre, a claridade intrometida do dia dissipando a magia da noite.

Às oito tinha que estar na gráfica. Dava para dormir uma horinha. Irmã gêmea do além… Melhor nem contar, ninguém ia acreditar mesmo.

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– LEVANTA, TIGRÃO! Três horas!

Uma voz feminina… vindo de longe…

Luca abriu os olhos devagar, reconhecendo o quarto. Aos poucos sentiu conectar-se àquela súbita realidade. Sábado… Ou seria sexta? Não, sábado mesmo, três da tarde… show à noite na praia do Cumbuco…

– Luz queimada, pia entupida! E esse espelho rachado? A gente fica um monstro se olhando nele! Por que você não pega o cachê de hoje e ajeita esse banheiro, heim?

– Fala mais baixo, Soninha, por favor…

Ele cobriu a cabeça com o travesseiro, protegendo-se daquela tempestade sonora. Que merda, devia ser proibido acordar um ser humano assim, principalmente se o ser humano tivesse ido dormir ao meio-dia…

– Viu minha outra bota por aí, Tigrão?

Levantou-se ainda grogue, uma sede assombrosa a lhe rasgar a garganta. Foi até a cozinha para tomar uma água mas lembrou de Jim Morrison, acordar e pegar logo uma cerveja, porque o futuro é incerto e o fim estará sempre por perto…

Enquanto Soninha calçava suas botas pretas de salto, ele sentou na beira da cama, deu um bom gole na cerveja e pôs-se a admirá-la. Soninha… Bonita, gostosa mas absolutamente destemperada, caso de polícia. Corpo musculoso de professora de ginástica, viciada em academia e anfetamina, dava aula até no domingo. Tinha também outro vício: sexo. Com muito álcool, escândalos e arranhões. De família rica, frequentava as colunas sociais mas achava excitante caçar roqueiros cabeludos no submundo alternativo. Quando ele a via na plateia dos shows da banda, já sabia o roteiro da noite: tomariam todas, ela faria questão de pagar tudo e depois o levaria a um cinco-estrelas da orla onde ele rasgaria sua roupa, deixando-a apenas com as botas pretas, e fariam sexo feito dois bichos alucinados, no chão, na janela, na bancada da cozinha, e de manhã ela seguiria direto para a academia, sem dormir. Ou poderia ser o roteiro B: ela beberia demais e daria defeito, estragando a noite.

Na festa de aniversário do Balu, na noite anterior, ela aparecera usando um vestidinho curto e as famosas botas pretas, que sempre usava quando estava mal-intencionada. Ele mandava um papo mole com uma amiga do Ninon, estava até interessado na menina… mas, hummm, aquele olhar que ele já sabia, aquelas botas, como resistir?

Uma hora depois Balu abriu um uísque e serviu a todos. Depois botou para tocar sua coletânea Blues do Balu Volume 9 e apertou um natural, fazendo a festa engatar a quinta marcha. Às sete da manhã Iana, a namorada do Balu, teve de bater na porta do banheiro para avisar aos dois animadinhos que todo mundo já havia ido embora.

– Ah, qualé?! – Soninha argumentou lá de dentro. – Hoje é sexta!

– Nada disso – Iana discordou, paciente. – Já é sábado.

A porta abriu e surgiu Luca, a camisa desabotoada, o cabelo sem um fio no lugar.

– O amanhã só chega quando a gente acorda – ele filosofou, solene.

Luca serviu mais uma dose, bebeu metade e Soninha bebeu a outra. Então despediram-se e esticaram para o Roque Santeiro, um boteco no bairro do Mucuripe que tinha o caldo de carne e a cerveja ideais para finalizar as noites sem fim, ao som de Genival Santos, Diana e Odair José. Até que Soninha ia bem quando cismou que uma garota paquerava Luca e partiu para cima dela, derrubando-a no chão junto com as garrafas de cerveja. Aí não houve mais clima e tiveram que ir embora. Típico roteiro B.

– Aquela de ontem no banheiro da casa do Balu não valeu, viu, Tigrão? Você não conseguia nem ficar em pé.

Luca deu mais um gole na cerveja e continuou admirando-a. As coxas musculosas, a marca do biquíni minúsculo, os seios pequenos… Ela estava em pé, ao lado da cama, nua e deliciosa. Com as botas pretas.

– Vai se atrasar pra aula, professora…

– Dá tempo.

Instantes depois, enquanto era lentamente penetrada por Luca, ela esticou o braço, pegou o celular na bolsa, digitou, errou, digitou de novo e, de olhos fechados e falando pausadamente, explicou à recepcionista da academia que chamasse o professor substituto pois… acontecera um… um… só um momento… ai… um pequeno imprevisto… é, imprevisto… só um momento… hummm… e só poderia dar a aula das… ai… das cinco.

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LUCA PEGOU UMA CANETA e, enquanto os outros afinavam os instrumentos, sentou-se num canto do camarim e pôs-se a rabiscar num papel de guardanapo.

– Saiu do forno agora, Junior – ele disse. E cantarolou para o amigo escutar.

No balcão há um lugar
Pra quem não sabe aonde ir
Festa é o que nos resta
E eu tô com pressa, babe
Uma dose agora
Preciso beber pra me dirigir

– Gostei. Mas não te empolga que o repertório de hoje já tá fechado, viu, cidadão?

– Prometo.

Minutos depois Ninon bateu no bumbo da bateria e Luca entrou no palco. Dali de cima ele podia ver a plateia espalhada pela areia da praia, o mar do lado direito, a lua imponente no céu… Ele virou a dose de uísque e pegou o microfone:

– Boa noite.

– Boa noite! – responderam algumas garotas próximas ao palco.

– Festa…

– É o que nos resta! – elas completaram, animadas.

O show transcorreu normal. Mas no fim, após o tradicional Umbigo blues, Luca tirou um guardanapo do bolso e anunciou, a voz rouca pelos excessos dos últimos dias:

– Essa se chama Uma dose agora. Ainda não está ensaiada. Os caras vão me esganar lá no camarim mas, porra, a gente está na praia, essa lua…

Ele pegou o violão, sentou no banquinho, dedilhou um pouco e parou. Deu a indicação para Ninon, na bateria, começar. Os outros balançaram a cabeça, resignados, e acompanharam. A música saiu péssima, claro. Mas havia um grupo de garotas animadas e barulhentas bem em frente ao palco e elas aplaudiram e gritaram tanto que felizmente ninguém atentou muito para a música.

Terminada a apresentação, Ranieri apareceu no camarim com uma das animadas, que disse ter adorado o show e que tinha umas amigas que queriam demais conhecer os caras da Bluz Neon.

– Os neons solteiros, né, minha filha?… – consertou Celina, puxando o namorado Ninon pelo braço. – A gente já vai pra pousada. E você também, Balu, porque é hora dos casados irem dormir.

Uma dúzia de cervejas depois estavam os neons solteiros com as novas amigas na areia da praia. A lua do Cumbuco, o vento nos coqueiros, o quebrar das ondas, todos falando ao mesmo tempo. Junior no violão faltando uma corda, Ranieri na latinha de cerveja amassada e Luca na quase voz. Mais músicas, mais cerveja. Alguém tem seda? Ah, Junior, toca aquela, vai. Fumar aqui não é sujeira? A gente vai ser multado por excesso de prazer. Arruma umas cortesias pro Papalégua pra gente, vai. Esta cerva é a minha? O umbigo mais lindo é o do Ranieri. Banho à noite no mar não faz mal. Não faz mal… faz mal…

Tchum! De repente Luca deu por si. Em volta, tudo escuro. Um calor dos diabos. Estava numa sauna. Não, não, numa cama. Mas onde? E sob seu corpo suado havia uma… uma mulher. Entrava e saía de dentro dela com violência e ela dizia coisas que ele não compreendia. Assustou-se. Simplesmente não sabia quem era a mulher.

Sem interromper os movimentos de vai e vem, ele tentou lembrar… mas só conseguiu recordar do show. O que acontecera depois não tinha nenhum registro. Olhou para o rosto sob seu corpo e nada viu, estava escuro demais. Atentou para o que ela dizia mas não entendeu uma só palavra. Seria estrangeira? Ou uma extraterrestre?

Ainda estava muito bêbado. Fez um esforço para tentar lembrar alguma coisa, qualquer coisa… mas nada, não lhe acorria nenhuma imagem. Simplesmente não sabia com quem estava transando naquela cama. Que merda.

O suor escorria pela pele, colando seu corpo ao da mulher anônima. O gozo não vinha e já não tinha forças para continuar por mais tempo. Para completar, alguém pusera para tocar bem próximo uma axé music qualquer, aê, aê, ô, ô. Pensou em levantar e ligar o ventilador. Pensou em gritar para que abaixassem o volume daquela música insuportável. Não. Tudo que precisava mesmo era terminar logo com aquilo, voltar para a pousada e cair em sua cama. Apagar.

Fechou os olhos para se concentrar e esquecer do calor, da música, da mulher sem rosto. Mas logo abriu novamente pois o quarto todo rodou. Não, vomitar agora não…

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(continua)

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Ricardo Kelmer – blogdokelmer.wordpress.com

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CAPÍTULOS
Prólogocap 1cap 2cap 3
cap 4

cap 5 – cap 6 – cap 7 – cap 8
cap 9 – cap 10 – cap 11 – cap 12

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O Irresistível Charme da Insanidade – cap 2

agosto 14, 2008

O amor insano. O amor desafiador do tempo. O amor que descortina as mais absurdas possibilidades do ser.

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O IRRESISTÍVEL CHARME DA INSANIDADE

CAPÍTULO 2
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DO RESTAURANTE, enquanto tomava café, Luca observava o camping ao lado. A barraca azul estava lá, no mesmo lugar, a alguns metros da sua. Mas Isadora não estava. Moça interessante…, ele pensou. Interessante mas infelizmente maluca. Aquelas ideias de levar a vida sem planos… Então ela estava ali porque sonhara com um cara que não conhecia e que devia encontrá-lo numa praia do Nordeste? E o cara era ele? E aquela história de saltar no abismo? Não. Era muita doidice.

Após o café Luca pegou a trilha, rumando para leste, em direção ao mar. Quando chegou à encosta, o sol já ia alto no céu, a bola de fogo sobre o horizonte impondo-se lentamente dia adentro. Enquanto admirava a paisagem, ele não pôde evitar de se comparar a ela: a Natureza não fazia força alguma para ser o que era, ao passo que sua vida era o oposto…

De repente os gritos de uns garotos pegando onda o despertaram de seus devaneios. Ficou olhando para eles, admirado de suas habilidades, os corpos feito pranchas, deslizando firmes na água. Levantou e desceu a encosta, disposto a se divertir um pouco com o mar. Quando chegou, percebeu que as ondas eram maiores que imaginava mas entrou mesmo assim, escolhendo ficar um pouco distante dos garotos para não atrapalhar.

Na primeira onda que se ergueu à sua frente, faltou-lhe coragem e ele mergulhou para escapar, quase sendo arrastado pelo repuxo. Desistiu também na segunda, com medo. Na terceira, a mesma coisa. Começou a se achar ridículo.

Quando a onda seguinte veio, jurou para si mesmo que não desistiria e aguardou sua chegada. Ela veio e, quando chegou, ele deixou-se erguer. A onda ganhou mais força e de repente quebrou. No instante seguinte ele viu-se solto no ar, caindo, e a imensa massa de água caindo por cima dele. Luca perdeu totalmente o controle do próprio corpo e, submerso, passou a girar e girar, feito um boneco desengonçado. Em certo momento bateu a cabeça na areia e ficou tão zonzo que sequer sabia para que lado estava o céu.

De repente, quando já estava esgotado e respirando água, tudo ficou silencioso e sem dor. Parecia não estar mais na água. Parecia estar fora do tempo. Então ela surgiu bem à sua frente… uma mulher de vestido branco… Era bonita e olhava silenciosa e compreensiva para ele. Soube instantaneamente que a conhecia de muito tempo atrás, tanto tempo que seria inútil tentar lembrar. Ela lhe estendeu a mão e ele compreendeu que se a aceitasse, todo sofrimento se dissiparia como um sonho ruim do qual se desperta. Tudo que precisava era segurar sua mão, só isso…

Então sentiu agarrarem seus cabelos. Percebeu que o puxavam à superfície. Por um segundo pensou em protestar, em pedir para ficar ali embaixo, mas não teve forças. Foi levado pelos garotos para a areia, onde vomitou e aos poucos foi melhorando. Eles explicaram que ele não deveria mergulhar sozinho, que aquelas ondas eram muito perigosas. Luca agradeceu e ficou ali, sentado na areia, enquanto os garotos voltaram para o mar e continuaram desafiando com naturalidade as enormes ondas. Como conseguiam controlá-las?

Quando chegou ao camping foi que realmente se deu conta de que quase morrera. Que merda! Estava vivo por um triz. Entrou na barraca e sentou-se, assustado, ainda envolvido pelas sensações. Lembrou da alucinação, a mulher de branco – por que ela lhe era tão familiar? E lembrou também que, por um rápido instante, teve em suas mãos a decisão do que aconteceria, que poderia tentar o derradeiro esforço para se salvar ou poderia aceitar a morte.

Não teve tempo de decidir. Mas… e se realmente tivesse tido chance de optar? Prosseguiria lutando, se debatendo e sofrendo até o último instante ou se deixaria levar, tranquilamente, para longe do sofrimento, junto à mulher de branco?

Levantou, buscando afastar o incômodo que sentia. Não gostava daquelas coisas, a morte, o além… Melhor não contar para ninguém e esquecer o assunto. Então armou a espreguiçadeira e pegou o violão. Um pouco de música para afugentar o além.

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UMA LUA MINGUANTE subia no céu de Tibau do Sul junto com as primeiras estrelas. Em frente à barraca azul uma pequena fogueira crepitava, mantendo afastado o frio da noite. Sobre uma toalha, Isadora arrumava um prato com queijo.

– Faz séculos que não faço um piquenique – disse Luca, chegando com o vinho.

– Aproveita que está em pé e guarda este livro, por favor.

– I Ching, o livro das mutações… – ele disse, pegando o livro das mãos dela e pondo dentro da barraca. – Já ouvi falar.

– É o oráculo do Taoísmo – ela respondeu. – Funciona como um instrumento pra você se investigar psicologicamente, pra captar os seus movimentos internos e harmonizá-los com os externos.

– Muito místico pro meu gosto.

– Você se concentra numa questão, mexe as varetas ou as moedas, anota os resultados e no final lê a mensagem. Mas o objetivo de todo taoísta é um dia não precisar mais de oráculo pra conseguir captar os movimentos.

– E pra quem não acredita, como eu, funciona?

– Sempre funciona. Mas talvez você não capte a essência da mensagem.

Luca abriu o vinho e serviu.

– Vamos brindar a quê? – ele perguntou.

– Aos movimentos que nos trouxeram até essa fogueira.

– Boa.

Tocaram os copos e beberam. E ele reparou como ela estava bonita sob a luz bruxuleante da fogueira.

– E a história que você disse que ia me contar?

Ela olhou séria para ele. Em seus olhos Luca pôde ver o reflexo inquieto do fogo, a dança colorida das labaredas… Nesse momento teve uma sensação estranha, um princípio de vertigem. Sentiu-se puxado para dentro de um outro estado de ser, mais leve, mais distante…

– Dois anos atrás comecei a ter um sonho recorrente – ela começou. – Era sempre o mesmo lugar, na Espanha, um povoado pequeno… Parecia final da Idade Média, século dezesseis, por aí. No sonho tinha uma criança brincando mas eu nunca via os olhos dela. Esse sonho se repetiu durante meses. Fiz hipnose com uma terapeuta e as imagens vieram mais fortes. Aí eu pude ver os olhos da menina. E me vi neles. E percebi que aquela criança era eu.

– Ora veja – comentou Luca, tentando não transparecer sua incredulidade em relação aqueles assuntos.

– Vi vários fatos da vida dessa menina passarem diante de mim, como num filme. Não só vi – eu vivi. Ou melhor, revivi, sentindo as sensações da menina. Não lembrei tudo mas lembrei muita coisa dessa vida.

– Como era a menina?

– Ela se chamava Catarina. Era uma adolescente pobre quando se casou com um alemão e foi morar com ele na Alemanha. Ele era um homem rico e ela aprendeu a ser uma dama. Ela tinha tudo pra levar uma vida tranquila e confortável mas um dia conheceu um missionário português e se apaixonou perdidamente… Enrique, o nome dele. Era jesuíta e conhecia pessoas importantes, viajava pra muitos países, sabia outras línguas. E era meio bruxo.

– Como assim?

– Pertencia a uma ordem secreta, essas coisas. Usava os sonhos pra saber o que rolava na Corte, as tramas políticas da Igreja, entrava no sonho dos outros… Ele visitava Catarina nos sonhos e juntos viviam experiências em outros planos da realidade, uma coisa bem louca. Um dia ela fugiu com Enrique. Mas algo deu errado na fuga e ele desapareceu.

– Morreu?

– Não sei. Porque na verdade Catarina nunca soube. Mas é uma curiosidade que eu tenho. É provável que tenha sido preso ou algo assim. Catarina procurou por ele durante anos, de cidade em cidade. Mas não encontrou. Nem nos sonhos ele apareceu mais.

– Deve ter arrumado outra.

– Não. Ele a amava demais.

– Esse negócio de amar demais nunca termina bem. Mas e depois?

– Ela… Bem, ela enlouqueceu.

– Enlouqueceu? De verdade?

Isadora demorou a responder. Luca percebeu que ela estava emocionada.

– Sim, ficou louca, de verdade. A falta de Enrique a consumiu até o fim da vida. E ela morreu assim, procurando por ele.

Durante algum tempo ninguém falou nada e o silêncio que se formou era como uma sombra entre eles. Luca teve vontade de perguntar que interesse ela tinha em lhe contar aquela história mas sentia que não devia fazê-lo, que era melhor ficar quieto. Em vez disso, perguntou:

– Você lembrou mesmo de tudo isso?

– É mais que lembrar, Luca. Eu vivi de novo.

– E você acredita mesmo que foi essa Catarina?

– Eu não acredito. Eu fui.

Isadora olhou para a fogueira. Apanhou algumas pedrinhas e atirou às chamas.

– E você, Luca? Essa história não lhe diz nada?

– Não acredito em reencarnação.

– E o bruxo português?

– O que é que tem ele?

Ela continuou jogando pedrinhas na fogueira. Luca abriu a boca para repetir a pergunta quando outra ideia lhe veio.

– Peraí. Você não está achando que eu sou esse Enrique, né?

Ela não respondeu.

– Naquele seu sonho, eu disse isso, que fui esse Enrique?

– Não. Mas eu reconheci Enrique em você – Ela virou o rosto, olhando calmamente em seus olhos.

Luca riu, constrangido.

– Foi depois desse sonho que decidi largar tudo. E vim atrás de você.

Ele simplesmente não sabia o que dizer.

– Só que tem algo errado… – ela falou, esforçando-se para sorrir. – Era pra você lembrar também.

Ele respirou fundo, tentando organizar as ideias. Então aquela mulher largara tudo para encontrar alguém de outro tempo, de outra vida, que ela agora procurava nessa vida, viajando pelas praias do Nordeste? E ela achava que ele era o tal alguém? Então estava explicado o comportamento estranho dela, as insinuações… Mas aquilo era uma loucura, uma completa loucura. E era como uma névoa a envolvê-lo…

– Isadora, tenho uma sugestão – ele disse de repente. Precisava se afastar daquele assunto – Vamos ouvir música? Eu trouxe o violão.

Ela fez que sim com a cabeça. Ele levantou, avisou que primeiro iria ao banheiro e saiu, dirigindo-se ao restaurante. Quando retornou, Isadora não estava mais lá. Ele olhou para a barraca azul fechada e suspirou, desanimado.

.

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LUCA ABRIU UM OLHO, depois outro e finalmente os dois juntos. Ainda estava escuro e fazia um pouco de frio. Ajeitou-se sob o lençol, lembrando a noite anterior, as doidices de Isadora, sua tal vida na Espanha, Catarina, o bruxo português… A insanidade tinha olhos cor de mel.

Súbito escutou seu nome. A voz de Isadora. Levantou-se e, enrolado no lençol, abriu a barraca. Agora já era dia e chovia fininho.

– Serviço de despertador pro senhor Luca de Luz Neon. Meio-dia.

Isadora sorria à sua frente. Estava ainda mais bela…

– Meio-dia? Caramba, dormi demais.

– Vem.

– Pra onde?

– Passear.

– Com essa chuva aí?

– Claro. Há quanto tempo você não brinca na chuva?

Ele esfregou os olhos, pensando na capacidade que ela tinha de dizer certas coisas como se fossem as mais simples e lógicas do mundo.

Minutos depois seguiam caminhando lado a lado pela estradinha de areia. A chuva caía leve, formando poças e espalhando pelo ar um frescor relaxante. Em pouco tempo estavam ensopados.

– Se eu chegar gripado na gráfica vai ser uma merda.

– Esqueça só por um momento que pode adoecer.

– E eu não comi nada ainda. Acho melhor…

Mas ela já saía correndo à sua frente. Luca apressou o passo, desajeitado, a água escorrendo pelo rosto. Isadora já havia sumido na curva. Ele começou a correr e um chinelo atolou na poça de lama.

– Isadora, me espera!

Então, de repente, ele lembrou que um dia… muito tempo atrás… uma noite… E parou de correr, tomado pela inquietante sensação de já ter vivido aquele momento antes, em algum tempo longínquo, quando? Um dejá-vu. Isadora sumindo na chuva, sumindo… os pingos nos olhos, um trovão ecoando… ele ali parado, ofegante, ela sumindo, ele gritando seu nome… Onde vivera aquela mesma cena, e quando, em que impossível tempo?

Continuou ali, parado sob a chuva, absorvido pela misteriosa sensação. Mas foi por pouco tempo pois logo dominou-o um angustiante pressentimento de que se não corresse, aquela mulher sumiria de sua vida mais uma vez.

Mais uma vez?

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AINDA CAÍA UM RESTO de chuva quando a noite desceu em Tibau do Sul. No restaurante da pousada, Luca e Isadora tomavam um caldo de peixe, ele saboreando cada pedaço daquele delicioso momento: o gosto do caldo, a chuva, a musiquinha na rádio… Luca sentia a cabeça flutuar leve e os pensamentos vagarem sem critérios. Pela primeira vez naquela viagem sentia-se verdadeiramente descontraído. Os problemas que o esperavam em Fortaleza agora pertenciam a uma distante realidade e a realidade em que ele estava naquele momento era feita de coisas tão simples…

Ele olhou para Isadora à sua frente, entretida em seu prato, e admirou-se de como ela combinava com o momento, a chuva que caía lá fora, a simplicidade do lugar… Isadora parecia viver num outro patamar de apreensão das coisas, que ele não alcançava. Ela percebia a essência das coisas com naturalidade, enquanto ele precisava de muitíssimo esforço para… ser simples.

Que horas? Talvez algo entre seis e sete, ele calculou mentalmente. Ou oito e nove. Poderia perguntar mas não, não queria saber do tempo, o tempo já não importava, estar com Isadora era como estar fora dele.

Ela o havia arrancado de seu sono e o levara para conhecer as delícias de uma tarde chuvosa, um velho prazer esquecido de infância. Correram pela estrada, tomaram cachaça e olharam a chuva debaixo de tetos de palha. Riram de velhas piadas e comeram milho assado. E agora estavam ali, tomando caldo de peixe. Um dia perfeito. Como todos os dias deveriam ser.

– Desculpa por ontem, Luca. Não queria que ficasse constrangido com aquela história que contei.

– Você realmente sonhou comigo? – ele perguntou, dividido entre a curiosidade e o receio de retomar aqueles assuntos.

– Podemos falar de outra coisa?

– Claro.

Ele sentiu-se aliviado. Melhor mesmo não falar daquilo. Havia algo ali que o incomodava bastante, algo que ele não sabia precisar.

– Então me fala sobre o Taoísmo, fiquei curioso. É uma religião antiga, né?

– Tem uns cinco mil anos. Há o lado religioso mas prefiro o filosófico.

– E como é?

– Não vou te contar.

– Por quê?

– Você vai rir.

– Prometo que não rio.

– Ah, pensando bem, é pra rir mesmo.

– Não vou rir, eu juro.

– Filosoficamente falando, o Taoísmo é um modo intuitivo de entender a realidade. Um modo que o jeito ocidental, com toda sua lógica científica, não consegue entender. Dá um nó no pensamento.

– Como seria um modo intuitivo de entender a realidade?

– Captar os movimentos naturais da vida pra agir em harmonia com eles. É isso que o Taoísmo ensina.

– Então um taoísta é alguém ligado à Natureza?

– É alguém que está conectado com o Tao, ou seja, consigo mesmo e com a Natureza, com as verdades simples e naturais. O Tao é a unicidade de tudo que existe, aquilo que liga todas as coisas e liga também o eu ao todo. Se você se harmoniza com o Tao, fica mais simples viver. Mesmo vivendo no ritmo louco da cidade grande, é possível se manter ligado com a mente da Natureza.

– Mente da Natureza? Você andou fumando?

– Não – ela respondeu, rindo. – Deixa ver se consigo explicar. A Natureza é a vida e a vida tem seus movimentos, suas estações. É essa conexão com o natural que guia o taoísta por entre todo o caos. Sabe quando a gente se apega demais a uma coisa? Isso é antinatural. Porque aquela coisa se transforma o tempo todo e a gente continua apegado a algo que não existe mais. O que não muda, apodrece. Esse dinamismo é o Tao.

– O Tao seria um deus?

– O Tao não é uma entidade personalizada como os deuses das religiões. É algo impessoal, que não tem vontade nem tem moral. O Tao já é a própria ação da vida, o fluxo natural da realidade.

– Não sei se entendi.

– É porque não dá pra explicar o Tao. Só dá pra intuir.

– Aliás, sinceramente, nem sei o que tem pra entender nisso aí.

– Quem pergunta sobre o Tao não o imagina. E quem responde não o conhece.

– Estar em harmonia com as coisas… Isso me cheira a uma certa passividade, não?

– Pelo contrário. Captar o fluxo do Tao é um difícil trabalho interno, uma alquimia interior. Mas depois que consegue, você se ajusta às forças naturais da vida e se torna um com tudo que existe.

– E se eu quiser ir contra o Tao?

– Vai viver cansado.

Viver cansado… Luca escutou o eco daquelas incômodas palavras.

– Quem é uno com o Tao não precisa fazer nada. E, no entanto… nada deixa por fazer.

– Mas isso é contraditório.

– Eu não disse? Dá um nó no pensamento.

– Tao tem tradução?

– O ideograma chinês que corresponde ao Tao é feito de pé mais cabeça. O caminho, o sentido.

– Pra mim está mais pra “sem pé nem cabeça”… – Ele falou e riu. – Ops, desculpa.

– Não faz mal, pode rir – ela disse, rindo também. – Se não houvesse gargalhadas, não seria o Tao.

Ele terminou de tomar o caldo e ficou olhando para ela, se deliciando com o que via: os olhos cor de mel, o cabelo molhado, a boca bem torneada, os seios se insinuando por baixo da camiseta… e maluca, deliciosamente maluca.

De repente ela ergueu o rosto e seu olhar interceptou o dele. Ele sentiu-se flagrado em seu desejo sexual.

– Pensando em quê, Luca de Luz Neon?

– Ahn… nada.

– Eu sei. Quer que eu diga?

Ele fez que sim com a cabeça. Ela tomou a última colher do caldo, limpou a boca e falou, naturalmente:

– Nos meus peitos.

Ele não acreditou no que escutou.

– E, se quer saber, eu estava a-do-ran-do…

Primeiro foi o olhar de idiota dele. Depois foram as mãos, apertando-se sobre a mesa. Depois as bocas, o beijo ávido, o inadiável encontro das línguas. Depois a conta paga com urgência, pode ficar com o troco, o último gole apressado de cerveja, o caminho de volta para a barraca, correndo, debaixo de chuva…

Chegaram ofegantes e enlameados. Entraram na barraca dele e ajoelharam-se um de frente para o outro. Ela suspendeu a camiseta, lhe exibindo os seios, e sussurrou:

– Vem.

Ele se lançou sobre os seios daquela mulher com todas as mãos e bocas e línguas que possuía, como se fossem mangas maduras e suculentas e ele um miserável esfomeado. Ela agarrou sua cabeça e o puxou para si, enquanto arrancavam o que tivessem de roupa e rolavam, quase derrubando a barraca. Depois ela pôs-se por cima, prendeu seus braços e o cavalgou, subindo e descendo, subindo e descendo…

Luca fechou os olhos, em êxtase. Sentia-se envolvido pelas sensações de uma forma como nunca antes havia sentido. O olhar meio hipnótico de Isadora, a maciez da pele, o cheiro gostoso, o som musical de seus gemidos, o sabor irresistível de seu beijo… Tudo nela era bom demais, como podia ser tão bom? E tudo o envolvia de tal modo que pela primeira vez ele fazia sexo sem pensar exatamente no que fazia. Em vez de racionalizar, simplesmente fechou os olhos e deixou-se levar pelas sensações… a sensação de compartilhar seu corpo… a sensação de que algo o engolia… em sucções contínuas… ritmadas… o engolia…

De repente a explosão. Num segundo seus pedaços foram lançados para todos os lados numa velocidade impensável, milhões de fragmentos expelidos para o Cosmos sem fim. Então, enfraquecido pelo esforço, sentiu que deixava de existir, lentamente, diminuindo, apagando, morrendo… Para sempre.

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PRIMEIRO UM OLHO. Depois o outro. Luca mexeu-se sob o lençol, lembrando de Isadora, o passeio na chuva, a transa na barraca… A transa mais louca e mais maravilhosa de toda sua vida.

Então olhou para o lado e não viu Isadora. Teve um mau pressentimento. Levantou rapidamente e saiu. E lá fora, sob a luz clara do dia, não viu a barraca azul. Nem sinal dela. Ficou parado, sem saber o que concluir. Novamente sentiu a vertigem, uma sensação estranha de estar escorregando para dentro de um sonho… Por um instante foi tomado por um medo terrível de que Isadora jamais houvesse existido.

Pôs o óculos escuro, correu até o restaurante e lá perguntou pela moça da barraca azul. Ela já havia ido embora, respondeu um dos filhos de dona Zezé. Ele sentou-se, triste por não estar com Isadora mas aliviado por constatar que ela existia, que tudo acontecera de verdade. Pediu um café forte e foi sentar-se à entrada do restaurante. Enquanto tomava o café, olhou para o camping, para a barraca azul que não mais estava lá, e de repente a ausência de Isadora era um imenso e eterno vazio em sua alma. Que estranha sensação… Como era possível que algo que três dias antes sequer existia pudesse agora encher o seu ser de um vazio sem fim?

Quando chegou de volta à barraca foi que percebeu o papel dobrado sobre o lençol:

Te encontrei. Agora não há mais retorno. Salte no abismo.

 

Uma hora depois, após desarmar a barraca e pagar sua conta, ele caminhava pela estradinha de areia em direção à rua onde pegaria o ônibus que o levaria para Natal, onde tomaria outro ônibus para Fortaleza. Nesse instante, uma pequena cobra marrom surgiu à frente, cruzando lentamente a estradinha. Ele estancou e recuou um passo. Não gostava de cobras, elas lhe faziam lembrar a morte, a morte que quase o levara no mar de Tibau do Sul. A cobra também parou e por alguns segundos ficou ali, olhando para ele. E depois seguiu seu caminho, sumindo mato adentro. Luca se certificou que não havia perigo e prosseguiu, imaginando o pesadelo que seria despertar à noite com uma cobra dentro da barraca.

– Mas bem pior seria despertar dentro da cobra… – brincou.

No ônibus, ele leu o bilhete pela décima vez. Saltar no abismo. Que abismo?

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(continua)

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Ricardo Kelmer – blogdokelmer.wordpress.com

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CAPÍTULOS
Prólogocap 1cap 2cap 3
cap 4

cap 5 – cap 6 – cap 7 – cap 8
cap 9 – cap 10 – cap 11 – cap 12

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O Irresistível Charme da Insanidade – cap 1

agosto 6, 2008

O amor insano. O amor desafiador do tempo. O amor que descortina as mais absurdas possibilidades do ser.

 

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O IRRESISTÍVEL CHARME DA INSANIDADE

CAPÍTULO 1

LUCA DESPERTOU assustado. Sonhara com um abismo, imenso e escuro, bem à sua frente, um abismo aterrorizante… Esfregou os olhos e soltou um longo bocejo enquanto esticava as pernas sob a poltrona da frente. Olhou pela janela do ônibus e viu a paisagem passando, a vegetação próxima, as casinhas simples à beira da estrada, uma serra mais adiante… Felizmente não havia abismos por ali, ele pensou, aliviado.

Mais um pouco e estaria em Pipa, a famosa praia no litoral sul do Rio Grande do Norte. Fazia seis meses, desde quando acertara a folga com a gráfica, que sonhava com aquela viagem. Agora tudo que faria pelos quatro dias seguintes, até domingo, seria descansar a cabeça e esquecer dos problemas em Fortaleza. Sozinho. Sem relógio, sem celular e sem internet.

Na verdade levara o celular, sim. Com acesso à internet. Mas, como ele mesmo se prometera, era só para conferir se alguma garota havia deixado um recado urgente, nada mais. E também para ver se um amigo depositara em sua conta a grana que lhe devia. Ah, e também para acompanhar a venda de ingressos para o próximo show da banda, isso era muito importante. Pequenos cuidados, só isso, para que a vida não saísse do controle.

Pelo reflexo da janela pôde ver seu rosto, o cabelo assanhado, a expressão sonolenta… Viu a cicatriz na face direita e lembrou do acidente, o galho da árvore lhe batendo no rosto, ainda era adolescente. Tudo porque queria impressionar uma garota. Amar era mesmo um perigo.

No fim da tarde, poucos quilômetros antes de Pipa, o ônibus passou por uma cidadezinha e, do alto da encosta, Luca gostou do que viu. À sua esquerda, lá embaixo, se espalhava uma grande lagoa, que mais à frente se transformava em rio e corria suave para o mar. Além da lagoa, por sobre a copa das árvores, o sol se punha devagar, salpicando a água de reflexos que se misturavam aos botos que saltavam.

Encantado com a paisagem, Luca sentiu seu olhar capturado por aquela beleza poética, quase musical…

– Que cidade é esta? – perguntou à senhora do banco ao lado.

– Tibau do Sul. É uma antiga vila de pescadores.

Luca lembrou do que os amigos falavam sobre Pipa, as praias lindas, as pousadas, o agito dos barzinhos, gente do mundo todo. No entanto, aquela paisagem…

Levantou da poltrona, foi até a cabine do motorista e pediu que ele parasse. Mudara de ideia. Ficaria em Tibau do Sul.

Mochila às costas e violão debaixo do braço, ele caminhou de volta pela estrada e, à entrada da cidade, seguiu em direção ao mar, até a beira da encosta, onde havia um barzinho de estilo rústico. Escolheu uma mesa sob a palhoça, pediu uma dose de cachaça e sentou, deliciando-se com a brisa marinha e o cheiro da maresia. Havia um barco ancorado e um bando de gaivotas brincava no céu. A luz do fim de tarde banhava a paisagem de uma atmosfera meio onírica e de repente ele sentiu-se fora do tempo, tudo ao seu redor flutuando feito um pedaço de terra que se solta do continente da realidade…

Foi nesse momento, feito uma ânsia, que a canção quis sair. Não apenas queria, ela precisava sair. Rapidamente, ele puxou o violão e… a música não saiu. Tentou vários acordes mas nenhum deles conseguiu expressar devidamente a alma daquele instante. Outra hora talvez, ele pensou, levemente frustrado, encostando o violão. E virou de um gole a bebida.

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JÁ ERA NOITE quando Luca alcançou o camping, um pequeno espaço arborizado próximo ao rio que a dona do terreno, dona Zezé, uma senhora divorciada, alugava para campistas. Ao lado ficavam sua casa, uma pequena pousada e o restaurante, tudo muito simples. Como não estavam na alta estação e nem era feriado, a pousada estava vazia e no camping havia apenas uma barraca azul e nenhuma outra mais.

– Embaixo daquela mangueira é um lugarzinho bom pra você ficar, faz muita sombra – sugeriu dona Zezé. – Mas antes não quer comer alguma coisa? Você tá muito magro.

– Eu venho depois, obrigado.

Em poucos minutos Luca armou a barraca e trocou de roupa. Alguns passos para o norte e estaria à beira da encosta, o rio alguns metros lá embaixo esperando-o para um banho. Melhor impossível. Mas o banho ficaria para o dia seguinte, estava muito cansado.

No restaurante ele comeu um sanduíche com refrigerante, conversou mais um pouco com dona Zezé e conheceu seus dois filhos adolescentes, que moravam com ela e a ajudavam a administrar o negócio. Depois voltou à barraca e deitou. O sono, porém, não veio rapidamente como ele queria. A simplicidade e a beleza daquele lugar, em vez de relaxá-lo, de repente lhe trouxeram muitos pensamentos…

Por que a vida não era mais fácil de ser vivida?, ele se indagou. Em vez disso, era preciso estar sempre atento para que a vida não fugisse do controle, sempre esperto para que a mão traiçoeira do destino não se metesse em suas chances de ser feliz. Por quê?

Um contínuo e angustiante esforço de se estabilizar e economizar dinheiro – era a isso que se resumira sua vida. Quando tinha dezoito anos e cursava administração na faculdade, imaginava que logo estaria numa situação tranquila, sem afobações financeiras. Mas o futuro aconteceu diferente. Após empregar-se numa gráfica, abandonou a faculdade e passou a se dedicar mais ao violão, um velho prazer da adolescência. Tinha agora vinte e oito anos e tudo continuava difícil e empacado.

Dois anos antes ainda morava com a mãe, dona Glória, e a irmã Celina, que namorava o baterista da banda. O pai morrera quando eles eram bem pequenos e a mãe não casara novamente. Agora o emprego de gerente na gráfica lhe garantia o aluguel da quitinete, onde morava sozinho. Meia dúzia de shows por mês ajudavam a manter a duras penas o velho fusca, a comprar comida, pagar as contas, tomar uns uísques e pronto, era só. As despesas eram medidas e contadas e recontadas nos mínimos detalhes, um sufoco permanente. Dona Glória já desistira de aconselhar o filho a tentar concurso público e se casar. Ser gerente de gráfica, dizia ele, era o máximo de concessão que podia fazer. E quanto a casamento…

– Tô fora, mãe. O amor descontrola muito a vida da gente.

Sentia-se cansado. A sensação era de que, apesar de todos os esforços dos últimos anos, continuava andando em círculos, girando sobre o mesmo ponto, sempre girando, sempre…

Olhou para o violão deitado ao lado. Pelo menos havia a música. E a banda. Dois anos antes conhecera Junior Rível, que o convidou a cantar na banda que estava montando. Inseguro, hesitou em aceitar.

– Pensa bem, cidadão – insistiu Junior – Muito show, muito uísque. E muita mulher!

Argumento irresistível.

– Topado – respondeu Luca, apertando a mão do novo amigo. – Festa é o que nos resta nessa vida.

– Opa. Isso dá um blues.

Nascia assim a amizade entre Luca e Junior Rível. E nascia também a Bluz Neon. Festa é o que nos resta – era o lema da banda. Blues, rock e irreverência na noite de Fortaleza. Os cachês eram baixos e muitas vezes se apresentavam de graça mas o prazer de tocar compensava tudo. E para Luca a Bluz Neon era o refúgio perfeito, onde podia se esconder da claridade traiçoeira dos dias. À noite ele estava a salvo, tudo sob perfeito controle. A noite sim, era segura, com seus bares, uísques e amores sob controle. Era como um sonho bom. O único defeito era que no outro dia ele sempre tinha que acordar.

Teus olhos se acendem nos neons
É o frisson de bar em bar
É preciso ser feliz, é urgente
Um romance caliente
Antes do dia nos lembrar
Que o sonho não resiste à luz solar

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NO DIA SEGUINTE Luca levantou tarde, sentindo-se ainda cansado. Demorara bastante a adormecer, envolto em seus mil pensamentos. Será que nem ali, naquele paraíso, conseguiria relaxar de verdade?

Fazia uma manhã de sol claro em Tibau do Sul. Luca pôs o óculos escuro, deixou a barraca e foi ao restaurante da pousada tomar café. Mais tarde, após um demorado banho de rio, ele voltou ao camping. Sentia-se mais disposto. Qual fora a última vez em que entrara num rio? Nem lembrava. Mas precisava fazer aquilo mais vezes.

Após trocar de roupa, dirigiu-se ao restaurante para almoçar e foi nesse momento que ela surgiu.

– Oi…

Ele virou-se e viu uma garota. Era bonita e aparentava a mesma idade que ele. Usava short jeans, camiseta e sandália.

– Oi – ele respondeu, simpático.

– Sou sua vizinha de barraca. Isadora.

– Prazer. Luca.

– Luca… – ela repetiu, experimentando o nome em sua boca. – Luca…

Ela riu, mantendo nele o olhar. Está tão diferente…, pensou, reparando em seu corpo magro, o cabelo despenteado, a cicatriz na face…

– Está sozinho?

– Agora não estou mais.

– Que bom! Já almoçou?

– Não. Minha vizinha me daria a honra? – Ele brincou de fazer um galanteio, como se tirasse um chapéu da cabeça.

– Hummm… Como recusar?

No restaurante, ele sugeriu moqueca de peixe e ela aceitou. Luca percebeu que ela tinha belos olhos cor de mel. Percebeu também que ela o olhava de um modo estranho e sentiu-se incomodado. A cerveja chegou e ele sugeriu um brinde:

– Aos encontros.

– Encontros, não – ela corrigiu. – Reencontros.

Reencontros? Ele não entendeu mas deixou para lá. E bebeu. Ela quis saber de onde ele era e ele respondeu que morava em Fortaleza.

– Fortaleza… Um dia vou conhecer. E o que você faz?

– Trabalho numa gráfica mas meu negócio é música. Tenho uma banda, a Bluz Neon.

– O que vocês tocam?

– Blues, rock e o que der na telha futebol clube.

– Deve ser bem legal. Eu sou de São Paulo. Conhece?

– Não. Mas você não tem muito sotaque.

– É que morei em vários lugares quando era pequena. Peguei gosto por viagem. Me sinto cidadã do mundo, sabe?

– Não tem medo de viajar sozinha?

– Claro que não.

– Se precisar, tem uma lan house na entrada da cidade.

– Ah, não, nada de computador nessa viagem. Não trouxe nem o celular.

– Sério? Por quê?

– Digamos que eu… preciso me conectar mais comigo mesma.

– Sei – ele respondeu, sem ter certeza se realmente sabia. – E o que você faz em São Paulo?

– Trabalhava num banco. Mas pedi as contas pra poder fazer essa viagem. Faz um mês que viajo pelo litoral nordestino.

Bonita e interessante, Luca pensou, enquanto tomava um longo gole de cerveja. Mas por que o olhava daquele jeito estranho?

– Posso perguntar uma coisa, Isadora?

– Claro.

– Por que você está me olhando assim?

– Ahn… é que você… você me lembra alguém.

– Quem?

Ela girou o copo entre os dedos, nervosa.

– E você, não tem a impressão que também me conhece?

– Por quê? A gente se conhece?

Ela sorriu e novamente não respondeu. Luca achou melhor não insistir, talvez ele a fizesse lembrar de alguém que ela não queria lembrar, é, talvez fosse isso.

– Nossa moqueca chegou – ele avisou, mostrando o garoto que se aproximava com a bandeja.

Serviram-se e comeram. Luca pediu outra cerveja, animado. Segundo dia e um almoço com uma gata daquele naipe… Nada mal. Cervejinha, barracas vizinhas… Nada mal mesmo.

– Você por acaso já viveu na Espanha, Luca?

– Não. Por quê?

– Tem certeza?

– Claro. Mas por quê? Você morou lá?

E de novo ela não respondeu. Em vez disso, sorriu desconcertada e olhou para fora do restaurante. Ele continuava intrigado. Ela o confundia com outro, devia ser isso. Mas que era uma gracinha, isso era.

– E daqui você vai pra onde, Isadora?

– Por aí. Sem planos.

– Sem planos? Caramba, você deve ser uma pessoa bem otimista.

– Claro. No final tudo sempre dá certo.

– Admiro essa sua confiança na vida.

– E por que eu iria desconfiar dela?

– Pelo simples fato de que se você não planejar e se precaver, as coisas saem do controle. Não acha?

Ela riu como se ele houvesse contado uma boa piada e respondeu:

– Você sabe quando é que começamos a ter controle sobre as coisas?

– Não. Mas é o tipo da coisa que eu gostaria muitíssimo de saber.

– É quando abdicamos de ter controle sobre elas.

Luca pensou um pouco, buscando compreender. Mas desistiu.

– Não entendi.

– Ora… Se não há tentativa de controle, como as coisas vão sair do controle?

– Ah… – Luca riu, achando que era uma brincadeira. Mas logo percebeu que não era.

– Você está falando sério?

– Claro que sim.

Lógica perfeita…, ele pensou. Mas absurda demais para ser levada a sério. As suas coisas, por exemplo, de que modo se ajeitariam por si próprias? O trabalho, a banda, o aluguel do apartamento, a manutenção do carro… E os casos amorosos? Como tudo isso se resolveria por si só? Não, definitivamente não era possível. A vida era uma grande boiada e era preciso domá-la o tempo todo. O que Isadora propunha não passava de um mero romantismo. No entanto, tinha de admitir que, vindo dela, aqueles absurdos até que possuíam um certo charme…

Após o almoço pegaram um ônibus e seguiram para Pipa, onde passearam, conheceram as pousadas e as lojinhas e tomaram sorvete na pracinha. Isadora contou das praias que conheceu naqueles dias, o quanto se sentia em casa em todos os lugares e como se aproximava mais de si mesma assim, solta pelo mundo.

– E você, Luca? Gosta de viajar também?

– Gosto. Mas não assim como você.

– Tem medo de se perder?

– Acho que eu gosto mais da segurança da minha cidade. Lá eu sei me mover bem.

– Entendi. E essa cicatriz aí?

– Lembrancinha de um passeio de jangada. Fizemos um blues pra ela. Quer ouvir?

Ela respondeu que sim e ele cantou:

Amar é um perigo
Só eu sei o que eu passei
Nesse abismo deu vertigem
E a angústia não se desfez
Não quero a dor de mais um bis
Depois só resta a cicatriz
Só não me peça, beibe
Não me peça pra te amar

 

– Você teve uma decepção amorosa muito forte? – ela quis saber.

– Tive. Mas já faz tempo.

– Até esses sofrimentos têm seu lado positivo.

– Claro que têm. Depois disso fiquei vacinado.

– Como assim? Não quer mais amar novamente?

– Prefiro não me arriscar. Amar é um perigo.

– É mesmo – Ela riu. – O melhor perigo do mundo.

Luca riu também. Mas não concordava, é claro.

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CHEGANDO AO CAMPING, de volta a Tibau do Sul, Luca perguntou se Isadora gostaria de beber algo, ele tinha um vinho na barraca.

– Preciso te dizer uma coisa, Luca.

– O quê?

– Eu sonhei com você.

– Comigo? Quando?

– Seis meses atrás.

– Mas a gente nem se conhecia…

– Era você.

– Sério? Era eu mesmo, assim como você me vê agora?

– Não, sua imagem não era muito nítida. Mas era você.

– Não entendo. Como pode uma coisa dessa?

– Mistérios da vida. E você?

– Eu o quê?

– Nunca sonhou comigo?

Eu adoraria dizer que sim, beibe… – ele quase respondeu.

– Não.

Isadora sorriu sem graça, desapontada.

– No sonho que eu tive, você me pedia pra gente se encontrar nessa praia.

– Você realmente está falando sério?

– Estou. Eu lembrei de tudo quando acordei, só não sabia qual era a praia. Mas sabia que ficava nessa região. E que havia um rio. Aí, na semana passada, quando cheguei em Tibau do Sul, senti que seria aqui que eu encontraria você.

O que significava aquilo?, pensou Luca, coçando a cicatriz no rosto, cada vez mais intrigado. Seria uma cantada? Se fosse, então era bem original.

– Você disse mais uma coisa no sonho.

– O quê?

– Que eu precisava te ajudar.

– Ajudar em quê?

– A saltar no abismo.

– Que abismo?!

– Não sei. Foi o que você disse. Então aqui estou.

– Juro que não sei de nenhum abismo – ele respondeu. E de repente lembrou… lembrou vagamente de um sonho… Sonhara com um abismo aqueles dias. Sim, um abismo… escuro… ameaçador…

Coincidência, ele pensou, livrando-se da lembrança incômoda. Apenas coincidência.

– Não sabe mesmo? – ela perguntou novamente.

– E mesmo que soubesse, quero distância de abismo. Não gosto deles.

Ele queimava os neurônios, procurando entender tudo aquilo… Ela devia estar brincando, devia ser isso, uma brincadeira. Ou então não batia bem da cabeça. Seria louca?

– Se você realmente veio de tão longe por causa de um sonho… Então o que aconteceria se eu não aparecesse?

– Bem… Na verdade eu não quis pensar muito nisso.

– Acho que devia ter pensado.

– E você devia ter lembrado de mim.

Ele percebeu uma certa irritação no tom da frase. Isadora olhava para o céu estrelado e torcia as mãos, impaciente.

– Desculpa, Luca, não quis ser grosseira – ela falou, voltando-se para ele. – É que eu… estou confusa. Eu achava que você… que você também…

– Foi só um sonho, uma coincidência.

– Não pode ter sido só isso – ela respondeu, quase interrompendo-o. E prosseguiu sussurrando, mais para si mesma que para ele: – Não pode.

Luca sentia-se meio perdido, sem saber o que deduzir de tudo aquilo. Como alguém podia sonhar com uma pessoa que não conhece e sair por aí em busca dela, sem qualquer garantia de encontrá-la? Isso era tão absurdo, tão inconcebível… Ela não podia estar falando sério. Mas também não parecia estar brincando. Só havia uma explicação: era louca. E com loucos não se podia argumentar.

– Escuta, por que a gente não esquece esse assunto e toma um vinho? Você gosta de…

– Você acredita em vidas passadas, Luca? – ela o interrompeu.

– Vidas passadas? Por quê?

– Acredita ou não?

Ele pensou rápido. Não acreditava, claro, impossível acreditar naquelas bobagens. Mas e se o sucesso da noite estivesse nas mãos de uma boa resposta?

– Depende.

– De quê?

– Depende do dia.

– Sei. E como estará seu dia amanhã?

– Amanhã… Acho que é um bom dia pra se acreditar em tudo.

– Ótimo. Porque tenho uma história bem louca pra te contar.

– Por que não conta hoje?

– Porque… – Ela pensou um pouco. – Porque eu é que não estou num bom dia pra acreditar em tudo.

Enquanto ele procurava algo para dizer, ela abriu a barraca e entrou.

– Boa noite, Luca.

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(continua)

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O Irresistível Charme da Insanidade – Prólogo

julho 20, 2008

O amor insano. O amor desafiador do tempo. O amor que descortina as mais absurdas possibilidades do ser.

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O IRRESISTÍVEL CHARME DA INSANIDADE

PRÓLOGO

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Ele a abraçou e assim se deixou ficar, juntinho a ela, inteiramente envolvido pela sensação de já ter vivido aquilo antes… Fechou os olhos e tentou lembrar quando vivera aquela mesma situação mas tudo que lhe veio foi a sensação de estar girando, girando… Era como se estivesse num círculo, girando, sempre passando por aquele mesmo lugar… girando num círculo, sempre passando pelo mesmo ponto, sempre…

Abriu os olhos assustado, voltando a si. Sentia-se levemente tonto. Olhou ao redor, certificando-se que continuava ali, no cais de Barcelona, naquela manhã enevoada. Ela ainda estava abraçada a ele, no meio da pressa dos funcionários do cais. Quanto tempo se passara? Alguns segundos? Séculos?

– O que foi? – ela perguntou.

– Não sei, uma tontura…

– Há dias que você está estranho.

– Preciso ir agora.

– Tem certeza que não posso mesmo ir?

– Já falamos sobre isso, Catarina.

– E se você não voltar?

– Claro que voltarei. Em um mês ajeitarei as coisas em Lisboa e voltarei. E iremos juntos para o Brasil. Não foi o que combinamos?

– Estou com medo, Enrique… – Ela o abraçou novamente, mais forte.

– Já estão a subir as velas – ele respondeu, sentindo o vento soprar. Desfez o abraço e saiu caminhando em direção ao navio, o passo rápido, sem olhar para trás.

Minutos depois o navio começou a afastar-se e, da amurada, ele a viu acenando, sozinha no cais, no meio da névoa. E de repente foi como se ela repetisse um gesto muito antigo, feito muito tempo atrás, um aceno triste que lhe cortava a alma. Quando haviam se despedido assim?

Preciso de um trago, ele pensou, sentindo a alma pesada. E se dirigiu à cabine.

Ele não queria pensar nisso mas sabia: era só o início de uma longa e difícil viagem.

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Séries kelméricas

julho 18, 2008

As aventuras de Diametral e Ninfa Jessi

A mais bela e safada história de amor jamais contada. Diametral e Ninfa Jessi exercitam seu poliamor em aventuras deliciosas e picantes. Os bastidores das histórias estão disponíveis para Leitores Vips.

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O último homem do mundo

O sonho de Agenor é que todas as mulheres do mundo o desejem. Para isso ele está disposto a fazer um pacto com o diabo. Mas há um velho ditado que diz: cuidado com o que deseja pois você pode conseguir…

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Um ano na seca

O que pode acontecer a um homem quando de repente, por mais que tente, não aparece mulher de jeito nenhum?

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As taras de Lara

Lara só pensa naquilo, desde pequena. E ai do homem que não a satisfaz. Os bastidores das histórias estão disponíveis para Leitores Vips.

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ogurusemfuturo01O guru sem futuro

Um grupo de amigos se envolve com experiências místicas ligadas a projeção astral, guias espirituais e lembrança de vidas passadas e isso provoca grandes mudanças na vida de todos. EM BREVE

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figsexyeindeciso01

Sexy e Indeciso

Quatro amigos e suas aventuras e desventuras em busca da mulher ideal. Mas será que ela existe mesmo? Não poderia haver várias mulheres ideais simultâneas? É verdade que elas mudaram e nós continuamos no tempo das cavernas? Por que elas dizem que homem é tudo igual e, no entanto, elas escolhem tanto? Essas e outras questões temperadas com muito humor, cerveja, rodas de pôquer e futebol na tevê. O conteúdo total da série, incluindo os detalhes mais picantes, estarão disponíveis para Leitores Vips. EM BREVE.

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