Protegido: A garçonete da minha vida (VIP)

Julho 8, 2009

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O último homem do mundo (8)

Abril 9, 2009
O sonho de Agenor é que todas as mulheres do mundo o desejem. Para isso ele está disposto a fazer um pacto com o diabo. Mas há um velho ditado que diz: cuidado com o que deseja pois você pode conseguir…

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CAP. 8

No dia seguinte um conhecido repórter da rádio local, de modos muito delicados, e que fazia uma reportagem sobre a epidemia, cismou de querer entrevistar algum homem que ainda estivesse com suas funções de macho normais. Acionando seus contatos e perguntando daqui e dali, o repórter soube do carteiro Agenor. Animado com a descoberta, alcançou-o no momento em que, fim de expediente, trabalho terminado, o moço se encaminhava para matar uma barata lá para o lado do açude. Porém, tímido como era, Agenor nem deixou que o repórter lhe explicasse o motivo da entrevista e saiu correndo.

Naquela mesma noite a reportagem foi ao ar. Não continha a entrevista de Agenor, claro, mas falava dele, e muito. E bem.

Dez minutos após terminada a reportagem já tinha gente em frente à casa do carteiro Agenor. Dois amigos e sete vizinhas. Dona Fafá disse que o filho não estava mas que não devia demorar a chegar. Todos resolveram aguardar, os dois amigos e as sete vizinhas. Oito, porque chegou mais uma. Aliás, nove.

Do outro lado da cidade, Agenor pediu que a garota parasse um pouquinho com o vai-e-vem sobre seu corpo porque ele acabara de escutar seu nome no rádio.

– Preciso ir para casa – ele falou, afastando a garota. – Mamãe deve estar preocupada.

– Ah, fica mais um pouquinho…

Era a terceira vez que escutava aquela mesma frase naquele dia.

Alguns minutos depois Agenor dobrou a esquina de sua rua e tomou um susto. Havia um bando de gente em frente à sua casa. Ele se escondeu atrás de uma árvore, com medo, enquanto pensava o que fazer. Decidiu entrar pelos fundos.

– Filho, aquilo que saiu no rádio é verdade? – Foi a primeira coisa que a mãe perguntou, ao abrir a porta do quintal para ele entrar.

– Mãe, a senhora viu? Está cheio de gente lá fora.

– Na sala também. O Chico da Magnólia, seu tio Ferreirinha… Suas primas também estão aí. Até o prefeito veio.

– Pode dizer para todo mundo que eu viajei.

– Mas…

– Vai, mãe. Vou esperar aqui.

Agenor escondeu-se no quartinho dos fundos enquanto dona Fafá voltava à sala.

– Foi um custo mas foram embora – ela disse, retornando. – Agora me conte direito essa história.

Agenor falou que não sabia o que estava acontecendo. Mas estava muito preocupado com tudo aquilo.

– Então vá dormir, filho, que é melhor. Estou vendo que você está cansado. Trabalhou muito hoje, né?

Agenor pediu a bênção e foi para o quarto. Mas sono que é bom, não teve, não conseguiu pregar o olho. Sem falar que no meio da madrugada uma vizinha conseguiu entrar pela janela e se atracou com ele, foi um custo soltá-la, a moça pedindo pelo amor que ele tinha a Nossa Senhorinha que também desse uma chinelada em sua barata, que ela andava muito precisada. E já perto de amanhecer foi a Jaciara, filha do dono do cartório, que todo mundo desconfiava ser meio destrambelhada do juízo. Pois ela provou que era mesmo: trepou-se no telhado da casa, e ficou lá em cima, nua, berrando para o mundo inteiro ouvir que estava grávida de Agenor e que ele devia casar com ela. Mentira, claro, Agenor nunca nem tocara na moça, e ela antes nunca nem tinha olhado para ele.

Assustado e exausto pela noite em claro, Agenor decidiu que o melhor era ir embora.

– A gente pode mudar de endereço.

– Não vai adiantar, mãe.

– O mundo lá fora é tão perigoso, filho. Essas mulheres todas se enxerindo para você…

Agenor olhou para a mãe e sentiu uma pontada de tristeza magoar seu coração. Súbito percebeu o quanto estava sendo egoísta. Como podia pensar em abandonar sua mãe querida, deixá-la sozinha? Pensava apenas em si mesmo, esquecera da mãe. Como podia ser tão ingrato com aquela que lhe deu a vida, que o criou e nutriu?

Então se achegou no colo da mãe, que o abraçou forte, abraço sentido, apertado, seu corpo envolvendo o do filho amado… Agenor fechou os olhos e deixou-se levar por aquele abraço gostoso, o mormaço aconchegante dos seios de dona Fafá, que o apertava mais forte contra si, mais forte, mais forte…

Agenor abriu os olhos. O rosto afundado entre os seios grandes da mãe, quase não conseguia respirar. Um terror repentino se apossou de sua alma. O que estava fazendo?

– Tenho que ir embora, mãe… – balbuciou, levantando-se. – A senhora me perdoa?

– Eu sabia que um dia você ia partir, filho.

Ela então foi ao quarto e voltou com umas notas que tirara do fundo da gaveta.

– Guardei esse dinheirinho para você. É muito não mas ajuda. Tome, leve. Vou ligar para minha irmã Zulmira para ela lhe receber.

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(continua)

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Diâmetros exaltados

Março 26, 2009
As aventuras de Diametral e Ninfa Jessi
Jessi é uma pequena que conheci, adivinha onde, no Orkut. Linda, louca e gostosa. Tem duas manias: uma é trocar a cor do cabelo. A outra é ampliar o diâmetro comigo. Comigo e umas namoradas que ela arruma pra gente se divertir

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O júri decidiu que Diametral é culpado das acusações de incentivo ao sexo promíscuo e doentio entre os jovens brasileiros. A pena é assistir durante um ano a todos os programas religiosos do MNBC na madrugada. Faça-se cumprir.

Aaaahhh!!! Acordo de repente, sobressaltado. Olho ao redor. Estou no quarto do motel. Ninfa Jessi dorme nua ao meu lado. Ufa, foi só um sonho ruim… Levanto, afasto devagar a cortina da janela e observo. Lá fora o jipe no estacionamento, o luminoso do motel Centelha Vermelha, a estrada escura e deserta. Está tudo bem, eles não têm nossa localização.

Volto à cama. Jessi murmura algo e me abraça. Melhor dormir, amanhã cedo seguiremos. Mas a lembrança dos últimos acontecimentos insiste. Tudo começou quando conheci aquele site de relacionamentos…

Julho de 2005. Lá estou eu me cadastrando no Orkut. Esse negócio virou mania no Brasil. Tem gente que vive lá conectado e só sai pra comer e dormir, isso quando não dorme sobre o teclado. Tem mulher que conheceu o marido lá. É lá que muito marido monitora as paqueras da mulher. Tem de um tudo. Outro dia conheci uma comunidade que luta pela liberdade dos pinguins de geladeira. Claro que entrei.

Novembro de 2005. Crio em meu site pessoal uma seção chamada Submundo Orkut, pra comentar o que rola nessa tal dimensão onde milhões de brasileiros vivem parte de suas vidas. É, eu assumo, sou bisbilhoteiro do comportamento alheio. Por falar nisso, algo que sempre me chamou a atenção foi aquela frase de boas-vindas que consta na página de abertura: Participe do Orkut para ampliar o diâmetro do seu círculo social. Que frase mais esdrúxula! Comento com Jessi e ela solta sua gargalhada inconfundível. Jessi é uma pequena que conheci, adivinha onde, no Orkut. Linda, louca e gostosa. Tem duas manias: uma é trocar a cor do cabelo. A outra é ampliar o diâmetro comigo. Comigo e umas namoradas que ela arruma pra gente se divertir. Ninfa Jessi.

Junho de 2006. A crônica Ampliando o diâmetro é publicada na Kelméricas, minha coluna semanal no site do jornal O Povo. O texto é uma gozação sobre essa tal frase do diâmetro.

Dia seguinte. Recebo as primeiras mensagens. São os leitores, a grande maioria me parabeniza pela crônica. Alguns não gostam e, entre esses, um se diz integrante de um tal MNBC, Movimento Nacional pelos Bons Costumes, e afirma que solicitará ao jornal a minha saída do quadro de cronistas. E completa ameaçando me processar por incentivo ao sexo promíscuo e doentio entre os jovens brasileiros. Não acredito… Jessi fica indignada: Esse povo devia é ter mais senso de humor, em vez de ficar se preocupando com o diâmetro dos outros!

Próximo dia. Pelo sim pelo não, lá estou eu no computador, xícara de café ao lado, buscando informações sobre esse tal de MNBC. Não encontro nada. Será que era pegadinha? Descubro porém que a direção do jornal de fato recebeu protestos de uma meia dúzia de dois ou três leitores indignados com meu texto. Hummm, talvez o MNBC seja uma entidade meio secreta, tipo Opus Dei, que reúne gente estranha em reuniões noturnas e não divulga suas atividades. Desligo o computador e vou pra janela respirar. E percebo que alguém me observa do prédio ao lado. Hummm, não estou gostando disso…

Semana seguinte. Coisas estranhas estão acontecendo. Pessoas me seguem na rua. O telefone toca e quando atendo, desligam. Talvez seja melhor ficar em casa. Pra garantir, melhor fechar todas as janelas. Melhor também não atender o telefone. Na terça entrei no elevador e reparei nas duas mulheres que entraram depois de mim: saias abaixo do joelho, blusinha comportada, cabelo preso, um livro grosso e escuro ao peito… Pregadoras do MNBC!!! Saí correndo, apavorado.

Julho de 2006. Estão batendo na porta. Não vou atender, são eles, vieram me pegar, é o meu fim… Mas reconheço a voz: é Jessi. Abro e vejo uma Jessi ruiva, até que ficou bonito. Ela me olha sério. E diz que tem algo importante pra me dizer. E diz: Entrei pro MNBC. Fico olhando pra ela, sem acreditar, não é possível… Ela então sorri, sobe a camiseta e me exibe aqueles peitos impossíveis que ela tem. E completa: Movimento das Ninfômanas Bem Comidas. E me empurra pro sofá, rindo e já desabotoando minha calça.

Vinte minutos depois, suados e abraçados no sofá, Jessi diz que não posso permitir que um bando de careta recalcado destrua minha vida. Mas fazer o quê? E ela responde: Ora, Gatão, o que a gente sabe fazer melhor… sexo e humor. Quando ela fala, tudo é óbvio. Vamos, pega a mochila, tá na hora, e não esquece o notebook. Pergunto o que planeja e ela sobe na cadeira, solene: Vamos ampliar o diâmetro do mundoooo!

Cinco dias depois. Pelo retrovisor o Centelha Vermelha vai ficando pra trás. À frente a estrada nos convida a novas aventuras. Ninfa Jessi estava certa, eu não podia continuar aceitando aquela situação. Pois bem. Não sou mais aquele cara medroso, agora eu sou… Diametral! E minha missão é horrorizar os caretas com os meus textos. Vocês pediram, caretas imbecis! Enquanto dirijo, Jessi revisa minha crônica da semana e se irrita com a forma poética com que descrevi nossa última trepada, e diz que meus leitores querem ver mais sacanagem. Meus leitores e você, corrijo. Ela solta sua gargalhada e depois faz biquinho: Então publica aquela fotinha que eu tirei no motel, vai… Oquei, pequena. O que ela não me pede sorrindo que eu não faço gemendo?

Duas horas depois. Paro o jipe na estrada pra abastecer. Desço e olho o céu, o horizonte está escuro, ameaçador. Sopra um vento gelado, papéis voam… Dias difíceis virão, digo pra mim mesmo. Entramos na lanchonete e pedimos duas cervas. Num canto uns caras feios tocam Não me peça pra te amar, sempre bom ouvir um blues. Jessi me mostra a notícia no jornal: MNBC procura cronista fugitivo. Sorrio discreto por trás do óculos escuro. Hummm, perigo: a garçonete está olhando demais…

Ei, você é o Diametral!, ela exclama, alegre. Psiu, não espalha…, respondo aliviado. Eu também não gosto do MNBC, ela diz, toda cúmplice. Entrego-lhe um cartão, acessa minha coluna, boneca, e deixa tua mensagem de apoio pra nossa luta. A garçonete guarda o papel no bolso e faz sinal de positivo. Ela é a Ninfa Jessi?, pergunta, surpresa. E Jessi, que adora uma garçonete, responde, inclinando-se e expondo seu decote irresistível: Em carne, osso e hormônios. A garota parece hipnotizada.

Pedido atendido, pequena

Pedido atendido, pequena

Pago as cervejas e deixo uma boa gorjeta. Jessi pergunta se a garota quer um autógrafo. Ela gagueja que si-si-sim. Tem preferência de lugar? E a garota nã-nã-não sabe o que dizer. Ninfa Jessi então a puxa pela cintura e… tasca-lhe um beijo na boca daqueles que não acaba nunca. Depois larga a garota que fica lá, extasiada. Ai, ai, Jessi não presta.

Na mesa ao lado uma senhora está simplesmente hor-ro-ri-za-da. Vejo que ela veste saia abaixo do joelho, cabelo preso, segura uma bíblia… Pronto, logo o MNBC saberá que estivemos aqui. Levanto e caminho pra saída: Vamos, pequena, tem muita estrada pela frente. E Jessi me segue, retocando o batom: E muito diâmetro pra ampliar!

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Ricardo Kelmer 2006 – blogdokelmer.wordpress.com

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> Este texto integra o livro Vocês Terráqueas
> Este texto integra o livro Blues da Vida Crônica

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> Ampliando o diâmetro – como tudo começou
> Mais aventuras de Diametral e Ninfa Jessi

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O último homem do mundo (7)

Janeiro 12, 2009
O sonho de Agenor é que todas as mulheres do mundo o desejem. Para isso ele está disposto a fazer um pacto com o diabo. Mas há um velho ditado que diz: cuidado com o que deseja pois você pode conseguir…

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CAP. 7

Desde o primeiro caso notificado em Jubá tinham se passado quase seis meses e as estatísticas mostravam que mais de noventa por cento da população mundial masculina fora afetada pela repentina impotência e os casos prosseguiam aumentando, sem poupar nem os adolescentes, coitados, mal entrados no assunto. Podia-se realizar inseminação artificial nas mulheres, é claro, mas isso não resolvia o problema. Muito menos explicava.

Enquanto isso médicos e terapeutas faturavam alto com o desespero, pais de santo engordavam a conta bancária, pomadas e sprays milagrosos surgiam às centenas e os vibradores viraram itens obrigatoríssimos no comércio inteiro, fazendo surgir inclusive um projeto de lei que incluía o vibrador na cesta básica.

Enquanto o mundo vivia seu terrível pesadelo, naquele domingo Agenor acordou sorridente. Após dois sorvetes na lanchonete e três noites de conversa mole na porta de sua casa, Dorinha aceitara seu pedido e agora estavam namorando, ela que já fazia algum tempo comprovava, nas despedidas ao portão, que aquele romance tinha, literalmente, onde se segurar. E para comemorar o namoro, ela conseguiu folga no restaurante e passaram o sábado na lagoa bebendo vermute. No final, já noite escura, ela o puxou para si e ali mesmo sacramentaram o nheco-nheco, ele alegríssimo, ela em desesperado ardor, como se havia muito não soubesse como era um homem, coitada. Nessa noite ela foi a mulher mais feliz do mundo e, embora não houvesse muitas estrelas no céu, Dorinha viu todas elas, de pertinho, brilhando em todas as cores, uma constelação de felicidade.

Quando as amigas de Dorinha souberam que ela estava namorando Agenor e andava cantarolando alegre e vistosa, chegaram à mais óbvia das mais óbvias das conclusões. Assim foi que a partir desse dia, Agenor pôde perceber uns olhares mais insinuantes pela rua e por onde quer que fosse.

Belo dia, ao receber a correspondência entregue por Agenor, a moça da butique, de nome Carmela e apelido Botinha, que por sinal era prima da Dorinha, mas, ao contrário da prima, nunca se prestara a saliência na frente do portão, perguntou mui delicadamente a Agenor se por um acaso ele não faria a gentileza de matar uma barata voadora que teimava em não querer deixar o depósito lá atrás, ela que tinha pavor de barata, quanto mais voadora. Agenor, muito solícito, se dispôs. Quando chegou ao depósito foi que percebeu que era outra a barata. Embora a moça não fosse lá muito bem dotada de atributos físicos, tendo, inclusive, de usar bota ortopédica, daí o apelido, por causa de uma perna maior que a outra, sem falar num braço seco que furou no prego, Agenor foi solidário, ah, foi sim, e fez com que a danada da barata se aquietasse. E voltou para a rua de ânimo revigorado, nem ligando para os cães que detestavam carteiros.

Mas em cidade pequena as notícias correm que nem fogo morro acima. Dois dias depois elas foram dar no ouvido de Dorinha que, depois de largar meia dúzia de mãozada na cara da prima traidora, tratou logo de tomar providências contra o perigo que seu patrimônio corria. O que fez: botou as amigas, todas de altíssima confiança, para acompanhar a trajetória do namorado pelas ruas da cidade, olheiras a bem dizer, uma vez que ela mesma não podia fazê-lo, já que pegava no batente o dia inteiro no restaurante.

Uma semana depois Agenor já havia sido requisitado para matar duas dezenas de baratas pela cidade, inclusive na casa das tais olheiras, algumas delas crentes, irmãs em Cristo, sim, que Cristo, bom que se diga, não tem nada a ver com certas agonias femininas que costumam dar no final da tarde, quando o sol desce em Jubá e sopra um ventinho fresco que se intromete por baixo das saias.

Dorinha, de sangue quente por causa da crescente fama do namorado, agarrou-o pelo cangote no meio da praça e deu o ultimato: ou ela ou as baratas, que ela não era mulher de dividir com as outras aquilo que de direito era só dela.

Agenor pensou um pouco. Não era sua intenção magoá-la, Dorinha era mulher boa e ele gostava muito dela. Mas é que as baratas… Bem, elas lhe acenavam com um horizonte bem mais amplo de possibilidades, digamos dessa forma. Andava até pensando em montar uma firmazinha de dedetização, o mercado era promissor.

Ficaria com elas, as baratas. Foi o que respondeu.

Quem estava na praça viu quando o tabefe de Dorinha estalou no pé da orelha do carteiro, tabefe daqueles de ficar zunindo por três dias. Ela virou as costas e saiu, o passo ligeiro, a tromba desse tamanho, deixando Agenor de quatro a recolher as correspondências caídas ao chão.

Na mesma noite, porém, ela haveria de cair em si e se arrepender, tentar reconciliação, haja vista a carência horrorosa de homem na cidade. Melhor dividir o prato que não ter o que comer, coisa mais óbvia, né?

Mas nada feito. Agora era Agenor quem não queria. Ela chegara atrasada à obviedade.

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(continua)

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Protegido: O último homem do mundo (na íntegra)

Dezembro 24, 2008

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Um Ano na Seca – Tá acabando

Dezembro 9, 2008

Estamos chegando ao fim desta ridícula e deprimente história, ufa. Após 14 meses de sofrimento, estarei novamente no interior de uma mulher – de onde eu nunca deveria ter saído, dizem as más línguas. E após 30 capítulos, você, leitorinha, finalmente poderá saber como que a secura acabou.

Os capítulos são estes:

- O início da tragédia
- Daniele (2 capítulos)
- Sonja (5 capítulos)
- O harém de celebridades (5 capítulos)
- Rose da Vila Mimosa
(7 capítulos)
- Cabô o doce
- Marília (8 capítulos)

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Ricardo Kelmer 2008 – blogdokelmer.wordpress.com


Um Ano na Seca – Marília (6)

Novembro 26, 2008

(Como hoje eu tô muito bonzinho, mudei de idéia e deixei este capítulo liberado pra todo mundo ler. Mas o próximo não tem perdão, será só pra Leitores Vips, viu?)

Deitei Marília na cama e por algum tempo admirei emocionado o seu corpo nu, o moreno da pele contrastando com o branco do lençol, as marquinhas do biquini, tudo formando um quadro mais bonito do que qualquer pintor poderia pintar. Putz, como as mulheres ficam lindas neste momento em que todo seu corpo é um chamado silencioso e ardente e…

- Que chamado silencioso o quê! – protestou o Jeitoso. – Me bota logo lá dentro senão vou te denunciar à Sociedade Protetora dos Animais!

Ignorei o escândalo do meu pinto. Aquele era um momento especialíssimo e não seria um pinto falante e maleducado que o estragaria. Depois de um ano e dois meses eu estaria novamente dentro de uma mulher, que coisa! Tanto tempo… A secura chegara ao fim, finalmente.

Delicadamente pousei um beijo sobre o pé daquela que naquele momento era a representante da Deusa, meu gesto simbolizando minha rendição e reverência à beleza e ao mistério daquela mulher.

- Não tem mistério nenhum, idiota! Tudo que tu tem de fazer é me…

Deixei o menino maluquinho falando sozinho e continuei o ritual. E minha língua começou sua bela jornada pelo corpo de Marília, avançando lentamente pela trilha sinuosa de suas pernas, deixando pra trás um rastro de saliva agradecida. Ela passou pelo joelho, pelas coxas, demorou-se um pouco no interior delas e finalmente chegou a seu destino, feito o andarilho sedento que alcança o oásis onde saciará sua sede na fonte da água mais pura e saborosa.

Toc, toc, toc!!!

Não, não foi minha língua que bateu na porta do oásis. Até porque oásis não tem porta, né? Foi alguém que bateu na porta do quarto. Putamerda, o marido!, pensaram as minhas células, todas arrepiadas. E elas mesmas responderam, resignadas: Agora fudeu.

Como que eu pude esquecer do marido da outra, como?!

O susto foi horrível. E o que aconteceu depois foi bem rápido, nem sei como aconteceu. Só sei que no segundo seguinte após as batidas na porta eu me encontrava atrás da poltrona, todo agachadinho, parecia um embrulho ridículo. Tenho certeza que não saltei da cama direto pra lá, nunca fui ginasta olímpico. Acho que o susto foi tão grande que meu corpo se desmaterializou e, pufff, apareceu novamente atrás da poltrona, só isso explica a velocidade.

Marília levantou, vestiu um roupão, abriu a porta e o maridão entrou, bufando de raiva, o próprio incrível Hulk. Olhou no armário, não viu ninguém lá dentro. Foi no banheiro e também não viu ninguém. Então voltou e empurrou a poltrona com o pé. E eu apareci lá atrás, nu e agachado, morto de lindo.

(continua. somente pra Leitores Vips, agora é sério.)

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Ricardo Kelmer 2008 – blogdokelmer.wordpress.com

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esperantosimbolojubilea01

Tradução para o esperanto
Leite Jr.

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Sobre a língua Esperanto: http://pt.wikipedia.org/wiki/Esperanto
Aprenda Esperanto: http://pt.lernu.net
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Soifa Jaro – Marilja (6)
El la erotika novelo de Ricardo Kelmer

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Esperantigis: Jozefo Lejte

http://tradukisto.blogspot.com

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Mi metis Mariljan sur la liton kaj momente emociita mi admiris ŝian nudan korpon, la brunecon de la haŭto kontrastanta al la heleco de la littuko, la mildajn blankajn streketojn el sunbruniĝo, ĉio ĉi faris bildon pli bela ol iu ajn pentristo povus pentri. Sja, kiel belaj fariĝas la virinoj en tiu ĉi momento, kiam ŝia tuta korpo estas kaj silenta kaj arda alvoko kaj…

- Silenta alvoko, ĉu?! – protestis Stilulo. – Vi tuj enmetu min tien aŭ mi denuncos vin al la Societo Protektanta de Bestoj!

Mi ignoris la scandalan malkondukon de mia kaco. Ĉar temis pri vere speciala momento, neniu parolanta kaj fia kaco embarasus ĝin. Post unu jaro kaj du monatoj mi denove estus en virinon, ĉu ne?! Kiel longe… La malsato fine ĉesigus, fu.

Milde mi ekkisis piedon de tiu, kiu tiam iĝis la anstataŭanta de Diino, mia ago signifanta mian kapitulacon kaj riverencon al la beleco kaj al la mistero de tiu virino.

- Nenia mistero, idioto! Ĉio, kio vi devas fari estas min…

Mi lasis la frenezan knabeton parolanta al neniu kaj daŭrigis la riton. Kaj mia lango komencis la belan promenadon sur la korpo de Marilja, malrapide antaŭenirante sur la sinuajn devojiĝojn de ŝiaj gamboj, lasante malantaŭen postsignojn el danka salivo. Ĝi pasigis la genuojn, la femurojn, iomete restis inter ili kaj finfine trafis sian destinon, kiel la soifanta pilgrimanto, kiu atingas oazon, kie malsoifos sin el la fonto de la plej pura kaj bongusta akvo.

Frap, frap, frap!!!

Ne, ne estis mia lango, kiu frapis ĉe la pordo de la oazo. Eĉ pro tio, ke oazo ne havas pordon, ĉu ne? Iu ja frapis ĉe la pordo de la ĉambro. Fek, la edzo!, pensis la tuta aro de miaj ĉeloj, ĉiuj hirtitaj. Kaj ili mem respondis kun rezigno: Ve al ni, kia merdo.

Kial mi povis forgesi la edzon de tiu ulino, kial?!

La ektimo estis nedirebla. Kaj tio, kio okazis poste, tiel rapide kuris, ke mi ne scias, kiel tio pasis. Mi nur memoras, ke en la sekundo post la frapoj ĉeporde mi troviĝis malantaŭ la brakseĝo, senmove kaŭrita, kvazaŭ ridinda pakaĵo. Mi estas certa, ke mi ne saltis el la lito rekte tien, mi neniam estis ja olimpika gimnastikisto. Mi kredas, ke la ektimo estis tiel granda, ke mia korpo malkonkretiĝis kaj, pufff, ree aperis malantaŭ la brakseĝon, nur tio eksplikas tian rapidecon.

Marilja stariĝis, vestis ĉambran robon, malfermis la pordon kaj la kara edzo eniris, virbove elspirante de kolero, kvazaŭ persone la mirinda Hulk. Li priserĉis la vestoŝrankon, ne vidis iun tie. Li iris al la banĉambro kaj ankaŭ tie neniun vidis. Do li revenis kaj puŝis la brakseĝon per la piedo. Kaj jen mi, kiu aperis tie, kaj nuda kaj en kaŭra pozicio, la plej bela bubo en la mondo.

(Originale verkita en la portugala: “Um Ano na Seca – Marília, 6″, novelo de Ricardo Kelmer.)

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O último homem do mundo (6)

Novembro 3, 2008
O sonho de Agenor é que todas as mulheres do mundo o desejem. Para isso ele está disposto a fazer um pacto com o diabo. Mas há um velho ditado que diz: cuidado com o que deseja pois você pode conseguir…

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CAP. 6

Alguns forasteiros, atraídos pela notícia de que as mulheres de Jubá estavam que nem lagartixa, subindo pelas paredes, decidiram descer por lá e averiguar se a história tinha mesmo cabimento. Resultado: os hotéis da cidade agora estavam lotados. Se a broxação geral representava um golpe no orgulho dos machos jubaenses, a receita do turismo fechava os olhos dos donos de hotéis e dos bares.

Os homens sérios de Jubá não gostaram nem um pouco dessas novidades, lógico, e exigiram posição firme das autoridades. Uma equipe médica da capital foi então designada para estudar a estranha epidemia e, após muitos exames, constatou que, com exceção de uns gatos pingados, quase toda a população masculina da cidade já havia sido afetada. Uma tragédia.

Apesar de todos os esforços, a equipe deixou a cidade sem qualquer explicação para o fenômeno. Bem ao contrário de outras coisas na cidade, o mistério continuava de pé.

Receitas, simpatias, promessas e orações, tudo foi usado contra a desgraceira. A Ladainha Milagrosa dos Sete Pingos, ou Ladainha da Bengala Poderosa como também é conhecida, que diz que é tiro-e-queda, reapareceu por esses dias com força total, circulando pelas banquinhas da feira e até mesmo em farmácia, veja o desmantelo da situação. Ela dizia que o cidadão, pouco antes de começar a peleja do amor, devia acender uma vela branca nunca antes usada e, ajoelhado na direção de Juazeiro do Norte, deixar cair sete pingos sobre o dito cujo desmilinguido enquanto rezava:

Com minha fé e humildade, trago aberto o coração
E eu rogo a intercessão de quem ouve o meu pedir
Que me ajude nessa prece e expulse o malefício
Acabando o meu suplício, sete pingos a cair

Ó bengala poderosa, me acuda sem demora
Na urgência dessa hora de espanto e aflição
Ó bengala poderosa, pause a lei da gravidade
Para que suma a maldade e me suba o cacetão

O estojinho contendo vela e folheto vendeu que nem bolacha, não deu para quem quis. Só não ensinava para que lado ficava exatamente a cidade de Juazeiro, indesculpável falha que, certamente, deve ter inviabilizado muita reza pois ninguém viu melhora alguma na situação.

Um jornalista da capital, que acompanhava o trabalho dos médicos, levou as informações para o seu jornal e pronto: no outro dia o estado inteiro estava por dentro da desgraça da pequena Jubá. No mesmo dia começaram a chegar repórteres de rádio, jornal e tevê e a cidade se transformou em notícia obrigatória, fosse na capital ou pelas cidades do interior. Até um laboratório farmacêutico, que produzia as tais pilulazinhas milagrosas, andou distribuindo amostras grátis, farejando na desgraceira alheia uma grande oportunidade de negócios. Mas deu com os burros nágua: para os homens de Jubá as pilulazinhas e nada eram a mesma coisa.

Foi então que começaram a chegar notícias de outras localidades próximas: nelas também estava ocorrendo a mesma coisa! Tudo o que acontecera em Jubá estava se repetindo por lá, o mesmíssimo drama. E poucos dias depois soube-se dos primeiros casos fora do estado. Logo depois cidades do país inteiro exibiam alarmadas seus casos de impotência. Semanas depois o mal já havia alcançado os outros países. A desgraça agora era global.

Cientistas se esforçavam por explicar, políticos exigiam verbas, empresários se mobilizavam, organizações formavam passeatas… O mundo inteiro não falava em outra coisa. Da Europa aos recônditos da África, de Santiago a Vladvostock, os homens, pretos, brancos, índios e amarelos, ricos e pobres, iam, dia após dia, sucumbindo ao mal sem que ninguém entendesse por que diabos aquilo acontecia.

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(continua)

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Um Ano na Seca – Marília (5)

Outubro 30, 2008

Dançar?, eu perguntei, talvez não tivesse ouvido muito bem. Sim, dançar, esta música é tão linda…, ela respondeu, como se convidar pra dançar um escritor que tá no seu quarto de hotel autografando livros fosse assim a coisa mais normal, corriqueira e lógica do mundo.

Levantei da poltrona e no instante seguinte lá estávamos nós dois dançando ao som de Tim Maia, girando devagarinho no meio do quarto, coladinhos, rosto com rosto, o perfume dela… e os peitos a pressionar meu tórax, aqueles dois peitões impossíveis de não sentir… eu afastava o rosto um pouquinho e podia vê-los logo abaixo do equador do meu queixo, os dois montes da perdição, aquele abismo entre eles sussurrando meu nome, Kelmeeeeeeer… Kelmeeeeeeer…, sim, não sei se você sabe, leitorinha, mas há peitos que sussurram nossos nomes, é um mistério milenar, os Peitos Sussurrantes, ninguém explica. Poizé, eles sussurram e aí lá estamos nós, Ulisses eternamente a resistir ao chamado das sereias… ou a se jogar no mar.

Pois Ulisses não resistiu. Livrou-se das cordas que o mantinham preso ao mastro e, tchibum!, joguei-me ao mar. Não deu pra resistir, seo delegado, me prenda, me jogue na masmorra, me leve à guilhotina, mas a certas coisas o homem peniano masculino simplesmente não consegue resistir, o senhor sabe, né? Não deu pra resistir, leitorinha: no instante seguinte meu rosto se encontrava entre os peitos de minha leitora, as mãos a arrancar o top, aquele par de peitos impossíveis saltando fora e minha boca absolutamente descontrolada, sem conseguir se decidir entre um e outro, entre o outro e o um, os dois ao mesmo tempo, os três se três houvessem.

Foi a poltrona que amparou nossa queda. Caímos sentados, eu na poltrona, Marília em meu colo, de frente pra mim, os peitos em minha boca. Eu todo era um par de mãos enlouquecidas e uma boca descontrolada, um andarilho esfomeado diante do par de mangas maduras e suculentas, eu era o Tesão em esTado bruTo. E Marília em meu colo, forçando minha cabeça contra suas mangas, o sumo delas já escorrendo da minha boca, eu gemendo, ela assanhando meu cabelo, cravando as unhas no couro cabeludo, ela também rendida ao descontrole do desejo urgente.

Então era isso mesmo que ela queria…, pensei, num raro momento em que meu pensamento perdido conseguiu unir duas idéias. Tá vendo, eu não disse, eu não disse?, mandou de lá o Jeitoso, a voz abafada pelo peso do corpo de Marília a esfregar-se sobre ele. É curioso… Paudagente só pensa em sexo mas, vendo as coisas do ângulo dele, o ângulo de baixo, tudo são bundas e bucetas, tocas pra entrar, reentrâncias a preencher. Não dá pra culpá-los por pensarem sempre assim. Ok, Jeitosão, você tava certo, nunca mais discutirei com você.

Então Marília levantou-se, deixando meu colo. Minhas mãos pareciam pregadas com velcro nos peitos dela, tão difícil foi soltá-los. De pé à minha frente, ela arrancou o que sobrava do top e libertou de vez seus peitos, libertas quae sera chupem. Não sei se você sabe, leitorinha, mas todos os peitos anseiam por serem libertados, e é por isso, arrááá!, é por isso que eles sussurram nossos nomes: eles clamam por seus libertadores. Os Peitos Sussurrantes, mistério resolvido.

Marília tirou o jeans, a calcinha e deitou-se na cama, todinha nua, e sussurrou: Vem, meu escritor tarado. Escritor tarado só podia ser eu, não havia mais nenhum escritor naquele quarto. Levantei da poltrona e cinco segundos depois já havia atirado longe roupa, meia e tênis e tava agora ao lado dela na cama. Foi nesse exato instante, admirando seu corpo nu ao meu lado, que o descontrole e a impaciência, de repente, cederam lugar a outra sensação, a velha sensação que me acomete quando chega o momento da união sexual e que me faz ser possuído por um misto de encantamento e reverência à Mulher, aquela súbita percepção do Sagrado que a figura feminina simboliza, a certeza de que outra vez serei instrumento da vontade da Deusa na reedição do casamento sagrado do feminino com o masculino.

Parece estranho falar disso agora, eu sei, mas é que o sexo pra mim é algo místico. E a mulher que tá comigo nunca é apenas uma mulher: ela é a Filha da Deusa. E por isso ela é também a própria Deusa. Que me escolheu, entre todos, pra ser seu cavaleiro no sagrado ritual da fertilidade e…

- Porra! Deixa de viadagem e me põe logo lá dentro! – berrou o Jeitoso, me interrompendo. O danado tava lá todo empertigado, parecia uma serpente naja pronta pro bote.

O resto eu conto no próximo capítulo. Só pros Leitores Vips. Já sei que vai rolar reclamação – mas Leitor Vip tem que ter suas regalias, né? Senão no próximo ano eles não renovam a assinatura do blog e eu desisto de ser escritor e vou fazer concurso pro Banco do Brasil.

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Ricardo Kelmer 2008 – blogdokelmer.wordpress.com

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Um Ano na Seca – Marília (4)

Setembro 27, 2008

Entramos no quarto. Marília fechou a porta, acendeu a luz e disse que eu ficasse à vontade pois ela iria ao banheiro. O quarto era bacana, cama de casal, poltrona, abajur, cortina na janela, um quadro bonito na parede, frigobar, controle de som e tevê na cama. Aproveitei pra olhar dentro do guarda-roupa: nada de roupas masculinas, que estranho. Será que o marido estava hospedado em outro quarto?

O Jeitoso tava como eu, confuso, mas perguntou se eu tinha levado camisinha, ele sempre pergunta, menino atento, foi bem ensinado. Sim, eu tinha. Aliás, nos últimos tempos camisinha comigo sempre perdia a validade, que horror.

Marília voltou do banheiro e sentou na cama. E pediu pra eu sentar também. Sentei. Ela pediu que eu lhe mostrasse os livros. Abri a mochila, tirei e pus sobre a cama. Enquanto ela selecionava um exemplar de cada, eu tentava não olhar pro decote dela, parecia até que os peitos haviam crescido depois da ida ao banheiro. Marília perguntou quanto era, eu disse que era tanto mas daria um desconto, mas ela disse que não aceitava o desconto, tirou o dinheiro da bolsa e me entregou. Agora eu quero uma dedicatória bem especial, primeiro neste aqui – e me estendeu o primeiro livro.

- Quer tomar algo pra se inspirar? Um uisquinho?

Um uisquinho? Hummm, o que realmente aquela mulher tinha em mente? Bem, seriam seis dedicatórias especiais, eu precisaria de inspiração mesmo. Aceitei. Ela então levantou, abriu o armário e tirou de lá… uma garrafa de Jack Daniel´s! Lacrada. Eu não acreditei quando vi. Acho que ela percebeu minha cara de idiota:

- Eu sabia que você ia gostar…

Putz. Minha bebida predileta. Ela certamente lera em meu site ou no Orkut. Será que ela comprara minha bebida predileta só pra que eu escrevesse umas dedicatórias nos livros dela? Ou havia algo mais? Será que ela havia bolado tudo aquilo, todos aqueles detalhes, o encontro no bar, o decotão assassino, o convite pra subir ao quarto, o Jack Daniel´s, tudo foi pra me seduzir? Ou aquele era o jeito dela mesmo, simpática e espontânea, e a minha mente pérfida, junto com o Jeitoso, claro, é que imaginava besteira? Mas… e o marido? Onde ele estaria naquele momento?

Tirei o lacre e devolvi a garrafa. Ela serviu dois copos, eu disse que queria sem gelo, ela disse que preferia com, pôs três pedras no dela e brindamos. Ao escritor, ela disse. Qual escritor? Você, seu bobo. Ah, claro… eu… a mim, claro… não, a mim e a você, à leitoa, quer dizer, à leitora do escritor.

Putz, leitoa é foda. Será possível que eu não consigo falar nada que preste nesses momentos? Pelo menos uma vez na vida eu bem que poderia fazer como aqueles caras do cinema, que mesmo nas situações mais inesperadas sempre dizem a frase perfeita que a mulher quer ouvir.

Brindamos e bebemos. Só o cheiro do Jack já me leva às nuvens, é sério. E o primeiro gole, hummm, o líquido descendo a garganta feito um fogo gostoso queimando por dentro, a saliva que ato contínuo inunda a boca, o calor no estômago… e um acorde de blues soando em algum lugar de minha alma, sempre, sempre toca um blues quando bebo Jack Daniel´s. Ah, leitorinha, beber esse uísque não é apenas beber um bom bourbon – é beber junto a história do blues, é beber com Muddy, Buddy, Billie, Eric, Jim, Janis e todos os outros.

E tem outra coisa. Jack Daniel´s é um poderoso excitante pra mim. No sentido sexual, inclusive. Não sei bem o porquê mas é uma bebida que me deixa com tesão, que coisa louca, né? E se Marília sabia que eu gostava tanto do Jack, devia saber também desse complemento. Aiai. Que mulher era aquela?

Sentei-me na poltrona pra escrever as dedicatórias. Marília perguntou se eu não preferia escrever com música e antes que eu pudesse responder ela ligou o rádio e Tim Maia preencheu o quarto com seu vozeirão, acho que era Azul da cor do mar. Achei ótimo. Mas quem disse que consegui escrever alguma coisa? Travei total, não consegui me concentrar. Aquela situação, eu e Marília naquele quarto, o lance do marido dela…

- Acho que preciso de outra dose… – pedi, após entornar o resto da primeira. E precisava mesmo, juro, meu coração estava aos pulos. Ah, se eu pudesse decifrar o que ela tencionava com tudo aquilo… Ou ela não queria nada, queria apenas brincar comigo e na verdade estava se deliciando com meu sofrimento? Gente, isso não se faz com o cidadão trabalhador. O que vocês ganham com isso, meninas, heim? Será uma espécie de necessidade atávica de vingança sobre os homens? Putz, logo comigo que defendo tanto vocês, que sacanagem.

Marília pegou a garrafa e enquanto me servia novamente, comentou que gostava muito daquela música. Então tomei coragem pra fazer a pergunta.

- Marília… ahn… você… aquele senhor…

- Depois você escreve – ela disse, me interrompendo e puxando delicadamente a caneta da minha mão. – Vamos dançar?

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(continua no próximo capítulo)

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O último homem do mundo (5)

Setembro 21, 2008
O sonho de Agenor é que todas as mulheres do mundo o desejem. Para isso ele está disposto a fazer um pacto com o diabo. Mas há um velho ditado que diz: cuidado com o que deseja pois você pode conseguir…

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CAP. 5

Primeiro foi o Chico da Magnólia, velho amigo. Era domingo e tomavam uma cachacinha à beira da lagoa quando Chico, já bêbado, confidenciou a Agenor, sem jeito, que estava acontecendo com ele uma coisa terrível, terrível. E a muito custo foi que conseguiu dizer que ficara broxa, já não conseguia fazer nada com as mulheres, o dito cujo não funcionava mais, uma desgraça. Na noite anterior, por sinal, fora ter com as raparigas lá do Siribó, elas que sabiam como ninguém alegrar o cidadão. Mas que nada, não teve jeito que desse jeito. Tentou com a Paizinha, com a Chiquinha Piassaba e a Neide Peixeirão. Nenhuma delas conseguiu levantar-lhe o moral um centímetro que fosse. Tentou até umas pilulazinhas que um primo trouxera da cidade grande, diziam que levantava até bigorna. Mas nem elas deram jeito. No desespero chamou a Paloma, a espanhola dos peitões, a mais cara daquelas bandas do sertão, disposto a gastar cinquenta contos, o salário da semana inteira. Pois nem a Paloma, veja você, nem ela.

Agenor consolou o amigo, dizendo que procurasse um médico, não devia ser coisa muito séria. Mas Chico disse que já havia ido ao médico e este, sem detectar nada de anormal, falou que algum problema devia estar preocupando-o. Mas não tinha problema algum, explicou Chico, a não ser esse, esse era o problema, o pinto não queria mais trabalhar e pronto. Uma vergonha que o cidadão trabalhador e pagador dos seus impostos não merecia passar.

Agenor, sensibilizado, encheu um copo e tomou. Que uma desgraceira daquela nunca se abatesse sobre ele, jamais.

Depois foi a vez do seo Ribamar da bodega, que se chegou para perguntar se ele, Agenor, não conhecia um pai de santo bom, bom mesmo, que entendesse de mandinga de mulher malamada pois ele tinha certeza: foi mulher sim que lhe jogara aquele trabalho desgostoso, foi mulher sim.

Agenor ficou impressionado. Seo Ribamar era homem forte, de saúde, viúvo e namorador. Difícil crer que tão cedo deixasse de dar nos couros. Pois deixara. Sim, ele sabia de um pai de santo muito bom, lá para as bandas do Paredão, fosse lá que ele com certeza anularia aquele encosto de mulher ruim. Seo Ribamar agradeceu e saiu. Agenor viu o homem se afastar e bateu três vezes na madeira.

Então começaram a chegar as notícias. O atendente da farmácia, rapaz novo, não tinha vinte anos, também andava com o mesmo problema, como podia? E o cabo Nonato, famoso pela ruma de namorada que tinha, também havia ido ao Paredão se consultar com o pai de santo para se curar de uma desgraceira repentina que o deixara inutilizado para as artes da agarração.

De repente boa parte dos homens de Jubá estava broxa e o assunto era o preferido nas rodas de conversa. As beatas nas janelas invocavam Esaú aos Filisteus, capítulo 2, versículo 14: “E o peso da descrença pesará sobre a virilidade dos ímpios, e estes serão marcados pelo Anjo com o castigo de não poderem mais dar filhos às suas mulheres e a Terra os amaldiçoará.” Benza Deus.

Autoridades evitavam se pronunciar sobre o assunto porque o fato provocava risinhos e constrangimentos. O que estava acontecendo afinal? Ninguém possuía explicação convincente para o fato e os médicos da cidade se debatiam entre teorias diversas, sem chegar a conclusão alguma.

A cada notícia, Agenor se assustava e corria para o banheiro para se investigar, munido de alguma revistinha. Não, com ele não, felizmente. Com ele tudo corria normalmente, conforme a natureza estabelecera. E com as mulheres, tudo normal também: elas continuavam distantes como sempre.

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(continua)

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Um Ano na Seca – Marília (3)

Agosto 30, 2008

Voltando à mesa. Lá tava eu confuso, sem saber o que deduzir. Tentava me concentrar na conversa de qualquer maneira, até virei a cadeira e sentei assim meio de lado pra não ter que olhar praquele par de melões morenos caindo do caixote da Ceasa bem na minha frente… e eu há mais de um ano sem comer. O Kelminho, inclusive, já havia levado mais dois tapas e de nada adiantou, ele também queria ver os peitos da santista, claro, pau da gente também é gente.

É, tava difícil. A idéia de que aquela morena fornida podia estar interessada em algo mais que simplesmente comprar meus livros me deixava num estado tal de excitação e dúvidas e fantasias e nervosismo e esperanças e insegurança que de repente tive medo de perder o controle e, sei lá, fazer uma besteira grande, tipo saltar pra dentro daquele decote, me agarrar nos peitos da morena ali na frente de todo mundo e ficar gritando lá pendurado: Fome zero! Campanha da fraternidade!! Eu podia tá roubando mas tô aqui pedindo só uma chupadinha!!!

Olhei as horas no celular. Ela imediatamente perguntou se eu tinha pressa e eu ia dizer que mais ou menos mas ela me interrompeu e disse que fecharíamos a conta, que ela fazia questão de pagar, que pagaria no cartão e que se eu não me importasse, nós dois iríamos ao hotel dela pegar o dinheiro dos livros, que ela queria comprar todos. Todos? Sim, quero todos, mas o dinheiro tá no meu quarto, vamos lá comigo pegar? Ahn, no seu quarto? Sim, no meu quarto, vamos?

Todos os livros… Vamos comigo no meu quarto… Aquelas palavras esvoaçavam feito borboletas em minha cabeça. Eu precisava responder algo, e de preferência algo assim que não revelasse meu estado de semi-debilidade mental.

Subir, quarto, mim Tarzan, iú Jane – foi o que consegui dizer. Acho que foi uma boa resposta pois ela sorriu e rapidamente levantou-se, apontando pro hotel na outra quadra.

Fiz rapidamente umas contas pra saber quanto dava o total dos livros. Putz, daria pro supermercado quase do mês inteiro, que maravilha. E o Jeitoso, claro, fazia as contas dele: decote + caipirinhas + convite pra subir ao quarto = ripa na xulipa!!! Calma, Jeitoso, a lógica das mulheres não é como a sua, eu tentei explicar. Mas é como eu disse antes, leitorinha: quando eles estão assim, não tem jeito que dê jeito, como cantava o Raimundo Soldado. E quando eles estão assim há 1 ano e 2 meses, ou a gente vai logo pra guerra ou então volta pra casa e toca duas seguidas pra poder dormir.

Quando atravessamos a rua, deixei ela sair um pouco antes e finalmente consegui olhar a bunda da moça. Foi bem rápido mas foi o suficiente. A santista era muuuito bem nutrida de glúteos. Aiaiai… Pobre de mim.

Entramos no elevador e ela epertou o 12. Eu havia posto a mochila à frente da cintura, você sabe, o Jeitoso a essa altura parecia uma garrafa de coca-cola fechada depois de dez minutos chacoalhando, estava a um milímetro de explodir. Aí no 2 a porta abriu, era o andar do restaurante, e um senhor entrou. Vestia terno e gravata, parecia que ia ou vinha de um jantar de negócios. Ele olhou pra Marília e, sério, perguntou se ela tava indo pro quarto. Ela respondeu que sim. Depois a porta abriu no 12 e eu e ela saímos. Antes da porta fechar, percebi que o senhor olhava fixamente pra ela, muito sério.

Caminhamos pelo corredor até a porta de seu quarto. Não resisti e perguntei quem era aquele homem do elevador. E ela respondeu: Meu marido. Gelei no mesmo instante. Como assim, marido?, pensei, tentando organizar as idéias. Mas no Orkut o seu estado civil está como solteira, né? – pensei em perguntar. Mas desisti.

Primeiro aqueles peitões em minha cara. Depois me convida pra subir ao seu quarto. E depois me revela que é casada – e o marido tá ali no hotel! Afinal, leitorinha, que tipo de seres são vocês, heim? Por que vocês fazem isso???

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(continua no próximo capítulo. ou não. não sei, tô muito confuso)

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O último homem do mundo (4)

Agosto 26, 2008
O sonho de Agenor é que todas as mulheres do mundo o desejem. Para isso ele está disposto a fazer um pacto com o diabo. Mas há um velho ditado que diz: cuidado com o que deseja pois você pode conseguir…

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CAP. 4

O dia seguinte foi normal como todos os outros dias do carteiro Agenor. Envelopes, endereços, campainhas que não funcionavam, cães que detestavam carteiros. Entregas e entregas sob o sol da manhã e sob o sol da tarde. Nada demais. Mas nesse dia, pela primeira vez, o feio, tímido e desengonçado Agenor olhou as mulheres com certa segurança. Na lanchonete olhou para a moça que servia e lhe piscou um olho. Mas a moça não correspondeu e virou o rosto. Ele sorriu e apenas pensou: Deixe estar…

O dia terminou sem novidades. Após o jantar pediu bênção à mãe, dona Fafá, e se recolheu. Antes, porém, olhou-se no espelho. Nada mudara em seu rosto, em seu corpo, ele continuava o feio de sempre. Mas era apenas o primeiro dia, explicou a si mesmo. Em breve as coisas seriam diferentes.

No segundo dia as coisas também não foram diferentes. Envelopes, encomendas, endereços, cães antipáticos, o sol. A mesma caminhada diária, a mesma rotina. Tudo continuava igual. E as mulheres de Jubá também. Nenhuma lhe pareceu mais simpática. Continuavam todas em seu mundo distante, princesas inalcançáveis de um reino a ele não permitido. Nem Dorinha, pela qual era secretamente apaixonado, mostrou-se mais acessível. Uma pena pois Dorinha era tão bonita, prendada, trabalhadeira. Poderia ser sua mulher…

O terceiro dia também não trouxe novidades. O quarto dia também. Passou-se uma semana e nada aconteceu. Agenor olhava-se ao espelho e via, decepcionado, que continuava feio e desajeitado. E a vida também era a mesma, ele suando de número em número e as mulheres limpas e perfumadas a ignorá-lo.

A segunda semana também correu igual, assim como a terceira. Um mês e nada, nenhuma mudança em sua vida.

Naquela noite Agenor virou-se na cama e sentiu-se imensamente triste por seu desejo não ter sido realizado. O diabo bem que dissera: era um pedido difícil.

Talvez houvesse errado na formulação do pedido, será? Talvez não houvesse escolhido as palavras exatas, isso era comum nas histórias dos pactos com o demo. Mas onde errara? De todas as que pensara, aquela era a melhor frase. Não podia dizer “Quero todas as mulheres” pois o diabo simplesmente poderia fazê-lo continuar querendo. Listar as mulheres que queria que o desejassem também não era uma boa idéia pois terminaria deixando alguma de fora e, além do mais, as mulheres crescem, envelhecem, está sempre nascendo mulher.

“Quero que todas as mulheres do mundo me desejem” era a melhor maneira de pedir. Não importaria sua pobreza, sua feiúra e sua falta de jeito se elas o desejassem. E sendo “todas as mulheres do mundo” não haveria risco de deixar nenhuma de fora, entrariam todas, da mais feia à mais linda, da mais pobre à mais rica, da mais anônima e insignificante à mais famosa e cobiçada. Todas o desejariam e a ele caberia apenas escolher quem delas teria o privilégio de realizar seu desejo. Você sim, você não. Ah, seria o paraíso!

Súbito lembrou-se de um detalhe, algo que havia lhe escapado durante todo aquele tempo: sua mãe. Dona Fafá também estava incluída na relação! Claro. Sua mãe querida, viúva, que tão bem cuidava do filho único. Sua mãe era uma mulher e, sendo assim, também o desejaria. E agora?

Agenor percebia sobressaltado que a formulação não fora perfeita. O que fazer com o desejo de sua mãe? Ou ela, por ser mãe, estaria automaticamente excluída das possibilidades? O diabo Soloniel seria razoável, entenderia a questão? E se seu pai fosse vivo, o que não acharia de uma marmota dessa?

Agenor puxou o lençol e se cobriu, como se assim pudesse se esconder de tantos pensamentos e dormir. Demorou uma eternidade para conseguir pegar no sono.

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Um Ano na Seca – Marília (2)

Agosto 11, 2008

No último capítulo eu havia recebido a ligação de uma leitora de Santos que passava uns dias no Rio e desejava me conhecer pessoalmente e comprar uns livros meus. Fiz logo as contas: se ela comprar dois, já vai dar pra fazer o supermercado da semana, ô maravilha, não aguento mais comer miojo com xarope de groselha.

Paralelamente às minhas contas, o Jeitoso também fez as dele: 1 ano e 2 meses sem encarar uma piriquita, 14 meses sem molhar o biscoito, 54 semanas sem ensaboar a banana, 378 dias sem acoplar à nave mãe, 9072 horas sem espetar o cassaco…

Se você, leitorinha querida, tivesse um pingolim aí pendurado entre suas pernocas, você saberia o tanto que esses seres podem ser chatos, insuportavelmente chatos, quando estão desesperados na secura. A gente vai à praia e tem que ficar sentado pra não passar por tarado sem-vergonha. A gente olha pruma chave de fenda e o pingolim só vê a fenda, é um horror, um horror.

Poisbem. Peguei o busão e fui encontrar Marília no bar perto do hotel onde ela tava hospedada, em Copacabana. Ela me acenou de uma mesa na calçada, de frente pro mar, um ótimo lugar. Tava bronzeada, certamente pegara um solzinho. E era mesmo carnuda, do jeito que eu aprecio, humm. Vestia jeans e uma camisa preta com um top preto. Infelizmente não deu pra ver a bunda quando ela levantou pra me cumprimentar com dois beijinhos mas tudo bem, eu tiraria a dúvida assim que ela fosse ao banheiro. Na mesa havia uma caipirinha pela metade.

Sentei e ela perguntou se eu aceitava uma caipirinha, eu disse que sim. Ela fez sinal pro garçom trazer mais uma e aí danou-se a falar, disse que tinha chegado mais cedo pra ver o por-do-sol, que adorava ir ao Rio de janeiro, que aquela já era a segunda caipirinha, que adorava caipirinha, que caipirinha era sua perdição, e que era uma honra conhecer pessoalmente o autor dos textos que tanto a faziam rir no computador do trabalho, falou dos que mais gostava, quis saber de onde eu tirava tanta idéia e como era o processo de criação e pediu pra ver os livros, eu tirei da mochila e pus sobre a mesa, ela olhou todos, achou a capa do Insanidade bonita…

Eu juro, leitorinha, juro que tentei prestar atenção a tudo que ela dizia. Mas não dava. Com aqueles peitos olhando pra mim, simplesmente não dava. Marília tinha peitos grandes e bonitos, até aí tudo bem. O problema é que metade deles tava pra fora do top, sem exagero. Acho que ela errou o número quando comprou. Ou na pressa de fazer a mala, se enganou e botou o top da filha de oito anos. Será que todas as minhas leitoras de Santos andam assim, com os peitos pra fora?

Senti que o Jeitoso começava a se inquietar. Aproveitei que Marília pedia mais uma caipirinha pra ela e dei um tabefe no Jeitoso, plá!, te aquietaí, ô saidinho, não vai me estragar uma venda boa! Mas o perturbado não se aquietou, tive que cruzar a perna pro outro lado pra disfarçar. E diabo dessa mulher que não se levanta pra ir ao banheiro! Ô Marília, minha filha, você não mija não? Não, claro que não perguntei isso, imagina, também não sou tão sem noção assim, né? Que juízo você faz de mim!

Por falar em juízo, vem cá, leitorinha, me diz uma coisa com toda sinceridade… O que uma mulher pretende quando vai encontrar um cara pela primeira vez e deixa metade dos peitos pra fora da roupa, heim? Você, leitorinha, você já fez isso? Conhece alguma mulher que faz isso? Você deve saber, afinal você é mulher, você tem peitos, quer dizer, eu suponho que tenha. Não é possível que uma mulher faça isso assim de graça, sem ter noção da confusão que vai causar, principalmente pra sujeitos sensíveis como eu. Putz, vocês são realmente tão cruéis assim, são? Me diga que não, por favor, senão vou perder pra sempre o resto de confiança que eu ainda tinha na raça feminina…

Ué? Não vai me dizer nada? Vai me deixar na dúvida mesmo? Ah, é? Pois não continuo mais a historinha.

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O último homem do mundo (3)

Agosto 9, 2008
O sonho de Agenor é que todas as mulheres do mundo o desejem. Para isso ele está disposto a fazer um pacto com o diabo. Mas há um velho ditado que diz: cuidado com o que deseja pois você pode conseguir…

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CAP. 3

– Ei, espere! – gritou Agenor, nervoso. – Vou fazer o meu pedido. Agora.

O diabo parou e voltou-se. E aguardou, apoiado em sua bengala.

– Eu…

– Sim?

– Eu quero que todas as mulheres…

– Estou ouvindo.

– Eu quero que todas as mulheres do mundo me desejem.

Pronto, dissera. Estava feito. E uma vez formulado, o pedido não podia mais ser mudado, ele sabia. Não dava mais para voltar atrás.

Agenor aguardava, a respiração suspensa, as palavras ecoando em seus ouvidos: todas as mulheres… do mundo… me desejem… De repente, pela primeira vez, seu desejo lhe pareceu ridículo e despropositado… Era como se as palavras, finalmente pronunciadas, concretizadas solenes no ar, tivessem o poder de lhe abrir os olhos.

– Hummm… Bom pedido, bom pedido – disse o diabo, balançando a cabeça, coçando a barbicha branca. – Fazia tempo que eu não topava com um desse. Deixe-me ver…

Agenor aguardava, nervoso. Teria sido um pedido difícil demais? Será que zombaria dele? Estaria estudando suas palavras, procurando brechas para poder enganá-lo?

– Claro que é difícil. Fazer todas as mulheres do mundo desejarem um cara feio, pobre e desengonçado como você é missão que pode consagrar um diabo pela eternidade inteira. Sabe o que significa a eternidade inteira, jovem?

A eternidade? Sim, claro, Agenor respondeu com a cabeça. Quer dizer, não, não sabia. Ou sim?

O diabo continuava coçando a barbicha, apoiado na bengala, olhando para as estrelas… Eram segundos que para Agenor pareciam séculos.

– Teve muita sorte de pegar um profissional como Soloniel, meu jovem. O que você pediu requer a experiência que só eu possuo, acredite. Pois muito bem. Dê-me o documento.

Agenor puxou do bolso uma folha de papel dobrada. Nela estavam a frase exata de seu pedido, data, local e a assinatura.

– Perfeito – falou o diabo, guardando o papel no bolso do sobretudo. – Então estamos combinados. Toque aqui.

Apertaram-se as mãos.

– Na hora certa virei buscar o pagamento pelo serviço. Adeus.

Agenor viu o diabo sumir mato adentro. Então respirou fundo. Fizera o pacto. Estava feito. O diabo realizaria seu desejo, era isso que importava.

Ele conseguira. Não era um fraco. Quanto à sua alma, pensou, já descendo a pedra a caminho da cidade, perdê-la seria um preço pequeno diante do grandioso futuro que o aguardava.

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O último homem do mundo (2)

Julho 28, 2008
O sonho de Agenor é que todas as mulheres do mundo o desejem. Para isso ele está disposto a fazer um pacto com o diabo. Mas há um velho ditado que diz: cuidado com o que deseja pois você pode conseguir…

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CAP. 2

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– Boa noite – disse o velho, erguendo o braço e tocando seu chapéu. – Desculpe a demora, sexta-feira sempre tem muito serviço. Você é o Agenor, não é? Sou Soloniel, o mais astuto dos diabos. Certamente já ouviu falar muito de mim.

– Ahn… não… – Agenor olhava para a figura à sua frente. Aquilo era um diabo? Parecia mais com aqueles velhos aposentados que jogavam dominó na praça.

– Devia ler mais, meu jovem – disse o diabo, apontando-lhe um dedo acusador. – É nisso que dá ficar vendo esses filmes idiotas da tevê. Deixa de saber quem foram os grandes nomes da História.

Agenor concordava com a cabeça, sem compreender aquela espécie de sermão. Aquilo era mesmo um diabo?

– Ainda duvidando de mim, rapaz?

Ele lia pensamentos! – assustou-se Agenor.

– Desculpe… é que… eu… – E não soube mais o que dizer.

– Já sei, já sei – disse o diabo, dando com a mão resignado. – Esperava um diabo mais jovem. É sempre assim. Por isso é que eles querem me aposentar. Nem um diabo velho é mais respeitado hoje em dia. O mundo está perdido.

– Desculpe, eu não quis…

– Eles sempre enviam diabos jovens, vigorosos, para impressionar os tolos. Pois saiba, meu jovem, que toda a juventude deles não serve nem para lustrar as botas da experiência de Soloniel, estas aqui!

Agenor olhou para as botas. Eram bonitas e brilhosas. Só um pouco folgadas.

– Está vendo? Estas botas já estiveram em muitos lugares e muitos tempos, tantos que os números já não contam – Ele batia nas botas com a ponta da bengala, tum-tum-tum. – Estas botas já estiveram em cavernas, tendas, palácios! Em castelos, campos de batalha, escritórios, alcovas mal iluminadas! Já presenciaram acontecimentos cruciais da história humana. Não só presenciaram como também ajudaram a determiná-los. Entende?

– Sim, sim… – balbuciou Agenor.

– Eu é quem incentivo as pessoas no rumo dos seus sonhos mais íntimos. E por eles cobro meu preço, claro. Tem um pano aí?

– Um pano? Ahn… Este serve?

Agenor estendeu-lhe o cobertor. O diabo agachou-se e deu uma lustradinha nas botas.

– Obrigado. Vamos lá, qual é mesmo o seu pedido?

Agenor respirou fundo.

– Bem, eu… O senhor pode mesmo realizar qualquer desejo?

O diabo deu um risinho de impaciência.

– Diga logo o que quer, meu jovem. O diabo Soloniel ainda tem quatro encontros esta noite.

– Eu… eu…

De repente Agenor sentiu um medo imenso. Valia mesmo a pena um pacto com o demo?

– Até logo, jovem – disse o diabo, virando-se e pegando o caminho de volta. – Volte para a sua mamãe. Pacto com o diabo não é para gente fraca como você.

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(continua)

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O último homem do mundo (1)

Junho 28, 2008

O sonho de Agenor é que todas as mulheres do mundo o desejem. Para isso ele está disposto a fazer um pacto com o diabo. Mas há um velho ditado que diz: cuidado com o que deseja pois você pode conseguir…

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Cap. 1

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Agenor cumpriu todo o ritual, direitinho. Colhera o fumo num dia seis e seis dias depois o debulhara, fumo plantado no sítio Inferninho, na sexta noite após a sexta lua do ano. Não contara nada a ninguém. Tudo dentro dos conformes do ritual.

Eram onze e meia da noite e não havia lua no céu. A escuridão toda dava um pouco de medo mas Agenor estava decidido. Meia hora apenas o separava do momento mais importante de sua vida.

Tirou o cigarro da bolsa e acendeu. O nervosismo fez o cigarro cair duas vezes. Deveria fumá-lo sozinho, era o que dizia o ritual. Agenor fumou e aos poucos foi se acalmando. Tinha de estar tranquilo para dizer as palavras certas, não podia errar. Subiu numa pedra mais alta e lá encostou-se. E relaxou. Era realmente um excelente fumo, diferente de qualquer um que já houvesse experimentado. Diziam que, de tão especial, não estragava nunca.

No céu as estrelas pareciam mais brilhantes, mais próximas. Lá embaixo dava para ver as luzes da cidade de Jubá, a torre da matriz, o estádio…

Então escutou um ruído vindo do mato. Olhou para o relógio. Onze e quarenta e cinco. Não, não devia ser ele ainda, pensou. Talvez algum bicho. Deu a última tragada e apagou o cigarro. Começava a fazer frio. Agenor tirou da bolsa um cobertor e se cobriu inteiro, encolhido à pedra.

Durante meses estudara seu pedido como quem retoca uma pintura, ajeitando aqui e ali os detalhes das miudezas semânticas. Segundo o ritual do Encontro, o pedido tinha de ser formulado corretamente, as palavras exatas, o sentido perfeito. Não podia haver qualquer erro. Os diabos eram espertos e se as palavras dessem margem a qualquer outra interpretação, eles não perdoavam a falha.

Agenor olhou o relógio: meia-noite. O diabo chegaria a qualquer momento. Meia-noite e dez. Talvez o relógio estivesse adiantado, pensou Agenor. Meia-noite e vinte. Teria falhado em algum ponto do ritual?

À meia-noite e meia, quando já começava a cochilar, Agenor percebeu que alguém chegava, vindo de dentro do mato, caminhando devagar entre as folhagens. De repente sentiu medo. Pensou em desistir daquela história de pacto… mas as pernas não obedeceram e ele continuou ali em pé, esperando.

Quem chegou foi um velhinho de barbicha branca, de sobretudo, chapéu e bengala. Agenor estranhou. Não se parecia com um diabo.

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(continua)

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Um Ano na Seca – Marília (1)

Junho 4, 2008

Chegamos ao final da deprimente saga kelmérica de abstinência sexual. Ufa.

No último capítulo (ainda no antigo blog Kelmer Para Mulheres) eu tentei acabar com a secura, que já durava quase um ano, na Vila Mimosa, onde fora pesquisar pra criar o roteiro de uma história em quadrinhos pra uma ONG. Lá conheci Rose, a morena que subiu comigo pro quartinho e… e… e aí eu broxei.

Poisbem. Depois dessa entendi que devia me concentrar no trabalho e esquecer esse negócio de buceta. Até que consegui. Em parte, claro, o bicho homem masculino nunca consegue esquecer de verdade do famoso pé-de-barriga rachado. Mas fiz direitim meu trabalho de roteirista e recebi meu dinheirim suado. E broxado.

Aí aconteceu duma leitora me enviar um imeio dizendo que iria prum congresso no Rio e queria aproveitar e comprar uns livros meus diretamente comigo, aproveitar e me conhecer pessoalmente, que ela só conhecia pelos meus textos na internet, que por sinal gostava muito e coizital. Claro, claro, será uma honra, eu disse.

Macaco velho, fui logo no Orkut dela pra saber quem era a criatura. Marília o nome dela, era de Santos, solteira (humm), bebia (oba) e não fumava (obaaaa). Era uma balzaca morena, razoavelmente bonita, parecia ser mulher carnuda mas como as fotos eram todas bem comportadas, não deu pra ver bem as curvas da estrada de Santos.

Pô, Kelmérico, deixa de ser tarado véi seboso! A moça quer apenas comprar uns livros, só isso, é tudo apenas negócio. Você e sua mente suja…

Bem, na verdade eu mesmo não pensei bobagem, juro que pensei apenas na graninha. Quem pensou bobagem foi ele, o Kelminho, como sempre, esse pedaço cilíndrico de carne pendurado que só pensa naquilo, é um horror. Coitado, mais de um ano sem frequentar piriquitas e rabichos, a gente entende, a gente entende.

Então no dia marcado ela me ligou. Tava num barzinho perto do hotel, não era longe de onde eu morava, será que eu podia ir lá? Claro, claro. Troquei de roupa, botei os livros na mochila e peguei o busão.

(continuo no próximo capítulo? você decide. )

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Ricardo Kelmer 2008 – blogdokelmer.wordpress.com

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