Deconstructing Harry EUA, 1997 – 95 min Elenco: Woody Allen, Kirstie Alley, Tobey Maguire, Demi Moore, Robin Williams, Billy Crystal e outros Roteiro e direção: Woody Allen
Indicado ao Oscar de Melhor Roteiro Original
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RK COMENTA
Niilismos e orgasmos
Harry Block é um conhecido escritor que usa e abusa de referências autobiográficas em seus livros, o que acaba por incomodar seus amigos, familiares e amantes, que se descobrem nas histórias publicadas e não gostam nada de como foram retratados. Em meio a uma crise criativa, abandonado pela amante e preparando-se para ser homenageado pela própria escola que no passado o expulsou, Harry passa a se relacionar com seus próprios personagens, que lhe mostrarão novas formas de compreender sua vida confusa.
Eis mais um daqueles deliciosos personagens cheios de neuras de Woody Allen. Harry gasta todo seu dinheiro com análise, advogados e putas e ele é o primeiro a prevenir suas amantes para que não se apaixonem por ele. Acusado por sua ex-mulher de levar a vida baseado tão-somente em niilismo, cinismo, sarcasmo e orgasmo, ele consegue irritá-la ainda mais dizendo que com um slogan desses, seria eleito presidente da França.
Desconstruindo Harry é um filme muito divertido, principalmente para escritores que se relacionam intensamente com sua própria obra e com seus personagens. Se você costuma escrever inspirado diretamente em seus relacionamentos e nem sempre consegue distinguir o que inventou em seus textos daquilo que copiou da vida, então conheça Harry Block. E dê boas risadas dele e de você também.
Era por ela que eu sempre me apaixonava, essa mulher que era quem ela mesma desejava ser e não a mulher que a família, religião e sociedade impunham que ela fosse
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Foi Marília quem me emprestou esse livro, em 2002, quando eu já andava curioso a seu respeito. Depois Rafaela me deu um de presente. E depois ganhei a versão digital. Ou seja, esse livro queria mesmo vir pra mim, e foram as mulheres que o trouxeram. Li e fiquei encantado. Nas páginas de Mulheres que correm com os lobos estava o que eu intuía sobre as mulheres e a relação entre os gêneros mas ainda não sabia verbalizar. O livro me chegou numa fase em que eu já lidava melhor com meus aspectos femininos e, por isso, me identifiquei profundamente com ele e com a histórica questão da domesticação da mulher.
Terminei a leitura sentindo em minha alma uma avalanche de ideias e sensações mas sentindo também que levaria um bom tempo até que tudo aquilo assentasse e eu conseguisse organizar meus pensamentos e reagrupar as verdades que, embora não fossem tão novas pra mim, agora eram obviamente, estupidamente claras. Através de mitos e lendas coletados em várias partes do mundo, a autora mostra como sobreviveu, mesmo escondida sob muitas formas simbólicas, o arquétipo do feminino selvagem, o modelo da mulher conectada com os ritmos e valores da Natureza e de sua própria natureza, o modelo da mulher livre. Um livro belíssimo, que tem ajudado muitas mulheres a resgatar o que séculos de repressão lhes usurparam: o direito de serem o que quiserem. Um livro que fala essencialmente do feminino mas também fala de homens e deveria ser lido pelos dois.
A mim, o livro de Clarissa me fez especialmente entender que, em minha vida, desde cedo me fascinou o arquétipo do feminino selvagem. Por causa disso sempre me atraíram as mulheres de iniciativa, as desafiadoras da cultura machista, as que recusavam o modelito cristão de mulher virtuosa, as que se rebelavam contra regras sociais idiotas, convenções sexuais sem sentido, modelos de relacionamento baseados na posse do outro e tudo que objetivava manter a mulher submissa e sob controle. Era por ela que eu sempre me apaixonava, essa mulher que era quem ela mesma desejava ser e não a mulher que a família, religião e sociedade impunham que ela fosse.
Esse livro me trouxe uma das mais importantes revelações que já tive, que a mulher da minha vida é e sempre foi uma só: a mulher livre. E que foi essa mulher que, mesmo sem saber, eu sempre busquei em minhas relações, ainda que a temesse. E que foi por ela que abandonei muitas mulheres, ao intuir, sem saber explicar nem pra mim, que eu jamais poderia ser totalmente eu ao lado de uma mulher domesticada.
Porém, como aceitar e amar essa mulher liberta sem, antes, eu mesmo me libertar do que também me limitava? Pra merecê-la, eu também precisava me libertar de vez de qualquer pretensão de controlá-la, esse resquício maldito de minha herança cultural-religiosa.
A ficha caiu após ler Mulheres que correm com os lobos: esse livro me ajudou a assimilar o feminino em meu ser e foi isso, exatamente isso que me fez deixar de temê-lo, me fez mais selvagem no sentido psicológico-arquetípico, me fez mais livre. O efeito prático disso tudo é que agora eu finalmente estava aberto pra relações mais igualitárias e, principalmente, pra receber a mulher livre que tanto buscava em minhas relações. Então ela veio, enfim ela pôde vir. Veio linda, plena e radiante, e eu vi em seus olhos o reflexo dela própria em mim. E desde então continua vindo, e eu e ela somos lobos que cruzam florestas atraindo-se pela fome louca que temos um do outro.
E eu sei que ela sempre virá, porque esse amor que trazemos em nós, geralmente incompreendido por não erguer cercas de posse e jaulas de controle, é o amor que aprendemos a respeitar em nossa própria natureza e que nos alimenta de alegria e liberdade a alma selvagem.
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Ricardo Kelmer 2009 – blogdokelmer.wordpress.com
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Mais sobre liberdade e o feminino selvagem:
>A mulher selvagem- Ela anda enjaulada, é verdade. Mas continua viva na alma das mulheres
> A mulher livre e eu – A liberdade dessa mulher reluz no seu jeito de ser o que é – e ela é o que todas as outras dizem ou buscam ser, mas só dizem e buscam, enquanto ela tranquilamente… é
> Em busca da mulher selvagem – Era por ela que eu sempre me apaixonava, essa mulher que era quem ela mesma desejava ser e não a mulher que a família, religião e sociedade impunham que ela fosse
> Amor em liberdade – O que você ama no outro? A pessoa em si? Ou o fato dela ser sua propriedade? E como pode saber que ela é só sua?
> As fogueiras de Beltane – As fogueiras estão acesas, a filha da Deusa está pronta. O casamento sagrado vai começar
LIVROS
> Mulheres que correm com os lobos- Mitos e histórias do arquétipo da mulher selvagem (Clarissa Pinkola Estés - Editora Rocco, 1994)
> A prostituta sagrada – A face eterna do feminino (Nancy Qualls-Corbert – Editora Paulus, 1990)
> As brumas de Avalon- (Marion Zimmer Bradley – Editora Imago, 1979)
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>> COMENTÁRIOS
.001- Não tenho a menor dúvida, RK, que é pelas mulheres Lilith – mulheres serpentes, que tu é fascinado e arriadinho. Tua alma é Lilithiana, criatura de Deus e do Diabo, de Abraxas!!!! Tava com saudade de tu. Rauariú, sacerdote do Grande Mistério Andrógino? Onde mora o perigo, querido, também mora a salvação, a conjunção. Pat Maria, Salvador-BA – out2009
002- Gostei do que vc escreveu. Ando relendo de novo o livro e vejo quantas coisas se assemelham a mim. Parabens. Um abraço. Christina Costa, Brasília-DF – out2009
003- Li há pouco tempo a biografia de Leyla Diniz.Essa sim é a personificação do feminino selvagem. Bjs. Mônica Burkleward, Recife-PE – out2009
004- Nossa adorei o trecho. Síntese do que venho exercitando na minha vida. Jamille Abdalah, São Paulo-SP – out2009
005- Grande Kelmer, você, como sempre, produzindo textos bacanas e bem bolados. Esse do feminino, então, show de bola, a foto foi por demais bem feita. parabéns!!! Forte abraço. Luís Olímpio Ferraz Melo, Fortaleza-CE – out2009
006- Kelmer, vou correndo ler o livro Mulheres que correm com os lobos. Essa mulher, livre, que dá banana pro machismo, que vive plenamente todos os prazeres hedonistas que lhe interessam, que toma iniciativa (mesmo sabendo do preço que paga por isso), essa mulher, sou eu! Beijão e.. valeu o toque. Vou xeretar teu blog pra saber mais. Meire Viana, Fortaleza-CE – out2009
007- Meninas, vale entrar no blog e dar uma conferida… Beijos. Ana Zanelli, Rio de Janeiro-RJ – out2009
008- Kelmer, até que enfim um homem entendeu o livro da Clarisse… (!) Claudia Santiago de Abreu, Rio de Janeiro-RJ – out2009
009- Que crônica ótima,gostei,só nÂo sei se me encaixo ‘100% nesse modelo de MULHER SELVAGEM viu. bjo parabéns pelo o trabalho fantástico. Eunyce Fragoso, Campina Grande-PB – out2009
010- Ei amigo,que bom que você descobriu as mulheres que correm com lobos… Que elas sempre estejam presentes no seu mundo! Se cuida tá! Lua, Fortaleza-CE – out2009
011- vc é especial, realmente quer e gosta de conhecer a alma feminina. faz de um tudo para compreender!!! Uma tarefa um tanto complicada,,,, Haja paciência!!! rs. Vânia Farah, São Paulo-SP – out2009
012- Quem tem medo da mulher livre?? O homem preso, oras (risos) Beijos ternurentos Tô adorando o livro…pena estar na correria e estar com tempo reduzido a zero…. mas logo termino… Beijos, outros. Clau Assi, São Paulo-SP – out2009
013- Ricardo, eu sou tua fã demais!!!! Vc é www.tudodebom.com.br/quehomeéesse!!!!! O sonho de consumo de toda mulher selvagem, incluindo eu mesma, claro! Bjs;. KarlaK, Fortaleza-CE – out2009
014-Hoje tive oportunidade de entrar no seu blog, por indicação de uma amiga. Fizemos parte de um grupo de vivências apoiadas na leitura do Mulheres que correm com lobos e ela me recomendou a leitura da sua crônica Em busca da mulher selvagem. Fiquei encantada. Acabei lendo também os contos As fogueiras de Beltrane, que amei, Um ano na seca e a crônica Homens perfeitos também alopram. Interessante como você circula com competência rara entre o sagrado/mítico/profano/humor… Será com prazer que voltarei à sua página. Parabéns belos belos textos e por suas múltiplas artes. Elvira, Brasília-DF – out2009
Cinema, Tela da Alma é uma série de palestras que faço usando filmes pra mostrar como a força e o encantamento do cinema são capazes de nos tocar profundamente a alma e nos instigar a viver a vida de modo mais verdadeiro. Sempre em linguagem acessível e de forma descontraída, essas palestras nos fazem ver os filmes por um olhar mitológico e psicológico, refletindo na tela as nossas próprias vidas, os nossos sonhos, os medos e anseios e a velha busca pela nossa essência mais legítima, que o corre-corre do cotidiano tão bem nos faz esquecer.
A primeira palestra deste ciclo atual será Razão e Sentimento em Conflito. Trata-se de uma abordagem bem humorada do filme Don JuanDeMarco, mostrando como os personagens principais, o jovem Don Juan e seu psiquiatra, representam o velho conflito entre intelecto (a visão fria e racional da vida) e coração (a poesia e o romantismo). Outros aspectos analisados: estrutura do roteiro e fotografia.
Outros filmes que integram o ciclo de palestras Cinema Tela da Alma: Matrix, Caçador de Andróides (Blade Runner), Piaf, Uma Mente Brilhante, Encontro Marcado e Alucinações do Passado.
Horários 18h30: exibição do filme
20h: intervalo para o café
20h15: palestra
21h30: encerramento
Local: Espaço Cultural Alberico Rodrigues
Praça Benedito Calixto, 159 – Pinheiros (estacionamento na praça)
Inf.: 3064.3920 e 3064.9737
Investimento: R$ 10
Razão e sentimento são funções psicológicas que auxiliam o ego a lidar com a realidade. Porém, quando o ego se apega demasiadamente a uma delas, ocorre o desequilíbrio psíquico
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O filme Don Juan DeMarco é mesmo maravilhoso. Sua história é boa e divertida, o roteiro perfeito, os atores estão muito bem e a trilha sonora é linda. As mulheres suspiram com o romantismo da trama, a poesia das imagens, a vitória do amor. É um filme que traz bons temas para discussão, como o donjuanismo e a dificuldade da ciência médica de lidar com o que ela diagnostica como loucura. No entanto, em minha palestra Razão e Sentimento em Conflito, uso o filme para falar de outro tema: o conflito entre intelecto e coração.
Não é à toa que esta palestra é muito solicitada por empresas. Cada vez mais elas percebem a urgente necessidade de terem funcionários psicologicamente equilibrados. O motivo é óbvio: pessoas harmonizadas consigo mesmas aprendem melhor, produzem melhor e vivem melhor. Investir na saúde de seus funcionários, física e psicológica, é um excelente investimento para qualquer empresa.
Em Don Juan DeMarco temos dois personagens em conflito: o psiquiatra renomado e o jovem problemático. O psiquiatra tem sua vida inteiramente regida pela lógica científica, ele é racional ao extremo, sempre frio em suas conclusões. O jovem é o oposto: sua vida é puro sentimento e emoção e ele só enxerga a vida pelas lentes da poesia, da aventura e do amor. Qual dos dois está certo?
Os dois estão errados. A prova disso são suas próprias vidas: o médico está cansado e desestimulado e seu casamento perdeu a paixão. E o jovem, frustrado por um amor não correspondido, desistiu de viver. Ambos perderam a vitalidade, o tesão pela vida. O motivo: eles esgotaram as possibilidades que razão e sentimento, sozinhas, têm para oferecer.
Razão e sentimento são funções psicológicas que auxiliam o ego a lidar com a realidade. Porém, quando o ego se apega demasiadamente a uma delas, ocorre o desequilíbrio psíquico e surgem os insucessos em vários aspectos da vida. A razão sempre busca entender a realidade pela ótica do intelecto, que é incapaz de abarcar toda a complexidade da vida. A razão não quer exatamente ser feliz: ela quer ter razão, sempre. Certamente você conhece alguém assim, que só admite a lógica racional para explicar a tudo. E o sentimento entende a realidade pela ótica da sensibilidade emotiva, o que também é insuficiente para lidar com a grandeza da vida. Muitas pessoas agem assim, achando que a pureza de seus sentimentos a tudo resolverá.
Em algum momento da vida o crescimento psíquico exigirá do ego o equilíbrio dessas funções. Se seguir a diretriz autocurativa de sua própria psique, a pessoa saberá conciliar razão e sentimento e sairá do conflito renovada. Passará a se relacionar com a vida usando as duas funções de modo equilibrado e consciente, sabendo reconhecer as ocasiões em que deve usar mais intelecto ou mais coração.
Tanto nos relacionamentos com a família, com amigos ou num casamento, como também no dia-a-dia profissional, esse equilíbrio psíquico é fundamental. Assim como o psiquiatra frio e o jovem romântico tiveram que entrar em intenso conflito antes de integrarem em si o que lhes faltava, às vezes é preciso chegarmos a um ponto crucial de desequilíbrio interno, que causa o desequilíbrio externo, e afundar na crise para, somente assim, reconhecer e integrar o que nos falta e sermos mais inteiros e harmonizados com nós mesmos, com os outros e com o mundo em volta.
Portanto, é bom ficar atento. Se a vida parece ter chegado a um ponto insustentável e viver de repente tornou-se uma sucessão de dias sem sentido, talvez esteja na hora de aceitar o outro lado que até agora negamos em nossa própria alma, mesmo que, a princípio, esse outro lado pareça limitado ou ingênuo. Ou louco demais.
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Ricardo Kelmer 2007 – blogdokelmer.wordpress.com
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Don Juan DeMarco
(Don Juan DeMarco, EUA, 1995)
Argumento e direção: Jeremy Leven
Elenco: Johnny Depp, Marlon Brando, Rachel Ticotinn, Bob Dishy e Geraldine Pailhas
Um renomado psiquiatra prestes a se aposentar aceita, num último desafio à sua brilhante carreira, cuidar do rapaz que diz ser a reencarnação de Don Juan, o maior amante da História. Ele tenta trazê-lo de volta à realidade mas o caso foge de seu controle e ele percebe que ali, naquele estranho mundo de fantasia, romances e aventuras, pode estar o segredo para transformar sua própria vida, seu casamento e até sua noção de realidade.
Ele quer falar sobre tudo que viveu ali dentro, todos aqueles anos, os amores e desamores, o quanto sofreu e fez sofrer, perdeu e se encontrou… Mas não precisa, ela já sabe
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Ele pensa enquanto a pergunta da Mestra ainda ecoa: Que tal passar o aniversário com sete namoradas? Ele olha para trás, para frente, o corredor infinito, portas de um lado e outro. Que estranho presente de aniversário…. A Mestra abre a porta. Ele pensa. Pode recusar? Não, ele sabe que não pode. E entra, devagar, desconfiado.
Silêncio. Uma sala enorme, toda branca. À esquerda ele vê dois olhos verdes. Chega mais perto e reconhece: é ela. Uma dor repentina o entristece. O que acontece com os sentimentos que desprezamos em nós mesmos? Ele se desculpa: Eu era só um garoto estúpido mas amei você mesmo assim, acredite…
Rejuvenescido. É como ele se sente no ambiente seguinte onde a bailarina faz piruetas sobre uma nuvem. Ela sorri um sorriso tão juvenil que imediatamente ele se sente mais jovem do que é, do que era. Quer sentar para admirar mas não há tempo. Resta-lhe dizer: Tudo valeu, as alegrias, as brigas, tudo, mas o tempo, infelizmente não houve tempo, você já estava de partida, fui apenas sua despedida desse mundo…
Beleza e loucura… beleza e loucura… De algum lugar escuta alguém sussurrar. Lá encima, no alto da torre. A linda princesa. Ela o chama, implora que a liberte de sua prisão. E joga duas enormes tranças. Que caem a seus pés. Bela e irresistível como o diamante da insanidade… E ele foi, subiu agarrado às suas tranças até o alto. E lá no alto teve medo do que ele era. Horrorizado, despencou. E morreu sua primeira morte, rígido de dor. Obrigado por ter me matado, princesa, eu a amarei para sempre por isso, obrigado…
Vazio. O aposento vazio. Ele escuta um piano… Um som doce, tão doce que o sente na boca, se desmanchando sob a língua. Depois que se desmancha é que percebe que o doce… é ela. Tenta provar o som mais uma vez… porém tudo volta a ser o imenso vazio. Sente-se tão incomodado que se apressa para sair… mas uma idéia súbita o faz voltar. E então compreende. O vazio é ele, ele todo o imenso vazio, sem nada para oferecer além da própria busca alucinada por si mesmo. Ela ao piano, os seios generosos, ela e a doçura que sempre se desmancha antes que ele a alcance… Desculpa, por favor, que era eu um vaso vazio?…
Fantasias. Mil fantasias nos espelhos ao redor. Qual delas será ele? Experimenta todas e nenhuma lhe cabe. Sente-se perdido em meio a tudo aquilo que não é ele e se angustia ainda mais. Então surge a mão dela, amorosa e compreensiva a acariciá-lo. Ele leva a mão ao peito e se acalma. No meio do caleidoscópio de tantos eus ele sussurra: Você me vê, mais do que eu mesmo, e isso me faz existir…
Girando e girando e girando… Ele agora gira no escuro, sem saber onde se encontra. Está úmido e abafado. Enquanto gira, sente a excitação lhe subir pela virilha, mais, mais… Um segundo antes de gozar, percebe que está na caverna e então compreende que está dentro dela, ela o comeu, viúva negra. Entorpecido, deita-se para morrer, finalmente descansar na escuridão total. Mas no último segundo desperta aterrorizado e, com as forças que restam, levanta e as luzes se acendem. Fomos fundo, meu bem, fomos tão fundo em nós…
Karma. O último ambiente é o ônibus que o levará ao inferno. Quer desistir mas o olhar de sua irmã lhe diz que não há outro caminho para o céu. Ele entra, fecha os olhos e chora indefeso, pressentindo o que virá. A rodomoça oferece o cálice e quando o bebe, vê que é sangue. Não há palavras para descrever o gosto, a dor, o inferno, a morte. Dias sem noites e noites sem dias sem poder dormir. Rendido, permite que demônios devorem sua carne. Sem mais qualquer orgulho, abre os braços e oferece a alma à Terra. Na última noite escuta pombas brincarem no teto… e percebe que renascerá. E tudo se esclarece: Você é o que eu precisava viver para que o Cosmos se reequilibrasse em mim, não há palavras para agradecer…
A porta se abre e ele cai de joelhos, chorando de gratidão. A Mestra o abraça, compreensiva. Ele quer falar sobre tudo que viveu ali dentro, todos aqueles anos, os amores e desamores, o quanto sofreu e fez sofrer, perdeu e se encontrou… Mas não precisa, ela já sabe. Ela pede que ele abra a mão… e lá estão sete pedrinhas de cristal, em todas o reflexo de seu próprio rosto. Extasiado, ele pega os cristais com cuidado, admirando seu brilho. Então, de repente, não são mais sete, são apenas um, o mais belo. Ele aperta o cristal ao peito e respira fundo. Quer dizer algo mas, pensando bem, não há nada para dizer. Nem pensar. Apenas sentir.
> Desconstruindo Kelmer (por Wanessa) – Totalmente metida e curiosa, eu me debrucei sobre o conto e fiz minha própria interpretação. Bem, a presença da Mestra, a vida, a Deusa, o Tao, o fluxo irrevogável de tudo, não me espanta que seja uma figura feminina…
Qual a imagem do século 20 para você? Foi essa a pergunta que me fizeram. E fiquei dias e dias pensando. O século 20 é repleto de imagens marcantes: cinema, descobertas científicas, guerras, competições esportivas, maravilhas tecnológicas, o 14 Bis de Santos Dumont, Gandhi e a roda de fiar, aquela menina vietnamita correndo nua pela estrada bombardeada, aquele cidadão chinês a desafiar os tanques na Praça da Paz Celestial (o nome da praça, que ironia…), a ovelha Dolly… Tantas imagens, tantas coisas inesquecíveis. Acabei escolhendo duas imagens.
A primeira é o cogumelo atômico, a bomba jogada sobre Hiroxima e Nagasaki em 1945. A bomba atômica, a rosa com cirrose, sem cor, sem perfume, sem rosa, sem nada. Devemos guardar para sempre a imagem do cogumelo maldito em nosso álbum de recordações, para não esquecer que chegamos bem próximos de nos exterminar. A imagem nojenta da destruição de uma cidade e do assassinato de milhares de inocentes. A imagem suprema da estupidez humana.
O vergonhoso cogumelo atômico simboliza também mais uma mordida no fruto proibido do conhecimento, o fruto que sempre nos atiçará a curiosidade. O problema não é o fruto em si pois o conhecimento existe para ser acessado, ele está sempre nos aguardando e a evolução das coisas sempre nos levará ao nível seguinte de conhecimento. O problema é o que fazemos do conhecimento adquirido. Não há como deter a evolução do saber, é uma necessidade inerente à espécie. Descobrimos o poder dos átomos e que ele pode nos ser útil – mas descobrimos também que serve para exterminar populações inteiras, gente inocente, num segundo apenas. Um segundo que deixou eternamente projetada, feito uma sombra na parede de nossa história, a estupidez e a vergonha de sermos humanos.
E a segunda imagem? Bem, ela não é vergonhosa, muito pelo contrário. Enquanto o cogumelo atômico nos entristece, essa outra nos enche o coração de esperanças num futuro melhor. É a foto da Terra, vista do espaço. A foto que os astronautas tiraram quando de sua chegada à Lua, em 1969. Naquele momento a humanidade, pela primeira vez na História, punha seus pés em outro lugar fora de seu planeta e olhava para trás e via a Terra de outro ângulo. A imagem é linda mas não é somente isso. Ali, naquele instante mágico, eternizado na fotografia, a humanidade botou a cabeça para fora de seu mundinho de divisões, superficialidades e mesquinharias e conseguiu, pela primeira vez… distanciar-se e olhar para si mesma.
E o que vimos? Vimos nossa morada flutuando no espaço. Vimos um planeta inteiro, sem divisões. Não vimos este ou aquele país: vimos o todo. Não vimos divisões de raças, culturas, credos e ideologias. Não. O que vimos foi uma coisa só, feita de coisas diferentes, sim, mas uma coisa só. Vimos pela primeira vez o nosso planeta e descobrimos que ele é azul e é lindo, suspenso no espaço a flutuar pela imensidão do Universo. Ô momento iluminado! Quantas implicações filosóficas e metafísicas e sociológicas e econômicas e tudo o mais essa imagem de repente detonou!
Antes muitos intuíram que por baixo da extrema diversidade corre o rio da unicidade. Mas a foto da Terra de repente mostrava isso no papel e resumia numa imagem tudo o que precisávamos urgentemente pôr em prática. Ficou claro, de um instante para outro, que vivemos num único lugar, ocidentais e orientais, negros, brancos, índios, amarelos, cristãos, judeus, muçulmanos, hinduístas. De repente ficou claro que não mais faz sentido nos massacrarmos e dividirmos o mundo em capitanias, e que devemos agora dar prioridade máxima àquela visão do todo em vez de privilegiar este ou aquele país, esta ou aquela cultura.
A partir dessa foto a humanidade passou a pensar diferente a respeito de si mesma e do lugar onde mora. Deu-se um estalo no inconsciente coletivo. Ativou-se de vez o novo mito da unicidade. De repente nos vimos do alto e entendemos que, num mundo cada vez mais interconectado, tudo o que fizermos localmente terá consequências globais, mesmo que não as percebamos de imediato. Ficou claro que o planetinha azul é tudo que possuímos e que se ele adoecer, nós, como parte integrante, também adoeceremos. Ficou muito claro que o que fizermos a Gaia estaremos fazendo a nós mesmos.
As fronteiras geopolíticas, essas linhas artificiais que separam as pessoas em todo o mundo, simplesmente não existem naquela foto. Nela o mundo está livre de divisões. Hoje, mais de trinta anos depois, os blocos econômicos, a crescente indústria do turismo, as comunicações de massa e a internet cada vez mais acessível afrouxam ainda mais essas fronteiras, fragilizando a noção de país que possuímos. Essa fragilização causa em muita gente, principalmente nos mais velhos, certo incômodo e insegurança pois nossa noção de país e de identidade cultural foi construída à custa de muitas guerras e conquistas sangrentas e se encontra enraizada a ferro e fogo em nossas mentes. Dói ter de largá-la por uma noção planetária que ainda não sabemos como exatamente irá funcionar.
Dói mas talvez não haja outra alternativa. O curso natural da evolução parece agora nos solicitar uma noção mais abrangente de nós mesmos e do lugar onde todos vivemos. Sei que o processo de globalização é irreversível e que, com ele, há o perigo de culturas inteiras serem devoradas pelos interesses comerciais, enriquecendo alguns poucos mas empobrecendo a espécie humana. Será um grande desafio que teremos de superar.
Por enquanto fico com minha esperança nesse mundo sem fronteiras que aquela foto tirada do espaço nos revelou. Um mundo mais inteiro e harmônico, sem divisões internas a enfraquecê-lo. E é exatamente por causa dessa esperança que não morre que, entre as duas imagens, escolho a imagem da Terra, nossa casa vista do espaço, redonda e azul, como a imagem do século 20. E torço para que, no futuro, essa imagem simbolize o momento mágico em que o mito da unicidade foi finalmente despertado, feito uma revolução em massa que ainda está em seu início mas que não pode mais ser derrotada.
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Ricardo Kelmer 2000 – blogdokelmer.wordpress.com
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DICAS DE LIVRO
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> Iniciação à visão holística
Clotilde Tavares (Record/Nova Era)
Holística é um daqueles termos que de repente, quando você vê, ele já está por aí, na mídia e na boca das pessoas. Mas, cá pra nós, quem sabe mesmo o que significa exatamente isso? A professora Clotilde Tavares, que também é médica e terapeuta floral, faz um agradável passeio pelas noções básicas que formam o pensamento holístico, cada vez mais importante pra humanidade deste tempo.
> O novo paradigma
Walter de Souza (Cultrix)
À procura de entender a realidade, a humanidade fragmentou o conhecimento, valorizando as especializações. Isso trouxe conquistas indispensáveis, é verdade. No entanto já é visível a necessidade de voltarmos a reunir o conhecimento espalhado. É alentador ver que vários ramos da ciência já seguem a mesma direção. Nesta curta mas significativa obra, o autor nos revela os novos caminhos que já estão expandindo a consciência humana.
> O Tao da Física
Fritjof Capra (Cultrix)
Novas descobertas da f ísica quântica promovem um verdadeiro rebuliço na compreensão dos cientistas a respeito da realidade e muitos até se recusam a acreditar nas constatações filosóficas e metafísicas a que seus experimentos os conduzem. O físico Fritjof Capra mostra as impressionantes coincidências entre as novas descobertas da Física a respeito da matéria e as antigas filosofias orientais como o Taoísmo e o Budismo.
> O ponto de mutação
Fritjof Capra (Cultrix)
Prosseguindo em seus estudos, Capra mostra como as ciências já estão falhando por insistir em seguir o modelo newtoniano/descartiano de interpretação da realidade e sugere que a humanidade está vivendo uma decisiva transição em sua evolução. Especificando a situação de diversos ramos da ciência, como medicina, psicologia e economia, Capra escreveu uma obra indispensável ao estudioso do pensamento holístico e dos novos paradigmas que lentamente estão, não substituindo, mas complementando os atuais.
Eu adoro o Vocês Terráqueas. E eu, grande releitora que sou, claro que escarafunchei o livro todo, li de cabo a rabo incontáveis vezes. Principalmente depois daquela conversa que nós tivemos, em que tu me contou um segredinho que se esconde em alguns textos. Depois disso, a tua obra virou um mistério ainda maior pra mim. Comecei a ler teus textos com mais atenção, agora entendo melhor algumas coisas e desconheço completamente outras.
Um conto em especial me instigou desde a primeira leitura: Cristal. A ordem dos acontecimentos é compreensível, tem começo, meio e fim, mas não dá pra terminar a leitura sem a sensação de que tem algo muito maior que eu não consegui captar. Eu, meio Sherlock Holmes das palavras, fico tentando decifrar os enigmas, seguir possíveis pistas, mas é tudo em vão. Não dá.
Totalmente metida e curiosa, eu me debrucei sobre o conto e fiz minha própria interpretação. Bem, a presença da Mestra, a vida, a Deusa, o Tao, o fluxo irrevogável de tudo, não me espanta que seja uma figura feminina. Um presente de aniversário, a viagem sem escolha. Depois o corredor cheio de portas e ela aparece, a Simone. Provavelmente um amor da adolescência. Eu vejo um Ricardo cheio de ideias, querendo tudo ao mesmo tempo. Tempo que, até então era inesgotável e por isso permitia um monte de erros que levam a um rompimento doloroso, que deixa uma dor que invade, dor física, forte.
Encontro com a Renata. A bailarina que faz piruetas num nicho, algum lugar perdido, intocável. Os movimentos leves; contemplamos a beleza porque é finita. Melhor não me demorar por aqui, não há tempo, só pra recuperar o fôlego, o assombro diante das surpresas da vida.
A Bel traz o encontro com a princesa, o primeiro. Joga suas tranças da torre; beleza e loucura juntas provocam vertigem? A morte do primeiro Ricardo, daquele que por vezes era desconhecido de si próprio, te deixa profundamente grato, a mim também. Vânia, Valesca, Vanessa, Valéria, são tantas as possibilidades dessa musicista sensual, sensual como doce desmanchando na boca. O inalcançável, mesmo que a distância entre os corpos seja curta. É preciso achar-se a si, antes do outro. Talvez a fuga seja o melhor caminho quando o vaso ainda está vazio.
Minhas dúvidas se multiplicam em relação aos nomes, Fabiana, Fabíola, Fátima… o nome tanto faz, as fantasias são múltiplas, volúveis, diáfanas. Encantam e entontecem. É preciso um fio que te conduza a realidade, uma mão talvez. E ela sabe fazer isso, no meio do redemoinho de possibilidades e sonhos, é bom se saber compreendido por alguém, uma certeza tranquilizadora de não ser tão estranho, hermético. Gisele, como a espiã nua em Paris, a tua cara isso. E mais uma vez a tontura, mas essa é diferente e conheço: a euforia da excitação e o gozo (ai, que saudade da tua carinha gozando…), a sensação de ir cada vez mais fundo, mais longe. Transpiração e transcendência lado a lado.
O inferno te espera e traz também o sabor indigesto. A inquietação, o ápice do sofrimento e desespero. A alma conturbada se rende a mais uma morte. Passou pelo seu Karma, Karine. As palavras não bastam para agradecer por uma nova vida. E no fim, sete encontros, sete vidas que hoje formam um só cristal, o mais belo, o ser mais incrível que ja conheci na vida, tu. Talvez eu tenha acertado um pouco, talvez tenha passado longe, mas uma coisa eu aprendi com esse conto, às vezes racionalizar sobre o que está diante dos olhos, só torna tudo mais complicado, a compreensão pode ser simples, não precisa muito. Apenas sentir.
A liberdade dessa mulher reluz no seu jeito de ser o que é – e ela é o que todas as outras dizem ou buscam ser, mas só dizem e buscam, enquanto ela tranquilamente… é
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É ela quem eu quero, a dona dessa boca. A boca docemente familiar que amanhece de mansinho na minha quando desperto de mais uma madrugada de sonho e suor. Porém, bem mais que a boca, é o beijo da liberdade dessa mulher que me refresca a vida.
É ela quem eu desejo, a dona desse corpo. O corpo que me sugere as mais poéticas indecências e me convida a desvendar os segredos que eu já sei de cor e quando estou lá, puff, de repente já não sei mais e então me perco por seus montes e planícies e cavernas e ao fim de tudo me contorço e urro e explodo no mais puro prazer de me perder. Porém, bem mais que no corpo, é na liberdade dessa mulher que a vida se desnuda pra mim.
É da presença dela que eu preciso, ela que me traz a certeza que não seguirei só. É de sua voz que carecem meus ouvidos, a voz que me embala a alma de blues e me faz convidá-la: vamos dançar, meu amor? É o meu olhar no seu que vejo quando nada mais vejo no breu das incertezas. Mas, sobretudo, é a liberdade dessa mulher que me clareia o caminho.
Ela é livre porque, apesar de ter nascido imersa numa cultura, cedo entendeu que não deveria limitar-se às suas regras e assim modelou seu ser com o que de melhor ela mesma encontrou pelo mundo. Evidente que esse não limitar-se às convenções fará dela uma eterna transgressora a incomodar os que só admitem o mundo pelas lentes de sua cultura e religião. Mas esse é o preço da alma liberta, ela sabe. E eu faço questão de pagar junto dela.
Houve um tempo que ela entendia seu corpo como algo contra o qual deve lutar todos os dias – até que percebeu que sua verdadeira beleza não vem de cosméticos mas de sua alma harmonizada com os ritmos naturais da vida. Hoje ela não precisa gastar para ficar chique e bonita pois a elegância da simplicidade há muito a fez sua modelo exclusiva. Sim, a mulher livre possui vaidades mas ela não é boba, sabe que os criadores de moda não almejam a sua felicidade mas a sua escravidão. E quanto a vestir-se pra fazer inveja a outras mulheres, bem, ela não precisa disso pois sabe que mais tarde quem rasgará sua roupa sou eu.
Os mistérios de si, ela vai buscá-los pois sabe que jamais seremos livres sem nos livrarmos do que por dentro nos paralisa e nos faz sabotar a própria vida. Ser livre é ampliar a cada dia a real noção de si, isso ela há muito compreendeu, e é por esse motivo que os que se libertam não se enganam mais como antes e, por serem verdadeiros, mais verdadeiras são suas relações.
E por bem saber o que ela é e o que não é, essa mulher nada tem a provar a ninguém. Se interpretam erroneamente seu jeito espontâneo, ela ri ainda mais do que pensam dela. Se seus desejos transcendem os velhos modelos sexuais, ela festeja e os divide generosa com eles ou elas, e em nome de seu sagrado prazer ela é a cadela devassa, a santa dadivosa da luxúria, a puta mais linda e desvairada que há.
A liberdade dessa mulher reluz no seu jeito de ser o que é – e ela é o que todas as outras dizem ou buscam ser, mas só dizem e buscam, enquanto ela tranquilamente… é. Por não estar apegada a poder e dinheiro, ela é a mais rica e poderosa de todas. E é justamente por saber que a velhice é o segredo final da sabedoria que a vida todo dia vem banhá-la de alegria e vesti-la com esse jeitinho de menina encantador.
É esta a mulher que dança pela vida comigo, duas individualidades que se harmonizam mas não se anulam em estúpidas noções de controle e compromisso: amamos o outro e não a posse do outro. Estamos juntos porque finalmente encontramos a liberdade que admira, acolhe e incentiva a nossa própria e até nos permite dividir com o mundo o nosso amor. E por não sofrer temendo perder quem na verdade nunca possuímos, mais vivemos e gozamos o melhor amor que temos pra nos dar.
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Ricardo Kelmer 2009 – blogdokelmer.wordpress.com
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Mais sobre liberdade e o feminino selvagem:
>A mulher selvagem- Ela anda enjaulada, é verdade. Mas continua viva na alma das mulheres
> A mulher livre e eu – A liberdade dessa mulher reluz no seu jeito de ser o que é – e ela é o que todas as outras dizem ou buscam ser, mas só dizem e buscam, enquanto ela tranquilamente… é
> Em busca da mulher selvagem – Era por ela que eu sempre me apaixonava, essa mulher que era quem ela mesma desejava ser e não a mulher que a família, religião e sociedade impunham que ela fosse
> Amor em liberdade – O que você ama no outro? A pessoa em si? Ou o fato dela ser sua propriedade? E como pode saber que ela é só sua?
> As fogueiras de Beltane – As fogueiras estão acesas, a filha da Deusa está pronta. O casamento sagrado vai começar
LIVROS
> Mulheres que correm com os lobos- Mitos e histórias do arquétipo da mulher selvagem (Clarissa Pinkola Estés - Editora Rocco, 1994) > A prostituta sagrada – A face eterna do feminino (Nancy Qualls-Corbert – Editora Paulus, 1990)
> As brumas de Avalon- (Marion Zimmer Bradley – Editora Imago, 1979)
O amor insano. O amor desafiador do tempo. O amor que descortina as mais absurdas possibilidades do ser.
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CAPÍTULO 3
2a parte .
Um dia perfeito.
Ainda caía um resto de chuva quando a noite desceu em Tibau do Sul. No pequeno restaurante da dona Zezé Luca e Isadora tomavam um caldo de peixe, ele saboreando cada pedaço daquele delicioso momento: o caldo de peixe, a chuva, a musiquinha na rádio… Luca sentia a cabeça flutuar leve e os pensamentos vagar sem critérios. Pela primeira vez naquela viagem sentia-se verdadeiramente descontraído. Os problemas que o esperavam em Fortaleza pareciam tão distantes… Pertenciam a uma outra realidade e a realidade em que estava naquele momento era feita de chuva, caldo de peixe e uma alegria mansa no coração. E Isadora.
Ele olhou para ela à sua frente, entretida em seu prato, e admirou-se de como ela combinava com o momento, com a chuva que caía lá fora, a simplicidade do lugar… Isadora parecia estar num outro patamar de apreensão das coisas, um patamar que ele não alcançava inteiramente. Sim, era isso, ela sabia perceber a essência daquelas coisas com naturalidade, sem se esforçar, enquanto ele precisava de muitíssimo esforço para… ser simples.
Ele pensava como ela era meio louca, aquelas idéias sobre a vida, sobre deixar-se levar, não fazer planos, aquela confiança cega no destino… Não, aquilo não era normal. Aquela história de vida passada, achar que ele foi seu amante… Aquilo era viagem e das grandes. Na noite anterior, ao redor da fogueira, sentiu-se entre três loucos de hospício, de um momento para o outro eles o agarrariam e o jogariam às chamas.
Mas ela compensava o risco. Pensando bem, ele concluiu, talvez fosse mais vantajoso deixar que ela acreditasse naquela história de amante…
Que horas? Talvez algo entre sete ou oito, calculou. Ou nove ou dez, algo assim. O tempo já não importava, era como estar fora dele. Com Isadora os momentos se tornavam intensos e os detalhes das coisas mais interessantes. Ela o havia arrancado de seu sono e o levara para conhecer as delícias de uma tarde chuvosa, um velho prazer de infância. Correram pela estrada, tomaram cachaça e olharam a chuva debaixo de tetos de palha. Riram de velhas piadas, jogaram pedras ao mar do alto da encosta, comeram milho assado, pegaram carona em caminhão. E agora estavam ali, tomando caldo de peixe. Um dia perfeito. Como todos os dias deveriam ser.
- Eu vi mesmo uma mulher de branco, Isadora – ele falava sobre o afogamento do dia anterior. – Nitidamente. Não deu pra ver o rosto mas me passou uma sensação de paz… Nunca tinha me acontecido nada dessas coisas. Aliás, eu nem gosto dessas coisas.
- Ela era familiar?
- Era como se eu já conhecesse. Vai dizer que também já viu…
- Não, nunca vi.
- Deixa ela pra lá. Me fala mais de você. Fala do taoísmo. Fiquei curioso.
- Quer mesmo ouvir? É meio louco.
- Não diga… – Ele riu. – É uma religião?
- Tem um lado religioso e outro mais filosófico. Prefiro o filosófico. Tem umas contradições desconcertantes. Entorta o raciocínio, sabe? O jeitão ocidental de analisar a realidade, com toda sua lógica científica, engancha nos paradoxos do taoísmo.
- Tá. Mas como é mesmo?
- O taoísmo é um modo intuitivo de entender a realidade. Ensina a captar os movimentos da vida pra agir em harmonia com eles. Tem uns cinco mil anos.
- Como é um taoísta?
- É alguém que tá conectado com as verdades simples e naturais da vida. Hoje em dia a maioria das pessoas se desligou dessas verdades e complicou o que sempre foi simples. Mesmo vivendo no ritmo louco da cidade grande, é possível se manter unido com a alma do planeta, a mente da Natureza. É essa conexão que guia o taoísta por entre todo o caos.
- Conectar-se com a mente da Natureza? Você andou fumando?
- Papo de maluco, né? Mas é a coisa mais natural que pode haver. A Natureza é a vida e a vida, no fundo, é muito simples. Por exemplo, sabe quando a gente se apega demais a uma coisa? Isso é antinatural. Porque aquela coisa tá se transformando o tempo todo e a gente continua apegado a algo que não existe mais. Pessoas, lugares, idéias, tudo muda. Se não mudar, apodrece. Esse dinamismo é o Tao. Se você se harmoniza com ele, fica mais simples viver. A primavera sempre vem, não é? Por quê?
- Pros costureiros lançarem suas coleções.
- Bobo. Ela vem porque as folhas nunca são as mesmas.
- Ahn… Como assim?
- As coisas mudam pra sobreviver. A vida morre pra poder continuar viva. Esse dinamismo, esses ciclos, isso é o Tao.
- O Tao seria Deus?
- O Tao não é uma entidade personalizada como os deuses das religiões. Ele não tem vontade nem tem moral. O Tao já é a própria ação. É o que acontece.
- Não sei se entendi. Aliás nem sei o que é que tem pra entender nisso aí.
- Não dá pra explicar o Tao. Só dá pra sentir o Tao, intuir na vivência do dia-a-dia. É a unidade de tudo que existe, aquilo que liga todas as coisas. É o fluxo natural da realidade, do Universo. Movimento.
- Ah, por isso que você gosta tanto de viajar… Vai uma cerveja?
- Dinamicamente gelada.
- Estar em harmonia com as coisas… Isso me cheira a uma certa passividade, não?
- Pelo contrário. Captar o fluxo do Tao é um trabalho interno. Depois que consegue, você se ajusta às forças da vida. Você muda o mundo mudando a si mesmo. Isso é alquimia interior. Porque o que realmente transforma o mundo são os movimentos internos. Não tem nada de passividade nem preguiça.
- Se o Tao é o fluxo da vida, então nada escapa dele?
- Nada.
- Então pra estar em harmonia com o Tao, basta você ficar parado que o Tao te leva junto. Óbvio. Se isso não é passividade, o que é então?
- Viu? Começaram os paradoxos… – Ela riu. – Não é fácil relaxar no meio da correnteza, Luca. Poucos conseguem. Tem que se soltar, não pode ser rígido. Tem que confiar na correnteza. Se você consegue isso, foi só porque você se tornou uno com a força da correnteza. Tudo tem seu próprio ritmo, seus ciclos de crescimento e morte. E todos os ritmos estão interligados. Capte o seu, relaxe e se harmonize com ele. É assim que a gente se integra com tudo ao redor.
- E se eu quiser ir contra a correnteza? O Tao vai me impedir?
- Se quiser ir contra, pode ir, mas vai viver cansado. Vai ter sempre aquela sensação de que as coisas podem ser melhores mas nunca são. Vai sempre estar começando, lutando, se cansando…
Podem ser melhores mas nunca são… Luca escutou o eco daquelas incômodas palavras.
- Quem é uno com o Tao não precisa fazer nada. E, no entanto, não deixa nada por fazer.
- Agora eu tenho certeza que você fumou.
- Dá um nó, né? – Isadora riu, se achando meio ridícula no meio daquelas explicações todas. – Faz parte. A mente não se rende fácil.
- Me desculpe mas acho que não é dessa vez que vou me converter.
- Converter? Ninguém pode se converter ao taoísmo! O Tao é a natureza das coisas, inclusive a própria natureza da pessoa. Converter alguém ao taoísmo é como forçar alguém a ser natural. Já pensou? Vamos, seja natural, seja natural! Eu tô mandando!
Luca soltou uma gargalhada. Era mesmo um contra-senso.
- O ideograma chinês que corresponde ao Tao é feito de pé mais cabeça. O caminho, o sentido.
- Pra mim tá mais pra “sem pé nem cabeça”… – Ele ria daquele absurdo todo.
- Quem pergunta sobre o Tao não o imagina. E quem responde não o conhece.
- Isso é que é uma discussão de alto nível! Quem pergunta não sabe e quem responde não faz idéia!
- Não faz sentido explicar, Luca… É ridículo! – Ela tentava falar sério mas já não conseguia. E assim se deixaram ficar, num riso sem fim. Se não houvesse gargalhadas não seria o Tao.
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(continua)
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TRILHA SONORA
Este romance possui uma trilha sonora própria, com músicas compostas por RK e parceiros. Adquirindo o livro (impresso ou eletrônico), você recebe as músicas em mp3 por e-mail.
Vídeo-clipe com a música Blues de Luz Neon,
da trilha sonora do romance
O Irresistível Charme da Insanidade
Mulher é um bicho capaz de conversar dias e dias seguidos, sem cansar, sobre seus sentimentos, sobre o namoro, o casamento, o que vai bem, o que vai mal, como seria se fosse ou como foria se não sesse…
O assunto é sentimento? Então pra mulher cada aspecto dele é um fractal, que pode ser ampliado, ampliado e sempre haverá novos detalhes que surgirão a cada ampliação. E, putz, como mulher se excita quando o assunto é sentimento! Mulher é apaixonada pelo amor.
Já a maioria dos homens prefere conversar sobre futebol, trabalho, política, arte, filosofia, automóvel, sexo, pescaria, o melhor anzol pra pescar, o estojinho do anzol… qualquer coisa menos sentimento. Eles veem mais sentido em falar sobre o que pensam do que sobre o que sentem. Às vezes eu faço este teste: pergunto a um amigo o que ele sente por sua mulher. Geralmente ele resume a resposta em duas ou três palavras e acabou. Isso quando ele não rebate, desconfiado: que pergunta é essa?
É claro que homem sente. Mas como há milênios somos programados desde a infância pra nos mostrarmos fortes e infalíveis, e sentimento é algo que pode fragilizar qualquer um, nós evitamos expor o que sentimos, até pra nós mesmos. E de tanto reprimir os sentimentos, acabamos muitas vezes até mesmo sem saber o que realmente sentimos. Ô racinha… E, assim, o reino Yin dos sentimentos a cada dia se torna pro homem uma terra cada vez mais estranha e hostil. Melhor manter distância dela. Melhor falar de algo que seja mais racional. Como a melhor fechadura pro estojinho do anzol.
o reino hostil dos sentimentos
A mentalidade patriarcal, sobre a qual foi construída nossa querida cultura, sempre desprezou os valores ligados ao feminino, ao Eros (relação). Claro, pois só assim a mentalidade maculina dominante, ligada ao Logos (conhecimento, razão) poderia se manter, sempre fazendo parecer menos importante o que é ligado à mulher. Dessa forma, a agressividade vale mais que a suavidade, cultura e civilização valem mais que a Natureza e a razão é mais importante que o sentimento. O Yang é melhor que o Yin. Logos é melhor que Eros.
Pra grande parte dos homens, sentimento é sinônimo de fraqueza. Mesmo que sinta, o homem evita demonstrar pois sabe que isso pode comprometê-lo diante dos outros homens. Com os amigos, ele dificilmente se sente à vontade pra falar de seus relacionamentos sob a ótica do sentimento. Amigos dificilmente se perguntam sobre o que sentem, como anda a relação com a mulher, se estão felizes, inseguros… Imagina! Tá metendo?, então tá tudo ótimo!
Mas as coisas estão mudando. Até porque a evolução psicológica da espécie não prosseguirá se ela não conseguir equilibrar os princípios femininos e masculinos que compõem a psique – algo cada vez mais urgente. E essa evolução se dá à medida que cada um se torna um ser psicologicamente mais equilibrado, mais autoconsciente. No homem isso significa reconhecer valores Yin e integrá-los à consciência, e na mulher é o oposto.
Se a mulher já tá numa segunda fase de sua revolução feminista, repensando os exageros e entendendo que não tem de ser igual ao homem (aleluia!), o homem, coitado, ainda tá procurando o isqueiro pra queimar o sutian, quer dizer, a cueca. Aos poucos, porém, ele perde o medo de assumir os sentimentos e de mostrar que nem sempre é forte e infalível. Os que fazem isso costumam ser mal interpretados, até pelos próprios amigos, mas é assim mesmo, sempre haverá os soldados da linha de frente, aqueles que recebem as primeiras balas.
E as mulheres? Elas também têm ainda o que aprender. Se o homem precisa urgentemente reconhecer o valor dos sentimentos e aprender a cuidar mais das relações, a Homa sapiens necessita, por exemplo, entender que não se pode por mais peso numa relação do que ela suporta carregar. É bom se atirar nos braços do homem amado, sim, claaaaro. É maravilhoso se jogaaaar de braços abertos e ser amparada pela própria relação, sim, é maravilhoso, é lindo, é tudoooo!!! Mas cuidado, fia. Senão ele perde o equilíbrio e a relação desaba com esse peso todo.
afugentando o homem
Vai mais devagar, menina. Não é você quem sempre faz questão das preliminares no sexo? Por quê? Porque seu ritmo é outro. A rapidez e a ansiedade sexual masculina já fizeram você se sentir quase que estuprada? Já? Poizentão. É assim que ele às vezes se sente na relação, sabia?
Velha tendência feminina, essa ansiedade louca pelo amor, essa mania de fazer a relação ocupar todo o espaço na vida de ambos… Isso costuma sufocar o homem, que tende a valorizar a individualidade mais que a mulher. Quer afugentar um homem que tá começando a gostar de você, fia? Então não perca uma chance de pressionar o infeliz em relação a seus sentimentos. Sufoque o desgraçado todo dia com o doce travesseirinho da relação. É tiro e queda.
- O que você tem, Maria Adélia?
- Tô chateada com você, Lindomar.
- Por quê?
- Você esqueceu que dia é hoje.
- Eu? Calma, deixa ver… Tem um calendário aí?
- Tá vendo? Você não se importa nem um pouco com a gente. Pra você tanto faz. Mas aposto como você sabe direitinho o dia em que o Fortaleza vai jogar a semifinal, ah, isso tenho certeza que você não esquece.
- Peraí, Maria Adélia, peraí… Hoje é… hoje… Ah, desisto. Que dia é hoje?
- Hoje, Lindomar, exatamente hoje, faz quatro dias que a gente se conheceu.
Era uma ilha que vivia no meio do oceano. Levava uma vida tranquila, sem grandes questionamentos. Conhecia outras ilhas e com elas se comunicava. Um dia, porém, uma idéia inquietou a ilha: se toda vez que a maré baixava, uma porção de terra se descobria, então até que ponto haveria terra? Até que ponto a ilha existia?
Isso lhe tirou o sono por várias noites. De repente seu conceito sobre si mesma começou a mudar. Sempre se considerara uma porção de terra boiando à superfície da água, isso era ponto pacífico, todas as outras ilhas também pensavam assim. Mas agora já não podia acreditar nisso. Uma ilha não terminava logo abaixo da linha das ondas. Não. Continuava para baixo. Talvez uma ilha na verdade fosse uma… montanha! Sim, uma montanha com o pico fora dágua.
Saber que ela “continuava” além daquilo que sempre julgou ser era algo espantoso de se pensar. Assim, dia após dia, a ilha prosseguiu em seus esforços de auto-investigação precisava saber até onde existia. Mas à medida que sua atenção mergulhava em si mesma, as águas ficavam mais escuras. Era preciso cada vez mais concentração para não se perder. Ela prosseguiu, mais atenta, e descobriu que aquilo que existia abaixo da superfície continuava sendo ela mesma, sim, mas parecia ter algo como uma vida própria.
Cada vez mais surpresa, a ilha constatou que aquela parte mais profunda de si mesma levava uma existência semi-independente, porém interagindo sempre com a superfície: influenciando e sendo influenciada por ela. A ilha então soube a razão porque se comportava dessa ou daquela maneira e muitas coisas ficaram mais claras a respeito de si mesma, de seus relacionamentos com outras ilhas e da vida de modo geral. E a cada descoberta que fazia, outras mais se anunciavam e de repente era como se o Universo se expandisse para dentro dela mesma!
Muito tempo se passou até que se convencesse, verdadeiramente, de que era mesmo uma montanha com o pico emerso. Ela estava presa a uma base e essa base era uma enorme extensão de terra que funcionava como chão. Vinham de lá todas as ilhas. E para lá voltariam todas quando os movimentos da terra, dos ventos e das águas as forçassem a isso. Mas a grande maioria das ilhas não sabia que todas elas continuavam para baixo. Por isso não entendiam as reais motivações de muito do que faziam. A parte acima da superfície era tudo que sabiam sobre si mesmas e isso era pouco. A parte submersa, a montanha, era a parte inconsciente de cada ilha, aquilo que desconheciam de si mesmas. E o fundo do mar era o inconsciente maior, único, de todas elas, o lugar de onde vinham.
Ao entender esse fato a ilha lembrou do tempo em que sua consciência de si própria se limitava àquela minúscula porção de terra à superfície. Todas as ilhas vêm do mesmo lugar ela repetiu, intrigada com suas descobertas porque são feitas da mesma terra… A areia e os nutrientes que as raízes de suas plantas colhem, vem tudo do mesmo chão… Todas as ilhas que existem são no fundo uma coisa só, que se experimenta em várias extensões de si própria e cada extensão possui consciência de si mas esta consciência é limitada pois quase nunca desce em direção ao fundo, acomodando-se na parte mais superficial… Se cada ilha se aprofundasse em sua noção de si própria, acabaria se conhecendo melhor e, por virem todas do mesmo lugar, conheceria melhor a todas as outras ilhas.
A ilha viu que eram idéias grandes demais, confundiam a mente. Aquela autoinvestigação era importante mas requeria muita atenção para não se perder durante o processo. Só assim poderia transitar com êxito entre as duas camadas de realidade, a que ficava à superfície e aquela mais escura e misteriosa que prosseguia rumo a seu próprio interior.
Enquanto tudo isso acontecia, as outras ilhas observavam seu comportamento e não entendiam bem o que ela tentava lhes dizer. A ilha sentiu-se só. Viu-se então pensando do ponto de vista da terra: se elas não se conhecem e elas todas são parte de mim, então eu ainda não me conheço tão bem… Assim sendo, como poderia condená-las? Não, não poderia. Deveria entender e aceitar o ritmo natural da vida de cada uma das ilhas. Deveria agir com a mãe sábia e bondosa que incentiva todos os seus filhos mas tem de respeitar o caminho individual de cada um deles…
Foi então que, subitamente, a ilha percebeu, num intenso clarão de compreensão, que toda aquela vasta extensão de terra lá embaixo funcionava como um útero a expulsar pedaços de si mesma, forçando-os à superfície. Uma vez lá, eles se entendiam ilhas e começavam então sua aventura individual em busca de saber quem de fato eram, de onde vieram e por que existiam. Mas por que a terra fazia isso? Talvez para ela própria aprender com a experiência individual de cada ilha. Ao morrer, uma ilha levava à terra sua própria experiência que serviria para formar as futuras ilhas. Assim, toda ilha continha em si, sem se dar conta, a mesmíssima areia das que a antecederam. Através da vida de cada uma das ilhas, a terra como um todo estava sempre aprendendo cada vez mais sobre si mesma…
Se isso era verdade, então cada ilha possuía uma enorme responsabilidade: conhecer-se a fundo, viver a vida da melhor forma possível e aprender o máximo que pudesse pois tudo o que vivesse formaria o material do qual seriam feitas as ilhas que a sucederiam.
A vida é mesmo uma tremenda aventura! pensou a ilha enquanto se divertia com os olhares estranhos que as outras lhe lançavam. Uma aventura de cada ilha. Mas também da terra inteira.
001 – Oi Ricardo, parabéns pela concepção da ilha. Nem Jung teria feito melhor! Abraços. Angela Schnoor, Rio de Janeiro-RJ – nov/2004
002 – Caro Ricardo , Fiquei sendo seu fã desde que em 1999 qdo assiti a uma palestra tua no auditório do colegio capital sobre o filme MATRIX. Na tua palestra fizeste uma analogia de espelhos dentro de uma bola de vidro a refletir a luz do sol com nós seres humanos e perguntaste: O que é necessário fazer para mudar o modo do globo de vidro refletir a luz do sol? Ao que respondeste… basta mudar um só espelho. Assim querias dizer que não precisamos mudar ninguém somente a nós mesmo. Cara vc não sabe o quanto já falei de vc para as pessoas a quem conto esta analogia. O fato é que ouvir aquelas tuas palavras me levou a uma pesquisa igual “A ILHA”. Continue sempre assim… em constante questionamento consigo mesmo pois acredite foi assim que passei a ser uma pessoa melhor. Luiz Ferreira de Sousa Junior, Fortaleza-CE – nov/2004
003 – Mais um que a Amandinha aqui se Identifica… A Ilha!!! Belíssimo!!! hehehee Bkjão bom carnaaaaaaa aeeeeee hehehe. Amanda Gallindo Borges, Florianópolis-SC – fev/2007
004 – Olá Xará, Há dias que quero te prestar um elogio. Encontrei em seu site um conto. A Ilha. Se eu pudesse limitar em uma única palavra o que dali absorvi, eu diria que INSPIRAÇÃO seria ela. Sua mensagem provoca o despertar. Oxalá o despertar coletivo. Mas, se assim não for, que seja o individual. Ilhas somos todos, alguns já sabem, outros ainda não. Gosto de pensar que já sei. Creio que cada um de nós tem um talento único, porém é muito difícil descobrir qual. Talvez o meu seja contemplar. Há tantas coisas belas por aqui nesta vida que muita gente não vê, ou se vê, não dá a atenção devida. Mas, quem sou eu para dizer quão atento alguém deve ser ?! Eu também procuro ser uma ilha que se diverte com esses pensamentos. Seu conto é uma coisa bela. Parabéns. Ricardo Rodriguez, São Bernardo do Campo-SP – fev/2007
005 – Li o primeiro texto do seu livro (“A Ilha”) e gostei da abordagem, da ilha como um ser pensante. Vou ler os outros com a calma que a leitura exige…rs De minha parte, tenho um blog (link no rodapé do e-mail) e um fotolog (http://cidadeembaixa.nafoto.net) ansiosos por comentários. Quando tiveres um tempinho, visite. Alessandro Pinesso, São Paulo-SP – ago2007
O filme Don Juan DeMarco é mesmo maravilhoso. Sua história é boa e divertida, o roteiro perfeito, os atores estão muito bem e a trilha sonora é linda. As mulheres suspiram com o romantismo da trama, a poesia das imagens, a vitória do amor. É um filme que traz bons temas para discussão, como o donjuanismo e a dificuldade da ciência médica de lidar com o que ela diagnostica como loucura. No entanto, em minha palestra Razão e Sentimento em Conflito, uso o filme para falar de outro tema: o conflito entre intelecto e coração.
Não é à toa que esta palestra é uma das mais solicitada por empresas. Cada vez mais elas percebem a urgente necessidade de terem funcionários psicologicamente equilibrados. O motivo é óbvio: pessoas harmonizadas consigo mesmas aprendem melhor, produzem melhor e vivem melhor. Investir na saúde de seus funcionários, física e psicológica, é um excelente investimento para qualquer empresa.
Em Don Juan DeMarco temos dois personagens em conflito: o psiquiatra renomado e o jovem problemático. O psiquiatra tem sua vida inteiramente regida pela lógica científica, ele é racional ao extremo, sempre frio em suas conclusões. O jovem é o oposto: sua vida é puro sentimento e emoção e ele só enxerga a vida pelas lentes da poesia, da aventura e do amor. Qual dos dois está certo?
Os dois estão errados. A prova disso são suas próprias vidas: o médico está cansado e desestimulado e seu casamento perdeu a paixão. E o jovem, frustrado por um amor não correspondido, desistiu de viver. Ambos perderam a vitalidade, o tesão pela vida. O motivo: eles esgotaram as possibilidades que razão e sentimento, sozinhas, têm para oferecer.
Razão e sentimento são funções psicológicas que auxiliam o ego a lidar com a realidade. Porém, quando o ego se apega demasiadamente a uma delas, ocorre o desequilíbrio psíquico e surgem os insucessos em vários aspectos da vida. A razão sempre busca entender a realidade pela ótica do intelecto, que é incapaz de abarcar toda a complexidade da vida. A razão não quer exatamente ser feliz: ela quer ter razão, sempre. Certamente você conhece alguém assim, que só admite a lógica racional para explicar a tudo. E o sentimento entende a realidade pela ótica da sensibilidade emotiva, o que também é insuficiente para lidar com a grandeza da vida. Muitas pessoas agem assim, achando que a pureza de seus sentimentos a tudo resolverá.
Em algum momento da vida o crescimento psíquico exigirá do ego o equilíbrio dessas funções. Se seguir a diretriz autocurativa de sua própria psique, a pessoa saberá conciliar razão e sentimento e sairá do conflito renovada. Passará a se relacionar com a vida usando as duas funções de modo equilibrado e consciente, sabendo reconhecer as ocasiões em que deve usar mais intelecto ou mais coração.
Tanto nos relacionamentos com a família, com amigos ou num casamento, como também no dia-a-dia profissional, esse equilíbrio psíquico é fundamental. Assim como o psiquiatra frio e o jovem romântico tiveram que entrar em intenso conflito antes de integrarem em si o que lhes faltava, às vezes é preciso chegarmos a um ponto crucial de desequilíbrio interno, que causa o desequilíbrio externo, e afundar na crise para, somente assim, reconhecer e integrar o que nos falta e sermos mais inteiros e harmonizados com nós mesmos, com os outros e com o mundo em volta.
Portanto, é bom ficar atento. Se a vida parece ter chegado a um ponto insustentável e viver de repente tornou-se uma sucessão de dias sem sentido, talvez esteja na hora de aceitar o outro lado que até agora negamos em nossa própria alma, mesmo que, a princípio, esse outro lado pareça limitado ou ingênuo. Ou louco demais.
O amor insano. O amor desafiador do tempo. O amor que descortina as mais absurdas possibilidades do ser.
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CAPÍTULO 3
1a parte .
Luca abriu um olho, depois outro e finalmente os dois juntos. Ainda estava escuro e fazia frio. Ajeitou-se sob a coberta, lembrando a noite anterior, Isadora e sua tal vida na Espanha, Catarina, o bruxo português…
Súbito escutou seu nome. A voz de Isadora. Levantou-se e, enrolado na coberta, puxou o zíper da barraca. Chovia fininho.
- Serviço de despertador, senhor. Meio-dia.
- Meio-dia! – ele se assustou. – Dormi demais…
- A gente vai embora amanhã. Que tal um passeio de despedida?
- Com essa chuva aí?
- Claro. Há quanto tempo você não brinca na chuva?
Ele esfregou os olhos, pensando na capacidade que ela tinha de dizer certas coisas como se fossem as mais simples e lógicas do mundo. Isadora sorria à sua frente, tão bela e natural que passear na chuva tornou-se de um segundo para outro a coisa mais lógica da vida.
Quinze minutos depois seguiam pela estradinha de areia em direção à praia. A chuva caía leve, formando poças e emprestando ao ar um frescor relaxante. Em pouco tempo estavam ensopados.
- Se eu chegar gripado na copiadora vai ser uma merda…
- Ai, Luca… Esqueça que pode ficar doente. Não vai ficar. Depois da curva tem uma bodeguinha. Lá você toma cachaça com limão.
- Peraí, eu não comi nada ainda…
Mas ela já saía correndo à sua frente. Luca apressou o passo, desajeitado, a água escorrendo pelo rosto. Isadora já havia sumido. Ele começou a correr e um chinelo atolou na poça de lama.
- Isadora, me espera!
Então de repente ele lembrou que um dia… muito tempo atrás… uma noite… E parou de correr, tomado pela inquietante sensação de já ter vivido aquele momento antes, em algum tempo longínquo, quando? Isadora sumindo na chuva, sumindo, os pingos nos olhos, um trovão ecoando, ele ali parado, ofegante, ela sumindo, ele gritando seu nome… Onde vivera aquela mesma cena, e quando, em que impossível tempo?
Continuou ali, parado sob a chuva, absorvido pela sensação de já ter vivido tudo aquilo. Mas foi por pouco tempo pois logo dominou-o um angustiante pressentimento de que se não corresse, aquela mulher sumiria de sua vida mais uma vez.
Mais uma vez?
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(continua)
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TRILHA SONORA
Este romance possui uma trilha sonora própria, com músicas compostas por RK e parceiros. Adquirindo o livro (impresso ou eletrônico), você recebe as músicas em mp3 por e-mail.
Vídeo-clipe com a música Blues de Luz Neon,
da trilha sonora do romance
O Irresistível Charme da Insanidade
O amor insano. O amor desafiador do tempo. O amor que descortina as mais absurdas possibilidades do ser.
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CAPÍTULO 2
2a parte .
- O que ela tá fazendo?
Uma lua minguante e milhões de estrelas salpicavam o céu de Tibau do Sul. A pequena fogueira à frente da barraca mantinha afastado o frio da noite. Havia vinho e comida. Deitado sobre a toalha, Guilherme olhava as estrelas. Ao seu lado Marcela folheava um livro e mexia com varetas.
- Consultando o I Ching.
- Já ouvi falar. Serve pra que mesmo?
- É um oráculo – Guilherme respondeu. – Serve pra você obter respostas sobre você mesmo e os acontecimentos. Tirar uma foto da situação em movimento.
- Como assim?
- Como tudo se transforma a todo momento, a foto mostra uma tendência, uma situação mudando pra outra. Por isso é chamado de livro das mutações.
- Muito místico pro meu gosto…
- Mas funciona. De certa forma é só um truque pra se investigar psicologicamente. Você se concentra na questão e mexe as varetas, ou as moedas, anotando os resultados. Dá pra fazer sem nada disso mas ai tem que estar muito conectado com o mundo. Um dia eu ainda consigo.
- E pra quem não acredita? Como eu?
- Sempre funciona. Mas talvez você não veja sentido na resposta.
Luca levantou e serviu vinho para Isadora. Depois despejou em sua caneca e sentou ao lado dela.
- Vai me dizer de onde me conhece ou preciso consultar o I Ching?
- Também não me respondeu se crê ou não em reencarnação.
- Faz diferença se eu disser sim ou não?
- Bem… Acho que não.
- Pois bem, não acredito.
- Por quê?
- Ah, porque só se morre uma vez na vida. E esse negócio de ter que pagar o carma… Você acredita?
- Claro que sim.
- Já lembrou de alguma vida passada?
- Hum, hum.
- Sério? E pode contar?
Ela perguntou se ele queria mesmo saber. Ele disse que sim. Isadora e Marcela trocaram um rápido olhar. Por um segundo ele viu nos olhos de Isadora o reflexo inquieto das labaredas e foi como se elas o prendessem. Ele sentiu-se escorregar lentamente para um outro estado de ser, as chamas nos olhos de Isadora, vermelho e amarelo e laranja e azul…
Luca sacudiu a cabeça, sentindo um princípio de vertigem.
- Dois anos atrás comecei a ter uns sonhos… – ela prosseguiu, sem perceber sua ligeira perturbação. – Era sempre o mesmo lugar, um povoado pequeno… Parecia final da Idade Média. No sonho tinha uma criança brincando mas eu nunca via os olhos dela. Esse sonho se repetiu durante meses. Fiz hipnose com uma terapeuta e aí as imagens vieram mais fortes. Eu pude ver os olhos da menina e… bem, eu me vi naqueles olhos, foi isso. E percebi que aquela criança era eu.
- Que século?
- Dezesseis. Sei disso porque depois fui pesquisar. A gente aprofundou a terapia e mais imagens vieram. Sensações também, muito fortes. Vi vários fatos da vida dessa menina passarem diante de mim, como num filme. Não só vi – eu vivi, não sei se dá pra entender. Não lembrei tudo mas lembrei muita coisa dessa vida. Reencarnação sempre fez sentido pra mim mas lembrar, lembrar mesmo de uma vida é diferente.
- E aí, o que aconteceu?
- Catarina, o nome dela. Espanhola do sul. Era uma adolescente pobre quando se casou com um alemão. Ele a levou pra viver na Alemanha. Ele era um homem rico e ela aprendeu a ser uma dama. Ela tinha tudo pra levar uma vida tranquila e confortável mas um dia conheceu um missionário português e se apaixonou perdidamente… Enrique. Era jesuíta. Lembro bem da expressão, os olhos negros, profundos, o olhar duro. Enrique conhecia pessoas importantes, viajava pra muitos países, sabia outras línguas. E era meio bruxo.
- Como assim?
- Pertencia a uma ordem secreta, essas coisas. Usava os sonhos pra saber o que acontecia na Corte, as tramas políticas da Igreja, entrava no sonho dos outros…
- No sonho dos outros?
- Sim. Ele visitava Catarina nos sonhos, planejavam os encontros. Ela teve um filho de Enrique mas achou mais prudente não revelar a ninguém e deixou o marido achar que era dele. Um dia o marido descobriu que não era e aí ela fugiu com Enrique, teve de deixar o filho pra trás. Mas algo deu errado na fuga e Enrique desapareceu.
- O que houve com ele?
- Não lembrei disso. Porque na verdade Catarina nunca soube. Mas é uma curiosidade que eu tenho. É bem provável que tenha sido preso ou algo assim. Catarina procurou pela península toda, durante anos, de cidade em cidade. Mas todas as pistas eram falsas. Nem nos sonhos ele aparecia mais. Até que um dia…
- O bruxo apareceu.
- Não.
- O marido apareceu.
- O filho. Anos depois, já crescido. Encontrou a mãe num convento, doente, meio fraca do juízo. Aqueles anos todos na estrada, procurando…
- Ela ficou doida?
Isadora fez uma pausa. Segurou a caneca de vinho quente com as duas mãos e por alguns segundos olhou para o céu.
- Ela voltou com o filho pra Munique. O marido já tinha morrido e o filho cuidou dela. Ele sabia quem era seu pai verdadeiro e por um tempo também tentou localizar Enrique. Mas nada conseguiu. Ela morreu assim, esperando notícias.
Durante algum tempo ninguém falou nada. Foi Luca quem quebrou o silêncio:
- Você lembrou de tudo isso?
- É mais que lembrar. Eu vivi de novo.
- Você acredita mesmo que foi essa Catarina?
- Hum, hum.
Isadora olhou para a fogueira. Apanhou algumas pedrinhas e atirou contra as chamas. Depois, sem desviar o olhar do fogo, perguntou:
- E você? Essa história não lhe diz nada?
- É interessante. Dava um bom filme.
- E o bruxo português?
- O que é que tem ele?
Isadora olhou para Marcela com o canto do olho.
- Ainda não entendi a pergunta, Isadora.
Ela continuou jogando pedrinhas na fogueira.
- Peraí. Não vá me dizer… Você acha que eu fui… esse Enrique?
Isadora olhou para ele, séria.
- Mas por quê?
- Percebi quando você apareceu no meu sonho.
- Eu disse isso no sonho?
- Não. Mas quando acordei, entendi tudo. Você tá diferente, claro… Mas eu sei que você é ele. Eu sei.
Luca riu constrangido. Olhou para a fogueira à sua frente, as fagulhas subindo e sumindo no ar. Levantou e foi buscar mais vinho.
- Aposto que você tá achando que isso é uma cantada, né, Luca?
- Se for, já ganhou o troféu criatividade. Mais vinho?
- Homem, tenha mais respeito por alguém que esperou quatrocentos anos por esse momento! – brincou Guilherme.
- Não liga, Luca – interrompeu Isadora. – Ele adora tirar sarro dessa história.
- Você não acredita, Guilherme?
- Não. Mas é divertido. Tenho uma prima que jura que já foi Cleópatra. Lembra até das posições prediletas do Marco Antonio…
Todos riram. Luca serviu-se de bolachas e voltou ao seu lugar.
- Mas respeito muito Isadora – prosseguiu Guilherme. – Ela é uma taoísta exemplar.
- Taoísta? Que diabo é isso?
- Taoísmo é a filosofia que tem por trás do I Ching. – respondeu Isadora, servindo mais vinho.
- Ah, tá. E você, Marcela, o que acha desse negócio de vidas passadas?
- O que eu acho é que você não devia zombar do que Isadora lhe contou.
- Isso tá parecendo a Inquisição… Eu não tô zombando. O problema é que Isadora pensa que eu fui alguém e eu não fui esse alguém. O que posso fazer?
- Isadora, você aceita Luca como seu legítimo ex-amante? – brincou Guilherme, fazendo novamente todos rirem.
- Um brinde a quem você é hoje, ok, Luca? – Isadora propôs.
Este romance possui uma trilha sonora própria, com músicas compostas por RK e parceiros. Adquirindo o livro (impresso ou eletrônico), você recebe as músicas em mp3 por e-mail.
Vídeo-clipe com a música Blues de Luz Neon,
da trilha sonora do romance
O Irresistível Charme da Insanidade
O amor insano. O amor desafiador do tempo. O amor que descortina as mais absurdas possibilidades do ser.
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CAPÍTULO 2
1a parte .
Luca levantou ao amanhecer. Preparou o café e pegou a trilha, dessa vez para o outro lado, rumo à praia. Veio-lhe a imagem de Isadora. Paraense maluca…, ele pensou, ela e suas idéias de levar a vida sem planos. Mas era divertida. Por ela valia a pena ficar ali em Tibau do Sul. E era boa de copo, acompanhou-o na cerveja a tarde inteira. Ele ainda sugeriu continuarem em sua barraca mas ela recusou, no outro dia iriam a Natal, mas poderiam se reencontrar à noite.
Ainda era cedo quando ele chegou à encosta e sentou-se para admirar o encontro do rio com o mar. Andava mesmo precisando disso. A vida nos últimos anos se resumira a um contínuo e angustiante esforço de se estabilizar e economizar dinheiro. Quando tinha vinte anos imaginava que antes dos trinta estaria numa situação tranquila, sem afobações financeiras. Mas o futuro não lhe reservara nada disso. Entrava ano e saía ano e tudo continuava difícil, empacado.
O emprego de gerente de copiadora lhe garantia o aluguel da quitinete, onde morava sozinho. Quatro ou cinco shows por mês ajudavam a manter a duras penas o velho fusca, as contas e pronto, era só. As despesas eram medidas e contadas e recontadas nos mínimos detalhes, um sufoco permanente, o plano de comprar um computador e finalmente entrar para o mundo da internet sempre adiado para o mês seguinte. A mãe, dona Glória, viúva aposentada, já desistira de aconselhá-lo a tentar concurso público.
A vida bem podia ser mais interessante – ele sempre considerava. Devia haver mais tempo para realizar velhos projetos, ler mais, tocar, viajar, conhecer outros lugares… Em vez disso, resumia-se a uma luta sem fim, sol a sol, correndo atrás de sonhos que insistiam em sumir de vista na curva adiante. Olhando para trás, a sensação era de que, apesar de todos os esforços dos últimos dez anos, continuava andando em círculos, avançando mas sem realmente avançar, caminhando sem sair do lugar, girando sobre o mesmo ponto, sempre. Valia a pena?
Sísifo. Vivia o mito de Sísifo em sua própria vida. Empurrar penosamente uma enorme pedra montanha acima só para, no fim, vê-la escapar e descer até embaixo e ter de começar tudo de novo para depois acontecer a mesma coisa e começar novamente, eternamente, estar sempre começando… Valia a pena?
Mas havia a banda. Ela sim era um oásis de alegria no meio de todo aquele cinza. A Bluz Neon lhe proporcionava bons momentos e os shows eram sempre divertidos. Festa é o que nos resta – o lema da banda. A noite, com seus bares, uísques e mulheres, a noite e sua trilha rock´n´roll… Ela lhe permitia esquecer o que sempre o aguardava no outro dia.
Uma gaivota rasante de repente o trouxe de volta à praia. Que diabos! Até ali aquelas preocupações o perseguiam? Gaivotas… Então lembrou do sonho. Sonhou que flutuava no céu. Voava feito uma gaivota, o corpo tão leve… Sentia o vento passar entre seus cabelos, entre seus dedos e mexia o corpo em movimentos imperceptíveis, o suficiente para se ajustar ao vento e manter a rota. Lá embaixo havia um negro abismo mas ele sabia que estava seguro, que tudo que precisava era se ajustar ao vento…
Ficou ali se deliciando com as sensações do sonho até ser despertado pelos garotos que, mais para a esquerda, pegavam onda. Ficou olhando, encantado com a habilidade deles, os corpos feito pranchas, deslizando firmes na água. Desceu a encosta, disposto a se divertir. Quando chegou percebeu que as ondas eram maiores que imaginava. Mas não resistiu e entrou.
Já na água, um dos garotos o preveniu sobre o perigo, as ondas eram fortes, havia uma depressão naquele lugar, tomasse cuidado. Ele agradeceu. Na primeira onda que se ergueu à sua frente, faltou coragem e mergulhou para escapar, quase sendo arrastado pelo repuxo. Desistiu também na segunda. Na terceira também. Começou a se achar ridículo.
Quando a onda seguinte veio, ele não desistiu e deixou-se erguer. A onda, porém, de repente o largou e ele viu-se solto no ar, caindo, e a onda toda por cima dele. Perdeu o controle do próprio corpo e passou a girar para todo lado dentro dágua. Em certo momento bateu a cabeça na areia e com isso foi-se o ar que ainda lhe restava. Ainda girando e totalmente zonzo, tentou se localizar mas sequer sabia para que lado estava o céu.
O desespero alcançou o ápice quando começou a respirar água e a tossir e engolir mais água. A força da onda brincava com seu corpo e ele nada podia fazer. Zonzo e esgotado, já não acreditava que pudesse se salvar e por alguns instantes deixou-se arrastar pela correnteza. Nesse instante entendeu que podia tentar o último esforço… ou deixar-se levar de vez, sem dor.
Foi quando, de repente, tudo ficou calmo e silencioso. Já não se debatia. Parecia não estar mais na água. Nesse momento surgiu a mulher de vestido branco. Não podia ver seu rosto mas sabia que ela olhava compreensiva para ele e estendia a mão delicada em sua direção. Soube instantaneamente que a conhecia de muito tempo atrás, tanto tempo que seria inútil tentar lembrar. Sua presença o acalmou e era como se ela o abraçasse carinhosamente, sem tocá-lo. Ele precisava apenas segurar sua mão e todo sofrimento se dissiparia como um sonho do qual se desperta. Apenas segurar sua mão, só isso…
Então sentiu agarrarem seus cabelos e o puxarem à superfície. Por um segundo pensou em pedir para ficar ali mas não teve forças. Uma vez na areia, vomitou e aos poucos recuperou as forças. Ainda estava tonto. Os garotos explicaram que aquelas ondas já mataram muita gente. Ele agradeceu e continuou sentado enquanto eles voltavam para o mar e continuavam desafiando as ondas com naturalidade. Qual seria o segredo para se controlar tamanha força?
Quando chegou ao camping foi que se deu conta de que quase morrera. Por um triz. Sentou-se, assustado, envolvido pelas imagens e sensações. Por um rápido instante teve em suas mãos a decisão do que aconteceria. Poderia tentar o derradeiro esforço para se salvar ou poderia aceitar a morte…
Não teve tempo de decidir pois logo lhe puxaram pelos cabelos. Mas e se realmente tivesse tido chance de optar? Prosseguiria lutando, se debatendo e sofrendo até o último instante ou se deixaria levar, tranquilamente, para longe da dor, junto… à mulher de branco?
A lembrança da mulher o fez estremecer. Então levantou, buscando afastar o incômodo. Não gostava daquelas coisas, a morte, o além, espíritos… O sobrenatural era sempre pavoroso.
Armou a espreguiçadeira e pegou o violão. Um pouco de música para afugentar o mal-estar.
O amor insano. O amor desafiador do tempo. O amor que descortina as mais absurdas possibilidades do ser.
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CAPÍTULO 1
5a parte . - Não leve a mal mas como você consegue ser tão… otimista?
- As coisas sempre dão certo se a gente tá no caminho certo.
- E como eu sei que tô no caminho certo? Pelas placas indicativas?
- O caminho certo tem sempre uma plaquinha com um coração.
Caminho com um coração. Ele riu. O que era aquilo? Uma aula do jardim da infância?
- Mas você há de convir que o normal é ter sempre alguma garantia na vida, um trabalho, planos…
- Concordo com a garantia mas não com os planos.
- Mas você tem de planejar alguma coisa. Essa é a garantia. Se não planejar, as coisas saem do controle.
Ela riu alto, como se ele houvesse contado uma boa piada.
- Se não há tentativa de controle, Luca, como as coisas vão sair do controle?
Lógica perfeita…, ele suspirou, admitindo. Mas absurda.
- Você prefere que as coisas estejam sempre fora de seu controle?
- Sabe o que eu acho? Que o controle sobre as coisas começa no exato momento em que a gente abdica dele.
Ele pensou um pouco mas aquilo parecia tolo demais para ser levado a sério.
- Desculpe, Isadora, mas eu sinceramente acho que você não tá falando sério. Ninguém pode pensar assim. Mais cerveja?
- A vida me dá tudo o que preciso, Luca. Por isso não faço planos. Vivo um dia a cada vez. Se eu fizer o certo hoje, o amanhã já vai começar certo também.
- Qual a sua religião?
- Viver a vida. Conhece?
- A mesma minha. Também vou levando a vida.
- Não. Eu não levo a vida. Eu deixo que ela me leve. É diferente.
- Pra mim é a mesma coisa.
- Levar a vida é cansativo. Prefiro fazer minha parte e relaxar.
- Aí a vida se resolve sozinha?
- Ela se resolve da melhor maneira possível.
Levar a vida sem planejar nada…, ele repetiu em seu pensamento. Aquilo lhe soava inteiramente absurdo, um desatino. Como tantas coisas podiam se ajeitar por si próprias, o trabalho, a banda?… E o aluguel do apartamento, quem pagaria? E as contas? E o carro? E as relações pessoais, os casos amorosos? Como tudo isso se ajeitaria por si só? Definitivamente não era possível. A vida era uma grande boiada e era preciso domá-la o tempo todo, conduzindo-a pelos caminhos certos. Talvez a vida de Isadora fosse mais simples, mais fácil de gerenciar… Mas não, não. Aquilo era uma ilusão, um romantismo. Podia-se levar a vida com bom humor, tudo bem. Mas deixar correr solta, sem planejamento? No entanto ela parecia acreditar firmemente em cada palavra que dizia. Tinha de admitir que, vindo dela, aquela loucura toda até que possuía um certo charme. Mas mesmo os loucos são convincentes.
Luca tomou mais um gole. Talvez fosse melhor fazer o que ela dizia: relaxar.
- E essa cicatriz aí? Posso pegar?
- Lembrancinha de um passeio de jangada. Fizemos um blues pra ela. Quer ouvir?
Ela riu, disse que sim e ele cantarolou:
Não quero a dor de mais um bis
Depois só resta a cicatriz
Então não me peça, babe…
Não me peça pra te amar…
- Você se feriu no amor e ficou com medo de amar de novo.
- Normal, né?
- Ferida cicatriza, Luca.
- Mas algumas ardem forte até o fim…
Ela quis saber sobre a banda e ele contou dos outros componentes, os shows que faziam, os planos de gravar um CD, tocar em outras cidades. Isadora contou das praias que conheceu naquelas semanas, o quanto se sentia em casa em todos os lugares, o quanto se sentia mais perto de si mesma assim solta pelo mundo.
- Luca, você acredita em vidas passadas?
- Por quê?
- Acredita ou não?
Ele pensou rápido. Não acreditava, claro, impossível acreditar em bobagens daquelas. Mas e se o sucesso da noite dependesse de uma boa resposta?
- Depende.
- Como depende?
- Depende do dia.
- Sei… E como tá o dia hoje?
Ele olhou para o céu, coçou a cicatriz. Tomou um gole.
- Hoje eu acho que acredito em tudo.
- Humm… Isso é ótimo. Então olhe pra trás.
Ele se virou e viu um casal entrando no restaurante.
- Marcela e Guilherme, meus amigos de Belém. Pode acreditar.
Os três se apresentaram.
- Prazer. Luca.
- É Luca ou Lucas? – quis saber Marcela.
- Sem o S. Você também estava no sonho?
- Não. – Marcela riu. – Mas eu sabia que vocês iriam se encontrar.
- Vocês têm de convir que essa história é meio…
- Meio, não, totalmente louca – interrompeu Marcela, rindo com Isadora. – Mas acho tão romântico!
- Ei, Luca. Você disse que hoje é um dia para acreditar em tudo – lembrou Isadora.
O amor insano. O amor desafiador do tempo. O amor que descortina as mais absurdas possibilidades do ser.
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CAPÍTULO 1
4a parte .
- Não vai dizer de onde me conhece? – Luca empurrou o prato para o meio da mesa, satisfeito. – Por favor, outra cerveja.
- Memória fraca…
- Mas que mistério!
- Como é mesmo o nome da banda?
- Bluz Neon.
- Bluz Neon… – ela pronunciou, experimentando as palavras. – Bom de falar. Bluz Neon…
- Esse nome me veio num sonho. Mais cerveja?
- Num sonho? Hummm… – Ela abriu um sorriso e se ajeitou na cadeira. – Começamos a nos entender.
Novamente aquele brilho perturbador dos olhos dela. Luca desviou o olhar, incomodado. Mulher estranha, ele pensou, cheia de reticências, umas insinuações que não entendia bem… Talvez não batesse bem da cabeça. Mas era uma gracinha, isso era.
- Fiquei intrigado… Por que achou que meu nome era Lucas?
- Você mesmo me disse.
- Eu disse? Quando?
- No sonho.
- Sonho?!
- Já vi que também não lembra.
- Peraí, calma. Que sonho?
Ela pareceu decepcionada.
- Seis meses atrás você me surgiu num sonho. Me disse seu nome e pediu que eu viesse encontrá-lo nessa praia. Lembrei tudo quando acordei, menos o nome da praia. Mas sabia que era por aqui. E que havia um rio.
- Você tá brincando…
- Foi um sonho bem nítido. Você disse que eu precisava vir pra salvá-lo, que a tempestade estava chegando…
- Tempestade?!
- Foi o que você disse.
- Juro que não sei de nenhuma tempestade.
- Você estava com uma camiseta listrada, azul e branco. Tem uma camiseta assim?
- Tenho mas…
- Você fica lindo nela.
Ele não soube o que pensar. Com certeza ela estava brincando. Ou então era doida mesmo.
- Estamos viajando pelo litoral faz dois meses. Pernambuco, Paraíba e Rio Grande do Norte. Quando botei o olho em Tibau do Sul, senti que seria aqui que eu encontraria você.
- Por quê?
- Era o rio do meu sonho.
Ele sorriu, tentando disfarçar o incômodo.
- Agora vamos pro Ceará. Quer se juntar a nós?
- Ahn… Tenho que voltar no domingo.
Que maluca! – ele estava impressionado. Como podia fazer tal convite a alguém que acabava de conhecer? E aquela história do sonho… Pediu mais uma cerveja.
- Não deve ser uma viagem barata.
- Eu tinha umas economias.
- E quando volta pra Belém?
- Não sei. Acho que o vento não quer isso agora.
O vento… Ele sorriu. Ela falava como navegadora.
- Você é sempre despreocupada assim?
- E por que eu me preocuparia, Luca?
- E quando a grana acabar?
- Ué? Sempre aparece algo pra fazer.
- E se não aparecer?
- Sinal de que não tô no caminho certo, ora. Aí é só mudar de rumo.
Ele balançou a cabeça. Como podia ser tão despreocupada? Ou era desajuizada mesmo? Aquele brilho estranho no olhar bem podia esconder uma loucura…
O amor insano. O amor desafiador do tempo. O amor que descortina as mais absurdas possibilidades do ser.
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CAPÍTULO 1
3a parte
No dia seguinte Luca levantou com a primeira claridade. Fazia um pouco de frio. Ferveu água, tomou café com biscoito, comeu uma tangerina. Botou boné, óculos escuro e saiu pela trilha da encosta, subindo pela margem do rio na direção da rodovia, respirando o cheiro do mato verdinho e curtindo a trilha sonora dos pássaros. E, é claro, queimando umas gordurinhas.
Retornou perto do meio-dia, as pernas já implorando descanso. Desceu a encosta, tomou banho no rio e depois voltou à barraca para trocar de roupa. Era uma manhã ensolarada, bela e radiante. Como todas as manhãs bem que podiam ser, pensou ele enquanto pendurava a toalha num galho.
- Oi!
Ele se virou rápido.
- Desculpa, não quis assustar.
Uma garota. Sozinha.
- Eu sou a Isadora.
- Oi…
- Não diga! Não diga!
- Como?
- Não diga seu nome. Deixa adivinhar. Posso?
- Tá bom. – Ele sorriu por trás do óculos escuro. Ela era uma morena bonita. Sorridente. E queria adivinhar seu nome, que meigo.
- Você se chama… Tchan, tchan, tchan, tchan! Lucas!
Ele ficou surpreso.
- Nossa… Errou por um S.
- Como assim?
- Não é Lucas, é Luca.
- Ah, é Luca? – Ela parecia desapontada. – Tem certeza?
- Claro que eu tenho certeza do meu nome. Mas… você já me conhece?
- Tenho a impressão que sim… – Ela sorriu, insinuante. – Você também não tem?
- Impressão? Ahn… sim. Quer dizer… – Ele coçou a cicatriz, desconcertado. Conheciam-se mesmo? Mas de onde?
- Não lembra? Ah, faz um esforço…
- Captei! Algum show da Bluz Neon.
- O que é isso?
- Minha banda.
- Acho que não é daí.
- Então de onde?
- Você por acaso nunca esteve na Espanha?
- Espanha?! Que eu saiba não.
- Olha que sim…
Ele estava intrigado. Ela o confundia com outro, devia ser isso.
- Estava indo pra algum lugar?
- Vou comer. Tá sozinha?
- Com uns amigos. Foram pra Pipa mas voltam hoje. A gente tá naquela barraca azul.
- Quer almoçar comigo?
- É o que eu ia sugerir. Lucas sem S.
Luca sorriu em pensamento, felicitando-se. Segundo dia e um almoço com uma morena daquele naipe… Ela tinha os cabelos negros, lisos, caindo nos ombros, os olhos também negros, meio puxadinhos, lembrava um pouco uma índia amazônica. E tinham um brilho estranho os olhos dela… Ele desviou o olhar.
- Este rio me lembra Belém.
- Você é paraense? – Ele perguntou e ela fez que sim com a cabeça. – Um pouco longe de casa, não?
- Minha casa é isso aqui! – Ela abriu os braços e girou o corpo num quase passo de dança.
Ele riu do jeito dela. Reparou no short jeans e na camiseta branca. Era um pouco mais baixa, talvez a mesma idade. E continuava agindo como se o conhecesse.
- Por que não tira esse óculos só um pouquinho?
Impossível desobedecer àquele sorriso.
- Castanhos? – ela observava seus olhos, confusa. – Pensei que continuassem negros.
O amor insano. O amor desafiador do tempo. O amor que descortina as mais absurdas possibilidades do ser.
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CAPÍTULO 1
2a parte
Olhou o violão encostado na entrada da barraca. A música… Sua grande paixão. No início tocava apenas para os amigos e namoradas seu repertório de rock e mpb. Tímido, demorou a mostrar as próprias músicas que compunha na solidão do apartamento, entre doses generosas e viajantes espirais de fumaça.
Uma noite conheceu Junior Rível, o bluseiro, e ele o convidou a cantar na banda que estava montando, ainda não tinha nome, seria uma banda de blues. Blues?, pensou Luca. Bem, não era exatamente sua praia…
- A gente faz junto as músicas, vai ser moleza.
- Não sei compor blues, Junior.
- Sem bronca. Você faz as letras e eu musico.
É, podia ser divertido…
- Pensa bem, cidadão: shows, uísque, mulheres!
Argumento irresistível.
- Topado – respondeu Luca, apertando a mão do novo amigo. – Festa é o que nos resta.
Nascia assim a amizade entre Luca e Junior Rível e nascia também a Bluz Neon. Blues e rock na noite de Fortaleza. E muita, muita irreverência. Os cachês eram baixos, muitas vezes se apresentavam de graça, mas o prazer de tocar compensava tudo. Quem sabe um dia fariam sucesso, seriam reconhecidos…
A banda era o passaporte perfeito para fugir da realidade cinza e opressiva. O rock era ideal para gritar, protestar, botar tudo para fora. E o blues traduzia em música aquela tal melancolia, aquele sentir-se distante, a solidão da alma…
- Sabe quando você tá há muito tempo longe de casa, a sensação de que já tá na hora de voltar?
- Sei não, cidadão. Mas isso dá um blues… De volta pra casa…
Escritor, roteirista, compositor, produtor cultural. Coordena o projeto Letra de Bar. Está em cartaz em São Paulo com o espetáculo Viniciarte - Vida, música e poesia de Vinicius de Moraes. Faz palestras, mora em SP-SP e é não-fumante crônico.
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