Viver como Vinicius viveu

Novembro 14, 2009

RKViniciusDeMoraes-02Vinicius voltou pra mim, ô maravilha. Na verdade, o poetinha nunca se foi – eu é que, no corre-corre da vidaloca, acabei esquecendo o quão ele sempre foi importante em minha vida. Curioso, isso, como a gente consegue se afastar dos nossos valores mais essenciais. Um dia, plim!, a ficha cai e a gente se assusta por ter vivido tanto tempo sem viver as nossas mais belas verdades, aquelas que enchem do melhor sentido os nossos dias.

Invoco agora as lembranças pra tentar entender isso. Lá vai eu, menino bobo de dez anos, dar de presente pra professora uns versinhos que meu pai me ajudava a fazer. Depois o adolescente a descobrir a força das erupções: da poesia e das espinhas no rosto. E nos poemas, sempre ela, a Mulher, primeiro nas rimas ingênuas das paixonites não correspondidas e, depois, nos versos livres dos amores juvenis pelas mesas dos botecos. E, pairando sobre tudo, Vinicius, sua poesia e sua música, seu exemplo de arte e de vida.

Nas rodas de violão da década de 80, eu sempre pedia Vinicius. Nas viagens de ônibus pelo país, seus livros pra passar o tempo. Na inauguração do bar do amigo, olha eu, solene e copo na mão, recitando Receita de mulher. No festival de vídeo, olha lá eu de novo, no palco a agradecer o prêmio – e o vídeo era uma homenagem ao velho Vina. E nos ouvidos rendidos da mulher amada, é minha boca que pousa suave a lhe sussurrar os versos do poetinha. Poesia, música e amores, e o fascínio quase religioso pelo Feminino – era só isso que importava. Viver não era preciso. Necessário apenas viver como poeta. Como Vinicius viveu.

Invadindo meus dias sem pedir licença, eis porém que chegam outros tempos, vestidos de anos 90, e com eles outros bares, outras viagens, outros livros e músicas, uma banda de rock, uma outra vida. E um casamento difícil, com a carreira de escritor, em nome da qual eu ganharia e também abdicaria da própria vida. Meus discos do Vinicius, nem gosto de lembrar, se perderam nas tantas mudanças e seus livros eu precisei vender no sebo pra pagar o aluguel. Na memória, os poemas deram lugar a fórmulas de sobrevivência como escritor. E o viver como ele viveu, ah, isso foi ficando cada vez mais espremido num cantinho da vida.

Casadão com a carreira, mudo pro Rio de Janeiro em 1995 e no ano seguinte pra São Paulo. Porém, sem conseguir me manter como escritor, volto pra Fortaleza. Sete anos depois tento novamente o Rio, viro roteirista de TV, e em 2006 aporto mais uma vez na Pauliceia, viro palestrante e professor de roteiro, tudo por esse casamento exigente. Uma noite vem a ideia de montar uma palestra nova e é então que a ficha cai: uma palestra sobre Vinicius. Plim! Como não pensei nisso antes? Mas a ideia rapidamente evolui: montar não uma palestra, mas um espetáculo sobre o poetinha. Viniciarte. Pliiimmm!!!

Imediatamente tratei de reler suas obras e reuni novamente suas músicas, faminto de Vinicius outra vez. Mergulhei em biografias, vi filmes e conversei com pessoas que o conheceram pessoalmente. Em busca de algo que bem representasse o espírito de sua vida e obra, criei um roteiro que simula o ensaio do espetáculo que um grupo de amigos fará em 2013, no ano de seu centenário: amigos reunidos, uísque na mesa, clima descontraído, os erros e acertos de um ensaio e, entre poemas e canções, eles descobrindo as diversas facetas de Vinicius e o encanto do mundo por sua arte. É uma montagem simples, que espero que reflita a alma leve e despojada de Vinicius, assim como também a singeleza, a emoção e a devoção à Vida que tão bem marcam sua obra e seu viver.ViniciarteEnsaio200910-03RK1a

Uau… Eu consegui trazer de volta a atmosfera mágica que vinte anos atrás envolvia os meus dias, minha vida andava precisada disso. Viver outra vez aquele frio na barriga que antecede cada subida ao palco… É assim como a luz no coração. Recitar seus poemas por aí e mostrar a grandeza do Vinicius homem e artista – putz, tem sido tão gratificante fazer isso! Espero que eu realmente seja digno dessa tarefa a que me incubi e que, pensando bem, é antes de tudo um resgate de mim mesmo. Que ironia isso… Enquanto despendia toda minha energia pra manter meu casamento com a escrita, esqueci de viver como poeta. Bem, meu casamento continua firme mas agora sou um escritor que sabe de algo valioso: maior que a sina da escrita, é ela, a poesia da vida.

Saravá, Vininha!

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Ricardo Kelmer 2009 – blogdokelmer.wordpress.com

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RK em “Ausência”, de Vinicius de Moraes
Violão: Moacir Bedê
Quinta Poética (Casa das Rosas, 29out2009)
Realização: Editora Escrituras


Eu só queria que você soubesse

Novembro 10, 2009

LETRAEuSoQueriaQueVoceSoubesse-01a

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Eu só queria que você soubesse
(Ricardo Kelmer e Humberto Pinho)

Eu só queria que você soubesse
Que as minhas noites são tão vazias
E o meu coração é tão velho sem você
Eu sirvo mais uma dose enfim
Eu olho a cidade
Da janela só a cidade sabe de mim

Eu ouço música na madrugada
Eu tinha tanta música pra fazer
Sirvo uma dose, me visto pra sair
Eu tinha tanto pra dizer
Onde está a seção de acompanhantes?
Quanto vale um corpo sem você?

Eu só queria que você soubesse
Que eu durmo muito tarde
E até a cidade tem sensibilidade
E que comprei aquele vinho da promoção
Eu só queria que você soubesse
Que você não tem coração

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Ricardo Kelmer 1995 – blogdokelmer.wordpress.com

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RAIO X DA PARCERIA

Você me permite umas considerações sobre esta música?

Fiz a letra desse blues numa das madrugadas solitárias de minha primeira fase carioca (1995-1996). Mostrei pro Humberto, que gostou e musicou. Em 2004, antes de eu embarcar pra ir morar novamente no Rio de Janeiro, ele gravou em seu estúdio, apenas voz e violão. É o único registro que temos pois a música não foi gravada por mais ninguém.

Quando escrevi, tive o cuidado de deixar o gênero incerto, ou seja, quem fala pode ser uma mulher ou um homem, apesar do protagonista buscar uma seção de acompanhantes e isso ser uma prática mais masculina. Numa letra, a incerteza proposital do gênero permite que tanto homens como mulheres se identifiquem e possam cantar sem ter que alterar o texto.

Por falar em alterar, houve alterações na letra. Em parcerias, isso é comum, e usarei este caso pra mostrar como elas podem enriquecer o trabalho. Na letra original, o verso é “Que as minhas noites são tão vazias” mas Humberto gravou “Que as minhas noites são tão sozinhas”. Gostei, mas prefiro o original por causa da aliteração (repetição das mesmas letras ou sílabas) provocada pela letra V (vazias, velho, você).

Outra mudança foi no verso “Quanto vale um corpo sem você?”, que na gravação ficou “Quanto vale um corpo sem o seu?” Outra vez prefiro o original mas é interessante perceber como as duas formas possuem curiosas sutilezas de significados. Vejamos:

“Quanto vale um corpo sem você?” – O protagonista ou a protagonista, no auge da solidão, busca a seção de acompanhantes e se pergunta quanto poderia valer um corpo que não fosse o da pessoa amada, “um corpo sem você”.

“Quanto vale um corpo sem o seu?” – Aqui a pergunta muda o foco. Quanto valeria o corpo do próprio protagonista privado do corpo da pessoa amada?

Mas houve uma mudança que aprovei. No original, era assim:

Eu olho a cidade da janela
Só a cidade sabe de mim

O protagonista tá na janela olhando a cidade e somente a cidade sabe de sua dor. Na gravação, porém, o ritmo obrigou Humberto a fazer uma leve pausa entre “cidade” e “janela” e essa mudança, mesmo sendo bem sutil, levou o “da janela” mais pra perto do verso seguinte e isso causou, pelo menos pra mim, um efeito visual e de sentido bem mais interessante.

Eu olho a cidade
Da janela só a cidade sabe de mim

O protagonista continua olhando a cidade, isso não mudou. Mas agora o verso “Da janela só a cidade sabe de mim” parece emoldurar a cidade na janela e isso traz o protagonista de volta ao ambiente interno do apartamento. Ou seja, agora a cidade tá na janela e observa o protagonista em sua dor e solidão.

A montagem aí de cima, uma mulher deitada na cama, vestida apenas com um salto alto, tocando-se, e a cidade observadora de fundo… Sabe que tô começando a gostar de fazer essas montagens?

A seguir, o clipe. É um dos que usei pra divulgação de meu livro Vocês Terráqueas. Escolhi e trabalhei as imagens pondo como protagonista uma mulher, e pra fazer a edição usei o Windows Movie Maker, tudo bem dentro das minhas limitações, vá desculpando.

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Clipe da música


Em busca da mulher selvagem

Outubro 19, 2009

Era por ela que eu sempre me apaixonava, essa mulher que era quem ela mesma desejava ser e não a mulher que a família, religião e sociedade impunham que ela fosse

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EmBuscaDaMulherSelvagem-02base4bFoi Marília quem me emprestou esse livro, em 2002, quando eu já andava curioso a seu respeito. Depois Rafaela me deu um de presente. E depois ganhei a versão digital. Ou seja, esse livro queria mesmo vir pra mim, e foram as mulheres que o trouxeram. Li e fiquei encantado. Nas páginas de Mulheres que correm com os lobos estava o que eu intuía sobre as mulheres e a relação entre os gêneros mas ainda não sabia verbalizar. O livro me chegou numa fase em que eu já lidava melhor com meus aspectos femininos e, por isso, me identifiquei profundamente com ele e com a histórica questão da domesticação da mulher.

Terminei a leitura sentindo em minha alma uma avalanche de ideias e sensações mas sentindo também que levaria um bom tempo até que tudo aquilo assentasse e eu conseguisse organizar meus pensamentos e reagrupar as verdades que, embora não fossem tão novas pra mim, agora eram obviamente, estupidamente claras. Através de mitos e lendas coletados em várias partes do mundo, a autora mostra como sobreviveu, mesmo escondida sob muitas formas simbólicas, o arquétipo do feminino selvagem, o modelo da mulher conectada com os ritmos e valores da Natureza e de sua própria natureza, o modelo da mulher livre. Um livro belíssimo, que tem ajudado muitas mulheres a resgatar o que séculos de repressão lhes usurparam: o direito de serem o que quiserem. Um livro que fala essencialmente do feminino mas também fala de homens e deveria ser lido pelos dois.

A mim, o livro de Clarissa me fez especialmente entender que, em minha vida, desde cedo me fascinou o arquétipo do feminino selvagem. Por causa disso sempre me atraíram as mulheres de iniciativa, as desafiadoras da cultura machista, as que recusavam o modelito cristão de mulher virtuosa, as que se rebelavam contra regras sociais idiotas, convenções sexuais sem sentido, modelos de relacionamento baseados na posse do outro e tudo que objetivava manter a mulher submissa e sob controle. Era por ela que eu sempre me apaixonava, essa mulher que era quem ela mesma desejava ser e não a mulher que a família, religião e sociedade impunham que ela fosse.

Esse livro me trouxe uma das mais importantes revelações que já tive, que a mulher da minha vida é e sempre foi uma só: a mulher livre. E que foi essa mulher que, mesmo sem saber, eu sempre busquei em minhas relações, ainda que a temesse. E que foi por ela que abandonei muitas mulheres, ao intuir, sem saber explicar nem pra mim, que eu jamais poderia ser totalmente eu ao lado de uma mulher domesticada.

Porém, como aceitar e amar essa mulher liberta sem, antes, eu mesmo me libertar do que também me limitava? Pra merecê-la, eu também precisava me libertar de vez de qualquer pretensão de controlá-la, esse resquício maldito de minha herança cultural-religiosa.

A ficha caiu após ler Mulheres que correm com os lobos: esse livro me ajudou a assimilar o feminino em meu ser e foi isso, exatamente isso que me fez deixar de temê-lo, me fez mais selvagem no sentido psicológico-arquetípico, me fez mais livre. O efeito prático disso tudo é que agora eu finalmente estava aberto pra relações mais igualitárias e, principalmente, pra receber a mulher livre que tanto buscava em minhas relações. Então ela veio, enfim ela pôde vir. Veio linda, plena e radiante, e eu vi em seus olhos o reflexo dela própria em mim. E desde então continua vindo, e eu e ela somos lobos que cruzam florestas atraindo-se pela fome louca que temos um do outro.

E eu sei que ela sempre virá, porque esse amor que trazemos em nós, geralmente incompreendido por não erguer cercas de posse e jaulas de controle, é o amor que aprendemos a respeitar em nossa própria natureza e que nos alimenta de alegria e liberdade a alma selvagem.

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Ricardo Kelmer 2009 – blogdokelmer.wordpress.com

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EmBuscaDaMulherSelvagem-02base4c

Mais sobre liberdade e o feminino selvagem:

> A mulher selvagem - Ela anda enjaulada, é verdade. Mas continua viva na alma das mulheres
> A mulher livre e eu – A liberdade dessa mulher reluz no seu jeito de ser o que é – e ela é o que todas as outras dizem ou buscam ser, mas só dizem e buscam, enquanto ela tranquilamente… é
> Em busca da mulher selvagem – Era por ela que eu sempre me apaixonava, essa mulher que era quem ela mesma desejava ser e não a mulher que a família, religião e sociedade impunham que ela fosse
> Amor em liberdadeO que você ama no outro? A pessoa em si? Ou o fato dela ser sua propriedade? E como pode saber que ela é só sua?
> As fogueiras de Beltane
As fogueiras estão acesas, a filha da Deusa está pronta. O casamento sagrado vai começar

LIVROS

> Mulheres que correm com os lobos - Mitos e histórias do arquétipo da mulher selvagem (Clarissa Pinkola Estés -  Editora Rocco, 1994)
> A prostituta sagrada – A face eterna do feminino (Nancy Qualls-Corbert – Editora Paulus, 1990)
> As brumas de Avalon
- (Marion Zimmer Bradley – Editora Imago, 1979)

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Comentarios01 >> COMENTÁRIOS

.001- Não tenho a menor dúvida, RK, que é pelas mulheres Lilith – mulheres serpentes, que tu é fascinado e arriadinho. Tua alma é Lilithiana, criatura de Deus e do Diabo, de Abraxas!!!! Tava com saudade de tu. Rauariú, sacerdote do Grande Mistério Andrógino? Onde mora o perigo, querido, também mora a salvação, a conjunção. Pat Maria, Salvador-BA – out2009

002- Gostei do que vc escreveu. Ando relendo de novo o livro e vejo quantas coisas se assemelham a mim. Parabens. Um abraço. Christina Costa, Brasília-DF – out2009

003- Li há pouco tempo a biografia de Leyla Diniz.Essa sim é a personificação do feminino selvagem. Bjs. Mônica Burkleward, Recife-PE – out2009

004- Nossa adorei o trecho. Síntese do que venho exercitando na minha vida. Jamille Abdalah, São Paulo-SP – out2009

005- Grande Kelmer, você, como sempre, produzindo textos bacanas e bem bolados. Esse do feminino, então, show de bola, a foto foi por demais bem feita. parabéns!!! Forte abraço. Luís Olímpio Ferraz Melo, Fortaleza-CE – out2009

006- Kelmer, vou correndo ler o livro Mulheres que correm com os lobos. Essa mulher, livre, que dá banana pro machismo, que vive plenamente todos os prazeres hedonistas que lhe interessam, que toma iniciativa (mesmo sabendo do preço que paga por isso), essa mulher, sou eu! Beijão e.. valeu o toque. Vou xeretar teu blog pra saber mais. Meire Viana, Fortaleza-CE – out2009

007- Meninas, vale entrar no blog e dar uma conferida… Beijos. Ana Zanelli, Rio de Janeiro-RJ – out2009

008- Kelmer, até que enfim um homem entendeu o livro da Clarisse… (!) Claudia Santiago de Abreu, Rio de Janeiro-RJ – out2009

009- Que crônica ótima,gostei,só nÂo sei se me encaixo ‘100% nesse modelo de MULHER SELVAGEM viu. bjo parabéns pelo o trabalho fantástico. Eunyce Fragoso, Campina Grande-PB – out2009

010- Ei amigo,que bom que você descobriu as mulheres que correm com lobos… Que elas sempre estejam presentes no seu mundo! Se cuida tá! Lua, Fortaleza-CE – out2009

011- vc é especial, realmente quer e gosta de conhecer a alma feminina. faz de um tudo para compreender!!! Uma tarefa um tanto complicada,,,, Haja paciência!!! rs. Vânia Farah, São Paulo-SP – out2009

012- Quem tem medo da mulher livre?? O homem preso, oras (risos) Beijos ternurentos Tô adorando o livro…pena estar na correria e estar com tempo reduzido a zero…. mas logo termino… Beijos, outros. Clau Assi, São Paulo-SP – out2009

013- Ricardo, eu sou tua fã demais!!!! Vc é www.tudodebom.com.br/quehomeéesse!!!!! O sonho de consumo de toda mulher selvagem, incluindo eu mesma, claro! Bjs;. Karla K, Fortaleza-CE – out2009

014- Hoje tive oportunidade de entrar no seu blog, por indicação de uma amiga. Fizemos parte de um grupo de vivências apoiadas na leitura do Mulheres que correm com lobos e ela me recomendou a leitura da sua crônica Em busca da mulher selvagem. Fiquei encantada. Acabei lendo também os contos As fogueiras de Beltrane, que amei, Um ano na seca e a crônica Homens perfeitos também alopram. Interessante como você circula com competência rara entre o sagrado/mítico/profano/humor… Será com prazer que voltarei à sua página. Parabéns belos belos textos e por suas múltiplas artes. Elvira, Brasília-DF – out2009


Don Juan DeMarco baixa em Pinheiros

Setembro 16, 2009

RazaoeSentimentoEmConflitoCartaz-01b.

Cinema, Tela da Alma é uma série de palestras que faço usando filmes pra mostrar como a força e o encantamento do cinema são capazes de nos tocar profundamente a alma e nos instigar a viver a vida de modo mais verdadeiro. Sempre em linguagem acessível e de forma descontraída, essas palestras nos fazem ver os filmes por um olhar mitológico e psicológico, refletindo na tela as nossas próprias vidas, os nossos sonhos, os medos e anseios e a velha busca pela nossa essência mais legítima, que o corre-corre do cotidiano tão bem nos faz esquecer.

A primeira palestra deste ciclo atual será Razão e Sentimento em Conflito. Trata-se de uma abordagem bem humorada do filme Don JuanDeMarco, mostrando como os personagens principais, o jovem Don Juan e seu psiquiatra, representam o velho conflito entre intelecto (a visão fria e racional da vida) e coração (a poesia e o romantismo). Outros aspectos analisados: estrutura do roteiro e fotografia.

Outros filmes que integram o ciclo de palestras Cinema Tela da Alma: Matrix, Caçador de Andróides (Blade Runner), Piaf, Uma Mente Brilhante, Encontro Marcado e Alucinações do Passado.

Horários
18h30: exibição do filme
20h: intervalo para o café
20h15: palestra
21h30: encerramento

Local:  Espaço Cultural Alberico Rodrigues
Praça Benedito Calixto, 159 – Pinheiros (estacionamento na praça)
Inf.: 3064.3920 e 3064.9737
Investimento: R$ 10

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Ricardo Kelmer 2009 – blogdokelmer.wordpress.com

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> Crônica Razão e sentimento em conflito
> Palestras de RK


Razão e sentimento em conflito

Setembro 16, 2009

Razão e sentimento são funções psicológicas que auxiliam o ego a lidar com a realidade. Porém, quando o ego se apega demasiadamente a uma delas, ocorre o desequilíbrio psíquico

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RazaoESentimentoEmConflito-02O filme Don Juan DeMarco é mesmo maravilhoso. Sua história é boa e divertida, o roteiro perfeito, os atores estão muito bem e a trilha sonora é linda. As mulheres suspiram com o romantismo da trama, a poesia das imagens, a vitória do amor. É um filme que traz bons temas para discussão, como o donjuanismo e a dificuldade da ciência médica de lidar com o que ela diagnostica como loucura. No entanto, em minha palestra Razão e Sentimento em Conflito, uso o filme para falar de outro tema: o conflito entre intelecto e coração.

Não é à toa que esta palestra é muito solicitada por empresas. Cada vez mais elas percebem a urgente necessidade de terem funcionários psicologicamente equilibrados. O motivo é óbvio: pessoas harmonizadas consigo mesmas aprendem melhor, produzem melhor e vivem melhor. Investir na saúde de seus funcionários, física e psicológica, é um excelente investimento para qualquer empresa.

Em Don Juan DeMarco temos dois personagens em conflito: o psiquiatra renomado e o jovem problemático. O psiquiatra tem sua vida inteiramente regida pela lógica científica, ele é racional ao extremo, sempre frio em suas conclusões. O jovem é o oposto: sua vida é puro sentimento e emoção e ele só enxerga a vida pelas lentes da poesia, da aventura e do amor. Qual dos dois está certo?

Os dois estão errados. A prova disso são suas próprias vidas: o médico está cansado e desestimulado e seu casamento perdeu a paixão. E o jovem, frustrado por um amor não correspondido, desistiu de viver. Ambos perderam a vitalidade, o tesão pela vida. O motivo: eles esgotaram as possibilidades que razão e sentimento, sozinhas, têm para oferecer.

Razão e sentimento são funções psicológicas que auxiliam o ego a lidar com a realidade. Porém, quando o ego se apega demasiadamente a uma delas, ocorre o desequilíbrio psíquico e surgem os insucessos em vários aspectos da vida. A razão sempre busca entender a realidade pela ótica do intelecto, que é incapaz de abarcar toda a complexidade da vida. A razão não quer exatamente ser feliz: ela quer ter razão, sempre. Certamente você conhece alguém assim, que só admite a lógica racional para explicar a tudo. E o sentimento entende a realidade pela ótica da sensibilidade emotiva, o que também é insuficiente para lidar com a grandeza da vida. Muitas pessoas agem assim, achando que a pureza de seus sentimentos a tudo resolverá.

Em algum momento da vida o crescimento psíquico exigirá do ego o equilíbrio dessas funções. Se seguir a diretriz autocurativa de sua própria psique, a pessoa saberá conciliar razão e sentimento e sairá do conflito renovada. Passará a se relacionar com a vida usando as duas funções de modo equilibrado e consciente, sabendo reconhecer as ocasiões em que deve usar mais intelecto ou mais coração.

Tanto nos relacionamentos com a família, com amigos ou num casamento, como também no dia-a-dia profissional, esse equilíbrio psíquico é fundamental. Assim como o psiquiatra frio e o jovem romântico tiveram que entrar em intenso conflito antes de integrarem em si o que lhes faltava, às vezes é preciso chegarmos a um ponto crucial de desequilíbrio interno, que causa o desequilíbrio externo, e afundar na crise para, somente assim, reconhecer e integrar o que nos falta e sermos mais inteiros e harmonizados com nós mesmos, com os outros e com o mundo em volta.

Portanto, é bom ficar atento. Se a vida parece ter chegado a um ponto insustentável e viver de repente tornou-se uma sucessão de dias sem sentido, talvez esteja na hora de aceitar o outro lado que até agora negamos em nossa própria alma, mesmo que, a princípio, esse outro lado pareça limitado ou ingênuo. Ou louco demais.

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Ricardo Kelmer 2007 – blogdokelmer.wordpress.com

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DonJuanDeMarco-01Don Juan DeMarco
(Don Juan DeMarco, EUA, 1995)

Argumento e direção: Jeremy Leven
Elenco: Johnny Depp, Marlon Brando, Rachel Ticotinn, Bob Dishy e Geraldine Pailhas

Um renomado psiquiatra prestes a se aposentar aceita, num último desafio à sua brilhante carreira, cuidar do rapaz que diz ser a reencarnação de Don Juan, o maior amante da História. Ele tenta trazê-lo de volta à realidade mas o caso foge de seu controle e ele percebe que ali, naquele estranho mundo de fantasia, romances e aventuras, pode estar o segredo para transformar sua própria vida, seu casamento e até sua noção de realidade.

> Palestras de RK


Recaídas da paixão

Setembro 6, 2009

No dia seguinte, após uma noite sem fim de comemorações, você acorda. Abre o olho e ela está ao seu lado, bem juntinho, linda e sorridente

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RecaidasDaPaixao-02Não lembro exatamente como começou nosso caso. Talvez tenha sido quando meus olhos de criança viram pela primeira vez aquelas camisas entrando em campo. Meu padrinho me levara ao estádio, era decisão de campeonato, a cidade toda no clima do jogo. Aquele estádio imenso, o gramado verdinho, a festa das torcidas, a emoção à flor da pele – eu descobrira um mundo encantado. Infelizmente meu time perdeu mas eu já estava fisgado: voltei para casa com uma tristeza de adulto, a primeira dor de cotovelo. E na alma levava uma coisa nova, uma paixão vibrante, um sentido a mais a me acompanhar na longa e estranha viagem da vida.

Tem gente que morre e não entende uma paixão assim. Mas paixão nunca foi para se entender. Tem quem veja futebol como doença. Mas doença é viver sem paixão. Tem mulher que quando seu homem sai para o estádio, ela se sente trocada por onze marmanjos. Nada a ver, Beth, são coisas incomparáveis, entenda… Felizmente tem mulher que entende. Tem até as que também vivem a sua paixão. Quando é pelo time rival, putz, é um problema: dia de clássico é dia de briga, pode apostar. Mas quando o casal torce pelo mesmo time, ah, que suprema compatibilidade! Sabe lá o que é se vestir junto para ir ao estádio, escutar agarradinho o CD com os gols da campanha vitoriosa, o hino do clube, ver os gols da rodada no motel… Que romântico!

Em nome da paixão a gente faz de um tudo, você sabe, né? Um amigo meu namorava uma garota que detestava futebol. Um dia, cansada de se sentir trocada, ela deu-lhe as contas e foi embora. Meu amigo, desesperado, foi atrás. Ela relutou mas aceitou voltar, com uma condição: ele deveria ser menos fanático por futebol. Sim, claro, meu amor – ele concordou, aliviado. Na semana seguinte ela apareceu com dois ingressos para o teatro. Uma peça bem romântica para comemorar nossa volta – disse ela. Quando ele viu a data, não acreditou. Seria no mesmo dia e hora de um jogão decisivo. E agora, como fazer? O amigo apelou: foi ao teatro mas levou um radinho escondido na calça e acompanhou o jogo pelo fone de ouvido, torcendo e suando loucamente em silêncio, sentadinho, comedido, que tortura. Tudo para satisfazer dois amores geniosos.

- Tá gostando do balé, amor?

- Claro, meu bem. Impedimento!

- Heim?

- Impedimento. Nada será impedimento pro nosso amor…

Às vezes essa paixão faz da vida um inferno: time ruim, gols perdidos, derrotas para o maior rival. Terrível! Além da dor, ainda tem que aguentar a gozação. Há quem exagere e até agrida e mate por conta disso. Aí sim é doença. Por outro lado, quando o time está bem, vence todas e é campeão, ah, a vida se transforma num sonho maravilhoso, tudo melhora e até acordar cedo para trabalhar é gostoso, acredite. Nesses momentos somem as dívidas do cartão, desaparecem inquietações existenciais e até os programas evangélicos da madrugada ficam bons de ver.

Como todo romance, tem também as brigas, claro. Às vezes você passa anos distante, desinteressado, magoado. Quer nem ouvir falar. Mas um dia você decide ir ao jogo, é dia de clássico. Manda lavar a velha camisa e liga para os amigos. Chega ao estádio e aos poucos retornam detalhes esquecidos de um antigo ritual: as bandeiras feito estandartes, as batucadas, o grito de guerra, a cervejinha antes de subir, nada mudou. O time entra em campo e você levanta para aplaudir, a torcida rival vaia, o coração aperta, pede mais uma cerveja – a velha magia está de volta. No intervalo desce para o banheiro e discute o pênalti não marcado. Depois é o segundo tempo, o nervosismo crescente, o impedimento escandaloso, o gol que não sai. Lá está você esfregando as mãos, suando, mordendo todas as unhas, torcendo, torcendo e de repente… gooooooooool!!! Pronto, você vira ninguém no turbilhão da alegria. Atira longe o chinelo e beija o vendedor de amendoim. Paga cerveja para todo mundo. Que bonito as bandeiras tremulando, a torcida delirando, vendo a rede balançar…

No dia seguinte, após uma noite sem fim de comemorações, você acorda. Abre o olho e ela está ao seu lado, bem juntinho, linda e sorridente, toda carinhosa, pedindo para ser tocada mais uma vez, a camisa do seu time. Você sorri de volta, beija a camisa, se ajeita sob o lençol e fecha os olhos, buscando novamente aquele sonho gostoso onde o centro-avante dribla dois e toca na saída do goleiro.

Mas não era você quem dizia que vocês dois não tinham mais nada a ver? – prepare-se que alguém vai perguntar. Pois não tente explicar, colega. Paixão antiga é assim mesmo, não tem explicação. Um dia ela reaparece, mais bonita e desejável que nunca, e você se vê na marca do pênalti. Aí só tem um jeito: é tocar com firmeza e correr para o abraço.

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Ricardo Kelmer 2004 – blogdokelmer.wordpress.com

Este e outros textos você encontra no livro A Arte Zen de Tanger Caranguejos

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Lolita, Lolita

Setembro 3, 2009

A calcinha desce suave pelas coxas finas, beija os joelhos, pousa nos pezinhos… Engulo seco. Diante de mim a luz dos meus dias, fogo em minha alma

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LolitaLolita-03A cena sempre me extasia, sua língua faceira saltando três vezes… Olho em silêncio enquanto ela lambe o papel, fecha o baseado e acende, segurando na ponta de seus dedinhos finos. Ela puxa a fumaça devagar, os olhinhos fechados, tão linda… E eu amo sua boca enquanto ela solta a fumaça. A boca. Que ela sempre esquece entreaberta, na medida exata, meio dedo, ela faz de propósito, sabe que não resisto. O que essas colegiais andam aprendendo no intervalo do recreio?

Vai, fuma, minha amiga quem me deu, você vai gostar. Hoje não, meu anjo, obrigado. Ah, é?, então eu não faço aquilo. Então cumpro minha parte no trato, dou uma tragadinha, o suficiente para que a doce chantagista se satisfaça. Ela me mostra a língua, me chama de velho careta. Entendam, quero sóbrios os meus sentidos, para depois passar todas as imagens, uma por uma, e recordar… e recordar… até que seja novamente terça-feira.

Trancada a porta da suíte. Cerradas as cortinas. Os pequenos cuidados de sempre. Mas as cortinas, eu sei, ela depois abrirá para olhar a cidade, ela e seu prazer de me desobedecer. E eu paciente a puxarei para dentro, perigoso ficar na sacada, meu anjinho, eu já disse, principalmente assim de calcinha. Ela protestará, claro: Seu chato, parece meu pai! E citará probabilidades, uma chance em mil de alguém reconhecê-la ali no vigésimo andar. Mas vocês hão de convir, já foi sorte demais encontrá-la, não tenho mais idade para abusar do destino.

No frigobar ela se diverte: iogurtes, suquinhos e chocolates que devora e guarda na mochila, levará para a amiga. Na TV, pára nos clipes musicais, essas bandas modernas com nomes estranhos e garotos idiotas que ela adora. Ela zomba do meu ciúme cantarolando em seu inglês vacilante, o que me faz lembrar de seu curso, justamente onde ela deveria estar agora. Mas vocês vão entender, as terças são minhas.

Ela vem para a cama, lânguida e relaxada. Tira minha camisa e brinca com os pelos brancos do meu peito, me aperta as sobras da barriga. Com meus suspensórios brinca de me chicotear, rindo como fosse a coisa mais engraçada do mundo. Depois salta da cama: Me dispa, escravo, é uma ordem. Sim, minha princesa.

Fico na ponta da cama, ela à minha frente. Tiro seu uniforme com cuidado, da outra vez rasguei a saia. Desabotoo a camisa e os seios pequenos me olham. Pergunto se estão com saudade e ela os move para cima e para baixo: Sim, estamos… E outra vez morre de rir. As meias brancas mantenho no lugar, quase no joelho, gosto assim. A fita no cabelo também. Ela ergue a saia plissada e surge a calcinha, hoje é azul claro, combina com a tarde. A vontade é de arrancá-la, me controlo, o coração quer sair do peito. A calcinha desce suave pelas coxas finas, beija os joelhos, pousa nos pezinhos… Engulo seco. Diante de mim a luz dos meus dias, fogo em minha alma.

É nas curvas de seu corpo quase infantil que eu me desgoverno: tento dirigi-la mas ela faz o que tem vontade e minhas juntas sofrem para segui-la. Ela geme sob o peso de meu corpo, dança sobre ele, senta em meu rosto, vira de costas, sim, sou tua Lolita, para sempre, sim… Lembro do trato e ela cumpre a promessa, bebendo-me até a última gota, adora observar minhas reações. Depois, na telinha da máquina, ela apaga as fotos em que está feia e zomba da minha expressão apaixonada, manda por e-mail, pliiis, você nunca manda, malvado… Ela me oferece chiclete e diz que a amiga quer um dia participar também… Paro, sem acreditar no que ouço. Você não devia ter contado, nossa felicidade não precisa de mais ninguém! Mas ela é minha amiga… Foda-se sua amiga, já falamos disso, quer estragar tudo, tem merda na cabeça??!!

Vamos em silêncio até o shopping, uma lágrima escorre de seu olho. Que eu não vejo porque não ouso olhar mas sei, porque é a mesma lágrima que tremula no meu. Paro e ela sai do carro, fecha a porta. Três passos e retorna, e emoldura o rosto na janela, e sussurra: Fica assim não, desculpa… A boca. Por favor, não quero que acabe, pliiis… A boca entreaberta, meio dedo. Meu coração se derrete. Entrego-lhe o dinheiro do cinema e do lanche, mais um pouco para gastar com bobagens. Te amo, ela diz sorrindo, e eu respondo eu também. Ela conta orgulhosa que verá um filme de 14 anos, entrará com a carteira de uma colega. Não precisa correr, meu anjo, tem tempo. Mas ela já se virou. E lá se vai minha Lolita, correndo estabanada pelo estacionamento, mochila às costas, as pernas, as meias brancas. Tão linda em seu prazer de me contrariar.

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Ricardo Kelmer 2005 – blogdokelmer.wordpress.com

Este e outros textos você encontra no livro Vocês Terráqueas

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01- O primeiro conto q li foi sobre a Lolita… sorriso… fiquei um pouco incomodada, sabe aquela coisa hipócrita de achar a menina mto nova, mas no fundo sentindo maior tesão pela coisa??? Pois é, lembrei também q sempre tive uma queda, não, um TOMBO, por homens assim 15, 20 anos mais velhos (e hj isto me é complicado… rsss). Ilde Nascimento, São Luís-MA – abr2009


Vidas passadas: Imbituba 1985

Agosto 17, 2009
RK1985ZukImbituba02cZuk e eu, Imbituba-SC, 1985. Mochileiros da cachaça, da poesia e do amor.

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EdgarZuk2009-01aQuerido kelmer

Deixei o msn piscando naquela janela laranjinha na barra lá embaixo..
Larguei o projeto pra entregar agora de manhã, o relatório que não ficou bom…
Larguei…pra ficar olhando os detalhes dessa foto em Imbituba.

Dois garotos lindos, que estraçalhavam os corações das garotas.
Dois poetas tímidos, cheios de grandes histórias pra contar.
Dois caras duros, trocando a grana da comida pela cerveja a noite.
Dois caras sem músculos pro surfe, em suas camisetas ripongas.

A minha pochete vermelha de plástico e a tua mochila arruinada pela andança.
Essas bagagens que moram nalgum lugar e que vêm à tona quando uma foto dessas ressurge assim.
A musica Lilás do Djavan na fita cassete preferida e o livro estropiado do Fernando Pessoa.
As camisas de rendeira cearense à venda por 10 pilas (que nos salvavam a janta).
A garrafa de velho barreiro no bolso lateral nos denunciando.
Os peidos na barraca encardida. Fétido que matavam os sapos. Me chamava PP, codinome para “peido podre”.
A barba de três fio de ricardo e minha bermuda rasgada na bunda que eu adorava.
Não tinha protetor solar, garrafinha de água mineral, nem ipod.
Não tinha aids, assalto. E as pessoas nos ajudavam!
Não tinha celular, nem internet. Era fichinha no orelhão.
E nossos pais nem sabiam onde a gente andava.

Tanta coisa boa veio junto com essa foto defronte a rodoviária de Imbituba.
Esperando o ônibus que nos separaria para toda a vida.

Um grande abraço em você Kelmer (como aquele na rodoviária de fortaleza, em que você afroxou o dente na minha testa!)
Eu tenho muita saudade de mim.

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Edgar Zuk
Porto Alegre-RS 2008
edgarzuk.blogspot.com

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RK200708MartaCR-01aAi meninos, hoje não tô podendo com isso não… A retardada só viu a foto depois. Já quase morri de rir com ela, o “diálogo” e a conversa do Rico.

E agora quase choro por sua causa, Ed mon petit Gar. Que pena que não fui com vocês pra Imbituba…

Bom, me resta um consolo: não tenho saudades de mim, não. Quero dizer, tenho boas lembranças daquela época, coisa e tal. Mas hoje sou infinitamente mais livre, leve e louca, por incrível que possa soar.

E aí rapazes, quando é que a gente cai na vida de novo? o meio de transporte pode ser minha pajero amarela, e o álcool (e outras substâncias estupefaciantes) pode ser garantido com a venda dos livros do Rico e por saraus musicais-dançantes – vocês tocam e cantam e eu danço, seduzindo os incautos, hahahahaha!!! No mínimo isso vai gerar material pro seu novo béstiseler, Kelmo boy!

Beijos da Bruxa Cruela, vértice do triângulo, tríade, trindade, trio, trinca, trinômio, tripé, três, terno, triplo, trímero.

Amo vocês.

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Marta Crisostomo
Brasília-DF, 2008

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RK200904JuazNorteRondelle02bMarta Cruela… Zuk Mabel…

Gostaria de informar que poeta, tímido e duro ainda sou. Mas tô enfim aprendendo a viver a poesia mais que escrevê-la. Pra timidez, tô tomando cara-de-pau, dose dupla. E a dureza, bem, essa é a mesma, com a diferença que fiz um pacto com o dinheiro: eu não encho o saco dele e, em troca, ele vem sempre que eu preciso. Ah, e tô cada dia mais lindo e gostoso, isso é fato inconteste, pergunta lá pras meninas do pastel da feirinha de Pinheiros.

Saudade? Saudade eu tenho dos amigos distantes. Ter vinte anos é uma diliça. Mas ter quarenta, tendo vivido tão intensamente as minhas verdades, é duas vezes melhor.

Precisamos nos ver. Urgente. E nossas mulheres e maridos que aguentem.

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Ricardo Kelmer
São Paulo, 2009

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Vinicius vai baixar em Pinheiros

Agosto 11, 2009

ViniciarteAlbericoCartaz-01e.

Quero dividir com você a imensa alegria que sinto em mais uma vez homenagear Vinicius de Moraes, um dos nomes mais importantes da cultura brasileira. Quem mora em São Paulo, tá convidado. E pra quem não mora, tomara que qualquer dia eu tenha a oportunidade de apresentar o Viniciarte em sua cidade.

Se alguma empresa, clube, hotel ou escola se interessar, é só entrar em contato. Apresentamos também para grupos particulares.

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VINICIARTE
Vida, música e poesia de Vinicius de Moraes

SHOW POÉTICO-MUSICAL
Com o escritor Ricardo Kelmer, a cantora Vanessa Moreno e o músico Moacir Bedê

13ago – 5a feira – 20h

Espaço Cultural Alberico Rodrigues
Praça Benedito Calixto, 159 – Pinheiros – INF: 3064.3920
Ingresso: R$ 10

Reservas: rkelmer(arroba)gmail.com

Clipe de divulgação: blogdokelmer.wordpress.com/palestras

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ViniciarteCartaz-201cUm passeio poético-musical pela vida e pela obra de Vinicius de Moraes, um dos maiores nomes da cultura brasileira.

O espetáculo encena um ensaio do próprio espetáculo, mostrando os componentes se preparando para uma apresentação a ser realizada no dia exato do centenário de Vinicius, em 19 de outubro de 2013. É nesse clima de humor e descontração entre amigos que conheceremos a trajetória de Vinicius, sua relação com a poesia, a música, o teatro e o cinema, o diplomata e o artista, o homem romântico, lúdico e sensual e também seu engajamento social. E tudo isso embalado pelo ritmo envolvente de seus poemas e pelas melodias de suas eternas canções.

ROTEIRO, DIREÇÃO, NARRAÇÃO E POEMAS: Ricardo Kelmer
MÚSICA: Moacir Bedê e Vanessa Moreno
DURAÇÃO: 1h30

QUEM FAZ O VINICIARTE

RICARDO KELMER, escritor, roteirista, palestrante e produtor cultural. VANESSA MORENO, cantora e instrumentista, integrante do quarteto feminino Julietas. MOACIR BEDÊ, instrumentista e compositor, lançou em 2009 seu primeiro CD.

REALIZAÇÃO
Letra de Bar – letradebar.wordpress.com

APOIO
O Autor na Praça – TV da Praça

Reservas: rkelmer(arroba)gmail.com

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ViniciarteCartaz-201c

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Comentarios01

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COMENTÁRIOS

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001- Adorei o show de vcs. Perfeito! Na verdade, o Alberico usou a palavra certa: emocionante. Se Deus quiser, e sempre digo: Ele há de querer, vamos fazer muitas coisas juntos Parabéns pra vc, Vanessa e Bedê(certo?) Beijão. Lúcia Gonczy, São Paulo – ago2009

002- Que magia ,,, fiquei extasiada feito Alberico !!! ontem foi um grande acontecimento , o show radiou muita amorosidade e prazer , que essa energia se expanda para muitos outros recantos … Parabéns á sincronicidade do grupo! Um beijo encantado ! Márcia Oliveira, São Paulo-SP – ago2009

003- Poetinha, Poetão!!! VINICIARTE estava tudo de bom! já de início me seduzi pelo poema “AUSÊNCIA” e depois disso cada gesto, cada texto, poema, música foi crescendo, emocionando e contagiando a todos nós com sua linda,humorada e bela interpretação…2013 tá muito longe! o teu sucesso está no “aqui e agora”. PARABÉNS! SEREI FÃ NÚMERO 1 DO VINICIARTE E DIVULGAREI PARA OS QUATRO CANTOS…já estou “VICIARTIANDO”, por aí!!!! bjos de luz . Theca Moita, São Paulo-SP – ago2009


Cristal

Julho 22, 2009

Ele quer falar sobre tudo que viveu ali dentro, todos aqueles anos, os amores e desamores, o quanto sofreu e fez sofrer, perdeu e se encontrou… Mas não precisa, ela já sabe

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Cristal-03Ele pensa enquanto a pergunta da Mestra ainda ecoa: Que tal passar o aniversário com sete namoradas? Ele olha para trás, para frente, o corredor infinito, portas de um lado e outro. Que estranho presente de aniversário…. A Mestra abre a porta. Ele pensa. Pode recusar? Não, ele sabe que não pode. E entra, devagar, desconfiado.

Silêncio. Uma sala enorme, toda branca. À esquerda ele vê dois olhos verdes. Chega mais perto e reconhece: é ela. Uma dor repentina o entristece. O que acontece com os sentimentos que desprezamos em nós mesmos? Ele se desculpa: Eu era só um garoto estúpido mas amei você mesmo assim, acredite…

Rejuvenescido. É como ele se sente no ambiente seguinte onde a bailarina faz piruetas sobre uma nuvem. Ela sorri um sorriso tão juvenil que imediatamente ele se sente mais jovem do que é, do que era. Quer sentar para admirar mas não há tempo. Resta-lhe dizer: Tudo valeu, as alegrias, as brigas, tudo, mas o tempo, infelizmente não houve tempo, você já estava de partida, fui apenas sua despedida desse mundo…

Beleza e loucura… beleza e loucura… De algum lugar escuta alguém sussurrar. Lá encima, no alto da torre. A linda princesa. Ela o chama, implora que a liberte de sua prisão. E joga duas enormes tranças. Que caem a seus pés. Bela e irresistível como o diamante da insanidade… E ele foi, subiu agarrado às suas tranças até o alto. E lá no alto teve medo do que ele era. Horrorizado, despencou. E morreu sua primeira morte, rígido de dor. Obrigado por ter me matado, princesa, eu a amarei para sempre por isso, obrigado…

Vazio. O aposento vazio. Ele escuta um piano… Um som doce, tão doce que o sente na boca, se desmanchando sob a língua. Depois que se desmancha é que percebe que o doce… é ela. Tenta provar o som mais uma vez… porém tudo volta a ser o imenso vazio. Sente-se tão incomodado que se apressa para sair… mas uma idéia súbita o faz voltar. E então compreende. O vazio é ele, ele todo o imenso vazio, sem nada para oferecer além da própria busca alucinada por si mesmo. Ela ao piano, os seios generosos, ela e a doçura que sempre se desmancha antes que ele a alcance… Desculpa, por favor, que era eu um vaso vazio?…

Fantasias. Mil fantasias nos espelhos ao redor. Qual delas será ele? Experimenta todas e nenhuma lhe cabe. Sente-se perdido em meio a tudo aquilo que não é ele e se angustia ainda mais. Então surge a mão dela, amorosa e compreensiva a acariciá-lo. Ele leva a mão ao peito e se acalma. No meio do caleidoscópio de tantos eus ele sussurra: Você me vê, mais do que eu mesmo, e isso me faz existir…

Girando e girando e girando… Ele agora gira no escuro, sem saber onde se encontra. Está úmido e abafado. Enquanto gira, sente a excitação lhe subir pela virilha, mais, mais… Um segundo antes de gozar, percebe que está na caverna e então compreende que está dentro dela, ela o comeu, viúva negra. Entorpecido, deita-se para morrer, finalmente descansar na escuridão total. Mas no último segundo desperta aterrorizado e, com as forças que restam, levanta e as luzes se acendem. Fomos fundo, meu bem, fomos tão fundo em nós…

Karma. O último ambiente é o ônibus que o levará ao inferno. Quer desistir mas o olhar de sua irmã lhe diz que não há outro caminho para o céu. Ele entra, fecha os olhos e chora indefeso, pressentindo o que virá. A rodomoça oferece o cálice e quando o bebe, vê que é sangue. Não há palavras para descrever o gosto, a dor, o inferno, a morte. Dias sem noites e noites sem dias sem poder dormir. Rendido, permite que demônios devorem sua carne. Sem mais qualquer orgulho, abre os braços e oferece a alma à Terra. Na última noite escuta pombas brincarem no teto… e percebe que renascerá. E tudo se esclarece: Você é o que eu precisava viver para que o Cosmos se reequilibrasse em mim, não há palavras para agradecer…

A porta se abre e ele cai de joelhos, chorando de gratidão. A Mestra o abraça, compreensiva. Ele quer falar sobre tudo que viveu ali dentro, todos aqueles anos, os amores e desamores, o quanto sofreu e fez sofrer, perdeu e se encontrou… Mas não precisa, ela já sabe. Ela pede que ele abra a mão… e lá estão sete pedrinhas de cristal, em todas o reflexo de seu próprio rosto. Extasiado, ele pega os cristais com cuidado, admirando seu brilho. Então, de repente, não são mais sete, são apenas um, o mais belo. Ele aperta o cristal ao peito e respira fundo. Quer dizer algo mas, pensando bem, não há nada para dizer. Nem pensar. Apenas sentir.

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Ricardo Kelmer 2005 – blogdokelmer.wordpress.com

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> Este texto integra o livro Vocês Terráqueas – Seduções e perdições do Feminino

> Desconstruindo Kelmer (por Wanessa) – Totalmente metida e curiosa, eu me debrucei sobre o conto e fiz minha própria interpretação. Bem, a presença da Mestra, a vida, a Deusa, o Tao, o fluxo irrevogável de tudo, não me espanta que seja uma figura feminina…


Trem dos sonhos

Julho 19, 2009

TremDosSonhos-01d

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TREM DOS SONHOS
Ricardo Kelmer
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Ela levantou cedo e se mandou
Foi atrás de um sonho maior
Deixou um beijo de saudade
E essa cidade ao meu redor
Esses prédios que abafam
Todo sonho de crescer
E ela se foi no trem do amanhecer

Porque os sonhos, meu amor
São um trem que não virá
Se a gente ficar esperando acontecer

A cidade se acende
Em luzes de neon lilás
Manchetes sedutoras, paraísos irreais
No fim de tarde o horizonte
Traz notícias de você
E os meus sonhos morrem de fome
Sem a cidade perceber

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Ricardo Kelmer 2000 – blogdokelmer.wordpress.com

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> Esta é a letra de Trem dos Sonhos, um rock-balada que eu e Flávia Cavaca compusemos pra trilha sonora de meu romance O irresistível charme da insanidade. Luca arrasado porque Isadora se mandou, deixando-o sozinho e perdido. Depois mostro a música aqui no blog.


Desconstruindo Kelmer (Wanessa)

Julho 12, 2009

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Desconstruindo Kelmer
por Wanessa, 2009

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Eu adoro o Vocês Terráqueas. E eu, grande releitora que sou, claro que escarafunchei o livro todo, li de cabo a rabo incontáveis vezes. Principalmente depois daquela conversa que nós tivemos, em que tu me contou um segredinho que se esconde em alguns textos. Depois disso, a tua obra virou um mistério ainda maior pra mim. Comecei a ler teus textos com mais atenção, agora entendo melhor algumas coisas e desconheço completamente outras.

Um conto em especial me instigou desde a primeira leitura: Cristal. A ordem dos acontecimentos é compreensível, tem começo, meio e fim, mas não dá pra terminar a leitura sem a sensação de que tem algo muito maior que eu não consegui captar. Eu, meio Sherlock Holmes das palavras, fico tentando decifrar os enigmas, seguir possíveis pistas, mas é tudo em vão. Não dá.

Totalmente metida e curiosa, eu me debrucei sobre o conto e fiz minha própria interpretação. Bem, a presença da Mestra, a vida, a Deusa, o Tao, o fluxo irrevogável de tudo, não me espanta que seja uma figura feminina. Um presente de aniversário, a viagem sem escolha. Depois o corredor cheio de portas e ela aparece, a Simone. Provavelmente um amor da adolescência. Eu vejo um Ricardo cheio de ideias, querendo tudo ao mesmo tempo. Tempo que, até então era inesgotável e por isso permitia um monte de erros que levam a um rompimento doloroso, que deixa uma dor que invade, dor física, forte.

Encontro com a Renata. A bailarina que faz piruetas num nicho, algum lugar perdido, intocável. Os movimentos leves; contemplamos a beleza porque é finita. Melhor não me demorar por aqui, não há tempo, só pra recuperar o fôlego, o assombro diante das surpresas da vida.

A Bel traz o encontro com a princesa, o primeiro. Joga suas tranças da torre; beleza e loucura juntas provocam vertigem? A morte do primeiro Ricardo, daquele que por vezes era desconhecido de si próprio, te deixa profundamente grato, a mim também. Vânia, Valesca, Vanessa, Valéria, são tantas as possibilidades dessa musicista sensual, sensual como doce desmanchando na boca. O inalcançável, mesmo que a distância entre os corpos seja curta. É preciso achar-se a si, antes do outro. Talvez a fuga seja o melhor caminho quando o vaso ainda está vazio.

Minhas dúvidas se multiplicam em relação aos nomes, Fabiana, Fabíola, Fátima… o nome tanto faz, as fantasias são múltiplas, volúveis, diáfanas. Encantam e entontecem. É preciso um fio que te conduza a realidade, uma mão talvez. E ela sabe fazer isso, no meio do redemoinho de possibilidades e sonhos, é bom se saber compreendido por alguém, uma certeza tranquilizadora de não ser tão estranho, hermético. Gisele, como a espiã nua em Paris, a tua cara isso. E mais uma vez a tontura, mas essa é diferente e conheço: a euforia da excitação e o gozo (ai, que saudade da tua carinha gozando…), a sensação de ir cada vez mais fundo, mais longe. Transpiração e transcendência lado a lado.

O inferno te espera e traz também o sabor indigesto. A inquietação, o ápice do sofrimento e desespero. A alma conturbada se rende a mais uma morte. Passou pelo seu Karma, Karine. As palavras não bastam para agradecer por uma nova vida. E no fim, sete encontros, sete vidas que hoje formam um só cristal, o mais belo, o ser mais incrível que ja conheci na vida, tu. Talvez eu tenha acertado um pouco, talvez tenha passado longe, mas uma coisa eu aprendi com esse conto, às vezes racionalizar sobre o que está diante dos olhos, só torna tudo mais complicado, a compreensão pode ser simples, não precisa muito. Apenas sentir.

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> Para ler Cristal


A garçonete da minha vida

Julho 8, 2009
As aventuras de Diametral e Ninfa Jessi
E a história assim registrará: naquela sexta de dezembro Diametral, que não era ainda Diametral, e Ninfa Jessi, que já era Ninfa Jessi, começaram oficialmente a mais bela e safada história de amor jamais contada, ele que a amava em silêncio havia um ano, ela chorando de raiva, desamparo e tesão

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NinfaJessiGarconete-01c

Ninfa Jessi e seus fetiches. Que eu adoro, por sinal. Um deles é por garçonete. Pelas garçonetes e também por ser uma garçonete. Pra ela é umas das melhores profissões que uma mulher pode ter na vida.

- Homens, mulheres e vodca toda noite, Gatão! E ainda ser paga pra isso!

Quando a conheci, pelo Orkut, Jessi tinha 19 aninhos. Idade perfeita pra uma taradinha como ela se perder no lado bom da vida. De família do interior, mal esperou fazer 18 anos: largou o namorado careta, a cidade que não entendia seu cabelo mutante e suas lentes coloridas e se picou pra capital, queria estudar cinema. Dividia um quarto com uma amiga e trampava num espaço cultural, onde via filme de graça e estava sempre conhecendo homens e mulheres interessantes – conhecendo e comendo, claro, que ela desde então já não prestava. Jessi, a pequena tarada.

Mas, como ela gosta de dizer, tinha espaço pra mais adrenalina nas veias de sua vida. Na verdade Jessi queria era ampliar o diâmetro do mundo, o mundo que ela conhecia ainda era pequeno demais pra tanto sonho e tesão que ardiam em sua alma e em seu corpo. Ela precisava de mim e não sabia. Mas antes de mim ainda haveria alguns capítulos em sua vida.

Então o Bukowski abriu vaga pra novas garçonetes. Bukowski, o bar que toda menina má sonha ter no currículo. Era um barzinho rock´n´roll que era meio inferninho, onde as garçonetes faziam uns shows performáticos bem apimentados. Cara, o público enlouquecia, choviam gorjetas. A casa pagava academia pras meninas manterem seus corpinhos em forma e elas tinham até professora de dança. Era bem organizado o negócio. E lá estava a adrenalina que minha pequena precisava.

Ela passou na entrevista, passou no teste de dança e aí ficou faltando apenas o teste final que a professora exigia. Adivinha onde era o teste final? Na cama da professora, claro, professorinha esperta.

Já perfeitamente ciente das delícias que uma xana proporciona, o tal do teste final não desmotivou minha pequena nem um pouco. E ela fez, claro. Mas a professora deve ter ficado com muita dúvida pois em vez de um só, fez um bocadão de testes finais com ela. O resultado é que as duas se apaixonaram, é mesmo difícil não se encantar pela Jessi, e assim a pequena tarada virou garçonete do Bukowski e foi morar com sua professora de dança.

- Melhor que dançar, ela me ensinou a comer direitinho uma mulher, Gatão. Isso não tem preço, tem?

Ninfa Jessi não presta.

Vem desse romance com a professora outro fetiche de Jessi, que hoje ela não dispensa com nossas namoradas: a morena adorava que ela a comesse com aqueles paus de borracha, ficava louca, gozava horrores. Jessi diz que numa dessas vezes, sua morena de quatro e ela metendo forte, por alguns instantes deixou de ser ela mesma e de repente era um homem, e quase pôde entender realmente, de corpo e alma, o que é ser homem. Foi algo meio místico, que nunca mais se repetiria com a mesma intensidade, mas que sempre volta quando ela está dentro de uma mulher, e também quando ela me vê dentro de uma mulher – nesses momentos seu olhar sempre busca o meu, como se nele pudesse reencontrar a louca sensação que ela uma noite teve. Como se através de mim e do nosso amor, trepando com nossas namoradas, ela pudesse enfim ser o homem que ela não é.

NinfaJessi-027Durante seis meses Jessi experimentou a felicidade que jamais tivera em sua vida. Tinha o emprego dos seus sonhos, ganhava bem, era querida por todos os clientes e vivia seu lindo caso de amor. Seus shows no Bukowski? Eram dos mais aguardados, principalmente quando ela atuava com Sheilinha, a Sheila Dinamite. Todas as meninas tinham nomes artísticos e vem dessa época seu nome, Ninfa Jessi, bolado pela professora. Nome perfeito, combinava demais com ela, com os modelitos de ninfeta que ela usava, os lacinhos no cabelo – e, é claro, com seu apetite sexual. Não haveria nome melhor.

Mas nesse mundo os ventos mudam, né? O primeiro grande amor da vida de Jessi durou até o dia em que um vento em forma de loirinha desempregada bateu lá no Bukowski pra fazer teste pra garçonete. Exatamente, a professora trocou Jessi por ela. Pobre Jessi, sofreu pra caramba. Deixou o apê da professora e alugou uma quitinete. Mas o pior era ter que encontrar sua paixão quase todos os dias e se morder de ciúmes sempre que chegava garçonete nova na casa.

Foi por esses dias aí que fui lá no Bukowski. Nossa amizade, que havia começado numa comunidade bluseira do Orkut – sim, foi o blues crônico da vida que fez nossos caminhos se cruzarem – estava no estágio messenger. Já apaixonado pela pequena tarada, como ela mesma se chamava, e sabendo que ela estava no Bukowski, me piquei pra lá. Cara, paguei a maior grana pra entrar, e tudo que eu tinha no bolso só deu pra tomar duas cervas. E ela nem me viu. Mas valeu a pena. Foi a primeira vez que meus olhos pousaram diretamente em Ninfa jessi. E vê-la ali, com seu jeitinho cativante de moleca safada, dançando nua no balcão com outra menina, putamerda, foi inesquecível. Era a mulher perfeita, inacreditavelmente perfeita, assustadoramente perfeita. A Deusa-Ninfa dos meus sonhos que nem nos melhores sonhos eu havia sonhado. E sabe quando bate aquela certeza fulminante e inexplicável no destino? Bateu. No Bukowski, apertado no meio de outros caras e outras meninas que assistiam ao show, eu tive a calma certeza que ali estava a mulher da minha existência, a deusa que seguiria comigo pela vida. O motivo de eu acordar todos os dias com aquela dilacerante saudade do que eu nunca tinha vivido.

Faltava só ela também saber disso.

(continua)

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Ricardo Kelmer 2009 – blogdokelmer.wordpress.com

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NinfaJessiGarconetes-01d> A continuação do conto, contendo fotos de Ninfa Jessi e de um show no Bukowski, além do Álbum das Garçonetes, está disponível aqui (somente para Leitor Vip)

> Mais aventuras de Diametral e Ninfa Jessi

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Protegido: A garçonete da minha vida (VIP)

Julho 8, 2009

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A mulher livre e eu

Junho 7, 2009

A liberdade dessa mulher reluz no seu jeito de ser o que é – e ela é o que todas as outras dizem ou buscam ser, mas só dizem e buscam, enquanto ela tranquilamente… é

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CasalTrem-01aÉ ela quem eu quero, a dona dessa boca. A boca docemente familiar que amanhece de mansinho na minha quando desperto de mais uma madrugada de sonho e suor. Porém, bem mais que a boca, é o beijo da liberdade dessa mulher que me refresca a vida.

É ela quem eu desejo, a dona desse corpo. O corpo que me sugere as mais poéticas indecências e me convida a desvendar os segredos que eu já sei de cor e quando estou lá, puff, de repente já não sei mais e então me perco por seus montes e planícies e cavernas e ao fim de tudo me contorço e urro e explodo no mais puro prazer de me perder. Porém, bem mais que no corpo, é na liberdade dessa mulher que a vida se desnuda pra mim.

É da presença dela que eu preciso, ela que me traz a certeza que não seguirei só. É de sua voz que carecem meus ouvidos, a voz que me embala a alma de blues e me faz convidá-la: vamos dançar, meu amor? É o meu olhar no seu que vejo quando nada mais vejo no breu das incertezas. Mas, sobretudo, é a liberdade dessa mulher que me clareia o caminho.

Ela é livre porque, apesar de ter nascido imersa numa cultura, cedo entendeu que não deveria limitar-se às suas regras e assim modelou seu ser com o que de melhor ela mesma encontrou pelo mundo. Evidente que esse não limitar-se às convenções fará dela uma eterna transgressora a incomodar os que só admitem o mundo pelas lentes de sua cultura e religião. Mas esse é o preço da alma liberta, ela sabe. E eu faço questão de pagar junto dela.

Houve um tempo que ela entendia seu corpo como algo contra o qual deve lutar todos os dias – até que percebeu que sua verdadeira beleza não vem de cosméticos mas de sua alma harmonizada com os ritmos naturais da vida. Hoje ela não precisa gastar para ficar chique e bonita pois a elegância da simplicidade há muito a fez sua modelo exclusiva. Sim, a mulher livre possui vaidades mas ela não é boba, sabe que os criadores de moda não almejam a sua felicidade mas a sua escravidão. E quanto a vestir-se pra fazer inveja a outras mulheres, bem, ela não precisa disso pois sabe que mais tarde quem rasgará sua roupa sou eu.

Os mistérios de si, ela vai buscá-los pois sabe que jamais seremos livres sem nos livrarmos do que por dentro nos paralisa e nos faz sabotar a própria vida. Ser livre é ampliar a cada dia a real noção de si, isso ela há muito compreendeu, e é por esse motivo que os que se libertam não se enganam mais como antes e, por serem verdadeiros, mais verdadeiras são suas relações.

E por bem saber o que ela é e o que não é, essa mulher nada tem a provar a ninguém. Se interpretam erroneamente seu jeito espontâneo, ela ri ainda mais do que pensam dela. Se seus desejos transcendem os velhos modelos sexuais, ela festeja e os divide generosa com eles ou elas, e em nome de seu sagrado prazer ela é a cadela devassa, a santa dadivosa da luxúria, a puta mais linda e desvairada que há.

A liberdade dessa mulher reluz no seu jeito de ser o que é – e ela é o que todas as outras dizem ou buscam ser, mas só dizem e buscam, enquanto ela tranquilamente… é. Por não estar apegada a poder e dinheiro, ela é a mais rica e poderosa de todas. E é justamente por saber que a velhice é o segredo final da sabedoria que a vida todo dia vem banhá-la de alegria e vesti-la com esse jeitinho de menina encantador.CasalDanca-04a

É esta a mulher que dança pela vida comigo, duas individualidades que se harmonizam mas não se anulam em estúpidas noções de controle e compromisso: amamos o outro e não a posse do outro. Estamos juntos porque finalmente encontramos a liberdade que admira, acolhe e incentiva a nossa própria e até nos permite dividir com o mundo o nosso amor. E por não sofrer temendo perder quem na verdade nunca possuímos, mais vivemos e gozamos o melhor amor que temos pra nos dar.

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Ricardo Kelmer 2009 – blogdokelmer.wordpress.com

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EmBuscaDaMulherSelvagem-02base4bMais sobre liberdade e o feminino selvagem:

> A mulher selvagem - Ela anda enjaulada, é verdade. Mas continua viva na alma das mulheres
> A mulher livre e eu – A liberdade dessa mulher reluz no seu jeito de ser o que é – e ela é o que todas as outras dizem ou buscam ser, mas só dizem e buscam, enquanto ela tranquilamente… é
> Em busca da mulher selvagem – Era por ela que eu sempre me apaixonava, essa mulher que era quem ela mesma desejava ser e não a mulher que a família, religião e sociedade impunham que ela fosse
> Amor em liberdadeO que você ama no outro? A pessoa em si? Ou o fato dela ser sua propriedade? E como pode saber que ela é só sua?
> As fogueiras de Beltane
As fogueiras estão acesas, a filha da Deusa está pronta. O casamento sagrado vai começar

LIVROS

> Mulheres que correm com os lobos - Mitos e histórias do arquétipo da mulher selvagem (Clarissa Pinkola Estés -  Editora Rocco, 1994)
> A prostituta sagrada – A face eterna do feminino (Nancy Qualls-Corbert – Editora Paulus, 1990)
> As brumas de Avalon
- (Marion Zimmer Bradley – Editora Imago, 1979)


As crianças transexuais

Abril 27, 2009

sexualidadetransgenero02aCostumamos entender a infância como uma etapa idílica da vida, onde apenas brincamos e somos felizes, sem preocupações – é o paraíso. Na infância estamos protegidos das crises existenciais que assolam os adultos e não perdemos noites de sono matutando, por exemplo, sobre quem realmente somos ou não somos.

Eu pensava assim mas mudei de opinião após assistir a um incrível documentário chamado My secret self (Meu eu secreto). Ele conta a história de três famílias dos Estados Unidos que têm em comum casos de crianças que nasceram meninos mas se sentem verdadeiramente meninas ou o contrário – e sofrem bastante por isso. Elas são as crianças-transgênero ou transexuais. Para elas, infelizmente a infância será uma fase que elas não terão qualquer prazer em recordar.

O documentário mostra casos de crianças de três anos de idade (sim, três anos) que realmente se sentem meninos em corpos femininos ou meninas em corpos masculinos e por mais que os pais tentem convencê-las do contrário e considerem tudo uma fase que passará, essas crianças crescem infelizes e insatisfeitas com seus corpos, e algumas se mutilam e tentam se matar por não suportarem a incompreensão dos outros e o sofrimento por não poderem ser quem na verdade são.

Que coisa estranha, né? Parece mentira. A princípio eu achei que estava diante de um desses documentários bizarros e apelativos mas infelizmente o problema existe e o que vi me tocou profundamente. Para começar, eu jamais imaginei que crianças tão novas fossem capazes de tal consciência de si e que pudessem viver um drama tão terrível. Sempre achei que o transtorno de identidade de gênero, como o problema é chamado, ocorresse apenas mais tarde, na puberdade ou na adolescência. E, depois, conhecer essas crianças, escutá-las e saber o que elas vivem, e ver o drama da família e amigos, putz, isso muda qualquer conceito tolo que se possa ter em relação à questão da transexualidade.

O objetivo do documentário é justamente esse: fazer com que o mundo saiba da existência desses casos para que a desinformação e o preconceito diminuam. Os cientistas afirmam que o transtorno de identidade de gênero é um tipo de desentendimento entre mente e corpo que surge ainda no útero, durante a formação do feto, e que se manifestará no comportamento em algum momento após o surgimento da noção do eu. Certamente crianças transexuais devem ter existido sempre mas, por ser algo raro e constrangedor, os casos eram abafados. Putz, que espécie louca, a humana. O que ainda haverá para descobrir sobre nós?

Felizmente hoje o problema já é estudado e debatido por cientistas, psicólogos e educadores e existem grupos de apoio às crianças e suas famílias. Atualmente há tratamentos hormonais que modificam o corpo e em alguns casos há cirurgias eficazes para troca de sexo. Porém, até que essas crianças cresçam, façam o tratamento e consigam conviver melhor com o problema, muito sofrimento e preconceito e violência precisarão ser vividos, por elas e por suas famílias.criancachora01

Um estudo da Universidade de São Francisco mostra que em crianças transexuais rejeitadas pela família, são quatro vezes maior as chances de suicídio e abuso de drogas. E duas vezes maior o risco de contrair HIV. É aqui que mora a questão principal desse problema: o apoio a essas crianças. Não será fácil lidar com um filho que na verdade se sente uma filha. Não será fácil ver sua filha vestir-se e comportar-se como o homem que ela se sente. Mas bem pior é ter que encarar todos os dias o sofrimento nos olhos de uma criança que, apesar da idade, sente que está condenada à infelicidade pelo resto de sua vida. Se isso acontecesse em sua família, você apoiaria seu filho? Rejeitaria sua filha?

Não há pior sofrimento que não podermos ser quem de fato somos. Viver uma vida falsa é mais que uma prisão, é um pesadelo, é uma tortura diária. Talvez seja isso mesmo o mais importante de tudo: a liberdade de sermos quem realmente somos. Infelizmente a Natureza escolhe algumas pessoas e as obriga a viver o drama da transgeneridade. Isso parece uma crueldade sem sentido mas fica ainda mais sem sentido quando é uma criança que sofre esse drama. Vê-las tão novinhas perguntando a seus pais por que a vida fez isso com elas é de partir o coração e infelizmente não há resposta para esta pergunta.

Há, porém, o amor e a solidariedade. Há o respeito ao diferente. Não resolverá o problema, claro, mas é o que podemos oferecer, nós que fomos poupados de tal sofrimento.

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Ricardo Kelmer 2009 – blogdokelmer.wordpress.com

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sexualidadetransgenero03a> Veja o documentário
(5 partes, tempo total: 40min)

> Transexualidade na Wikipedia

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O Irresistível Charme da Insanidade 3.2

Abril 5, 2009

O amor insano. O amor desafiador do tempo. O amor que descortina as mais absurdas possibilidades do ser.

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CAPÍTULO 3
2a parte
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Um dia perfeito.

Ainda caía um resto de chuva quando a noite desceu em Tibau do Sul. No pequeno restaurante da dona Zezé Luca e Isadora tomavam um caldo de peixe, ele saboreando cada pedaço daquele delicioso momento: o caldo de peixe, a chuva, a musiquinha na rádio… Luca sentia a cabeça flutuar leve e os pensamentos vagar sem critérios. Pela primeira vez naquela viagem sentia-se verdadeiramente descontraído. Os problemas que o esperavam em Fortaleza pareciam tão distantes… Pertenciam a uma outra realidade e a realidade em que estava naquele momento era feita de chuva, caldo de peixe e uma alegria mansa no coração. E Isadora.

Ele olhou para ela à sua frente, entretida em seu prato, e admirou-se de como ela combinava com o momento, com a chuva que caía lá fora, a simplicidade do lugar… Isadora parecia estar num outro patamar de apreensão das coisas, um patamar que ele não alcançava inteiramente. Sim, era isso, ela sabia perceber a essência daquelas coisas com naturalidade, sem se esforçar, enquanto ele precisava de muitíssimo esforço para… ser simples.

Ele pensava como ela era meio louca, aquelas idéias sobre a vida, sobre deixar-se levar, não fazer planos, aquela confiança cega no destino… Não, aquilo não era normal. Aquela história de vida passada, achar que ele foi seu amante… Aquilo era viagem e das grandes. Na noite anterior, ao redor da fogueira, sentiu-se entre três loucos de hospício, de um momento para o outro eles o agarrariam e o jogariam às chamas.

Mas ela compensava o risco. Pensando bem, ele concluiu, talvez fosse mais vantajoso deixar que ela acreditasse naquela história de amante…

Que horas? Talvez algo entre sete ou oito, calculou. Ou nove ou dez, algo assim. O tempo já não importava, era como estar fora dele. Com Isadora os momentos se tornavam intensos e os detalhes das coisas mais interessantes. Ela o havia arrancado de seu sono e o levara para conhecer as delícias de uma tarde chuvosa, um velho prazer de infância. Correram pela estrada, tomaram cachaça e olharam a chuva debaixo de tetos de palha. Riram de velhas piadas, jogaram pedras ao mar do alto da encosta, comeram milho assado, pegaram carona em caminhão. E agora estavam ali, tomando caldo de peixe. Um dia perfeito. Como todos os dias deveriam ser.

- Eu vi mesmo uma mulher de branco, Isadora – ele falava sobre o afogamento do dia anterior. – Nitidamente. Não deu pra ver o rosto mas me passou uma sensação de paz… Nunca tinha me acontecido nada dessas coisas. Aliás, eu nem gosto dessas coisas.

- Ela era familiar?

- Era como se eu já conhecesse. Vai dizer que também já viu…

- Não, nunca vi.

- Deixa ela pra lá. Me fala mais de você. Fala do taoísmo. Fiquei curioso.

- Quer mesmo ouvir? É meio louco.

- Não diga… – Ele riu. – É uma religião?

- Tem um lado religioso e outro mais filosófico. Prefiro o filosófico. Tem umas contradições desconcertantes. Entorta o raciocínio, sabe? O jeitão ocidental de analisar a realidade, com toda sua lógica científica, engancha nos paradoxos do taoísmo.

- Tá. Mas como é mesmo?

- O taoísmo é um modo intuitivo de entender a realidade. Ensina a captar os movimentos da vida pra agir em harmonia com eles. Tem uns cinco mil anos.

- Como é um taoísta?

- É alguém que tá conectado com as verdades simples e naturais da vida. Hoje em dia a maioria das pessoas se desligou dessas verdades e complicou o que sempre foi simples. Mesmo vivendo no ritmo louco da cidade grande, é possível se manter unido com a alma do planeta, a mente da Natureza. É essa conexão que guia o taoísta por entre todo o caos.

- Conectar-se com a mente da Natureza? Você andou fumando?

- Papo de maluco, né? Mas é a coisa mais natural que pode haver. A Natureza é a vida e a vida, no fundo, é muito simples. Por exemplo, sabe quando a gente se apega demais a uma coisa? Isso é antinatural. Porque aquela coisa tá se transformando o tempo todo e a gente continua apegado a algo que não existe mais. Pessoas, lugares, idéias, tudo muda. Se não mudar, apodrece. Esse dinamismo é o Tao. Se você se harmoniza com ele, fica mais simples viver. A primavera sempre vem, não é? Por quê?

- Pros costureiros lançarem suas coleções.

- Bobo. Ela vem porque as folhas nunca são as mesmas.

- Ahn… Como assim?

- As coisas mudam pra sobreviver. A vida morre pra poder continuar viva. Esse dinamismo, esses ciclos, isso é o Tao.

- O Tao seria Deus?

- O Tao não é uma entidade personalizada como os deuses das religiões. Ele não tem vontade nem tem moral. O Tao já é a própria ação. É o que acontece.

- Não sei se entendi. Aliás nem sei o que é que tem pra entender nisso aí.

- Não dá pra explicar o Tao. Só dá pra sentir o Tao, intuir na vivência do dia-a-dia. É a unidade de tudo que existe, aquilo que liga todas as coisas. É o fluxo natural da realidade, do Universo. Movimento.

- Ah, por isso que você gosta tanto de viajar… Vai uma cerveja?

- Dinamicamente gelada.

- Estar em harmonia com as coisas… Isso me cheira a uma certa passividade, não?

- Pelo contrário. Captar o fluxo do Tao é um trabalho interno. Depois que consegue, você se ajusta às forças da vida. Você muda o mundo mudando a si mesmo. Isso é alquimia interior. Porque o que realmente transforma o mundo são os movimentos internos. Não tem nada de passividade nem preguiça.

- Se o Tao é o fluxo da vida, então nada escapa dele?

- Nada.

- Então pra estar em harmonia com o Tao, basta você ficar parado que o Tao te leva junto. Óbvio. Se isso não é passividade, o que é então?

- Viu? Começaram os paradoxos… – Ela riu. – Não é fácil relaxar no meio da correnteza, Luca. Poucos conseguem. Tem que se soltar, não pode ser rígido. Tem que confiar na correnteza. Se você consegue isso, foi só porque você se tornou uno com a força da correnteza. Tudo tem seu próprio ritmo, seus ciclos de crescimento e morte. E todos os ritmos estão interligados. Capte o seu, relaxe e se harmonize com ele. É assim que a gente se integra com tudo ao redor.

- E se eu quiser ir contra a correnteza? O Tao vai me impedir?

- Se quiser ir contra, pode ir, mas vai viver cansado. Vai ter sempre aquela sensação de que as coisas podem ser melhores mas nunca são. Vai sempre estar começando, lutando, se cansando…

Podem ser melhores mas nunca são… Luca escutou o eco daquelas incômodas palavras.

- Quem é uno com o Tao não precisa fazer nada. E, no entanto, não deixa nada por fazer.

- Agora eu tenho certeza que você fumou.

- Dá um nó, né? – Isadora riu, se achando meio ridícula no meio daquelas explicações todas. – Faz parte. A mente não se rende fácil.

- Me desculpe mas acho que não é dessa vez que vou me converter.

- Converter? Ninguém pode se converter ao taoísmo! O Tao é a natureza das coisas, inclusive a própria natureza da pessoa. Converter alguém ao taoísmo é como forçar alguém a ser natural. Já pensou? Vamos, seja natural, seja natural! Eu tô mandando!

Luca soltou uma gargalhada. Era mesmo um contra-senso.

- O ideograma chinês que corresponde ao Tao é feito de pé mais cabeça. O caminho, o sentido.

- Pra mim tá mais pra “sem pé nem cabeça”… – Ele ria daquele absurdo todo.

- Quem pergunta sobre o Tao não o imagina. E quem responde não o conhece.

- Isso é que é uma discussão de alto nível! Quem pergunta não sabe e quem responde não faz idéia!

- Não faz sentido explicar, Luca… É ridículo! – Ela tentava falar sério mas já não conseguia. E assim se deixaram ficar, num riso sem fim. Se não houvesse gargalhadas não seria o Tao.

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(continua)

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TRILHA SONORA

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Como afugentar um homem

Março 28, 2009

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Mulher é um bicho capaz de conversar dias e dias seguidos, sem cansar, sobre seus sentimentos, sobre o namoro, o casamento, o que vai bem, o que vai mal, como seria se fosse ou como foria se não sesse…

O assunto é sentimento? Então pra mulher cada aspecto dele é um fractal, que pode ser ampliado, ampliado e sempre haverá novos detalhes que surgirão a cada ampliação. E, putz, como mulher se excita quando o assunto é sentimento! Mulher é apaixonada pelo amor.

Já a maioria dos homens prefere conversar sobre futebol, trabalho, política, arte, filosofia, automóvel, sexo, pescaria, o melhor anzol pra pescar, o estojinho do anzol… qualquer coisa menos sentimento. Eles veem mais sentido em falar sobre o que pensam do que sobre o que sentem. Às vezes eu faço este teste: pergunto a um amigo o que ele sente por sua mulher. Geralmente ele resume a resposta em duas ou três palavras e acabou. Isso quando ele não rebate, desconfiado: que pergunta é essa?

É claro que homem sente. Mas como há milênios somos programados desde a infância pra nos mostrarmos fortes e infalíveis, e sentimento é algo que pode fragilizar qualquer um, nós evitamos expor o que sentimos, até pra nós mesmos. E de tanto reprimir os sentimentos, acabamos muitas vezes até mesmo sem saber o que realmente sentimos. Ô racinha… E, assim, o reino Yin dos sentimentos a cada dia se torna pro homem uma terra cada vez mais estranha e hostil. Melhor manter distância dela. Melhor falar de algo que seja mais racional. Como a melhor fechadura pro estojinho do anzol.

o reino hostil dos sentimentos

A mentalidade patriarcal, sobre a qual foi construída nossa querida cultura, sempre desprezou os valores ligados ao feminino, ao Eros (relação). Claro, pois só assim a mentalidade maculina dominante, ligada ao Logos (conhecimento, razão) poderia se manter, sempre fazendo parecer menos importante o que é ligado à mulher. Dessa forma, a agressividade vale mais que a suavidade, cultura e civilização valem mais que a Natureza e a razão é mais importante que o sentimento. O Yang é melhor que o Yin. Logos é melhor que Eros.

Pra grande parte dos homens, sentimento é sinônimo de fraqueza. Mesmo que sinta, o homem evita demonstrar pois sabe que isso pode comprometê-lo diante dos outros homens. Com os amigos, ele dificilmente se sente à vontade pra falar de seus relacionamentos sob a ótica do sentimento. Amigos dificilmente se perguntam sobre o que sentem, como anda a relação com a mulher, se estão felizes, inseguros… Imagina! Tá metendo?, então tá tudo ótimo!

Mas as coisas estão mudando. Até porque a evolução psicológica da espécie não prosseguirá se ela não conseguir equilibrar os princípios femininos e masculinos que compõem a psique – algo cada vez mais urgente. E essa evolução se dá à medida que cada um se torna um ser psicologicamente mais equilibrado, mais autoconsciente. No homem isso significa reconhecer valores Yin e integrá-los à consciência, e na mulher é o oposto.

Se a mulher já tá numa segunda fase de sua revolução feminista, repensando os exageros e entendendo que não tem de ser igual ao homem (aleluia!), o homem, coitado, ainda tá procurando o isqueiro pra queimar o sutian, quer dizer, a cueca. Aos poucos, porém, ele perde o medo de assumir os sentimentos e de mostrar que nem sempre é forte e infalível. Os que fazem isso costumam ser mal interpretados, até pelos próprios amigos, mas é assim mesmo, sempre haverá os soldados da linha de frente, aqueles que recebem as primeiras balas.

E as mulheres? Elas também têm ainda o que aprender. Se o homem precisa urgentemente reconhecer o valor dos sentimentos e aprender a cuidar mais das relações, a Homa sapiens necessita, por exemplo, entender que não se pode por mais peso numa relação do que ela suporta carregar. É bom se atirar nos braços do homem amado, sim, claaaaro. É maravilhoso se jogaaaar de braços abertos e ser amparada pela própria relação, sim, é maravilhoso, é lindo, é tudoooo!!! Mas cuidado, fia. Senão ele perde o equilíbrio e a relação desaba com esse peso todo.

afugentando o homem

Vai mais devagar, menina. Não é você quem sempre faz questão das preliminares no sexo? Por quê? Porque seu ritmo é outro. A rapidez e a ansiedade sexual masculina já fizeram você se sentir quase que estuprada? Já? Poizentão. É assim que ele às vezes se sente na relação, sabia?

Velha tendência feminina, essa ansiedade louca pelo amor, essa mania de fazer a relação ocupar todo o espaço na vida de ambos… Isso costuma sufocar o homem, que tende a valorizar a individualidade mais que a mulher. Quer afugentar um homem que tá começando a gostar de você, fia? Então não perca uma chance de pressionar o infeliz em relação a seus sentimentos. Sufoque o desgraçado todo dia com o doce travesseirinho da relação. É tiro e queda.

- O que você tem, Maria Adélia?

- Tô chateada com você, Lindomar.

- Por quê?

- Você esqueceu que dia é hoje.

- Eu? Calma, deixa ver… Tem um calendário aí?

- Tá vendo? Você não se importa nem um pouco com a gente. Pra você tanto faz. Mas aposto como você sabe direitinho o dia em que o Fortaleza vai jogar a semifinal, ah, isso tenho certeza que você não esquece.

- Peraí, Maria Adélia, peraí… Hoje é… hoje… Ah, desisto. Que dia é hoje?

- Hoje, Lindomar, exatamente hoje, faz quatro dias que a gente se conheceu.

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Ricardo Kelmer 2007 – blogdokelmer.wordpress.com


Razão e sentimento em conflito (Don Juan DeMarco)

Março 13, 2009

donjuandemarco008aO filme Don Juan DeMarco é mesmo maravilhoso. Sua história é boa e divertida, o roteiro perfeito, os atores estão muito bem e a trilha sonora é linda. As mulheres suspiram com o romantismo da trama, a poesia das imagens, a vitória do amor. É um filme que traz bons temas para discussão, como o donjuanismo e a dificuldade da ciência médica de lidar com o que ela diagnostica como loucura. No entanto, em minha palestra Razão e Sentimento em Conflito, uso o filme para falar de outro tema: o conflito entre intelecto e coração.

Não é à toa que esta palestra é uma das mais solicitada por empresas. Cada vez mais elas percebem a urgente necessidade de terem funcionários psicologicamente equilibrados. O motivo é óbvio: pessoas harmonizadas consigo mesmas aprendem melhor, produzem melhor e vivem melhor. Investir na saúde de seus funcionários, física e psicológica, é um excelente investimento para qualquer empresa.

Em Don Juan DeMarco temos dois personagens em conflito: o psiquiatra renomado e o jovem problemático. O psiquiatra tem sua vida inteiramente regida pela lógica científica, ele é racional ao extremo, sempre frio em suas conclusões. O jovem é o oposto: sua vida é puro sentimento e emoção e ele só enxerga a vida pelas lentes da poesia, da aventura e do amor. Qual dos dois está certo?

Os dois estão errados. A prova disso são suas próprias vidas: o médico está cansado e desestimulado e seu casamento perdeu a paixão. E o jovem, frustrado por um amor não correspondido, desistiu de viver. Ambos perderam a vitalidade, o tesão pela vida. O motivo: eles esgotaram as possibilidades que razão e sentimento, sozinhas, têm para oferecer.

Razão e sentimento são funções psicológicas que auxiliam o ego a lidar com a realidade. Porém, quando o ego se apega demasiadamente a uma delas, ocorre o desequilíbrio psíquico e surgem os insucessos em vários aspectos da vida. A razão sempre busca entender a realidade pela ótica do intelecto, que é incapaz de abarcar toda a complexidade da vida. A razão não quer exatamente ser feliz: ela quer ter razão, sempre. Certamente você conhece alguém assim, que só admite a lógica racional para explicar a tudo. E o sentimento entende a realidade pela ótica da sensibilidade emotiva, o que também é insuficiente para lidar com a grandeza da vida. Muitas pessoas agem assim, achando que a pureza de seus sentimentos a tudo resolverá.

Em algum momento da vida o crescimento psíquico exigirá do ego o equilíbrio dessas funções. Se seguir a diretriz autocurativa de sua própria psique, a pessoa saberá conciliar razão e sentimento e sairá do conflito renovada. Passará a se relacionar com a vida usando as duas funções de modo equilibrado e consciente, sabendo reconhecer as ocasiões em que deve usar mais intelecto ou mais coração.

Tanto nos relacionamentos com a família, com amigos ou num casamento, como também no dia-a-dia profissional, esse equilíbrio psíquico é fundamental. Assim como o psiquiatra frio e o jovem romântico tiveram que entrar em intenso conflito antes de integrarem em si o que lhes faltava, às vezes é preciso chegarmos a um ponto crucial de desequilíbrio interno, que causa o desequilíbrio externo, e afundar na crise para, somente assim, reconhecer e integrar o que nos falta e sermos mais inteiros e harmonizados com nós mesmos, com os outros e com o mundo em volta.

Portanto, é bom ficar atento. Se a vida parece ter chegado a um ponto insustentável e viver de repente tornou-se uma sucessão de dias sem sentido, talvez esteja na hora de aceitar o outro lado que até agora negamos em nossa própria alma, mesmo que, a princípio, esse outro lado pareça limitado ou ingênuo. Ou louco demais.

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Ricardo Kelmer 2007 – blogdokelmer.wordpress.com.br

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donjuandemarco01.

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> Veja as cenas iniciais do filme
(7,21 min)

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> Saiba mais sobre as palestras


O Irresistível Charme da Insanidade 3.1

Fevereiro 3, 2009

O amor insano. O amor desafiador do tempo. O amor que descortina as mais absurdas possibilidades do ser.

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CAPÍTULO 3
1a parte
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Luca abriu um olho, depois outro e finalmente os dois juntos. Ainda estava escuro e fazia frio. Ajeitou-se sob a coberta, lembrando a noite anterior, Isadora e sua tal vida na Espanha, Catarina, o bruxo português…

Súbito escutou seu nome. A voz de Isadora. Levantou-se e, enrolado na coberta, puxou o zíper da barraca. Chovia fininho.

- Serviço de despertador, senhor. Meio-dia.

- Meio-dia! – ele se assustou. – Dormi demais…

- A gente vai embora amanhã. Que tal um passeio de despedida?

- Com essa chuva aí?

- Claro. Há quanto tempo você não brinca na chuva?

Ele esfregou os olhos, pensando na capacidade que ela tinha de dizer certas coisas como se fossem as mais simples e lógicas do mundo. Isadora sorria à sua frente, tão bela e natural que passear na chuva tornou-se de um segundo para outro a coisa mais lógica da vida.

Quinze minutos depois seguiam pela estradinha de areia em direção à praia. A chuva caía leve, formando poças e emprestando ao ar um frescor relaxante. Em pouco tempo estavam ensopados.

- Se eu chegar gripado na copiadora vai ser uma merda…

- Ai, Luca… Esqueça que pode ficar doente. Não vai ficar. Depois da curva tem uma bodeguinha. Lá você toma cachaça com limão.

- Peraí, eu não comi nada ainda…

Mas ela já saía correndo à sua frente. Luca apressou o passo, desajeitado, a água escorrendo pelo rosto. Isadora já havia sumido. Ele começou a correr e um chinelo atolou na poça de lama.

- Isadora, me espera!

Então de repente ele lembrou que um dia… muito tempo atrás… uma noite… E parou de correr, tomado pela inquietante sensação de já ter vivido aquele momento antes, em algum tempo longínquo, quando? Isadora sumindo na chuva, sumindo, os pingos nos olhos, um trovão ecoando, ele ali parado, ofegante, ela sumindo, ele gritando seu nome… Onde vivera aquela mesma cena, e quando, em que impossível tempo?

Continuou ali, parado sob a chuva, absorvido pela sensação de já ter vivido tudo aquilo. Mas foi por pouco tempo pois logo dominou-o um angustiante pressentimento de que se não corresse, aquela mulher sumiria de sua vida mais uma vez.

Mais uma vez?

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(continua)

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TRILHA SONORA

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