Ricardo Kelmer 2011
O feminino tem muitas luas, é menina e é mulher, é santa e é prostituta
O feminino é um elemento muito importante em meu trabalho. Desde o início ele já se revela, nas redações da escola e nos poemas adolescentes. Está presente em meus livros, no Cabaré Soçaite e no Viniciarte. O amor, o respeito e a reverência à mulher… O fascínio pela beleza, pela sensualidade e pelo mistério que exala do feminino…
Separei alguns poemas e letras de músicas onde o princípio feminino está bem manifestado, em várias de suas facetas. Sim, o feminino tem muitas luas, é menina e é mulher, é santa e é prostituta. Às vezes se expressa na mulher carente e vingativa, noutro dia na garota fútil no shopping center, depois na mulher guerreira ou na velha sábia. O feminino não é. O feminino são.
> Pra ouvir e baixar as músicas
.
.
MENINA DO LACINHO COR-DE-ROSA
Johnson, Lonner e Gil, 1989
.
Quando entrei no cabaré
Todo mundo se divertia
Nessa noite que rolava
Todo mundo aproveitava
A festa acontecia
Numa mesa mais escura
Vi uma cena comovente
Uma menina ainda nova
Com um lacinho cor-de-rosa
Me sorria tristemente
Menina do lacinho cor-de-rosa
Teu lugar não é aqui
Levanta que eu te levo embora
Vem que eu te faço ser feliz
Fui sentar na sua mesa
E ela logo me falou
Estranho pode parecer
Mas não procuro o prazer
O que eu quero é o amor
E me disse com a voz meiga
Num beicinho de chorar
Ainda não sou bem crescida
Mas já sei que nesta vida
O importante é amar
.
.
MARIA DA GRAÇA
Ricardo Kelmer, 1996
.
Maria da Graça eu
Meu senhor
Bendita nos teus braços
Bendito, o fruto dessa paixão
Seduz
Maria da Graça eu
Meu senhor
Pecadora desse amor
Agora é a hora da minha sorte
Meu bem
Maria da Graça eu
Cheia de graça eu
Agraciada eu
Acariciada eu
Viciada eu
Abraça eu
Meu senhor
Meu bem
.
.
DESATINOS
1996, música de Ricardo Kelmer e Flávia Cavaca
.
Tantos bares em teu desejo
Tantos beijos em teu se dar
Eu te procuro e não me vejo
À luz neon do teu olhar
Mas hoje meu hálito é cor de vinho
E me alinho às deusas do que vier
Um decote ousado, um ar mordido
Você não conhece uma mulher
Me leva contigo ao mundo teu
Ensina os desatinos do mundo teu
Quero me deitar com quem te ama
Na cama de quem me abençoar
.
.
DECIFRA-ME
Ricardo Kelmer, 1997
.
Tem noite em que eu sou tão santa…
Mulher tem de saber o seu lugar
Eu olho para ti e é obscena
A cena do meu corpo em teu olhar
Eu viro o rosto pra não corar…
Tem noite em que eu sou tão cara
Mulher tem de saber o seu lugar
No olhar que ela inflama
Na cama de alguém sem se dar
Tenho um aluguel para pagar…
Esse é o jogo do amor
Esse é o seu desafio
Te seduz o meu pudor
Te ameaça o meu cio
Sim, eu me dou pra você
Como eu sempre quis me dar
Se você me decifrar
Só se você me decifrar
.
No Sopa de Letrinhas (Bar Bagaça, São Paulo, 2011)
.
VINGATIVA
Ricardo Kelmer, 1997
.
Ah, você não sabe do que eu sou capaz
Eu viro louca possessiva
Descabelada, vingativa
Eu faço um inferno da sua vida
E conto pra sua mulher
O que é que você faz
Você não me conhece, rapaz
Eu escandalizo o público
Eu publico suas cartas ridículas
Eu compro soda cáustica
E deixo sua carreira por um fio
Depois sorrio e durmo em paz
Ferina e mordaz
Eu arroto imprudência
Eu esqueço a decência
Ah, a vingança é uma ciência
Que em mim atingiu seu apogeu
Você já perdeu o seu cartaz
Não me subestime, rapaz
Você não sabe do que eu sou capaz
.
.
DESPREZÍVEL
1998, música de Ricardo Kelmer e Toinho Martan
.
Desprezível eu sou
Desprezível
Rastejando de desejo
No quarto de despejo desse amor
Desprezível
Quantas vezes te procurei
Nas madrugadas da cidade
Ai que louca que eu sou
Ai que pouca vergonha
A insônia desse amor
Manda em mim que eu obedeço
Diz que eu não presto
Diz que eu sou desprezível
Me deixa aqui na mesa
Vai que eu pago a despesa
Desse amor
.
.
QUANTO VOCÊ PAGA
2001, música de Ricardo Kelmer e Toinho Martan
.
Você me olha desse jeito
Pensa que eu não sei
Que você quer me comprar
Mas eu não estou à venda, meu bem
O que está à venda é o seu sonho de ter
O que você pode pagar
Quanto você paga, meu amor
Pra eu nunca dizer não?
Quanto você paga pra eu roubar
Seu coração?
Quanto você paga pra eu dizer
Coisas que sua mulher não diz?
Quanto você paga
Pra eu te fazer feliz?
.
.
RECOMEÇAR
2004, música de Ricardo Kelmer e Ana Alcântara
.
Olha pra mim
Eu vim aqui tão desarmada
Meu orgulho deixei em casa
Tudo que eu trago é a minha dor
E esta canção que eu fiz pra você ver
Que eu vim de cara lavada
Não quero briga, tô tão cansada
Deixa que fale por mim
A dor sem fim desta canção
Me perdoa, foi sem querer
O mal que eu fiz a você
Eu tive tudo mas não soube ser feliz
Eu nunca quis te magoar
Olha as lágrimas da nossa história
Borrando as notas desta canção
Aperta a minha mão
Vem, vem me abraçar
Me beija e me diz, por favor
Vem me beijar e me diz
Que a nossa história vai recomeçar
.
Angélica Brita, abalando na Belas da Tarde (Fortaleza, 1993)
.
PRA VOCÊ ME VER
2005, música de Ricardo Kelmer e Ana Alcântara
.
Esse meu jeitinho fotogênico
E esse teu olhar tão fotográfico
A me envolver e me desnudar
Eu faço pose pro teu desejo
Só pra te ver perder o foco
A meia-luz do meu corpo
Vai te ofuscar
Sem filtro e sem retoque
Eu vou me revelar
Pra você me ver e se deliciar
Pra você me ver e se viciar
Vai ver, vai ver se há
Uma assim que nem eu
Jeitosa assim, tão dada assim
Abusada assim, todinha assim
Não há
.
.
NÃO FAZ SENTIDO
música de Ricardo Kelmer e Ana Alcântara, 2005
.
Você pergunta como eu estou
Se eu preciso de alguma coisa
Em quê que você pode me ajudar
E eu digo que comigo vai tudo bem
Segue o trem da minha vida
Obrigado, não precisa se preocupar
Não, não faz sentido
A tua boca assim pertinho de mim
E não poder beijar
É tão estranho ver você assim
Dizendo coisas que eu não quero
Que eu não posso, eu não consigo acreditar
Não tem lógica ouvir a tua voz
Dizendo agora a gente é amigo
Não vem com essa de pode se abrir comigo
De pode me ligar
.
.
HELLO KITTY
música de Ricardo Kelmer e Flávia Cavaca, 2005
.
Meu bem, vou te contar
Essa vida é um shopping
Meu passeio preferido
É ser vitrine pro olhar
Sou oferta cintilante
Impossível recusar
Sou jóia cara
Aquela estrela rara
Que periga te cegar
Eu assumo, sou de consumo
Mas só vai me ganhar
Quem souber me conquistar
Meu celular tá tocando
Meu ibope tá subindo
Minha vida é uma festa
E eu não vou te convidar
Mas hoje tô boazinha
E uma chance vou te dar
Então entra na fila e espera
Que eu ainda vou me arrumar
.
.
ALMA UNA
música de Ricardo Kelmer e Flávia Cavaca, 2005
.
Celebrar o milagre de ser
O assombro de viver
Na doce magia da noite
Minha alma é noiva desse ritual
O fogo me aquece num abraço amigo
As fagulhas são reflexos do infinito
Eu danço o mistério da Lua
Linda, nua e natural
Eu faço amor com a Terra
Sou a amante eterna
Do fogo, da água e do ar
Sou irmã de tudo que vive
Ninfa que brinca com a vida
Alma una com tudo que há
Salamandras brincam na fogueira…
Guerreiras aladas trazem oferendas…
Se aproximam os animais de poder…
Planta-mestra, eu quero aprender…
Guardiães, abençoem meu caminho…
Tambores do xamã, toquem pra mim…
Grande Mãe, estou aqui…
.
.
ALMA SELVAGEM
2005, Ricardo Kelmer
.
Ela tem a alma selvagem
E o vento sopra liberdade
Na mecha do cabelo
Brinca de beijo, pede afago
Mas cuidado
Ela gosta de arranhar
Ela segue seu destino
No fluxo feminino
Deita com a lua nova
E o seu corpo se renova
À noite chora por amor
Sonhos que ainda não realizou
Ela celebra a vida em rituais
Bendiz os ciclos naturais
Ela sabe, o ser não cabe na definição
Abraça o mundo com carinho
Mas só vai pelo caminho
Onde tem um coração
Alma selvagem, liberdade de ser
Alma selvagem, coragem de viver
.
.
O Monge Traveca. Com o parceiro Toinho Martan,
show da Intocáveis Putz Band (Fortaleza, 1999)
.
EU QUERO AS DUAS
2006, Ricardo Kelmer
Eu quero as duas
A que é doce e a que arranha
Uma me mata de manhã
E a outra é toda manha
Uma me afaga
E a outra me assanha
Eu quero as duas
A louca e a delicada
Uma soluça em meu peito
A outra dança nua na sacada
A menininha sem jeito
E a mulher desatinada
Eu não sei qual é a melhor
Então eu quero as duas
Mas quero as duas numa só
.
.
ELA NO ESPELHO
2006, Ricardo Kelmer
.
No espelho ela se olha
Do outro lado ela se vê
E quem olha pra ela não é
Quem ela pensa ser
Ela vê que ela não é
Quem um dia ela já foi
Que o tempo passa na janela
E o que era ela já se foi
Ela se olha e se esconde
E pergunta outra vez
Mas o espelho não responde
Ao olhar dos seus porquês
Quem é aquela que se olha?
Quem é a outra que se vê?
E o seu olhar só lhe devolve
O mistério de crescer
.
Ricardo Kelmer – blogdokelmer.wordpress.com
.
.
RK NA TV ABCD – SENSUALIDADE FEMININA
Programa Universo Feminino, exibido em 20.06.11. Apresentadora: Luzia Saragoça. Produtora: Jocasta Palombino.
.
.
LEIA TAMBÉM
> Meu fantasma predileto – Diziam que era a alma de alguém que fora escritor e que se aproveitava do ambiente literário de meu quarto para reviver antigos prazeres mundanos
> O encontrão marcado – Fechei o livro, fui até a janela e olhei pro mundo lá fora. E disse baixinho, com a leveza que só as grandes revelações permitem: tenho que ser escritor
> Kelmer no Toma Lá Dá Cá - Aqueles aloprados moradores do condomínio Jambalaya descobriram meu livro
> Pesadelos do além - O pior pesadelo prum escritor é ser psicografado. Ou melhor: ser mal psicografado.
> O escritor grávido - Será um lindo bebê, digo, um lindo livrinho, sobre o mais belo de todos os temas
> Livros e odaliscas – Meia-noite. Volto do banho. Elas estão todas deitadas em minha cama, lânguidas odaliscas a me aguardar.
> O dilema do escritor seboso – Certos escritores amadurecem cedo. Tenho inveja desses. Porque nunca viverão o constrangimento de não se reconhecerem em suas primeiras obras
> Mais textos na categoria “Profissão escritor”
.
.
– Acesso aos Arquivos Secretos
– Descontos, promoções e sorteios exclusivos
Basta enviar e-mail pra rkelmer(arroba)gmail.com com seu nome e cidade e dizendo como conheceu o Blog do Kelmer. (saiba mais)
.
.
01- que massa! Ítalo Furtado, Fortaleza-CE – jan2012
02- Adorei!! Beijo!! Cristiane Bastos, Taíba-CE – jan2012
03- Tá tomando gosto pela coisa, hein!rsrsrsrsrsr. Maria Do Carmo Antunes, São Paulo-SP – jan2012
Will Duran, no seu magnífico livro, A história da filosofia, diz que a imaturidade o tempo conserta. O Marx tentou várias vezes modificar o seu Manifesto Comunista, pois a cada vez que lia via possibilidades de mudanças. Em 2000 publiquei um ensaio sobre a violência urbana, Violência: causas, conseguencias e soluções, e jamais imaginei que tudo que escrevi estaria acontecendo, mas devo te confessar que não gosto hoje do texto, pois ainda era neófito como publicista e fico até acabrunhado por tê-lo escrito. Mas o importante é escrevermos nossas histórias e ter a certeza de que um dia valeu a pena ter escrito, mesmo que depois não nos reconheçamos mais dentro do texto, como você genialmente dissertou. Forte abraço,



Escrito por ricardokelmer 







































