É dada a saída, lá se vai o trenzinho. Num vagão as Belas, abalando nos modelitos, no outro as Madrinhas, abalando com o isopor e o estojinho de primeiro-socorro
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Era no último dia do ano. Uns caras desciam pra avenida Beira-Mar vestido de mulher pra jogar bola. Tudo de vestido e cerveja na mão. Ideia genial, de uma só vez homenagear o melhor da vida: mulher, futebol e cerveja. Não necessariamente nessa ordem, é claro.
Avisei os amigos e em 1988 engrossamos o cordão da Volta da Jurema, tudo empolgado querendo ser mulher por um dia. Euzinha botei uma sainha, blusinha de alça com enchimento, meia tarrafa, uma maquiagem assim bem básica e calcei… o conga. Bicha pobre, tadinha. Nem peruca tinha. Mas descolei uma bolsa escândalo pra levar a garrafa de Ypióca. Mulher moderna é assim, pinguça e pragmática.
Meu batismo feminino foi de sangue: subi no carro, ele arrancou e saí bolando pelo asfalto, que nem tatu-bola, eu e a cachaça. Levantei zonza, procurando meu brinco, a saia toda torta, um peito no chão, a própria mulamba. Na mão o gargalo da garrafa, tudo que restou da companheira. E no braço… hummm, um corte horrível, que me custaria doze pontos externos e oito internos. Hoje mostro a cicatriz com orgulho: tá vendo, eu estive lá.
Aí o grupo cresceu e uma multidão ia pra Volta assistir ao desfile das bonecas, uma centena de ensandecidas aprontando na Beira-Mar, desfilando em carroça de jumento, invadindo ônibus, agarrando os bofes, gritinhos, xiliques e coreografias. Um verdadeiro carnaval fora de época.
Anos depois a festa tinha trio elétrico, axé music, muita bicha legítima e político querendo aparecer, ô racinha… Criamos então, em 93, um bloco dissidente: As Belas da Tarde. E elegemos como paraninfa Catherine Deneuve, claro. Ela foi convidada mas seus compromissos não permitiram, tudo bem. Passamos a desfilar no pré-carnaval e a cada ano escolhíamos a Bela Rainha, que botava a faixa e abria o desfile, glória máxima na vida de uma Bela. Nosso ritual era sagrado: concentração ao meio-dia, modelitos-arraso, batons, brilhos e, por favor, qualquer coisa pra beber, o que é isso?, licor de ovos, serve. As amigas e namoradas ajudavam na produção, lutando pelo título de Bela Madrinha. Diferente desses blocos onde os caras botam um limão no sutian e se acham mulher, a gente fazia questão de ficar bonita. Pra entrar no bloco tinha que ser convidada, isso mesmo, era coisa séria. Afinal ser mulher não é pra qualquer um.
É dada a saída, lá se vai o trenzinho. Num vagão as Belas, abalando nos modelitos, no outro as Madrinhas, abalando com o isopor e o estojinho de primeiro-socorro. Quarenta belas, uma parte já totalmente alucinada e a outra já clinicamente morta. O trenzinho percorre faceiro as avenidas ao som de Frenéticas, Xuxa e Ney Mato-Grosso e quem está na rua corre pra não ser violentado pelo bando de tarada. As tevês cobrem a pouca-vergonha: “Estamos aqui na avenida Abolição e o trânsito está um caos, os policiais são impotentes diante do furor uterino das Belas enlouquecidas!” A passagem pela Beira-Mar é apoteótica: as Belas invadem os hotéis gritando “Ar-ren-ti-nos! Ar-ren-ti-nos!” Os gerentes ficam em estado de choque. Os seguranças tentam barrar a turba mas, você sabe, é impossível deter um magote de bonecas bárbaras, tudo doida pra sentar no colo de um gringo, tomar o uísque dele e detonar a lagosta.
Uma vez pegaram um banhista e levaram a sunga dele, deixaram o coitado pelado no meio do calçadão. Ninfômanas! Outra vez o bloco invadiu o Náutico, interrompeu o jogo de tênis e levou as bolas. Vândalas! A outra desmiolada, debutando no bloco com seus primaveris 16 anos, bicha linda mas inexperiente na vidaloca, saltou de bico na piscina sem perceber que tinha apenas meio metro de fundo: foi direto pro hospital com a testa aberta, bem feito, quem manda dar desgosto à família! E a outra que caiu do trenzinho? Foi salva da morte pelo pai que levou a filha transviada pra farmácia e enquanto ele comprava soro fisiológico, não é que a condenada se apaixona por um creme de queratina e cai por cima da prateleira, derrubando tudo? Ô mulherzinha, deixa de ser desgovernada! E você não vai crer mas teve um ano que uma Bela absolutamente sem juízo pegou no pingolim do soldado, acredita? Pois foi. Enquanto o soldado corria atrás, a Bela gritava: Mal-agradecido, não te chupo mais! Que coisa. Botavam o quê na bebida dessas moças?
No fim do percurso a gente contabilizava as sobreviventes. E os namoros que restavam. Algumas Belas iam tomar glicose, outras esticavam a noite, insaciáveis. Mas a maioria não sabia mais nem em que ano estava. Uma vez, no dia seguinte, encontraram uma Bela semimorta no jardim de uma casa, ô vontade de ser uma orquídea… Outras conseguiam a incrível façanha de arrumar namorada, isso mesmo, namorada, vestido de quenga, a peruca parecendo um guaxinim molhado, o rímel escorrendo, aquele lastimável estado de embriaguez. É, tem gosto pra tudo. Pensando bem, nossas amigas eram mesmo sabidas: se aproveitavam da confusão pra fisgar aquele gatinho que nunca dava bola pra elas.
Em 96 o bloco desfilava pela Praia de Iracema seguindo a bandinha de metais. Ao passar pela igrejinha, na hora da missa, as Belas, mui beatas, suspenderam a música, caminhando em silêncio, respeitosas. Uma até baixou o vestido, escondendo a peruca chanel que levava dentro da calcinha. Porém… uma Bela isprito-de-porco não resistiu e soltou o refrão: “Na casa do Senhor não existe Satanás!” Pronto, as outras acompanharam, “Xô, Satanás, xô, Satanás”, a bandinha se animou, a festa voltou e os fiéis, apavorados, saíram correndo da igreja pensando que o próprio demo chegava com sua horda de dementes. Um ano depois o Tribunal do Santo Ofício excomungaria todas as Belas, bem feito. Com exceção de uma que se arrependeu da vida pecaminosa e virou Carmelita.
A essa altura o bloco já estava em franca decadência, as Belas todas velhas, barrigudas, cheias de pelanca. A época áurea dos corpinhos malhados havia passado e já tinha Bela pai de família levando os filhos pro desfile. Hummm, melhor parar. E assim as Belas da Tarde desceram a cortina, encerrando sua vistosa história de purpurina e alegria. Mas tem muito marmanjo aí que, por via das dúvidas, ainda guarda a meia arrastão no fundo da gaveta – eu, por exemplo. Sei lá, vai que um dia bate assim um revival. Já estamos excomungadas mesmo…
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Ricardo Kelmer 2005 – blogdokelmer.wordpress.com
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Foto 1: Valmir Jr (A Perestroika da Fanta Uva), André Barbacena (A Filha de Glorinha) e RK (Angélica)
Foto 2: Valmir Jr (Bela Rainha 1993 com o modelito A Perestroika da Fanta Uva), RK (Angélica) e Rian Batista (Inês Fiúza)
Foto 3: O famigerado trenzinho. RK, Fred Schlaepffer (de biquinho), Emílio Schlaepffer, Marcio Régis, Nelsinho Machado (bicha séria), Vicente Vieira (de óculos) e Fábio Fabão. A bela de chapéu, afff, até hoje não sei quem é esta criatura risonha.
Escrito por ricardokelmer 


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