Ricardo Kelmer 2006
E foi por amor, quando já não havia mais dinheiro, quando mendigavam comida na porta dos restaurantes, quando já não havia mais alternativas, que Lena decidiu alugar o corpo na praça da Central
Se quiser fumar, eu fumo
Se quiser beber, eu bebo
Não interessa a ninguém
Oito horas da noite. Lena põe o CD no aparelho de som e sobe o volume até o máximo. A música que toca, estridente, é um velho samba-canção de fossa, cantado por Núbia Lafayette. Na calçada as pessoas passam curiosas, olhando para dentro do bar. Mas Lena não as vê. Encostada à porta do bar, acende um cigarro, dá uma longa tragada e solta a fumaça para cima. Do outro lado da rua está a igreja, ela pode ver o movimento lá dentro, os pastores já no palco, os fiéis sentados nos bancos a aguardar o início do culto. Na entrada uma moça e um rapaz convidam os transeuntes a entrar e aceitar o Senhor Jesus. Lena sorri de vê-los constrangidos pela música que ecoa de seu bar. Então ele surge, bem à entrada da igreja, de paletó, a bíblia na mão. O rapaz aponta para o outro lado da rua e ele se vira para olhar. É nesse momento que seus olhares se cruzam. E é como se dez anos não houvessem se passado. Os olhares se mantêm fixos um no outro, intercalados pelos carros que passam pela rua. Lena se delicia ao constatar a imensa surpresa nos olhos dele. Pega o copo na mesa e toma um gole de campari. Quando olha novamente, ele já voltou para o interior da igreja.
Se o meu passado foi lama
Hoje quem me difama
Viveu na lama também
Olhai, irmãos, olhai em vossa volta e vereis a Babilônia a seduzir com seu hálito de bebida e suas promessas de luxúria!!! A voz dele, amplificada, extrapola os limites da igreja, atravessa a rua e parece duelar com a música do bar. Lena, imperturbável, toma mais um gole de seu campari. O garçom se aproxima e comenta algo sobre o volume da música mas ela não responde, permanece na mesma posição, o olhar distante. Olhai, irmãs, e vereis as mensageiras de Satanás na porta dos bares e dos prostíbulos, essas almas perdidas cuja especialidade é levar os homens junto com elas para o Inferno!!!
Comendo da minha comida
Bebendo a mesma bebida
Respirando o mesmo ar
Ele era um garoto quando ela o conheceu… e se perdeu de paixão. Foi uma paixão instantânea, mútua e avassaladora. Semanas depois seu marido descobriu, expulsou-a de casa e ela alugou para eles um pequeno quarto no centro, cuja cama passou a ser o templo sagrado de seus desejos insaciáveis. E, uma vez juntos, perderam-se ainda mais. Para sustentar os vícios, que não eram poucos, enganaram, roubaram e assaltaram, afundando-se cada vez mais nesse amor bandido. Foi por amor que várias vezes ela foi buscá-lo no hospital, tantas brigas que ele arrumava pelas ruas. Foi por amor que várias vezes, louca de ciúmes, ela bateu nas mulheres que ele insistia em cortejar descaradamente em sua presença. E foi por amor, quando já não havia mais dinheiro, quando mendigavam comida na porta dos restaurantes, quando já não havia mais alternativas, que Lena decidiu alugar o corpo na praça da Central.
E hoje, por ciúme ou por despeito
Acha-se com o direito
De querer me humilhar
Foram oito anos de praça. Oito anos suportando o bafo de cachaça dos operários e o suor fedido dos mendigos. Oito anos vendendo por meia hora aquilo que deveria ser apenas dele durante toda a vida. No fim da noite ela levava o arrecadado para ele, que aguardava no bar, bebendo e jogando com os amigos. Uma noite, porém, não o encontrou lá. Procurou-o pelas ruas mas nelas ele também não estava. Quando chegou em casa, já de manhã, encontrou-o em sua cama, com outra mulher. Ela não lembra exatamente do que fez mas nos autos do processo consta que os policiais, alertados pelos vizinhos, a encontraram sentada no chão, ainda segurando a faca, tranquila e cantarolando um triste samba-canção. E ao seu lado os dois corpos ensanguentados.
Quem és tu? Quem foste tu?
Não és nada
Se na vida fui errada
Tu foste errado também
Doze anos depois foi libertada. Deixou o presídio e foi diretamente ao prédio onde antigamente morava com ele. Depois de muito perguntar foi que soube onde poderia encontrá-lo. Surpresa com o que ouviu, rumou para lá. Era uma modesta igreja evangélica que funcionava no salão do segundo andar de um prédio velho. Ela chegou, sentou-se no último banco para que ele não a reconhecesse e o escutou pregar. Ele falava de amor, fraternidade e perdão. Era um sermão bonito, que tocava o coração. Mas o de Lena não tocou. Antes do final ela levantou-se, interrompendo o culto, e de dedo em riste na cara dele, gritou tudo que se acumulara em seu coração naqueles doze anos. Doze anos em que ele jamais fora visitá-la. Sequer lhe mandara um lençol limpo. Um mísero bilhete sequer. Ele não conseguiu dizer nada, assustado e constrangido por ver exposto, diante dos fiéis, todo o seu passado sombrio. Quando ela fez uma pausa, ele aproveitou e anunciou, solene e em voz alta, para todos ouvirem, que ela estava possuída por Satanás. Imediatamente os seguranças avançaram e a seguraram, enquanto o outro pastor assumia o ritual de exorcismo. Ela protestou. Mas foi inútil. Gritou e se debateu. Mas foi tudo inútil. Minutos depois, vencida pelo cansaço, pelo desânimo e pela decepção, deixou-se cair no chão, chorando todas as lágrimas que em doze anos não chorara, enquanto os fiéis, braços erguidos ao céu, louvavam a glória do Senhor Jesus.
Não compreendeste o sacrifício
Sorriste do meu suplício
Me trocando por alguém
Foram várias noites em claro, lutando contra sua própria alma dilacerada e dividida. Uma parte ainda o amava, muito, profundamente, mas a outra parte simplesmente não conseguia perdoá-lo. Durante quarenta dias e quarenta noites amor e ódio fizeram de sua alma campo de horrenda batalha, sequiosos por conquistá-la. Até que um dia ela, enfim, adormeceu sorrindo. E dormiu o sono justo dos que finalmente compreendem aquele que talvez seja o maior dos mistérios do amor: que ele perdoa até mesmo o que não tem como ser perdoado. No outro dia ela foi ao culto, disposta a contar-lhe a boa nova que soprava alegre em seu espírito feito uma brisa de verão. Mas quando chegou à porta do salão, foi barrada pela esposa dele, que disse, numa frase curta e cheia de desprezo, que ali ela jamais seria bem-vinda. Enquanto Lena tentava assimilar a surpresa, alguns fiéis chegaram e a enxotaram, levando-a para fora e a arrastando até o beco ao lado. Foi lá que a apedrejaram. Jogada ao chão, quase desfalecida, o sangue a cobrir-lhe a vista, ela ainda o viu se aproximar, largar um punhado de areia sobre seu corpo e dizer: Pra mim você já morreu.
Se eu errei, se pequei
Pouco importa
A voz do garçom chega novamente, se misturando às dolorosas lembranças. Enquanto ele comenta algo sobre um caixão e clientes indo embora, dez anos se passam rapidamente em sua mente, dez anos em que ela apenas trabalhou e trabalhou e trabalhou, inteiramente obcecada. E o resultado está aí, na forma desse pequeno bar, que ela inaugura exatamente essa noite. Nesse instante um casal entra, eles observam o interior do recinto, dão meia-volta e saem, assustados. O garçom, perdendo a paciência, diz que ali ele não trabalha e vai embora. Lena dá outra tragada no cigarro e entra. Caminha até o centro do bar, entre as mesas, e toca o caixão. É um caixão branco de madeira brilhosa, suspenso sobre o pedestal de ferro, como se fosse a decoração principal do bar. Grudada pelo lado de dentro do vidro, por onde se veria o rosto do defunto, o que se vê é uma foto desbotada, onde, sentado numa mesa de bar, um homem jovem sorri.
Se aos teus olhos estou morta
Pra mim morreste também
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Ricardo Kelmer – blogdokelmer.wordpress.com
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Este conto integra a série Trilha da Vida Loca. A letra usada é da música Lama, de Aylce Chaves e Paulo Marques. A ilustração é de Harley Maquiavel.
Este e outros textos integram o livro Vocês Terráqueas.
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Vídeo-homenagem a Núbia Lafayette
Notícia da morte de Núbia Lafayette, 18.06.07
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> Lama – E foi por amor, quando já não havia mais dinheiro, quando mendigavam comida na porta dos restaurantes, quando já não havia mais alternativas, que Lena decidiu alugar o corpo na praça da Central
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COMENTÁRIOS
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01- É claro q eu queria com a música anexada, e parece q vc se tocou disso a tempo e me mandou as duas opções de e-mail. Gostei pra caramba.Li com a música tocando ao fundo, e texto e música se integram naturalmente.O clima é esse.Mais uma vez, vc foi perfeito! Beijos. Mônica Burkle Ward, Recife-PE – abr2007
02- Oba!!!! Adorei Lama e a trilha sonora. Na verdade todos teus textos são hilários…vou começar a esboçar alguns… Beijinhos. Liliana Ostrovski, Rio de Janeiro-RJ – abr2007
03- Claro q quero a trilha sonora, cara. Muito boa!!!! Muito boa mesmo essa história… VALE UM CURTA… Já pensou? E qto ao Campari, foi boa pedida!! José Lins Jr., Juazeiro do Norte-CE – abr2007
04- olá..ricardo adorei..ler ….o que vc me mandou… Maria Aparecida Brígido, São Paulo-SP – abr2007
05- Adorei essa modalidade de literatura on line, com trilha sonora…. É muito bom vc ter uma musica dando o clima da estória…. Ciça Castello, Rio de Janeiro-RJ – abr2007
06- Oi Kelmer, Já estava com saudade. Bom demais. Adorei! Beijos. Virgínia Lígia de Freitas, Fortaleza-CE – abr2007
07- O CONTO DA VIDA LOUCA ESTÁ TUDIBOM. PARABENS!!!!!BJU Christina Alecrim, Rio de Janeiro-RJ – abr2007
08- Oi Ricardo, Divertidissima sua “trilha da vida loca”, eu ja tinha lido o texto na sua coluna no Povo e fiquei pensando como seria o tal bolero, ai surpresa, a noite chega seu email com a trilha sonora! Haja drama, hein? Parabens! Ah, e quando vai ter apideiti no site? Beijinho de saturday morning. Ana Wauneka, San Diego-EUA – abr2007
09- Dear Ricardo, Adorei a interpretacao da trilha da musica Lama. Voce e’ demais. Adoro de verdade o que voce escreve. E quando e’ que vens me visitar aqui na California? Tem coisas unicas por aqui pra voce observar e depois quem sabe escrever sobre elas. Beijinhos. Raquel F. Araujo, Los Angeles-EUA – abr2007
10- Nossa! Porque depois de tanto sofrimento ela ainda tem que continuar a destruir a própria vida e o seu ganha pão por causa de um sacana?Eu fique muito deprimida com o final deste conto.Ela deveria ter realmente ter aceitado esta dura lição da vida,agradecido por tudo o que aprendeu e por ter sobrevivido e dali prá frente tocar a vida dela com mais humildade e amor no coração. Bia Leite, São Paulo-SP – abr2007
11- Parabéns pelo belo texto, Ricardo! Interessante a maneira pela qual vc abordou as ironias e as desventuras que cercam o universo do desejo e das paixões. Kátia Albuquerque, João Pessoa-PB – abr2007
12- Cara! Parabéns!!! Gosto muito de ler seus textos! Me envie sempre que puder!!! Forte abraço de um fã! Thiago Jede, Três de Maio-RS – abr2007
13- Caramba, que final, rapaz!!!!! GENIAL! Parabéns, mais uma vez! Humberto Batista, Fortaleza-CE – abr2007
14- Minha nossa… sempre, sempre você. Ao terminar de ler estava exausta. Amores… sempre eles… Fabiana Polotto, São José do Rio Preto-SP – abr2007
15- Bem, sobre o texto, adorei, mesmo, assim como a trilha, só vc mesmo, sempre criativo! Parabéns! Jayme Akstein, Rio de Janeiro-RJ – abr2007
16- Tu tá cada vez melhor, macho véio. José Everton de Castro Jr., Fortaleza-CE – abr2007
17- Campari. :^) Como adivinhou minha bebida preferida??? Bjus… Rildete Ribeiro, Aracaju-SE – abr2007
18- Achei lindo,extremamente sensível, mas muito triste…. Isso tudo daria um belo filme! Tu poderias me mandar a música? Beijinhos. Vanessa Santini Vebber, Caxias do Sul-RS – abr2007
19- Loner, meu breg brother!!! Tá EXCELENTE! Só lembrei dos velhos tempos de Roque Santeiro. Sensacional!!! Valeu! Beijos. Malena, Brasília-DF – abr2007
20- Recebo sempre seus emails e já que, além de nordestino você passou dois meses pelo nordeste. Grava essa: NÃO EXISTE PAREA PRA VOCÊ.Risos.Um abraço. Francisca Fernandes, Fortaleza-CE – abr2007
21- Ô, Kelmer, esse negócio aí da Lena num é amor nao, Cara, é doença… Abraço lusitano e fraterno. Flamarion Pelúcio, Fortaleza-CE – mai2007
22- Adorei a TRILHA DA VIDA LOCA: LAMA. É uma série, não? Muito bem escrito, personagens fortes e sua linguagem está melhor a cada dia. Gostei muitíssimo! Que bom! Cara, mande ver !!! Admiro-o muito nesta empreitada que já é jornada de tantos anos e gosto muito de você, pessoa massa! Abração. Érico Baymma, Fortaleza-CE – mai2007
23- Caro Ricardo Lafayet, O texto é péssimo!!! Não prende a atenção do leitor.Tema banal no cotidiano.Não há humor, poesia, … Prenda o leitor meu caro!!! Na minha opinião, o que faço com imparcialidade, vc alterna bons e maus textos. Quando gosto de um, sei q o seguinte será ruim!!!!! Eduardo Macedo, Recife-PE – mai2007
24- Tá com a gôta!!!!!!!!!!!!!!!!! Show! Nazaré Franca, Fortaleza-CE – mai2007
25- perfeito!como sempre brilhante!te admiro muito!bjs. Beth Alencar, Fortaleza-CE – mai2007
26- Oi, Ricardo! Caramba, vç tem a extrema facilidade de fazer o leitor ler, visualizar e sentir ao mesmo tempo. As emoções de ambos foram introjetadas de tal forma que senti como se estivesse vivendo aquilo.E é que li sem ouvir a música, imagine o apelo q se torna então.Brilhante, sou kelmerfã de carteirinha! Beijos. Lia Aderaldo, Fortaleza-CE – mai2007
27- Eita!!! “Pega fogooooooooooooo o cabaré!!!!” Da até pra dançar um bolerão, hahahahaha!!! Pensa numa “Boate Azul”!!! Adorei o texto!!!! Só trocaria o campari por uma vodka!!! huahuahuahua!!!!! Bjssssssssss. Lua Morena, Luziânia-GO – mai2007
28- Ricardo , que massa a história. Curti. Irei a Sampa semana que vem . Se rolar podemos trocar uma idéia!! abços. Petrus, Fortaleza-CE – mai2007
29- DOREEEEEEEEEEEEI !!! Beijo grande. Ilana Nahm, Rio de Janeiro-RJ – mai2007
30- Lama é o máximo ,dá um filme fantástico , e Odair José me fez viajar nas lembranças , nos finais de noites ,lá na abolição……….no dia que só chegamos em casa a noite depois de um tour enormeeeeeeeeeeee nos bares e restaurantes da cidade , depois de um luau ,com a irmã da Cris , lembra? bom demais…………..tudo que lí me transportou total para lembranças maravilhosas…. é meu amigo , voce está ótimo , muito + sensivel ,calmo ,muito + tudo de bom em um homem……………. Cristina Cabral, Fortaleza-CE – out2007
31- Adoooooooro essa música num mix com Preconceito. Divinas!! Tenho o CD Imitação da Vida (Bethânia) com as duas. Carmem Mouzo, Rio de Janeiro-RJ – fev2011
32- Muiiitttoooo booommmmm!!! Luce Galvão, Fortaleza-CE – fev2011
33- Gostei da ousadia do texto, sou evangélica e tenho horror dessa história de colocar a culpa de tudo em Satanás. Ora e o livre arbítrio? Nota 10 pra o texto “LAMA”. Marilde Jorge, Fortaleza-CE – fev2011