As quarenta raposas

fevereiro 27, 2012

Ricardo Kelmer 1996

E tão rápido quanto surgiu, ela desapareceria, deixando para trás seu rastro de sangue, terror e mistério

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O desfile chegara ao final. A última modelo concluíra sua performance e a plateia ainda aplaudia quando de repente cessaram a música e as luzes. Os aplausos pararam e ficaram todos em expectativa. Foi nesse exato instante, no vácuo dos pensamentos, que o anjo da morte surgiu e sua presença arrepiou a todos. Surgiu no início da passarela. Parecia ser apenas mais uma modelo num casaco de pele da coleção de inverno. Mas não era. Mais tarde a produção não saberia explicar quem poderia ser aquela mulher. A equipe de modelos também não a reconheceu e os seguranças balbuciaram desculpas. E tão rápido quanto surgiu, ela desapareceria, deixando para trás seu rastro de sangue, terror e mistério.

Ela postou-se à entrada, séria, e cravou seus olhos negros por sobre a plateia. Um frisson correu pelo ambiente. Um vento frio cruzou o salão. Mas não se ouviu nenhum rumor, absolutamente nada, e flash nenhum foi disparado. A vida ficou suspensa e nada mais existiu. Um silêncio vindo de fora do tempo caiu sobre sua figura altiva e naquele eterno segundo ela foi o anjo vingador: belo, justo e implacável.

E, no entanto, era linda, irresistivelmente linda… E sua figura atraía os olhos feito ímã. O casaco de pele de cor castanho deixava à mostra seus joelhos e os pés tocavam descalços a passarela. O rosto tinha traços indígenas sul-americanos e o cabelo negro descia numa trança pelas costas. E era rude e imperturbável seu olhar.

Pôs-se então a caminhar. Seu andar lento e seguro seguiu pelo silêncio frio da passarela, como se pisasse o interior de cada um. E em cada um o negrume dos seus olhos cravou-se sem dó, como um justiceiro que desnuda os pensares e nada escapa de seu julgamento. De repente todos sentiram-se indignos e era como se sua presença os enchesse a todos de uma dolorosa vergonha, vinda de algum lugar dentro deles mesmos.

Completado o percurso, ela parou e levou as mãos às costas. De um gesto libertou os longos cabelos que espalharam-se pelo ar e assentaram-se sobre os ombros, pousando macios nas costas. Nesse momento a música disparou e as luzes coloridas voltaram a piscar. E o angustiante silêncio foi finalmente preenchido.

Agora era o ritmo frenético da música em alto volume. Agora eram as cores dos holofotes, piscando alucinadas. Seu passo tornou-se mais rápido. Ela percorreu o segundo corredor, perpendicular ao primeiro. E desabotoou o pesado casaco. Após o derradeiro botão começou a girar, a girar, e seu casaco, acompanhando o movimento, pareceu uma hélice. Aos olhos pasmos de todos surgiu o seu corpo nu, inteiramente nu. E ninguém conseguiu desviar o olhar daquele exótico bailado.

As primeiras gotas de sangue salpicaram os fotógrafos à beira da passarela, eles que depois perceberiam não terem feito foto alguma, que mancada. O sangue bateu-lhes no rosto, no peito e atingiu os equipamentos. Surpresos, contorceram-se agoniados e cheios de nojo enquanto os primeiros gritos explodiam na plateia. Nas mesas mais atrás aquelas pessoas finamente vestidas viram, de um segundo para outro, suas roupas respingadas de sangue e também seus rostos e as taças de champanhe.

Enquanto ela girava e girava na passarela, o terror explodiu num grande rumor abafado pela música estrondosa. Rostos ensanguentados, semblantes apavorados. Roupas salpicadas de vermelho e gritos de pavor. Uns choravam descontrolados, sem compreender de onde vinha tanto sangue. Outros corriam pela multidão sem saber para onde ir. Era de repente um imenso pesadelo, absurdo e real.

Então ela parou de girar. Livrou-se do casaco. Seu corpo nu surgiu inteiro e vigoroso sob o pisca-pisca das luzes. E ela caminhou serena para o lugar por onde entrara. O corpo nu avançou em passos decididos enquanto o braço arrastava atrás de si o pesado casaco, feito uma longa cauda castanha, deixando pelo chão um largo rastro de sangue.

Ela chegou ao início da passarela e foi recebida pelo estilista idealizador da coleção, que tentou falar mas nada conseguiu dizer. Seu olho negro o atingiu em cheio, imobilizando-o, e por um momento ele viu não uma mulher mas um bicho. Ela depositou pesadamente em seus braços o casaco ensopado de sangue e, antes de sumir para sempre, disse, bem perto de seu ouvido, para que a música não o impedisse de compreender o mais importante:

– É preciso matar quarenta raposas para fazer um casaco desses.

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Ricardo Kelmer – blogdokelmer.wordpress.com

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> Este texto integra o livro Vocês Terráqueas – Seduções e perdições do Feminino

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LEIA NESTE BLOG

> Cristal – Ele quer falar sobre tudo que viveu ali dentro, todos aqueles anos, os amores e desamores, o quanto sofreu e fez sofrer, perdeu e se encontrou… Mas não precisa, ela já sabe

> O íncubo - Íncubos eram demônios que invadiam o sono das mulheres para copular com elas, uma popular crença medieval. Mas… e se ainda existirem?

> As fogueiras de Beltane – A filha da deusa está pronta. O ritual do casamento sagrado vai começar

> Minha noite com a Jurema – Nessa noite memorável fui conduzido para dentro de mim mesmo pelo próprio espírito da planta, que me guiou, comunicou-se comigo, me assustou, me fez rir e ensinou coisas maravilhosas

> Xamanismo de vida fácil – A tradição xamânica dos povos primitivos experimenta uma espécie de retorno, atraindo o interesse de pesquisadores e curiosos

> O desejo da Deusa -

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RK na Nova Consciência 2012

fevereiro 19, 2012

Ricardo Kelmer 2012

Um festival multicultural que reúne arte, ciência, filosofia e tradições religiosas

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O Encontro da Nova Consciência é realizado desde 1992, durante o Carnaval, em Campina Grande, Paraíba. É um festival multicultural que reúne arte, ciência, filosofia e tradições religiosas, buscando um mundo melhor pelo caminho do respeito às diferenças. Nesta 21ª edição, farei duas palestras, participarei de duas mesas e lançarei o livro novo. Eis os horários de minhas participações:

> 6ª feira, 17fev

AUDITÓRIO SESC CENTRO
21h40 – Palestra – “A revolução do mundo autoconsciente: Cidadania global como saída para a crise evolutiva”.

> Sábado, 18fev

3º ENCONTRO DE LITERATURA CONTEMPORÂNEA
15h30 – Mesa: “Realismo fanástico, RPG e a escrita de ficção científica”. Com André de Sena (escritor, jornalista-PE) e Wander Shirukaya (escritor-PB). Mediação: Bruno Ribeiro (PB).
16h45 – Lançamento do livro “O irresistível charme da insanidade” (romance, Editora Artepaubrasil-2011).

> 2ª feira, 20fev

AUDITÓRIO SESC CENTRO
14h – Mesa – “Produção cultural independente: ou colaboramos ou evaporamos”. Com Alberto Marsicano (Citarista-SP), Rayan Lins (Coletivo Mundo-PB) e Diogo Rocha (Coletivo Natora-AL). Coord.: Arthur Pessoa (Músico-PB).

> 3ª feira, 21fev

14º ENCONTRO DE ATEUS E AGNÓSTICOS
14h – Palestra – “Ativismo ateu: chatice ou necessidade?”

2º ENCONTRO DE COMUNICAÇÃO E MÍDIAS DIGITAIS
17h – Palestra – “Internet livre x direitos autorais – Mocinhos e vilões na guerra pelo controle da cultura mundial”

ENCERRAMENTO
Leitura da crônica Medo de Mulher (dedicada às mulheres violentadas e mortas em Queimadas-PB, em 12.02.12)
> Baixe o arquivo de áudio dessa leitura (mp3, 8mb)

> Todas as noites

Na praça, é claro, curtindo os shows da programação musical, que apresenta atrações locais, de outros estados e de outros países.

PROGRAMAÇÃO COMPLETA DO EVENTO

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VÍDEO DA PALESTRA
“A revolução do mundo autoconsciente – Cidadania global como saída para a crise evolutiva”

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O Irresistível Charme da Insanidade

Um músico obcecado pelo controle da vida. Uma viajante taoísta em busca de seu mestre e amante do século 16. O amor que desafia a lógica do tempo e descortina as mais loucas possibilidades do ser.

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01- Ainda não conhecia o trabalho de Ricardo Kelmer, mas fiquei encantada de uma forma, que com certeza vou procurar suas obras para ler, principalmente seu filho mais recente, adorei o enredo… Harriet Galdino, Campina Grande-PB – fev2012



Guia de Sobrevivência para o Fim dos Tempos – Pré-venda

janeiro 18, 2012

Ricardo Kelmer 2012

Adquira antecipadamente com um ótimo desconto, tenha seu nome no livro e receba em casa, antes mesmo das livrarias


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“O que fazer quando de repente o absurdo invade nossa realidade e as velhas verdades se tornam inúteis? Para onde ir quando o mundo acaba?”

Meu livro de contos fantásticos Guia de Sobrevivência para o Fim dos Tempos será relançado este ano. E como terei que bancar parte do investimento, já iniciei a pré-venda do livro.

Adquirindo o livro antecipadamente até 10fev, você ganha desconto especial (nas livrarias custará R$ 30) e seu nome constará na obra, na seção Galeria de Leitores Especiais. E você receberá o livro pelo correio no início de abril, com dedicatória, antes mesmo das livrarias.

PREÇOS (pro mesmo endereço, frete incluído)

1 exemplar: R$ 21
2 exemplares: R$ 19 cada
3 exemplares em diante: R$ 19 cada + 1 livreto de brinde (você escolhe o livreto, veja no fim)

BANCOS PARA DEPÓSITO: HSBC, Itaú, Banco do Brasil e Bradesco. Pra participar, envie e-mail pra rkelmer(arroba)gmail.com e eu entrarei em contato informando as contas.

SOBRE O LIVRO

Publicado originalmente em 1997, o livro foi reescrito e alguns contos mudaram bastante. Em minha opinião, ficou bem melhor. Nos nove contos que formam este livro, onde o mistério e o sobrenatural estão sempre presentes, os personagens são surpreendidos por estranhos acontecimentos que abalam sua compreensão da realidade e de si mesmos e deflagram crises tão intensas que podem se transformar numa questão de sobrevivência. Um livro sobre apocalipses pessoais.

> Saiba mais, leia alguns contos, veja comentários

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LIVRETOS DO BRINDE (comprando 3 ou mais livros)
formato bolso, 48 pag

- Guia do Escritor Independente (dicas)
- Memórias de um Excomungado (crônicas, reflexão, humor)
- Um Ano na Seca (conto, erotismo, humor)
- O Ultimo Homem do Mundo (conto, terror, humor)
- Blog do Kelmer (crônicas, contos)

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Reencarnação e vidas simultâneas

maio 27, 2011

Ricardo Kelmer 2011

A vida de Luca e Isadora no século 16 influencia suas vidas no século 21 e vice-versa, como se o “eu” existisse em mais de uma vida ao mesmo tempo
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Já pensou você descobrir que numa outra vida já viveu um amor daqueles com a pessoa que hoje tá com você?

É sobre isso o meu romance O Irresistível Charme da Insanidade. É a história do amor maluquete do casal viajandão Luca e Isadora. Ele é um cantor de blues e ela uma mochileira taoísta que acredita ser ele a reencarnação de seu grande amor do século 16. A história se passa simultaneamente na Espanha quinhentista e nas praias do Nordeste do século 21.

Pra mim, particularmente, a teoria da reencarnação não faz sentido. Mas é uma ideia que pode render boas histórias. A prova disso é o sucesso dos livros espíritas com suas histórias românticas sobre amores através dos séculos. Tem quem goste. Eu, porém, acho esses livros de uma caretice irritante, argh!, um moralismo açucarado e gosmento, aaaargh!, o bem e o mal muito bem definidinhos, seres da luz e seres das trevas, aaaaaaaargh!!! Quem gosta de moralismo e caretice, é bom nem chegar perto do meu romance, vou logo avisando…

Mas voltemos à ideia. Já pensou você descobrir que numa outra vida já viveu um amor daqueles com a pessoa que hoje tá com você? Uau!!! Deve ser emocionante, heim? Viver um grande amor já é algo incrível – e viver um grande amor através dos séculos, já pensou? Bem, isso também pode render alguns probleminhas extras pois o casal terá o dobro de motivos pra brigar, além de se confundirem o tempo todo:

– Aquela fulaninha tá ligando pra você de novo.

– De novo não, naquela época não tinha telefone. E você, já deu pro Betão?

– Dei mas foi na outra vida.

– Acho que a gente tá passando pela crise dos sete séculos…

Mas… e se a outra pessoa não acredita em reencarnação, acha essas coisas uma grande bobagem, acha que você tá viajando na maionese, e aí? O que você faria? Tentaria fazer com que ela lembrasse, através, por exemplo, de uma terapia de vidas passadas ou de outra técnica? Ou se conformaria e deixaria pra lá? E se de repente você se pegasse agindo de forma estranha, como, por exemplo, culpando a outra pessoa por coisas da outra vida?

Esse é justamente o tema central do meu romance. Nele, no entanto, a ideia da reencarnação funciona como um gancho pra uma outra ideia: a multidimensionalidade do ser, em que a consciência não está restrita ao corpo físico nem ao tempo presente mas atua simultaneamente em várias dimensões do tempo-espaço. A vida de Luca e Isadora no século 16 influencia suas vidas no século 21 e vice-versa, como se o “eu” existisse em mais de uma vida ao mesmo tempo e elas estivessem conectadas.

É uma ideia bem louca, eu sei, eu sei. Mas tem seu charme, admita.

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Ricardo Kelmer – blogdokelmer.wordpress.com

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Mais sobre o livro e trilha sonora

Pra adquirir o livro

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A insanidade está de volta às livrarias

abril 29, 2011

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Após alguns anos atuando apenas no circuito editorial alternativo, eis que tô de volta às livrarias: a Editora Arte Paubrasil acaba de lançar meu livro O Irresistível Charme da Insanidade. Os eventos de lançamento acontecerão em Fortaleza (10 a 14mai) e em São Paulo (julho). Os leitores que participaram da promoção de pré-venda receberão seus livros pelo correio no início de maio e poderão ver seus nomes na seção Galeria de Leitores Especiais (pag 157), aqui nesta postagem e na seção do livro neste blog.

A história de Luca e Isadora e seu amor que desafia a lógica do tempo foi publicada pela primeira vez em 1996, pela Editora Universalista (PR). Anos depois reescrevi a história e em 2005 publiquei alguns exemplares por conta própria, em formato de bolso (selo Miragem Editorial). Em 2010 finalmente escrevi a versão definitiva e negociei com a Editora Arte Paubrasil. A essência da história é a mesma mas houve alterações nos personagens e em algumas passagens, o final foi mudado e a narrativa ficou mais cinematográfica.

Este livro tem um diferencial: ele tem uma trilha sonora, composta especialmente pra ele por mim e meus parceiros. Se não for o primeiro, certamente é um dos primeiros casos do tipo na literatura brasileira.

A narrativa cinematográfica revela meu desejo de ver esta história transformada em filme. Vamos ver se algum produtor ou diretor se interessa…

> Mais sobre o livro e trilha sonora

> Pra adquirir o livro

> Lançamento em Fortaleza
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FALARAM DO LIVRO POR AÍ

- Conexões atemporais  – Jornal Diário do Nordeste, Fortaleza, 10.05.11
- O herético e o erótico segundo Ricardo Kelmer – Por Jeite Jr., 20.05.11

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LEITORES ESPECIAIS

Obrigado a todos os leitores que adquiriram este obra antecipadamente na promoção de pré-lançamento (até 24fev2011). Eles ganharam desconto, tiveram seus nomes inseridos na obra e serão os primeiros a receber o livro, pelo correio. Mais que leitores, estas pessoas são grandes incentivadoras do meu trabalho.

Mariana Melo (Maceió-AL), Thais Souza (Manaus-AM), Pat Maria (Salvador-BA), Fernando Veras (Camocim-CE), Paula Izabela (Juazeiro do Norte-CE), Alzira Aymoré, Ana Érika Galvão, Ana Karine Oliveira, Arthur Valente, Eugênio Leandro, Fabiano Brilhante, Glaucia Costa, Iana Bezerra, Marta Aurélia, Monica Fuck, Sandra Macedo, Verônica Guedes, Viviane Avelar (Fortaleza-CE), Meg Lia (Paracuru-CE), Suely Andrade (Brasília-DF), Mardônio Veras (São Luís-MA), Aluska Cavalcanti, Emerson Figueiredo (Campina Grande-PB), Christiane de Oliveira, José Maria Teixeira Jr. (João Pessoa-PB), José Carlos Neves (Belo Horizonte-MG), André de Sena, Rógeres Bessoni (Recife-PE), Joelson Maximiniano (Curitiba-PR), Gabriel Falcão, Maria Emília Lino da Silveira, Pedro Camargo, Regina Coeli Carvalho, Waldemar Falcão, Wilza Mazur (Rio de Janeiro-RJ), Larissa Azevedo (Natal-RN), Arlene Amorim, Edgar Powarczuk, Gisela Symanski (Porto Alegre-RS), Jamile Mileipe (São Carlos-SP), Virginia Mancini (Leme-SP), Antonio Venâncio, Bárbara Leite, Bia Rocha, Celia Terpins, Cesar Veneziani, Graziely Camargo, Kátia Regis Albuquerque, Juliana Cupini, Leopoldo F. Noschese, Lucilene Pacheco, Maria do Carmo Antunes, Renata Regina, Roberta Lossio e Tarcius Guedes (São Paulo-SP), Katiê Ribeiro (Plymouth-Inglaterra), Francisco Fontenele Neto (Lourinhã-Portugal), Luciana Bergstrom (Suécia).

Obrigado também: Gilvanilde Oliveira (Fortaleza-CE). Obrigado pelas observações valiosas: Rosa Emília Costa (Fortaleza-CE), Daniela Ramos (Rio de Janeiro-RJ) e Marcelo Gavini (São Paulo-SP). Obrigado por tudo: Wanessa Bento (Fortaleza-CE).

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Adriana Cardoso (Jundiaí-SP, mai2011)
estreando a seção Insanos Olhares

Envie sua foto com o livro pra rkelmer(arroba)gmail.com

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01- Uauuuuu…..Parabens pelo novo livro e que este seja um sucesso como os outros que escrevestes…..Bjs e muita paz no coração! Sandra Abou Dehn, Cuiabá-MT – mai2011

02- Parabénsss papai! Tim tim! Beijo_ ;-). Kátia Régis Albuquerque, São Paulo-SP – mai2011

03- Parabéns pelo livro… Sucesso!!! Enorme abraço. Michelle Fávero, São Paulo-SP – mai2011

04- Parabéns, querido! Vc está em SP? Eu estou passando uns dias. Só compro se for pessoalmente!!!!rsrsrssrs Beijos. Maria Theodora, Rio de Janeiro-RJ – mai2011

05- adorei saber de vc. sucesso, sempre. há braços. Iumê Colombo, Brasília-DF – mai2011

06- Viva!!! Abraço. Jamile Mileipe, São Carlos-SP – mai2011

07- VAGABUNDO-MOR! Meus Parabéns, Kelmer… Amanhã é meu aniversário (dia 4) e notícias boas como esta sua, servem como um grande presente! Muito feliz mesmo com esta notícia, garoto! Aquele Abraço. Téo Lorrent, São Paulo-SP – mai2011

08- Parabéns, Kelmer! Octávio Roggiero, São Paulo-SP – mai2011

09- Parabéns! Como não tenho champagne estou brindando com “licor de merda” para dar bastante sorte. Aguardando chegar meu exemplar. bjs. Regina Coeli, Rio de Janeiro-RJ -mai2011

10- Parabéns, muito sucesso com o livro!!! Glauco Wiltenburg Nunes, Rio de Janeiro-RJ – mai2011

11- Olá Kelmer, Fico feliz pela vitória e espero que esse livro publicado seja só o começo de muitos outros. Como escrevi para você a um tempo atrás, sou fã do seu livro “Matrix e o Despertar do Herói” e como combinado, quando você publicá-lo novamente me avisaria. Seria legal se, quem sabe, a mesma editora o publicasse também… Um grande abraço e espero ansioso por comprar esse livro com dedicatória e tudo… Jackson Cruz, Belém-PA – mai2011

12- SINCEROS E EFUSIVOS PARABÉNS! \o/ Creio que estarei presente no lançamento em São Paulo. QUEBRA TUDO! ;) Abração. Sandro Fortunato, Natal-RN – mai2011

13- Grande Ricardo, PARABÉNS !!!! Orgulhosamente já carimbei a compra. Desejo sucesso total e apareça pelo planalto. Forte abraço. Mauro Galvão, Brasília-DF – mai2011

14- Parabens Kelmer! Mereces nao um mas uma caixa de champangne! Vai rolar ai em julho o salão de turismo e em agosto o Piaui Sampa…creio que vale a oportunidade pra divulgar seu livro… Sucesso! Marcos Fonteles, Parnaíba-PI – mai2011

15- Parabéns,querido! Muito sucesso pra vc! “Xêros” recifenses. Mônica Burkleward, Recife-PE – mai2011

16- Parabéns…vc é demais!!!!! Bj. Regina Lucia Fernandes, Fortaleza-CE – mai2011

17- Parabéns amigo! André Luis Cabral, São Paulo-SP – mai2011

18- grande ricardo, acabei de adquirir seu livro pela paubrasil. aguardo ansiosamente a chegada para devorá-lo. aquele abraço e feliz preço baixo. Aroeira, Belo Horizonte-MG – mai2011

19- Parabéns, Kelmer! Estou aguardando meu exemplar. Pela sinopse enviada, parece apetitoso. Mas… é mesmo! Qd vc vai oferecer champagne em SP? Espero q seja numa 5a feira. Abração, mestre! Maria Emília Lino da Silveira, Paraty-RJ -mai2011

20- Parabéns amigo querido!!! Orgulho!!! Bjks. Ana Karla Dubiela, Fortaleza-CE -mai2011

21- Ricardo querido, Que maravilha! felicidades e muito sucesso ai! Forte abraço daqui. Airam, Belo Horizonte-MG – mai2011

22- Que notícia boa, Ricardo! Parabéns! Caesar Moura, Rio de Janeiro-RJ – mai2011

23- deu vontade de começar a ler agora! pode ir pensando em uma dedicatória… estarei no lançamento pra comprar o meu! boa sorte! Erika Zaituni, Fortaleza-CE – mai2011

24- Tá mais pra mãe do que pra pai. Uuuups, melhor dizendo mãe/pai. Amei a capa, e mais ainda o olhar sensual e misterioso da tigresa – tua Alma. Alma que guia, inspira e borogodoza a Estrada do caminhante musical. Bárbaro, ERRIKÁ, tu é da linhagem dos fininhos mui talentosos. Senti a marca no arriar das malinhas. Nunca te vi, sempre te senti. :-) champanhe aberta, brindemos. Beeeeijo e reverência for ever after. Pat Maria, Salvador-BA – mai2011

25- Parabéns Kelmer, por mais essa vitória!! Grande abraço. Cecília Colares, Niterói-RJ – mai2011

26- Nuossa ! Tô ficando chique demais, com meu nome no seu livro. Vai até alavancar as vendas, rsrsrsrsrs. Volta logo, estamos com saudades! Bjs. Maria do Carmo Antunes, São Paulo-SP – mai2011



Shopping das vidas passadas

abril 6, 2011

Ricardo Kelmer 2005

Quer dizer que mil anos depois eis-me aqui fazendo a mesma coisa que eu fazia naquelas noites frias das estepes russas, conjeturando sobre o tempo?
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Descobri uma vida passada minha. Foi por volta do ano 875 da era cristã, numa região central da Rússia. Fui uma sacerdotisa pagã, que fazia uso da magia pra curar. Eu tinha uma visão da vida voltada pra procura da verdade e da sabedoria. Através do conhecimento atingi a certeza de uma vida futura. Embora fosse vista como uma sonhadora, nunca perdi a fé.

Esta era eu. Pelo menos foi o que o Mago disse. Conheci o Mago quando passeava pelo shopping, tentando esquecer o aluguel atrasado. Deparei-me com ele à entrada de uma loja de produtos místicos e religiosos. Olhei pra ele, ele olhou pra mim e aí vi o pequeno cartaz pregado nele: “Conheça sua vida passada”.

Não resisti. Entrei na loja e comprei uma ficha, que enfiei na barriga do Mago. Na pequena tela de computador surgiram as orientações, digite seu nome, sexo e data de nascimento. Digitei, aguardei e saiu um papel. O Mago me dizia que eu estava viajando no tempo através dos segredos contidos nas tabelas de Rama-Mu, elaboradas pelos antigos sacerdotes da Ilha de Páscoa, e que era possível que, ao final, eu obtivesse respostas pra muitos de meus por quês, assim mesmo, por quês separado. Vamos relevar, talvez os sacerdotes pascoais não dominassem muito bem o português.

Li a descrição da minha vida passada, guardei o papel no bolso e saí, eu e os meus velhos porquês de sempre, que os sacerdotes não conseguiram explicar. Pelo contrário, agora eu tinha mais uma dúvida me coçando a orelha: como aquela bruxa que eu fui conseguiu a tal da certeza da vida futura? Então ela sabia que, mil anos depois, renasceria como homem?

Bruxa poderosa. Sentada diante da fogueira, ela viajou no tempo e se viu homem, vivendo num país que se chamaria Brasil, escrevendo crônicas sobre… sobre o tempo. Hummm, quer dizer que mil anos depois eis-me aqui fazendo a mesma coisa que eu fazia naquelas noites frias das estepes russas, conjeturando sobre o tempo, exercitando as possibilidades, buscando atalhos nas conexões temporais?

Se é assim, então talvez eu esteja agora fechando o círculo. A bruxa que fui acessou sua vida futura e agora eu acesso a dela. Círculo fechado. Mas e agora? Era pra acontecer algo, não? Um clarão, um raio a iluminar tudo em volta…

Hummm, talvez não seja um círculo… Talvez seja uma espiral… Isso mesmo, uma espiral que me faz passar pelo mesmo ponto de compreensão mas num nível acima, onde mudarei minha percepção da realidade e despertarei fora da Matrix…

Uau! Captei! Meu aluguel atrasado não existe. Era tão-somente criação da minha mente. Uau, uau! É isso mesmo! Agora tudo faz sentido!

Obrigado, sacerdotes da Ilha de Páscoa. Vocês não imaginam como aquele aluguel atrasado estava me tirando o sono. Ufa. Agora só preciso convencer a proprietária do apartamento a dar uma voltinha no shopping. Ela precisa bater um papo com o Mago.

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Ricardo Kelmer – blogdokelmer.wordpress.com

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LEIA TAMBÉM

> O redemoinho do fim do mundo - É provável que estejamos à beira de um grandioso marco evolutivo, onde a humanidade alcançará o clímax dessa aceleração das transformações

> Meu fantasma predileto – Diziam que era a alma de alguém que fora escritor e que se aproveitava do ambiente literário de meu quarto para reviver antigos prazeres mundanos

> Alma una (clipe musical) - Na doce magia da noite, minha alma é noiva desse ritual

> Quando os homens não voltam pra casa – Javier Viegas é tarólogo e resolve problemas do Além. Dessa vez uma moça deseja reencontrar o namorado que foi supostamente atraído por uma bela princesa para dentro de um quadro de parede.

> O menino e o feminino misterioso – Esse instante numinoso em que o Feminino Sagrado mostrou-se pra mim, sob a meia-luz de seu imenso mistério

> O presente de Mariana – A cabocla Mariana, entidade da umbanda, propõe noivado ao moço Dedé. Noivar com ela significa conseguir estabilidade financeira mas em troca ela exige fidelidade absoluta

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Xamanismo de vida fácil

março 11, 2011

Ricardo Kelmer 2002

A tradição xamânica dos povos primitivos experimenta uma espécie de retorno, atraindo o interesse de pesquisadores e curiosos – e desvirtuando a essência da coisa

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– Lembra do Xamanismo? Pois é, caiu na vida fácil. Dia desses ele estava lá na Vênus Lilás, todo se oferecendo!

Quem diria… O antigo sistema das sociedades primitivas, que girava em torno do xamã e sua técnica do êxtase, é o novo xodó dos místicos de fim de semana. Agora espaços esotéricos oferecem cursos de xamanismo e muitos até formam xamãs. É como fazer um curso para tornar-se gênio.

O xamanismo, a rigor, é um fenômeno religioso originário de sociedades primitivas da Ásia central e siberiana e que tem no xamã o centro da vida mágico-religiosa da comunidade. Por dominar as técnicas do êxtase e ser capaz de acessar mais facilmente estados especiais de consciência e, com isso, transitar com fluidez pelas várias dimensões da realidade, aos xamãs era atribuída a competência de intermediar o mundo físico e o espiritual, usando o conhecimento adquirido nas incursões ao além para ensinar, curar, realizar atos milagrosos e entreter os membros da comunidade. O xamã encarnava em si as funções de professor, sacerdote, feiticeiro, médico e muitas vezes poeta e artista.

Nessas sociedades não havia curso de fim de semana para formação xamanística. Excluindo-se raras exceções, alguém se tornava xamã por vocação natural: o indivíduo era simplesmente compelido a aceitar o fato, mesmo a contragosto. Era comum também a transmissão hereditária do ofício. Em qualquer das vias, antes de ser reconhecido como xamã, o indivíduo (em geral homem) inevitavelmente passava por um delicado e doloroso processo de iniciação que podia ser desencadeado naturalmente por uma doença ou sistematicamente ritualizado sob orientação de um xamã experiente. Isso permitia ao futuro xamã efetuar uma notável reintegração psíquica, aflorando suas potencialidades e preparando-o convenientemente para as funções que desempenharia.

Não pense que essa preparação era algo, digamos, festivo. Longe disso. Como todo verdadeiro processo de iniciação, nesse também havia dúvidas, temores e sofrimentos difíceis de suportar. O futuro xamã experimentava a morte e a ressurreição místicas, padecendo terrivelmente sob os horrores de seu inferno íntimo para depois emergir à vida cotidiana sobrevivido e triunfante, mais sábio e mais forte. Somente se submetendo a todos os rigores desse processo de morte e renascimento pessoal é que o indivíduo podia se tornar um xamã.

Para nós, ocidentais civilizados, entendermos melhor o que se convencionou chamar xamanismo, é preciso ter sempre em mente que os antigos compreendiam a Terra como um ser vivo, dotado de uma espécie de inteligência e vontade própria, e os seres humanos, assim como animais, plantas e minerais, eram parte integrante do imenso organismo planetário, todos igualados em importância. Mais que um ser vivo, entretanto, a Terra era a Grande Mãe, que gera e nutre todas as suas criações com infinito amor, ensinando e guiando os seres humanos vida afora. Assim sendo, a Natureza inteira era algo sagrado e desrespeitar suas leis era atentar contra a própria vida, contra toda a comunidade e contra a Sagrada Mãe.

O xamã, nesse contexto de espontânea interação com a Natureza, é alguém dotado de poderes especiais para manter-se num contínuo estado de profunda comunicação com o espírito da Terra, a quem jurou obedecer e defender até o último de seus dias. Como se possuísse antenas hiper-sensíveis, o xamã está intimamente conectado à alma da Terra e por isso vive em si mesmo o equilíbrio vital do planeta, imperceptível à maioria: se a Terra adoece, ele adoece também.

Em reconhecimento à sua lealdade e reverência, a Grande Mãe põe à disposição do xamã segredos do mundo animal, vegetal e mineral, para onde ele, em espírito, vai frequentemente em busca de informações úteis ao bem-estar da comunidade. Quanto mais ele sabe, mais servo se torna. Quanto mais se anula, mais ele pode.

Em contraste com a humildade espiritual desses antigos guardiães da tradição xamânica, muitos dos que hoje se dizem xamãs ostentam o título feito um estandarte, anunciando as maravilhas que têm para oferecer. Se de fato entendessem o que significa a função a que tanto se pretendem, jamais vestiriam a antiga tradição com roupas tão vistosas e muito menos a exibiriam em poses tão constrangedoras nas vitrines coloridas de seus cursos.

xamanismo moderno

Esse milenar sistema místico-filosófico-religioso existiu em inúmeras sociedades de todo o planeta, inclusive na América e no Brasil, onde os pajés são os xamãs. O advento da civilização, invadindo e exterminando sem consideração as culturas nativas, empurrou os resquícios da tradição xamânica para os escombros do que restou de suas sociedades, onde mantiveram um fio de vida suficiente para chegar aos dias de hoje.

Atualmente a tradição xamânica dos povos primitivos experimenta uma espécie de retorno, atraindo o interesse de pesquisadores e curiosos. Apesar de atrair também, como não poderia deixar de ser, os mesquinhos interesses comerciais da mentalidade consumista, por trás disso tudo pode-se captar um legítimo anseio das pessoas em religar-se a antigos valores esquecidos por nosso mundo civilizado: uma vida mais simples e fluída, em harmonia com as leis e os ciclos da Natureza e respeitando todas as formas de vida. Num mundo onde a racionalidade científica impõe sua ditadura aos pensamentos e a tecnologia nos torna escravos de máquinas cada vez mais autônomas, essa busca por resgatar tradições ligadas à Terra nada mais é que uma reação natural da espécie humana que começa a entender, finalmente, o imenso perigo que criamos ao nos mantermos desconectados da alma do planeta e unilateralizados em nosso racionalismo exagerado que despreza a sabedoria natural da vida.

É um anseio genuíno, sim, que faz com que as pessoas, na melhor das intenções, busquem satisfazê-lo em livros, cursos e vivências. É uma boa notícia. Infelizmente, se a facilidade das comunicações possibilitou a disseminação rápida e maciça da informação, por outro lado trouxe a tendência à superficialização de todos os temas. Bilhões de informações circulam a todo instante mas o conteúdo da maioria não enche uma colher. É como estar numa imensa feira de produtos, cercado de vendedores, ofertas e promoções por todo lado: na urgência de adquirir algo, as pessoas não têm discernimento suficiente para enxergar além da embalagem.

Com o xamanismo ocorre algo parecido. Confusas na imensa feira da salvação, as pessoas tendem a comprar qualquer produto que lhes prometa coisas diferentes, novos universos, sensações excitantes. Dessa forma vão a vivências, frequentam cursos, batem tambor, visualizam seu animal de poder e se dizem praticantes de xamanismo quando, na verdade, estão apenas saltitando pelos aspectos mais superficiais da antiga tradição, feito alguém que molha os pés nas ondinhas que morrem na praia e nunca experimenta, de fato, o que é o mar.

Sei que é impossível reproduzir atualmente as condições em que floresceram as tradições xamânicas. O mundo mudou, as circunstâncias são diferentes. Nossa cultura se desfez dos antigos ritos de passagem e a maioria dos que ainda mantemos perdeu o significado mais profundo. A mentalidade civilizatória nos desconectou do espírito da Terra e hoje parecemos um bando de zumbis a vagar pela vida à procura do sentido que um dia tanto enriquecia e guiava nossa existência. Não temos que voltar ao passado: precisamos é reencontrar o caminho perdido e vencer o atual impasse evolutivo.

Atualmente as festas chamadas raves, que se proliferam em países do mundo inteiro, parecem incorporar aspectos da antiga tradição xamânica, ainda que distante do contexto original. Embalados pela música eletrônica que remete às hipnóticas batidas tribais e pelo êxtase provocado pelas drogas sintéticas, as pessoas alteram o funcionamento normal da mente e do corpo e vivenciam intensas experiências, dançando e se abraçando a noite inteira. Por proporcionar isso, muitos dos caras que controlam a trilha sonora das festas aceitam o rótulo de tecno-xamãs – mais uma ridícula deturpação da tradição.

As raves são um fenômeno recente, merecedor de análises mais aprofundadas. Porém, à primeira vista, me chamam a atenção o êxtase grupal provocado pela combinação de música e droga, a presença de fogueiras e o fato de serem comumente realizadas longe dos edifícios das grandes cidades, mais próximas à Natureza. Parecem ser uma manifestação atual das antigas tradições, feito uma necessidade que emerge, espontânea mas distorcida, das profundezas da psique coletiva.

A antiga tradição está de volta. É uma boa notícia. Mesmo deturpada pela maioria das pessoas ela ressurge, atravessando os séculos, para nos lembrar que precisamos urgentemente integrar em nossa consciência os antigos valores e, com isso, nos tornarmos seres mais inteiros. Precisamos nos reconectar ao espírito da Terra, voltando a tratá-la com reverência e gratidão, antes que atinjamos o fatídico ponto onde a Grande Mãe, exaurida em suas forças, já não pode mais nutrir seus filhos.

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Ricardo Kelmer – blogdokelmer.wordpress.com

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LEIA TAMBÉM

> Minha noite com a JuremaNessa noite memorável fui conduzido para dentro de mim mesmo pelo próprio espírito da planta, que me guiou, comunicou-se comigo, me assustou, me fez rir e ensinou coisas maravilhosas

> A Jurema e as portas da percepção (VIP)Relato detalhado da experiência narrada em Minha Noite com a Jurema. Exclusivo para Leitor Vip.

> Xamanismo de vida fácil – A tradição xamânica dos povos primitivos experimenta uma espécie de retorno, atraindo o interesse de pesquisadores e curiosos e desvirtuando a essência da coisa

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Comentarios01COMENTÁRIOS
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01- Sou fã dos seus escritos, inclusive vi hoje matéria no jornal O POVO fazendo um paralelo entre as raves e o xamanismo, muito legal. Em 2001 fiz um artigo publicado no antigo site do UNDERGROOVE, sobre Musica Eletrônica vs Xamanismo, e me identifiquei com o que vc expôs na matéria. Um abraço. Angel, Fortaleza-CE – ago2007

02- Olá Ricardo, já havia lido seu texto, em abril ou maio deste ano, qdo estava pra entrar num desses cursos de xamanismo, promovidos pela Paz Géia no meu caso. Hj este texto saiu no Jornal O Povo em Fortaleza e por algum motivo uma amiga me mostrou dnovo via msn. Tenho a dizer q dos “10 Pilares” (ou módulos) que eles propunham no curso, apenas 3 eram iniciáticos e os outros se tratavam de reproduções de técnicas de livros como Medicina Vibracional, A Cura pela Energia e outras obras que já tenho certa prática efetiva em consultório como terapeuta integral (sou psicólogo, iniciado em Reiki e na tradição Rosacruz, trabalho com 4 tradições em massoterapia, Qi Gong e técnicas de visualização – este último recurso terapeutico rotulado de técnica neo-xamanica pela Paz Géia). Concordo com suas críticas, mas pondero sempre extremos e, pelo preço pago pelo curso, até que não foi tão ruim. De fato haviam os tais místicos de fim de semana, muito loucos por sinal… alguns narcisistas entusiastas… poderia me perder nessa crítica rotulando cada um que convivi no curso, inclusive algumas instrutoras não tão iniciadas… Mas tb conheci uma ou outra pessoa de grande valor, não por serem “esotéricas”, mas pela simplicidade e humildade com que buscava conhecimento e evolução espiritual em meio a tantos “escombros de nossa solidez”, em meio a evolução da mentalidade instrumental do último século, que parece “progredir” para uma vida ciborgue que transforma nosso potencial inato em dependencia material (por exemplo atrofiando potencial telepático para depender de satélites e toda cultura de virtualidade que cá em baixo se massifica nesse meio material de “comunicação em tempo real”; ou numa metáfora mais simples o de não precisarmos desenvolver nosso raciocínio fazendo contas de cabeça pela dependencia material de uma calculadora)…

Em sendo experimento vivo de seu texto, tenho a dizer (com conhecimento de causa) que a existência desses cursos tem sim um apelo material de grana para os que promovem (como qq promoção de culturas q convivem com dinheiro) mas quem investe nisso pouco se importa com esse apelo, pois tb estão investindo em algo maior. Acredito q certos cursos e pessoas têm agido de má fé, mas não são grupos peçonhentos como grupos políticos, pois têm outras “conduções” ou “influências” que os fazem preparar com dedicação tanto material. Além disso existem sim ritos iniciáticos que se adequam a nossa cultura nada pajé de ser… não haveria como sermos xamãs sem sermos “índios”, nativos de culturas q convivem com a natureza! Mas algumas culturas, fraternidades esotericas e outros grupos como UDV e Santo Daime tentam há muito, com algum sucesso (dependendo do interesse efetivo de quem se propõe adentrar conscientemente em outras dimensões) auxiliar os que sentem alguma ancestralidade nisso tudo… pajés, assim como toda comunidade humana, me parecem ser outros de nós mesmos… com grau e função evolutiva diferenciada certamente… O que vejo é que esses aparentes conflitos “de idade média” entre oq é sagrado e profano têm sido menos tumultuado q antes. Isso me soa como uma evolçução lenta, gradual e de quem realmente se interessa mais em buscar sua conecção com a unidade do universo do que em ser ou não alvo de gente oportunista afim de ganhar dinheiro. Não está em meu poder julgar a ingenuidade de quem perde dinheiro com oq não sabe utilizar, como pessoas q se abarrotam de coisas inuteis mas não conseguem parar de comprar… penso mais no ganho que cada ser humano, no limite de seu conhecimento de si, recebe ao investir num grupo e dele partilha oq lhe apraz, com quem se sente convidado à partilhar.

Agradeço de coração pela oportunidade que sua reflexão me despertou em repensar este momento de minha vida. Espero que aceite meus adendos com ternura. Lembremos que o Criticismo significa em sua origem “lançar luzes” e não meramente uma vã oposição pelo desperdício do gozo pela discussão. E foi justamente por sentir um bom equilíbrio crítico em seu texto q resolvi escrever. Meu adendo é apenas com referência aos “místicos de fim de semana”, que em nosso contexto evolutivo não merecem ser infantilizados por nosso inconsciente coletivo, pois pelo que vi (testemunho), alguns deles estão melhores que muita gente. Cordialmente. Rodrigo Sol, Fortaleza-CE – ago2007

03- kkkkkkkkkkkkkkkkkkkk ÓOOOOTIMO!!!!!!!!!!!!!!! Mônica Torres, Macaé-RJ – ago2011

04- Eita Kelmer… é de doer…rsrsrrs. Maria Sá Xavier, Niterói-RJ – ago2011

05- Passou da hora de alguém falar isso kkkkkkkkkkkkkkkkmaravilhoso seu texto, adorei!!!!!!! Silmara Oliveira, São Paulo-SP – ago2011



A noiva lésbica de Cristo

novembro 16, 2010

Ricardo Kelmer 2010

Se hoje a sexualidade feminina ainda apavora a mentalidade cristã, no século 17 ela era algo absolutamente demoníaco

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Benedetta Carlini foi abadessa de um convento no século 17 na pequena cidade italiana de Pescia. Era uma mulher mística e visionária, que ganhou fama por seus encontros sobrenaturais com Jesus Cristo e que em seus transes obrava milagres, sofria com estigmas em seu corpo e falava em várias línguas. Num de seus transes aceitou o pedido de Cristo e casou-se com ele em cerimônia realizada na capela do convento, diante de várias pessoas.

As autoridades eclesiásticas, desconfiadas, promoveram um inquérito, analisando detalhadamente o caso. Ao final, a investigação concluiu que a abadessa, na verdade, era vítima de enganações do Diabo, e revelou também que ela e sua ajudante, a jovem freira Bartolomea Crivelli, mantinham relações sexuais secretas no convento. Benedetta escapou da condenação na fogueira mas foi isolada na prisão do convento, onde ficou por 35 anos, até sua morte aos 71 anos.

A incrível história de Benedetta foi descoberta pela historiadora estadunidense Judith C. Brown no Arquivo do Estado de Florença. Impressionada com o material que encontrara, Judith o transformou no livro Atos Impuros – A vida de uma freira lésbica na Itália da Renascença, lançado em 1986. Numa ágil narrativa romanceada, Atos Impuros nos leva a acompanhar as investigações eclesiásticas sobre Benedetta, oferecendo-nos uma boa oportunidade de observar a vida social na Renascença e o cotidiano dos conventos no século 17. E também expõe o modo cruel que a Igreja Católica tinha de lidar com duas questões que até hoje lhe são bastante embaraçosas: a espiritualidade e a sexualidade femininas.

Religião é controle. Uma prova disso é que os líderes religiosos tendem a desestimular o contato direto das pessoas com a divindade pois isso desestabiliza a hierarquia, desvalorizando o papel intermediador dos sacerdotes. Outra forma de controle religioso é a repressão da sexualidade. Como o Cristianismo é uma religião de homens que têm pavor da natureza e do feminino, eles desde o início buscaram reprimir e controlar a mulher, associando-a ao sexo pecaminoso. E ainda fazem isso até hoje.

Espiritualidade e sexualidade – o caso de Benedetta mexe nos dois vespeiros de uma só vez. Uma mulher que mantém uma intensa relação mística com Cristo a ponto de ser eleita por ele sua noiva, que obra milagres e se torna famosa e querida entre o povo era algo ameaçador demais para a estrutura de poder da Igreja, e ainda mais se essa mulher era uma abadessa e, para completar, lésbica. Se hoje a sexualidade feminina ainda apavora a mentalidade cristã, no século 17 ela era algo absolutamente demoníaco.

Apesar de toda a repressão do Cristianismo, o arquétipo do feminino livre manteve-se vivo na psique das mulheres e cada vez mais elas despertam para vivê-lo conscientemente em suas vidas. São mulheres que mantém sua própria relação com o sagrado sem se deixar prender por dogmas religiosos e vivem sua verdadeira sexualidade sem a culpa que a religião insiste em lhes impor. No século 17 a mulher livre foi presa e queimada viva. Hoje a religião não tem mais o mesmo poder de ditar o que as pessoas devem ser e como devem se relacionar com o divino. É a liberdade vencendo o medo do inferno.

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Ricardo Kelmer – blogdokelmer.wordpress.com

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O LIVRO

A edição de Atos Impuros que li é a da editora Brasiliense, 1987. Não encontrei nenhuma capa da edição brasileira em boa definição. Mas encontrei a capa de uma edição em italiano e outra em inglês.

Há edições em português disponíveis pra compra no site Estante Virtual.

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LEIA TAMBÉM

> Estrela da música cristã anuncia que é lésbica (oglobo.globo.com, 13.04.10)
> Lésbica é eleita bispa na Suécia (estadao.com.br, 09.11.09)
> Lésbicas se casam em igreja evangélica do Rio (
meionorte.com, 08.09.10)
> Bissexualidade feminina não é só uma fase de indecisão (oglobo.globo.com, 17.01.08)
> Ateus.net – Ateísmo e liberdade, humor, chat e muito mais
> ATEA – Assoc. Bras. de Ateus e Agnósticos – Vale a pena conhecer. Ou você tem medo de mudar de ideia?

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MAIS SOBRE SEXUALIDADE FEMININA

> Cabaré Soçaite – Uma festa de sensualidade – Se você tem medo do desejo feminino, é melhor não ir…

> O íncubo – Íncubos eram demônios que invadiam o sono das mulheres para copular com elas – uma difundida crença medieval. Mas… e se ainda existirem?

> Lolita, Lolita – Ela é uma garotinha encantadora. E eu poderia ser seu pai. Mas não sou…

> A gota dágua – A tarde chuvosa e a força urgente do desejo. Ela deveria resistir mas…

> A torta de chocolate – Sexo e chocolate. Para muita gente as duas coisas têm tudo a ver. Para Celina era bem mais que isso…..

> O mistério da cearense pornô da California – Uma artista linda e gostosa, intelectual e transgressora, que adora perversões e, entre uma e outra orgia, luta pela liberação feminina

> Bettie Page, nós te amamos – Ela é um ícone da moda, da arte erótica e também do universo BDSM, inspirando artistas e fetichistas

> Vocês Terráqueas – Seduções e perdições do feminino – Livro de contos e crônicas sobre a mulher

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AFINIDADES

> Entrevista: Fundador de grupo de ‘cura de homossexuais’ que se assumiu gay – Entrevista com Sergio Viula para o site eleicoeshoje.com.br, 25.10.11

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01- Escreve demaaaaisss!!! E como é bom ler seus textos impregnados de energia da deusa mãe!!! Continue prenhe de luz de inspiração, caro irmão terráqueo!!! Bjs. Vou ver se escapo de um outro compromisso e vou pro Cabaré, que lá, sim, é lugar de mulher séria!!! Bjsss. KK, Fortaleza-CE – nov2010

02- Kelmer, texto excelente. Obrigada. Ana Paula, Fortaleza-CE – nov2010

03- Positivamente concordo com você. A sexualidade feminina ainda não se descobriu de todo, principalmente em sua relação com o sagrado. E até em nós mesmas ainda há restrições que impedem essa relação sagrada de se manifestar. Abadessa? Uma bruxa,isto sim, em sua essência na melhor acepção deste termo. A melhor acepção possível. Relações com o sagrado ATRAVÉS do sexo. Isto sim!Quando todas as mulheres e homens descobrirem isto serão de fato felizes. Fátima Braga, Recife-PE – nov2010

04- Kelmer, é a própria história “verdadeira” da beata Maria de Araújo. A mesma contada por ela nos depoimentos ao santo ofício, registrados no inquérito contra o padra cícero. Parece que são várias, não digo lésbicas, mas beatas que casavam com cristo. beijos. Veronica Guedes, Fortaleza-CE – nov2010

05- Maravilhosa crônica, Kelmer! =) beijos. Larissa Azevedo, Natal-RN – nov2010

06- Pois é, criatura daimônica, Benedetta, noiva de Cristo, era ANDRÓGINA. MEZZO MOGLIE, MEZZO UOMO. A primeira vez que li sobre ela fiquei fascinada. Que sofrimento atroz o dela, né RK? Que atrocidade separar as amantes! A separação dos AMANTES é um dor excruciante. Dor Bizarra. Patrícia Lobo, Salvador-BA – nov2010

07- Oi Ricardo, Ja ouvi falar dessa história pela parte de meu pai, afinal somos Carlini e creio que Benedetta seria uma de nossas primeiras ansestrais. Conhecidência interessante! Parabéns pelo Blog, Um abraço. Jacqueline Nappo Carlini, São Paulo-SP – nov2010


Meu fantasma predileto

agosto 1, 2010

Ricardo Kelmer 1996

Diziam que era a alma de alguém que fora escritor e que se aproveitava do ambiente literário de meu quarto para reviver antigos prazeres mundanos

Alguém aí pode me dizer onde estão os fantasmas? Onde foram parar as almas penadas que até outro dia rondavam os cemitérios em noite de lua? E aqueles bichos horrendos que vinham do canto escuro aterrorizar as crianças que desobedeciam aos pais, onde se meteram? Sumiram todos. De repente não existem mais. Parece que não há mais lugar para eles nesse mundo de assaltantes, sequestradores, assassinos e ladrões de órgãos. Em vez de alma penada, gangues que roubam tênis de crianças e terroristas religiosos que explodem prédios e espalham gases letais em nome de seu deus.

Nas cidadezinhas do interior talvez ainda seja possível encontrar algum fantasminha, resistindo bravamente à invasão dos novos terrores coletivos. Os fantasmas certamente se sentem constrangidos em viver num mundo onde ETs sanguinários estão infiltrados entre nós. Como rivalizar com um bicho gosmento que desce de poderosas naves e implanta chips na cabeça das pessoas para monitorar a raça humana? Isso sim é maldade. Assustar pessoas no silêncio das madrugadas é besteira.

Lá em casa morava um fantasma. Verdade. Não tenho foto dele mas pergunte para qualquer um lá de casa e terá a confirmação. Ele se manifestava em meu quarto e já havia naturalmente se incorporado ao folclore da família. Diziam que era a alma de alguém que fora escritor e que se aproveitava do ambiente literário de meu quarto para reviver antigos prazeres mundanos, olha só.

Todos da casa já haviam escutado o som de minha velha Remington, tec-tec-tec no meio da madrugada. No outro dia, ao saberem que eu sequer dormira em casa, vinha a constatação: foi o fantasma novamente. Uau! Eu vibrava ao saber que ele aprontara mais uma. E assim ele (ou ela, vai saber) passou a fazer parte da família. E quando algum hóspede desavisado comentava que ouvira o som de uma máquina de escrever de madrugada, minha mãe então contava do fantasma, tão natural como se fosse um membro da família. Todos tinham certo medo, é claro, e jamais entravam sozinhos em meu quarto à noite. Mas durante anos, ao almoço, a família reunida naqueles sagrados desentendimentos, ele foi garantia de humor e descontração.

Eu, particularmente, adorava a ideia desse insólito companheiro de quarto e não sentia medo. Muitas vezes pedi-lhe encarecidamente que aparecesse mas nunca vi nem escutei qualquer coisa. Vai ver ele não se sentia muito à vontade com minha presença. Um belo dia sumiu. Simplesmente sumiu, ninguém mais escutou o tec-tec-tec de suas visitas. Várias versões surgiram ao almoço: ele cansou de tentar fazer-me um escritor de sucesso, ela não aturava qualquer das minhas namoradas etecétera e tal…

Minha versão, durante um bom tempo, era que meu fantasma de estimação foi embora porque não gostou quando troquei minha máquina de escrever por um computador. Imaginava que a tecnologia o havia expulsado definitivamente deste mundo cada vez mais cheio de teclas e senhas digitais. Mas depois entendi que isso seria subestimar a classe dos fantasmas. E assim voltei à estaca zero e o mistério do sumiço do fantasma prossegue até hoje.

Quem diria que um dia sentiríamos saudade dos medos da infância… No passado os fantasmas nos assombravam a ponto de nos impedir de entrar sozinhos num quarto escuro e nos faziam correr léguas sem coragem de olhar para trás. Hoje em dia eles talvez estejam tão confusos quanto nós, tentando entender o que foi feito daquele mundo em que eles brincavam de nos assustar e nós adorávamos sentir medo.

Hoje nosso medo não tem graça nenhuma.

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Ricardo Kelmer – blogdokelmer.wordpress.com

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> Este texto integra o livro A arte zen de tanger caranguejos

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LEIA NESTE BLOG

> Piratearam meu livro novo. Eu rio ou choro? – Já que tem cópia pirata solta por aí, prefiro que você, que é leitor do meu blog, leia a pirata certa

> Meu fantasma predileto – Diziam que era a alma de alguém que fora escritor e que se aproveitava do ambiente literário de meu quarto para reviver antigos prazeres mundanos

> O escritor grávido – Será um lindo bebê, digo, um lindo livrinho, sobre o mais belo de todos os temas

> Você vem sempre aqui? (1) – Os termos que trazem as pessoas ao Blog do Kelmer

> O dilema do escritor seboso – Certos escritores amadurecem cedo. Tenho inveja desses. Porque nunca viverão o constrangimento de não se reconhecerem em suas primeiras obras

> Kelmer no Toma Lá Dá Cá – Aqueles aloprados moradores do condomínio Jambalaya descobriram meu livro

> O pop pornográfico de RK (André de Sena) – Pode-se afirmar que Kelmer já é dono de um estilo próprio (no fundo, uma das almejadas metas de todo escritor)

> Pesadelos do Além – O pior pesadelo prum escritor é ser psicografado. Ou melhor: ser mal psicografado

> O encontrão marcado – Fechei o livro, fui até a janela e olhei pro mundo lá fora. E disse baixinho, com a leveza que só as grandes revelações permitem: tenho que ser escritor

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01- Achei muitissimo bem escrito, tao engracado e tao triste ao mesmo tempo, e verdadeiro. SIMPLESMENTE O-TI-MO! Ana Claudia Domene, San Diego-EUA – jun2006


O herói e a princesa

março 26, 2010

Ricardo Kelmer 1999

Para Ayrton Senna, herói do Reino da Terra

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Seu destino, estava escrito, seria ser um herói, nada menos que isso. Estava escrito: ser o melhor dos guerreiros, herói de todos os reinos.

Mesmo assim ele teve que lutar como todos os outros, enfrentar sua própria guerra. Teve de viver, dentro de si mesmo e por toda a vida, a mais difícil das batalhas: a autossuperação. Teve de várias vezes visitar a beira do abismo e caminhar sobre o fio que separa os mundos, morrer e renascer e morrer de novo e novamente renascer até que finalmente estivesse preparado para cumprir o destino que lhe fora reservado. O destino estava marcado em sua alma, sim, mas ele sabia que teria de suar e sangrar bastante para realizá-lo.

Poderia ter recusado? Não. Recusasse e o peso de tal abdicação lhe seria tão insuportável que o único remédio seria a morte. Por isso a morte espreitava sua vida, a linda princesa de seus sonhos, ela e seu vestido branco. E ele logo aprendeu a não se assustar à toa. Por isso é que, aos que os deuses marcam o destino, nada resta senão cumpri-lo.

E ele o cumpriu com a arte e nobreza dos grandes cavaleiros. Tomou para si a bandeira da superação e a fixou no alto de sua lança. E a conduziu velozmente pelos reinos da Terra, erguendo-a bem alto para que nós todos, guerreiros de todos os reinos, nunca esquecêssemos que, da mesma forma que ele, também podemos vencer nossos limites pessoais. O grande inimigo não é do outro reino. Não, ele mora dentro de nós e se esconde por trás do medo de falhar. Ele falhou, muitas vezes, você lembra, mas cada falha logo se transformou em aprendizado e adiante era mais uma arma poderosa com que ele abatia o inimigo.

Um dia ela surgiu especialmente bonita, ela e seu vestido branco, a princesa de seus sonhos. Surgiu à sua frente, bem à beira do abismo, sorridente e compreensiva. Ele não sentiu medo. Por um segundo ainda pensou em voltar, despedir-se, dizer algo para a família, os amigos, a namorada. Mas não. Tudo já havia sido dito, sua própria vida o dissera.

– Esta noite sonhei contigo – ele falou, um pouco triste mas tranquilo. – Estavas tão linda que tive a certeza que virias me buscar.

Ela então tomou sua mão e juntos caminharam pela última vez pelo fio do abismo, ele admirando o vento nos cabelos dela, o porte digno que tanto inspirara sua vida. Mais adiante, onde o caminho faz uma curva para a esquerda, ele sumiu. Dizem que se transformou em vento e que nas manhãs de domingo visita os reinos da Terra para soprar em nossa lembrança.

Comigo ficou sua bandeira, que muitas vezes me é tão pesada que penso em desistir, que não sou digno, que definitivamente não nasci para herói. Mas então lembro dele, lembro dos momentos em que parava e ficava em silêncio, buscando em sua própria mente o caminho mágico da vitória, e então ergo a bandeira novamente, por ele, por mim, por nós todos, heróis de nossas próprias guerras.

As crianças ouvem histórias dele, admiram-se de seus feitos e em seus olhos parece rebrilhar o aço de sua lança. Pedem para contar de novo de como ele venceu quando era impossível. Mas ele não sabia que era impossível, explico, por isso que foi lá e venceu. Elas escutam com seus olhinhos brilhando e depois as ponho para dormir. Cubro-as bem porque faz frio, elas que são o futuro e que mais tarde lutarão por nós. E depois vou deitar, cansado de minha luta, a bandeira que carrego encostada à parede, esperando pela nova batalha de amanhã. Vou deitar e sonhar com uma linda princesa, a princesa que a mim um dia também virá buscar, quando chegar a minha hora.

Quando ela surgir, espero ir-me da mesma forma que ele foi: com a dignidade e o orgulho dos que cumpriram seu destino.

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Ricardo Kelmer – blogdokelmer.wordpress.com

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> Este texto integra o livro A Arte Zen de Tanger Caranguejos

> Um mito a 300 km por hora - O mito da jornada do herói na trajetória de Ayrton Senna
É inquietante pensar assim mas tudo soa como uma… predestinação. Quando lembramos que Ayrton era um dos que mais lutavam pela segurança dos pilotos, que ele morreu numa cidade de nome Ímola, no dia do trabalhador e ao vivo para o mundo inteiro, tudo isso reveste sua morte de um significado mitológico de sacrifício, uma autoimolação.

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em italiano

L´EROE E LA PRINCIPESSA

Ricardo Kelmer

Per Ayrton Senna, eroe del Regno della Terra

Il suo destino era scritto, sarebbe stato un eroe, niente meno che questo. Era scritto: essere il migliore dei guerrieri, eroe di tutti i regni. Anche così dovette lottare con tutti gli altri, affrontare la sua propria guerra. Dovette vivere, dentro se stesso e per tutta la vita, la più difficile delle battaglie: l’autoseparazione. Dovette varie volte arrivare sull’orlo dell’abisso e camminare sul filo che separa i mondi, morire e rinascere e morire di nuovo e un’altra volta rinascere fino che finalmente fosse preparato per compiere il destino che gli fu riservato. Il destino era marcato nella sua anima ma lui sapeva che avrebbe dovuto sudare e sanguinare abbastanza per realizzarlo.

Avrebbe potuto rifiutare? No. Se lo avesse rifiutato il peso di tale abdicazione gli sarebbe stato tanto insopportabile che l’unico rimedio sarebbe stata la morte. Per questo la morte scrutava la sua vita, la bella principessa dei suoi sogni, lei e il suo vestito bianco. E lui presto apprese a non spaventarsi a caso. Per questo a coloro che gli dei marcano il destino, non resta altro che compierlo.

E lui lo ha compiuto con l’arte e la nobiltà dei grandi cavalieri. Ha preso per sé la bandiera dell’auto superazione e l’ha fissata nell’alto della sua lancia. E l’ha condotta velocemente per i regni della terra, ergendola ben in alto perchè tutti noi, guerrieri di tutti i regni, mai dimenticassimo che, nello stesso suo modo, potessimo vincere anche noi i nostri limiti personali. Il grande nemico non è dell’altro regno. No, lui vive dentro di noi e si nasconde dietro alla paura di fallire. Lui ha fallito, molte volte, tu ti ricordi, ma ogni fallimento si trasformò presto in apprendistato e in futuro era una arma poderosa in più con la quale lui abbatteva il nemico.

Un giorno lei sorse particolarmente bella, lei e il suo vestito bianco, la principessa dei suoi sogni. Apparse davanti a lui, proprio all’orlo dell’abisso sorridente e comprensiva. Lui non sentì paura. Per un secondo pensò anche di tornare, disperdersi, dire qualcosa agli amici, all’innamorata. Ma no. Tutto era già stato detto, la sua stessa vita l’aveva detto.

 Questa notte ho sognato con te – disse, un pò triste ma tranquillo. – Eri tanto bella che avevo la certezza che saresti venuta a cercarmi.

Lei intanto prese la sua mano e assieme camminarono per l’ultima volta per il filo del precipizio, e ammirando il vento nei capelli di lei, il comportamento degno che tanto ispirava la sua vita. Ma davanti, dove il cammino fa una curva a sinistra, lui uscì. Dicono che si trasformò in vento e che nelle mattine della domenica visita i regni della terra per soffiare in nostro ricordo. Con me è rimasta la sua bandiera, che molte volte mi è così pesante che penso di desistere, che non sono degno, che definitivamente non sono nato per essere eroe. Ma allora mi ricordo di lui, mi ricordo dei momenti in cui si fermava e restava in silenzio, cercando nella sua stessa mente il cammino magico della vittoria, e allora la ergo nuovamente, per lui, per me, per noi tutti, eroi delle nostre stesse guerre.

I bambini ascoltano le sue storie, si stupiscono delle sue vicende e nei loro occhi sembra brillare l’acciaio della sua lancia. Chiedono per raccontare di nuovo di come abbia vinto quando era impossibile. Ma lui non sapeva che era impossibile, spiego, per questo che è stato là e ha vinto. Loro ascoltano con i loro occhietti brillanti e dopo li metto a dormire. Li copro bene perché fa freddo, loro che sono il futuro e che più tardi lotteranno per noi. E dopo vado a riposare, stanco della mia lotta, la bandiera che carico accostata alla parete, aspettando per la nuova battaglia di domani. Andrò a sdraiarmi e a sognare di una bella principessa, la principessa che verrà anche a me a cercare un giorno, quando arriverà la mia ora.

Quando lei apparirà, spero di andarmene allo stesso modo in cui è andato lui: con la dignità e l’orgoglio di chi ha compiuto il suo destino.
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Traduzione: Isabella (Fã-Clube Ayrton Senna Stella – Itália)

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Comentarios01COMENTÁRIOS
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01- Caro Ricardo, Recebi sua crônica através da Cinthya França, e fiquei extremamente emocionada com ela. Sua crônica em homenagem ao Ayrton é belíssima e profunda, sem dúvida uma das melhores e mais belas coisas escritas sobre o Ayrton e o seu significado. Gostaria aliás de consultá-lo sobre a possibilidade de publicá-la em nosso site, pois será um verdadeiro presente para os fãs do Ayrton, principalmente no ano em que estamos homenageando o Ayrton e resgatando os seus valores. Você nos daria sua autorização? Também gostaria que você nos enviasse o seu endereço de correspondência, pois pretendo enviar-lhe uma lembrança do Ayrton. Fico no aguardo de seu retorno. Saudações cordiais. Viviane Senna, Instituto Ayrton Senna, São Paulo-SP – abr2004

02- você foi lá na Fanor, deu uma palestra sobre mito, por sinal, só fui entender melhor quando li o texto da princesa e do Airton Senna, pois tinha a idéia de que mito era tipo uma explicação para aquilo que não sabia, do mesmo jeito que usamos a palavra coisa quando não achamos a palavra certa… Dá para entender? Um exemplo: ah… chove porque (ops…??!!!) os deuses estão chorando!! Mas depois que li, vi a jornada do herói, poxa vi o quanto a palestra foi boa e que perdi muita coisa, poderia ter deixado de ser besta e ter tirado essa dúvida na hora, mas fiquei com vergonha (tudo bem, aprendi a lição). Bom… quando terminei de ler, fiquei assim, chocada, maravilhada, então entrei no site e passei a ler outros e estou adorando!! Sua escrita, sua forma de escrever, muito bacana, me atrai muito, parece que está do meu lado contando, muito bacana isso!! Bom… ganhou uma fã. Quando vim para cá novamente, tenta sempre passar lá na Fanor, ou me avise, pode ser?? Obrigada!!! Kelly Cristina, Fortaleza-CE – jul2007

03- O herói e a princesa… simplesmente, lindo! Cinthya França Oliveira, Fortaleza-CE – ago2011

04- O lado sensível dos machos: adoooro! Márcia Matos, Fortaleza-CE – ago2011

05- Valeu, Kelmer. Ayrton Senna is alive! Francisco Fontenele Veras Neto, Lourinhã-Portugal – mai2012


A mensagem de Avatar ao Povo da Terra

janeiro 28, 2010

Ricardo Kelmer 2010

Temos de compreender o que os antigos já sabiam e nós esquecemos: a Terra é um ser vivo e nós fazemos parte dele

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Muitos aplausos merece James Cameron. Seu filme Avatar é um grandioso espetáculo cinematográfico e certamente figurará como um marco na história das artes. Se o cinema já é uma experiência meio onírica, agora, com as técnicas de filmagem para a tecnologia 3D criadas por James Cameron, avançamos ainda mais dentro do sonho. Pena que, quando acaba o filme, estamos de volta ao nosso pesadelo terráqueo, do qual não conseguimos acordar.

A história de Avatar é simples: os humanos, interessados num valioso mineral existente na lua Pandora, invadem a terra de um povo humanóide que se defende bravamente e conta com a ajuda fundamental de um humano que vira a casaca e passa a lutar ao seu lado. O roteiro também não tem atrativos maiores e chega a ser previsível. Os personagens vestem os velhos modelões: tem o mocinho que se transforma ao longo da história, a mocinha que gosta dele, outro cara que gosta dela, o vilão malvado que morrerá no embate final…

Então Avatar teria como único destaque os efeitos especiais, aperfeiçoados pela nova tecnologia 3D? Não. O filme tem o grande mérito de focar com competência na questão ecológica e o faz em duas frentes: no visual exuberante do mundo de Pandora e na conexão mística de seu povo, os Na´vi, com a Natureza. Em Avatar, o 3D nos entretém e sempre rouba a cena, é verdade, mas a mensagem ecológica fica em nossa mente após o filme. E é isso que importa.

Toda a força do povo Na´vi vem do fato deles entenderem Pandora como um ser vivo que se comunica com tudo que nele vive, inclusive com os Na´vi, que não apenas o habitam mas são parte integrante desse ser. Eles vivem de forma harmoniosa com Pandora porque é assim que se sentem, unos com ela, e por isso sua relação com tudo que vive é de um respeito carregado de sacralidade, devoção e gratidão, como se fosse uma religião. Ops! Chegamos a uma das melhores coisas de Avatar: a religião dos Na´vi, se é que podemos chamar de religião, é a própria Natureza.

E aqui na Terra, fora da tela? Aqui seguimos em nosso pesadelo real. O Homo sapiens, a última espécie sobrevivente da linhagem hominídea, vive um momento evolutivo decisivo: ou se entende já com a Natureza ou então procura outro lugar pra morar, rua! Putz, por que chegamos a esse ponto lamentável? A resposta estaria prontinha na boca de qualquer Na´vi: Porque vocês se separaram da Natureza. E não poderemos discordar. É justamente porque nos entendemos separados da Natureza que desrespeitamos as leis do planeta onde vivemos e achamos que escaparemos impunes. Não escaparemos porque, sendo parte da Terra, ao destruí-la estamos também destruindo a nós mesmos.

Repensar a forma como nos percebemos em relação à Terra e a nós mesmos, é disso que precisamos, urgente. Temos de compreender o que os antigos já sabiam e nós esquecemos: a Terra é um ser vivo e nós fazemos parte dele. Se você pensou agora na teoria de Gaia, acertou, é isso mesmo. Segundo a teoria, a Terra é um superorganismo vivo, autoconsciente, dotado de inteligência própria, capaz de se autorregular e que, como tudo que vive, busca o equilíbrio interno. E nós, assim como tudo que vive na Terra, fazemos parte desse equilíbrio. Infelizmente, o Homo sapiens civilizado desprezou o que seus antepassados sabiam e o preço disso pode ser seu próprio extermínio, como outras milhões de espécies que não souberam se adaptar ao equilíbrio geral do organismo.

Religiões gostam de cultuar deuses distantes, entidades inalcançáveis, tudo muito longe daqui. Talvez seja o momento de focar mais perto em nossa busca pelo Sagrado. Se existe algum tipo de religiosidade que pode nos salvar a todos, ela se resume ao amor pelo planeta e pela humanidade. Uma religiosidade sem deuses, templos ou dogmas. Sem salvadores, pecados originais, guerras santas e sem dízimo. Uma religiosodade cuja salvação virá de uma profunda mudança de percepção – ou não virá.

Ah, mas como cuidar de algo que não é de ninguém e no qual todo mundo mete a mão? De que adianta alguns terem essa noção sagrada da Terra se outros não têm e esses continuam a desrespeitá-la? Chegamos à conclusão inevitável, que é a mensagem mais importante de Avatar: só cessaremos o desequílibrio do organismo geral se agirmos como organismo geral. Em outras palavras, é somente nos entendendo como um povo só, o Povo da Terra, que poderemos cuidar devidamente da Terra e de nós mesmos. Enquanto formos vários povos, vários países e várias religiões, não alcançaremos a visão do todo. Enquanto houver fronteiras, religiões e outras noções separatistas, não nascerá a unidade necessária pra agirmos em conjunto. Somente quando surgir o Povo da Terra é que haverá salvação pro Homo sapiens.

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Ricardo Kelmer – blogdokelmer.wordpress.com

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PALESTRA
Este texto é o resumo da palestra que farei no Encontro de Cinema, um dos eventos integrantes do 17o Encontro da Nova Consciência, festival de caráter multicultural que acontece desde 1992, durante os dias de Carnaval, na cidade de Campina Grande, na Paraíba.

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> Treiler do filme Avatar

AVATAR – FICHA TÉCNICA

Avatar
Diretor:
James Cameron
Elenco: Sam Worthington, Sigourney Weaver, Michelle Rodriguez, Zoe Saldana, Giovanni Ribisi, Joel Moore
Produção: James Cameron, Jon Landau
Roteiro: James Cameron
Fotografia:
Mauro Fiore
Trilha Sonora: James Horner
Duração:
150 min
Ano: 2009    País: EUA
Gênero: Ação   Distribuidora: Fox Film
Estúdio: Twentieth Century-Fox Film Corporation / Lightstorm Entertainment / Giant Studios
Classificação: 12 anos

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LEIA NESTE BLOG

> A mensagem de Avatar ao Povo da Terra – Temos de compreender o que os antigos já sabiam e nós esquecemos: a Terra é um ser vivo e nós fazemos parte dele

> Eles estão na fronteiraMilhões de maltrapilhos famintos, perseguidos políticos, criminosos cruéis, terroristas suicidas, narcotraficantes e trombadinhas invadindo os países e quebrando tudo, estuprando nossas irmãs, matando todo mundo, o caos absoluto

> A imagem do século 20Vimos nossa morada flutuando no espaço. Vimos um planeta inteiro, sem divisões. Não vimos este ou aquele país: vimos o todo

> Religião no esporte é gol contra – Se nada for feito, a religião invadirá os campos e quadras e o esporte virará uma cruzada entre os jogadores e seus deuses

> Pátria amada TerraÉ animador ver as novas gerações convivendo mais naturalmente com essa noção de cidadania planetária

> A ilha – Talvez uma ilha na verdade fosse uma… montanha! Sim, uma montanha com o pico fora dágua

> A imagem do século 20 – Vimos nossa morada flutuando no espaço. Vimos um planeta inteiro, sem divisõe. Não vimos este ou aquele país: vim o todo

> WikiLeaks e o nascimento da cidadania global – Quanto mais as pessoas se conectam à internet, mais elas se entendem como participantes ativos dos destinos do mundo e não apenas de seu país

> Uma bandeira diferente – As pessoas saudavam o nascimento do novo símbolo que emergia do fundo da alma de todos falando de paz e unicidade, de um mundo unido e sem divisões

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DICA DE LIVRO

- O buraco branco no tempo (Peter Russel) Editor Aquariana, 1992
As idéias deste livro inquietante vão além de muitas compreensões padronizadas que temos a respeito da vida. Elas nos levam a pensar sobre o tempo de uma forma diferente e nos faz exercitar uma nova maneira de nos percebermos, como espécie, dentro do contexto da evolução e do Cosmos. O físico Peter Russel, numa linguagem acessível, mostra porque a atual crise da humanidade é, na verdade, uma crise de percepção, e chama a atenção para o ritmo vertiginoso da atual evolução tecnológica. Podemos, neste momento, estar à beira de um decisivo salto de compreensão a respeito do tempo e de nós mesmos.

> Teoria de Gaia na Wikipedia

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Comentarios01 COMENTÁRIOS
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01- adorei o artigo sobre Avatar. Voce pegou o ponto central da questao… e o pior é que esta é uma sindrome bem comum desde uma escala pequena (ruas e pracas) ate a escala global. Temos esta ideia que somos meros visitantes, com bilhete pago e direito a faxineiro para colocar tudo de volta como era quando a gente sair… ahh tolos mortais :- ) … Desenvolvemos inteligencias incriveis em tantos campos da vida, mas ficamos tao especializados que estamos cada vez menos sabios para entender o todo e como nos relacionamos com este todo! Roberta Lossio, Recife-PE – jan2010

02- Sintetizadissimo! Depois faço um comentário mais aprofundado. Massa demais. Gabriel Sousa, São Paulo-SP – jan2010

03- êêê…a menina de olhos puxados ressuscitou tua consciencia cósmica!!! Edgar Powrczuk, Porto Alegre-RS – jan2010

04- Gostei muitíssimo. Houve uma sinapse em mim, por volta de dezembro, que me faz viver hoje, justamente, o fim da era separatista e o renascimento pela Unidade… Vou repassar, viu? Amei. Um cheiro. Ana Karla Dubiela, Fortaleza-CE – jan2010

05- Você é simplesmente DEMAIS. Gosto de tudo o que vc escreve, me identifico com seu pensamento holistico de vida e espiritualidade.Te adoro! Beijos. Sandra Neves, Belo Horizonte-Mg – jan2010

06- NÃO TENHO O MENOR INTERESSE NESSA BABAQUICE NEW AGE E MUITO MENOS NAS IDIOTICES PRETENSAMENTE LITERÁRIAS E PRETENSAMENTE ERÓTICAS QUE VC ESCREVE. DESCULPE-ME, MAS VC É UMA FRAUDE! QQ SER HUMANO CAPAZ DE DIZER QUE AVATAR “FICARÁ MARCADO NA HISTÓRIA DAS ARTES” SÓ PODE SE UM DÉBIL MENTAL OU NÃO ENTENDER ABSOLUTAMENTE NADA DE CINEMA OU ARTE. Marcos K, São Paulo -SP – jan2010

07- Que liiindo!!! Não tinha vontade nenhuma de ver este filme, mas este seu artigo me convenceu. É deste Ricaredo que eu gosto, quando fala sério, do universal. Os dois últimos parágrafos estão divinos. Parabéns e muito sucesso nesta palestra do Encontro da Nova Consciência. Muito obrigada. Até que enfim uma luz no fim do túnel. Gilvanilde Oliveira Falcão, Fortaleza-CE – jan2010

08- Amei a cronica sobre a visao de Avatar. Vc ja me fez despertar duas visoes diferentes de filmes: Matriz e agora Avatar. eu amei e ja repliquei. Fabiano Brilhante, Fortaleza-CE – jan2010

09- Todo verdadeiro Xamã é profundamente RELIGIOSO no sentido original e etimológico do que significa ser religioso. Ele e a Natureza são um só. O Espírito Católico/Javético DESLIGA e o Espírito Xamã RELIGA. Hey xamã nordestino!!!!!, Me likes muitão tua ALMA. Tua PANDORA/HELENA/SHERAZADE/PROSTITUTA SAGRADA… Patrícia Lobo, Salvador-BA – jan2010

10- Ainda não assisti ao filme, mas depois dessa crônica, desse final de semana não passa! Mônica Burkleward, Recife-PE – jan2010

11- Caro amigo, é sempre um prazer compartilhar esta percepção de unicidade e de – SINTO-ME FELIZ EM USAR ESTA PALAVRA QUE HÁ TEMPOS EVITO – religiosidade. Sim Na’vi poderia ser nossa Gaia. Somos uno e estamos conectados com o planeta, não compreender isso é buscar o próprio fim. Também tenho feito algumas palestras sobre o tema, e vinculado a educação a distância nesse paradigma de integração. José Lins Jr., Juazeiro do Norte-CE – jan2010

12- O próprio filme, a tecnologia, o cinema como arte, são separações/criações de algo do humano que não estão na natureza. Nós não somos naturais, desde a metáfora da “saída do paraíso”. Não estamos como água na água, como os outros seres vivos, como dizia o George Bataille. E também Hegel: “o homem é a doença do animal”. Diante disso, a única saída é nos conscientizarmos do nosso alto poder destrutivo, inclusive contra nós mesmos e procurarmos soluções de controle e auto gestão pela força, que é a única coisa que é respeitada. Direito, justiça e leis, como coação, desde Kant. O problema é que o capitalismo se tornou maior que os Estados e a sua possível força. A coisa é muito complexa. Adianta o que cada um pode fazer e que, de certa forma, lentamente demais, mas simplesmente impossível de ter-se visto há poucos anos atrás, o discurso ecológico está aí, nem que os que não queiram, que vão utilizá-lo politicamente, não o queiram. O discurso ecológico é o velho silêncio da morte. Contra a morte, ninguém pode, e é isso que acontecerá com o planeta e com a raça humana. Diante da morte, própria, dos amados e odiados, o “povo da terra” vai ter que se unir. Se há alguma coisa ainda natural para o homem é a morte. Então, unam-se “o povo da morte”. Retornarão para a terra, “metafóricaliteralmente”….. Abraço, do amigo. Ronald Paula, Fortaleza-CE – jan2010

13- Adorei, querido! Vou reenviar para meus amigos!!!!! Liz Cristal, São Paulo-SP – jan2010

14- Adorei!!! Linda Mascarenhas, Fortaleza-CE – jan2010

15- Parabens Ricardo pelo seu blog. Maria Christina, Brasília-DF – jan2010

16- Bem, gostei bastante desta mensagem pois olha, assisti ontem a noite o filme Avatar… Muito lindo. Você tem toda razão, é tudo isso e mais um pouco. Realmente a mensagem ecológica fica na memória de quem assisti o filme, e para os mais sensíveis, fica ainda a consciência buscando algo a fazer em prol da natureza. Parabêns, esteja em Paz, sucesso em sua vida. Jaqueline Lima, Ariranha-SP – fev2010

Adorei, querido! Vou reenviar para meus amigos!!!!!Adorei, querido! Vou reenviar para meus amigos!!!!!

Mariana quer noivar

janeiro 24, 2010

Ricardo Kelmer 2010

Você abdicaria das relações amorosas em sua vida em troca de dinheiro ou sucesso na carreira?

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Em 1991, quando eu morava em Manaus, conheci uma entidade da umbanda que me causou forte impressão: a cabocla Mariana. Anos depois escrevi um conto sobre ela, O Presente de Mariana, que tá em meu livro Guia de Sobrevivência para o Fim dos Tempos, publicado originalmente em 1997. É um dos meus contos de que mais gosto.

A crença em Mariana adquire nuances diversas dependendo da região do país mas a versão à qual fui apresentado conta que Mariana foi encantada aos 17 anos e meio, tem a pele branquinha, olhos azuis e cabelo ruivo cor de telha, é bonita, graciosa e brincalhona, dá conselhos gerais aos que a procuram mas sua especialidade, digamos assim, é noivar com os homens. Noivar com Mariana significa fazer um pacto com a entidade: ela ensina ao homem a ter sucesso nos negócios mas, em troca, exige exclusividade em sua vida. Isso significa que o noivo jamais poderá ter qualquer outra mulher pois Mariana simplesmente não permitirá.

Há vários aspectos interessantes envolvidos na crença. O tema fáustico da venda da alma, por exemplo, é imediatamente visível em Mariana. É aquela velha história, bem conhecida de nós pobres mortais: que preço estamos dispostos a pagar pelo que desejamos conquistar? Você abdicaria das relações amorosas em sua vida em troca de dinheiro ou sucesso na carreira? Num mundo onde o que importa é ser alguém, mas que seja alguém rico e famoso, muitas pessoas vendem suas almas nesse sentido, priorizando os negócios e a carreira em detrimento de suas relações amorosas, o que as leva a errar por um sem-fim de relacionamentos insatisfatórios. Vencedor nos negócios, infeliz no amor.

Fazendo uso agora da psicologia arquetípica, vemos em Mariana uma versão curiosa do arquétipo da menina-mulher, aquela que, com sua irresistível mistura de inocência, encanto e malícia, seduz os homens e os arrasta pelos redemoinhos das loucas paixões inconsequentes. Mariana seduz, sim, mas o faz usando um tipo de sabedoria de ordem racional e prática que costuma interessar aos homens: ela os ensina a ganhar dinheiro. O noivo de Mariana tem, então, sua energia criativa direcionada pro sucesso profissional com tal intensidade que, de fato, ele o consegue, ou seja, Mariana cumpriu sua parte. O pacto funcionou.

Porém, se por um lado Mariana tem essa sabedoria pra ofertar, por outro lado ela é uma adolescente geniosa, ciumenta e possessiva. O noivo de Mariana não escapará de seus caprichos. Focado no reino dos negócios, ele adquire a sabedoria racional necessária pra se realizar profissionalmente mas no reino dos relacionamentos ele possui a idade de sua noiva, 17 anos e meio, uma espécie de limbo evolutivo, um nem-lá-nem-cá da maturidade psicológica onde a ingenuidade, a possessividade e os caprichos infantis não dão espaço a uma relação adulta e sadia. Preso num estágio infantilizado dos sentimentos, o noivo de Mariana inconscientemente boicota seus relacionamentos amorosos com a sua visão ingênua das relações, sua insegurança e seus joguinhos de controle e poder, e ao final sempre põe tudo a perder. Ele sofre com isso mas não consegue escapar desse padrão de comportamento pois, ainda que não lembre, jurou ser fiel à sua noiva.

Mariana seria, assim, um complexo energético autônomo que se instala na psique masculina e desenvolve intensamente a função racional (pensamento), levando o ego a direcionar a atenção pros negócios e conduzindo o indivíduo ao sucesso profissional, ao mesmo tempo que mantém subdesenvolvida a função oposta (sentimento). O noivado com Mariana é, então, um pacto interno e inconsciente que o indivíduo faz consigo mesmo em nome da realização profissional mas que provoca um perigoso desequilíbrio psíquico. O noivo de Mariana é um indivíduo racionalmente desenvolvido, capacitado pro mundo dos negócios, mas sentimentalmente imaturo. Dê uma olhada nos homens financeiramente muito bem sucedidos e encontrará facilmente entre eles alguns noivos de Mariana.

E as mulheres? No contexto ritualístico da Umbanda, pelo menos até onde sei, a cabocla Mariana não noiva com mulheres. Entretanto, o fato de Mariana possuir tais habilidades pros negócios, um dom mais ligado à energia yang masculina, sugere que ela também possui em sua constituição algum componente masculino. Isso significa que ela é um complexo psíquico dual, dotado de elementos femininos e masculinos, yin e yang. Assim sendo, a mesma dinâmica do processo também deve ocorrer na psique feminina, ainda mais nos tempos atuais em que a mulher já está bem inserida no mundo dos negócios. Talvez haja alguma diferença mas, a rigor, as mulheres também assimilam a sabedoria racional e adulta de Mariana pra ganhar dinheiro ao mesmo tempo que também incorporam a ingenuidade infantil de Mariana em seus relacionamentos, inviabilizando a todos, um atrás do outro. Eu não ficaria surpreso se soubesse de alguma entidade masculina similar à cabocla Mariana, dirigida especificamente às mulheres pois, afinal, a mudança dos tempos se reflete também no surgimento de novos complexos psíquicos autônomos e, consequentemente, no surgimento de entidades, santos e outros fenômenos espirituais-religiosos que passam, assim, a representá-los no plano externo.

Mas deixemos de teorizações, vamos ao conto. Espero que você goste e, se quiser comentar, fique à vontade. Com você, Mariana…

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Ricardo Kelmer – blogdokelmer.wordpress.com

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A cabocla Mariana, entidade da umbanda, propõe noivado ao moço Dedé. Noivar com ela significa conseguir estabilidade financeira mas em troca ela exige fidelidade absoluta

Conto: O presente de Mariana

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LEIA NESTE BLOG

ilha03a> Livros: He, She, We – Os rios de nossas vidas na verdade correm por leitos muito, muito antigos – os mesmos leitos que outras águas, ou outras pessoas, percorreram do mesmo modo

> Mulheres na jornada do herói – É ainda mais interessante ver o relato das mulheres pois elas sempre foram, mais que os homens, historicamente reprimidas na busca pela essência mais legítima de suas vidas

> A ilha – Uma fábula sobre o autoconhecimento

> Mariana quer noivar – Você abdicaria das relações amorosas em sua vida em troca de dinheiro ou sucesso na carreira?

> Carma de mãe pra filha – Os filhos sempre pagam caro pelos pais que não se realizam em suas vidas

> Vade retro Satanás – O Mal pode ter mudado de nome e de estratégias. Mas sua morada ainda é a mesma, o nosso próprio interior

> Blade Runner – Deuses, humanos e andróides na berlinda – Como todo ser, o criador busca sempre transcender a sua própria condição e é criando que ele faz isso

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 COMENTÁRIOS
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01- Muito bom! – Marcos André Borges, Fortaleza-CE – 2010


Medo de mulher

janeiro 16, 2010

Ricardo Kelmer 2007

Como não temer algo que tem o poder de gerar e nutrir a vida? E, caramba, como não temer um bicho que sangra durante dias e não morre?

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Homens que agridem mulheres… Homens que atacam prostitutas, saem na rua atirando em travestis… O que leva um homem a tais selvagerias? Diversos fatores podem estar envolvidos. Mas há um fator mais profundo que todos, mais antigo… É o medo da mulher.

Instintivamente todo homem teme a mulher. É claro que a maioria dos homens, se perguntado, certamente negará, ou levando a coisa para o lado da piada jocosa ou se irritando com o que ele pensa ser um questionamento de sua masculinidade, oh, a sagrada masculinidade. Calma, meu amigo macho. Esse medo não tem nada a ver com homossexualidade. Trata-se do velho temor do feminino, um sentimento arquetípico, que sempre esteve em nossa psique, tão natural quanto o desejo sexual que sentimos pela mulher.

Esse temor existe, sim, e se não o reconhecemos, o danado nos acompanha vida afora, se refletindo em nossa relação com as mulheres. Pior que isso: o medo do feminino faz surgir religiões e sociedades machistas, que reprimem violentamente as mulheres, negando-lhes direitos básicos, tornando-as propriedade dos homens e até mesmo queimando-as em fogueiras. Mas… por que esse temor?

A mulher é um imenso mistério, que o homem jamais alcançará. É o mistério sagrado da própria vida. É através do corpo feminino que a vida se concretiza no plano físico. A mulher é a Natureza humanamente representada em suas curvas, saliências e reentrâncias: ela é o rio sinuoso que hipnotiza o olhar, montes que se elevam graciosos da superfície, cavernas escuras que guardam segredos… É feita de ciclos a mulher, renovando-se a cada lua para em seguida oferecer-se novamente fértil e receptiva. Como não temer algo que tem o poder de gerar e nutrir a vida? E, caramba, como não temer um bicho que sangra durante dias e não morre?

É bem antigo o medo da mulher. Milhões de anos atrás percebemos que viemos todos de dentro dela – e até hoje isso nos maravilha e assusta. Percebemos também que ela se comporta como a Natureza em suas estações, alternando ciclos, e isso nos fez entender que o masculino é Sol enquanto o feminino é Lua. Se aquele é o mesmo todos os dias, esta não cansa nunca de se experimentar em sua natureza mutante. Se elas são naturalmente iniciadas pela vida, eles não, eles precisam inventar iniciações.

Ao menstruar, a mulher está a repetir, mesmo sem consciência disso, seu íntimo ritual sagrado de fertilidade. Isso tem o poder de conectá-la com a sabedoria instintiva de seu corpo e com os ciclos naturais do planeta. O sangue é o fluxo da vida, que vem da caverna escura, lá onde se guarda o feminino misterioso e profundo. E são poucos, bem poucos, os homens que têm coragem de ir lá. Fisicamente eles vão, sim, mas apenas tocam o feminino, nunca dançam com seu mistério. Homens fazem guerra porque a guerra vem do Sol. Mas poucos, bem poucos, são homens o suficiente para fazer amor com a Lua.

E, no entanto… a Lua sempre esteve dentro deles!, desde o momento em que os princípios masculino e feminino se uniram para gerá-los. São homens simplesmente porque neles é a porção masculina a dominante, e é isso que os faz mais agressividade e razão e menos suavidade e sentimento – mas se não houvesse também em sua alma a porção feminina, seriam uma inconcebível aberração psicológica. Ao negar o feminino em si, esses pobres homens negam também, sem perceber, sua própria totalidade, e assim buscarão inutilmente mil coisas pela vida, sem que nada os possa completar, e morrerão frustrados, sem sequer entender o que lhes faltou. E o que lhes faltou foi sua própria alma inteira.

Homens agridem mulheres porque elas são o próprio princípio feminino encarnado diante de seus olhos fascinados e temerosos. Sua presença os faz lembrar, inconscientemente, do que eles temem admitir. Sim, temer o feminino é normal, é humano. Mas negá-lo não. O homem que nega o feminino, meu amigo macho, declara guerra contra si próprio. Bem melhor, mas muuuito melhor, é fazer amor com o feminino.

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Ricardo Kelmer – blogdokelmer.wordpress.com

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Este e outros textos
integram o livro Vocês Terráqueas

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Esta crônica foi lida pelo autor no encerramento do 21o Encontro da Nova Consciência (Campina Grande-PB, fev2012) e dedicada às mulheres violentadas e mortas em Queimadas-PB (12.02.12). O arquivo da leitura, em mp3, pode ser baixado aqui (8m43s, 8mb)

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MEDO DE MULHER
Encerramento do 21o Encontro da Nova Consciência (Campina Grande-PB, 21.02.12)

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MAIS SOBRE LIBERDADE E O FEMININO SELVAGEM

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> A mulher selvagem - Ela anda enjaulada, é verdade. Mas continua viva na alma das mulheres

> A mulher livre e eu – A liberdade dessa mulher reluz no seu jeito de ser o que é – e ela é o que todas as outras dizem ou buscam ser, mas só dizem e buscam, enquanto ela tranquilamente… é

> Em busca da mulher selvagem – Era por ela que eu sempre me apaixonava, essa mulher que era quem ela mesma desejava ser e não a mulher que a família, religião e sociedade impunham que ela fosse

> Amor em liberdade – O que você ama no outro? A pessoa em si? Ou o fato dela ser sua propriedade? E como pode saber que ela é só sua?

> As fogueiras de Beltane – As fogueiras estão acesas, a filha da Deusa está pronta. O casamento sagrado vai começar

> Medo de mulher - A mulher é um imenso mistério, que o homem jamais alcançará

> Alma una – Eu faço amor com a Terra / Sou a amante eterna / Do fogo, da água e do ar / Sou irmã de tudo que vive / Ninfa que brinca com a vida / Alma una com tudo que há

> Quem tem medo do desejo feminino? (1) – A maternidade, a castidade e a mansidão de Nossa Senhora como bom exemplo, e a força, a independência e a liberdade sexual da puta como exemplo contrário, a ser jamais seguido.
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LIVROS

> Mulheres que correm com os lobos - Mitos e histórias do arquétipo da mulher selvagem (Clarissa Pinkola Estés -  Editora Rocco, 1994)

> A prostituta sagrada – A face eterna do feminino (Nancy Qualls-Corbert – Editora Paulus, 1990)

> As brumas de Avalon (Marion Zimmer Bradley – Editora Imago, 1979)

> Mulheres na jornada do herói (Beatriz Del Picchia e Cristina Balieiro – Editora Ágora, 2010) – É ainda mais interessante ver o relato das mulheres pois elas sempre foram, mais que os homens, historicamente reprimidas na busca pela essência mais legítima de suas vidas
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CABARÉ SOÇAITE

> Cabaré Soçaite – Uma festa de sensualidade – Se você tem medo do desejo feminino, é melhor não ir…

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Comentarios01 COMENTÁRIOS
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01- achei muito linda! Andrea Boni, Brasília-DF – jul2007

02- Ai, Rica… o cerrado te deu muita inspiracao hein? Discutir o principio feminino… se saiu bem na escolha do tema. Vai atrair o maior publico, de mulheres, todas querendo ser desvendadas pelas palavras do escritor. Vai dar pano pra muita manga histerica ;-) Beijo. Fabiana Vasconcelos, Boston-EUA – ago2007

03- Belíssimo texto. Como só vc sabe escrever. Ah, agora que vc parou pra respirar, quero ver as nossas fotinhas!!!!!! Beijos e saudades. Patrícia Meireles, Fortaleza-CE – ago2007

04- bacana rick… André Monteiro, Campinas-SP – ago2007

05 – Adorei o texto. Inspiradíssimo Ricardo. Poucos são os homens que conseguem esta sintonia vibratória conosco, por nos conhecer tão bem. Bom saber que existem! Um bj grande. Helga Lima, Rio de Janeiro-RJ – ago2007

06- Rapá, por causa das chatices e duns quilinhos a mais (dela e… meus tb!), eu já tava aqui na peinha de nada pra plantar a mãozada na muié — q me prometeu ser sempre linda, com aquele corpinho enxuto, como era qdo eu a conheci — qdo chegou esse seu email e me livrou de tirar umas férias vendo o sol nascer quadrado… Isso é q é amigo, viu! Wander Frota, Fortaleza-CE – ago2007

07- Kelmerrr! Amei seu texto! E puxa vida…tava com saudades de ler suas crônicas. Marisa Vieira, Rio de Janeiro-RJ – ago2007

08- Ainda mais quando essa mulher é cearense! Aí o homem tem é que correr de medo! Bjs. Gatalôca, Rio de Janeiro-RJ – ago2007

09- Lindo, como sempre. O texto, e você, claro! Fabiana Polotto Figueira, São José do Rio Preto-SP – ago2007

10- Parabéns pelo blog, pelo belo texto e também pela sua intensidade! Gosto do jeito que vc fala do feminino… ajuda-me a fazer as pazes com a minha própria feminilidade e também com os princípios do Sol. Quando eu te dei aquele Sol e fiquei com uma Lua, eu não pensei -ao menos conscientemente- na união entre o masculino e o feminino…rsrs. Kátia, João Pessoa-PB – ago2007

11- Ricardo. Achei maravilhoso este texto que você escreveu e me tocou profundamente. Beatris Rocha, Campinas-SP – ago2007

12- A sua cronica mais linda ate hj…. Christina Alecrim, Rio de Janeiro-RJ – ago2007

13- Rapá, por causa das chatices e duns quilinhos a mais (dela e… meus tb!), eu já tava aqui na peinha de nada pra plantar a mãozada na muié — q me prometeu ser sempre linda, com aquele corpinho enxuto, como era qdo eu a conheci — qdo chegou esse seu email e me livrou de tirar umas férias vendo o sol nascer quadrado… Isso é q é amigo, viu! Desleixo é falta de amor, é o contrário ou são os dois na mesma medida, pergunto eu? Vale! Wander Nunes Frota, Fortaleza-CE – ago2007

14- tambem tenho tenho medo!! e tu?? ainda lembro quando rosalia berrava, cesarinhooooooooo pra dentro!!!cara, corria p não apanhar!! (risos) concordo com a cronica!! +, e se no àpice do sexoroller (sexo no skate) mui bom, camarada!!! ela, olha na tua cara e ordena, bate porra!! quero gozar apanhando, +, bate devagar, que fazes??? hem, hem??? (risos) César de Cesário, Campina Grande-PB – ago2007

15- Olá Ricardo…tudo em Paz? Li e amei esta cronica…afinal como não temer o que nunca se tentou aprender? Como não fugir daquilo que nunca se transparece por inteiro…que nunca se desnuda do sabor de se ver tão diferente? Parabens e bom te ler novamente…um abraço carinhoso!!!! Sandra Abou Dehn, Cuiabá -MT – ago2007

16- Olá Ricardo. tudo bem? Parabéns, adorei sua crônica, muito inteligente e profunda. Todos nos temos nosso lado feminino hibernado. Poucos são aqueles que vivem em paz. Com sua permissão vou passar essa crônica para meus amigos interautas. Obrigado pela lembrança. Abs. Liano Silva Veríssimo, Fortaleza-CE – ago2007

17- QUER CASAR COMIGO??? Isso é tudo que tenho a dizer sobre sua crônica, linda de morrer… melhor, linda de viver. Vc já leu Cartas do caminho sagrado, que fala do xamanismo e da “carta da lua” (a “função” da menstruação no “eu” da mulher)? Outro livro que eu achei interessante, cujo autor é um homem que pensa como nós, é “A corrida do membro”. Saiu no Jô, mas não lembro o nome do jornalista. Ainda não li mas deve ser interessante. Sempre me disseram que todos os homens que amei (e amo) só falta um chip para gay. Não sou chegada a aberrações psicológicas que me jogariam na parede e chamariam (se tivessem chance) de lagartixa! Tô fora! Beijim daquela que está se viciando nas suas crônicas. No meu próximo curso sobre crônica, onde quer que seja, vou apresentar à turma um autor que desmente categoriacamente essa história dos estudiosos de literatura que dizem que a crônica morreu: Ricardo Kelmer é o nome dele. Ana Karla Dubiela, Fortaleza-CE – ago2007

18- Dear Ricardo, Fico a imaginar como consegues escrever com tanta clareza sobre um assunto tao dificil pra muitos que e’ essa relacao de homem e mulher. Quase todos os meus clientes estao completamente perdidos , e’ um trabalho arduo mostrar-lhes alguma outra visao das coisas vividas por eles. Adorei o seu texto , sou sua tiete e por isso suspeita mas acredito ser Super!!! Raquel Araújo, Los Angeles-EUA – ago2007

19- Posso incluir este artigo no meu blog? http://poderosamentemulher.blogspot.com. Izilda, Salvador-BA – ago2007

20- depende kelmer , kkkkkkkkkkkkk. Alyson Amâncio, Fortaleza-CE – ago2007

21- Esse texto tá bom demais,Ricardo.Adorei! Mônica Burkle Ward, Recife-PE – ago2007

22- É as vezes tm homens que sõa muito machões mais na hora que tem que ser homem mesmo não é digo iso num termo geral. E os homens principalmente falam que nós mulheres somos frageis e é ao contrario, vcs homens que são frageis por ex: vcs não tão a luz e gera uma criança durante nove meses ae nos mulheres temos essa benção e a graça divina. Bom quero ler mais coisas que vc escreve e se quizer mandar pra mim eu leu pode ter certeza ah!! fiz um blog para colocar as minhas histórias se quizer dar uma lida e uma opinião é sempre bom saber mais. Olha o endereço do meu blog: http//amandareisgomes .arteblog.com.br. Amanda Reis, Osório-RS – ago2007

23- Oi, Ricardo… Crônica pouco poética. São Paulo, às vezes, nem é Sol nem Lua… é assim, digamos… quase sempre nublada. Será que percebes a influência na (ou falta) de poesia? Que tal escrever uma crônica biológica para “eles” informando a partir da fecundação até aquele momento em que por definição génetica os órgãos sexuais determinantes se desenvolvem e se atrofiam simultaneamente… mas, com poesia. Beijos. Marly Rodrigues, São Paulo-SP – ago2007

24- Olá Ricardo! Recebi seu e-mail com a sua crânica sobre o Medo que os homens têm das mulheres, e achei uma obra de arte, achei que você falou tudo sem fiucar cansativo e monótono… na minha humilde opinião de leitora hehe! Além de ser um assunto que me chama muita atenção, essa coisa toda do machismo que perdura até hoje em uma sociedade tão moderna como é a que vivemos, fico boquiaberta com esse tipo de coisa que ainda acontece no mundo! Não há como entender!! Eu li, e adorei seu texto, achei que não podia deixar passar em branco no meu e-mail, não resisti em responder, embora não à altura do seu texto! Achei magnífica a forma como vc trata o corpo da mulher em constante ligação com a natureza (o que não deixa de ser verdade em nada), ficou sensacional! Vc escreve por hobby ou por profissão mesmo? No mais, seguem meus singelos elogios… achei que você tem um grande futuro (se é que já não o tem)! Caso haja mais alguma coisa que tenha em mãos, mande-me, é sempre bom ler esse tipo de coisa e saber que a situação também incomoda a outrs pessoas!Abraços! Pamela Bathory, Juiz de Fora-MG – set2007

25- adorei a crônica, vc sempre escreve o que gosto de ler sou sua fa bj. Lu Resende, Fortaleza-CE – set2007

26- MOCINHO COMO VC ESCREVE GOSTOSO!!! LIVRE, LEVE E SOLTO RSRS ADOREI. E VOU REPASSAR… UM OTIMO FIM DE SEMANA BEIJO Junia Drummond, Brasília-DF – set2007

27- caraaaaaaaaa !!!!!!!!!!!!!!!!! eu não me engano. Apasar de ter conversado muito pouco com vc tive a carteza de q vc é um cara muito sensível . e esse texto so vema confirmar . beijos. Júnia Turturro, Brasília-DF – set2007

28- Crônica interessante… Vc gosta muito de falar sobre as mulheres, não? Um abraço. Fernanda da Silva Xavier, Rio de Janeiro-RJ – set2007

29- amei, obrigada ….. bjs. Marysol Rosso, Cocal do Sul-SC – set2007

30- Parabéns menino! Só quem tem sua porção feminina bem resolvida pode ser o super homem que tão bem cantou Gil. Abraço carinho procê! Regina Coeli Carvalho, Rio de Janeiro-RJ – set2007

31- Tá bom vou começar. Recém cheguei da ópera Carmem de Bizet, apresentada ao ar livre pelo bobão do Silvio Barbato… o espetáculo foi lindo, os comentários dele, absolutamente desnecessários. Mas, não é isso para agora. Uma sugestão: que tal o título ser: Medo do Homem: Mulheres. Pq o medo? o medo é o pai de todas as dores e essencialmente nasce da necessidade de proteção diante da ameaça da morte…O nascimento é, se não o primeiro, um dos mais importantes eventos ameaçadores à vida, visto q apresenta de cara o desconhecido. Ao nascer, homens e mulheres CAEM no desconhecido absoluto… entretanto, a mulher traz consigo o potencial de parir, de continuar o ciclo… o homem nasce com o vazio do sentido da existência. Será? Este medo é primitivo, e inerente ao ser humano, mas segue se desenvolvendo no macho, será? este ódio, este repúdio, esta resistência de entrega do macho – confiar… não sei, tudo isso está me ocorrendo agora… vou sentir mais um pouco depois escrevo mais. Obrigada pela oportunidade. Não houve ritual da Lua. Eu me empaturrei de macarrão e dormi. Um beijo. Suely Andrade, Brasília-DF – set2007

32- Kra, muito legal essa crônica!!! Axu muita coisa legal na mitologia pagã tb. Daniel Gargas, Fortaleza-CE – set2007

33- muito bom! pena q apenas uma parcela mínima de homens se toca disso… Luciana, São José dos Campos-SP – set2007

34- Linda, sábia e profunda sua crônica Medo de Mulher. Parabéns por mais esta pérola! Gilvanilde Oliveira Falcão, Fortaleza-CE – set2007

35- Muito bacana, primo. Parabéns ! Beijos. Virgínia Galvão, Brasília-DF – set2007

36- Olá Kelmer, Muito interessante o seu texto. A Mãe Natureza é grandiosa, mas também esconde muito tesouros. Acho que a mulher tem um pouco disso, claro, dessa coisa incomensurável que nos faz tremer nas bases. E talvez Freud quisesse também dizer que o Complexo de Édipo é, para o menino, a grande ameaça que ele precisa passar para descobrir que sua mãe é uma caverna oculta aos seus propósitos libidinais. O primeiro obstáculo que vai precisar remover sem nunca conseguir transpor o mistério, talvez por isto, como você mesmo escreve, surja o medo. É realmente surpreendente. Um grande abraço e parabéns pelo texto. Felipe Moreno, São Paulo-SP – set2007

37- Graaaaaaaaaaaaaande verdade!!! Disse tudo meu Guru!!! Marcos André Borges, Fortaleza-CE – set2007

38- Oi bom dia !!! adorei essa crônica sua, linda !! adorei o uso dos conceitos do sol e da lua , do sagrado feminino, da fertilidade !! lindo!! por isso que eu sou sua fã!! Se puder me mandar de novo mulher selvagem(que eu adoro) e estou louca pra mandar pras minhas amigas eu agradeço!! Como sempre vc é como o vinho: a cada dia que passa fica melhor !!! beijos. Josylene, São Paulo-SP – set2007

39- Oi Ricardo..obrigada por agraciarnos com estas pérolas…adorei a palestra e mais ainda, adorei saber que ainda existem homens assim…deste jeitinho…da forma que deve ser…vc percorreu o caminho p/ o feminino que existe dentro de todos os homens… Li ” Para GAIA com Amor” …adorei tb…vc pensa muito parecido comigo…só que não consigo traduzir em “letrinhas”…meus sentimentos…Bjs e até a próxima!!!!! Mônica Rivera, Brasília-DF – set2007

40- OI, Kelmer! Muito legal a cronica sobre Medo de mulher! Adorei! Fabrícia Viana, Fortaleza-CE – set2007

41- Muito bom Morga, já estou copiando e mandando pra alguém especial. Ainda n tinha lido nada de Ricardo Kelmer, fiquei encantada… Angélica Belchote Trocoli, Salvador-BA – Comun. Orkut Mulheres Repensando Conceitos – set2007

42- lindo! vai de encontro a tudo que acredito sobre a natureza da mulher. Devíamos enviar este artigo para todos os homens que conhecemos. Obrigada pela oportunidade de tomar conhecimento deste autor.Cadê o endereço do blog dele?beijo. Kátia G, Belo Horizonte-MG – Comun. Orkut Mulheres Repensando Conceitos – set2007

43- Lindo! Cris, Florianópolis-SC – Comun. Orkut Mulheres Repensando Conceitos – set2007

44- o cara é simplesmente demais cada vez que o lei ele me surpreende e anima… lindo demais Ricardo Kelmer ! Parabéns! Andréa Magnoni, São Paulo-SP – Comun. Orkut Mulheres Repensando Conceitos – set2007

45- Adorei a cronica Ricardo!!! eh a pura verdade! beijao. Carmen Rangel, Barcelona-Espanha – set2007

46- Se as mulheres ainda se sentem oprimidas e agredidas, depois de tudo o que conquistaram, é porque elas permitem, mtas vezes até escolhem. Pois, perante todos estes problemas mtas ainda insistem em igualar-se aos machos, fazendo o que eles fazem, falando como eles falam, vestindo-se como eles se vestem, brigando como eles brigam. São verdadeiros homens debaixo de belas roupas, maquiagem e salto alto. E se há sensibilidade é puramente interesseira e vítima. Giovana Milozo, São Carlos-SP – set2007

47- Você é muito talentoso e escreve muito bem. Considere isso mesmo um elogio, porque eu já li à beça e tenho faro pra essas coisas. abraço forte. Deco, Rio de Janeiro-RJ – set2007

48- Já divulguei para minha lista de amigos. abraços. Regina Coeli, Rio de Janeiro-RJ – set2007

49- Kélmer, gostei muito desse texto, parabéns!! Só você consegue nos fazer pensar em assuntos importantes de maneira irônica e divertida. Sheryda Lopes, Fortaleza-CE – set2007

50- Obrigada pelo texto com interessantes reflexões!!! Parabéns!!! Aproveito a oportunidade e compartilho com você a indicação de um livro que acabei de ler. Chama-se “A Ciranda das Mulheres Sábias”. Dê-se a oportunidade de ler este livro. É da Clarissa, mesma autora do livro “Mulheres que Correm com os Lobos”. Abraço. Iolanda Santos, Fortaleza-CE – set2007

51- Lendo seu texto, lembrei-me menininho, escondendo-me quando a prima bonitinha entrava lá em casa. Como um bichinho que se esconde do predador na mata, mas fica observando-o da penumbra, envolto naquele sentimento novo, inexplicável naquele primeiro momento, de medo e fascínio. Enquanto não aprendermos a conviver com esse sentimento, o que você tão bem descreve e ensina, estaremos sempre no meio termo entre algoz e vítima, julgando-as santas ou profanas, causadoras de nossa tragédia ou fortuna, nossa salvação ou desgraça. Por isso quando eu nasci, veio um anjo e disse: – Vai, Paulo, vai ser voyeur na vida… Paulo Marcelo, Brasília-DF – set2007

52- Ricardo, como é bom sentir vc se superar cada vez mais!Esta crônica nos anima e acalenta em um mundo tão desconectado com nossos princípios naturais. Muitos beijus das “Rosas do Cariri” para nosso cearense querido. Lisiene Bezerra, Juazeiro do Norte-CE – out2007

53- já tinha gostado do livro que me enviaste, o “Blues da vida crônica”, mas esse texto gosto de reler, principalmente nos tais meandros cíclicos em que até nós mesmas tememos o dito “feminino”, rs. Um abraço! Jamile Mileipe, Recife-PE – dez2007

54- Gostaria de lhe parabenizar pela grandiozidade dos textos que compõe o leu livro “Vocês Terráqueas”. Mas, em particular, gostaria de lhe parabenizar pela crônica “Medo de Mulher”. Poucos homens seriam tão capazes de reconhecer esse medo de forma tão explícita. Menos ainda seriam capazes de assumi-lo publicamente editando em um livro. Isso mostra, no mínimo, a segurança que você tem quanto a sua masculinidade, não tendo medo de expor o que pra muitos seria um “fraqueza”. Mostra também a cumplicidade que você tem com nós mulheres, nos orientando e esclarecendo os motivos pelos quais muitos homem não desceram da árvore. Talvez os “ETs” tenham maior domínio desse medo e por isso as mulheres brasileiras se deixam abduzir. Parabéns: pelo grande escritor, pelo grande homem e pela grande pessoa que você é. Maria do Carmo, São Paulo-SP – ago2010

55- lindo,lindo lindo…vc diz o que eu gostaria de ter dito. KELMER querido, em sua homenagem vou soltar a minha loba…rsrs mudar minha fotinha… Maria Sá Xavier, Niterói-RJ – fev2011

56- Puta merda!!!! Tão seguro da sua masculinidade foi muito profundo. Rsrsrsrsr… Rsrsrsrsrsrsr… Rsrsrsrsrs… Essa eu vou contar na próxima rodada de pôquer. Rsrsrsrsr…. Mardonio Veras, São Luís-MA – fev2011

57- Ah, vai, Mardonio, ele sabe das qualidades dele, não precisa de incentivo. Mas como lider da ALK – Associação das Leitorinhas Kelméricas, faço qualquer coisa pra ele continuar enchendo nossos olhos com suas hitórias deliciosas. Kel, bota a imaginação pra funcionar! Maria do Carmo, São Paulo-SP – ago2010

58- Lindo texto, Kelmer… Lílian Rocha, Fortaleza-CE – fev2012

59- Que texto lindo, Ricardo Kelmer! Sempre percebi esse medo dos homens em relação às mulheres. Alguns mais, outros menos. Um homem que tem medo de mulher, nunca vai amá-la plenamente, porque não se entrega, não confia, não relaxa. Amor e medo são antagônicos.Que bom que vc tocou nesse assunto, pois é a causa de muita desgraça entre homens e mulheres! Vanessa Martins de Souza, Curitiba-PR – fev2012

60- veja o exemplo na idade media, depois joana dárc… as mulheres q faziam parto, sabiam o segredo das ervas… e estoria eh lon ga… sempre o medo da caverna escura dos ancestrais… a mulhr eh yin eh ternura e força… nao devemos querer parecer homem. Dhara Bastos, Fortaleza-CE – fev2012

61- achei tão fantástico, que joguei lá no V&P, prá modo daqueles brucutos ignaros aprenderem alguma coisa… – rsrsrsrsrsrs. Eduardo Ramos, Rio de Janeiro-RJ – fev2012

62- Maravilha! Não lembro de ter lido algo tão profundo sobre nossas ‘diferenças’ (prosapoética da melhor qualidade!); grata por compartilhar, e vamos compartilhar! : ) Mônica Mello, São Paulo-SP – fev2012

63- eu li. É TDO DE BOM. Renata Regina, São Paulo-SP – fev2012

64- Parabéns pelo texto e pela sensibilidade. Mob Cranb, Campina Grande-PB – fev2012

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Cristal

julho 22, 2009

Ricardo Kelmer 2005

Ele quer falar sobre tudo que viveu ali dentro, todos aqueles anos, os amores e desamores, o quanto sofreu e fez sofrer, perdeu e se encontrou… Mas não precisa, ela já sabe

Cristal-03Ele pensa enquanto a pergunta da Mestra ainda ecoa: Que tal passar o aniversário com sete namoradas? Ele olha para trás, para frente, o corredor infinito, portas de um lado e outro. Que estranho presente de aniversário…. A Mestra abre a porta. Ele pensa. Pode recusar? Não, ele sabe que não pode. E entra, devagar, desconfiado.

Silêncio. Uma sala enorme, toda branca. À esquerda ele vê dois olhos verdes. Chega mais perto e reconhece: é ela. Uma dor repentina o entristece. O que acontece com os sentimentos que desprezamos em nós mesmos? Ele se desculpa: Eu era só um garoto estúpido mas amei você mesmo assim, acredite…

Rejuvenescido. É como ele se sente no ambiente seguinte onde a bailarina faz piruetas sobre uma nuvem. Ela sorri um sorriso tão juvenil que imediatamente ele se sente mais jovem do que é, do que era. Quer sentar para admirar mas não há tempo. Resta-lhe dizer: Tudo valeu, as alegrias, as brigas, tudo, mas o tempo, infelizmente não houve tempo, você já estava de partida, fui apenas sua despedida desse mundo…

Beleza e loucura… beleza e loucura… De algum lugar escuta alguém sussurrar. Lá encima, no alto da torre. A linda princesa. Ela o chama, implora que a liberte de sua prisão. E joga duas enormes tranças. Que caem a seus pés. Bela e irresistível como o diamante da insanidade… E ele foi, subiu agarrado às suas tranças até o alto. E lá no alto teve medo do que ele era. Horrorizado, despencou. E morreu sua primeira morte, rígido de dor. Obrigado por ter me matado, princesa, eu a amarei para sempre por isso, obrigado…

Vazio. O aposento vazio. Ele escuta um piano… Um som doce, tão doce que o sente na boca, se desmanchando sob a língua. Depois que se desmancha é que percebe que o doce… é ela. Tenta provar o som mais uma vez… porém tudo volta a ser o imenso vazio. Sente-se tão incomodado que se apressa para sair… mas uma idéia súbita o faz voltar. E então compreende. O vazio é ele, ele todo o imenso vazio, sem nada para oferecer além da própria busca alucinada por si mesmo. Ela ao piano, os seios generosos, ela e a doçura que sempre se desmancha antes que ele a alcance… Desculpa, por favor, que era eu um vaso vazio?…

Fantasias. Mil fantasias nos espelhos ao redor. Qual delas será ele? Experimenta todas e nenhuma lhe cabe. Sente-se perdido em meio a tudo aquilo que não é ele e se angustia ainda mais. Então surge a mão dela, amorosa e compreensiva a acariciá-lo. Ele leva a mão ao peito e se acalma. No meio do caleidoscópio de tantos eus ele sussurra: Você me vê, mais do que eu mesmo, e isso me faz existir…

Girando e girando e girando… Ele agora gira no escuro, sem saber onde se encontra. Está úmido e abafado. Enquanto gira, sente a excitação lhe subir pela virilha, mais, mais… Um segundo antes de gozar, percebe que está na caverna e então compreende que está dentro dela, ela o comeu, viúva negra. Entorpecido, deita-se para morrer, finalmente descansar na escuridão total. Mas no último segundo desperta aterrorizado e, com as forças que restam, levanta e as luzes se acendem. Fomos fundo, meu bem, fomos tão fundo em nós…

Karma. O último ambiente é o ônibus que o levará ao inferno. Quer desistir mas o olhar de sua irmã lhe diz que não há outro caminho para o céu. Ele entra, fecha os olhos e chora indefeso, pressentindo o que virá. A rodomoça oferece o cálice e quando o bebe, vê que é sangue. Não há palavras para descrever o gosto, a dor, o inferno, a morte. Dias sem noites e noites sem dias sem poder dormir. Rendido, permite que demônios devorem sua carne. Sem mais qualquer orgulho, abre os braços e oferece a alma à Terra. Na última noite escuta pombas brincarem no teto… e percebe que renascerá. E tudo se esclarece: Você é o que eu precisava viver para que o Cosmos se reequilibrasse em mim, não há palavras para agradecer…

A porta se abre e ele cai de joelhos, chorando de gratidão. A Mestra o abraça, compreensiva. Ele quer falar sobre tudo que viveu ali dentro, todos aqueles anos, os amores e desamores, o quanto sofreu e fez sofrer, perdeu e se encontrou… Mas não precisa, ela já sabe. Ela pede que ele abra a mão… e lá estão sete pedrinhas de cristal, em todas o reflexo de seu próprio rosto. Extasiado, ele pega os cristais com cuidado, admirando seu brilho. Então, de repente, não são mais sete, são apenas um, o mais belo. Ele aperta o cristal ao peito e respira fundo. Quer dizer algo mas, pensando bem, não há nada para dizer. Nem pensar. Apenas sentir.

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Ricardo Kelmer – blogdokelmer.wordpress.com

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> Este texto integra o livro Vocês Terráqueas – Seduções e perdições do Feminino

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LEIA NESTE BLOG

> Cristal – Ele quer falar sobre tudo que viveu ali dentro, todos aqueles anos, os amores e desamores, o quanto sofreu e fez sofrer, perdeu e se encontrou… Mas não precisa, ela já sabe

> Desconstruindo Kelmer (por Wanessa, inspirado no conto Cristal) – Totalmente metida e curiosa, eu me debrucei sobre o conto e fiz minha própria interpretação. Bem, a presença da Mestra, a vida, a Deusa, o Tao, o fluxo irrevogável de tudo, não me espanta que seja uma figura feminina…

> Inculta e bela, dengosa e cruel – Então arrumei de novo a mochila, me despedi com muitos beijos, seu hálito de vodca me soprando toda a sorte do mundo, eu barquinho de papel rio abaixo, louco para ir, doido para ficar

> Maior que meu horizonte (por Wanessa, inspirado na crônica Inculta e bela, dengosa e cruel)E quando eu penso que ele já está de novo envolvido em meus contornos, hipnotizado pelo balanço dos meus quadris e minha maré, ele foge

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LIVROS – A Prostituta Sagrada

junho 17, 2009

 

 

Ricardo Kelmer 2009

livroaprostitutasagrada02A prostituta sagrada - A face eterna do Feminino
Nancy Qualls-Corbett (Editora Paulus, 1990)

O eterno feminino e sua relação com espiritualidade e sexualidade. Quando a deusa do amor ainda era honrada, a prostituta sagrada era virgem no sentido original do termo: pessoa íntegra que servia de mediadora para que a deusa chegasse até a humanidade. Este livro mostra como nossa vitalidade e alegria de viver dependem de restaurarmos a alma da prostituta sagrada, a fim de nos proporcionar uma nova compreensão da vida.

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RK COMENTA:

Em muitas culturas antigas a sexualidade convivia muito bem com a religiosidade, sem a ideia do pecado que mais tarde a religião cristã viria trazer, impregnando toda a cultura ocidental. Se hoje, para a maioria de nós, lugar de religião é na igreja e lugar de sexo é na cama, para essas antigas culturas as duas coisas podiam ser vivenciadas harmoniosamente no mesmo contexto pois a percepção da sexualidade era também uma percepção do Mistério e do Sagrado.

Nos rituais do hierogamos (o casamento sagrado do feminino com o masculino) que existiram em culturas não-patriarcais da Antiguidade, sacerdotes e sacerdotisas usavam o ato sexual como forma de reverenciar a Deusa do Amor e, assim, atrair sua simpatia e auxílio ao seu povo. Isso pode não fazer sentido para quem reverencia deuses masculinos e dissociados do sexo mas naqueles tempos em que a Deusa do Amor era honrada (em suas diversas formas, como Afrodite, Inana, Ihstar…), os rituais em seu louvor iniciavam a mulher num novo nível de sua vida, preparando-a para as relações amorosas e equilibrando nela o masculino e o feminino, a força e a suavidade, tornando-a una em si mesma (o sentido original do termo “virgem” é justamente este). O mesmo ocorria aos homens que se entregavam aos mistérios sagrados.

elaprostitutasagrada01Hoje já não veneramos a Deusa do Amor como os antigos faziam. Mas amamos. Porém, amaríamos de um modo mais sadio e nossa relação com a própria sexualidade seria melhor se nisso tudo tivéssemos a noção do Sagrado – que infelizmente perdemos nos descaminhos da civilização.

Não, não precisamos voltar a cultuar as antigas deusas e reeditar os rituais das prostitutas sagradas, até porque hoje sabemos que as deidades são representações personalizadas de aspectos do nosso próprio psiquismo. Mas podemos vivenciar os Mistérios a partir de nosso crescimento psíquico e servir ao Sagrado através de nossas vidas e nossas relações amorosas. Cada homem e cada mulher pode ser o sacerdote e a sacerdotisa do Amor em sua própria vida.

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Ricardo Kelmer – blogdokelmer.wordpress.com

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Mais sobre sexualidade e religião:

> Corpo e sociedadeO homem, a mulher e a renúncia sexual no início do cristianismo (Peter Brown, Jorge Zahar Editor, 1990)

> A noiva lésbica de Cristo – Se hoje a sexualidade feminina ainda apavora a mentalidade cristã, no século 17 ela era algo absolutamente demoníaco

> Hierogamos na Wikipedia

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EmBuscaDaMulherSelvagem-02base4c

Mais sobre liberdade e o feminino selvagem:

> A mulher selvagem - Ela anda enjaulada, é verdade. Mas continua viva na alma das mulheres

> A mulher livre e eu – A liberdade dessa mulher reluz no seu jeito de ser o que é – e ela é o que todas as outras dizem ou buscam ser, mas só dizem e buscam, enquanto ela tranquilamente… é

> Em busca da mulher selvagem – Era por ela que eu sempre me apaixonava, essa mulher que era quem ela mesma desejava ser e não a mulher que a família, religião e sociedade impunham que ela fosse

> Amor em liberdade – O que você ama no outro? A pessoa em si? Ou o fato dela ser sua propriedade? E como pode saber que ela é só sua?

> As fogueiras de Beltane – As fogueiras estão acesas, a filha da Deusa está pronta. O casamento sagrado vai começar

> Medo de mulher - A mulher é um imenso mistério, que o homem jamais alcançará

> Alma una – Eu faço amor com a Terra / Sou a amante eterna / Do fogo, da água e do ar / Sou irmã de tudo que vive / Ninfa que brinca com a vida / Alma una com tudo que há

> Quem tem medo do desejo feminino? (1) – A maternidade, a castidade e a mansidão de Nossa Senhora como bom exemplo, e a força, a independência e a liberdade sexual da puta como exemplo contrário, a ser jamais seguido.
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LIVROS

> Mulheres que correm com os lobos - Mitos e histórias do arquétipo da mulher selvagem (Clarissa Pinkola Estés -  Editora Rocco, 1994)

> A prostituta sagrada – A face eterna do feminino (Nancy Qualls-Corbert – Editora Paulus, 1990)

> As brumas de Avalon (Marion Zimmer Bradley – Editora Imago, 1979)

> Atos impuros – A vida de uma freira lésbica na Itália da Renascença (Judith C Brown, Brasiliense, 1987)

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Alma una (clipe musical)

junho 1, 2009

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Fiz esta música em 2006 com Flávia Cavaca. Quem canta é Lila Shakti. Os instrumentos e a programação ficaram a cargo do Rodrigo Larese, um fera. Em algumas cidades há grupos que usam esta música em rituais xamânicos ou de celebração do Feminino Sagrado. Ótimo! É pra isso mesmo, fiquem à vontade.

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ALMA UNA
(Ricardo Kelmer e Flávia Cavaca)
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Celebrar o milagre de ser
O assombro de viver
Na doce magia da noite
Minha alma é noiva desse ritual

O fogo me aquece num abraço amigo
As fagulhas são reflexos do infinito
Eu danço o mistério da Lua
Linda, nua e natural

Eu faço amor com a Terra
Sou a amante eterna
Do fogo, da água e do ar

Sou irmã de tudo que vive
Ninfa que brinca com a vida
Alma una com tudo que há

Salamandras brincam na fogueira…
Guerreiras aladas trazem oferendas…
Se aproximam os animais de poder…
Planta-mestra, eu quero aprender…
Guardiães, abençoem meu caminho…
Tambores do xamã, toquem pra mim…
Grande Mãe, estou aqui…

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Ricardo Kelmer 2006 – blogdokelmer.wordpress.com

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> Baixe a música

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Mais sobre liberdade e o feminino selvagem:

> A mulher selvagem - Ela anda enjaulada, é verdade. Mas continua viva na alma das mulheres

> A mulher livre e eu – A liberdade dessa mulher reluz no seu jeito de ser o que é – e ela é o que todas as outras dizem ou buscam ser, mas só dizem e buscam, enquanto ela tranquilamente… é

> Em busca da mulher selvagem – Era por ela que eu sempre me apaixonava, essa mulher que era quem ela mesma desejava ser e não a mulher que a família, religião e sociedade impunham que ela fosse

> Amor em liberdade – O que você ama no outro? A pessoa em si? Ou o fato dela ser sua propriedade? E como pode saber que ela é só sua?

> As fogueiras de Beltane – As fogueiras estão acesas, a filha da Deusa está pronta. O casamento sagrado vai começar

> Medo de mulher - A mulher é um imenso mistério, que o homem jamais alcançará

> Alma una – Eu faço amor com a Terra / Sou a amante eterna / Do fogo, da água e do ar / Sou irmã de tudo que vive / Ninfa que brinca com a vida / Alma una com tudo que há

> Quem tem medo do desejo feminino? (1) – A maternidade, a castidade e a mansidão de Nossa Senhora como bom exemplo, e a força, a independência e a liberdade sexual da puta como exemplo contrário, a ser jamais seguido.

LIVROS

> Mulheres que correm com os lobos - Mitos e histórias do arquétipo da mulher selvagem (Clarissa Pinkola Estés -  Editora Rocco, 1994)

> A prostituta sagrada – A face eterna do feminino (Nancy Qualls-Corbert – Editora Paulus, 1990)

> As brumas de Avalon (Marion Zimmer Bradley – Editora Imago, 1979)

> Mulheres na jornada do herói (Beatriz Del Picchia e Cristina Balieiro – Editora Ágora, 2010) – É ainda mais interessante ver o relato das mulheres pois elas sempre foram, mais que os homens, historicamente reprimidas na busca pela essência mais legítima de suas vidas

CABARÉ SOÇAITE

> Cabaré Soçaite – Uma festa de sensualidade – Se você tem medo do desejo feminino, é melhor não ir…

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COMENTÁRIOS
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01- OBRIGADA, OBRIGADA, OBRIGADAAAAAAAAAAAAAAAA… Me emocionei… demais… Espero poder usá-la em meus trabalhos… A sensibilidade das palavras somadas ao ritmo é de fazer com que, nos esqueçamos, por alguns momentos, de onde estamos…Parabéns! Abraço carregado de Boas vibrações e gratidão, também, por suas palavras. Carinhos. Stella Petra, Curitiba-PR – dez2010


Meu futuro de popistar cristão

maio 20, 2009

Ricardo Kelmer 2009

Meus shows seriam superanimados, sempre acompanhados de meu time de ruivinhas cristãs de minissaia, as Noviças Viçosas

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Vendo esses cantores e essas bandas cristãs lotando shows e vendendo zilhões sagrados de discos, lembrei que por um desses carrapichos do destino eu também quase enveredei por essa rota. É sério, juro por todos os deuses.

Foi na adolescência, em Fortaleza, quando eu participava de grupos de jovens católicos. Sim, eu fiz isso. Meu interesse pela religião e meu fervor místico eram genuínos e durante aquela época tentei conciliá-los com minhas vocações artísticas e profissionais. Após as reuniões do grupo, por exemplo, fazíamos rodas de violão e eu encenava esquetes de humor pros colegas. Já era metido a engraçadinho naquela época.

Depois tive a ideia de montar um jornalzinho do grupo e pedi ao pároco, o saudoso monsenhor Amarílio, que financiasse. Ele topou mas não gostou muito do nome que eu escolhera pro jornal: Sovaco de Cobra. Pra você ver como sempre fui sem-noção. Porém, monsenhor Amarílio sugeriu, com muito jeito, que eu deveria escolher outro nome. Mudei a contragosto pra um nominho mais careta: O Mensageiro. O jornal chegou a ter quinhentos exemplares, impressos em mimeógrafo, e era uma ótima maneira de divulgar as atividades do grupo e atrair outros jovens.

Mais tarde, empolgado com as músicas cristãs que cantávamos nas missas e reuniões, tive a ideia de montar uma banda, junto com meu chapa do grupo, o Jaqueta, e vibrava só de imaginar a banda se apresentando na missa e nos encontros, o público acompanhando… E as tietes, claro. Sim, mesmo sendo cristão eu nunca deixei de ser um tarado véi seboso.

Paralelamente aos meus interesses pessoais, eu realmente via a música como um excelente canal de aproximação entre a paróquia e a comunidade, principalmente os mais jovens. Dessa vez, porém, o pároco  não gostou da ideia e vetou, aquilo já era muita modernice demais. E assim, em 1983, minha sagrada carreira de popistar cristão se acabou antes mesmo de começar. Sninf.

O que teria acontecido caso o monsenhor aprovasse a ideia? Talvez hoje eu ainda fosse cristão. Talvez, em vez de escritor de sacanagem, eu hoje fosse um cantor de Deus, já pensou? Kelmer de Arimateia, quital? Evidente que eu não seria um cantor caretinha, aí também já seria querer demais. Kelmer de Arimateia faria um estilo mais assim tipo maluco do Senhor, paz e amor, podiscrer. E meus shows seriam superanimados, sempre acompanhados de meu time de ruivinhas cristãs de minissaia, as Noviças Viçosas. E o vinho seria liberado pra todo mundo, é claro. E tocaríamos no meio do mato, sob a lua cheia, as Noviças Viçosas saltitando descalças ao redor da fogueira e distribuindo uvas de boca em boca e…

Humm… Pensando melhor, monsenhor Amarílio, o senhor fez bem em vetar.

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Ricardo Kelmer – blogdokelmer.wordpress.com

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LEIA NESTE BLOG

> As fogueiras de Beltane – A sexualidade sem culpa de uma sacerdotisa pagã

> A noiva lésbica de Cristo – Se hoje a sexualidade feminina ainda apavora a mentalidade cristã, no século 17 ela era algo absolutamente demoníaco

> Meu futuro de popistar cristão – Meus shows seriam superanimados, sempre acompanhados de meu time de ruivinhas cristãs de minissaia, as Noviças Viçosas

> Memórias de um excomungado – Eu jamais havia cogitado a ideia de que era possível não ter religião ou não acreditar em Deus

> Religião no esporte é gol contra – Se nada for feito, a religião invadirá os campos e quadras e o esporte virará uma cruzada entre os jogadores e seus deuses

> Entrevista com o ateu – Um pregador evangélico entrevista um escritor ateu. O que pode sair desse mato?

> O mundo é uma mentira – Este filme mostra o quanto a história é manipulada pelas elites religiosas e econômicas, que “criam” os fatos e nos fazem todos acreditarmos neles, lutarmos por eles, matarmos por eles

> O armário dos ateus – Os dados da ONU e a pesquisa de Phil Zuckerman desmentem uma velha crença dos religiosos e teístas, a de que uma sociedade sem Deus fatalmente descambará pra criminalidade e infelicidade geral

> Textos sobre religião e ateísmo neste blog

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LIVROS – As brumas de Avalon

janeiro 6, 2009

asbrumasdeavalonlivro01As brumas de Avalon
The mists of Avalon – 1979
Marion Zimmer Bradley
Editora Imago

Romance em 4 volumes. A saga arthuriana numa visão feminina e intimista. .

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A Bretanha por volta do sec. VII, as guerras pela unificação do Reino, a realeza e seus costumes, as tramas envolvendo paixões, traições e os mais altos ideais de nobreza e lealdade e as decisões de bastidores que estabeleceram definitivamente o cristianismo na ilha, exterminando boa parte da cultura local e seus cultos à Natureza e à Deusa Mãe. Este romance mostra o lendário universo de Camelot a partir da ótica de Morgana, a meia-irmã de Arthur e sacerdotisa de Avalon, a ilha que atuava como centro do culto à Grande Deusa.

QUEDA POR BRUXAS
Ricardo Kelmer 2008

Li os quatro volumes da saga na década de 1980, eu tinha vinte e poucos anos. Poucas vezes me senti tão envolvido por um livro. É daquele tipo de história que a gente sabe desde o início que os mocinhos perderão o jogo mas mesmo assim prossegue lendo e torcendo por eles. Reflexões, risos, choros, raiva, compaixão, tesão senti de um tudo com esse romance!

Durante toda a leitura dos livros, que durou semanas, o clima místico de As Brumas de Avalon me envolveu feito uma névoa e cheguei a querer, seriamente, me comunicar com os personagens, acredita? Pois foi. Identifiquei-me tanto com Morgana, com sua luta em preservar Avalon, seu sofrimento e sua solidão, seu amor não correspondido, que me peguei desejando voltar no tempo pra me casar com ela – pra que a sacerdotisa de Avalon não terminasse seus dias triste e sozinha. Mas não pense que eu virei santo não: se eu voltasse, eu comeria e muito a Morgana, mesmo com sua fama de feiosa. Ora se não comeria! Só de imaginá-la naqueles rituais correndo nua pela floresta, com o corpo todo lambuzado de sangue de gamo…

Sim, você tá certa, querida leitora, eu era doido mesmo. Melhorei um pouco. Mas continuo tendo uma queda fudida por bruxas, por mulheres que encarnam o arquétipo do feminino selvagem: mulheres ligadas à Natureza, de alma livre, harmonizadas com seus próprios ciclos e com a sabedoria natural do planeta, mulheres que não só vivem mas celebram a vida e estão conectadas ao Sagrado. Sim, é uma visão meio mística da mulher, uma visão meio pagã, sensual – mas também é uma visão sagrada. Conheço poucos homens que compartilham essa minha visão, ver a mulher como a representação viva da própria Deusa. Mas conheço várias mulheres que encarnam maravilhosamente o feminino selvagem. Putz, como não amar, admirar e reverenciar uma Filha da Deusa?

Em 2001 foi lançada uma versão do romance para a tevê. A história teve de ser alterada, afinal seria impossível contá-la da mesma forma em linguagem de tevê e em tão pouco tempo, mas a essência da história e sua mensagem foi mantida. Eu assisti e gostei. Pode ser encontrado em locadoras.

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MINISSÉRIE PARA TEVÊ

asbrumasdeavalon03As brumas de Avalon
Uma sacerdotisa prepara o nascimento de Arthur, que viria a se tornar rei para comandar a Bretanha e salvar Avalon.

Título original: The Mists of Avalon
Gênero: Aventura
Duração: 180 minutos
Ano de lançamento (EUA): 2001
Estúdio: Warner Bros. / TNT / Stillking Films / Constantin Film Production GmbH / Wolper Organization
Distribuição: TNT
Direção: Uli Edel

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SOBRE OS FESTIVAIS DE BELTANE
Ricardo Kelmer 2008

Originalmente Beltane era um importante ritual pagão de fertilidade, realizado anualmente em várias regiões da Grã Bretanha durante a alta Idade Média. Nele festejavam-se os ciclos da Terra e se saudava o retorno da primavera, num clima de reverência à Deusa, ou ao que hoje chamamos de arquétipo da Grande Mãe. Os participantes ofereciam seu corpo pra que o mistério se realizasse através do casamento sagrado do masculino e do feminino. As crianças nascidas desse ritual eram consagradas à Deusa e destinadas a serem sacerdotes, druidas, sacerdotisas, todos defensores da Grande Mãe.

O contexto do ritual é a comunhão com o sagrado e não o sexo propriamente dito. O sexo faz parte mas está inserido num clima de entrega sagrada, de reverência à Deusa, fazer do próprio corpo o altar onde se celebram os mistérios dos ciclos, a dança das estações, a fecundidade da Mãe Terra.

A Deusa une as pessoas ao redor das fogueiras e é uma imensa honra entregar-se a um filho da Deusa ou a uma filha da Deusa. Não é a outra pessoa que importa – importante é o ato de entregar-se à Grande Mãe e através desse dispor-se, ser instrumento da sagrada celebração da fertilidade da terra e do milagre da vida. Em Beltane ninguém tem um rosto, ninguém tem um nome. Cada um é a encarnação do sagrado masculino e do sagrado feminino.

O cristianismo bem que tentou exterminar por completo as tradições da antiga religião da Deusa, imprimindo a elas um caráter pecaminoso e demoníaco, além de perseguir e matar seus seguidores durante a vigência da Santa Inquisição. Mas as tradições pagãs sobreviveram e ainda hoje os festivais de Beltane são celebrados na Europa.

virou putaria

Outro dia encontrei numa comunidade do Orkut um tópico intitulado “Quem vc levaria para as fogueiras de Beltane?” (http://www.orkut.com.br/Main#CommMsgs.aspx?cmm=1488969&tid=9037760&kw=levaria+beltane) Nas respostas tinha Axl Rose, Brad Pitt, Shakira, a minha vizinha gostosa e por aí vai… Putz, pode uma coisa dessa? Teve uma lá que disse que levaria o marido “mas botaria um bip no bolso dele”. Que bolso, minha filha, que bolso??!!

Ai, ai… Pelo jeito, as pessoas ouviram o galo cantar mas não sabem nem que bicho era. O que fiz? Deixei um recado meio indignado pra pirralhada lá, no estilo Jesus-expulsando-os-vendilhões-do-templo. Não sei se adiantou muito não…

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Ricardo Kelmer – blogdokelmer.wordpress.com

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Mais sobre liberdade e o feminino selvagem:

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> As fogueiras de Beltane – As fogueiras estão acesas, a filha da Deusa está pronta. O casamento sagrado vai começar

> A mulher selvagem - Ela anda enjaulada, é verdade. Mas continua viva na alma das mulheres

> A mulher livre e eu – A liberdade dessa mulher reluz no seu jeito de ser o que é – e ela é o que todas as outras dizem ou buscam ser, mas só dizem e buscam, enquanto ela tranquilamente… é

> Em busca da mulher selvagem – Era por ela que eu sempre me apaixonava, essa mulher que era quem ela mesma desejava ser e não a mulher que a família, religião e sociedade impunham que ela fosse

> Amor em liberdade – O que você ama no outro? A pessoa em si? Ou o fato dela ser sua propriedade? E como pode saber que ela é só sua?

> Medo de mulher - A mulher é um imenso mistério, que o homem jamais alcançará

> Alma una – Eu faço amor com a Terra / Sou a amante eterna / Do fogo, da água e do ar / Sou irmã de tudo que vive / Ninfa que brinca com a vida / Alma una com tudo que há

> Quem tem medo do desejo feminino? (1) – A maternidade, a castidade e a mansidão de Nossa Senhora como bom exemplo, e a força, a independência e a liberdade sexual da puta como exemplo contrário, a ser jamais seguido.
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LIVROS

> Mulheres que correm com os lobos - Mitos e histórias do arquétipo da mulher selvagem (Clarissa Pinkola Estés -  Editora Rocco, 1994)

> A prostituta sagrada – A face eterna do feminino (Nancy Qualls-Corbert – Editora Paulus, 1990)

> As brumas de Avalon (Marion Zimmer Bradley – Editora Imago, 1979)

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O último homem do mundo

dezembro 24, 2008
O sonho de Agenor é que todas as mulheres do mundo o desejem. Para isso ele está disposto a fazer um pacto com o diabo. Mas há um velho ditado que diz: cuidado com o que deseja pois você pode conseguir…

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O ÚLTIMO HOMEM DO MUNDO

Ricardo Kelmer 1998

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CAP. 1

Agenor cumpriu todo o ritual, direitinho. Colhera o fumo num dia seis e seis dias depois o debulhara, fumo plantado no sítio Inferninho, na sexta noite após a sexta lua do ano. Não contara nada a ninguém. Tudo dentro dos conformes do ritual.

Eram onze e meia da noite e não havia lua no céu. A escuridão toda dava um pouco de medo mas Agenor estava decidido. Meia hora apenas o separava do momento mais importante de sua vida.

Tirou o cigarro da bolsa e acendeu. O nervosismo fez o cigarro cair duas vezes. Deveria fumá-lo sozinho ali na Pedra Grande, era o que dizia o ritual. Agenor fumou e aos poucos foi se acalmando. Tinha de estar tranquilo para dizer as palavras certas, não podia errar. Subiu numa pedra mais alta e lá encostou-se. E relaxou. Era realmente um excelente fumo, diferente de qualquer um que já houvesse experimentado. Diziam que, de tão especial, não estragava nunca.

Na Pedra Grande as estrelas eram mais brilhantes, mais próximas… Lá embaixo dava para ver as luzes da cidade de Jubá, a torre da matriz, o estádio…

Então escutou um ruído vindo do mato. Olhou para o relógio. Onze e quarenta e cinco. Não, não devia ser ele ainda, pensou. Talvez algum bicho. Deu a última tragada e apagou o cigarro. Começava a fazer frio. Agenor tirou da bolsa um cobertor e se cobriu inteiro, encolhido à pedra.

Durante meses estudara seu pedido como quem retoca uma pintura, ajeitando aqui e ali os detalhes das miudezas semânticas. Segundo o ritual do Encontro, o pedido tinha de ser formulado corretamente, as palavras exatas, o sentido perfeito. Não podia haver qualquer erro. Os diabos eram espertos e se as palavras dessem margem a qualquer outra interpretação, eles não perdoavam a falha.

Agenor olhou o relógio: meia-noite. O diabo chegaria a qualquer momento. Meia-noite e dez. Talvez o relógio estivesse adiantado, pensou Agenor. Meia-noite e vinte. Teria falhado em algum ponto do ritual?

À meia-noite e meia, quando já começava a cochilar, Agenor percebeu que alguém chegava, vindo de dentro do mato, caminhando devagar entre as folhagens. De repente sentiu medo. Pensou em desistir daquela história de pacto… mas as pernas não obedeceram e ele continuou ali em pé, esperando.

Quem chegou foi um velhinho de barbicha branca, de sobretudo, chapéu e bengala. Agenor estranhou. Não se parecia com um diabo.

CAP. 2

– Boa noite – disse o velho, erguendo o braço e tocando seu chapéu. – Desculpe a demora, sexta-feira sempre tem muito serviço. Você é o Agenor, não é? Sou Soloniel, o mais astuto dos diabos. Certamente já ouviu falar muito de mim.

– Ahn… não… – Agenor olhava para a figura à sua frente. Aquilo era um diabo? Parecia mais com aqueles velhos aposentados que jogavam dominó na praça.

– Devia ler mais, meu jovem – disse o diabo, apontando-lhe um dedo acusador. – É nisso que dá ficar vendo esses filmes idiotas da tevê. Deixa de saber quem foram os grandes nomes da História.

Agenor concordava com a cabeça, sem compreender aquela espécie de sermão. Aquilo era mesmo um diabo?

– Ainda duvidando de mim, rapaz?

Ele lia pensamentos! – assustou-se Agenor.

– Desculpe… é que… eu… – E não soube mais o que dizer.

– Já sei, já sei – disse o diabo, dando com a mão resignado. – Esperava um diabo mais jovem. É sempre assim. Por isso é que eles querem me aposentar. Nem um diabo velho é mais respeitado hoje em dia. O mundo está perdido.

– Desculpe, eu não quis…

– Eles sempre enviam diabos jovens, vigorosos, para impressionar os tolos. Pois saiba, meu jovem, que toda a juventude deles não serve nem para lustrar as botas da experiência de Soloniel, estas aqui!

Agenor olhou para as botas. Eram bonitas e brilhosas. Só um pouco folgadas.

– Está vendo? Estas botas já estiveram em muitos lugares e muitos tempos, tantos que os números já não contam – Ele batia nas botas com a ponta da bengala, tum-tum-tum. – Estas botas já estiveram em cavernas, tendas, palácios! Em castelos, campos de batalha, escritórios, alcovas mal iluminadas! Já presenciaram acontecimentos cruciais da história humana. Não só presenciaram como também ajudaram a determiná-los. Entende?

– Sim, sim… – balbuciou Agenor.

– Eu é quem incentivo as pessoas no rumo dos seus sonhos mais íntimos. E por eles cobro meu preço, claro. Tem um pano aí?

– Um pano? Ahn… Este serve?

Agenor estendeu-lhe o cobertor. O diabo agachou-se e deu uma lustradinha nas botas.

– Obrigado. Vamos lá, qual é mesmo o seu pedido?

Agenor respirou fundo.

– Bem, eu… O senhor pode mesmo realizar qualquer desejo?

O diabo deu um risinho de impaciência.

– Diga logo o que quer, meu jovem. O diabo Soloniel ainda tem quatro encontros esta noite.

– Eu… eu…

De repente Agenor sentiu um medo imenso. Valia mesmo a pena um pacto com o demo?

– Até logo, jovem – disse o diabo, virando-se e pegando o caminho de volta. – Volte para a sua mamãe. Pacto com o diabo não é para gente fraca como você.

CAP.3

– Ei, espere! – gritou Agenor, nervoso. – Vou fazer o meu pedido. Agora.

O diabo parou e voltou-se. E aguardou, apoiado em sua bengala.

– Eu…

– Sim?

– Eu quero que todas as mulheres…

– Estou ouvindo.

– Eu quero que todas as mulheres do mundo me desejem.

Pronto, dissera. Estava feito. E uma vez formulado, o pedido não podia mais ser mudado, ele sabia. Não dava mais para voltar atrás.

Agenor aguardava, a respiração suspensa, as palavras ecoando em seus ouvidos: todas as mulheres… do mundo… me desejem… De repente, pela primeira vez, seu desejo lhe pareceu ridículo e despropositado… Era como se as palavras, finalmente pronunciadas, concretizadas solenes no ar, tivessem o poder de lhe abrir os olhos.

– Hummm… Bom pedido, bom pedido – disse o diabo, balançando a cabeça, coçando a barbicha branca. – Fazia tempo que eu não topava com um desse. Deixe-me ver…

Agenor aguardava, nervoso. Teria sido um pedido difícil demais? Será que zombaria dele? Estaria estudando suas palavras, procurando brechas para poder enganá-lo?

– Claro que é difícil. Fazer todas as mulheres do mundo desejarem um cara feio, pobre e desengonçado como você é missão que pode consagrar um diabo pela eternidade inteira. Sabe o que significa a eternidade inteira, jovem?

A eternidade? Sim, claro, Agenor respondeu com a cabeça. Quer dizer, não, não sabia.

O diabo continuava coçando a barbicha, apoiado na bengala, olhando para as estrelas… Eram segundos que para Agenor pareciam séculos.

– Teve muita sorte de pegar um profissional como Soloniel, meu jovem. O que você pediu requer a experiência que só eu possuo, acredite. Pois muito bem. Dê-me o documento.

Agenor puxou do bolso uma folha de papel dobrada. Nela estavam a frase exata de seu pedido, data, local e a assinatura.

– Perfeito – falou o diabo, guardando o papel no bolso do sobretudo. – Então estamos combinados. Toque aqui.

Apertaram-se as mãos.

– Na hora certa virei buscar o pagamento pelo serviço. Adeus.

Agenor viu o diabo sumir mato adentro. Então respirou fundo. Fizera o pacto. Estava feito. O diabo realizaria seu desejo, era isso que importava.

Ele conseguira. Não era um fraco. Quanto à sua alma, pensou, já descendo a pedra a caminho da cidade, perdê-la seria um preço pequeno diante do grandioso futuro que o aguardava.

CAP. 4

O dia seguinte foi normal como todos os outros dias do carteiro Agenor. Envelopes, endereços, campainhas que não funcionavam, cães que detestavam carteiros. Entregas e entregas sob o sol da manhã e sob o sol da tarde. Nada demais. Mas nesse dia, pela primeira vez, o feio, tímido e desengonçado Agenor olhou as mulheres com certa segurança. Na lanchonete olhou para a moça que servia e lhe piscou um olho. Mas a moça não correspondeu e virou o rosto. Ele sorriu e apenas pensou: Deixe estar…

O dia terminou sem novidades. Após o jantar pediu bênção à mãe, dona Fafá, e se recolheu. Antes, porém, olhou-se no espelho. Nada mudara em seu rosto, em seu corpo, ele continuava o de sempre. Mas era apenas o primeiro dia, explicou a si mesmo. Em breve as coisas seriam diferentes.

No segundo dia as coisas também não foram diferentes. Envelopes, encomendas, endereços, cães antipáticos, o sol. A mesma caminhada diária, a mesma rotina. Tudo continuava igual. E as mulheres de Jubá também. Nenhuma lhe pareceu mais simpática. Continuavam todas em seu mundo distante, princesas inalcançáveis de um reino a ele não permitido. Nem Dorinha, pela qual era secretamente apaixonado, mostrou-se mais acessível. Uma pena, pois Dorinha era tão bonita, prendada, trabalhadeira. Poderia ser sua mulher…

O terceiro dia também não trouxe novidades. O quarto dia também. Passou-se uma semana e nada aconteceu. Agenor olhava-se ao espelho e via, decepcionado, que continuava feio e desajeitado. E a vida também era a mesma, ele suando de número em número e as mulheres limpas e perfumadas a ignorá-lo.

A segunda semana também correu igual, assim como a terceira. Um mês e nada, nenhuma mudança em sua vida.

Naquela noite Agenor virou-se na cama e sentiu-se imensamente triste por seu desejo não ter sido realizado. O diabo bem que avisara: era um pedido difícil.

Talvez houvesse errado na formulação do pedido, será? Talvez não houvesse escolhido as palavras exatas, isso era comum nas histórias dos pactos com o demo. Mas onde errara? De todas as frases pensadas, aquela era a melhor. Não podia dizer “Quero todas as mulheres” pois o diabo simplesmente poderia fazê-lo continuar querendo. Listar as mulheres que queria que o desejassem também não era uma boa ideia pois terminaria deixando alguma de fora e, além do mais, as mulheres crescem, envelhecem, está sempre nascendo mulher.

“Quero que todas as mulheres do mundo me desejem” era a melhor maneira de pedir. Sua pobreza, sua feiúra e sua falta de jeito – nada disso importaria se elas o desejassem. E sendo “todas as mulheres do mundo” não haveria risco de deixar nenhuma de fora, entrariam todas, da mais feia à mais linda, da mais pobre à mais rica, da mais anônima e insignificante à mais famosa e cobiçada. Todas o desejariam e a ele caberia apenas escolher quem delas teria o privilégio de realizar seu desejo, você sim, você não. Ah, seria o paraíso!

Subitamente lembrou-se de um detalhe, algo que havia lhe escapado durante todo aquele tempo: sua mãe. Dona Fafá também estava incluída na relação! Claro. Sua mãe querida, viúva, que tão bem cuidava do filho único. Sua mãe era uma mulher e, sendo assim, também o desejaria. E agora?

Agenor percebia sobressaltado que a formulação não fora perfeita. O que fazer com o desejo de sua mãe? Ou ela, por ser mãe, estaria automaticamente excluída das possibilidades? O diabo Soloniel seria razoável, entenderia a questão? E se seu pai fosse vivo, o que não acharia de uma marmota dessa?

Agenor puxou o lençol e se cobriu, como se assim pudesse se esconder de tantos pensamentos e dormir. Demorou uma eternidade para conseguir pegar no sono.

CAP. 5

Primeiro foi o Chico da Magnólia, velho amigo. Era domingo e tomavam uma cachacinha à beira da lagoa quando Chico, já bêbado, confidenciou a Agenor, sem jeito, que estava acontecendo com ele uma coisa terrível, terrível. E a muito custo foi que conseguiu dizer que ficara broxa, já não conseguia fazer nada com as mulheres, o dito cujo não funcionava mais, uma desgraça. Na noite anterior, por sinal, fora ter com as raparigas lá do Siribó, elas que sabiam como ninguém alegrar o cidadão. Mas que nada, não teve jeito que desse jeito. Tentou com a Paizinha, com a Chiquinha Piassaba e a Neide Peixeirão. Nenhuma delas conseguiu levantar-lhe o moral um centímetro que fosse. Tentou até umas pilulazinhas que um primo trouxera da cidade grande, diziam que levantava até bigorna. Mas nem elas deram jeito. No desespero chamou a Paloma, a espanhola dos peitões, a mais cara daquelas bandas do sertão, disposto a gastar cinquenta contos, o salário da semana inteira. Pois nem a Paloma, veja você, nem ela.

Agenor consolou o amigo, dizendo que procurasse um médico, não devia ser coisa muito séria. Mas Chico disse que já havia ido ao médico e este, sem detectar nada de anormal, falou que algum problema devia estar preocupando-o. Mas não tinha problema algum, explicou Chico, a não ser esse, esse era o problema, o pinto não queria mais trabalhar e pronto. Uma vergonha que o cidadão trabalhador e pagador dos seus impostos não merecia passar.

Agenor, sensibilizado, encheu um copo e tomou. Que uma desgraceira daquela nunca se abatesse sobre ele, jamais.

Depois foi a vez do seo Ribamar da bodega, que se chegou para perguntar se ele, Agenor, não conhecia um pai de santo bom, bom mesmo, que entendesse de mandinga de mulher malamada pois ele tinha certeza: foi mulher sim que lhe jogara aquele trabalho desgostoso, foi mulher sim.

Agenor ficou impressionado. Seo Ribamar era homem forte, de saúde, viúvo e namorador. Difícil crer que tão cedo deixasse de dar nos couros. Pois deixara. Sim, ele sabia de um pai de santo muito bom, lá para as bandas do Paredão, fosse lá que ele com certeza anularia aquele encosto de mulher ruim. Seo Ribamar agradeceu e saiu. Agenor viu o homem se afastar e bateu três vezes na madeira.

Então começaram a chegar as notícias. O atendente da farmácia, rapaz novo, não tinha vinte anos, também andava com o mesmo problema, como podia? E o cabo Nonato, famoso pela ruma de namorada que tinha, também havia ido ao Paredão se consultar com o pai de santo para se curar de uma desgraceira repentina que o deixara inutilizado para as artes da agarração.

De repente boa parte dos homens de Jubá estava broxa e o assunto era o preferido nas rodas de conversa. As beatas nas janelas invocavam Esaú aos Filisteus, capítulo 2, versículo 14: “E o peso da descrença pesará sobre a virilidade dos ímpios, e estes serão marcados pelo Anjo com o castigo de não poderem mais dar filhos às suas mulheres e a Terra os amaldiçoará.” Benza Deus.

Autoridades evitavam se pronunciar sobre o assunto porque o fato provocava risinhos e constrangimentos. O que estava acontecendo afinal? Ninguém possuía explicação convincente para o fato e os médicos da cidade se debatiam entre teorias diversas, sem chegar a conclusão alguma.

A cada notícia, Agenor se assustava e corria para o banheiro para se investigar, munido de alguma revistinha. Não, com ele não, felizmente. Com ele tudo corria normalmente, conforme a natureza estabelecera. E com as mulheres, tudo normal também: elas continuavam distantes como sempre.

CAP. 6

Alguns forasteiros, atraídos pela notícia de que as mulheres de Jubá estavam que nem lagartixa, subindo pelas paredes, decidiram descer por lá e averiguar se a história tinha mesmo cabimento. Resultado: os hotéis da cidade agora estavam lotados. Se a broxação geral representava um golpe no orgulho dos machos jubaenses, a receita do turismo fechava os olhos dos donos dos hotéis e dos bares.

Os homens sérios de Jubá não gostaram nem um pouco dessas novidades, lógico, e exigiram posição firme das autoridades. Uma equipe médica da capital foi então designada para estudar a estranha epidemia e, após muitos exames, constatou que, com exceção de uns gatos pingados, quase toda a população masculina da cidade já havia sido afetada. Uma tragédia. Apesar de todos os esforços, a equipe deixou a cidade sem qualquer explicação para o fenômeno. Bem ao contrário de outras coisas na cidade, o mistério continuava de pé.

Receitas, simpatias, promessas e orações, tudo foi usado contra a desgraceira. A Ladainha Milagrosa dos Sete Pingos, ou Ladainha da Bengala Poderosa como também é conhecida, que diz que é tiro-e-queda, reapareceu por esses dias com força total, circulando pelas banquinhas da feira e até mesmo em farmácia, veja o desmantelo da situação. Ela dizia que o cidadão, pouco antes de começar a peleja do amor, devia acender uma vela branca nunca antes usada e, ajoelhado na direção de Juazeiro do Norte, deixar cair sete pingos sobre o dito cujo desmilinguido enquanto rezava:

Com minha fé e humildade, eu trago aberto o coração
E rogo pela intercessão de quem escuta o meu pedir
Que me ajude nessa prece para expulsar o malefício
Acabando o meu suplício nos sete pingos a cair

Minha bengala poderosa, acuda logo sem demora
Que é urgente essa hora de dor, espanto e  aflição
Minha bengala poderosa, cancele a lei da gravidade
Para que suma a maldade e suba logo o cacetão

O estojinho contendo vela e folheto vendeu que nem bolacha, não deu para quem quis. Só não ensinava para que lado ficava exatamente a cidade de Juazeiro, indesculpável falha que, certamente, deve ter inviabilizado muita reza pois ninguém viu melhora alguma na situação.

Um jornalista da capital, que acompanhava o trabalho dos médicos, levou as informações para o seu jornal e pronto: no outro dia o estado inteiro estava por dentro da desgraça da pequena Jubá. No mesmo dia começaram a chegar repórteres de rádio, jornal e tevê e a cidade se transformou em notícia obrigatória, fosse na capital ou pelas cidades do interior. Até um laboratório farmacêutico, que produzia as tais pilulazinhas milagrosas, andou distribuindo amostras grátis, farejando na desgraceira alheia uma grande oportunidade de negócios. Mas deu com os burros nágua: para os homens de Jubá as pilulazinhas e nada eram a mesma coisa.

Foi então que começaram a chegar notícias de outras localidades próximas: nelas também estava ocorrendo a mesma coisa! Tudo o que acontecera em Jubá estava se repetindo por lá, o mesmíssimo drama. E poucos dias depois soube-se dos primeiros casos fora do estado. Logo depois cidades do país inteiro exibiam alarmadas seus casos de impotência. Semanas depois o mal já havia alcançado os outros países. A desgraça agora era global.

Cientistas se esforçavam por explicar, políticos exigiam verbas, empresários se mobilizavam, organizações formavam passeatas… O mundo inteiro não falava em outra coisa. Da Europa aos recônditos da África, de Santiago a Vladvostock, os homens, pretos, brancos, índios e amarelos, ricos e pobres, iam, dia após dia, sucumbindo ao mal sem que ninguém entendesse por que diabos aquilo acontecia.

CAP. 7

Desde o primeiro caso notificado em Jubá tinham se passado quase seis meses. As estatísticas mostravam que mais de noventa por cento da população mundial masculina fora afetada pela repentina impotência e os casos prosseguiam aumentando, sem poupar nem os adolescentes, coitados, mal entrados no assunto. Podia-se realizar inseminação artificial nas mulheres, é claro, mas isso não resolvia o problema. Muito menos explicava.

Enquanto isso médicos e terapeutas faturavam alto com o desespero, pais de santo engordavam a conta bancária, pomadas e sprays milagrosos surgiam às centenas e os vibradores viraram itens obrigatoríssimos no comércio inteiro, fazendo surgir inclusive um projeto de lei que incluía o vibrador na cesta básica.

Enquanto o mundo vivia seu terrível pesadelo, naquele domingo Agenor acordou sorridente. Após dois sorvetes na lanchonete e três noites de conversa mole na porta de sua casa, Dorinha aceitara seu pedido e agora estavam namorando, ela que já fazia algum tempo comprovava, nas despedidas ao portão, que aquele romance tinha, literalmente, onde se segurar. E para comemorar o namoro, ela conseguiu folga no restaurante e passaram o sábado na lagoa bebendo vermute. No final, já noite escura, ela o puxou para si e ali mesmo sacramentaram o nheco-nheco, ele alegríssimo, ela em desesperado ardor, como se havia muito não soubesse como era um homem, coitada. Nessa noite ela foi a mulher mais feliz do mundo e, embora não houvesse muitas estrelas no céu, Dorinha viu todas elas, de pertinho, brilhando em todas as cores, uma constelação de felicidade.

Quando as amigas de Dorinha souberam que ela estava namorando Agenor e andava cantarolando alegre e vistosa, chegaram à mais óbvia das mais óbvias das conclusões. Assim foi que a partir desse dia, Agenor pôde perceber uns olhares mais insinuantes pela rua e por onde quer que fosse.

Belo dia, ao receber a correspondência entregue por Agenor, a moça da butique, de nome Carmela e apelido Botinha, que por sinal era prima da Dorinha, mas, ao contrário da prima, nunca se prestara a saliência na frente do portão, perguntou mui delicadamente a Agenor se por um acaso ele não faria a gentileza de matar uma barata voadora que teimava em não querer deixar o depósito lá atrás, ela que tinha pavor de barata, quanto mais voadora. Agenor, muito solícito, se dispôs. Quando chegou ao depósito foi que percebeu que era outra a barata. Embora a moça não fosse lá muito bem dotada de atributos físicos, tendo, inclusive, de usar bota ortopédica, daí o apelido, por causa de uma perna maior que a outra, sem falar num braço seco que furou no prego, Agenor foi solidário, ah, foi sim, e fez com que a danada da barata se aquietasse. E voltou para a rua de ânimo revigorado, nem ligando para os cães que detestavam carteiros.

Mas em cidade pequena as notícias correm que nem fogo morro acima. Dois dias depois elas foram dar no ouvido de Dorinha que, depois de largar meia dúzia de mãozada na cara da traidora prima Botinha, tratou logo de tomar providências contra o perigo que seu patrimônio corria. O que fez: botou as amigas, todas de altíssima confiança, para acompanhar a trajetória do namorado pelas ruas da cidade, olheiras a bem dizer, uma vez que ela mesma não podia fazê-lo, já que pegava no batente o dia inteiro no restaurante.

Uma semana depois Agenor já havia sido requisitado para matar duas dezenas de baratas pela cidade, inclusive na casa das tais olheiras, algumas delas crentes, irmãs em Cristo, sim, que o nazareno, bom que se diga, não tem nada a ver com certas agonias femininas que costumam dar no final da tarde, quando o sol desce em Jubá e sopra um ventinho fresco que se intromete por baixo das saias.

Dorinha, de sangue quente por causa da crescente fama do namorado, agarrou-o pelo cangote no meio da praça e deu o ultimato: ou ela ou as baratas, que ela não era mulher de dividir com as outras aquilo que de direito era só dela.

Agenor pensou um pouco. Não era sua intenção magoá-la, Dorinha era mulher boa e ele gostava muito dela. Mas é que as baratas… Bem, elas lhe acenavam com um horizonte bem mais amplo de possibilidades, digamos dessa forma. Andava até pensando em montar uma firmazinha de dedetização, o mercado era promissor.

Ficaria com elas, as baratas. Foi o que respondeu.

Quem estava na praça viu quando o tabefe de Dorinha estalou no pé da orelha do carteiro, tabefe daqueles de ficar zunindo por três dias. Ela virou as costas e saiu, o passo ligeiro, a tromba desse tamanho, deixando Agenor de quatro a recolher as correspondências caídas ao chão.

Na mesma noite, porém, ela haveria de cair em si e se arrepender, tentar reconciliação, haja vista a carência horrorosa de homem na cidade. Melhor dividir o prato que não ter o que comer, coisa mais óbvia, né? Mas nada feito. Agora era Agenor quem não queria. Ela chegara atrasada à obviedade.

CAP. 8

No dia seguinte um conhecido repórter da rádio local, de modos muito delicados, e que fazia uma reportagem sobre a epidemia, cismou de querer entrevistar algum homem que ainda estivesse com suas funções de macho normais. Acionando seus contatos e perguntando daqui e dali, o repórter soube do carteiro Agenor. Animado com a descoberta, alcançou-o no momento em que, fim de expediente, trabalho terminado, o moço se encaminhava para matar uma barata lá para o lado do açude. Porém, tímido como era, Agenor nem deixou que o repórter lhe explicasse o motivo da entrevista e saiu correndo.

Naquela mesma noite a reportagem foi ao ar. Não continha a entrevista de Agenor, claro, mas falava dele, e muito. E bem.

Dez minutos após terminada a reportagem já tinha gente em frente à casa do carteiro Agenor. Dois amigos e sete vizinhas. Dona Fafá disse que o filho não estava mas que não devia demorar a chegar. Todos resolveram aguardar, os dois amigos e as sete vizinhas. Oito, porque chegou mais uma. Aliás, nove.

Do outro lado da cidade, Agenor pediu que a garota parasse um pouquinho com o vai-e-vem sobre seu corpo porque ele acabara de escutar seu nome no rádio.

– Preciso ir para casa – ele falou, afastando a garota. – Mamãe deve estar preocupada.

– Ah, fica mais um pouquinho…

Era a terceira vez que escutava aquela mesma frase naquele dia.

Alguns minutos depois Agenor dobrou a esquina de sua rua e tomou um susto. Havia um bando de gente em frente à sua casa. Ele se escondeu atrás de uma árvore, com medo, enquanto pensava o que fazer. Decidiu entrar pelos fundos.

– Filho, aquilo que saiu no rádio é verdade? – Foi a primeira coisa que a mãe perguntou, ao abrir a porta do quintal para ele entrar.

– Mãe, a senhora viu? Está cheio de gente lá fora.

– Na sala também. O Chico da Magnólia, seu tio Ferreirinha… Suas primas também estão aí. Até o prefeito veio.

– Pode dizer para todo mundo que eu viajei.

– Mas…

– Vai, mãe. Vou esperar aqui.

Agenor escondeu-se no quartinho dos fundos enquanto dona Fafá voltava à sala.

– Foi um custo mas foram embora – ela disse, retornando. – Agora me conte direito essa história.

Agenor falou que não sabia o que estava acontecendo. Mas estava muito preocupado com tudo aquilo.

– Então vá dormir, filho, que é melhor. Estou vendo que você está cansado. Trabalhou muito hoje, né?

Agenor pediu a bênção e foi para o quarto. Mas sono que é bom, não teve, não conseguiu pregar o olho. Sem falar que no meio da madrugada uma vizinha conseguiu entrar pela janela e se atracou com ele, foi um custo soltá-la, a moça pedindo pelo amor que ele tinha a Nossa Senhorinha que também desse uma chinelada em sua barata, que ela andava muito precisada. E já perto de amanhecer foi a Jaciara, filha do dono do cartório, que todo mundo desconfiava ser meio destrambelhada do juízo. Pois ela provou que era mesmo: trepou-se no telhado da casa, e ficou lá em cima, nua, berrando para o mundo inteiro ouvir que estava grávida de Agenor e que ele devia casar com ela. Mentira, claro, Agenor nunca nem tocara na moça, e ela antes nunca nem tinha olhado para ele.

Assustado e exausto pela noite em claro, Agenor decidiu que o melhor era ir embora.

– A gente pode mudar de endereço.

– Não vai adiantar, mãe.

– O mundo lá fora é tão perigoso, filho. Essas mulheres todas se enxerindo para você…

Agenor olhou para a mãe e sentiu uma pontada de tristeza magoar seu coração. Súbito percebeu o quanto estava sendo egoísta. Como podia pensar em abandonar sua mãe querida, deixá-la sozinha? Pensava apenas em si mesmo, esquecera da mãe. Como podia ser tão ingrato com aquela que lhe deu a vida, que o criou e nutriu?

Então se achegou no colo da mãe, que o abraçou forte, abraço sentido, apertado, seu corpo envolvendo o do filho amado… Agenor fechou os olhos e deixou-se levar por aquele abraço gostoso, o mormaço aconchegante dos seios de dona Fafá, que o apertava mais forte contra si, mais forte, mais forte…

Agenor abriu os olhos. O rosto afundado entre os seios grandes da mãe, quase não conseguia respirar. Um terror repentino se apossou de sua alma. O que estava fazendo?

– Tenho que ir embora, mãe… – balbuciou, levantando-se. – A senhora me perdoa?

– Eu sabia que um dia você ia partir, filho.

Ela então foi ao quarto e voltou com umas notas que tirara do fundo da gaveta.

– Guardei esse dinheirinho para você. É muito não mas ajuda. Tome, leve. Vou ligar para minha irmã Zulmira para ela lhe receber.

CAP. 9

Na rodoviária, enquanto Agenor esperava o ônibus, foi surpreendido pela equipe de tevê da capital, que acabara de chegar a Jubá à sua procura. Ele não quis dar entrevista mas mesmo assim o filmaram entrando no ônibus.

Na estrada, a caminho de Bocariús, foi que atinou: o pacto com o diabo! E ficou pasmo, os olhos arregalados. Tudo aquilo seria o pacto funcionando?, ele se perguntava, a mão sobre o coração agitado. Talvez o diabo estivesse realizando seu desejo, embora por vias que ele jamais pudesse atinar. Todo o tempo pensou que ficaria mais bonito, talvez o diabo lhe fornecesse um perfume irresistível… Mas não, não foi nada disso.

Se era realmente o pacto funcionando, então lamentava que os outros homens estivessem pagando tão caro pela sua felicidade. Mas talvez fosse só por um tempo, logo voltariam ao normal. Mas se voltassem ao normal, como ficaria ele?

O ônibus chegou a Bocariús na hora do almoço. Agenor estava faminto, pensava somente num prato de comida. Encostou-se no balcão da lanchonete e pediu arroz, feijão, bife e ovo. Na tevê passava uma reportagem, mostrando o último homem de Jubá entrando no ônibus, seguindo para… Bocariús.

Todos na lanchonete pararam ao ouvir o nome da cidade. Agenor nem respirava. A garçonete foi a primeira a reconhecê-lo.

– Gente, é ele! O homem de Jubá!

No instante seguinte estavam todos à sua volta, queriam perguntar coisas, tocá-lo. Os homens imploravam que divulgasse a receita milagrosa, as mulheres o abordavam eufóricas. Agenor se desvencilhou como pôde e saiu. Mas as pessoas o seguiram. É o cara de Jubá!, uma garota gritou da janela do ônibus que passava na rua. Ele vai morar aqui!, gritou a outra. E a terceira completou: E vai casar comigo!!!

Em poucos minutos uma multidão o acompanhava pelas ruas, parecia uma procissão. O comércio fechou para vê-lo passar. Agenor correu e a multidão correu atrás. Finalmente ele chegou à casa da irmã de sua mãe, ofegante, a roupa rasgada, um sapato faltando. Tia Zulmira, noventa e cinco quilos de gordura e macheza, abriu rápido a porta e botou para dentro o sobrinho escangalhado. Depois, brandindo a carabina velha, gritou que o primeiro que chegasse perto ia ficar que nem peneira. E atirou para o alto, espalhando a multidão.

Mas a cidade inteira já sabia quem havia chegado e não o deixaram em paz nem por um minuto. Eram populares, radialistas, comerciantes, religiosos, vereadores e toda classe de gente interessada em ter com o último homem de Jubá. A tia trancara portas e janelas e desligara o telefone. Mas lá fora a multidão alvoroçada gritava seu nome, homens e mulheres, e tarde da noite ainda tinha gente rondando a casa.

Agenor estava cada vez mais assustado. A tia, porém, lhe garantiu que ali dentro ele estava seguro.

– Obrigado, tia. Vou ficar em dívida com a senhora pro resto da vida.

De madrugada, outra noite sem conseguir dormir, Agenor viu a tia entrando no quarto.

– Ô, meu filho, acuda sua tia, acuda… Não é só lá em Jubá que tem carestia de homem não…

Foi assim que Agenor pagou a dívida.

Antes que amanhecesse, ele aproveitou a escuridão, correu para a estrada e pegou carona num caminhão. Sorte que o motorista não o reconheceu. Desceu numa cidadezinha que nem sabia o nome. Mas lá também as pessoas imediatamente o reconheceram. Ele até que tentou conversar mas a confusão logo se instalou ao seu redor, os homens, raivosos, se arregimentando para capá-lo e as mulheres, revoltadas, tentando impedir. Quando a polícia chegou, ele precisou correr bastante para não ser preso por incitar a desordem.

Pobre Agenor. Já não havia mais onde se esconder. Sua imagem fora divulgada pela tevê para o mundo inteiro, o mundo todo sabia seu nome, conhecia detalhes de sua vida. Para onde fosse, seria reconhecido e apanhado. Podia ser preso, podia ser morto.

Mas havia um lugar sim, lembrou Agenor, a esperança de repente renascida. A capital. Lá tinha muita gente, parecia formigueiro. E as pessoas estavam sempre ocupadas demais para reparar nas outras.

Foi assim que Agenor, pela primeira vez na vida, pisou o chão da cidade grande. Escondendo o rosto com boné e óculos escuros. Na primeira lixeira jogou fora todos os seus documentos. Não era mais Agenor. Era um ninguém.

CAP. 10

O mundo inteiro continuava buscando a explicação e, principalmente, a solução para o problema da impotência generalizada. Jubá, a pequenina cidade interiorana, virara atração internacional pois descobriu-se que foi lá que a estranha epidemia começou, o que fez com que os jubaenses, de repente, se vissem entre autoridades de países do mundo inteiro, toda uma espécie de gente ávida por saber o que havia naquela cidade que pudesse ter causado o que causou. Jubá, a cidade celebrizada pela desgraça.

– Dizem que só sobrou um homem sadio em Jubá – explicou o prefeito impotente em entrevista. – Mas ele fugiu, ninguém sabe onde se meteu. Aproveitando a ocasião, gostaria de dizer que estamos inaugurando um monumento comemorativo dessa epidemia que projetou para todo o planeta o nome da próspera cidade de Jubá e…

Pelos quatro cantos do mundo os jornais ofereciam anúncios de mulheres, e homens também, que pagavam fortunas por uma noite, uma noite apenas com um homem que ainda fosse capacitado. Na tevê os cientistas, olheiras profundas, imploravam que se apresentassem aqueles que ainda podiam ser preservados da epidemia. Nas ruas os semblantes seguiam tristes. Nas igrejas os sermões falavam de castigo divino, de Sodoma e Gomorra revividas, de fim do mundo.

Parecia que o sombrio e previsível final havia finalmente chegado: o mundo não tinha mais homens dignos do nome.

SEIS MESES APÓS CHEGAR à capital, lá estava Agenor, sentado na calçada do ponto de ônibus, a mão estendida. Era o seu ponto de pedir esmolas. O local não era muito movimentado mas pelo menos não tinha dono para cobrar aluguel, como os outros pontos. A barba crescida, o boné e as roupas sujas faziam-no apenas mais um entre os tantos mendigos que compunham a cena da cidade grande.

O que ganhava era o suficiente para não morrer de fome e de frio. Dormia num velho prédio que fora abandonado no meio da construção, onde também dormiam outros mendigos, com os quais evitava maiores contatos. Não era um lar, era um esconderijo. As pouquíssimas coisas que possuía levava sempre consigo numa bolsa de pano, que um dia fora branca. E tomava banho, quando dava, usando a torneira da praça, na discrição da madrugada.

A vida na clandestinidade era difícil, claro, mas era melhor ser ninguém que ser reconhecido na rua e ir parar sabe-se lá onde, nas mãos de sabe-se lá que tipo de gente. Emprego então, nem pensar. Mesmo que conseguisse empregar-se sem documentos, ainda assim seria arriscar-se demais.

Não tinha amigos, não podia confiar em ninguém. A solidão era a companheira, ela e a saudade da mãe e dos amigos. Sua vida chegara a uma rua sem saída, onde ele não podia seguir em frente e muito menos voltar. Estava condenado a viver aquela subvida até o último dia, quando finalmente o diabo voltaria para receber sua alma como pagamento pelo serviço. A não ser que…

A não ser que descobrissem a cura para a impotência generalizada. Quando isso acontecesse, Agenor finalmente poderia deixar de ser ninguém para ser novamente… Agenor. Ou seja, continuaria a ser ninguém. Mas pelo menos voltaria para seu lar e não teria que pedir esmolas.

Que grande ironia…. Obtivera a realização do seu maior desejo e, no entanto, não podia usufruir nem um pouco dele. Ele era desejado por todas as mulheres do mundo mas elas sequer o conheciam. Ele era o último homem do mundo – e não havia nenhuma vantagem nisso.

Às vezes tomava coragem e caminhava pelas ruas, ia aos parques, mas sempre surgia algum guarda ou policial para importuná-lo. Outras vezes percebia nas pessoas uns certos olhares desconfiados… Pronto, era o bastante para fazê-lo voltar imediatamente ao esconderijo. Estava bem diferente da imagem que o tornara famoso – mas todo cuidado era pouco.

Pelos jornais que pegava no lixo ou pela tevê do botequim, Agenor acompanhava as notícias da epidemia. Sabia que tudo continuava do mesmo jeito. E sabia que o mundo inteiro prosseguia a busca pelo último homem do mundo, como ele ficara conhecido. Seu desaparecimento gerara uma série de hipóteses, desde as que afirmavam que ele fora assassinado às que sustentavam que ele era mantido preso nos subterrâneos de um laboratório enquanto cientistas tentavam decifrar seu segredo. Alguns diziam que o último homem do mundo fugira para uma ilha distante e montara um harém só para ele, mandando buscar as mulheres mais lindas do mundo…

Agenor às vezes ria desses absurdos, era mesmo incrível a imaginação do povo. Mas não dava para rir quando ele via seu rosto surgir na tela da tevê, o que acontecia quase todo dia. Nessas ocasiões ele baixava ainda mais o boné sobre o rosto e saía de mansinho, tremendo de medo.

Tão grande quanto o medo de ser descoberto era a angústia que lhe faziam sentir… as mulheres. Ah, as mulheres da cidade grande… Eram lindas, carnudas, bem aprumadas, vestiam-se com elegância, a pele fresquinha, o cabelo bem tratado, o jeito de andar… Elas enfeitavam todos os lugares, as ruas, as lojas, os bares. Onde estivesse, vinha-lhe o perfume inebriante da tentação, atingindo-o em cheio. À noite, deitado sobre os papelões que lhe serviam de cama, rolava de um lado para outro, a imagem de mil mulheres passeando por seu pensamento, aquela de vermelho com quem cruzou na esquina e aquela que passou no ônibus e aquela vendedora de flores, todas elas, mil mulheres, mil possibilidades… Mil possibilidades que, entretanto, sempre desapareciam expelidas num jato de prazer solitário.

Uma vez, sem aguentar mais, dirigiu-se à periferia em busca de um cabaré, mesmo consciente do altíssimo risco da operação. Mas não encontrou nenhum. Foi então que soube que todos os cabarés haviam fechado. Por absoluta falta de clientes.

Esta era a angústia. E durante aqueles meses ela só não foi maior que o medo de ser descoberto. Até que uma noite…

CAP. 11

Desde o início Agenor adquirira um hábito: guardar classificados dos jornais que recolhia no lixo. Recortava pedaços e juntava aos que já possuía. Eram todos anúncios de mulheres oferecendo pequenas fortunas por uma noite com um homem de verdade. Pois bem. Naquela noite sem lua, no auge da angústia e da solidão, ele separou um anúncio e com ele desceu as escadas sem corrimão do velho prédio inacabado. De um orelhão da rua ligou para o número do anúncio. Uma voz de mulher atendeu, bonita, sexy… Ele falou quem ele era. A mulher não acreditou. Nervoso, ele falou que poderia facilmente provar mas para isso precisavam se encontrar. A mulher então disse que enviaria um táxi imediatamente. Agenor passou o endereço onde estava e desligou.

Enquanto aguardava, ansioso, começou a chover e ele protegeu-se sob o orelhão. Não sabia se havia feito a coisa certa mas agora já não voltaria mais atrás, não aguentava mais.

Em cinco minutos o táxi chegou. Ele entrou e acomodou-se no banco de trás, molhado da chuva. Estava nervoso mas esperançoso. Aquela podia ser a saída que tanto buscava: uma mulher rica e insatisfeita, disposta a pagar muito por um homem que lhe desse prazer. Ela o levaria para morar numa bonita casa de praia, cozinharia para ele, lhe compraria roupas caras, lhe daria um carro bacana e lhe ensinaria a dirigir, faria todas as suas vontades. Em troca disso tudo, ele teria apenas que ser o que ele era: um homem. Só isso.

O táxi parou em frente a uma casa. Agenor reparou que era grande e bonita, com um jardim cheio de plantas coloridas. Um homem de paletó, com um guarda-chuva, abriu a porta do carro.

– Boa noite, senhor. Queira acompanhar-me, por gentileza.

Agenor foi conduzido pelo jardim, subiu uma escadaria e entrou numa sala.

– Por favor, sente-se. Anunciarei sua chegada.

Agenor sentou-se no sofá, admirando os móveis e os quadros nas paredes. Devia ser uma mulher muito rica, pensou, satisfeito. Aproveitando o espelho ao lado, passou o pente no cabelo e ajeitou a camisa. Por sorte havia tomado banho aquele dia. Pensara até em tirar a barba mas não teve coragem.

Então uma outra porta se abriu e uma moça muito bonita surgiu à sua frente. Tinha lindos cabelos loiros, um rosto suave e… sorria. E vestia uma camisola transparente que nada escondia de seu corpo perfeito.

– Agenor de Jubá? – perguntou, delicadamente.

– Sim… sou eu… – gaguejou Agenor, o desejo já se manifestando sob as calças.

Ela o observou atentamente por alguns segundos. Então aproximou-se.

– Como posso ter certeza disso?

Agenor sorriu, sem saber o que responder. De repente ela o empurrou e ele caiu sentado no sofá. Ela ajoelhou-se, tirou seus sapatos, depois sua calça e rapidamente o deixou nu. Agenor nunca vira tamanha pressa, a moça devia estar mesmo na precisão.

– A senhora pensou que eu estava mentindo, né? – disse ele, vendo que ela olhava impressionada para o meio de suas pernas. – Menti não, olha aí.

Ela continuou ajoelhada entre suas pernas, o queixo caído, os olhos de quem não acredita no que vê. Então ela gritou, alvoroçada:

– Tá no ponto! Tá no ponto!

Agenor achou estranho mas já sabia que as mulheres da cidade grande possuíam hábitos esquisitos, de forma que apenas riu. No instante seguinte, vindos do corredor, surgiram uma mulher e dois homens.

– Obrigado – a mulher falou para a moça de camisola. – Agora é com a gente.

– Não dá para eu ficar sozinha com ele por dez minutinhos? – perguntou a moça.

Um dos homens, porém, a puxou e a afastou para o outro lado da sala. Agenor percebeu que o outro homem empunhava uma câmera de filmar. De repente uma luz forte acendeu-se sobre ele.

– Estamos transmitindo ao vivo! – disse a mulher, falando no microfone. – Isso que você está vendo não é truque. A imagem não deixa qualquer dúvida: é o último homem do mundo! Nós o encontramos! Vocês podem ver, olhem aqui, é incrível, é, é inacreditável, é… maravilhoooso…

Apavorado, Agenor levantou-se de um salto e abriu a porta. Um dos homens ainda tentou detê-lo mas ele desvencilhou-se e saiu correndo, nu como estava, a luz do refletor seguindo atrás. Saltou o muro da casa, sempre a luz a persegui-lo, e caiu na calçada no meio de uma poça dágua. A chuva havia aumentado bastante. Agenor levantou-se, sentindo a perna doendo, e continuou correndo.

Correu, correu até não aguentar mais. Somente então parou e caiu no chão, ofegante, a perna doendo bastante. E assim ficou, estendido no chão da passarela do viaduto, enquanto a chuva caía sobre seu corpo nu e lá embaixo os automóveis passavam em alta velocidade.

Chegara ao fim. Não tinha mais forças para continuar com aquela vida. Estava cansado. Cansado de correr, de se esconder, de ser ninguém. Que sentido ainda havia em continuar vivo? Nenhum, absolutamente nenhum.

Então, apesar do cansaço, da dor da perna, de tudo, Agenor sorriu. Sorriu porque a certeza do fim de repente era como um bálsamo para sua alma sofredora. Sorriu porque sentia-se finalmente liberto da dolorosa obrigação de viver.

Um tempo depois Agenor percebeu que havia alguém ao seu lado.

– Humm, como você fica horrível sem roupa…

CAP. 12

Ainda deitado, Agenor virou o rosto e tentou ver quem era. Mas a água em seus olhos dificultava a visão. Aos poucos foi enxergando melhor: um par de botas pretas, a ponta de uma bengala…

– Soloniel… – ele sussurrou, reconhecendo a figura de sobretudo preto.

– O mais astuto dos diabos – falou Soloniel, cumprimentando-o com um toque em seu chapéu.

Agenor deitou novamente a cabeça, sem saber se deveria se sentir alegre ou triste.

– Por que fez isso comigo?

– Como assim? Fiz apenas o que me pediu.

– Eu só queria ser desejado…

– E não conseguiu?

Agenor suspirou, sem forças para falar.

– Creio que ambos concordamos que cumpri minha parte no trato, não é?

Agenor não respondeu. Nada mais importava. Ficaria ali, debaixo da chuva, até morrer…

– Conforme combinamos, vim buscar meu pagamento.

Agenor escutou aquelas palavras sem qualquer surpresa. Não lhe importava. Já estava morto.

– Por favor, levante-se, jovem. Esta não é a melhor posição para um momento tão solene.

Agenor abriu a boca, deixando que a água entrasse. Bebeu um pouco e depois perguntou, enquanto se erguia com dificuldade, a perna latejando de dor.

– O mundo vai continuar como está, todos os homens impotentes?

– É isso que você deseja?

– Claro que não. Não está certo.

O diabo Soloniel riu.

– Sente-se culpado apenas porque realizou seu grande desejo?

Agenor não respondeu.

– Como a vida é pródiga em ironias… – falou o diabo, batendo na bota com a ponta da bengala. – Bem, se isso serve de consolo, depois que você se for, tudo voltará ao normal.

Por um breve instante Agenor sentiu-se feliz.

– Agora siga-me. Está na hora.

O diabo caminhou até a murada da passarela e subiu, ficando de pé. Depois virou-se para Agenor.

– Sua vez.

Agenor foi até a murada e olhou para baixo. Era uma altura bem considerável. Ouvira dizer que várias pessoas já haviam se jogado dali.

– Vamos, jovem, não posso ficar esperando a eternidade inteira.

Agenor ficou parado por um instante. Que maneira de se morrer, estatelado no asfalto, os carros passando por cima… Depois seu corpo seria recolhido aos pedaços e levado ao necrotério, ninguém o reconheceria, seria enterrado numa cova qualquer, como indigente…

Apesar da dor na perna, Agenor subiu e firmou os pés sobre o cimento.

– Muito bem – disse o diabo. – Se quiser se despedir, posso dar-lhe um minuto.

De pé na murada, inteiramente nu, Agenor viu as milhões de luzes da cidade ao redor. O som da chuva se misturava ao dos carros passando lá embaixo. A queda seria rápida, apenas alguns segundos e pronto, tudo estaria acabado, não haveria mais sofrimento…

A voz do diabo o trouxe de volta de seus devaneios:

– Um, dois, três e já!

CAP. 13

De repente… uma dúvida. Como assim não haveria mais sofrimento? Esperava o quê do inferno? Agenor olhou para o diabo, pensando em como perguntar sobre aquela dúvida repentina.

– Que saco. O que foi agora? – quis saber Soloniel, impaciente.

– Como é o Inferno?

O diabo pareceu não acreditar no que ouvia.

– Você quer que eu lhe explique como é o Inferno? Agora?

– É que… não consigo imaginar algo pior do que o que já estou vivendo.

O diabo bateu na bota com a bengala.

– Bem, digamos que seu caso é uma exceção.

– Como assim?

– Como havia lhe dito, todos os diabos sonham com um pedido como o seu. Realizá-lo significaria a glória eterna para um diabo, o nome para sempre brilhando em ouro na entrada do Inferno. Bem, eu consegui. E graças a você.

Agenor continuava ouvindo, curioso.

– Então, como retribuição, reservei um lugar especial para você. Será meu assessor. Você sabe, já estou velho, preciso dividir o serviço.

– Assessor? Eu?

– Claro. Dentro de alguns segundos você também será um diabo. E já tem um serviço esperando.

– Um serviço? Como assim?

O diabo fez uma pausa enquanto sorria.

– Dorinha também vai fazer o pacto comigo. Assim que eu terminar com você, irei encontrá-la.

– Dorinha?! – exclamou Agenor, surpreso.

– Sim. Sua ex-namorada. Já esqueceu da moça?

Então a lembrança de Dorinha chegou, vinda de longe… Agenor viu seu rosto bonito, sorridente… Uma sensação de suavidade e ternura tomou-lhe conta. A doce Dorinha, simplesmente esquecera dela e dos bons momentos que viveram, antes daquele pesadelo começar. Como pôde esquecer?

– Pois ela não esqueceu. E sabe qual é o pedido dela?

Agenor ficou calado, com medo do que poderia escutar.

– Que você volte para ela.

– Não acredito…

– Pelo jeito, ela gosta muito de você.

Agenor estava confuso.

– Ao ponto de sacrificar a própria alma.

Mas como aquilo seria possível?, Agenor pensou. Como ele voltaria para Dorinha se iria para o Inferno?

O diabo deu uma gargalhada.

– Você vai para o Inferno, sim, mas logo voltará para Dorinha. Para levá-la para o Inferno com você. Dessa forma ela terá seu grande desejo realizado. Soloniel é um diabo de palavra.

Agenor não acreditou. Não, aquilo não podia acontecer. Não com Dorinha.

– Escute, Soloniel, Dorinha é uma pessoa boa, não merece sofrer.

– Todos têm que sofrer. É a lei da vida.

– Mas não deviam vender a alma!!!

Agenor se surpreendeu com o próprio grito. Ao seu lado o diabo continuava olhando para ele, agora muito sério.

– Ainda bem que você não é o dono do Inferno… Eu perderia meu emprego. Agora salte. Já me fez perder muito tempo.

Agenor continuou parado.

– Salte, homem. Ainda tenho trabalho hoje.

Agenor nem se mexeu. O diabo respirou fundo e, olhando para as próprias pernas, falou:

– Você já reparou que eu não sou manco?

– Como?

– Eu uso bengala mas não sou manco.

– E daí? – perguntou Agenor, estranhando aquela mudança de assunto.

De repente a dor, súbita e aguda. O diabo, num gesto muito rápido, o atingira com uma bengalada na perna machucada, fazendo-o perder o equilíbrio. Seu corpo oscilou para frente.

– Não me diga que achava que esta bengala era só charme…

Agenor agitou os braços, como se pudesse se segurar em algo, e seus movimentos pareceram uma estranha dança. Seu corpo caiu pesadamente enquanto ele gritava:

– Nãããããooooo!!!

CAP. 14

Chocou-se todo desajeitado contra o chão, batendo a cabeça. Quando abriu os olhos e olhou para cima, meio zonzo, percebeu que a chuva havia subitamente parado. Mas… onde estava a passarela? Não viu a passarela. Nem os carros. Nem a avenida, nem a cidade, nada. Via apenas mato. E o céu cheio de estrelas.

Levantou-se, sentindo o coração acelerado, o suor no rosto. Percebeu que estava vestido. Estava na Pedra Grande! Então entendeu. Havia adormecido enquanto aguardava o Diabo e caíra da pedra onde estava sentado. E tivera um pesadelo horrível!

Apoiou-se na pedra, as sensações do sonho ainda fortes. Viu a cidade de Jubá lá embaixo. Respirou fundo, tentando se acalmar. Olhou o relógio: faltava um minuto para a meia-noite. Como pudera sonhar tanto em tão pouco tempo? E além do mais fora tudo tão real, tão real…

Pegou o cobertor no chão. Depois olhou o relógio: meia-noite em ponto. Nesse momento escutou um ruído, alguém chegando pelo mato. O ruído ficou mais forte e ele viu as folhas mexerem. Então, por entre a folhagem escura, surgiu…

Não teve dúvidas: deu meia-volta e saiu numa carreira desatinada, descendo a encosta da Pedra Grande numa velocidade louca, o pavor fazendo cada passo valer por dez. Não olhou para trás nenhuma vez. Entrou na cidade correndo e só parou quando chegou em casa. Pegou a chave no bolso, abriu a porta e entrou rapidamente.

– Meu filho, onde você estava? – perguntou dona Fafá, vindo da cozinha. – Venha jantar.

– Oi, mãe… – ele murmurou, ofegante, fechando rapidamente a porta e passando a tranca.

– Que cara é essa? Parece que viu alma.

Agenor procurou se acalmar. Beijou a mãe e foi para a cozinha.

– Quem esteve aqui foi Dorinha.

– Dorinha? – ele perguntou, novamente assustado.

– Perguntou de você. Menina boa, ela.

– Verdade? E… pra onde ela foi?

– Disse que ia se encontrar com alguém e depois ia para casa.

– Encontrar… com alguém? Ela disse com quem?

O coração de Agenor batia forte. Dona Fafá olhou para o filho sem entender aquelas perguntas todas. Foi então que alguém bateu na porta.

– Será que a Dorinha esqueceu alguma coisa? – disse dona Fafá, caminhando para abrir a porta.

– Não, mãe! Não abra!

Dona Fafá parou e olhou para o filho, desconfiada.

– Você está muito estranho. Andou bebendo?

Agenor correu para impedir mas ela abriu a porta, enquanto ele fechava os olhos para não ver.

– Oi, Agenor.

Aquela voz…

– Mas que pressa medonha, Agenor! Passou correndo por mim, nem me ouviu te chamar…

Agenor abriu os olhos. E viu Dorinha.

– Tem comida na geladeira, viu, filho? – disse dona Fafá, piscando um olho para Dorinha e saindo da sala.

– Você… foi encontrar… alguém? – ele perguntou, gaguejando.

– Fui – respondeu Dorinha.

– Quem?

– A prima Botinha. Ela vai casar mês que vem.

Ele suspirou aliviado. Depois desviou o olhar, com vergonha.

– E você, tudo bem?

Ele fez que sim com a cabeça. Ela sorriu.

– Bem… Vim só dar um oi.

Ele procurou algo para dizer mas não achou. O coração ainda batia acelerado.

– Bem… Acho que já vou indo para casa…

– Vai?

– Está tarde, Agenor.

Ele olhou na direção da pedra grande. Depois olhou para ela. Dorinha… Como era linda… Sentiu uma súbita vontade de abraçá-la, uma vontade tão grande que precisou segurar os próprios braços. A velha timidez.

– Dorinha…

– Sim?

- Eu…

Ele fechou os olhos, procurando em algum lugar dentro de si a força necessária para o que queria tanto dizer. Ela aguardava.

– É, está tarde mesmo.

Foi tudo o que saiu de sua boca. E sorriu, nervoso. Não conseguia. Nunca conseguia. Jamais conseguiria.

– Tchau, Agenor. Aparece no restaurante.

Dorinha virou-se e saiu. Agenor foi para o batente da porta e de lá a observou caminhando pela calçada. Definitivamente, era um fraco. Não fora forte para fazer o pacto. E nem era forte para realizar o que tanto desejava e precisava. Então entrou em casa e puxou a porta, derrotado.

CAP. 15

Nesse instante, porém, um carro veio da outra rua e a luz dos faróis bateu em cheio sobre seu rosto. Imediatamente lembrou da luz a persegui-lo enquanto tentava escapar da equipe de tevê. Num impulso, sem pensar no que fazia, abriu a porta e saiu correndo pela calçada.

Na esquina o carro fez a curva e sumiu. Mas Agenor não dobrou a esquina, não era o carro que lhe interessava. Ele atravessou a rua ainda correndo e só parou quando alcançou Dorinha, que tomou um susto ao vê-lo chegar de repente e pegá-la pelos ombros. Sem dizer nada, ele a virou para si e sapecou-lhe um beijo na boca, forte, ardente, como se fosse algo há muito guardado, aprisionado, e que agora se libertava. Dorinha quase caiu mas ele a amparou e a encostou no muro, sem interromper o beijo.

Um bom tempo depois, quando ele finalmente a largou, Dorinha não sabia bem onde estava, que dia era… Sabia apenas que queria mais.

– Voltei – Agenor disse.

– Pensei que você não me desejava… – ela murmurou, encostada no muro, toda molenga.

– É que eu… não sabia desejar direito.

E beijaram-se outra vez, ainda mais forte.

Na bodega da esquina, sentado numa mesa com o último cliente da noite, seo Ribamar olhava satisfeito o casal se beijando.

– Até que enfim esse menino tomou tenência. A moça doidinha por ele…

– Quanto lhe devo, meu amigo?

– Um conhaque. Dois reais.

O homem tirou uma nota do bolso do sobretudo e pagou.

– O senhor não é daqui, né? – perguntou seo Ribamar, recolhendo o copo e levando para o balcão.

– Vim ver um cliente. Mas ele não apareceu.

– Que pena. Fez viagem perdida.

– Problema não. No meu ramo, cliente é o que não falta.

– Coisa boa. Que mal pergunte, qual é o seu ramo? – perguntou seo Ribamar, voltando à mesa.

Mas não havia mais ninguém. Ninguém na mesa, ninguém por perto.

– Vixe! – ele exclamou, sentindo um calafrio. Bateu três vezes na madeira e rapidamente botou mesa e cadeira para dentro, fechando a porta em seguida.

Adiante, na outra esquina, Dorinha suspirou, nos braços de Agenor, e, com os olhinhos fechados, pediu outro beijo. Mais forte.

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Ricardo Kelmer – blogdokelmer.wordpress.com

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Baseado Nisso
– Liberando o bom humor da maconha

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SÉRIES ERÓTICAS DESTE BLOG

> As aventuras de Diametral e Ninfa Jessi- A mais bela e safada história de amor jamais contada.

> As taras de Lara – Desde pequena que Lara só pensa naquilo. E ai do homem que não a satisfaz.

> Um ano na seca – O que pode acontecer a um homem após doze meses sem sexo?

> O último homem do mundoO sonho de Agenor é que todas as mulheres do mundo o desejem. Para isso ele está disposto a fazer um pacto com o diabo. Mas há um velho ditado que diz: cuidado com o que deseja pois você pode conseguir…

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COMENTÁRIOS
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01- Eu gostei deste muito. gigi28 – jul2008

02- Você é bom mesmo, Ricardo. Quando vem a terrinha? Um grande abraço do amigo-leitor seu. Maninho, Fortaleza-CE – ago2008

03- Quem quer todas, não tem nenhuma. A graça de um relacionamento é ir até o fundo, explorar tudo, dure 3 meses ou 10 anos. Mas com inteireza, com verdade. Quem tem todas, não conhece, de verdade, nenhuma. Bjo. Chris, Rio de Janeiro-RJ – jan2009

04- Aquela que serve é a que conhece . conhece mesmo ? e aquele que deseja, é o faminto do lobisomem ? o grande assustado ? o fugitivo de boné … quisera ter o pacto com quem ? efusivo Agenor , talvez um perfume afrodisíaco com a tônica dionisíaca vai saber … agradaria uma bela garçonete que pega a carona no seu caminhão feito mesmo o último homem de jubá …. ahahahahahahah ! Marcia, São Paulo-SP – ago2009

05- Oi, Kelmer! Agenor é bem dotado, também, de criatividade. Ele conseguirá, um dia. rsss Linkei o teu blog no meu. =) Abs! Val – mar2010

06- Ei macho… Tu quer me matar de curiosidade é?? Parabens esse conto é incrível!!! Todo homem já se imaginou nessa situação, o problema é que nenhum homem tentou imaginar a saída desta. Valeu!!! Pedro Henrique – mar2010

07- =D Adorei essa história!!! Parabéns… o desfecho foi muito interessante. Agradeço pela possibilidade de tê-la lido. Mas… Já acabou… =(. Luciana R – abr2010

08- Achei legal o desfecho. Que pena que acabou! Karla – abr2010

09- Adorei! Aplausossssssssssss….. Gostei tanto que fiquei triste por ter acabado, hauhauahau… Parabéns Kelmer. Quero mais histórias assim. ;D Até a próxima! ;* Ingrid – abr2010

10- É até boa, mas muito brusco o fim, o que a torna sem um bom desfecho. Mariana – abr2010

11- Faltaram os créditos para a imagem da pintura usada neste artigo. O autor é o pintor peruano Boris Vallejo. Silveira Neto – abr2010

12- Muito boa a história, acompanhei-a e gostei muito. Até que enfim o Agenor teve coragem. Eu já estava angustiado com a timidez dele. Francisco Edvar – abr2010

13- ACOMPANHEI E GOSTEI DE TODA A HISTÓRIA,PORÉM O FINAL FICOU UM TANTO INCOMPLETO,HAVERÁ CONTINUAÇÃO? Dokho- abr2010

14- eita historia mais envolvente rapaz,cada capitulo era uma viagem,parabens para o escritor que deleitor dentro dos sonhos de muitos homens timidos q desejam serem desejados. Espero outras historias exoticas. Kildery – abr2010

15- Esse cigarrinho era bem docinho, hein? rs. Christiane – mai2010

16- Essa história é genial (O último homem do mundo). Recomendo. Vale muito a pena ler. Marcelo Gavini, São Paulo-SP – jun2010

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O presente de Mariana

novembro 15, 2008

Ricardo Kelmer 1998

A cabocla Mariana, entidade da umbanda, propõe noivado ao moço Dedé. Ela garante estabilidade financeira mas em troca exige fidelidade absoluta

> Este conto integra o livro
Guia de Sobrevivência para o Fim dos Tempos

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O PRESENTE DE MARIANA
Ricardo Kelmer 1998

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ESTAMOS FAZENDO DEZ ANOS de casados, eu e Mirley. É uma mulher incrível, faço questão de lhe dizer, e continua bela e fascinante como no dia em que a conheci. Para comemorar a data viemos passar o fim de semana em nossa casa de praia. Trouxemos vinho, velas aromáticas e nossos discos preferidos. Dez anos de alegrias. Dois filhos maravilhosos. Houve dificuldades, é claro, mas nosso amor superou tudo.

Nesse momento Mirley está na praia com as crianças. Preferi ficar aqui na rede da varanda, escutando Julio Iglesias, olhando as árvores do terreno, me deliciando com o vento, o som que ele faz nas folhas. Dez anos. Tantas coisas vividas…

Recordei fatos, sensações, dizeres e pequenos eventos banais. Recordei os dias difíceis, um fraquejando, o outro segurando a barra… Ri sozinho de tantos encontros e desencontros, interessantes acasos, brigas homéricas que o tempo sempre faz tornarem-se ridículas. Em dez anos de convivência acumula-se o inevitável pó das coisas corriqueiras, eu sei, eu sei, mas um olhar ainda apaixonado, acredite-me, é capaz de captar poesia por trás da mais empoeirada rotina.

E foi nesta manhã, aqui na rede a vasculhar o passado, que súbito me veio a lembrança de Mariana. Foi como se um vento soprasse a areia de cima do acontecimento esquecido. Soprou e surgiu Mariana, ela e seu jeito gracioso de menina, o sorriso… E eu recordei tudo.

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ERA UMA QUARTA-FEIRA, o dia em que botavam mesa na casa de dona Neide, uma médium conhecida no bairro. Joca perguntara se eu gostaria de conhecer uma sessão de umbanda manauara, eu disse que sim e lá fomos nós.

Eu havia deixado Recife para ir morar em Manaus, onde investira todas as minhas economias num negócio de exportação. Minha namorada Mirley foi comigo mas infelizmente não se deu com o clima da região e voltou. Eu fiquei, eu e a promessa de que em breve faria algum dinheiro e voltaria também. Mas por aqueles dias, quase um ano depois, os negócios seguiam muito difíceis e o dinheiro e a esperança cada vez mais curtos. As perspectivas não eram nada positivas. E a saudade de Mirley me incomodava demais, feito um espinho encravado na alma. Sem ela ao meu lado, tudo era mais difícil de suportar. Quem sabe então alguma entidade poderia me dar uma mãozinha?

Formou-se a mesa. Estava concorrida a sessão daquela noite, algumas pessoas tiveram de ficar em pé, ao redor. Co-mo era minha primeira vez, deixaram-me sentar e bem ao lado de dona Neide, a médium, uma senhora muito distinta, corpo moreno e mirrado, cabelos e olhos bem pretos. Num canto da sala ficava a mesa do congá e nela pude distinguir imagens de Jesus Cristo, são Jorge, são Sebastião, são Cosme e são Damião e a da Virgem. A médium pediu a bênção de Oxalá, do Mestre Jesus, da entidade responsável pelo terreiro, que não lembro mais, e dos sete orixás: Orixalá, Ogum, Oxossi, Xangô, Yorimá, Yori e Yemanjá. Dez anos depois ainda hoje recordo dos orixás.

Nunca acreditei nessas coisas, acho que se pode explicá-las pela autossugestão. Mas como sou tímido, aquela experiência nova me deixou pouco à vontade. Via as pessoas expondo seus problemas às entidades e aquilo me soava estranho. Vi que umas conversavam ao ouvido delas, reservadamente, mas nem assim arrumei coragem. Sentia-me ridículo só de me imaginar falando ao ouvido de um imaginário preto velho baforando fumaça de fumo de palha, com aquelas pessoas fazendo um fundo sonoro de cantigas meio desafinadas.

Por ocasião da visita das entidades não senti nenhuma mudança mais significativa na médium. Observava-a com discrição mas atentamente, procurando falhas ou comprova-ções do além. Uma coisa, porém, me chamou a atenção: foram as sete doses, isso mesmo, sete doses de cachaça que ela tomou durante a visita de um caboclo não-sei-quem. Sem falar nas cervejas que outras entidades pediram e tomaram. Pela lógica dona Neide, com sua fraca compleição física, terminaria a sessão bastante embriagada.

Foi no fim que Mariana apareceu. Eu já interpelava Joca de canto de olho, demonstrando minha impaciência, quando dona Neide mais uma vez estremeceu, fechou os olhos e entrou em transe. De imediato percebi uma fragrância suave no ambiente, um cheiro de madeira, de mato fresco, e olhei discretamente ao redor para ver quem estaria usando perfume tão agradável.

Todos saudaram a entidade que chegava.

– Salve, Mariana.

– Salve, cabocla Mariana. Bem vinda.

– Bem vinda, Mariana do cabelo cor de telha.

– Salve, salve! – dona Neide respondeu, falando para todos. E percebi que sua voz se tornara mais juvenil.

– Quanto tempo que não aparece, Mariana.

– Êta, hoje tá cheio. Gente nova, homem bonito, que bom. Êta, felicidade!

Achei aquilo tudo ridículo e tive vontade de rir. Nesse exato instante, porém, o olhar de dona Neide cruzou com o meu. E tomei um susto. Aquele não era seu olhar, era outro. Estava diferente, mais brilhante, mais vivo. Tentei desviar, incomodado, mas algo me impediu.

– Esse é meu amigo Dedé – Joca tratou logo de me apresentar. – Tá vindo pela primeira vez.

– Tem um olho bonito, ele – dona Neide falou, meio séria, meio sorrindo.

Fiquei sem saber o que dizer, as atenções todas sobre mim. Procurava algo para fazer com as mãos sobre a mesa e evitar os olhares, principalmente o de dona Neide. Era estranho: dona Neide continuava ali, ao meu lado, mas ao mesmo tempo… não parecia ser ela. Não podia ser ela.

– O moço é encabulado, é? – ela perguntou, falando a poucos centímetros de meu rosto. Tinha um olhar meigo mas nele havia qualquer coisa de dominador. Era algo sutil mas que prendia meu olhar. Ela tocou meu rosto, sorriu e se virou, buscando os velhos conhecidos da mesa. Respirei aliviado.

Dona Neide, ou Mariana, cumprimentou a todos os presentes. Pude perceber que se demorava mais nos homens. Pediu notícias sobre conhecidos, perguntou sobre um e outro, riu de casos e se divertiu com uma confusão ocorrida dias antes na rua. Eu estava tão sem jeito com a situação que nem lembrei de pedir que também desse uma forcinha nos meus negócios. Contentei-me em admirar seus modos graciosos e seu bom humor. Decididamente, era uma entidade cativante.

Havia algo, porém, que me chamava a atenção desde o início de seus falares. Ela perguntava por seu noivo fulano e seu outro noivo beltrano e pelo jeito parecia ter muitos noivos. Curioso, cutuquei Joca e ele me explicou, falando baixinho ao meu ouvido:

– A cabocla Mariana não morreu, foi encantada, com 17 anos e meio. Ela é muito bonita. Tem a pele branca e o cabelo ruivo, da cor de telha. E o olho azulzinho. Quando se engraça de um homem, pergunta se ele quer ser noivo dela. Homem que é noivo de Mariana consegue o que quiser nos negócios, sobe rapidinho na vida.

Senti um frio no estômago. Ajeitei-me na cadeira, mais para perto do meu amigo.

– Meu irmão é noivo dela. Tu conheceu a loja dele, Dedé. Pois dois anos atrás não tinha nem onde cair morto. Enriqueceu rapidinho.

– E o que faz ela se engraçar de um homem?

– Ah, não sei. Ela gosta e pronto.

– E o que ela pede em troca?

– Ela é ciumenta, exige exclusividade total. Homem que noiva com Mariana não tem mais mulher nenhuma.

– Mas… como assim?

Alguém fez psiiiiuuu… Sorri um pedido de desculpas e me recompus. Mas o assunto era irresistível.

– Ela estraga qualquer xodó teu – prosseguiu Joca. Olha aquele ali, o Luís. Noivou com ela. Foi ele quem com-prou esta casa e deu de presente pra dona Neide fazer as sessões. Era um pé-rapado e hoje é dono de supermercado. Em compensação nunca mais se ajeitou com mulher nenhuma, Mariana sempre estraga o namoro.

– E não dá pra desfazer o trato?

– Não. Tem que ser muito macho pra noivar com ela.

– Pois eu topava um negócio desse.

– Tu não é doido!

– Se ela me arrumar dinheiro, eu vou embora daqui e ela não me encontra nunca mais. Caso com Mirley e ainda fico com dinheiro no bolso.

– Ela não te deixa sair daqui, Dedé. Tu não sabe o poder dessa menina, tu não sabe.

Já não adiantariam os conselhos. Eu estava tomado por um estranho frenesi. Entrara ali sem acreditar em nada daquilo mas agora estava disposto a abrir uma brecha em minha incredulidade para a cabocla Mariana se ela fosse real-mente capaz de me tirar do sufoco em que eu me encontrava. Quanto à questão dela estragar relacionamentos, bem, isso pra mim já era demais, não dava para acreditar.

– Antes de eu ir embora, queria conversar com este moço aqui… – Mariana virou-se para mim subitamente, me pegando de surpresa. – Não precisa me dizer que a vida não anda fácil pra ti, né? Moço honesto, trabalhador… Vem de longe, né?

Concordei com a cabeça. Era impressionante seu olhar. Eu me sentia envolto por um estranho carinho, uma água morna, aconchegante… um cheiro gostoso de mato fresco…

– Aposto que deixou namorada chorando, não foi?

Sorri encabulado.

– Sabe que a primeira coisa que elas reparam é no teu olho bonito?

Senti as faces quentes de vergonha.

– E sabe olhar do jeito que mulher gosta.

Eu não soube o que dizer.

– Precisa só respeitar um pouquinho mais as entidades. Eu sei que tu é inteligente. Mas com as entidades ninguém pode.

Falou e tocou meu braço. Decididamente não era a mão de dona Neide. Era a mão macia de uma garota.

– Mas eu respeito… – tentei consertar, incomodado pela exposição de meus secretos pensamentos.

– Então respeite mais um pouquinho que não faz mal. Tu sabe muita coisa. Mas ninguém sabe tudo.

Fiquei em silêncio, cada vez mais nervoso. Reprimenda de entidade, quem diria.

– Não sabe, por exemplo, ganhar dinheiro.

Ela falou e riu. E era uma risada de menina.

– Se quiser, Mariana te ensina.

No silêncio que se fez, escutei as batidas de meu cora-ção. O que ela estava mesmo propondo?

– Ele não tá interessado, Mariana – interrompeu Joca, batendo amavelmente em meu ombro.

– Verdade? – ela perguntou, os olhos nos meus. E por um segundo me pareceram azuis.

– Bem… eu…

– Teu caso não é sem jeito. Só umas coisinhas que estão emperradas.

Mariana prosseguiu me olhando, séria. Nesse momento senti algo estranho, uma leve sensação de torpor…

– Pra mim é fácil resolver.

– Em quanto tempo? – eu quis saber. Ela tinha mesmo olhos azuis. Ou era impressão minha?

– Mais rápido do que tu imagina.

Eram azuis sim. Um azul límpido, suave, quase uma carícia. Não era impressão – eu via. Não sei como. Mas eu via.

– Simpatizei contigo.

E o cabelo comprido, cor de telha. A pele branquinha, o jeito de menina levada. Não me peça para explicar – eu via.

– Mariana, ele não tá interessado – Joca nos interrompeu novamente.

– Tu continua despeitado, Joca. Só porque eu nunca quis ser tua noiva. Sabia, Dedé? Sabia que ele pediu pra noivar comigo e eu não quis?

Olhei para o meu amigo. Aquilo ele nunca me dissera.

– Faz muito tempo, Mariana. Eu nem sabia o que tava fazendo.

– Por isso que ainda hoje tá nessa situação, pedindo di-nheiro emprestado pro irmão. Nunca sabe o que tá fazendo.

– Você sabe que eu tô sem emprego.

Pensei em meu amigo Joca. Era mais velho que eu e já tentara muita coisa na vida. Nada dava certo. Os amigos esta-vam sempre lhe dando uma força. Parecia ter o estigma dos fracassados. Mariana teria visto isso nele? Por isso não aceitou noivar?

– Dedé? – ela me chamou. – Olhe, semana que vem eu volto. Pense com carinho porque eu só proponho uma vez.

– Isso é verdade – um homem falou por trás de mim. – Se não aceitar, ela não dá outra chance não.

– Espere… – Eu segurei seu braço. – Eu aceito.

Mariana abriu de novo seu sorriso lindo. Seus olhos a-zuis brilharam. Ela pegou minha mão, pondo-a entre as suas, beijou-as, olhou-me firme e perguntou:

– Você quer ser meu noivo?

Pensei em Mirley, no quanto gostava dela. Ela me perdoaria? A causa pelo menos era justa. Por um segundo senti que meu futuro estava se decidindo naquele exato segundo e que qualquer que fosse a decisão tomada, não haveria como voltar atrás. O olhar de Mariana estava no meu e era como ser ternamente abraçado… Eu já não estava na sala. Estava com ela, caminhando pela floresta, Mariana e seu vestido branco, o belo cabelo ruivo numa trança caindo no ombro, nós dois rindo, nós dois molhando os pés na água fria do igarapé, nossas mãos juntas, os corpos juntinhos, seu rosto perto do meu, mais perto, mais pertinho, sua boca, nossas bocas…

– Ele vai pensar, Mariana – Joca falou, me fazendo voltar à mesa. – Ele vai pensar direitinho e quarta-feira dá a resposta.

Olhei para ele com raiva.

– Então na quarta eu volto aqui pra saber – ela disse. E largou minha mão, virando-se para se despedir de todos.

Logo depois dona Neide abriu os olhos e, distinta como sempre, sorriu a todos e pediu que uníssemos as mãos numa oração pelos mais necessitados e por todos os pedidos bem-intencionados que foram feitos. Eu a observei com atenção e não percebi nenhum sinal de embriaguez. Ela havia bebido muito naquela hora e meia e sequer apresentava hálito de bebida. Isso me impressionou, é verdade, mas não tanto quanto a transformação de dona Neide: em seu semblante, em sua voz e em seus gestos já não havia mais o mínimo traço da jovem Mariana. A cabocla de olhos azuis e do cabelo cor de telha, se alguma vez estivera ao meu lado, já não se encontrava mais ali.

Enquanto caminhávamos na rua Joca me falou sobre o episódio do noivado frustrado com Mariana. Confessou que na época teve muita vergonha mas que agora já havia superado. E, inclusive, agradecia todos os dias por Mariana não tê-lo querido pois atualmente namorava uma garota óti-ma.

Eu queria saber sobre Mariana, estava inteiramente curioso.

– Ela se engraçou mesmo de ti. Mas não vai cair na besteira de noivar com ela, Dedé.

– Isso parece papo de noivo desprezado…

– Eu sei que parece. Mas me diga uma coisa: adianta ter muito dinheiro e nunca encontrar alguém pra dar o coração? Adianta?

– Eu vou pra bem longe. Ela não me encontra.

– Olha o que ela disse… Tu tem de ter mais respeito.

– Respeito eu tenho. Só não consigo é acreditar.

Joca riu, bateu em meu ombro e falou:

– Já vi muita gente chegar aqui em Manaus do jeito que tu chegou e voltar diferente, já vi.

E riu gostosamente.

Eu não me importava de voltar diferente, desde que estivesse melhor de vida. As opiniões de Joca não me demoveriam de meus propósitos. Noivaria com Mariana, juntaria um dinheiro e me mandaria dali. Já fazia planos até de como investir a grana. Uma soparia no Recife Antigo. Ou talvez uma fábrica de gelo em Olinda.

– Não vou poder ir contigo na quarta-feira – ele avisou. – Tu vai sozinho fazer essa besteira.

Naquelas dias sonhei duas vezes com Mariana – e a sensação agradável do sonho me acompanhava o resto do dia. Várias vezes senti seu cheiro, na rua, no ônibus… De repente percebia o aroma gostoso de mato fresco e então sua presença tomava conta do ambient, e algo em mim tornava-se mais calmo, mais compreensivo, mais doce.

Não tive jeito de conversar sobre isso com ninguém, nem mesmo com Joca. Com Mirley, nem pensar. O que lhe diria, que estava embevecidamente enamorado de uma entidade de 17 anos? Que pensava nela toda hora e tomava sustos quando via algum cabelo cor de telha passar na rua? Que me pegava desenhando seu nome em papel de guardanapo? Como dizer que noivaria com uma entidade de umbanda por causa de nosso futuro? Não, melhor não dizer. Seria um segredo meu e de Mariana.

Na quarta-feira seguinte eu estava lá de novo. E mais uma vez dona Neide recebeu as entidades. Como na sessão anterior, Mariana foi a última a aparecer. De novo o aroma suave de madeira, de mato fresco. De novo a voz alegre, a graça juvenil. Senti meu carinho por ela se derramando pela mesa. Admirei a beleza dos gestos simples, os mínimos detalhes. Como podia ser tão encantadora? Descobri que gostava dela. Muito.

Depois de conversar com algumas pessoas, Mariana finalmente virou-se para mim. E sorriu. E outra vez seu sorriso me trouxe o frescor de cachoeiras.

– Oi, moço bonito.

– Oi, Mariana.

– Pensou em mim esses dias, não foi?

– Pensei.

– Eu também pensei. Muito.

– Verdade?

Ela parou de sorrir e percebi tristeza em seu olhar.

– Olha, tenho uma coisa pra te dizer. Vem pra cá, vem… – E me chamou para que eu sentasse na cadeira ao seu lado, a que era reservada às conversas de pé-de-ouvido. Enquanto os outros entoavam uma cantiga, ela começou:

– Tu é mais protegido do que eu pensava. Vieram dizer pra eu não me meter contigo.

Não entendi.

– Olha, tu não pode ser meu noivo.

– Por que não? – perguntei surpreso.

– Tem entidade maior que eu, tenho que respeitar. Fiquei muito triste com isso.

Parecia o rompimento de um relacionamento profundo. Senti vontade de chorar em seu colo.

– Tu já tá protegido, moço bonito, não precisa de mim.

– Preciso – insisti. Já havia mandado às favas qualquer vergonha e discrição. – Preciso de você sim, Mariana.

– Vai, segue o teu caminho que é um caminho bom. Esse momento tá difícil mas tu é homem forte e vai atravessar a floresta. Tenha fé.

De repente lembrei de Mirley. E senti que não teria mais forças para continuar lutando. Finalmente vencido, impotente. Era o fim.

– Olha, já que tu não pode ser meu noivo, vou te deixar um presente. – E segurou minha mão, me puxando mais para perto. Agora ela sussurrava em meu ouvido. – Pra tu não ter dúvida do tanto que gosto de ti.

Respirei fundo e encontrei forças para perguntar:

– Um presente?

– Se tu não puder vir na quarta-feira que vem, eu vou saber que tu aceitou o presente de Mariana.

Percebi uma lágrima descendo de seu olho.

– E mesmo que tu me esqueça, eu vou estar sempre intercedendo por ti, viu? Agora vai, moço bonito, vai.

E me empurrou delicadamente. Feito isso, despediu-se rápido de todos e se foi. Foi-se o aroma de mato fresco. Foi-se a água morninha.

Saí de lá arrasado e fui procurar Joca. Não levava mágoa alguma de Mariana, pelo contrário, ela realmente me cativara e por ela eu era todo carinho. Mas não conseguia crer que fizera tantos planos em vão. E a famosa soparia no Recife Antigo? E a fábrica de gelo em Olinda?

– Ela gostou de ti – Joca falou, me consolando. – E se gostou, vai dar um jeito de te ajudar.

Não adiantaram as palavras de Joca. Estava tão triste que não tinha ânimo para nada. Os dias seguintes foram um inferno, mal conseguia levantar da cama. Trabalhar era uma tortura. Até a fome perdi. Estava deprimido e decepcionado com tudo, com a vida e principalmente comigo mesmo por um dia ter acreditado que uma entidade iria dar jeito em minha vida.

Como meu telefone estava cortado e só religariam na segunda-feira, fiz disso desculpa para não falar com Mirley. Não queria que ela percebesse meu estado. Joca me chamou para sair mas recusei: passaria o fim de semana trancado em casa. Não tinha vontade alguma de ver o mundo lá fora.

Na segunda-feira o telefone foi religado e à noite, assim que cheguei do trabalho, ele tocou. Era Mirley. Eu ainda estava triste mas consegui disfarçar. Ela então disse que uma das filiais da empresa de um amigo seu, no interior de Pernambuco, ficara sem gerente e que ele pensara em mim para ocupar a vaga. Explicou que tentou falar comigo no fim de semana mas não conseguiu, e que talvez seu amigo já houvesse conseguido um substituto. Falei que estava interessado e Mirley me passou o telefone de seu amigo.

Desliguei o telefone ansioso. Seria um castigo enorme perder aquela oportunidade graças a um telefone cortado por falta de pagamento. Liguei para o número anotado mas deu ocupado. Liguei de novo, liguei outra vez – sempre ocupado. Não consegui sequer levantar do sofá de tão ansioso.

Na centésima tentativa o amigo de Mirley enfim atendeu. Felizmente a vaga ainda existia. O salário não era tão bom quanto eu gostaria mas, como a filial ficava numa cidade próxima a Recife, eu estaria pertinho de Mirley e poderíamos nos ver todo fim de semana.

Acertamos tudo na mesma noite. Ele tinha pressa e perguntou se podia marcar minha passagem para quarta-feira, dois dias depois.

– Sim, claro – respondi, decidido. – Pode marcar.

Desliguei o telefone e fiquei parado, ainda sem acreditar. Então subitamente entendi. Era o presente de Mariana…

As lágrimas desceram sem que eu pudesse evitar. Ali, no sofá, tive uma crise de choro como jamais tivera. Lembrava de Mariana entre lágrimas agradecidas e só conseguia balbuciar: obrigado, obrigado…

Na quarta-feira, no aeroporto, despedi-me de Joca e pedi que agradecesse por mim a Mariana. E que dissesse que eu jamais a esqueceria. Ele riu:

– Precisa dizer não. Ninguém esquece Mariana.

Na quarta-feira, durante a viagem, eu só pensava na sessão. Naquele momento certamente estavam todos à mesa, olhando para as entidades no rosto de dona Neide. Sentia-me bem, confiante, a alma leve. Sabia, com toda a certeza que se pode ter, que aquele voo era o mais protegido do planeta.

No aeroporto de Recife, peguei minha mala e fui procurar por Mirley. Enquanto a aguardava senti um aroma familiar, um frescor gostoso…

De repente o toque em meu ombro. Meu coração gelou. Virei-me devagar, já sabendo o que veria. E vi. O cabelo avermelhado, a pele clara, os olhos salpicando azuis…

Nesse instante um rio de águas mornas passou por mim e eu me deixei levar pelas águas envolventes, o cheiro fresco de mato, a contínua melodia da floresta… Minha alma foi tomada por uma doce sensação de arrebatamento e enquanto dois lindos olhos azuis me acariciavam, tudo que eu conseguia fazer era sorrir, sorrir…

– Desculpe – ela disse, sorrindo sem jeito. – Pensei que era outra pessoa.

– Como?… – falei, voltando ao aeroporto, sentindo novamente os pés no chão. A garota aguardou que eu dissesse algo mas nada encontrei para dizer. Ela acenou para algumas pessoas mais adiante e depois sorriu para mim:

– Boa sorte. Tchau.

Fiquei parado, vendo a garota se afastar e correr para seus amigos. Não sabia o que pensar. Nesse instante escutei meu nome e vi Mirley se aproximando. Confuso, ainda procurei pela garota ruiva mas ela já havia sumido na multidão. Mirley me abraçou forte e chorou em meu ombro. Quase um ano que não nos víamos, tanta saudade…

– Que cara estranha é essa, Dedé?

– Foi a viagem… – respondi – Mas tá tudo bem. Já jantou?

Fomos embora rapidamente. No dia seguinte eu já assumiria a gerência da filial, havia muito trabalho à frente. Uma vida nova me esperava, dessa vez bem perto da mulher que eu amava.

E quanto à garota do aeroporto, já sei, já sei. Você certamente está pensando que eu acho que aquela era Mariana. Pois era sim.

Não tente me dissuadir. Nem me peça lógica, eu não a tenho nem para mim. Basta-me a certeza, pura e agradecida, que ainda hoje trago aqui no peito, de que a menina faceira que de repente sorriu para mim no aeroporto de Recife era Mariana sim, a cabocla Mariana do cabelo cor de telha, encantada aos 17 anos e meio, e que naquela noite de quarta-feira aproveitou uma folguinha na sessão de dona Neide para me ver pela última vez e, ao seu modo, me desejar felicidades.

É esta a história. Num momento de angústia e desamparo, eu estive disposto a ser noivo de Mariana e lhe desafiar os poderes. Ela me queria também. Mas o destino não quis assim. Mariana então, em sinal de amor, me concedeu um presente, uma oportunidade única de mudar para melhor a minha vida – oportunidade que agarrei com todas as forças.

É esta a história de Mariana. Que até hoje trago no peito, banhada em água morna, no cheiro do mato fresco. Durante os primeiros meses, ainda impressionado com tudo que acontecera, eu lembrava de Mariana todo dia e em silêncio agradecia. Aos poucos fui esquecendo, absorvido pelo trabalho intenso, a família que crescia. À medida que minha vida se equilibrava Mariana foi se tornando uma lembrança cada vez mais distante, até que sumiu. Talvez ela já não precisasse mais interceder tanto por mim, minha vida finalmente seguia seu rumo natural.

Hoje, porém, dez anos depois, aqui na casa de praia, ela voltou em minha lembrança. E em meu coração. E me fez lembrar de tudo outra vez.

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MIRLEY ACABA DE CHEGAR da praia com as crianças. Elas trazem um balde lotado de conchas. Laís diz que vai plantá-las no quintal para que nasça um pé de concha. Filipe repreende a irmã por acreditar nessas besteiras que os adultos dizem. Sento na beirada da rede e pergunto se eles apanharam sozinhos todas aquelas conchas ou se quem teve o trabalho foi a mãe deles. Filipe diz que uma moça os ajudou. Mirley diz que as crianças adoraram a tal garota de um jeito que ela jamais viu antes. Enquanto despeja as conchas no chão, Filipe me diz:

– Ela era bonita, pai. O olho da cor desse balde.

Olho para o balde azul, já sentindo algo estranho.

– E o cabelo vermelho, daquela cor.

Antes de Laís apontar para o telhado da casa eu já havia entendido. Sinto meu coração gelar, um súbito vácuo na alma. Seguro-me à rede como se segurasse a vontade de sair correndo em direção à praia.

– A pele tão branca, Dedé… – Mirley diz, ligando a ducha do jardim para o banho das crianças. – Não sei como aquela moça aguenta ficar nesse sol quente.

Levanto da rede sentindo uma coisa no peito, uma alegria estranha, uma melancolia, uma excitação, tudo misturado. Caminho em silêncio até a sala. No balcão sirvo uma dose de uísque e viro de uma vez. O ardor faz meus olhos marejarem. Um disfarce inútil para as lágrimas que não consigo controlar.

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> Este conto integra os livros
Guia de Sobrevivência para o Fim dos Tempos
e
Vocês Terráqueas – Seduções e perdições do feminino

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Saiba mais sobre a cabocla Mariana, os aspectos psicológicos e arquetípicos de sua crença: Mariana quer noivar

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Comentarios01 COMENTÁRIOS
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01- Vc sabe que sou apaixonada por Mariana… Bateu comigo e foi a história que mais me pegou, do único livro seu que li. Saudades… Ana Karla Dubiela, Fortaleza-CE – jan2005

02- Caro Ricardo, Gostaria de fazer um comentário sobre o seu conto da cabocla Mariana, que vc diz ser uma entidade de umbanda. Gostaria de lhe informar que as entidades de umbanda, principalmente os caboclos, que são orixás menores não fazem este tipo de exigência dos filhos de fé da umbanda, ao contrário são entidades elevadíssimas. Este tipo de pedido saõ de entidades provinientes dos catimbós, macumbas e outros rituais que lidam com magia negra e pesada. Faço este comentário pois a umbanda sofre muito preconceito por ser confundida com este tipo de coisa. Inclusive seria muito rico para seus conhecimentos que vc lesse as obras sobre umbanda esotérica de Matta e Silva e Rivas Neto. O seu conto prejudica a corrente astral de umbanda pois ajuda a alimentar nos leigos o tabu e o preconceito contra essa religião tão bela. Gostaria de solicitar que vc não citasse a umbanda nele. Atenciosamente. Clícia Karine, Crateús-CE – jan2005

03- Olá amigo, estou escrevendo de Fortaleza, sobre este texto fabuloso, gostaria que soubesse o quanto eu me sentio atraído pela historia pra ser sincero eu passaria o dia todo lendo e não cansaria. Abraços de seu amigo, fã, etc. Eudes Martins, Fortaleza-CE – mar2005

04- Acima de tudo, pela licença de ler completa a história. Depois, porque ela é belíssima! Não concordo com a leitora que falou que era uma falta de respeito ás entidades. Acho que se não é uma aventura verdadeira meresceria ser… Não gostei, Ricardo. Adorei! Parabéns e que a cabocla Mariana sempre traga sucesso na sua vida. Afinal, quem ficou apaixonado com ela uma vez e escreveu essa bela homenagem tão cheia de sensibilidade e meiguice deveria gozar da proteção da encantada. Abraço e mais uma vez, muito obrigado pela sua gentileza. PS.- desculpe-me o meu português, por favor. Milton, Montevidéu-Uruguai – abr2005

05- Já estava curiosa a respeito do final.Pura ficção, será?Acho que os leitores sempre se indagam sobre isso.Até pq, vivenciei coisas tão estranhas qt essa. Talvez, descobrir nas histórias uma possibilidade de verdade,nos faça mais “íntimos” do autor. Ah..outra coisa: adoro ler td q tem a ver com Recife.Morei lá por 4 anos e costumo dizer que minha alma é recifense.Vou lá pelo menos duas vezes ao ano, rever os amigos e o meu mar de todas as cores. Mônica Burkle Ward, Niterói-RJ – mai2005

06- Olá Ricardo! Bem gostei bastante do texto e gostaria de saber até que ponto a história é veridica ou mesmo se a sua pessoa já esteve em contato com a entidade pois quem a conhece sabe que a atração pela entidade é verídica, eu mesmo quando a encontro na casa de um amigo meu aqui em São Paulo me sinto atraido, é impressionante o poder de sedução desta entidade cá entre nós é a mulher que todo homem gostaria de ter. D. Mariana como conhecemos aqui em São Paulo é muito bela! É a estrela do tambor de mina aqui de São Paulo. Vinícius de Almeida, São Paulo-SP – mai2005

07- oi , me chamo regina vilhena, sou do para debelem mesmo, e no momneto estou no japao, acredito em tudo qeu lir, pois conehco marina de longos anos e ate hoje nao consigo fazer nada em minah vida sem a orientação dela, sabia sua historia muit bonita, sau fe tbm, sabe caro amigo neste exato momneto eu estou passando aki por muita dificulada sem trablaho sem casa para morar, mas a minah fe em deus em primeiro lugar e em mariana nao perco, tenho comigo ja vairas historia de maraina que ja aconteceu comigo, coisas que ela me disse qeu aconteceria e aconteceu de verdade, sabe provas , coisas reaais ate essa minah viagem apra ca foi ela qeu me mandou sei qeu to pado mento pois como ela me me mandou um recado essa semana . me disse asssim qeu tem certo sofrimentos que ela nao pode evitar. agora to muito feliz em ter lido sua historia e espero nao perder o contato com vc. se quzier pode me adicionar no seu msn ok fica com e cabocla mariana dos anjos perreira . assim que eu chamo para ela proteja nos dois. Regina Vilhena, Japão – mar2006

08- Só tenho um comentário a fazer : Adorei sua estória sobre a Mariana!Um grande abraço! Sidiany Colares Alencar – Fortaleza-CE – abr2006

09- Estou acompanhando o conto da cabocla Mariana. Não sou entidade da umbanda mas também trago sorte e prosperidade pra quem eu gosto e exijo fidelidade, que não precisa ser absoluta, basta que eu não saiba dos acontecidos. Não me importo muito em ser traída, pior é ser deixada. rsrsrs. Marcia Sucupira, Fortaleza-CE – mai2006

10- Li o conto da Cabloca Mariana, primeiro achei longo, mas nao consegui parar de ler…. bom, muito bom. Fabiana Vasconcelos, Boston-EUA – abr2006

11- O que mais gostei da Mariana e aquela mistura balanceada de realidade com ficcao, aquela pulguinha atras da orelha para as coisas que nao sabemos explicar, que sao dificies de acreditar, mas estao la… e so dar uma chance pra elas acontecerem. Fabiana Vasconcelos, Boston-EUA – mai2006

12- eu li o conto! Criativo… abraços. Priscila Saboya, Fortaleza-CE – jan2010

13- tive o prazer de conhecer o Blog do Kelmer quando pesquisava sobre a cabocla Mariana e me deparei com o conto O Presente de Mariana….lindo, encantador. Danyela Freitas, Belém-PA – mar2011

14- Oi, Ricardo. Tô sem net em casa , mas vim numa lan so pra te falar umas coisas…. Desde ontem eu tava toda depre( nao sei por que/ na verdade, sei, mas nao vou falar aqui…rsrsrsr), acordei e tirei o “vocês Terráqueas” da estante e fui ver os textos que ainda nao havia lido…. voce me arrepiou com “presente de Mariana” , e pelo arrepio, pensei: nao lembro quanto paguei nesse livro, mas valeu a pena!!!! Irlane Alves, Fortaleza-CE – jul2011

15- conto do livro VOCÊS TERRAQUEAS legal. Weslen Queiroz, Juazeiro do Norte-CE – ago2011

16- Adorei este conto, demais! Ligia Eloy, Lisboa-Portugal – ago2011


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