Ser mulher não é pra qualquer um

Outubro 31, 2009

É dada a saída, lá se vai o trenzinho. Num vagão as Belas, abalando nos modelitos, no outro as Madrinhas, abalando com o isopor e o estojinho de primeiro-socorro

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BelasDaTarde-1993-03bEra no último dia do ano. Uns caras desciam pra avenida Beira-Mar vestido de mulher pra jogar bola. Tudo de vestido e cerveja na mão. Ideia genial, de uma só vez homenagear o melhor da vida: mulher, futebol e cerveja. Não necessariamente nessa ordem, é claro.

Avisei os amigos e em 1988 engrossamos o cordão da Volta da Jurema, tudo empolgado querendo ser mulher por um dia. Euzinha botei uma sainha, blusinha de alça com enchimento, meia tarrafa, uma maquiagem assim bem básica e calcei… o conga. Bicha pobre, tadinha. Nem peruca tinha. Mas descolei uma bolsa escândalo pra levar a garrafa de Ypióca. Mulher moderna é assim, pinguça e pragmática.

Meu batismo feminino foi de sangue: subi no carro, ele arrancou e saí bolando pelo asfalto, que nem tatu-bola, eu e a cachaça. Levantei zonza, procurando meu brinco, a saia toda torta, um peito no chão, a própria mulamba. Na mão o gargalo da garrafa, tudo que restou da companheira. E no braço… hummm, um corte horrível, que me custaria doze pontos externos e oito internos. Hoje mostro a cicatriz com orgulho: tá vendo, eu estive lá.

Aí o grupo cresceu e uma multidão ia pra Volta assistir ao desfile das bonecas, uma centena de ensandecidas aprontando na Beira-Mar, desfilando em carroça de jumento, invadindo ônibus, agarrando os bofes, gritinhos, xiliques e coreografias. Um verdadeiro carnaval fora de época.

Anos depois a festa tinha trio elétrico, axé music, muita bicha legítima e político querendo aparecer, ô racinha… Criamos então, em 93, um bloco dissidente: As Belas da Tarde. E elegemos como paraninfa Catherine Deneuve, claro. Ela foi convidada mas seus compromissos não permitiram, tudo bem. Passamos a desfilar no pré-carnaval e a cada ano escolhíamos a Bela Rainha, que botava a faixa e abria o desfile, glória máxima na vida de uma Bela. Nosso ritual era sagrado: concentração ao meio-dia, modelitos-arraso, batons, brilhos e, por favor, qualquer coisa pra beber, o que é isso?, licor de ovos, serve. As amigas e namoradas ajudavam na produção, lutando pelo título de Bela Madrinha. Diferente desses blocos onde os caras botam um limão no sutian e se acham mulher, a gente fazia questão de ficar bonita. Pra entrar no bloco tinha que ser convidada, isso mesmo, era coisa séria. Afinal ser mulher não é pra qualquer um.

É dada a saída, lá se vai o trenzinho. Num vagão as Belas, abalando nos modelitos, no outro as Madrinhas, abalando com o isopor e o estojinho de primeiro-socorro. Quarenta belas, uma parte já totalmente alucinada e a outra já clinicamente morta. O trenzinho percorre faceiro as avenidas ao som de Frenéticas, Xuxa e Ney Mato-Grosso e quem está na rua corre pra não ser violentado pelo bando de tarada. As tevês cobrem a pouca-vergonha: “Estamos aqui na avenida Abolição e o trânsito está um caos, os policiais são impotentes diante do furor uterino das Belas enlouquecidas!” A passagem pela Beira-Mar é apoteótica: as Belas invadem os hotéis gritando “Ar-ren-ti-nos! Ar-ren-ti-nos!” Os gerentes ficam em estado de choque. Os seguranças tentam barrar a turba mas, você sabe, é impossível deter um magote de bonecas bárbaras, tudo doida pra sentar no colo de um gringo, tomar o uísque dele e detonar a lagosta.BelasDaTarde-02b

Uma vez pegaram um banhista e levaram a sunga dele, deixaram o coitado pelado no meio do calçadão. Ninfômanas! Outra vez o bloco invadiu o Náutico, interrompeu o jogo de tênis e levou as bolas. Vândalas! A outra desmiolada, debutando no bloco com seus primaveris 16 anos, bicha linda mas inexperiente na vidaloca, saltou de bico na piscina sem perceber que tinha apenas meio metro de fundo: foi direto pro hospital com a testa aberta, bem feito, quem manda dar desgosto à família! E a outra que caiu do trenzinho? Foi salva da morte pelo pai que levou a filha transviada pra farmácia e enquanto ele comprava soro fisiológico, não é que a condenada se apaixona por um creme de queratina e cai por cima da prateleira, derrubando tudo? Ô mulherzinha, deixa de ser desgovernada! E você não vai crer mas teve um ano que uma Bela absolutamente sem juízo pegou no pingolim do soldado, acredita? Pois foi. Enquanto o soldado corria atrás, a Bela gritava: Mal-agradecido, não te chupo mais! Que coisa. Botavam o quê na bebida dessas moças?

No fim do percurso a gente contabilizava as sobreviventes. E os namoros que restavam. Algumas Belas iam tomar glicose, outras esticavam a noite, insaciáveis. Mas a maioria não sabia mais nem em que ano estava. Uma vez, no dia seguinte, encontraram uma Bela semimorta no jardim de uma casa, ô vontade de ser uma orquídea… Outras conseguiam a incrível façanha de arrumar namorada, isso mesmo, namorada, vestido de quenga, a peruca parecendo um guaxinim molhado, o rímel escorrendo, aquele lastimável estado de embriaguez. É, tem gosto pra tudo. Pensando bem, nossas amigas eram mesmo sabidas: se aproveitavam da confusão pra fisgar aquele gatinho que nunca dava bola pra elas.

Em 96 o bloco desfilava pela Praia de Iracema seguindo a bandinha de metais. Ao passar pela igrejinha, na hora da missa, as Belas, mui beatas, suspenderam a música, caminhando em silêncio, respeitosas. Uma até baixou o vestido, escondendo a peruca chanel que levava dentro da calcinha. Porém… uma Bela isprito-de-porco não resistiu e soltou o refrão: “Na casa do Senhor não existe Satanás!” Pronto, as outras acompanharam, “Xô, Satanás, xô, Satanás”, a bandinha se animou, a festa voltou e os fiéis, apavorados, saíram correndo da igreja pensando que o próprio demo chegava com sua horda de dementes. Um ano depois o Tribunal do Santo Ofício excomungaria todas as Belas, bem feito. Com exceção de uma que se arrependeu da vida pecaminosa e virou Carmelita.BelasDaTarde-01a

A essa altura o bloco já estava em franca decadência, as Belas todas velhas, barrigudas, cheias de pelanca. A época áurea dos corpinhos malhados havia passado e já tinha Bela pai de família levando os filhos pro desfile. Hummm, melhor parar. E assim as Belas da Tarde desceram a cortina, encerrando sua vistosa história de purpurina e alegria. Mas tem muito marmanjo aí que, por via das dúvidas, ainda guarda a meia arrastão no fundo da gaveta – eu, por exemplo. Sei lá, vai que um dia bate assim um revival. Já estamos excomungadas mesmo…

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Ricardo Kelmer 2005 – blogdokelmer.wordpress.com

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Foto 1: Valmir Jr (A Perestroika da Fanta Uva), André Barbacena (A Filha de Glorinha) e RK (Angélica)
Foto 2: Valmir Jr (Bela Rainha 1993 com o modelito A Perestroika da Fanta Uva), RK (Angélica) e Rian Batista (Inês Fiúza)
Foto 3: O famigerado trenzinho. RK, Fred Schlaepffer (de biquinho), Emílio Schlaepffer, Marcio Régis, Nelsinho Machado (bicha séria), Vicente Vieira (de óculos) e Fábio Fabão. A bela de chapéu, afff, até hoje não sei quem é esta criatura risonha.


Em busca da mulher selvagem

Outubro 19, 2009

Era por ela que eu sempre me apaixonava, essa mulher que era quem ela mesma desejava ser e não a mulher que a família, religião e sociedade impunham que ela fosse

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EmBuscaDaMulherSelvagem-02base4bFoi Marília quem me emprestou esse livro, em 2002, quando eu já andava curioso a seu respeito. Depois Rafaela me deu um de presente. E depois ganhei a versão digital. Ou seja, esse livro queria mesmo vir pra mim, e foram as mulheres que o trouxeram. Li e fiquei encantado. Nas páginas de Mulheres que correm com os lobos estava o que eu intuía sobre as mulheres e a relação entre os gêneros mas ainda não sabia verbalizar. O livro me chegou numa fase em que eu já lidava melhor com meus aspectos femininos e, por isso, me identifiquei profundamente com ele e com a histórica questão da domesticação da mulher.

Terminei a leitura sentindo em minha alma uma avalanche de ideias e sensações mas sentindo também que levaria um bom tempo até que tudo aquilo assentasse e eu conseguisse organizar meus pensamentos e reagrupar as verdades que, embora não fossem tão novas pra mim, agora eram obviamente, estupidamente claras. Através de mitos e lendas coletados em várias partes do mundo, a autora mostra como sobreviveu, mesmo escondida sob muitas formas simbólicas, o arquétipo do feminino selvagem, o modelo da mulher conectada com os ritmos e valores da Natureza e de sua própria natureza, o modelo da mulher livre. Um livro belíssimo, que tem ajudado muitas mulheres a resgatar o que séculos de repressão lhes usurparam: o direito de serem o que quiserem. Um livro que fala essencialmente do feminino mas também fala de homens e deveria ser lido pelos dois.

A mim, o livro de Clarissa me fez especialmente entender que, em minha vida, desde cedo me fascinou o arquétipo do feminino selvagem. Por causa disso sempre me atraíram as mulheres de iniciativa, as desafiadoras da cultura machista, as que recusavam o modelito cristão de mulher virtuosa, as que se rebelavam contra regras sociais idiotas, convenções sexuais sem sentido, modelos de relacionamento baseados na posse do outro e tudo que objetivava manter a mulher submissa e sob controle. Era por ela que eu sempre me apaixonava, essa mulher que era quem ela mesma desejava ser e não a mulher que a família, religião e sociedade impunham que ela fosse.

Esse livro me trouxe uma das mais importantes revelações que já tive, que a mulher da minha vida é e sempre foi uma só: a mulher livre. E que foi essa mulher que, mesmo sem saber, eu sempre busquei em minhas relações, ainda que a temesse. E que foi por ela que abandonei muitas mulheres, ao intuir, sem saber explicar nem pra mim, que eu jamais poderia ser totalmente eu ao lado de uma mulher domesticada.

Porém, como aceitar e amar essa mulher liberta sem, antes, eu mesmo me libertar do que também me limitava? Pra merecê-la, eu também precisava me libertar de vez de qualquer pretensão de controlá-la, esse resquício maldito de minha herança cultural-religiosa.

A ficha caiu após ler Mulheres que correm com os lobos: esse livro me ajudou a assimilar o feminino em meu ser e foi isso, exatamente isso que me fez deixar de temê-lo, me fez mais selvagem no sentido psicológico-arquetípico, me fez mais livre. O efeito prático disso tudo é que agora eu finalmente estava aberto pra relações mais igualitárias e, principalmente, pra receber a mulher livre que tanto buscava em minhas relações. Então ela veio, enfim ela pôde vir. Veio linda, plena e radiante, e eu vi em seus olhos o reflexo dela própria em mim. E desde então continua vindo, e eu e ela somos lobos que cruzam florestas atraindo-se pela fome louca que temos um do outro.

E eu sei que ela sempre virá, porque esse amor que trazemos em nós, geralmente incompreendido por não erguer cercas de posse e jaulas de controle, é o amor que aprendemos a respeitar em nossa própria natureza e que nos alimenta de alegria e liberdade a alma selvagem.

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Ricardo Kelmer 2009 – blogdokelmer.wordpress.com

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EmBuscaDaMulherSelvagem-02base4c

Mais sobre liberdade e o feminino selvagem:

> A mulher selvagem - Ela anda enjaulada, é verdade. Mas continua viva na alma das mulheres
> A mulher livre e eu – A liberdade dessa mulher reluz no seu jeito de ser o que é – e ela é o que todas as outras dizem ou buscam ser, mas só dizem e buscam, enquanto ela tranquilamente… é
> Em busca da mulher selvagem – Era por ela que eu sempre me apaixonava, essa mulher que era quem ela mesma desejava ser e não a mulher que a família, religião e sociedade impunham que ela fosse
> Amor em liberdadeO que você ama no outro? A pessoa em si? Ou o fato dela ser sua propriedade? E como pode saber que ela é só sua?
> As fogueiras de Beltane
As fogueiras estão acesas, a filha da Deusa está pronta. O casamento sagrado vai começar

LIVROS

> Mulheres que correm com os lobos - Mitos e histórias do arquétipo da mulher selvagem (Clarissa Pinkola Estés -  Editora Rocco, 1994)
> A prostituta sagrada – A face eterna do feminino (Nancy Qualls-Corbert – Editora Paulus, 1990)
> As brumas de Avalon
- (Marion Zimmer Bradley – Editora Imago, 1979)

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Comentarios01 >> COMENTÁRIOS

.001- Não tenho a menor dúvida, RK, que é pelas mulheres Lilith – mulheres serpentes, que tu é fascinado e arriadinho. Tua alma é Lilithiana, criatura de Deus e do Diabo, de Abraxas!!!! Tava com saudade de tu. Rauariú, sacerdote do Grande Mistério Andrógino? Onde mora o perigo, querido, também mora a salvação, a conjunção. Pat Maria, Salvador-BA – out2009

002- Gostei do que vc escreveu. Ando relendo de novo o livro e vejo quantas coisas se assemelham a mim. Parabens. Um abraço. Christina Costa, Brasília-DF – out2009

003- Li há pouco tempo a biografia de Leyla Diniz.Essa sim é a personificação do feminino selvagem. Bjs. Mônica Burkleward, Recife-PE – out2009

004- Nossa adorei o trecho. Síntese do que venho exercitando na minha vida. Jamille Abdalah, São Paulo-SP – out2009

005- Grande Kelmer, você, como sempre, produzindo textos bacanas e bem bolados. Esse do feminino, então, show de bola, a foto foi por demais bem feita. parabéns!!! Forte abraço. Luís Olímpio Ferraz Melo, Fortaleza-CE – out2009

006- Kelmer, vou correndo ler o livro Mulheres que correm com os lobos. Essa mulher, livre, que dá banana pro machismo, que vive plenamente todos os prazeres hedonistas que lhe interessam, que toma iniciativa (mesmo sabendo do preço que paga por isso), essa mulher, sou eu! Beijão e.. valeu o toque. Vou xeretar teu blog pra saber mais. Meire Viana, Fortaleza-CE – out2009

007- Meninas, vale entrar no blog e dar uma conferida… Beijos. Ana Zanelli, Rio de Janeiro-RJ – out2009

008- Kelmer, até que enfim um homem entendeu o livro da Clarisse… (!) Claudia Santiago de Abreu, Rio de Janeiro-RJ – out2009

009- Que crônica ótima,gostei,só nÂo sei se me encaixo ‘100% nesse modelo de MULHER SELVAGEM viu. bjo parabéns pelo o trabalho fantástico. Eunyce Fragoso, Campina Grande-PB – out2009

010- Ei amigo,que bom que você descobriu as mulheres que correm com lobos… Que elas sempre estejam presentes no seu mundo! Se cuida tá! Lua, Fortaleza-CE – out2009

011- vc é especial, realmente quer e gosta de conhecer a alma feminina. faz de um tudo para compreender!!! Uma tarefa um tanto complicada,,,, Haja paciência!!! rs. Vânia Farah, São Paulo-SP – out2009

012- Quem tem medo da mulher livre?? O homem preso, oras (risos) Beijos ternurentos Tô adorando o livro…pena estar na correria e estar com tempo reduzido a zero…. mas logo termino… Beijos, outros. Clau Assi, São Paulo-SP – out2009

013- Ricardo, eu sou tua fã demais!!!! Vc é www.tudodebom.com.br/quehomeéesse!!!!! O sonho de consumo de toda mulher selvagem, incluindo eu mesma, claro! Bjs;. Karla K, Fortaleza-CE – out2009

014- Hoje tive oportunidade de entrar no seu blog, por indicação de uma amiga. Fizemos parte de um grupo de vivências apoiadas na leitura do Mulheres que correm com lobos e ela me recomendou a leitura da sua crônica Em busca da mulher selvagem. Fiquei encantada. Acabei lendo também os contos As fogueiras de Beltrane, que amei, Um ano na seca e a crônica Homens perfeitos também alopram. Interessante como você circula com competência rara entre o sagrado/mítico/profano/humor… Será com prazer que voltarei à sua página. Parabéns belos belos textos e por suas múltiplas artes. Elvira, Brasília-DF – out2009


Mulheres que correm com os lobos

Outubro 17, 2009

LivroMulheresQueCorremComOsLobos-01

Mulheres que correm com os lobos
Clarissa Pinkola Estés (Editora Rocco)

Os lobos foram pintados com um pincel negro nos contos de fada e até hoje assustam meninas indefesas. Mas nem sempre eles foram vistos como criaturas terríveis e violentas. Na Grécia antiga e em Roma, o animal era o consorte de Artemis, a caçadora, e carinhosamente amamentava os heróis. A analista junguiana Clarissa Pinkola Estés acredita que na nossa sociedade as mulheres vêm sendo tratadas de uma forma semelhante. Ao investigar o esmagamento da natureza instintiva feminina, Clarissa descobriu a chave da sensação de impotência da mulher moderna. Seu livro, Mulheres que correm com os lobos, ficou durante um ano na lista de mais vendidos nos Estados Unidos.

Abordando 19 mitos, lendas e contos de fada, como a história do patinho feio e do Barba-Azul, Estés mostra como a natureza instintiva da mulher foi sendo domesticada ao longo dos tempos, num processo que punia todas aquelas que se rebelavam. Segundo a analista, a exemplo das florestas virgens e dos animais silvestres, os instintos foram devastados e os ciclos naturais femininos transformados à força em ritmos artificiais para agradar aos outros. Mas sua energia vital, segundo ela, pode ser restaurada por escavações “psíquico-arqueológicas” nas ruínas do mundo subterrâneo. Até o ponto em que, emergindo das grossas camadas de condicionamento cultural, apareça a corajosa loba que vive em cada mulher.

(Sinopse extraída do site da Editora Rocco)

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RK COMENTA

Foi Marília quem me emprestou esse livro, em 2002, quando eu já andava curioso a seu respeito. Depois Rafaela me deu um de presente. E depois ganhei a versão digital. Ou seja, esse livro queria mesmo vir pra mim, e foram as mulheres que o trouxeram. Li e fiquei encantado. Nas páginas de Mulheres que correm com os lobos estava o que eu intuía sobre as mulheres e a relação entre os gêneros mas ainda não sabia verbalizar. O livro me chegou numa fase em que eu já lidava melhor com meus aspectos femininos e, por isso, me identifiquei profundamente com ele e com a histórica questão da domesticação da mulher.

Terminei a leitura sentindo em minha alma uma avalanche de ideias e sensações mas sentindo também que levaria um bom tempo até que tudo aquilo assentasse e eu conseguisse organizar meus pensamentos e reagrupar as verdades que, embora não fossem tão novas pra mim, agora eram obviamente, estupidamente claras. Através de mitos e lendas coletados em várias partes do mundo, a autora mostra como sobreviveu, mesmo escondida sob muitas formas simbólicas, o arquétipo do feminino selvagem, o modelo da mulher conectada com os ritmos e valores da Natureza e de sua própria natureza, o modelo da mulher livre. Um livro belíssimo, que tem ajudado muitas mulheres a resgatar o que séculos de repressão lhes usurparam: o direito de poderem ser o que quiserem. Um livro que fala essencialmente do feminino mas também fala de homens e deveria ser lido pelos dois. (Em busca da mulher selvagem)

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Ricardo Kelmer 2009 – blogdokelmer.wordpress.com

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> Para ler na íntegra a crônica Em busca da mulher selvagem

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EmBuscaDaMulherSelvagem-02base4bMais sobre liberdade e o feminino selvagem:

> A mulher selvagem - Ela anda enjaulada, é verdade. Mas continua viva na alma das mulheres
> A mulher livre e eu – A liberdade dessa mulher reluz no seu jeito de ser o que é – e ela é o que todas as outras dizem ou buscam ser, mas só dizem e buscam, enquanto ela tranquilamente… é
> Em busca da mulher selvagem – Era por ela que eu sempre me apaixonava, essa mulher que era quem ela mesma desejava ser e não a mulher que a família, religião e sociedade impunham que ela fosse
> Amor em liberdadeO que você ama no outro? A pessoa em si? Ou o fato dela ser sua propriedade? E como pode saber que ela é só sua?
> As fogueiras de Beltane
As fogueiras estão acesas, a filha da Deusa está pronta. O casamento sagrado vai começar

LIVROS

> Mulheres que correm com os lobos - Mitos e histórias do arquétipo da mulher selvagem (Clarissa Pinkola Estés -  Editora Rocco, 1994)
> A prostituta sagrada – A face eterna do feminino (Nancy Qualls-Corbert – Editora Paulus, 1990)
> As brumas de Avalon
- (Marion Zimmer Bradley – Editora Imago, 1979)


Homens perfeitos também alopram

Setembro 21, 2009

O homem beijou a mão da moça, abraçou a moça, beijou no rosto, beijou mais, beijou mais ainda, depois abraçou mais forte, deu uma encoxada federal, dobrou a moça no meio

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RichardGereEShilpaShetty01Meu xará Richard Gere é mesmo um partidão. Bonito, charmoso, classudo, sexy, culto, inteligente, bom ator, rico, antenado com causas humanitárias, amigão do Dalai Lama… Putz, que mais um terráqueo poderia ser? Não é à toa que tanta mulher sonha com ele.

Tive uma namorada que era absolutamente alucinada por este cidadão. Ela tinha uma pasta com tudo sobre ele, fotos, matérias, entrevistas… A danada tinha até a corda do banjo que ele tocava nos tempos do ginásio, nem sei como conseguiu. Durante meses, por causa desse namoro, eu fui ao banheiro com o bonitão lá me observando das paredes, ele e aquele seu olhar doce-safado, que as mulheres adoooooram.

Mas até mesmo um cara perfeito como Richard Gere pisa na bola. Você certamente se lembra. Em 2007 ele simplesmente não se aguentou nas calças diante da beleza de Shilpa Shetty, a atriz indiana vencedora do Big Brother da Inglaterra. Num evento na Índia, mostrado pela tevê pro mundo inteiro, ele foi parabenizá-la e, de repente, pufff, bateu o neandertal tarado que vive em nós homens do sexo masculino. E aí o todo-cavalheiro Richard não ficou só nos parabéns…

O homem beijou a mão da moça, abraçou a moça, beijou no rosto, beijou mais, beijou mais ainda, depois abraçou mais forte, deu uma encoxada federal, dobrou a moça no meio, mordeu a orelha dela, engoliu o brinco, tudo isso sem parar de beijar, os dois quase caem no chão… Quase que Richard gera um indianozinho ali mesmo. Ele devia estar à procura de Mr. Goodbar no cangote da moça, só pode. Depois o Lancelote da Filadelfia ainda genuflexou-se e fez umas reverências à donzela. A indiana, realmente uma linda mulher, tomou um susto – mas tava na cara que ela tava amaaaaando. Depois deve ter sonhado com isso durante semanas. Você também sonharia, né, leitorinha?

Poizé. Mas pelas leis indianas, lá esses atos carinhosos em público têm limite, e muito limite. Resultado: o ainda enxuto gigolô americano teve decretada uma ordem de prisão contra ele na Índia, se pisasse lá de novo iria em cana. Sem perdão. Olha que mancha terrível no currículo do nosso Lancelote… E a indiana teve que prestar esclarecimentos sobre por que não impediu que Richard fizesse o que fez. Ahahahah! Depois o Brasil é um país machista. E mesmo que a moça quisesse, seu dotô, ela ia fazer o quê, o homem parecia um polvo alucinado!!!

Mas a força do destino sempre protege os homens perfeitos. Pro bem do currículo do meu xará, a justiça da Índia revogou a ordem de prisão. Deve ter sido influenciada pelos gritos de revolta das fãs indianas. Agora ele pode voltar lá, êba! E rever a bela Shilpa, êêêba! Dá-lhe Shilpa!!!

Aliás, a Shilpa é uma terráquea bem mimosa. E ainda tem esse nome assim, ahn, assim meio estiloso, né? E nomes estilosos como esse atraem coisas estranhas mesmo. Quer ver? Tem alguém perto de você agora, leitorinha? Tem? Então pronuncie o nome dessa moça em voz alta, três vezes: Shilpa, Shilpa, Shilpa. E veja o que acontece.

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Ricardo Kelmer 2008 – blogdokelmer.wordpress.com

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Veja o vídeo

O homem beijou a mão da moça, abraçou a moça, beijou no rosto, beijou mais, beijou mais ainda, depois abraçou mais forte, deu uma encoxada federal, dobrou a moça no meio

Razão e sentimento em conflito

Setembro 16, 2009

Razão e sentimento são funções psicológicas que auxiliam o ego a lidar com a realidade. Porém, quando o ego se apega demasiadamente a uma delas, ocorre o desequilíbrio psíquico

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RazaoESentimentoEmConflito-02O filme Don Juan DeMarco é mesmo maravilhoso. Sua história é boa e divertida, o roteiro perfeito, os atores estão muito bem e a trilha sonora é linda. As mulheres suspiram com o romantismo da trama, a poesia das imagens, a vitória do amor. É um filme que traz bons temas para discussão, como o donjuanismo e a dificuldade da ciência médica de lidar com o que ela diagnostica como loucura. No entanto, em minha palestra Razão e Sentimento em Conflito, uso o filme para falar de outro tema: o conflito entre intelecto e coração.

Não é à toa que esta palestra é muito solicitada por empresas. Cada vez mais elas percebem a urgente necessidade de terem funcionários psicologicamente equilibrados. O motivo é óbvio: pessoas harmonizadas consigo mesmas aprendem melhor, produzem melhor e vivem melhor. Investir na saúde de seus funcionários, física e psicológica, é um excelente investimento para qualquer empresa.

Em Don Juan DeMarco temos dois personagens em conflito: o psiquiatra renomado e o jovem problemático. O psiquiatra tem sua vida inteiramente regida pela lógica científica, ele é racional ao extremo, sempre frio em suas conclusões. O jovem é o oposto: sua vida é puro sentimento e emoção e ele só enxerga a vida pelas lentes da poesia, da aventura e do amor. Qual dos dois está certo?

Os dois estão errados. A prova disso são suas próprias vidas: o médico está cansado e desestimulado e seu casamento perdeu a paixão. E o jovem, frustrado por um amor não correspondido, desistiu de viver. Ambos perderam a vitalidade, o tesão pela vida. O motivo: eles esgotaram as possibilidades que razão e sentimento, sozinhas, têm para oferecer.

Razão e sentimento são funções psicológicas que auxiliam o ego a lidar com a realidade. Porém, quando o ego se apega demasiadamente a uma delas, ocorre o desequilíbrio psíquico e surgem os insucessos em vários aspectos da vida. A razão sempre busca entender a realidade pela ótica do intelecto, que é incapaz de abarcar toda a complexidade da vida. A razão não quer exatamente ser feliz: ela quer ter razão, sempre. Certamente você conhece alguém assim, que só admite a lógica racional para explicar a tudo. E o sentimento entende a realidade pela ótica da sensibilidade emotiva, o que também é insuficiente para lidar com a grandeza da vida. Muitas pessoas agem assim, achando que a pureza de seus sentimentos a tudo resolverá.

Em algum momento da vida o crescimento psíquico exigirá do ego o equilíbrio dessas funções. Se seguir a diretriz autocurativa de sua própria psique, a pessoa saberá conciliar razão e sentimento e sairá do conflito renovada. Passará a se relacionar com a vida usando as duas funções de modo equilibrado e consciente, sabendo reconhecer as ocasiões em que deve usar mais intelecto ou mais coração.

Tanto nos relacionamentos com a família, com amigos ou num casamento, como também no dia-a-dia profissional, esse equilíbrio psíquico é fundamental. Assim como o psiquiatra frio e o jovem romântico tiveram que entrar em intenso conflito antes de integrarem em si o que lhes faltava, às vezes é preciso chegarmos a um ponto crucial de desequilíbrio interno, que causa o desequilíbrio externo, e afundar na crise para, somente assim, reconhecer e integrar o que nos falta e sermos mais inteiros e harmonizados com nós mesmos, com os outros e com o mundo em volta.

Portanto, é bom ficar atento. Se a vida parece ter chegado a um ponto insustentável e viver de repente tornou-se uma sucessão de dias sem sentido, talvez esteja na hora de aceitar o outro lado que até agora negamos em nossa própria alma, mesmo que, a princípio, esse outro lado pareça limitado ou ingênuo. Ou louco demais.

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Ricardo Kelmer 2007 – blogdokelmer.wordpress.com

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DonJuanDeMarco-01Don Juan DeMarco
(Don Juan DeMarco, EUA, 1995)

Argumento e direção: Jeremy Leven
Elenco: Johnny Depp, Marlon Brando, Rachel Ticotinn, Bob Dishy e Geraldine Pailhas

Um renomado psiquiatra prestes a se aposentar aceita, num último desafio à sua brilhante carreira, cuidar do rapaz que diz ser a reencarnação de Don Juan, o maior amante da História. Ele tenta trazê-lo de volta à realidade mas o caso foge de seu controle e ele percebe que ali, naquele estranho mundo de fantasia, romances e aventuras, pode estar o segredo para transformar sua própria vida, seu casamento e até sua noção de realidade.

> Palestras de RK


Um ano na seca (04) Sonja

Setembro 10, 2009

figumanonaseca01 .

Sonja – Soprando forte

Onde eu parei mesmo? Ah, sim, a Sonja. Poizentão. Eu havia contado pra um camarada sobre minha trágica situação e ele, compadecido, combinou que me apresentaria a uma ninfeta deveras generosa chamada Sonja. O nome dela é esse mesmo?, perguntei. Não, não era. Era nome de guerra. Ah, tá. Sonja, a guerreira.

Mas do jeito que eu tava a perigo, ela é quem teria que se defender.

Marcamos pra uma quinta-feira, lá mesmo em meu apartamento em Botafogo. Na hora marcada meu amigo chegou, devidamente acompanhado da ninfeta. Ele nos apresentou, fazendo umas piadinhas que me deixaram meio sem jeito. E ela pelo jeito já devia estar acostumada. Sentei na poltrona e eles no sofá. Botei um Led Zeppelin pra gente escutar mas acho que ela não curtiu muito, fazia o tipo mais ripirrope. Servi domecq mas ela não bebeu, Sonja não bebia. Logo depois meu amigo foi embora, me deixando a sós com a ninfeta. Eu tava meio nervoso mas ela tava na dela, tranquila, me olhando com aqueles olhos grandes e verdes que ela tinha.

Lá pelas tantas achei que já tava bom de lero-lero: peguei Sonja pela mão e levei pra sacada pra gente ver o Cristo iluminado. Enquanto ela olhava eu não me aguentei mais nas calças e, bufo!, derrubei-a no chão, que nem um homem das cavernas alucinado. E comecei a soprar dentro dela. Nunca em toda a minha vida eu tinha feito aquilo, juro. Soprei durante meia hora e no final eu tava caído no chão, botando os bofes pra fora, parecia que havia corrido uma maratona. Em compensação Sonja tava bem cheinha. Meu amigo tinha razão: ela era bem fornida. Peituda e bunduda do jeito que homem do sexo masculino gosta.

Meu amigo me garantira que ela tava bem limpinha, ele a havia lavado no dia anterior. Mas achei melhor garantir e dei um bom banho na Sonja, com detergente e água sanitária, até botei um rexona no sovaco dela. De volta à sacada, nos encostamos na grade e enquanto eu bulinava sua bunda, recitei uns poemas do Vinicius pra fazer um clima assim meio romântico, de tudo ao meu amor serei atento. Olhei pra Sonja e ele tava de boca aberta, os olhos arregalados, certamente enternecida com meu esforço por agradá-la. Ela não me disse mas senti que meu amigo, com ela, não valorizava muito as preliminares. Homens…

Então os sete meses sem sexo gritaram dentro de mim e perguntei se ela queria ir pro meu quarto ou se preferia fazer ali mesmo. Você escolhe, Ricardinho… Acho que ela falou isso, não lembro bem. É que eu já tinha tomado metade do domecq e quando chego nesse ponto, dou pra ouvir coisas, ver gente morta, é um horror. Então eu escolhi o lugar, e escolhi ali mesmo, na sacada, sacomué, sempre fui chegado em sexo em locais inusitados. Foi quando Sonja falou, maliciosa: Locais inusitados assim tipo o meu cu, né, fofo?

Nesse exato instante eu me apaixonei. Quem não se apaixonaria?

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(Continua. Desde que você vote no Blog do Kelmer pro Prêmio BlogBooks. As votações vão até 18set2009. É só clicar aqui.)

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Ricardo Kelmer 2007-2008 – blogdokelmer.wordpress.com

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01- É. Eu não fazia idéia mesmo, fico sempre lhe subestimando e nunca acho que você vai se superar na continuação da saga de secura de 1 ano. E deve ser por isso mesmo que tomarei um remedinho pra cólicas daqui a pouquinho. Vai matar outro de rir, Kelmer, aliás, Ricardinho! (falei isso com a boca aberta e olhos arregalados, enternecidos…kkk) – Rafaela, Campina Grande-PB

02. Vc sabe tudo… e a Sonja também… INCRIVEL…”catártico” Ô Ricardooooo Termina essa estória pelamordeDeus…rsrsr… – Cristina Rodrigues, Santos-SP


Um ano na seca (03) Daniele

Setembro 3, 2009

figumanonaseca01.

Daniele – Safada ou comportadinha

A saga kelmérica Um Ano na Seca tem feito rir algumas leitoras sádicas. Não foi nada engraçado ficar um ano inteiro sem sexo mas se isso hoje diverte o respeitável público, então ótimo, vou encarar a coisa como, digamos assim, uma saudável reciclagem das desgraças da minha vida pregressa.

Onde parei no capítulo passado? Ah… Daniele, a morena de papel. Que comprei na banca por oito pilas e levei pra casa quando eu já tava a seis meses sem dar umazinha. Poisbem. Durante algumas semanas eu e Daniele vivemos bons momentos mas… havia um probleminha. Eu sempre queria Dani de quatro, ela ficava linda assim. Mas na hora H, quando eu tava chegando lá, a página virava e Dani passava pra outra posição, uma posição bem sem graça, que merda. Acabamos discutindo, eu querendo Dani safada de quatro e ela se querendo toda comportadinha numa poltrona.

Percebi que meus sentimentos já não eram os mesmos do início. Então fui até a janela e disse, sem olhar pra ela, olhando o fim de tarde lá fora: Beibe, preciso de um tempo. Ela ficou meio tristinha mas entendeu na boa. É uma vantagem das mulheres de papel, elas sempre entendem quando o cara precisa de um tempo. Daniele acabou na quarta gaveta do guarda-roupa, junto com a caixinha do brau. Até hoje desconfio que foi ela quem fumou o precioso, um especialíssimo que eu tinha guardado pro carnaval. Mas tudo bem, foi bom enquanto durou. Meses depois eu me mudei de Botafogo e desde então não tenho notícia de Dani, acho que a coitada caiu da mudança. Sorte de quem pegou.

Com isso, acabei voltando às ex-namoradas debaixo do chuveiro. Nada contra, claro, mas acontece que naquela secura de seis meses eu já havia homenageado todas elas, não havia sobrado nem mesmo uma fulana que anos atrás me atacou numa festa, terminamos num hotelzinho vagabundo e, quando acordei de manhã, a última coisa que eu lembrava era a gente saindo da festa e cadê que eu conseguia lembrar do nome da criatura? Nem do rosto eu lembrava mais. E até eu hoje não lembro. Imagine o estado do cidadão… Poisbem, até essa eu homenageei, lá debaixo do chuveiro. Homenageei sim, pra você ver a consideração que eu tenho com minhas ex e até com as taradas de festa, viu?

Foi aí que um amigo me apresentou Sonja. Que não era de papel.

Ih, infelizmente acabou o espaço. Posso continuar semana que vem? Não? Ah, mocinha, não seja tão exigente comigo, entenda minha situação, eu tô precisando desabafar, aprendi isso com vocês, botar pra fora os sentimentos, né isso? Então, tô botando. Mas não dá pra botar tudo de uma vez. Se você estiver aqui na próxima semana, eu continuo. Você vem, beibe?

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01. Continua a história do 1 ano na seca q está ótima, tô imaginando quem seja a Sonja. Daniela, São Paulo-SP

02. Meu desejo pra 2008: saber o final da saga kelmérica de 1 ano na seca. Não faça assim, clemência!!! Prometo lhe indicar novos leitores. Mas, por favor, continue a saga da estiagem! – Jessica (de onde mesmo?)


Um ano na seca (02) Daniele

Agosto 25, 2009

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Daniele – A morena da banca

Atendendo aos pedidos de 4 curiosas leitoras (Suely, de Brasília, Rafaela, de Campina Grande, GG, de Fortaleza, e Jéssica, que não sei de onde saiu) lá vai a continuação da minha triste saga de abstinência sexual, que comecei a contar no capítulo anterior. Pra você ver o tipo de literatura que a juventude de hoje tá lendo, é o fim do mundo…

Poisbem. Seis meses de Rio de Janeiro. Seis meses sem dar nenhumazinha. Morando sozinho, vivia de casa pro trabalho e do trabalho pra casa, a energia totalmente voltada pra economizar o máximo de dinheiro possível. Sem amigos homens com quem sair, sem namorada, sem nem um rolinho sequer, o jeito era ficar em casa escrevendo e ouvindo música, bebendo sozinho. Vivia uma fase de repensar a vida e reavaliar valores, precisava mesmo de solidão.

No começo o tesão até que ficou comportado. Eu me resolvia com as ex-namoradas mesmo, homenageando-as durante o banho: apoiava um braço na parede, escolhia a ex da vez e mandava ver. A água quentinha escorrendo pelo corpo é uma diliça mas o perigo dessa posição, não sei se você sabe, é que as pernas ficam bambas, a vista escurece e bufo!, a gente cai pro lado, se estatelando duro no chão. Um dia caí e bati a cabeça na privada, fiquei com um galo horrível na testa durante uma semana. Mas os acidentes também têm seu lado positivo. Esse me fez perceber, finalmente, que aquilo já tava passando dos limites. No outro dia tomei uma decisão: revesti a privada de esponja. Agora não tinha mais perigo.

Um dia abateu-se sobre mim a desgraça: eu lá, sob o chuveiro, pronto pra mais uma homenagem quando percebi que… o estoque de ex havia se esgotado. Simplesmente não tinha mais nenhuma ex, todas já haviam passado por aquele chuveiro, até mesmo os casos, os rolos de um mês, de uma semana, de uma noite, as ficantes, todas, todas. Putz, e agora? Desesperado, vesti uma roupa e saí decidido: só voltaria pra casa acompanhado.

Voltei com Daniele, uma morena linda, jeitinho meigo, uma bunda doce e irresistível. Ainda tentei barganhar o preço mas o dono da banca foi irredutível. Paguei oito reais, pus a Sexy na mochila e voltei pra casa. Sou um cara exigente com mulher, até mesmo com mulher de papel, não gasto meus zóides com qualquer peladona não. Qualé? Tá pensando que achei os bichinhos no lixo?

Daniele me fez companhia durante algumas semanas. Como ela não gostava de água, namorávamos na cama mesmo, nada de chuveiro. Até que um dia…

Hummm, vou parar por aqui. Acho que essas confidências eróticas estão ficando bizarras. Nem mesmo Suely, GG, Rafaela, Jéssica e Marcia, as taradas do blog, vão aguentar.

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01. Você tá é enrolando, não quer continuar sua saga para nós, sensíveis mulheres que somos, nos deleitarmos com sua seca quase nordestina. Continue, continue…Rafaela, Campina Grande-PB

02. Como é que pode? Fico uma semana esperando ansiosamente você postar e no final das contas você não termina a história..Isso não é coisa que se faça com suas pobres leitoras! hehe Ow Kelmer, continuuaaaa, por favor – Flávia, Fortaleza-CE

03. Dessa vez, vc se superou! Sua narrativa tá tão engraçada que eu fiquei rindo sozinha feito doida, na frente do micro. Mas esse suspense todo já tá me dando ansiedade.  Conta logo o resto da saga, vaaaiii!!! – Jessica (de onde mesmo?)

04. Oi meu querido…rapaz as meninas estão com toda razão..(vc faz muuuuuito suspense…)conta logooooo…vc não imagina o quanto nos deliciamos lendo suas histórias, reais ou não, e outra é tudo de bom vermos a opnião sincera de um homem, saber o que vcs pensam é tudo. Ahhh, quanto as risadas da Jéssica ela não está só (EU TAMBÉM.. HEHEHEH). PIOR, QUE SEMPRE LEIO NO TRABALHO… KKKKKK BJOOOOO – GG, Fortaleza-CE


Um ano na seca (01) O início da tragédia

Agosto 24, 2009

figumanonaseca01.

O início da tragédia

Eu já fiquei um ano sem sexo. Verdade. Quer saber mesmo? Foi quando eu tinha 4 anos.

Ahahahah! Desculpe, leitorinha, não resisti à piada. Agora falando sério, já fiquei um ano no perigo sim, e eu já era quarentão, olha que coisa. Em 2004 eu havia me mudado pro Rio de Janeiro e, sem amigos com quem sair, sem namorada e sem dinheiro, tudo que eu fazia era ir pro trabalho e voltar pra casa. No começo não teve problema algum pois minha energia tava tão voltada pro trabalho e pra economizar grana que as ex-namoradas resolviam o problema. Comassim? Ora, era só lembrar delas na hora do banho…

Mas depois de seis meses a coisa começou a ficar feia e as ex já não resolviam, eu já havia homenageado todas elas, tava até repetindo.

Putz, mas será que você tá realmente interessada nesse papo de punheteiro véi safado? Bem, sejamos francos: se você frequenta este blog, é porque santa você não é, né? Então dá licença que eu vou continuar a história. Então, como eu ia dizendo…

Não, melhor não, depois vão dizer que eu tô pervertendo menores pela internet. Dá licença, deixa eu fechar a calça pra ir embora, tira a mão daí.

Mas se você postar um recadinho bem fofinho pedindo pra eu contar o resto da história, eu conto, viu? :-)

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Ricardo Kelmer 2007-2008 – blogdokelmer.wordpress.com

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>> COMENTÁRIOS

01- Sobre seu ano de abstinência uma curiosidade: vc contou o tempo? como foi o primeiro encontro? Suely, Brasília-DF

02- Meu desejo de ruiva é que você termine a historinha de 1 ano de seca. kkk Sucesso, Kelmer. – Rafaela, Campina Grande-PB

03- Fiquei curiosa pra saber como vc foi levando a secura depois do 6º mês. Conta, vai! Ah, não esquece de contar também como foi que vc saiu desse 1 ano de secura! A pobrezinha sobreviveu? (brincadeirinha…) – Jéssica (de onde mesmo?)

04- muito me interessou a sua experiência de um aninho sem nada..pobrezinho.. pq eu, nossaaaa, meu namo já sabe quando fico irritada.. das duas uma ou é tpm ou é falta…conte aí mais de como vc saiu dessa, todas nós mujeres queremos saber!!! besos ;) - GG, Fortaleza-CE


Ela no espelho

Agosto 3, 2009

ElaEspelho-05a

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ELA NO ESPELHO
Ricardo Kelmer

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No espelho ela se olha
Do outro lado ela se vê
E quem olha pra ela não é
Quem ela pensa ser

Ela vê que ela não é
Quem um dia ela já foi
Que o tempo passa na janela
E o que era ela já se foi

Ela se olha e se esconde
E pergunta outra vez
Mas o espelho não responde
Ao olhar dos seus porquês

Quem é aquela que se olha?
Quem é a outra que se vê?
E o seu olhar só lhe devolve
O mistério de crescer

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Ricardo Kelmer 2006 – blogdokelmer.wordpress.com

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ElaNoEspelho-01d.

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Imagem com poema. Clique para ampliar.



Aviso prévio de traição

Julho 27, 2009

A partir de hoje poderei te trocar por outra a qualquer momento. Basta que ela sorria pra mim e que me faça agradinhos. E me dê o que você nunca quis me dar

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AvisoPrevioDeTraicao-01– Faz tempo que quero conversar com você, Clarabela. Pode ser agora?

– Claro.

– Quantos anos que a gente tá junto?

– Deixe-me ver… Sete anos.

– Tempão, né? Difícil hoje em dia um relacionamento durar isso tudo.

– Sim.

– Você sabe que nesse tempo eu estive apenas com você, né? E olhe que não me faltaram boas oportunidades.

– Agradeço a preferência.

– E você sabe melhor que eu como vocês são, né? Não podem ver o cara comprometido que ficam loucas pra tirá-lo da outra.

– Sim.

– Dá pra você ser menos fria comigo?

– Não entendi.

– Então vou direto ao assunto, Clarabela. Decidi deixar de ser bobo. A partir de hoje poderei te trocar por outra a qualquer momento. Basta que ela sorria pra mim e que me faça agradinhos. E me dê o que você nunca quis me dar.

– E o que eu nunca quis lhe dar?

– Um pouco mais de consideração, por exemplo.

– Mas eu sempre estive ao seu dispor, a qualquer hora.

– Sim. Pra ser atendido por pessoas mal treinadas, que ganham pouco e que não sabem resolver o meu problema. Sem falar nas vezes em que a ligação cai e preciso começar tudo de novo, com outro atendente.

– E qual é o seu problema?

– Tá vendo? Você já deveria saber pois foi só o que fiz nos últimos dias: contar o meu problema. Mas tudo que você fez foi abrir protocolos de atendimentos e dizer que eu esperasse tantos dias que o problema seria resolvido.

– E não foi?

– Não.

– Só um instante, por favor.

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(musiquinha irritante)

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– Obrigado por aguardar. Foi aberto um protocolo de reclamação. Gostaria de…

– Foda-se o protocolo!! Tudo que eu quero é ser bem tratado! É este o meu problema.

– Desculpe, é que eu preciso…

– Não desculpo nada. Tô de saco cheio de ser passado de atendente pra atendente, de ficar horas esperando, de ouvir aquela musiquinha irritante, de ser tratado como um simples número de protocolo.

– Entendo.

– Não, não entende. Se entendesse, não faria o que faz.

– Entendo.

– E ainda tem esse seu jeito robótico de falar comigo. Essa frieza também é muito irritante, sabia?

– Nesse caso, vou estar transferindo seu caso para o…

– Não, gerundismo a essa hora, não!

– Não entendi.

– Porra! Será possível que você não percebe que tá me perdendo? Acorda, Clarabela!

– Só um instante, por favor.

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(musiquinha irritante)

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– Obrigado por aguardar. Sua solicitação de informalidade foi aceita.

– Ótimo.

– A sua opção escolhida é realmente… quer dizer… Você vai mesmo… me abandonar?

– Provavelmente.

– Poderia confirmar… quer dizer… Me diz aí quem é a vaca. É a Timótea?

– Não interessa.

– Então é a Vivalda.

– Admito que ela andou atrás de mim.

– Já sei. É a Oitília, isso é típico daquele tipinho.

– Em vez de criticá-las, por que você não me trata com mais carinho?

– Essa é sua opção… quer dizer… É isso que você quer? Mais carinho?

– Exatamente. Afinal eu pago minha conta todos os meses, né? Há sete anos!

– Só um instante, por favor.

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(musiquinha irritante)

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– Obrigado por aguardar… gatão.AvisoPrevioDeTraicao-01

– Heim?

– Adoro essa sua voz sexy, sabia?

– Clarabela, é você mesmo?

– Sim, a sua Clarabela. Aproxima mais o aparelho, chega mais perto.

– Eu?

– Sim, quero falar no teu ouvidinho uma coisa que você vai gostar.

– Pronto.

– Eu cubro tudo que elas te ofereceram!

– Sério?

– Volta pra mim, meu amor, por favor!!!

– Bem, eu…

– Você quer dez vezes mais créditos? Eu dou. Quer mil torpedos? Eu dou. Quer o modem do 3G de graça? Eu dou, eu dou!

– Caramba… É sério mesmo?

– Basta que você ponha o aparelho agora mesmo no viva-voz. Vai, põe logo…

– Pronto.

– Meu amooor!!! Eu dou tudo pra você! Do jeito que nunca dei pra ninguém!!!

– Fala baixo, Clarabela, tá todo mundo escutando.

– Eu quero que o mundo inteiro saiba mesmo! Eu amo esse cara, estão ouvindo? Ele é o cliente da minha vida! E se alguma operadorazinha invejosa quiser tirá-lo de mim, terá que ser por cima do meu cadáver!!!

– Tô começando a sentir falta do seu jeito formal de ser…

– Escuta, meu amor, hoje não vou mais trabalhar. Vou te levar pra jantar no Anatelle e dançaremos sob a lua cheia no terraço. Tudo por conta da Clarabela, viu? E depois iremos ao Prokón trepar até o amanhecer. Te deixarei me fotografar com câmera de 10 megapixels e você ainda poderá ligar gratuitamente pros seus amigos pra contar tudo que fez comigo.

– Os amigos com DDD local, é óbvio.

– Não. Qualquer DDD.

– Uau! Isso nenhuma outra me ofereceu.

– E aí, gatão, você ainda vai me abandonar?

– Acho que não…

– Menino esperto… Só um instante, por favor.

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(musiquinha irritante)

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– Obrigado por aguardar. E então, vai querer agora?

– Jantar com você?

– Não, anotar o número do protocolo.

– Ah… o protocolo.

– Vou estar enviando por torpedo. Mais alguma coisa?

– Não, gerundismo não…

– Clarabela agradece a sua ligação e tenha um bom dia.

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Ricardo Kelmer 2009 – blogdokelmer.wordpress.com


Cristal

Julho 22, 2009

Ele quer falar sobre tudo que viveu ali dentro, todos aqueles anos, os amores e desamores, o quanto sofreu e fez sofrer, perdeu e se encontrou… Mas não precisa, ela já sabe

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Cristal-03Ele pensa enquanto a pergunta da Mestra ainda ecoa: Que tal passar o aniversário com sete namoradas? Ele olha para trás, para frente, o corredor infinito, portas de um lado e outro. Que estranho presente de aniversário…. A Mestra abre a porta. Ele pensa. Pode recusar? Não, ele sabe que não pode. E entra, devagar, desconfiado.

Silêncio. Uma sala enorme, toda branca. À esquerda ele vê dois olhos verdes. Chega mais perto e reconhece: é ela. Uma dor repentina o entristece. O que acontece com os sentimentos que desprezamos em nós mesmos? Ele se desculpa: Eu era só um garoto estúpido mas amei você mesmo assim, acredite…

Rejuvenescido. É como ele se sente no ambiente seguinte onde a bailarina faz piruetas sobre uma nuvem. Ela sorri um sorriso tão juvenil que imediatamente ele se sente mais jovem do que é, do que era. Quer sentar para admirar mas não há tempo. Resta-lhe dizer: Tudo valeu, as alegrias, as brigas, tudo, mas o tempo, infelizmente não houve tempo, você já estava de partida, fui apenas sua despedida desse mundo…

Beleza e loucura… beleza e loucura… De algum lugar escuta alguém sussurrar. Lá encima, no alto da torre. A linda princesa. Ela o chama, implora que a liberte de sua prisão. E joga duas enormes tranças. Que caem a seus pés. Bela e irresistível como o diamante da insanidade… E ele foi, subiu agarrado às suas tranças até o alto. E lá no alto teve medo do que ele era. Horrorizado, despencou. E morreu sua primeira morte, rígido de dor. Obrigado por ter me matado, princesa, eu a amarei para sempre por isso, obrigado…

Vazio. O aposento vazio. Ele escuta um piano… Um som doce, tão doce que o sente na boca, se desmanchando sob a língua. Depois que se desmancha é que percebe que o doce… é ela. Tenta provar o som mais uma vez… porém tudo volta a ser o imenso vazio. Sente-se tão incomodado que se apressa para sair… mas uma idéia súbita o faz voltar. E então compreende. O vazio é ele, ele todo o imenso vazio, sem nada para oferecer além da própria busca alucinada por si mesmo. Ela ao piano, os seios generosos, ela e a doçura que sempre se desmancha antes que ele a alcance… Desculpa, por favor, que era eu um vaso vazio?…

Fantasias. Mil fantasias nos espelhos ao redor. Qual delas será ele? Experimenta todas e nenhuma lhe cabe. Sente-se perdido em meio a tudo aquilo que não é ele e se angustia ainda mais. Então surge a mão dela, amorosa e compreensiva a acariciá-lo. Ele leva a mão ao peito e se acalma. No meio do caleidoscópio de tantos eus ele sussurra: Você me vê, mais do que eu mesmo, e isso me faz existir…

Girando e girando e girando… Ele agora gira no escuro, sem saber onde se encontra. Está úmido e abafado. Enquanto gira, sente a excitação lhe subir pela virilha, mais, mais… Um segundo antes de gozar, percebe que está na caverna e então compreende que está dentro dela, ela o comeu, viúva negra. Entorpecido, deita-se para morrer, finalmente descansar na escuridão total. Mas no último segundo desperta aterrorizado e, com as forças que restam, levanta e as luzes se acendem. Fomos fundo, meu bem, fomos tão fundo em nós…

Karma. O último ambiente é o ônibus que o levará ao inferno. Quer desistir mas o olhar de sua irmã lhe diz que não há outro caminho para o céu. Ele entra, fecha os olhos e chora indefeso, pressentindo o que virá. A rodomoça oferece o cálice e quando o bebe, vê que é sangue. Não há palavras para descrever o gosto, a dor, o inferno, a morte. Dias sem noites e noites sem dias sem poder dormir. Rendido, permite que demônios devorem sua carne. Sem mais qualquer orgulho, abre os braços e oferece a alma à Terra. Na última noite escuta pombas brincarem no teto… e percebe que renascerá. E tudo se esclarece: Você é o que eu precisava viver para que o Cosmos se reequilibrasse em mim, não há palavras para agradecer…

A porta se abre e ele cai de joelhos, chorando de gratidão. A Mestra o abraça, compreensiva. Ele quer falar sobre tudo que viveu ali dentro, todos aqueles anos, os amores e desamores, o quanto sofreu e fez sofrer, perdeu e se encontrou… Mas não precisa, ela já sabe. Ela pede que ele abra a mão… e lá estão sete pedrinhas de cristal, em todas o reflexo de seu próprio rosto. Extasiado, ele pega os cristais com cuidado, admirando seu brilho. Então, de repente, não são mais sete, são apenas um, o mais belo. Ele aperta o cristal ao peito e respira fundo. Quer dizer algo mas, pensando bem, não há nada para dizer. Nem pensar. Apenas sentir.

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Ricardo Kelmer 2005 – blogdokelmer.wordpress.com

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> Este texto integra o livro Vocês Terráqueas – Seduções e perdições do Feminino

> Desconstruindo Kelmer (por Wanessa) – Totalmente metida e curiosa, eu me debrucei sobre o conto e fiz minha própria interpretação. Bem, a presença da Mestra, a vida, a Deusa, o Tao, o fluxo irrevogável de tudo, não me espanta que seja uma figura feminina…


Desconstruindo Kelmer (Wanessa)

Julho 12, 2009

Cristal-03b.

Desconstruindo Kelmer
por Wanessa, 2009

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Eu adoro o Vocês Terráqueas. E eu, grande releitora que sou, claro que escarafunchei o livro todo, li de cabo a rabo incontáveis vezes. Principalmente depois daquela conversa que nós tivemos, em que tu me contou um segredinho que se esconde em alguns textos. Depois disso, a tua obra virou um mistério ainda maior pra mim. Comecei a ler teus textos com mais atenção, agora entendo melhor algumas coisas e desconheço completamente outras.

Um conto em especial me instigou desde a primeira leitura: Cristal. A ordem dos acontecimentos é compreensível, tem começo, meio e fim, mas não dá pra terminar a leitura sem a sensação de que tem algo muito maior que eu não consegui captar. Eu, meio Sherlock Holmes das palavras, fico tentando decifrar os enigmas, seguir possíveis pistas, mas é tudo em vão. Não dá.

Totalmente metida e curiosa, eu me debrucei sobre o conto e fiz minha própria interpretação. Bem, a presença da Mestra, a vida, a Deusa, o Tao, o fluxo irrevogável de tudo, não me espanta que seja uma figura feminina. Um presente de aniversário, a viagem sem escolha. Depois o corredor cheio de portas e ela aparece, a Simone. Provavelmente um amor da adolescência. Eu vejo um Ricardo cheio de ideias, querendo tudo ao mesmo tempo. Tempo que, até então era inesgotável e por isso permitia um monte de erros que levam a um rompimento doloroso, que deixa uma dor que invade, dor física, forte.

Encontro com a Renata. A bailarina que faz piruetas num nicho, algum lugar perdido, intocável. Os movimentos leves; contemplamos a beleza porque é finita. Melhor não me demorar por aqui, não há tempo, só pra recuperar o fôlego, o assombro diante das surpresas da vida.

A Bel traz o encontro com a princesa, o primeiro. Joga suas tranças da torre; beleza e loucura juntas provocam vertigem? A morte do primeiro Ricardo, daquele que por vezes era desconhecido de si próprio, te deixa profundamente grato, a mim também. Vânia, Valesca, Vanessa, Valéria, são tantas as possibilidades dessa musicista sensual, sensual como doce desmanchando na boca. O inalcançável, mesmo que a distância entre os corpos seja curta. É preciso achar-se a si, antes do outro. Talvez a fuga seja o melhor caminho quando o vaso ainda está vazio.

Minhas dúvidas se multiplicam em relação aos nomes, Fabiana, Fabíola, Fátima… o nome tanto faz, as fantasias são múltiplas, volúveis, diáfanas. Encantam e entontecem. É preciso um fio que te conduza a realidade, uma mão talvez. E ela sabe fazer isso, no meio do redemoinho de possibilidades e sonhos, é bom se saber compreendido por alguém, uma certeza tranquilizadora de não ser tão estranho, hermético. Gisele, como a espiã nua em Paris, a tua cara isso. E mais uma vez a tontura, mas essa é diferente e conheço: a euforia da excitação e o gozo (ai, que saudade da tua carinha gozando…), a sensação de ir cada vez mais fundo, mais longe. Transpiração e transcendência lado a lado.

O inferno te espera e traz também o sabor indigesto. A inquietação, o ápice do sofrimento e desespero. A alma conturbada se rende a mais uma morte. Passou pelo seu Karma, Karine. As palavras não bastam para agradecer por uma nova vida. E no fim, sete encontros, sete vidas que hoje formam um só cristal, o mais belo, o ser mais incrível que ja conheci na vida, tu. Talvez eu tenha acertado um pouco, talvez tenha passado longe, mas uma coisa eu aprendi com esse conto, às vezes racionalizar sobre o que está diante dos olhos, só torna tudo mais complicado, a compreensão pode ser simples, não precisa muito. Apenas sentir.

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> Para ler Cristal


Loiras ou morenas

Junho 24, 2009

ElasLoiraMorena-02Turminha da rua reunida na calçada, jogo da verdade. Eu e meus ingênuos e desajeitados doze anos. A garrafa girou, girou e parou… apontando pra mim! A pergunta veio feito um ultimato: Você gosta mais da Liliana ou da Romélia? Liliana era morena, Romélia loira, e foi a amiga delas quem fez a pergunta, tudo já combinado, claro. Engoli seco pois eu gostava das duas. Tentei ganhar tempo mas elas me encaravam e queriam a resposta já. Meus neurônios começaram a fritar: Hummm, Liliana é mais alta, Romélia tem a bunda mais gostosa, mas Liliana… Anda, menino, responde logo!

O coitado do homem começa cedo nessa cruel dúvida entre loiras e morenas. Tem quem ache a loira mais angelical, talvez porque o cabelo claro remeta inconscientemente à terna imagem dos bebês. Como o claro alude ao céu e o escuro à terra, é compreensível que anjos tendam a ser branquinhos, loirinhos, e os diabos, pelo contrário, tendam a ser morenos. Talvez por isso a morena seja vista como naturalmente mais caliente, mais sexo, mais diabólica. Mas a experiência logo me provaria que o buraco é mais embaixo…

Durante uma eternidade tentei decidir entre Liliana e Romélia. Comecei a suar frio. Sim, tudo que eu precisava era escolher uma delas pois as duas me queriam. Mas eu simplesmente não conseguia. Ele quer as duas!, alguém na roda falou e todos riram. Sim, por que não as duas? Então lá estava eu, recém-saído da puberdade, já sonhando com um menagiatruá, homem não tem jeito mesmo. Vai responder ou não vai?

A primeira paixão da minha vida foi uma loira, era a minha professora da alfabetização. Eu ficava a aula toda olhando pra ela, parecia um abestado. Tenho certeza que ela não me quis por mero preconceito de idade, loira boba, não sabe o que perdeu. A segunda paixão veio aos dez anos mas essa era morena e eu a encontrava naquelas tertúlias de 1974, na garagem da casa do meu primo, a patota dançando de rosto coladinho, B. J. Thomas cantando Rock and Roll Lullaby, tema da Simone e do Cristiano na novela Selva de Pedra. Meu pai tratou logo de me ensinar como conquistar a morena. Escutei atento suas dicas, me enchi de coragem e lá fui eu todo garboso. Parei diante dela, botei a mão pra trás, estendi a outra e falei, o próprio Lancelote ante sua Guinevere: Dá-me o prazer desta contradança, senhorita? Até hoje não entendo por que ela e as amigas morriam de rir. Mas o importante é que ela dava. O prazer da contradança.

Sentado na calçada, a garrafa ainda apontada pra mim, eu seguia em minha dúvida terrível. Era só escolher uma das duas, eu sei. Mas acontece que escolher uma significava invariavelmente perder a outra. Acho que naquele momento comecei a descobrir que a vida não era perfeita. Tem três segundos pra responder!, elas gritaram. Um, dois, três, meia e… Liliana, Liliana, gosto mais da Liliana!, respondi. Ufa.

Esse negócio de loira ou morena é complicado. Não dá pra escolher assim, todas são lindas e cada uma tem algo que nenhuma outra possui. Não é como ir à feira e escolher entre chuchu amarelo e chuchu vermelho. Eu disse vermelho? Putz, ainda tem as ruivas, gente! As ruivas… Elas parecem irreais, já reparou? Talvez porque sejam raras. Uma vez passou uma ruiva pela minha vida. Era tão etérea que eu tinha certeza que um dia ela desapareceria no ar. Pois foi o que aconteceu. Um dia acordei e ela tinha evaporado, nunca mais vi. Cuidado com a ruiva, meu amigo. Elas são fogo, sim, mas a alma é de fumaça.

Levei Liliana prum canto e, tremendo de nervoso, perguntei: Quer namorar comigo? Ela fez um charminho e respondeu: Aceito. Dez minutos depois eu voltava pra casa mais adulto, super-orgulhoso do meu novo estado civil. Meu primeiro namoro. Ah, mas foi chegar em casa e o telefone tocou. Quem era? Adivinha? Era a Romélia, ela dizia estar ao lado da amiga Liliana e que elas precisavam saber quem realmente eu queria namorar. Não entendi. Ora, eu já não estava namorando? Romélia foi enfática: Você tem que decidir agora. Putz, um repeteco do dilema, não é possível! Apelei então pro máximo de frieza e pragmatismo que um adulto de doze anos pode ter: Romélia mora mais perto, Liliana tem o cabelo maior, Romélia tem a boca carnuda… mas Liliana tem piscina em casa, putz, beijar debaixo dágua deve ser o máximo. Falei, decidido: Liliana. Se fosse o Silvio Santos, ele perguntaria: Você está certo disso? Mas Romélia apenas desligou.

Analisando o caso dia desses, ou seja, trinta anos depois, uma amiga me disse algo que eu talvez jamais pensasse: que Romélia não estava com a amiga ao lado coisa nenhuma, ela ligou sozinha mesmo, mentiu. Ou seja: a loirinha tentou virar o jogo aos quarenta e cinco do segundo tempo empurrando deslealmente a adversária. Caramba, e ela tinha apenas 11 anos… Mas as diabólicas não são as morenas?

Suspeito que deu-se aí o primeiro grande e mitológico embate do clã das loiras contra o das morenas pela minha pobre alma confusa. As morenas venceram, é verdade, mas as loiras mostraram que na guerra e no amor, o jogo só acaba quando termina. É… Nós homens ainda temos muuuito que aprender. Putz, e ainda tem as ruivas, gente, ainda tem as ruivas!

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Ricardo Kelmer 2007 – blogdokelmer.wordpress.com

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Este e outros textos você encontra no livro
Vocês Terráqueas – Seduções e perdições do Feminino

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O Blog do Kelmer concorre ao Prêmio BlogBooks 2009!

categoria Universo Masculino

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O blog vencedor será transformado em livro. A votação vai até 17set. Pra fazer o Blog do Kelmer virar livro, é só clicar neste banner aí de cima e votar. O processo é bem simples e rápido.
Se preferir, também pode clicar aqui:
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E clique aqui caso deseje conferir as postagens neste blog sobre o universo masculino.


LIVROS – A Prostituta Sagrada

Junho 17, 2009

livroaprostitutasagrada02A prostituta sagrada - A face eterna do Feminino
Nancy Qualls-Corbett (Editora Paulus, 1990)

O eterno feminino e sua relação com espiritualidade e sexualidade. Quando a deusa do amor ainda era honrada, a prostituta sagrada era virgem no sentido original do termo: pessoa íntegra que servia de mediadora para que a deusa chegasse até a humanidade. Este livro mostra como nossa vitalidade e alegria de viver dependem de restaurarmos a alma da prostituta sagrada, a fim de nos proporcionar uma nova compreensão da vida.

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RK COMENTA:

Em muitas culturas antigas a sexualidade convivia muito bem com a religiosidade, sem a ideia do pecado que mais tarde a religião cristã viria trazer, impregnando toda a cultura ocidental. Se hoje, para a maioria de nós, lugar de religião é na igreja e lugar de sexo é na cama, para essas antigas culturas as duas coisas podiam ser vivenciadas harmoniosamente no mesmo contexto pois a percepção da sexualidade era também uma percepção do Mistério e do Sagrado.

Nos rituais do hierogamos (o casamento sagrado do feminino com o masculino) que existiram em culturas não-patriarcais da Antiguidade, sacerdotes e sacerdotisas usavam o ato sexual como forma de reverenciar a Deusa do Amor e, assim, atrair sua simpatia e auxílio ao seu povo. Isso pode não fazer sentido para quem reverencia deuses masculinos e dissociados do sexo mas naqueles tempos em que a Deusa do Amor era honrada (em suas diversas formas, como Afrodite, Inana, Ihstar…), os rituais em seu louvor iniciavam a mulher num novo nível de sua vida, preparando-a para as relações amorosas e equilibrando nela o masculino e o feminino, a força e a suavidade, tornando-a una em si mesma (o sentido original do termo “virgem” é justamente este). O mesmo ocorria aos homens que se entregavam aos mistérios sagrados.

Hoje já não veneramos a Deusa do Amor como os antigos faziam. Mas amamos. Porém, amaríamos de um modo mais sadio e nossa relação com a própria sexualidade seria melhor se nisso tudo tivéssemos a noção do Sagrado – que infelizmente perdemos nos descaminhos da civilização. elaprostitutasagrada01

Não, não precisamos voltar a cultuar as antigas deusas e reeditar os rituais das prostitutas sagradas, até porque hoje sabemos que as deidades são representações personalizadas de aspectos do nosso próprio psiquismo. Mas podemos vivenciar os Mistérios a partir de nosso crescimento psíquico e servir ao Sagrado através de nossas vidas e nossas relações amorosas. Cada homem e cada mulher pode ser o sacerdote e a sacerdotisa do Amor em sua própria vida.

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Ricardo Kelmer 2009 – blogdokelmer.wordpress.com

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EmBuscaDaMulherSelvagem-02base4bMais sobre liberdade e o feminino selvagem:

> A mulher selvagem - Ela anda enjaulada, é verdade. Mas continua viva na alma das mulheres
> A mulher livre e eu – A liberdade dessa mulher reluz no seu jeito de ser o que é – e ela é o que todas as outras dizem ou buscam ser, mas só dizem e buscam, enquanto ela tranquilamente… é
> Em busca da mulher selvagem – Era por ela que eu sempre me apaixonava, essa mulher que era quem ela mesma desejava ser e não a mulher que a família, religião e sociedade impunham que ela fosse
> Amor em liberdadeO que você ama no outro? A pessoa em si? Ou o fato dela ser sua propriedade? E como pode saber que ela é só sua?
> As fogueiras de Beltane
As fogueiras estão acesas, a filha da Deusa está pronta. O casamento sagrado vai começar

LIVROS

> Mulheres que correm com os lobos - Mitos e histórias do arquétipo da mulher selvagem (Clarissa Pinkola Estés -  Editora Rocco, 1994)
> A prostituta sagrada – A face eterna do feminino (Nancy Qualls-Corbert – Editora Paulus, 1990)
> As brumas de Avalon
- (Marion Zimmer Bradley – Editora Imago, 1979)

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A mulher livre e eu

Junho 7, 2009

A liberdade dessa mulher reluz no seu jeito de ser o que é – e ela é o que todas as outras dizem ou buscam ser, mas só dizem e buscam, enquanto ela tranquilamente… é

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CasalTrem-01aÉ ela quem eu quero, a dona dessa boca. A boca docemente familiar que amanhece de mansinho na minha quando desperto de mais uma madrugada de sonho e suor. Porém, bem mais que a boca, é o beijo da liberdade dessa mulher que me refresca a vida.

É ela quem eu desejo, a dona desse corpo. O corpo que me sugere as mais poéticas indecências e me convida a desvendar os segredos que eu já sei de cor e quando estou lá, puff, de repente já não sei mais e então me perco por seus montes e planícies e cavernas e ao fim de tudo me contorço e urro e explodo no mais puro prazer de me perder. Porém, bem mais que no corpo, é na liberdade dessa mulher que a vida se desnuda pra mim.

É da presença dela que eu preciso, ela que me traz a certeza que não seguirei só. É de sua voz que carecem meus ouvidos, a voz que me embala a alma de blues e me faz convidá-la: vamos dançar, meu amor? É o meu olhar no seu que vejo quando nada mais vejo no breu das incertezas. Mas, sobretudo, é a liberdade dessa mulher que me clareia o caminho.

Ela é livre porque, apesar de ter nascido imersa numa cultura, cedo entendeu que não deveria limitar-se às suas regras e assim modelou seu ser com o que de melhor ela mesma encontrou pelo mundo. Evidente que esse não limitar-se às convenções fará dela uma eterna transgressora a incomodar os que só admitem o mundo pelas lentes de sua cultura e religião. Mas esse é o preço da alma liberta, ela sabe. E eu faço questão de pagar junto dela.

Houve um tempo que ela entendia seu corpo como algo contra o qual deve lutar todos os dias – até que percebeu que sua verdadeira beleza não vem de cosméticos mas de sua alma harmonizada com os ritmos naturais da vida. Hoje ela não precisa gastar para ficar chique e bonita pois a elegância da simplicidade há muito a fez sua modelo exclusiva. Sim, a mulher livre possui vaidades mas ela não é boba, sabe que os criadores de moda não almejam a sua felicidade mas a sua escravidão. E quanto a vestir-se pra fazer inveja a outras mulheres, bem, ela não precisa disso pois sabe que mais tarde quem rasgará sua roupa sou eu.

Os mistérios de si, ela vai buscá-los pois sabe que jamais seremos livres sem nos livrarmos do que por dentro nos paralisa e nos faz sabotar a própria vida. Ser livre é ampliar a cada dia a real noção de si, isso ela há muito compreendeu, e é por esse motivo que os que se libertam não se enganam mais como antes e, por serem verdadeiros, mais verdadeiras são suas relações.

E por bem saber o que ela é e o que não é, essa mulher nada tem a provar a ninguém. Se interpretam erroneamente seu jeito espontâneo, ela ri ainda mais do que pensam dela. Se seus desejos transcendem os velhos modelos sexuais, ela festeja e os divide generosa com eles ou elas, e em nome de seu sagrado prazer ela é a cadela devassa, a santa dadivosa da luxúria, a puta mais linda e desvairada que há.

A liberdade dessa mulher reluz no seu jeito de ser o que é – e ela é o que todas as outras dizem ou buscam ser, mas só dizem e buscam, enquanto ela tranquilamente… é. Por não estar apegada a poder e dinheiro, ela é a mais rica e poderosa de todas. E é justamente por saber que a velhice é o segredo final da sabedoria que a vida todo dia vem banhá-la de alegria e vesti-la com esse jeitinho de menina encantador.CasalDanca-04a

É esta a mulher que dança pela vida comigo, duas individualidades que se harmonizam mas não se anulam em estúpidas noções de controle e compromisso: amamos o outro e não a posse do outro. Estamos juntos porque finalmente encontramos a liberdade que admira, acolhe e incentiva a nossa própria e até nos permite dividir com o mundo o nosso amor. E por não sofrer temendo perder quem na verdade nunca possuímos, mais vivemos e gozamos o melhor amor que temos pra nos dar.

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Ricardo Kelmer 2009 – blogdokelmer.wordpress.com

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EmBuscaDaMulherSelvagem-02base4bMais sobre liberdade e o feminino selvagem:

> A mulher selvagem - Ela anda enjaulada, é verdade. Mas continua viva na alma das mulheres
> A mulher livre e eu – A liberdade dessa mulher reluz no seu jeito de ser o que é – e ela é o que todas as outras dizem ou buscam ser, mas só dizem e buscam, enquanto ela tranquilamente… é
> Em busca da mulher selvagem – Era por ela que eu sempre me apaixonava, essa mulher que era quem ela mesma desejava ser e não a mulher que a família, religião e sociedade impunham que ela fosse
> Amor em liberdadeO que você ama no outro? A pessoa em si? Ou o fato dela ser sua propriedade? E como pode saber que ela é só sua?
> As fogueiras de Beltane
As fogueiras estão acesas, a filha da Deusa está pronta. O casamento sagrado vai começar

LIVROS

> Mulheres que correm com os lobos - Mitos e histórias do arquétipo da mulher selvagem (Clarissa Pinkola Estés -  Editora Rocco, 1994)
> A prostituta sagrada – A face eterna do feminino (Nancy Qualls-Corbert – Editora Paulus, 1990)
> As brumas de Avalon
- (Marion Zimmer Bradley – Editora Imago, 1979)


CLIPE MUSICAL – Alma una

Junho 1, 2009

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Fiz esta música em 2006 com Flávia Cavaca. Quem canta é Lila Shakti. Os instrumentos e a programação ficaram a cargo do Rodrigo Larese, um fera. Em algumas cidades há grupos que usam esta música em rituais xamânicos ou de celebração do Feminino Sagrado. Ótimo! É pra isso mesmo.

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ALMA UNA
(Ricardo Kelmer e Flávia Cavaca)

Celebrar o milagre de ser
O assombro de viver
Na doce magia da noite
Minha alma é noiva desse ritual

O fogo me aquece num abraço amigo
As fagulhas são reflexos do infinito
Eu danço o mistério da Lua
Linda, nua e natural

Eu faço amor com a Terra
Sou a amante eterna
Do fogo, da água e do ar

Sou irmã de tudo que vive
Ninfa que brinca com a vida
Alma una com tudo que há

Salamandras brincam na fogueira…
Guerreiras aladas trazem oferendas…
Se aproximam os animais de poder…
Planta-mestra, eu quero aprender…
Guardiães, abençoem meu caminho…
Tambores do xamã, toquem pra mim…
Grande Mãe, estou aqui…

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Ricardo Kelmer 2006 – blogdokelmer.wordpress.com


O chamado da Mulher Selvagem (2)

Maio 18, 2009

Criei este espaço pra prosseguir com o tema da Mulher Selvagem, o arquétipo da mulher livre e conectada à sabedoria natural. A crônica A Mulher Selvagem é um dos meus textos mais conhecidos, reproduzidos e comentados, o que indica que ele toca em algo muito precioso nas mulheres, no bom sentido  -  e também nos homens que não temem o Feminino.


A Mulher Selvagem sempre surpreendendo…

Encontrei uma versão da crônica num blog português chamado O Sentido da Palavra. Até aí nada demais, esta crônica é mesmo bastante reproduzida por aí. A novidade é que havia algumas alterações no texto. Bem, isso eu também já vi em alguns textos meus – parece ser o tipo da coisa com que escritores precisam aprender a conviver nesses tempos de internet, onde seus textos originais podem se transformar à medida em que são copiados, repassados e reproduzidos pela rede.

Neste caso específico, o que me chamou a atenção é que as alterações no texto parece que foram feitas com o objetivo de tornar o texto mais compreensível no português de portugal. Achei ótimo, claro, é o tipo de coisa que muito me gratifica.

Separei alguns trechos pra você ver.

É um tipo raro e não tem habitat definido: vive em Catmandu, mora no prédio ao lado ou se mudou ontem para Barroquinha.

Ficou assim:

É um tipo raro e não tem habitat definido: vive em Praga, mora no prédio ao lado ou se mudou ontem para o Porto. E não deixou o endereço. É ela, a mulher selvagem.

Catmandu virou Praga. Tiraram a mulher selvagem da Índia e a levaram pra República Tcheca. E Barroquinha virou Porto. Nesse caso, perdeu-se o sentido original da idéia, que era a de uma cidade pequena, longe e escondida, algo assim como “ela se mudou pro cu do mundo”. Mas, convenhamos, ficou mais chique, agora a mulher selvagem toma vinho do porto.

Em quase tudo ela é uma mulher comum: pega metrô lotado, aproveita as promoções, bota o lixo para fora e tem dia que desiste de sair porque se acha um trapo. Porém em tudo que faz exala um frescor de liberdade. E também dá arrepios: você tem a impressão que viu uma loba na espreita. Você se assusta, olha de novo… e quem está ali é a mulher doce e simpática, ajeitando dengosa o cabelo, quase uma menininha. Mas por um segundo você viu a loba, viu sim.

Ficou assim:

Em quase tudo ela é uma mulher comum: vai de metrô cheio, aproveita as promoções, coloca o lixo fora de casa e tem dias que desiste de sair porque se acha um trapo. Porém em tudo que faz exala um frescor de liberdade. E também dá arrepios: tu tens a impressão que viste uma loba na espreita. Tu ficas assustado, olhas de novo… e quem está ali é a mulher doce e simpática, ajeitando dengosa o cabelo, quase uma menininha. Mas por um segundo tu viste a loba, viste sim.

“Pega metrô lotado” virou “vai de metrô cheio”, o que alivia um pouquinho o aperto pra nossa mulher selvagem. O que mudou mesmo foi o uso do pronome, que passou de você, que os portugueses não costumam usar, pra tu.

Como todo bicho ela respeita seu corpo mas nem sempre resiste às guloseimas. Riponga do mato, gabriela brejeira? Não necessariamente, a maioria vive na cidade. E há dias paquera aquele pretinho básico da vitrine.

Ficou assim:

Como todo a mulher selvagem ela respeita seu corpo mas nem sempre resiste às guloseimas. Guerreira do mato, gabriela cravo e canela? Não necessariamente, a maioria vive na cidade. E há dias gosta daquele pretinho da montra.

Minha riponga do mato virou guerreira do mato, o que lhe emprestou um tom mais valente. Quando li pela primeira vez, pensei que guerreira do mato fosse um termo usual em Portugal mas pesquisei e não encontrei nada que indicasse isso. Pode ter sido escolha puramente pessoal do tradutor. E “gabriela brejeira” virou “gabriela cravo e canela”, assim sem vírgula mesmo. Ficou interessante, embora a idéia original fosse referenciar a personagem amadiana de modo mais sutil. Talvez o tradutor tenha considerado redundante a junção de gabriela e brejeira. De fato, é. E “paquera aquele pretinho básico da vitrine” virou “gosta daquele pretinho da montra”. Saiu a paquera e entrou o gostar. Portuguesas não paqueram? E o básico do pretinho pulou fora. Seria “pretinho básico” uma expressão incompreensível pros portugueses? Ou as portuguesas é que não são chegadas no famoso vestidinho preto que funciona tanto na boate quanto no velório? E montra significa vitrine mesmo. Bem, de qualquer forma, felizmente a tradução de “paquera aquele pretinho básico da vitrine” não ficou “insinua-se para aquele negrinho ordinário que decora a montra”.

Na postagem em que li o texto traduzido, constava um parágrafo extra ao final, que não faz parte do texto original, este:

Esta é a mulher selvagem, a mulher que possuem o antagonismo da vida dentro e fora de si. A mulher selvagem existe e será eterna entre a sociedade mundana dos homens e nunca será extinta.

Terá sido outra pessoa quem inseriu o trecho enxerido? Não sei. Só sei que não gostei nadinha, claro. Além de conter um erro grosseiro de concordância verbal (a mulher que possuem), traz umas coisas esquisitas como “antagonismo dentro e fora de si” e “será eterna entre a sociedade mundana dos homens e nunca será extinta”. Espero que não reproduzam o texto com esse trecho.

Tô feliz. Minha mulher selvagem deixou a terra brasilis e agora corre livre e nua pelo velho mundo, que bom. Acho que de agora em diante pedirei que me apresentem como “escritor traduzido em Portugal”. Chique no último!

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Ricardo Kelmer 2008 – blogdokelmer.wordpress.com

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“Você se assusta, olha de novo… e quem está ali é a mulher doce e simpática, ajeitando dengosa o cabelo, quase uma menininha. Mas por um segundo você viu a loba, viu sim.

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Ler a crônica/assistir o vídeo A Mulher Selvagem


Como afugentar um homem

Março 28, 2009

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Mulher é um bicho capaz de conversar dias e dias seguidos, sem cansar, sobre seus sentimentos, sobre o namoro, o casamento, o que vai bem, o que vai mal, como seria se fosse ou como foria se não sesse…

O assunto é sentimento? Então pra mulher cada aspecto dele é um fractal, que pode ser ampliado, ampliado e sempre haverá novos detalhes que surgirão a cada ampliação. E, putz, como mulher se excita quando o assunto é sentimento! Mulher é apaixonada pelo amor.

Já a maioria dos homens prefere conversar sobre futebol, trabalho, política, arte, filosofia, automóvel, sexo, pescaria, o melhor anzol pra pescar, o estojinho do anzol… qualquer coisa menos sentimento. Eles veem mais sentido em falar sobre o que pensam do que sobre o que sentem. Às vezes eu faço este teste: pergunto a um amigo o que ele sente por sua mulher. Geralmente ele resume a resposta em duas ou três palavras e acabou. Isso quando ele não rebate, desconfiado: que pergunta é essa?

É claro que homem sente. Mas como há milênios somos programados desde a infância pra nos mostrarmos fortes e infalíveis, e sentimento é algo que pode fragilizar qualquer um, nós evitamos expor o que sentimos, até pra nós mesmos. E de tanto reprimir os sentimentos, acabamos muitas vezes até mesmo sem saber o que realmente sentimos. Ô racinha… E, assim, o reino Yin dos sentimentos a cada dia se torna pro homem uma terra cada vez mais estranha e hostil. Melhor manter distância dela. Melhor falar de algo que seja mais racional. Como a melhor fechadura pro estojinho do anzol.

o reino hostil dos sentimentos

A mentalidade patriarcal, sobre a qual foi construída nossa querida cultura, sempre desprezou os valores ligados ao feminino, ao Eros (relação). Claro, pois só assim a mentalidade maculina dominante, ligada ao Logos (conhecimento, razão) poderia se manter, sempre fazendo parecer menos importante o que é ligado à mulher. Dessa forma, a agressividade vale mais que a suavidade, cultura e civilização valem mais que a Natureza e a razão é mais importante que o sentimento. O Yang é melhor que o Yin. Logos é melhor que Eros.

Pra grande parte dos homens, sentimento é sinônimo de fraqueza. Mesmo que sinta, o homem evita demonstrar pois sabe que isso pode comprometê-lo diante dos outros homens. Com os amigos, ele dificilmente se sente à vontade pra falar de seus relacionamentos sob a ótica do sentimento. Amigos dificilmente se perguntam sobre o que sentem, como anda a relação com a mulher, se estão felizes, inseguros… Imagina! Tá metendo?, então tá tudo ótimo!

Mas as coisas estão mudando. Até porque a evolução psicológica da espécie não prosseguirá se ela não conseguir equilibrar os princípios femininos e masculinos que compõem a psique – algo cada vez mais urgente. E essa evolução se dá à medida que cada um se torna um ser psicologicamente mais equilibrado, mais autoconsciente. No homem isso significa reconhecer valores Yin e integrá-los à consciência, e na mulher é o oposto.

Se a mulher já tá numa segunda fase de sua revolução feminista, repensando os exageros e entendendo que não tem de ser igual ao homem (aleluia!), o homem, coitado, ainda tá procurando o isqueiro pra queimar o sutian, quer dizer, a cueca. Aos poucos, porém, ele perde o medo de assumir os sentimentos e de mostrar que nem sempre é forte e infalível. Os que fazem isso costumam ser mal interpretados, até pelos próprios amigos, mas é assim mesmo, sempre haverá os soldados da linha de frente, aqueles que recebem as primeiras balas.

E as mulheres? Elas também têm ainda o que aprender. Se o homem precisa urgentemente reconhecer o valor dos sentimentos e aprender a cuidar mais das relações, a Homa sapiens necessita, por exemplo, entender que não se pode por mais peso numa relação do que ela suporta carregar. É bom se atirar nos braços do homem amado, sim, claaaaro. É maravilhoso se jogaaaar de braços abertos e ser amparada pela própria relação, sim, é maravilhoso, é lindo, é tudoooo!!! Mas cuidado, fia. Senão ele perde o equilíbrio e a relação desaba com esse peso todo.

afugentando o homem

Vai mais devagar, menina. Não é você quem sempre faz questão das preliminares no sexo? Por quê? Porque seu ritmo é outro. A rapidez e a ansiedade sexual masculina já fizeram você se sentir quase que estuprada? Já? Poizentão. É assim que ele às vezes se sente na relação, sabia?

Velha tendência feminina, essa ansiedade louca pelo amor, essa mania de fazer a relação ocupar todo o espaço na vida de ambos… Isso costuma sufocar o homem, que tende a valorizar a individualidade mais que a mulher. Quer afugentar um homem que tá começando a gostar de você, fia? Então não perca uma chance de pressionar o infeliz em relação a seus sentimentos. Sufoque o desgraçado todo dia com o doce travesseirinho da relação. É tiro e queda.

- O que você tem, Maria Adélia?

- Tô chateada com você, Lindomar.

- Por quê?

- Você esqueceu que dia é hoje.

- Eu? Calma, deixa ver… Tem um calendário aí?

- Tá vendo? Você não se importa nem um pouco com a gente. Pra você tanto faz. Mas aposto como você sabe direitinho o dia em que o Fortaleza vai jogar a semifinal, ah, isso tenho certeza que você não esquece.

- Peraí, Maria Adélia, peraí… Hoje é… hoje… Ah, desisto. Que dia é hoje?

- Hoje, Lindomar, exatamente hoje, faz quatro dias que a gente se conheceu.

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Ricardo Kelmer 2007 – blogdokelmer.wordpress.com


Mamãe, quero ser virgem

Março 18, 2009

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Atrizimodelo. Essa é atualmente a profissão dos sonhos de boa parte das adolescentes do planeta Terra. Atriz e modelo são duas coisas bem distintas mas na cabeça das meninas é tudo a mesma coisa. O que você quer ser quando crescer? Atrizemodelo.

No entanto, o reinado absoluto desta híbrida profissão pode estar com os dias contados. Com a repercussão dos recentes casos de garotas que leiloam sua virgindade por altíssimos valores, como a californiana Natalie Dylan (foto) e a italiana Raffaella Fico, surge no horizonte uma nova profissão da moda: a profissão de virgem. O que você é? Sou atrizemodelo. E você? Sou virgem.

Quem diria que a virgindade, uma coisa tão cafona, voltaria gloriosa às paradas de sucesso… Dessa vez, porém, ela não entra pura e angelical na igreja, de mãos dadas com o casamento – agora ela entra esperta e pragmática no mercado, abraçadinha com o dinheiro. No quesito anatomia as virgens profissionais não diferem em nada das antigas virgens, porém as profissionais fazem de seus himens intactos o seu meio de sustento e através deles pagam os estudos e compram uma casa bacana pra família.

Certamente algumas virgens preferirão gerenciar elas próprias o negócio mas a maioria contratará um assessor pra organizar os compromissos e marcar as participações nos programas de TV. O leilão da virgindade poderá ser organizado por uma empresa especializada ou por aquele bordel classe A. Os proponentes verão imagens da virgem em seu blog e, mediante pagamento antecipado de uma parte do valor oferecido, poderão marcar encontros pra conhecê-la pessoalmente, encontros esses devidamente acompanhados da mãe da moça, claro.

Uma das modalidades do negócio permitirá o parcelamento do pagamento em 12 vezes no cartão de crédito. Outra modalidade será o sistema de loteria: os proponentes pagam um valor estabelecido e ao final um deles é sorteado. Seja qual for a modalidade, o comprador da virgindade terá direito a uma porção do sangue pra guardar de lembrança e a transmissão ao vivo do evento poderá ser negociada com alguma TV. Evidentemente uma semana depois o dvd pirata estará à venda em qualquer esquina.

Como a virgindade exigida é a frontal, isso ressuscitará aquela antiga e estratégica prática de dar por trás antes de dar pela frente. Se no passado as meninas faziam sexo anal por medo de engravidar ou pra se manterem virgens até o casamento, agora elas o farão por consciência profissional. Ou seja: o que vai ter de virgem especialista em dar a bunda vai ser uma festa. Nada a reclamar, claro, a preferência nacional agradece.

É lógico que com tantos himens se oferecendo no mercado, o preço cairá e as virgens terão que oferecer algo mais pra se valorizarem. Será criado, por exemplo, um selo especial do InMetro pra atestar a originalidade do produto. Uma boa pedida será fazer sociedade com a irmã, oferecendo virgindade em família – já pensou que irresistível, As Gêmeas Virgens! Outra boa estratégia de marketing será a virgem anunciar o leilão quando ainda for menor de idade e que perderá a virgindade exatamente na noite de seu aniversário de 18 aninhos, ela fantasiada de paquita. E aquela crente que se manteve virgem por meras convições religiosas poderá tirar proveito disso e se transformar, tchan, tchan, tchan, tchaaaaan, na Virgem Evangélica. Uau!

Infelizmente só os muito ricos é que serão os clientes dessas virgens profissionais e certamente vários deles se especializarão no negócio, tornando-se exímios colecionadores de cabaços profissionais. Mas não serão apenas eles e as virgens que lucrarão. Como a grana dos caras será escoada pra milhares dessas garotas, isso significa que haverá mais dinheiro circulando na praça, olha que maravilha. A economia se aquecerá, surgirão mais vagas de trabalho e o país crescerá. E o que é mais importante: as virgens profissionais poderão sustentar seus namorados artistas e escritores.

Jamais imaginei que um dia eu fosse gritar isso mas as coisas mudam, fazeruquê? Virgindade já!!!! Pelo bem da arte e da literatura.

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Ricardo Kelmer 2009 – blogdokelmer.wordpress.com

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Raffaela Fico

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Leia também:
O ataque das virgens estudiosas

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ENQUETE


PARA MULHERES

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PARA HOMENS

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O Blog do Kelmer concorre ao Prêmio BlogBooks 2009!

categoria Universo Masculino

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O blog vencedor será transformado em livro. A votação vai até 17set. Pra fazer o Blog do Kelmer virar livro, é só clicar neste banner aí de cima e votar. O processo é bem simples e rápido.
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