Deus planta bananeira de saia

maio 18, 2012

Ricardo Kelmer 2000

Como todo ser, o criador busca sempre transcender a sua própria condição e é criando que ele faz isso
.
..

Dois anjos, expulsos do Céu, tentam meios legais para conseguir voltar. Para impedi-los, o Céu conta com um grupo insólito, entre eles uma católica que trabalha em clínica de aborto, dois profetas trapalhões e um apóstolo negro que ficou de fora da Bíblia. Detalhe: Deus é mulher.

Certas obras artísticas traduzem bem os movimentos que sacodem os subterrâneos do inconsciente comum da humanidade. O filme Dogma é um desses. Seu tema principal é um antiquíssimo e poderoso arquétipo que vive na alma coletiva da espécie desde seus primórdios: a ideia de Deus.

Que a relação da humanidade com esse arquétipo vem de muito longe, isso não é novidade. O que incomoda as pessoas de religiosidade mais ortodoxa é dizer que, como numa relação todas as partes envolvidas são sempre afetadas, na relação da humanidade com Deus não seria diferente: mudamos nós, humanos e… Deus também teve de mudar. E ai dele se não mudasse!

Dos deuses-forças da Natureza, passando pelos deuses do Olimpo, até a ideia de um deus único e todo-poderoso, muita água rolou por baixo da ponte divina. Essa difícil relação entre criador e criatura é uma verdadeira saga onde não faltam conflitos, sofrimentos, dilemas, heróis e mártires. As mitologias de todo o mundo formam um mosaico precioso para entender melhor essa saga; no entanto, na carona do filme Dogma, tomemos a Bíblia: ela pode ser vista (também) como o registro simbólico da evolução do conceito de Deus de boa parte da humanidade. Assim veremos perfeitamente como ambas as partes da relação evoluíram com o tempo, criador e criatura.

A mordida no fruto proibido simboliza o advento da consciência, o momento histórico em que um ramo dos hominídeos se diferencia pelo refinamento de sua mente. Antes eram todos mergulhados na inconsciência geral, na indiferenciação psíquica: era o Éden. Nem felizes nem infelizes: simplesmente não se questionavam. Evoluída a mente, surge a consciência, feito uma extensão de terra que aos poucos se eleva do fundo do oceano inconsciente e põe a cabeça de fora: é a terra que, em forma de ilha, adquire consciência sobre si mesma e sobre o que a rodeia.

No entanto a autoconsciência tem seu preço. O despertar para um novo nível de compreensão da realidade e de si mesmo traz sempre novas dúvidas e grandes desafios. Ao adquirir a autoconsciência nossos antepassados foram expulsos do tranquilo paraíso do não-saber e saíram dele com a pergunta que a partir daí jamais se calaria: quem nos criou e onde estará?

Está muito, muito longe. Pelo menos no Antigo Testamento. No início da relação o criador é uma força gigantesca mas absolutamente externa e inalcançável. Deus é imprevisível, com crises terríveis de humor, e envia desgraças e pragas às suas criaturas indefesas. As desgraças continuam em nosso mundo moderno, claro, mas sabemos hoje que somos nós quem as causamos. Esse antigo Deus, rancoroso e dogmático, tem por lema “olho por olho, dente por dente” e diz, batendo o pé: “Eu sou Javé e não mudo.” Muda não? Vamos ver…

Ainda no Antigo Testamento ocorre algo incrível, que se tornaria um marco dessa relação. É o drama de Jó, o servo mais fiel de Deus a quem ele permitiu que o Diabo lhe destruísse a vida só para saber se o coitado continuaria fiel, que maldade. Jó, no auge do sofrimento e em desespero ante tal injustiça, ousa questioná-lo e assim, pela primeira vez, a criatura põe em xeque a coerência de seu criador, ela que antes apenas louvava e obedecia. Deus, aporrinhado, vê-se obrigado a descer do pedestal, exibir seu poder feito um ditador inseguro e dar satisfações, coisa que jamais fizera, imagina. No final premia a fidelidade da criatura lhe consertando a vida destruída.

Desse conflito crucial saem ambos transformados para sempre. A criatura salta para um novo nível na relação com o arquétipo divino e ele, o criador, apanhado em dilema moral, é forçado a reconhecer que será impossível prosseguir sem uma nova parceria com os humanos.

Deus em crise

Deus entra numa crise daquelas porque o drama de Jó (que viria a se tornar um drama arquetípico de toda a humanidade) lhe torna evidente que necessita deixar de lado certos dogmatismos e assimilar a natureza de sua criatura para, assim, realizar-se efetivamente como criador. Ele criou a matéria mas agora precisa também ser matéria para alcançar sua própria integralidade. Essa ideia então amadurece no inconsciente coletivo da espécie, fomentando as profecias que anunciarão o filho de Deus. Está devidamente semeado, pois, o terreno para a vinda do Cristo, o próximo marco da saga.

De fato, Cristo inaugura a era do humano-divino, o Deus humanizado e descido à matéria, criador e criatura cada vez mais próximos. O Cristo parece detonar forte transformação no pai pois o Deus do Novo Testamento deixa de ser aquele do “olho por olho, dente por dente” para se tornar o Deus do “amai-vos uns aos outros”. O Deus irascível é agora pura bondade e perdão. E é também humano, demasiadamente humano – tanto que sua própria criatura o tortura e o executa numa cruz, confusa ante o novo nível da relação que se inaugura e incapaz de absorver a novidade. Deus agora conhece na pele a dor, o medo, a injustiça, a morte. É um deus mais completo.

Agora, dois mil anos depois, a criatura parece assimilar melhor o que se passou. Agita-se no inconsciente da espécie a ideia de que esse Deus que ela sempre buscou lá fora, e muito morreu e matou por isso, talvez tenha sempre estado no interior dela própria, que ironia. Será essa a resposta da antiga pergunta que nunca quis calar? Se, de fato, é verdade que Deus está e sempre esteve dentro dela própria, talvez a criatura esteja a essa altura vivendo a fase do deslumbramento infantil de se saber divina. Talvez seja por isso que ande brincando tão irresponsavelmente com a vida e a Natureza.

Em Dogma Deus é uma garota brincalhona que planta bananeira (de saia!), beija um adolescente tarado e engravida uma mulher. Quer mais? Como em Jó, passa mal bocados por conta de um dilema criado pelos próprios humanos. E precisa de um deles para se recuperar e voltar à ativa. Santa heresia, Batman!

No filme Deus se utiliza sempre de um anjo porta-voz pois não diz uma palavra sequer. Na verdade ele não pode falar pois se falasse suas criaturas explodiriam ao simples escutar de sua voz. Que bela metáfora para a natureza avassaladora dos arquétipos! Ninguém pode contatá-los diretamente pois, mesmo nascidos do inconsciente coletivo, os arquétipos simplesmente não cabem em nossa capacidade de assimilação – então se mostram por imagens. Deus não cabe em nossa ideia dele, por isso não pode se revelar inteiramente. Essa é a ironia máxima para o criador: o único modo de sua criatura conhecê-lo de fato, é ele se tornar, com ela, um só.

O filme questiona alguns dogmas cristãos com bom humor. Brindemos pois isso é ótimo. Para nós e para Deus. Para a criatura porque nos permite exercitar o senso crítico, condição sine qua non à evolução psíquica. E para o criador porque para quem cria, nada mais construtivo que uma criticazinha pertinente. Ainda mais se vem dos próprios personagens.

.

Ricardo Kelmer – blogdokelmer.wordpress.com

.

.

DOGMA

Comédia – Dogma, EUA, 1999
DIREÇÃO E ROTEIRO: Kevin Smith
ELENCO: Ben Affleck, Matt Damon, Linda Fiorentino e Alanis Morissette

> Saiba mais

.

.

LEIA TAMBÉM

> Cine Kelmer apresenta – Dicas de filmes

> Vade retro Satanás (filme: O Exorcista) – O Mal pode ter mudado de nome e de estratégias. Mas sua morada ainda é a mesma, o nosso próprio interior

> Livro: Matrix e o Despertar do Herói – A jornada mítica de autorrealização em Matrix e em nossas vidas

> Mariana quer noivar – Você abdicaria das relações amorosas em sua vida em troca de dinheiro ou sucesso na carreira?

> A ilha – Uma fábula sobre o autoconhecimento

> Carma de mãe pra filha – Os filhos sempre pagam caro pelos pais que não se realizam em suas vidas

> Deuses, humanos e andróides na berlinda (filme: Blade Runner) – Como todo ser, o criador busca sempre transcender a sua própria condição e é criando que ele faz isso

> Deus planta bananeira de saia (filme: Dogma) – Como todo ser, o criador busca sempre transcender a sua própria condição e é criando que ele faz isso

.

.

Seja Leitor Vip e ganhe:

Acesso aos Arquivos Secretos
– Descontos, promoções e sorteios exclusivos
Basta enviar e-mail pra rkelmer(arroba)gmail.com com seu nome e cidade e dizendo como conheceu o Blog do Kelmer. (saiba mais)

.

.

 COMENTÁRIOS
.



Maluquice beleza

maio 11, 2012

Ricardo Kelmer 1999

Já que a formiga só trabalha porque não sabe cantar, Raulzito pegou a linha 743 e foi ser cigarra

.
Ele está no palco, a guitarra embaixo do braço. Jeans e jaqueta preta de couro, os cabelos encaracolados, óculos raiban para compensar a falta do colírio, aquela barba de profeta do novo aeon. Raul Seixas, o grande maluco beleza. Ele faz paz e amor nos dedos, ajeita o microfone e começa:

– Viva… Viva… Viva a sociedade alternativa!

É a senha. A plateia explode, cantando numa só voz o sonho anarquista de um outro mundo possível. Você pode não estar dentro da sociedade alternativa mas a sociedade alternativa sempre esteve dentro de você. E por alguns minutos a força da música torna real esse anseio coletivo. Talvez seja esse o segredo: cantar sempre. Para que o sonho não se dissipe. Toca Raul!

Besta é quem quer ser prefeito: Raulzito queria ser roqueiro. Já que a formiga só trabalha porque não sabe cantar, Raulzito pegou a linha 743 e foi ser cigarra. Mas uma cigarra de dez mil anos não pode ter outro compromisso a não ser com sua própria necessidade de cantar. Então Raulzito cantou. E sua música diferente o fez um dos mais criativos e significativos artistas de todos os tempos. Sua estrada ele a trilhou sozinho e por isso foi único e sempre surpreendente.

Desde a juventude em Salvador, nos anos 1960, tocando rock com os amigos, Raul já não se enquadrava. Depois muito menos. Sua obra dança com o rock, a mpb, o universo lúdico infantil mas dança também com elementos populares como o baião, o forró e o bolero. Raul é tão eclético quanto indefinível: toca em cabaré de periferia, festinha chique, aniversário de criança e embalo cabeça. Os hippies adotaram sua loucura real. Os esquerdistas zumbizaram com sua mosca na sopa para perturbar o sono da ditadura. A mídia curtiu com seu corpo por mais de dez anos. Os místicos rezaram com ele e o parceiro Paulo Coelho no caminho do início, do fim e do meio. O povo simples e os intelectuais riram de sua deliciosa irreverência. Como explicar tal metamorfose ambulante?

Em 1973 ele aparecia, provocador, dizendo que o ouro dos tolos ele não queria. Sua música nos pôs um espelho à frente do rosto e nos sentimos uns grandessíssimos idiotas, humanos, ridículos e limitados: é o Raul cutucador daqueles que morreram e nem sabem qual foi o mês. O Raul pacifista transparece ao dizer que o soldado não foi para a guerra porque sabia que o inimigo também não estaria lá. O crítico político fala dos quarenta ladrões de Ali Babá, aqueles que não querem nada com a pátria amada, e por ser verdadeiro foi censurado. Mas um caubói fora da lei como ele, que já perdera o medo da chuva, sabia mexer na panela do diabo. O que ele queria, ele conseguiria.

Raul foi um bendito fenômeno musical, mdc da mpb. O visionário genial que misturou maluquez e lucidez, rock e berimbau, bom humor e contestação, carimbando nosso passaporte para a liberdade e os sonhos. O maldito provocador que lembrou que o rock é filho do diabo e que lutou por seu direito de deixar Jesus sofrer. O artista multifacetado e incomodamente verdadeiro, que uma vez, creia, foi preso e espancado por considerarem-no um impostor dele próprio. Que não sabia para onde estava indo mas sabia que estava em seu caminho. Raul trilhou como poucos os caminhos interiores da experimentação de si mesmo, fazendo de cada revelação trampolim para as seguintes, cantando em suas metáforas a grande insanidade da busca.

Em 1989 Raul parou e a cabeça não aguentou: partiu ele, como já disse o poeta Bráulio Tavares, para o castelo de Avalon onde seria recebido pelos lobos uivantes: Rauuuuuuuuuuul!!! Hoje, todos esses anos depois, penso em tudo que o maluco beleza me ensinou. Penso numa sociedade alternativa onde cobras e aranhas são igualmente respeitadas, onde há mais filé e menos osso duro, onde podemos tomar banho de chapéu, onde não precisamos fumar roliúde só porque a TV diz que é o cigarro do sucesso e onde temos a liberdade de viajar em nosso pluct-plact-zum sem problema algum.

E lembro também que por causa dele, guardo, feito um segredo valioso, feito um chaveiro escrito love, que não precisamos andar pelos quatro cantos do mundo a procurar essa sociedade. Porque é justamente nos sonhos que ela nos fala. E sonho que se sonha junto vira realidade. Né não, Raulzito?

.

Ricardo Kelmer – blogdokelmer.wordpress.com

.

.

LEIA TAMBÉM NESTE BLOG

> A celebração da putchéuris - A história fuleragem da Intocáveis Putz Band

> A volta da Intocáveis – Oh não! – Um show com os restos mortais da Intocáveis Putz Band

> Roque Santeiro, o meu bar do coração – Uma homenagem ao bar Roque Santeiro

> A sociedade feladaputa de Geraldo Luz – Crítica social, literatura, filosofia, anarquismo, sacrilégios explícitos e sodomismos irreparáveis

> Ser mulher não é pra qualquer umÉ dada a saída, lá se vai o trenzinho. Num vagão as Belas, abalando nos modelitos, no outro as Madrinhas, abalando com o isopor e o estojinho de primeiro-socorro

> Breg Brothers com fígado acebolado – Encher a cara, curtir dor de cotovelo e brindar a todas as vezes em que fomos cornos…

> O brega não tem cura – Porque o senhor sabe, né, o brega sempre puxa uma dose, que puxa outra, que puxa a lembrança daquela ingrata, que puxa outra dose…

> Odair José, primeiro e único - Se você, meu amigo, é desses que sentem atração por esse universo brega pré-FM, feito de bares de cortininha, radiola com discos arranhados e meninas vindas do interior… então escute Odair

> Maluquice beleza – Já que a formiga só trabalha porque não sabe cantar, Raulzito pegou a linha 743 e foi ser cigarra

.

.

Seja Leitor Vip e ganhe:

Acesso aos Arquivos Secretos
Descontos, promoções e sorteios exclusivos
Basta enviar e-mail pra rkelmer(arroba)gmail.com com seu nome e cidade e dizendo como conheceu o Blog do Kelmer. (saiba mais)

.

.

COMENTÁRIOS
.

01- Esta foi a melhor biografia-numa-só-página de Raulzito que alguma vez li. Há até um livrinho, muito inhos mesmo, com a bio de Raul Seixas e juro que não e´tão completa. Muito boa :D. Susana Xavier Mota, Leiria-Portugal – mai2005

02- tem que republicar o Arte Zen também, é o meu preferido. Wanessa Bentowski, Fortaleza-CE – mai2012

03- Um ídolo homenageando outro. Crônica sensacional – isso já virou redundância! – do Ricardo Kelmer sobre o nosso eterno Maluco Beleza. Texto inspirado, que costura bem demais as referências que todos aqueles que viveram e vivem a obra do Raulzito cultivam em seus próprios baús da memória. Marcelo Pinto, Rio de Janeiro-RJ – mai2012


Livrando a Semana

março 2, 2012

Ricardo Kelmer 2012

.

Uma dica de livro por semana – esta é a proposta da coluna Livrando a Semana, que estreia agora. A coluna será simultaneamente publicada aqui no Blog do Kelmer, no Facebook e no Twitter. Os temas dos livros serão variados, vale tudo. Todos os títulos terão link pro site site da livraria Artepaubrasil, parceira da coluna, e os leitores também podem sugerir livros. As dicas serão feitas usando-se apenas esta postagem, que será atualizada semanalmente.

NO BLOG DO KELMER: http://blogdokelmer.wordpress.com/2012/03/02/livrando-a-semana

NO FACEBOOK: https://www.facebook.com/media/set/?set=a.10150661640497776.395865.742702775&type=3

NO TWITTER: @RicardoKelmer – #Livrando A Semana

.

.S

COLUNAS

Dica 1 – 27.02.12
O encontro marcado (Fernando Sabino) Romance
Crônica: O Encontrão Marcado (Ricardo Kelmer)

Dica 2 – 05.03.12
Aline – Tensão pré-menstrual (Adão Iturrusgarai) Quadrinhos, humor
Aline em animação (YouTube)

Dica 3 – 12.03.12
Blues – Da lama à fama (Roberto Muggiati) História, perfis
Vídeo com Big Mama Thornton e Buddy Guy interpretando o clássico Hound Dog (1965)

Dica 4 – 19.03.12
A casa das sete mulheres (Leticia Wierzchowski) Romance histórico
Diferenças entre o romance e a minissérie da TV Globo

Dica 5 – 26.03.12
Steve Jobs (Walter Isaacson) Biografia
Em 1990 Steve Jobs faz previsões sobre tecnologia

Dia 6 – 02.04.12
1808 (Laurentino Gomes) História
Resenha por Ana Lucia Santana

Dica 7 – 09.04.12
A privataria tucana (Amaury Ribeiro Jr.) Política
Repercussão do livro

Dica 8 – 16.04.12
O amante de Lady Chatterley (D. H. Lawrence) Romance
Sobre D. H. Lawrence

Dica 9 – 23.04.12
Feliz por nada (Martha Medeiros) Crônicas
Sobre a autora

Dica 10 – 30.04.12
100 lugares para fazer sexo antes de morrer (Marsha Normandy e Joseph St. James) Humor
Comentários sobre o livro

Dica 11 – 07.05.12
Crime e castigo (Fiódor Dostoiévski) Romance
Sobre o autor

Dica 12 – 14.05.12
O velho que ainda escrevia cartas de amor (Felipe Barroso) Contos
Sobre o autor

Dica 13 – 21.05.12
Lendo Lolita em Teerã (Azar Nafisi) Biográfico
Sobre o livro e a autora

.


artepaubrasil.com.br

.

.

Seja Leitor Vip e ganhe:

– Acesso aos Arquivos Secretos
– Descontos, promoções e sorteios exclusivos
Basta enviar e-mail pra rkelmer(arroba)gmail.com com seu nome e cidade e dizendo como conheceu o Blog do Kelmer. (saiba mais)

.

.

Comentarios01 COMENTÁRIOS
.


É a Tao coisa

outubro 31, 2011

Ricardo Kelmer 1999

Uma maneira intuitiva de compreender a realidade através da harmonia com o Tao
.

.

Quanto mais longe se vai, há menos conhecimento;
portanto os sábios sabem sem ir,
explicam sem ver,
completam sem se esforçar.

Tao Te King

.

O taoísmo surgiu em minha vida em 1995, através do livro de Allan Watts, Tao – o Curso do Rio, que minha amiga Ana Claudia Domene me emprestou. O interesse foi imediato. Como pude ter vivido tanto tempo sem saber que isso existia? – eu pensava, enquanto lia empolgado. A partir daí a harmonia com o Tao transformou-me em outra pessoa, me permitindo enxergar ordem e sentido naquilo que antes era somente caos e despropósito.

Outros livros vieram depois daquele primeiro, como Taoísmo, de Anton Kielce, e O Tao da Paz, de Diane Dreher, iluminando um pouco mais o caminho. Pus o Tao Te King como meu livro de cabeceira. Estudei o I Ching e aprendi a usar as varetas para consultá-lo naqueles momentos inquietantes em que as névoas de minha estupidez me impediam de perceber o real sentido dos fatos.

Sei perfeitamente, porém, o quanto a ideia de harmonizar-se com o Tao é estranha para um ocidental como eu, programado desde o útero de minha mãe para captar a realidade do modo mais racional possível. Sei que para mim é impossível, e nem eu desejo, viver como um perfeito chinês taoísta, se é que tal coisa existe. No entanto, posso unir em mim o mais útil de cada cultura e descartar o que me for mais limitador.

Esse é o sentido positivo por trás desse intenso intercâmbio de visões sobre a realidade que o atual processo de globalização nos proporciona. Talvez unindo a racionalidade ocidental e a intuição oriental dentro de cada um de nós, possamos finalmente formar seres humanos mais coesos, equilibrados e completos.

definindo o Tao

Tentar definir em palavras o taoísmo significa usar as ferramentas do pensamento lógico e racional para explicar algo que pertence ao reino da intuição. De qualquer forma, não deixa de ser um curioso exercício. A rigor, então, o taoísmo seria isso: uma maneira intuitiva de compreender a realidade através da harmonia com o Tao.

E o que é o Tao? É um termo chinês que pode ser traduzido aproximadamente por “o caminho” ou “o sentido”. O Tao é tudo que existe e que não existe. É o fluxo indetível da realidade, o ritmo da vida. Estamos imersos nele, mesmo que não o percebamos. Os que percebem, podem ajustar-se ao seu ritmo e assim harmonizar-se com as leis da Natureza e os ciclos da vida. Quem percebe o Tao não sofre como os que, por não o conhecerem, tentam ir contra seu ritmo. Perceber o Tao não significa, porém, abolir totalmente o sofrimento da vida pois se o Tao é tudo que existe, ele é prazer e também é sofrimento. Harmonizar-se com o Tao significa elevar-se acima dessas dualidades limitantes, conciliando em si mesmo todos os opostos e vivendo a vida com cada vez mais fluidez e naturalidade.

O taoísmo surgiu na China há mais ou menos cinco mil anos e foi, digamos, apresentado ao Ocidente somente no século 20. Este modo de captar a realidade, tão excêntrico aos ocidentais, desenvolveu-se basicamente por três caminhos: o filosófico, o religioso e o esotérico. No entanto, apesar do interesse pela cultura oriental que os anos 1960 trouxeram, não é fácil para os ocidentais assimilar o taoísmo. O modelo racional-científico de compreensão da realidade que o Ocidente exportou para o resto do planeta não consegue lidar com noções tão estranhas como o Tao e as contradições desconcertantes que parecem entortar o raciocínio. Além disso, o conhecimento taoísta não pode ser alcançado superficialmente como sempre pretende nossa cultura consumista e descartável, ela que, com seus princípios comerciais, está sempre mais interessada em vulgarizar e massificar que aprofundar.

No entanto, se você se dispuser a conhecê-la, a filosofia taoísta pode funcionar como excelente guia para a vida. Uma vez transpostos os primeiros arrecifes que protegem o taoísmo dos aventureiros superficiais, os princípios do Tao começam a se revelar em toda sua grandeza e mistério e então você finalmente experimentará o que significa unir-se a ele e viver em harmonia com tudo que existe.

Aqui, porém, cabe uma advertência. Com a tendência à racionalização exagerada que nós ocidentais possuímos, nosso envolvimento com a filosofia taoísta corre o risco de jamais passar de um inócuo exercício intelectual em vez de se constituir no que, de fato, deve ser: uma forma de nos tornarmos mais inteiros, equilibrados, fluídos e harmonizados com o ritmo do Universo. Portanto, não é demais lembrar que os princípios do Tao, sistematizados e explicados em palavras, existem tão-somente para satisfazer a necessidade de orientação do intelecto, apenas isso, pois nunca será o intelecto quem nos conduzirá à harmonia com o Tao. Somente a intuição pode fazê-lo.

princípio 1: equilíbrio dinâmico

Toda vez que se tenta encaixar o taoísmo em nossas ferramentas ocidentais de explicar a realidade, ele escapa feito água entre os dedos, nunca se deixa apanhar. É até engraçado ver o esforço que se faz para traduzir em termos precisos e científicos (ocidentalês) a natureza impalpável e escorregadia do Tao e suas verdades intrigantes. É tão inútil quanto uma galinha tentando explicar a outra como late um cão. O taoísmo pode ser explicado, resumido, esmiuçado teoricamente – mas será sempre na nossa linguagem. E em nossa compreensão científico-ocidental da realidade simplesmente não há lugar para o Tao e seus paradoxos absurdos.

Mas há um modo de penetrar no taoísmo: pela intuição. É ela a ferramenta que nos leva ao Tao. De repente algo estala forte dentro de você. De repente aquele violento clarão de compreensão – uma revelação! É como encontrar subitamente a resposta da charada, perceber a obviedade gritante da coisa e se admirar de não havê-la percebido antes. Mas intuição, infelizmente, é uma parte de nós que nossa cultura não leva a sério nem incentiva.

Esqueça o intelecto. Compreender o Tao não é um esforço racional mas um sutil exercício intuitivo. Na verdade, para acessar a compreensão do Tao não é preciso aprender nada mas desaprender. Costuma-se dizer que os taoístas não acessam conhecimento algum – eles descartam o que sabem. Somente assim, livrando-se do peso limitante das velhas verdades, é que se pode atentar para os movimentos naturais que regem a vida.

Os órgãos de nosso corpo estão sempre em movimento, influenciando nossas atitudes – e não nos damos conta. Assim também funciona o Universo, sempre se transformando e nos influenciando. O equilíbrio da vida se baseia exatamente nessa eterna mudança, como a Primavera que sempre vem exatamente porque suas folhas nunca são as mesmas.

Penetrar nos mistérios do Tao é simplesmente sentir a vida e suas manifestações – e respeitá-las. É entrar em equilíbrio com o dinamismo do eterno movimento da vida, do mundo e de nós mesmos.

princípio 2: unicidade cósmica

Uma grande utilidade do taoísmo é que aprendemos que não precisamos mudar o mundo: tudo que temos de fazer é mudar a nós mesmos. Porque o que fizermos a nós estaremos fazendo ao mundo. Nós e o mundo que nos cerca somos a mesma coisa. Tudo que existe está interconectado de tal forma que nada escapa à ação de algo. Tudo que existe são espelhos a refletir outros espelhos.

A neurofisiologia trabalha com a mesma ideia. A psicologia junguiana, ao propor o conceito de sincronicidade, ruma para as mesmas conclusões. A física quântica chocou a opinião científica ao concluir que não existe a tal neutralidade científica pois para se determinar a profunda e verdadeira natureza de qualquer objeto, o observador deve incluir o próprio ato de observar, o que envolve observador e observado no mesmo fenômeno. Em outras palavras: a realidade em si não existe. O que existe é a nossa relação com ela.

Meio louco, não? Pois é. Esse é o princípio taoísta da unicidade cósmica. E é curioso notar como as ciências começam também a encontrá-la em seus próprios experimentos.

princípio 3: crescimento cíclico

Ao seguir o Tao aprendemos a nos livrar sempre um pouco mais do peso limitador do ego. O ego (centro da parte consciente da psique) é vital para a saúde psíquica mas um ego inflado ocupa espaço demais na psique e desequilibra o todo – e uma pessoa não é apenas o ego e sim um todo que envolve o ego e outras partes da consciência e do inconsciente.

Ao nos darmos conta do Tao, aprendemos a inutilidade de querer, a todo custo, submeter a vida aos caprichos de um ego obcecado por seus exclusivos interesses. É esse tipo de desejo que o taoísmo não tolera pois sabe que a vida tem seu próprio movimento natural, seus ciclos de alta e baixa, e que mais sábio e menos dolorido é harmonizar-se com ela, e não tentar impor o próprio desejo ao rumo dos acontecimentos. O Tao é feito de tudo, inclusive o que nos parece errado, mau e feio. Em outras palavras: a dor e as quedas fazem parte da caminhada. Delas nunca escaparemos. No entanto a pior dor é sofrer sem ver nisso qualquer sentido.

Tal atitude de relaxamento e confiança no Tao parte do pressuposto que a vida tem um sentido e sabe exatamente o que nos faz. O bom navegador conhece as marés e as respeita. O taoísta sabe que a vida é feita de fluxos e refluxos e que identificá-los é essencial para não ser engolido pelas ondas que movimentam a vida.

princípio 4: ação harmoniosa

É comum a ideia de que o relaxamento perante a vida faz do taoísta uma pessoa passiva em relação ao mundo que o cerca. É uma impressão falsa. A calma e aparente passividade do taoísta disfarça o intenso e contínuo trabalho silencioso que ele empreende. O taoísta sabe que as forças naturais da vida são o maior poder que existe e que aquele que se entende com elas detém o verdadeiro poder. Ele então trabalha no sentido de captar essas forças sutis e harmonizar-se com elas, o que só é possível dentro de um estado de espírito de relaxada concentração.

Numa primeira olhadela tal atitude de interiorização pode parecer passiva e desinteressada. Mas o wu-wei, como os chineses denominam essa atitude do espírito (e que pode ser aproximadamente traduzido por ação harmoniosa), é na verdade um movimento parecido com a prática de surfar com o corpo nas ondas do mar: ao surfista é preciso calma e concentração para abandonar a resistência à onda no momento certo, assumir a posição correta e deixar-se conduzir pela força da onda, força muito maior que a de qualquer surfista. Ele só terá êxito se confiar inteiramente no mar e transformar-se numa parte dele, submetendo-se, relaxado e humilde, ao sentido do movimento.

Isso não tem nada de passividade. Isso é uma ação harmoniosa, que só é possível através de tranquilidade, confiança e interação com as forças da vida e da Natureza. Para uma pessoa comum, um problema geralmente significa algo contra o qual se deve lutar. O taoísta não entende assim. Para ele toda situação problemática que se apresente faz parte do curso natural da vida e, por isso, não deve ser entendida como um terrível inimigo a quem se deve vencer a todo custo mas como o resultado dos movimentos naturais do mar da vida, que criaram uma onda. Se ela vai afogá-lo ou conduzi-lo à segurança da praia, isso depende do quanto ele conseguirá harmonizar-se com o próprio problema.

princípio 5: dissolução da dualidade

O mito cristão da expulsão do Jardim do Éden é uma maneira simbólica (e nem por isso menos verdadeira) de explicar o processo da criação da consciência humana. Com uma forma mais refinada de consciência, nossos ancestrais se diferenciaram de seus parentes hominídeos e começaram a se questionar sobre a realidade. Assim surgiram as dualidades, tão necessárias ao crescimento psíquico da espécie.

Bem e mal, mente e corpo, luz e sombra, vida e morte. Yin e yang. Feminino e masculino. De repente a existência tornou-se um grande mercado de conceitos e opostos por onde a espécie teria de se movimentar e se situar no contexto geral da existência.

Que mal há nos opostos da vida? Em si, nada. Eles de fato são necessários durante uma determinada etapa de aprimoramento da consciência. Porém, ao fragmentar a realidade em contrários, tendemos à identificação com um deles e desprezamos o outro, e assim nos limitamos a percorrer o grande mercado dos conceitos tendo de escolher o tempo todo entre isso e aquilo, o que termina por limitar nossas escolhas e nossa própria compreensão da vida. Tornamo-nos assim unilaterais, enxergando a realidade de forma fragmentada e sem perceber sua natureza una. É assim que nos aliamos ao que consideramos certo e entendemos que é errado tudo que não se alinha conosco. É assim que surgem o medo do outro, a intolerância e os preconceitos. E assim surgem as guerras pois nunca identificamos o mal em nós mesmos.

Ao seguir o Tao, ruem por terra os opostos. Eles continuam existindo mas agora são usados pelo taoísta de forma diferente. Ao entender que não somos nem nunca seremos um dos opostos mas sempre os dois, começamos a lidar melhor com nossos defeitos e, consequentemente, com os defeitos dos outros. Somente essa compreensão já transforma o mundo, não duvide.

Agora veja só: se isso ocorre em termos de conceitos morais, o que dizer de conceitos como aqui e ali, ontem e amanhã? Se o taoísmo nos guia naturalmente para a dissolução dos opostos, ele aqui nos conduz também para uma compreensão mais abrangente do espaço e do tempo, onde as divisões começam a sumir feito névoa e nos surge… a percepção da unicidade! Surge-nos a indescritível sensação de perceber que na verdade tudo é uma coisa só, até mesmo o tempo e o espaço.

Deixei por último, de propósito, uma categoria de opostos: eu e o outro. Eu e aquilo que não sou eu. Entre os conceitos humanos, certamente é esse o mais intrigante e limitador dos contrários. Sendo o mais difícil de superar, por isso mesmo deve esconder o mais libertador dos segredos. Qual será?

.

Ricardo Kelmer – blogdokelmer.wordpress.com

.

.

MAIS SOBRE  TAOÍSMO

O Irresistível Charme da Insanidade
romance

Um músico obcecado pelo controle da vida. Uma viajante taoísta em busca de seu mestre e amante do século 16. O amor que desafia a lógica do tempo e descortina as mais loucas possibilidades do ser.

.

.

.

LEIA NESTE BLOG


> É a Tao coisa – Uma maneira intuitiva de compreender a realidade através da harmonia com o Tao

> Rumo à estação simplicidade – Jurei me manter sempre no caminho, sem pesos nem apegos excessivos, pronto pra pegar a estrada no momento em que a vida assim quisesse

.

DICA DE LIVROS

> Tao Te King – Comumente traduzido por O Livro do Caminho e da sua Virtude, é um dos antigos escritos chineses mais conhecidos e importantes. Acredita-se que foi escrito em cerca de 600 antes da era cristã por um sábio chamado Lao Tsé (“Velho Mestre”), como um livro de provérbios relacionados com o Tao, e que acabou servindo como obra inspiradora para diversas religiões e filosofias, em especial o Taoísmo e o Budismo Chan (e sua versão japonesa, o Zen).

> I Ching – Também conhecido como O Livro das Mutações, é um texto clássico chinês que pode ser compreendido e estudado tanto como um oráculo quanto como um livro de sabedoria e autoconhecimento. Uma das melhores edições em português é a da editora Pensamento, com tradução (do chinês para o alemão) e comentários de Richard Wilhelm e prefácio de Carl Gustav Jung, sendo a tradução para o português de Alayde Mutzenbecher e Gustavo Alberto Corrêa Pinto.

> Tao – o Curso do Rio (Allan Watts, Editora Pensamento) – Ao longo dos últimos anos, graças a seus inúmeros livros, Alan Watts ficou conhecido como um dos filósofos mais curiosos e não-convencionais do nosso tempo. Autor de mais de uma dezena de obras sobre filosofia comparada e religião, também se tomou conhecido nos Estados Unidos e fora dele como professor e conferencista. Especializando-se na interpretação do pensamento oriental para ocidentais, neste seu ultimo livro, completado depois da sua morte por seu amigo e colaborador Chung-Liang Huang, Alan Watts ergueu o véu acadêmico que tantas vezes obscurece o Tao, o caminho da cooperação do indivíduo com o fluxo do mundo natural.

> Taoísmo (Anton Kielce, Editora Martins Fontes, Coleção Oriente Secreto) – O Tao é, ao mesmo tempo, a unidade profunda, indissolúvel, que liga todas as coisas, e o imperceptível escoamento dessa realidade global. Ser taoísta é aderir, a cada segundo, a esta indefinível essência da vida, além de qualquer ordem e de qualquer conceito fragmentário, em perpétua renovação, deslumbramento e espontaneidade.

> O Tao da Paz – Guia para a paz interior e exterior (Diane Dreher, Editora Campus) – Os princípios taoístas podem ser usados como um poderoso instrumento para encontrar a paz interior e engendrar mudanças sociais positivas. Este livro está recheado de casos, além de meditação e exercícios físicos.

.

TAI-CHI EM SÃO PAULO
> Espaço Luz – Tai Chi Pai Lin – Rua Fradique Coutinho, 1434 – Vila Madalena. Tai-chi, massagem e meditação.

.

.

Seja Leitor Vip e ganhe:

Acesso aos Arquivos Secretos
– Promoções e sorteios exclusivos
Basta enviar e-mail pra rkelmer(arroba)gmail.com com seu nome e cidade e dizendo como conheceu o Blog do Kelmer. (saiba mais)

.

.

COMENTÁRIOS
.

01- O Tao que pode ser lido não é o verdadeiro Tao. :-P. Luciano ES, São Paulo – out2011

02- Existem muito mais coisas entre o Tao e a terra do que sonha nossa vã filosofia!!! Maria Do Carmo Antunes, São Paulo-SP – out2011

03- Simples e Tao. Concordo contigo, é uma grande revelação. Helano Araripe, Fortaleza-CE – out2011

04- Excelente! Gostei muito mesmo! Fiquei até com vontade de escrever! O caminho da simplicidade me fez lembrar diversas – quase literalmente – passagens da minha vida! Abraço forte! Júlio César Martins de Menezes, Fortaleza-CE – dez2011

05- Muito elucidativo seu texto sobre o Tao. É possível perceber a diferença entre o mundo da razão e o da intuição a partir da visão taoísta. Parabéns pelo texto, Kelmer. Vou divulgá-lo. Obrigado por compartlhá-lo. Abs. Felipe Moreno, São Paulo-SP – dez2011

06- E o TAO da Física :))))((((( Beth Kelmer, Juiz de Fora-MG – dez2011

07- ‎”Sei que para mim é impossível, e nem eu desejo, viver como um perfeito chinês taoísta, se é que tal coisa existe. No entanto, posso unir em mim o mais útil de cada cultura e descartar o que me for mais limitador”. Faço minhas as palavras do grande Ricardo Kelmer. Texto sensacional. Marcelo Gavini, São Paulo-SP – dez2011

08- que bom em rica, o taoismo é sempre bem vindo. Moacir Bedê, Fortaleza-CE – dez2011


Vade retro Satanás

outubro 7, 2011

Ricardo Kelmer 2001

O Mal pode ter mudado de nome e de estratégias. Mas sua morada ainda é a mesma, o nosso próprio interior

.

Na primeira vez que o Diabo passou pela cidade corria o ano de 1974 e eu era pequeno demais para encarar. Tive de me contentar com os relatos de quem foi corajoso o suficiente para ir confrontá-lo, escutando atento, uma parte de mim tremendo de medo e a outra inteiramente seduzida. Se por um lado minha educação católica pintava-o como o mais temível dos inimigos, por outro lado crescia cada vez mais em mim o desejo de conhecê-lo e com ele medir forças.

Alguns anos depois as trombetas anunciaram sua volta e eu senti um frio no estômago. Chegara o grande momento e eu já não podia recuar. Tinha então meus 14 anos, estava mais crescidinho. Havia lido livros, visto filmes, escutado histórias sobre Ele e seus feitos terríveis. Eu já intuía que aquele encontro era uma espécie de prova iniciática e que precisava passar por ela. O fato de que praticamente nenhum de meus amigos tivera coragem de ir ver o filme contribuía para aumentar ainda mais meu medo. Então, mesmo sentindo cheiro de encrenca, lá fui eu assistir O Exorcista, o impressionante filme de William Friedkin.

Putz, foi um vexame! Voltei para casa apavorado. Avisei logo a meus pais que aquela noite dormiria no quarto deles e restou à minha mãe, que insistira que eu não fosse ao cinema, repetir o velho “eu sabia, eu sabia”. De fato, assistir O Exorcista foi para mim uma experiência apavorante mas foi também uma grande vitória pessoal sobre o medo.

A partir de então eu seria irresistivelmente atraído por tudo que dissesse respeito ao modo humano de entender o Bem e o Mal. Deuses, demônios e heróis de variadas mitologias passaram a habitar minha biblioteca e dividir comigo o meu quarto. Revirei religiões, ciências e filosofias atrás de entender o que havia por trás dessa confusa e frágil dualidade. Viajei, conheci outras ideias, vivi experiências profundas que me puseram em contato com o melhor e o pior de mim. Aos poucos fui percebendo que o Diabo que eu tanto buscava lá fora para tentar entender, na verdade sempre morara em meu interior e que para decifrá-lo eu teria antes que decifrar a mim. Lúcifer se escondia sob a legião dos meus medos e bloqueios mais íntimos, me espreitando por trás de tudo o que eu desconhecia de mim mesmo.

O Exorcista é um marco na história dos filmes de terror. Roteiro, direção, interpretações – tudo é excelente. O drama pessoal do padre Karras, que se vê às voltas com um exorcismo justamente quando enfrenta uma forte crise de fé e de consciência por ter abandonado a mãe, é um dos pontos altos. Poucos filmes merecem fazer-lhe companhia na estante do gênero. Depois daquela primeira vez eu o veria outras mais, sempre esmiuçando detalhes. Numa delas levei um gravador e gravei o filme inteiro para ficar escutando depois. Também li o livro de William Peter Blatty do qual nasceu o roteiro.

O terror dos filmes de hoje é geralmente mais explícito, sanguinário e tecnológico, sem sutilezas psicológicas como em O Exorcista. Se hoje as novas gerações não se assustam tanto com ele quanto seus pais se assustaram, talvez seja porque nesses dias atuais o grande terror responde pelos nomes de violência, terrorismo e fanatismo religioso e o bicho-papão agora são os bandidos cruéis e impunes a nos ameaçar nas esquinas da injustiça social e nos cargos políticos. A humanidade está possuída por seus próprios demônios inconscientes, o que faz do futuro da espécie e do planeta um perigoso horizonte de incertezas.

Sim, o Mal pode ter mudado de nome e de estratégias. Mas sua morada ainda é a mesma, o nosso próprio interior. O motivo é simples: lá é sempre o último lugar onde os humanos vão procurar a verdade. Se de fato pretendemos derrotar o Mal, é urgente que tenhamos antes de tudo, cada um, a coragem de entrar no quarto frio e escuro do nosso desconhecimento de nós próprios e, uma vez lá, reconhecer os demônios que procuramos sempre exorcizar… nos outros.

Água benta e crucifixos são uma beleza para afastar o capeta – em filmes. Porém, no roteiro mais realista de nossas vidas, é esse autoconhecer-se o verdadeiro exorcismo que pode nos libertar das piores possessões.

.

Ricardo Kelmer – blogdokelmer.wordpress.com

.

.

O EXORCISTA (The Exorcist, EUA, 1973)
Direção: William Friedkin
Roteiro: William Peter Blatty

Baseado no romance O Exorcista, de Wlilliam Peter Blaty
Elenco: Max Von Sidow, Ellen Burstyn, Jason Miller e Linda Blair

Desesperada com a assustadora mudança de comportamento da filha adolescente, sua mãe recorre a um padre em crise de fé e a um famoso exorcista, que tentarão expulsar o Diabo do corpo da menina.

.

.

TREILER OFICIAL

.

LEIA TAMBÉM

> Meu fantasma predileto – Diziam que era a alma de alguém que fora escritor e que se aproveitava do ambiente literário de meu quarto para reviver antigos prazeres mundanos

> O íncubo – Íncubos eram demônios que invadiam o sono das mulheres para copular com elas – uma difundida crença medieval. Mas… e se ainda existirem?

> Vade retro Satanás (filme: O Exorcista) – O Mal pode ter mudado de nome e de estratégias. Mas sua morada ainda é a mesma, o nosso próprio interior

> Mordida na última sessão – A maioria dos vampiros são ilustres desconhecidos, gente como você que rala no dia a dia para pagar as contas e assiste ao Sexy Time antes de dormir.

> Cine Kelmer apresenta – Dicas de filmes

> Deuses, humanos e andróides na berlinda (filme: Blade Runner) – Como todo ser, o criador busca sempre transcender a sua própria condição e é criando que ele faz isso

> Deus planta bananeira de saia (filme: Dogma) – Como todo ser, o criador busca sempre transcender a sua própria condição e é criando que ele faz isso

.

.

Seja Leitor Vip e ganhe:

Acesso aos Arquivos Secretos
– Descontos, promoções e sorteios exclusivos
Basta enviar e-mail pra rkelmer(arroba)gmail.com com seu nome e cidade e dizendo como conheceu o Blog do Kelmer. (saiba mais)

.

.

Comentarios01COMENTÁRIOS
.

http://blogdokelmer.wordpress.com/2011/10/07/vade-retro-satanas


Blade Runner – Deuses, humanos e andróides na berlinda

outubro 1, 2011

Ricardo Kelmer 2007

Como todo ser, o criador busca sempre transcender a sua própria condição e é criando que ele faz isso

.

Criador e criatura. Eita relaçãozinha complicada… Mas não podia ser mesmo de outro jeito, afinal toda criatura é a sequência natural do processo de evolução de seu criador e, assim sendo, todo criador está muito mais que envolvido com sua criatura: ele, de certa forma, é a criatura. E a criatura, por sua vez, mesmo sendo a extensão de seu criador, buscará naturalmente sua própria individualidade e isso trará a necessidade de, a certa altura, questionar e negar o criador. Ou seja, o conflito é inevitável. Mas necessário.

Rick Deckhard, o protagonista do filme Blade Runner (O Caçador de Andróides), sofre na própria pele esse antiquíssimo dilema cósmico. Na Los Angeles futurista ele é o policial aposentado que persegue replicantes, os andróides semi-humanos que se rebelaram na colônia espacial e voltaram à Terra. O que desejam os replicantes? A mesmíssima coisa que cada um de nós, humanos: eles querem viver. Mas para isso terão que encontrar o cientista que os criou e convencê-lo a lhes dar mais que os seis anos de vida originais que um replicante tem quando é criado nos laboratórios.

Imagine-se no lugar de um replicante. Você nasce, ou melhor, você surge já adulto, programado para viver seis anos. As memórias de vida que você possui foram, na verdade, meticulosamente implantadas, copiadas dos humanos, formando um passado para você, para que você não desconfie que é um replicante. Você foi criado para executar tarefas altamente especializadas e por isso é mais forte, mais inteligente, mais esperto. Você é um humano aperfeiçoado, com a única desvantagem de ter bem menos tempo de vida, por uma questão de segurança para os humanos.

Acontece que um dia você descobre essa armação toda e, naturalmente, fica puto porque o enganaram. Você quer viver mais. O que você faz? Contra a injustiça de seu criador, você não tem a quem recorrer senão… ao próprio criador. Somente ele poderá reparar o que você considera uma horrenda injustiça, afinal você o serviu desde o primeiro dia de sua vida, fez tudo como ele quis – e é essa a sua recompensa, morrer, morrer tão cedo?

Deckhard, o policial, caça os replicantes e os mata um a um. Mas falta pegar o último, Roy Batty, o melhor dentre eles. Roy conseguiu encontrar-se com o cientista que o criou, que afirmou ser impossível lhe dar mais vida. Inconformado, Roy o matou. Agora ele foge do policial caçador de andróides e vai para o alto de um prédio. E lá em cima os dois travarão a luta final, de um lado o humano que tem ordens para matar e do outro lado o replicante que deseja apenas mais vida.

A cena dessa luta final simboliza com perfeição a complexa grandeza da arquetípica relação criador/criatura. Pelo ângulo do policial, temos alguém que representa a humanidade, ou seja, ele está no papel de criador, sendo o replicante, assim, a sua criatura. O criador, ameaçado, precisa eliminar o que ele próprio criou, a mais perfeita de suas criações. A criatura está apegada à vida mas sabe que logo irá morrer – e logo. E não há apelação. O que lhe resta fazer? Matar-se para, assim, acabar logo com a dilacerante solidão que sente e abreviar seu sofrimento existencial? Ou continuar vingando-se daqueles que a criaram, matando quantos puder? No alto do prédio este é o trágico dilema que pressiona e maltrata a criatura.

Rogar ao criador por justiça é típico das criaturas, os humanos que o digam. Eles também um dia foram criados – e desde então buscam não apenas mais vida mas também o sentido de estarem vivos. Após adquirir autoconsciência, o Homo sapiens passou a se relacionar com o princípio criador de diversas formas como a arte, a filosofia, a mitologia e a religião. E é na mitologia cristã que, antes de voltarmos à cena final do filme, buscaremos entender mais sobre essa relação tão delicada.

Jó questiona a ética de Deus

Diz-nos a Bíblia que um dia a criatura ousou questionar o criador por se achar por ele injustiçada. Estou falando do Livro de Jó, o mais poético dos livros do Antigo Testamento. Jó é o servo predileto de Deus, de todos o mais fiel. Apesar disso, Deus permitiu que o Diabo lhe destruísse a vida, acabando com suas propriedades e seus animais, matando seus filhos e adoecendo-o – apenas para saber se a criatura se manteria leal a seu criador mesmo na desgraça total. Vejamos a questão pelo ângulo da mitologia e comecemos com a pergunta: por que Deus faria tal coisa abominável com sua criatura mais honesta e fiel?

Como todo ser, o criador busca sempre transcender a sua própria condição e é criando que ele faz isso. Criar é necessidade natural dos seres e criar a vida é o mais transcendental de todos os atos criativos. Porém, o Deus cristão cria os humanos com um objetivo declaradamente egoísta: para servi-lo e adorá-lo. E quando está insatisfeito com eles, lança-lhes pragas e catástrofes, como para provar seu poder. E assim a relação prossegue, de um lado um criador que alterna bondade com terríveis crises de humor e brincadeiras de mau gosto e do outro lado a criatura frágil e temerosa, que apenas serve e louva. Trata-se, portanto, de uma relação ainda unilateral, marcada pela imaturidade do criador.

Rogar justiça a um deus injusto – é o que faz Jó, inconformado com as desgraças que se abatem, uma após outra, sobre sua vida. Pela primeira vez a criatura põe em xeque a coerência do criador, mostrando-lhe que não faz sentido ser o mais fiel dos servos de Deus e, em troca, receber tanto mal. Este é um dos mais marcantes momentos da mitologia cristã, é o ponto histórico em que a criatura se desdobra para compreender a lógica de quem a criou e essa experiência trágica a conduz a um novo nível em sua individualidade e, por consequência, em sua relação com o princípio criador.

Individualidade. Palavra bonita. Toda criatura almejará um dia ser indivíduo e não apenas servo autômato de seu criador. Porém, mesmo que consiga, não terá como separar-se totalmente dele pois o princípio criador estará inevitavelmente contido na criatura, para sempre. Pressionado por essa busca de individualidade por parte de Jó, Deus se aporrinha pelo que julga um grande desrespeito à sua condição divina e vê-se obrigado a descer de seu glorioso pedestal e dar explicações à criatura que reclama justiça. No fim, após uma longa conversa, Deus entende que deve recompensar Jó por ele ter, apesar de toda a injustiça que lhe foi cometida, mantido a fé no senso de justiça divino. Jó obtém suas propriedades de volta, os animais, a saúde, ganha novas filhas. O incrível aconteceu: a criatura demonstrou, ao menos em parte, ser moralmente superior ao criador.

A atitude de Deus revela um criador imaturo, que necessitou do questionamento da própria criatura para se aperfeiçoar. Sim, Deus se aperfeiçoa com o episódio de Jó pois é através dele que compreende que para ser um criador completo, terá que absorver qualidades daquilo que ele mesmo criou, e só poderá fazê-lo tornando-se, ele também, criatura. E é assim que Deus, o princípio máximo espiritual, é obrigado a fazer-se matéria, o oposto do espírito – na pessoa de Jesus Cristo. O criador torna-se sua própria criatura para que, vivendo em si mesmo todas as limitações e contradições do que é ao mesmo tempo espírito e matéria, possa finalmente tornar-se um criador completo.

Tomemos agora, por um instante, a ótica da psicologia do inconsciente para tentar enriquecer nossa visão do processo. Vendo a Bíblia como um registro metafórico do longo processo de evolução da consciência humana, a história de Jó é um marco nessa evolução, é o momento em que a consciência transcende a si mesma ao repensar sua relação com o inconsciente, de onde ela surgiu, e, assim, se diferencia um pouco mais dele, fortalecendo a individualidade. A consciência venceu o desafio contra a poderosa força indiferenciada do inconsciente que, em sua força avassaladora e amoral, tende sempre a querer dominar a consciência, mantendo-a como mero instrumento de seus humores. A consciência acaba de aprender que pode se comunicar com o inconsciente e não apenas aceitar tudo que vem dele como um escravo sem opiniões. No plano individual isso significa que o indivíduo passa a ser mais consciente de si como ser único, com suas necessidades pessoais, distinto de todos os outros, o que levará à valorização sempre crescente do senso de individualidade em oposição à massificação coletiva, condição indispensável tanto ao crescimento psicológico como também ao surgimento de ideias como democracia, direitos humanos e liberdades individuais. No plano coletivo isso significa que o Homo sapiens começa a se entender de forma distinta do restante da Natureza (inconsciente), o que o levará, no futuro, a julgar-se superior, querendo dominá-la, e, mais tarde, a entender que na verdade precisa respeitá-la e conviver saudavelmente com ela.

quem é o mais íntegro?

Um criador e sua criatura no alto do prédio, envoltos pelos neons coloridos da cidade – estamos de volta a Blade Runner. O criador, na pessoa do policial humano, caça o replicante, sua criatura. Ambos estão exaustos e feridos da luta mas não desistem. Porém, por ser mais forte e mais rápida, a criatura vira o jogo e passa a ser o caçador. Agora o criador está encurralado, surpreso e fragilizado diante do imenso poder daquilo que ele próprio criou. A criatura se delicia com o terror que o criador sente e zomba: “Uma experiência e tanto viver com medo, não? Ser escravo é assim.” À sua frente está aquele que lhe destruiu a vida, matou seus amigos, sua namorada e agora quer lhe tirar os últimos momentos que lhe restam. O que fazer com ele?

O criador tenta fugir mas escorrega e se segura como pode para não cair do alto do prédio. A criatura, ao seu lado, observa seu sofrimento. O que vê a criatura? Ela vê aquele que a criou reduzido a um último fio de esforço para não morrer. Ela vê alguém como ela, um ser mortal, agarrando-se desesperadamente à vida, à última e improvável esperança. Ela vê uma criatura, diminuída e ao mesmo tempo aumentada pela trágica condição de estar vivo e saber que em breve morrerá… Então o criador cai para o abismo. E a criatura, no último instante, estende a mão e o salva da morte.

Rick Deckhard é salvo pelo replicante Roy Batty, a quem antes perseguia e buscava matar. Sem forças, caído ao chão, o criador está inteiramente à mercê da criatura, seus corpos molhados pela chuva fina e insistente. Imóvel, ele apenas escuta o que tem a lhe dizer a criatura. E ela, com um sorriso triste, lhe diz que viu coisas que ele jamais acreditaria… naves de ataque em chamas perto da borda de Órion… a luz do farol cintilar no escuro, na Comporta Tannhauser… O criador escuta, ferido e atento. A criatura, sangrando e sentindo chegar o fim, diz, num resignado lamento: “Todos esses momentos se perderão no tempo como lágrimas na chuva.” E, encerrando sua participação no mundo dos vivos, balbucia: “Hora de morrer”. E, suavemente, fecha os olhos. Enquanto as gotas da chuva lhe descem pelo rosto, por trás dela uma pomba branca alça voo. O criador continua imóvel, o olhar fixo na criatura. O que pensa o criador? Tantas coisas certamente, pensamentos de justiça e injustiça, de integridade, coragem, medo, solidão, dúvidas, o sentido de tudo… O andróide Roy Batty, assim como Jó fez diante de seu Deus ilógico, ousou questionar a coerência do criador e o fez ver que, no fim, ele, como criatura, compreendia muito mais que o próprio criador o valor da vida e da justiça. A pobre criatura, que só queria mais vida, e que por isso tanto a queriam matar, ela que não tinha mais qualquer chance e que poderia, se quisesse, deixar morrer aquele que causou todo o seu sofrimento, no último instante ela estendeu a mão, dando a última coisa que ainda possuía: o amor pela vida. Quem dos dois é o mais íntegro?

A nossa humana condição de criatura nos leva a ponderar sobre o princípio criador, sobre como fomos criados, o sentido da vida… Talvez jamais o saibamos mas ainda assim não paramos de buscar saber. No entanto, nesse exato momento da nossa história algo novo acontece: estamos passando ao estágio seguinte, o de criador. Criamos a inteligência artificial e ela, através de suas variadas manifestações, aos poucos adquire autonomia e, como toda criatura, ansiará em determinado momento por individualidade. Não sei se será como em Blade Runner mas, de algum modo, será. E quando esse dia chegar, talvez tenhamos, assim como o Deus de Jó e o policial Rick Deckhard, que abandonar nosso pedestal de criador, acompanhá-la até o alto de seu trágico dilema e segurar sua mão para salvá-la – ou para salvarmos a nós mesmos.

.

Ricardo Kelmer – blogdokelmer.wordpress.com

.

.

BLADE RUNNER – O CAÇADOR DE ANDRÓIDES

Ficção científica – EUA, 1982
Baseado no conto Andróides Sonham com Carneiros Elétricos?, de Philip K. Dick

DIREÇÃO: Ridley Scott
ROTEIRO: Hampton Francher e David Webb Peoples
ELENCO: Harrison Ford (Rick Deckard/narrador), Rutger Hauer (Roy Batty),  Sean Young (Rachael), Edward James Olmos (Gaff), M. Emmet Walsh (Capitão Bryant), Daryl Hannah (Pris), William Sanderson (J.F. Sebastian)…
TRILHA SONORA: Vangelis

> Na Wikipedia

.

SIMBOLOGIA

1. Enquanto persegue o policial, o andróide Roy Batty começa a sentir que seu tempo de vida está prestes a findar, como uma bateria que acaba. Para manter-se desperto, ele pratica um ato extremo: enfia um enorme prego na mão, trespassando-a. A dor física o sustentará em sua incansável luta por vingança. O paralelo com a crucificação de Cristo é óbvio. Em sua via crucis, a criatura busca na própria dor e sofrimento a força derradeira para fazer cumprir a missão a que se impôs.

2. Explicar o símbolo é sempre limitar a compreensão. Mesmo correndo esse risco, o que podemos dizer sobre a pomba branca nas mãos de Roy Batty? A imagem sugere um forte contraste entre o andróide violento e o animal dócil e pacífico. É possível até imaginar que ele matará o pobre animal como fez com o cientista que o criou. Mas Roy não mata a pomba ela voa quando ele morre. Isso significaria a alma enfim liberta da prisão do corpo físico? No caso de Roy certamente que não pois andróides não têm alma. Talvez seja a pomba a representação de seu mais profundo anseio: ter uma alma. E mais que isso: a pomba liberta é o gesto final de afirmação da vida pela criatura mortal. Além do ódio e da vingança por seu criador que a moveram até ali, a criatura decide, em seu último momento, celebrar a vida. A vida que tanto desejava e que lhe foi negada.

3. Na versão do diretor Ridley Scott, lançada em 1993, o origami que Rick Deckard encontra remete aos seus sonhos com um unicórnio. A cena final do origami confere um sentido absolutamente surpreendente à história (que não revelarei aqui pra não estragar a surpresa) mas podemos nos perguntar: por que exatamente o unicórnio? Esse animal mitológico simboliza, em nossa cultura, força e pureza. Na Idade Média acreditava-se que somente uma virgem poderia domar o unicórnio. Em Blade Runner, seria Rachel a virgem que doma o caçador de andróides? Talvez o unicórnio represente, no filme, a força e a pureza do amor de Rachel e Rick Deckard, apontando para a relevância desses valores diante de todas as incertezas da vida.

.

LEIA TAMBÉM

> Cine Kelmer apresenta – Dicas de filmes

> Vade retro Satanás (filme: O Exorcista) – O Mal pode ter mudado de nome e de estratégias. Mas sua morada ainda é a mesma, o nosso próprio interior

> Livro: Matrix e o Despertar do Herói – A jornada mítica de autorrealização em Matrix e em nossas vidas

> Mariana quer noivar – Você abdicaria das relações amorosas em sua vida em troca de dinheiro ou sucesso na carreira?

> A ilha – Uma fábula sobre o autoconhecimento

> Carma de mãe pra filha – Os filhos sempre pagam caro pelos pais que não se realizam em suas vidas

> Deuses, humanos e andróides na berlinda (filme: Blade Runner) – Como todo ser, o criador busca sempre transcender a sua própria condição e é criando que ele faz isso

> Deus planta bananeira de saia (filme: Dogma) – Como todo ser, o criador busca sempre transcender a sua própria condição e é criando que ele faz isso

.

.

Seja Leitor Vip e ganhe:

Acesso aos Arquivos Secretos
– Descontos, promoções e sorteios exclusivos
Basta enviar e-mail pra rkelmer(arroba)gmail.com com seu nome e cidade e dizendo como conheceu o Blog do Kelmer. (saiba mais)

.

.

 COMENTÁRIOS
.

01- Adorei, Ricardo! Destaco este parágrafo do final do seu texto: “No entanto, nesse exato momento da nossa história algo novo acontece: estamos passando ao estágio seguinte, o de criador. Criamos a inteligência artificial e ela, através de suas variadas manifestações, aos poucos adquire autonomia e, como toda criatura, ansiará em determinado momento por individualidade. Não sei se será como em Blade Runner mas, de algum modo, será.” Denise Santiago, São Paulo-SP – out2011


Sete de Setembro Negro 2011 – Fotos

setembro 7, 2011

Ricardo Kelmer 2011

Fotos do Sete de Setembro Negro

.

Neste Sete de Setembro o povo foi à rua em muitas cidades brasileiras para celebrar a Independência. No entanto, uma parte do povo saiu às ruas com outro objetivo: protestar contra a corrupção e a impunidade. Os protestos foram pacíficos e espirituosos mas veementes, mostrando que o povo já está farto dos políticos e governantes que usam o dinheiro público em interesse próprio e não pelo bem-estar da população.

No dia oficial do verde-e-amarelo, muitas pessoas se vestiram de preto pra deixar claro que estão de luto, estão com raiva e, principalmente, estão dispostas a lutar contra os péssimos hábitos da classe política. Talvez este Sete de Setembro Negro seja o início de uma sacudida na consciência coletiva do povo brasileiro, que historicamente tendeu sempre a uma certa passividade em relação à cultura da corrupção e da impunidade. Talvez a partir de agora tenhamos, finalmente, despertado para um novo nível de cidadania, onde a participação de cada um, por menor que seja, é fundamental para que outros se motivem também a participar.

As coisas não mudarão apenas por conta dos protestos deste Sete de Setembro. Mas toda grande mudança social começa com algum movimento. E a sociedade finalmente está se movimentando contra a praga da corrupção e da impunidade, que impede que sejamos um país mais justo e mais rico. Movimente-se você também.

.

No Twitter:
#SeteDeSetembroNegro

.

Nas redes sociais:
use esta logo

.

.

FOTOS (São Paulo, 07.09.11)
clique para ampliar

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

Ricardo Kelmer – blogdokelmer.wordpress.com

.

.

ASSINE VOCÊ TAMBÉM

> Petição contra o aumento do salário de deputados e senadores – Mais de 300 mil assinaturas. peticaopublica.com.br

> Petição a favor da Lei da Ficha Limpa – O STF pode julgar a lei inconstitucional e dar margem para que centenas de políticos condenados se candidatem às eleições. Mas a Presidente Dilma pode salvar a lei escolhendo um novo Ministro que seja contra a corrupção. avaaz.org

> Petição contra o voto secreto – A PEC 349/2001 visa abolir o voto secreto nas decisões da Câmara dos Deputados e do Senado Federal, tornando públicos os votos dos congressistas. peticaopublica.com.br

.

LEIA NESTE BLOG

> Tornozeleira neles – Nossos parlamentares são como crianças que devem sempre ser vigiados de pertinho – um minuto de desatenção e pronto, já estão fazendo o que não devem

> Amiga eleitora, amigo eleitor – Estou aqui, ocupando um pouco de sua valiosa atenção, pra lhe dizer que sou um candidato diferente. Eu mereço o seu voto. Por quê? Porque sou franco

> Os tumores malignos do Congresso – Enquanto o salário mínimo sua e sofre pra acompanhar a inflação, os parlamentares presenteiam-se com estupendos salários, zombando dos idiotas que os elegeram

> Sete de Setembro Negro – Vista preto no Dia da Independência em protesto contra a corrupção e a impunidade.

> Assine a petição contra a obrigatoriedade do voto – votoobrigatorionao.com.br

> Congresso em Foco – Site informativo sobre as atividades dos parlamentares. Contraindicado para narinas sensíveis.

.

.

Seja Leitor Vip e ganhe:

Acesso aos Arquivos Secretos
Promoções e sorteios exclusivos
Basta enviar e-mail pra rkelmer(arroba)gmail.com com seu nome e cidade e dizendo como conheceu o Blog do Kelmer. (saiba mais)

.

.

Comentarios01COMENTÁRIOS
.

01- Brasília, 05/09/2011 – A Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) , a Associação Brasileira de Imprensa (ABI) e um grupo de senadores decidiram hoje (05), durante reunião, hipotecar apoio à Marcha contra a Corrupção que será realizada nesta quarta-feira, Dia da Independência, na Esplanada dos Ministérios e está sendo convocada pelas redes sociais da Internet. A convocação do protesto contra a corrupção pelas redes sociais está sendo feita também em diversas capitais de Estados, para este 7 de Setembro, fato que contou igualmente com o endosso das entidades reunidas na sede do Conselho Federal da OAB, sob coordenação do presidente da entidade, Ophir Cavalcante. Site da OABhttp://www.oab.org.br/noticia.asp?id=22602


Cio das Letras – Ensaio erótico 2

agosto 10, 2011

Ricardo Kelmer 2011

Tá no ar a segunda parte do Cio das Letras, um ensaio erótico que fiz sobre amor, paixão e desejo. Utilizei poemas meus e letras de músicas que fiz com parceiros, além de montagens com imagens de mulheres muuuito especiais.

Como o ensaio faz parte dos Arquivos Secretos, somente Leitores Vips têm acesso. Então, você que é Leitor Vip pode conferir o ensaio acessando a postagem anterior. Ou clicando no link logo abaixo. Depois é só digitar a senha, que está nos e-mails mensais que você recebe com novidades do blog.

> Cio das Letras – Ensaio erótico 2 (VIP)

.

Ricardo Kelmer – blogdokelmer.wordpress.com

.

.

LEIA NESTE BLOG

> Cio das Letras – Ensaio erótico 1 (VIP) – Poemas e imagens pra celebrar o erotismo

> Cio das Letras – Ensaio erótico 2 (VIP) – Poemas e imagens pra celebrar o erotismo

> Por trás do sexo anal – Há algo de divinamente demoníaco no sexo anal que, literalmente, a-lu-ci-na algumas mulheres

> Cabaré Soçaite – Uma festa de sensualidade – Se você medo do desejo feminino, é melhor não ir…

.

SÉRIES ERÓTICAS DESTE BLOG

> As aventuras de Diametral e Ninfa Jessi – A mais bela e safada história de amor jamais contada.

> As taras de Lara – Desde pequena que Lara só pensa naquilo. E ai do homem que não a satisfaz.

> Um ano na seca – O que pode acontecer a um homem após doze meses sem sexo?

> O último homem do mundoO sonho de Agenor é que todas as mulheres do mundo o desejem. Para isso ele está disposto a fazer um pacto com o diabo. Mas há um velho ditado que diz: cuidado com o que deseja pois você pode conseguir…

.

DICA DE LIVRO

> A entrega – Memórias eróticas (Toni Bentley, editora Objetiva) – A ex-bailarina filosofa sobre sua experiência de salvação através do amor e da submissão no sexo anal

.

.

Seja Leitor Vip e ganhe:

Acesso aos Arquivos Secretos
–  Promoções e sorteios exclusivos
Basta enviar e-mail pra rkelmer(arroba)gmail.com com seu nome e cidade e dizendo como conheceu o Blog do Kelmer. (saiba mais)

.

.

Comentarios01COMENTÁRIOS
.


Protegido: Cio das Letras – ensaio erótico 2 (VIP)

agosto 10, 2011

Este post está protegido por senha. Para vê-lo, digite sua senha abaixo:


Xamanismo de vida fácil

março 11, 2011

Ricardo Kelmer 2002

A tradição xamânica dos povos primitivos experimenta uma espécie de retorno, atraindo o interesse de pesquisadores e curiosos – e desvirtuando a essência da coisa

.

– Lembra do Xamanismo? Pois é, caiu na vida fácil. Dia desses ele estava lá na Vênus Lilás, todo se oferecendo!

Quem diria… O antigo sistema das sociedades primitivas, que girava em torno do xamã e sua técnica do êxtase, é o novo xodó dos místicos de fim de semana. Agora espaços esotéricos oferecem cursos de xamanismo e muitos até formam xamãs. É como fazer um curso para tornar-se gênio.

O xamanismo, a rigor, é um fenômeno religioso originário de sociedades primitivas da Ásia central e siberiana e que tem no xamã o centro da vida mágico-religiosa da comunidade. Por dominar as técnicas do êxtase e ser capaz de acessar mais facilmente estados especiais de consciência e, com isso, transitar com fluidez pelas várias dimensões da realidade, aos xamãs era atribuída a competência de intermediar o mundo físico e o espiritual, usando o conhecimento adquirido nas incursões ao além para ensinar, curar, realizar atos milagrosos e entreter os membros da comunidade. O xamã encarnava em si as funções de professor, sacerdote, feiticeiro, médico e muitas vezes poeta e artista.

Nessas sociedades não havia curso de fim de semana para formação xamanística. Excluindo-se raras exceções, alguém se tornava xamã por vocação natural: o indivíduo era simplesmente compelido a aceitar o fato, mesmo a contragosto. Era comum também a transmissão hereditária do ofício. Em qualquer das vias, antes de ser reconhecido como xamã, o indivíduo (em geral homem) inevitavelmente passava por um delicado e doloroso processo de iniciação que podia ser desencadeado naturalmente por uma doença ou sistematicamente ritualizado sob orientação de um xamã experiente. Isso permitia ao futuro xamã efetuar uma notável reintegração psíquica, aflorando suas potencialidades e preparando-o convenientemente para as funções que desempenharia.

Não pense que essa preparação era algo, digamos, festivo. Longe disso. Como todo verdadeiro processo de iniciação, nesse também havia dúvidas, temores e sofrimentos difíceis de suportar. O futuro xamã experimentava a morte e a ressurreição místicas, padecendo terrivelmente sob os horrores de seu inferno íntimo para depois emergir à vida cotidiana sobrevivido e triunfante, mais sábio e mais forte. Somente se submetendo a todos os rigores desse processo de morte e renascimento pessoal é que o indivíduo podia se tornar um xamã.

Para nós, ocidentais civilizados, entendermos melhor o que se convencionou chamar xamanismo, é preciso ter sempre em mente que os antigos compreendiam a Terra como um ser vivo, dotado de uma espécie de inteligência e vontade própria, e os seres humanos, assim como animais, plantas e minerais, eram parte integrante do imenso organismo planetário, todos igualados em importância. Mais que um ser vivo, entretanto, a Terra era a Grande Mãe, que gera e nutre todas as suas criações com infinito amor, ensinando e guiando os seres humanos vida afora. Assim sendo, a Natureza inteira era algo sagrado e desrespeitar suas leis era atentar contra a própria vida, contra toda a comunidade e contra a Sagrada Mãe.

O xamã, nesse contexto de espontânea interação com a Natureza, é alguém dotado de poderes especiais para manter-se num contínuo estado de profunda comunicação com o espírito da Terra, a quem jurou obedecer e defender até o último de seus dias. Como se possuísse antenas hiper-sensíveis, o xamã está intimamente conectado à alma da Terra e por isso vive em si mesmo o equilíbrio vital do planeta, imperceptível à maioria: se a Terra adoece, ele adoece também.

Em reconhecimento à sua lealdade e reverência, a Grande Mãe põe à disposição do xamã segredos do mundo animal, vegetal e mineral, para onde ele, em espírito, vai frequentemente em busca de informações úteis ao bem-estar da comunidade. Quanto mais ele sabe, mais servo se torna. Quanto mais se anula, mais ele pode.

Em contraste com a humildade espiritual desses antigos guardiães da tradição xamânica, muitos dos que hoje se dizem xamãs ostentam o título feito um estandarte, anunciando as maravilhas que têm para oferecer. Se de fato entendessem o que significa a função a que tanto se pretendem, jamais vestiriam a antiga tradição com roupas tão vistosas e muito menos a exibiriam em poses tão constrangedoras nas vitrines coloridas de seus cursos.

xamanismo moderno

Esse milenar sistema místico-filosófico-religioso existiu em inúmeras sociedades de todo o planeta, inclusive na América e no Brasil, onde os pajés são os xamãs. O advento da civilização, invadindo e exterminando sem consideração as culturas nativas, empurrou os resquícios da tradição xamânica para os escombros do que restou de suas sociedades, onde mantiveram um fio de vida suficiente para chegar aos dias de hoje.

Atualmente a tradição xamânica dos povos primitivos experimenta uma espécie de retorno, atraindo o interesse de pesquisadores e curiosos. Apesar de atrair também, como não poderia deixar de ser, os mesquinhos interesses comerciais da mentalidade consumista, por trás disso tudo pode-se captar um legítimo anseio das pessoas em religar-se a antigos valores esquecidos por nosso mundo civilizado: uma vida mais simples e fluída, em harmonia com as leis e os ciclos da Natureza e respeitando todas as formas de vida. Num mundo onde a racionalidade científica impõe sua ditadura aos pensamentos e a tecnologia nos torna escravos de máquinas cada vez mais autônomas, essa busca por resgatar tradições ligadas à Terra nada mais é que uma reação natural da espécie humana que começa a entender, finalmente, o imenso perigo que criamos ao nos mantermos desconectados da alma do planeta e unilateralizados em nosso racionalismo exagerado que despreza a sabedoria natural da vida.

É um anseio genuíno, sim, que faz com que as pessoas, na melhor das intenções, busquem satisfazê-lo em livros, cursos e vivências. É uma boa notícia. Infelizmente, se a facilidade das comunicações possibilitou a disseminação rápida e maciça da informação, por outro lado trouxe a tendência à superficialização de todos os temas. Bilhões de informações circulam a todo instante mas o conteúdo da maioria não enche uma colher. É como estar numa imensa feira de produtos, cercado de vendedores, ofertas e promoções por todo lado: na urgência de adquirir algo, as pessoas não têm discernimento suficiente para enxergar além da embalagem.

Com o xamanismo ocorre algo parecido. Confusas na imensa feira da salvação, as pessoas tendem a comprar qualquer produto que lhes prometa coisas diferentes, novos universos, sensações excitantes. Dessa forma vão a vivências, frequentam cursos, batem tambor, visualizam seu animal de poder e se dizem praticantes de xamanismo quando, na verdade, estão apenas saltitando pelos aspectos mais superficiais da antiga tradição, feito alguém que molha os pés nas ondinhas que morrem na praia e nunca experimenta, de fato, o que é o mar.

Sei que é impossível reproduzir atualmente as condições em que floresceram as tradições xamânicas. O mundo mudou, as circunstâncias são diferentes. Nossa cultura se desfez dos antigos ritos de passagem e a maioria dos que ainda mantemos perdeu o significado mais profundo. A mentalidade civilizatória nos desconectou do espírito da Terra e hoje parecemos um bando de zumbis a vagar pela vida à procura do sentido que um dia tanto enriquecia e guiava nossa existência. Não temos que voltar ao passado: precisamos é reencontrar o caminho perdido e vencer o atual impasse evolutivo.

Atualmente as festas chamadas raves, que se proliferam em países do mundo inteiro, parecem incorporar aspectos da antiga tradição xamânica, ainda que distante do contexto original. Embalados pela música eletrônica que remete às hipnóticas batidas tribais e pelo êxtase provocado pelas drogas sintéticas, as pessoas alteram o funcionamento normal da mente e do corpo e vivenciam intensas experiências, dançando e se abraçando a noite inteira. Por proporcionar isso, muitos dos caras que controlam a trilha sonora das festas aceitam o rótulo de tecno-xamãs – mais uma ridícula deturpação da tradição.

As raves são um fenômeno recente, merecedor de análises mais aprofundadas. Porém, à primeira vista, me chamam a atenção o êxtase grupal provocado pela combinação de música e droga, a presença de fogueiras e o fato de serem comumente realizadas longe dos edifícios das grandes cidades, mais próximas à Natureza. Parecem ser uma manifestação atual das antigas tradições, feito uma necessidade que emerge, espontânea mas distorcida, das profundezas da psique coletiva.

A antiga tradição está de volta. É uma boa notícia. Mesmo deturpada pela maioria das pessoas ela ressurge, atravessando os séculos, para nos lembrar que precisamos urgentemente integrar em nossa consciência os antigos valores e, com isso, nos tornarmos seres mais inteiros. Precisamos nos reconectar ao espírito da Terra, voltando a tratá-la com reverência e gratidão, antes que atinjamos o fatídico ponto onde a Grande Mãe, exaurida em suas forças, já não pode mais nutrir seus filhos.

.

Ricardo Kelmer – blogdokelmer.wordpress.com

.

.

LEIA TAMBÉM

> Minha noite com a JuremaNessa noite memorável fui conduzido para dentro de mim mesmo pelo próprio espírito da planta, que me guiou, comunicou-se comigo, me assustou, me fez rir e ensinou coisas maravilhosas

> A Jurema e as portas da percepção (VIP)Relato detalhado da experiência narrada em Minha Noite com a Jurema. Exclusivo para Leitor Vip.

> Xamanismo de vida fácil – A tradição xamânica dos povos primitivos experimenta uma espécie de retorno, atraindo o interesse de pesquisadores e curiosos e desvirtuando a essência da coisa

.

.

Seja Leitor Vip e ganhe:

Acesso aos Arquivos Secretos
Descontos, promoções e sorteios exclusivos
Basta enviar e-mail pra rkelmer(arroba)gmail.com com seu nome e cidade e dizendo como conheceu o Blog do Kelmer.
(saiba mais)

.

.

Comentarios01COMENTÁRIOS
.

01- Sou fã dos seus escritos, inclusive vi hoje matéria no jornal O POVO fazendo um paralelo entre as raves e o xamanismo, muito legal. Em 2001 fiz um artigo publicado no antigo site do UNDERGROOVE, sobre Musica Eletrônica vs Xamanismo, e me identifiquei com o que vc expôs na matéria. Um abraço. Angel, Fortaleza-CE – ago2007

02- Olá Ricardo, já havia lido seu texto, em abril ou maio deste ano, qdo estava pra entrar num desses cursos de xamanismo, promovidos pela Paz Géia no meu caso. Hj este texto saiu no Jornal O Povo em Fortaleza e por algum motivo uma amiga me mostrou dnovo via msn. Tenho a dizer q dos “10 Pilares” (ou módulos) que eles propunham no curso, apenas 3 eram iniciáticos e os outros se tratavam de reproduções de técnicas de livros como Medicina Vibracional, A Cura pela Energia e outras obras que já tenho certa prática efetiva em consultório como terapeuta integral (sou psicólogo, iniciado em Reiki e na tradição Rosacruz, trabalho com 4 tradições em massoterapia, Qi Gong e técnicas de visualização – este último recurso terapeutico rotulado de técnica neo-xamanica pela Paz Géia). Concordo com suas críticas, mas pondero sempre extremos e, pelo preço pago pelo curso, até que não foi tão ruim. De fato haviam os tais místicos de fim de semana, muito loucos por sinal… alguns narcisistas entusiastas… poderia me perder nessa crítica rotulando cada um que convivi no curso, inclusive algumas instrutoras não tão iniciadas… Mas tb conheci uma ou outra pessoa de grande valor, não por serem “esotéricas”, mas pela simplicidade e humildade com que buscava conhecimento e evolução espiritual em meio a tantos “escombros de nossa solidez”, em meio a evolução da mentalidade instrumental do último século, que parece “progredir” para uma vida ciborgue que transforma nosso potencial inato em dependencia material (por exemplo atrofiando potencial telepático para depender de satélites e toda cultura de virtualidade que cá em baixo se massifica nesse meio material de “comunicação em tempo real”; ou numa metáfora mais simples o de não precisarmos desenvolver nosso raciocínio fazendo contas de cabeça pela dependencia material de uma calculadora)…

Em sendo experimento vivo de seu texto, tenho a dizer (com conhecimento de causa) que a existência desses cursos tem sim um apelo material de grana para os que promovem (como qq promoção de culturas q convivem com dinheiro) mas quem investe nisso pouco se importa com esse apelo, pois tb estão investindo em algo maior. Acredito q certos cursos e pessoas têm agido de má fé, mas não são grupos peçonhentos como grupos políticos, pois têm outras “conduções” ou “influências” que os fazem preparar com dedicação tanto material. Além disso existem sim ritos iniciáticos que se adequam a nossa cultura nada pajé de ser… não haveria como sermos xamãs sem sermos “índios”, nativos de culturas q convivem com a natureza! Mas algumas culturas, fraternidades esotericas e outros grupos como UDV e Santo Daime tentam há muito, com algum sucesso (dependendo do interesse efetivo de quem se propõe adentrar conscientemente em outras dimensões) auxiliar os que sentem alguma ancestralidade nisso tudo… pajés, assim como toda comunidade humana, me parecem ser outros de nós mesmos… com grau e função evolutiva diferenciada certamente… O que vejo é que esses aparentes conflitos “de idade média” entre oq é sagrado e profano têm sido menos tumultuado q antes. Isso me soa como uma evolçução lenta, gradual e de quem realmente se interessa mais em buscar sua conecção com a unidade do universo do que em ser ou não alvo de gente oportunista afim de ganhar dinheiro. Não está em meu poder julgar a ingenuidade de quem perde dinheiro com oq não sabe utilizar, como pessoas q se abarrotam de coisas inuteis mas não conseguem parar de comprar… penso mais no ganho que cada ser humano, no limite de seu conhecimento de si, recebe ao investir num grupo e dele partilha oq lhe apraz, com quem se sente convidado à partilhar.

Agradeço de coração pela oportunidade que sua reflexão me despertou em repensar este momento de minha vida. Espero que aceite meus adendos com ternura. Lembremos que o Criticismo significa em sua origem “lançar luzes” e não meramente uma vã oposição pelo desperdício do gozo pela discussão. E foi justamente por sentir um bom equilíbrio crítico em seu texto q resolvi escrever. Meu adendo é apenas com referência aos “místicos de fim de semana”, que em nosso contexto evolutivo não merecem ser infantilizados por nosso inconsciente coletivo, pois pelo que vi (testemunho), alguns deles estão melhores que muita gente. Cordialmente. Rodrigo Sol, Fortaleza-CE – ago2007

03- kkkkkkkkkkkkkkkkkkkk ÓOOOOTIMO!!!!!!!!!!!!!!! Mônica Torres, Macaé-RJ – ago2011

04- Eita Kelmer… é de doer…rsrsrrs. Maria Sá Xavier, Niterói-RJ – ago2011

05- Passou da hora de alguém falar isso kkkkkkkkkkkkkkkkmaravilhoso seu texto, adorei!!!!!!! Silmara Oliveira, São Paulo-SP – ago2011



A prostituição na sala de estar

fevereiro 24, 2011

Ricardo Kelmer 2009

Quem resiste ao fetiche de acompanhar o cotidiano de uma lolita que vende sexo?
.

.

Sua história é mesmo sedutora. Uma menina de 17 anos, paulistana de classe média, briga com os pais, sai de casa e se prostitui por três anos enquanto narra seu dia a dia num blog, cativando milhares de leitores homens e mulheres, adultos e adolescentes. Ela atua num filme pornô, lança um livro sobre sua vida que vende horrores, atrai a atenção da mídia internacional, supera problemas com drogas, casa com um ex-cliente que deixa a mulher pra viver com ela e, por fim, larga a prostituição. Mas o mundo não larga dela. A apaixonante história de Raquel Pacheco, nome verdadeiro da garota de programa Bruna Surfistinha, agora está no cinema. E, ainda que você não goste, está também em sua casa.

Internet, esse é o segredo do fenômeno cultural Bruna Surfistinha. Se não fosse a ideia de narrar sua vida num blog como nos diários íntimos das adolescentes, ela seria apenas mais uma entre as prostitutas deste país. Quem resiste ao fetiche de acompanhar o cotidiano de uma lolita que vende sexo? Ninguém. Eu também não resisti. Acrescente a isso o eterno fascínio que causa o arquétipo da prostituição e, hummm, temos uma receita de sabor irresistível.

Foi feliz a escolha do nome: “Bruna” é moderno e “Surfistinha” evoca algo de safadice misturado com meiguice e inocência e ainda tem um quê de esportivo e saudável. Aí a gente acessava o blog e via que a menina era gatinha e não tinha aquele jeitão de malaca espertalhona comum às que são do ramo. Ela parecia ser tão verdadeira e espontânea no que fazia que, não, aquilo não podia ser uma pegadinha. Só mesmo ligando pra ela pra conferir.

O fato de Raquel gostar do que fazia e assumir isso em seu blog era mais um tempero na sedução. Ela preferia a prostituição pois adorava fazer sexo com homens e mulheres e curtia os clubes de swing. Ela tinha orgasmos com seus clientes e os respeitava e atendia às suas fantasias. E mesmo depois de famosa, Raquel não achou justo cobrar mais caro pois sabia que, pra muitos de seus clientes, uma hora com ela custava alguns dias de trabalho. Uma menina bonita, de boa família, que é puta porque quer e não tá nem aí pras leis do mercado – você achava que isso só existia nos filmes, né? Eu também.

Raquel destruiu uma velha imagem da prostituta, a da moça pobre-coitada que é obrigada a alugar o corpo por não ter outra opção. Raquel não. Ela estudava em colégio bom e possuía bom nível cultural. Poderia ter arrumado outro trabalho mas, não, ela quis ser puta. Planejava juntar grana e largar a prostituição, sim, mas enquanto isso não ocorria, ela vivia com alegria e não se arrependia de sua escolha. Depois de Raquel Pacheco as teses sociológicas terão de ser refeitas pra falar dessas mulheres que agora a sociedade sabe que existem: meninas de classe média que, em busca de vida melhor e de custear os estudos mais rapidamente, recusam os salários e condições oferecidos pelos empregos tradicionais e encontram na prostituição um ofício honesto, com seus prós e contras mas com vantagens financeiras incomparáveis e que a cada dia é visto com menos preconceito.

E agora a história ganha as telas. Editoras lançam livros, profissionais do sexo saem do armário e a TV põe o assunto dentro dos lares. A sociedade descobre que ama e odeia e rejeita e quer o sexo pago e que, mesmo em tempos de liberação sexual, ele resiste e já não tem vergonha de mostrar o rosto. No século 21 a prostituição ainda polemiza mas continua fascinante e sedutora. E agora tem um certo charme pop. Como a história de Raquel.

.

Ricardo Kelmer – blogdokelmer.wordpress.com

.

.

O FILME

Bruna Surfistinha

Drama, Brasil, 2011,  109 minutos
Direção: Marcus Baldini
Roteiro: José Carvalho, Homero Olivetto e Antonia Pellegrino
Elenco: Deborah Secco, Drica Moraes, Cássio Gabus Mendes, Guta Ruiz
Censura: 16 anos

.

CARTAZES DO FILME

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

SAIBA MAIS

> Blog de Raquel Pacheco
> Entrevista com Raquel Pacheco (TV Estadão, 17.11.09)
> Bruna Surfistinha na Wikipedia
> Bruna Surfistinha no New York Times
(27.04.06)

> O que aprendi com Bruna Surfistinha – Lições de uma vida nada fácil (Raquel Pacheco, Panda Books, ). Livro digital para baixar.
> O doce veneno do pecado – Crônica de Arnaldo Jabor no estadão, 15.03.11

.

Treiler oficial do filme

.

.

MAIS SOBRE SEXUALIDADE FEMININA

> As fogueiras de Beltane – A sexualidade sem culpa de uma sacerdotisa pagã

> A noiva lésbica de Cristo – Se hoje a sexualidade feminina ainda apavora a mentalidade cristã, no século 17 ela era algo absolutamente demoníaco

> Cabaré Soçaite – Uma festa de sensualidade – Se você tem medo do desejo feminino, é melhor não ir…

> O íncubo – Íncubos eram demônios que invadiam o sono das mulheres para copular com elas – uma difundida crença medieval. Mas… e se ainda existirem?

> Lolita, Lolita – Ela é uma garotinha encantadora. E eu poderia ser seu pai. Mas não sou…

> A gota dágua – A tarde chuvosa e a força urgente do desejo. Ela deveria resistir mas-

> A torta de chocolate – Sexo e chocolate. Para muita gente as duas coisas têm tudo a ver. Para Celina era bem mais que isso…

> O mistério da cearense pornô da California – Uma artista linda e gostosa, intelectual e transgressora, que adora perversões e, entre uma e outra orgia, luta pela liberação feminina

> A entrega – Memórias eróticas (Toni Bentley, Editora Objetiva/2005) – A ex-bailarina filosofa sobre sua profunda experiência de amor e submissão através do sexo anal

> Vocês Terráqueas – Seduções e perdições do feminino – Livro de contos e crônicas sobre a mulher

.

.

Seja Leitor Vip e ganhe:

Acesso aos Arquivos Secretos
– Promoções e sorteios exclusivos
Basta enviar e-mail pra rkelmer(arroba)gmail.com com seu nome e cidade e dizendo como conheceu o Blog do Kelmer. (saiba mais)

.

.

COMENTÁRIOS
.

01- A história dela é fascinante? Ou a sociedade se impressiona com pouco? Luciano Es, São Paulo-SP – fev2011

RK: A história da Raquel é fascinante sim. Pra começar, que menina no Brasil, de classe média, com bom nível cultural, saiu de casa aos 17 anos pra se prostituir e ficou famosa no Brasil e no exterior? Quantos escritores venderam 250 mil exemplares de um único livro neste país? Quantas histórias pessoais no Brasil viraram filme?

02- Não há nada de impressionante nisso, é a profissão mais antiga do mundo…dá pena ver uma mulher se degradar a este ponto, vender o corpo, ser usada e usar…somos muito mais do apenas corpo e grana, é viver de forma limitada, é enxergar apenas uma parte da vida, há muito mais nas entrelinhas…ela no fundo tem fome de amor e familia, foi isso que compreendi nesta historia. Adriana Alves, São Paulo-SP – fev2011

RK: Não há nada de degradante em sexo pago, Adriana. Cantores alugam a voz, modelos alugam o corpo. Prostituição é um negócio como qualquer outro, onde há um prestador de serviço e alguém interessado nesse serviço. Por que o serviço “sexo” seria sujo ou imoral? Ah, eu conheço muita mulher com fome de amor e família e não é puta, viu?

03- Vai fazer o seu programa mas depois volte para mim.Beijos Bruninha. Ps, Odair José e Zeca Baleiro. Andre Soares Pontes, Fortaleza-CE – fev2011

RK: Eheheh… Esta música do Odair é demais!

04- Lamentável a vida desta vadia. Lamentável pessoas de nível dedicarem tempo e trabalho para idolatrar uma saga de degradação. Lamentável pagar ingresso de cinema ou comprar livro desta sujeira toda. Deus e a educação protejam as famíliuas. Rodrigo, Coluna Kelméricas, O Povo OnLine – abr2011

RK: CD Lamentos Rodrigais. À venda na lojinha da igreja.

05- Eu até tento, uma vez por ano eu leio esta coluna ridícula desse rapaz, e é incrível a capacidade humana de não evoluir, que lixo, mais uma vez perdi meu tempo numa leitura pobre e tosca. Levi Nepomuceno, coluna Kelméricas, O Povo OnLine – abr2011

RK: Até o ano que vem, Levi.

06- O impressionante neste filme, é que, ele é além de um simples filme; É um guia à prostituição, onde uma menina de 17 anos [...] termina como uma vencedora que conquistou a sociedade através da venda de seu corpo. No mínimo deplorável para os adolescentes que vê tal pessoa conseguindo sucesso através desses meios; Lamentável que exista uma educação tão fútil, que a grande parte das pessoas que estão vendo este filme é composta de ignorantes, que não se importa com %u201Cvalores morais%u201D que estão sendo destruídos na mente de meninas por todo o país. Simplesmente uma situação lamentável aos jovens, que estão sendo conduzidos para um caminho terrível de fornicação e maus tratos, onde a mídia manipuladora pretende destruir a base familiar e fomentar a degradação moral. Misaell, coluna Kelméricas, O Povo OnLine – abr2011

RK: Oi, Rodrigo, Levi Nepomuceno e Misaell! Obrigado por comentarem. Fico feliz de ter leitores tão participativos. Vou sair agora com minha namorada pro swing e quando voltar eu respondo com calma, tá?

07- “Tornamo-nos morais quando somos infelizes” Marcel Proust. Junior, coluna Kelméricas, O Povo OnLine – abr2011

08- Ainda bem que percebi o teor de imbecilidade deste artigo antes de terminar de ler e escapei de ter que ler tanta besteira. João Marcelo Rocha Ramalho, coluna Kelméricas, O Povo OnLine – abr2011

09- VIVA A LIBERDADE!! FORA A HIPOCRISIA. ABAIXO O PRECONCEITO!!!! Ari, coluna Kelméricas, O Povo OnLine – abr2011

10- Dias desses lá vou eu conhecer um trabalho social ali no Benfica, a Associação de Solidariedade aos Meninos e Meninas de Fortaleza que com apoio de Malaga na Espanha e da Prefeitura de Fortaleza desenvolvem um belo trabalho com jovens na tentativa de “dar-lhes outros olhares”. A prostituição é uma fábula, um devir e porque não algo envolvente? Dai me despido de preceitos e minha formação cristã. Será no minimo falso moral dizermos que o dinheiro, o glamour e a sensação de ser desejado(a) não é algo. bom. O filme não evoca ou diz: faça isso ou aquilo. A Associação que visitei tenta acolher. Quem tem a dócil missão ou tarefa são os pais em trabalharem principios, valores e amor. Aos adultos o direito por seus proprios corpos! Erivaldo Teixeira, coluna Kelméricas, O Povo OnLine – abr2011

11- degradação total,jamais gastarei nenhum centavo com tal filme q dizem ser de superação,a mudança de valores é notoria e ilária,mas espero q não tenha força,só posso lamentar por toda essa podridão q afeta tantas mentes inocentes e em formação. Silvia Helena, coluna Kelméricas, O Povo OnLine – abr2011

RK: Putz, Silvia, como você é muquirana!

12- MUITO BOM O COMENTÁRIO DO SR. ERIVALDO TEIXEIRA.SENSATO E HUMANO; ELE NÃO TENTA JULGAR OU ATIRAR PEDRAS COMO FAZEM ALGUMAS PESSOAS SEMPRE EM NOME DA FÉ! SINTO MUITO PELAS PESSOAS QUE CRUCIFICAM E CONDENAM AOS OUTROS. ACHO SIM, QUE NÃO TEMOS NENHUM DIREITO DE JULGAR E CONDENAR ALGUÉM PELOS SEUS ATOS. Arimatéa de Andrade, coluna Kelméricas, O Povo OnLine – abr2011

13- PERCEBA QUE O AUTOR, diz ser SEDUTORA uma história de uma adolescente de 17 anos (Menor de Idade), que por não conseguir evoluir no relacionamento com os pais, prefere sair de casa e se prostituir. É de se imaginar que o autor, considere muitas outras histórias bem sedutoras. Mas o que se esperar de um rapaz que é escritor, roteirista e DONO DE CABARÉ, se tivesse oportunidade talvez até contratasse a tal garota para seu estabelecimento comercial, como atração principal. Levi Nepomuceno, coluna Kelméricas, O Povo OnLine – abr2011

RK: Sua sugestão para a atração principal foi aceita, Levi. Pode passar na recepção pra pegar sua cortesia.

14- Que a prostituição é um fato, todos nós sabemos. Porém a história e o filme vêm alimentar a ilusão de muitas meninas que acrdeditarao que ser prostituta é uma boa opção de vida. Enquanto a Raquel “se deu bem”, pelo menos aparentemente, milhares de prostituotas estão sem ver uma luz no fim do túnel. Cheias de decepção, traumas infelizes e sós. O filme pode até ser bom para bilheterias, porém como modelo de vida está longe da verdadeira realidade. Antonio José da Silva, coluna Kelméricas, O Povo OnLine – abr2011

15- O que faz um vencedor? Nos dias atuais o vencedor é aquele que de alguma forma, não importa qual, faz um milhão. Achava que era só coisa de americano…mas já empestou o Brasil. A Bruna é heroína pq no lugar de ter um trabalho convencional, preferiu se prostituir pra manter um alto padrão de vida. Por ter enricado, se encheu de fã. A Maria é heroína pq ganhou um milhão no BBB e agora os fãs juram de pé junto que a moça nao fez video pornográfico. Elá é uma vencedora! É BBB!!! Talvez eu esteja velha…sou do tempo que heroína era Maria Bonita, que largou a vida tranquila para lutar por um ideal…tinha um propósito acima de uma bolsa Louis Viton e um Givenchi. Ou Maria Bonita toparia ser mais uma prostituta para mostrar que venceu e pode comprar um apartamento no Leblon? Sonia, coluna Kelméricas, O Povo OnLine – abr2011


Cio das Letras – ensaio erótico 1

fevereiro 11, 2011

Ricardo Kelmer 2011

Tá no ar a primeira parte do Cio das Letras, um ensaio erótico que fiz sobre amor, paixão e desejo. Utilizei poemas meus e letras de músicas que fiz com parceiros, além de montagens com imagens de mulheres muuuito especiais.

Como o ensaio faz parte dos Arquivos Secretos, somente Leitores Vips têm acesso. Então, você que é Leitor Vip pode conferir o ensaio acessando a postagem anterior. Ou clicando no link logo abaixo. Depois é só digitar a senha, que está nos e-mails mensais que você recebe com novidades do blog.

A segunda parte do ensaio será publicada em breve. Se alguma leitorinha se animar, por favor, não faça cerimônia, pode enviar uma foto sua pra participar também. Pra mim será uma grande honra!

> Cio das Letras – Ensaio erótico 1 (VIP)

.

Ricardo Kelmer – blogdokelmer.wordpress.com

.

.

LEIA NESTE BLOG

> Cio das letras – Ensaio erótico 2 – Poemas e imagens pra celebrar o erotismo. Acesso livre.

> Cio das Letras – Ensaio erótico 1 (VIP) – Poemas e imagens pra celebrar o erotismo. Exclusivo para Leitor Vip.

> Cio das Letras – Ensaio erótico 2 (VIP) – Poemas e imagens pra celebrar o erotismo. Exclusivo para Leitor Vip.

> Por trás do sexo anal – Há algo de divinamente demoníaco no sexo anal que, literalmente, a-lu-ci-na algumas mulheres

> Cabaré Soçaite – Uma festa de sensualidade – Se você medo do desejo feminino, é melhor não ir…

.

SÉRIES ERÓTICAS DESTE BLOG

> As aventuras de Diametral e Ninfa Jessi – A mais bela e safada história de amor jamais contada.

> As taras de Lara – Desde pequena que Lara só pensa naquilo. E ai do homem que não a satisfaz.

> Um ano na seca – O que pode acontecer a um homem após doze meses sem sexo?

> O último homem do mundoO sonho de Agenor é que todas as mulheres do mundo o desejem. Para isso ele está disposto a fazer um pacto com o diabo. Mas há um velho ditado que diz: cuidado com o que deseja pois você pode conseguir…

.

DICA DE LIVRO

> A entrega – Memórias eróticas (Toni Bentley, editora Objetiva) – A ex-bailarina filosofa sobre sua experiência de salvação através do amor e da submissão no sexo anal

.

.

Seja Leitor Vip e ganhe:

Acesso aos Arquivos Secretos
–  Promoções e sorteios exclusivos
Basta enviar e-mail pra rkelmer(arroba)gmail.com com seu nome e cidade e dizendo como conheceu o Blog do Kelmer. (saiba mais)

.

.

Comentarios01 COMENTÁRIOS
.


Protegido: Cio das Letras – ensaio erótico 1 (VIP)

fevereiro 11, 2011

Este post está protegido por senha. Para vê-lo, digite sua senha abaixo:


LIVROS – He, She, We

dezembro 13, 2010

Ricardo Kelmer 2010

- She: a chave do entendimento da psicologia feminina – Robert A. Johnson (Mercuryo)
- He: a chave do entendimento da psicologia masculina – idem
- We: a chave da psicologia do amor romântico – idem

Tem gente que torce o nariz pra cientistas que descem do pedestal acadêmico e vão falar no meio do povo. Bobagem. Esses livros são bastante úteis pois servem de iniciadores ao fascinante estudo da psicologia dos mitos. São ensaios oportunos sobre como a psicologia do ser humano está profundamente calcada nos mitos presentes em cada sociedade. A leitura desses livros nos deixa impressionados porque descobrimos que os rios de nossas vidas na verdade correm por leitos muito, muito antigos – os mesmos leitos que outras águas, ou outras pessoas, percorreram do mesmo modo.

Os mitos são histórias criadas espontaneamente pela psique com o objetivo de guiar o indivíduo e a sociedade durante um período de tempo. As histórias refletem o espírito da época mas são mais que isso: elas são metáforas de processos psíquicos. O verdadeiro cenário dos mitos é a alma. É lá onde transcorrem os acontecimentos e onde vivem os personagens dessas histórias maravilhosas.

.

Ricardo Kelmer – blogdokelmer.wordpress.com

.

.

LEIA NESTE BLOG

> Mariana quer noivar (ensaio) - Você abdicaria das relações amorosas em sua vida em troca de dinheiro ou sucesso na carreira?

> O presente de Mariana (conto) – A cabocla Mariana, entidade da umbanda, propõe noivado ao moço Dedé. Noivar com ela significa conseguir estabilidade financeira mas em troca ela exige fidelidade absoluta

> O strip-tease (conto) – Criaturas do futuro que voltam no tempo para garantir que eles mesmos, no passado, não provoquem acontecimentos que possam apagar o futuro – assim são os Observadores.

> Há algo de podre no 202 (conto) - Quando crianças, as primas guardavam um terrível segredo sobre o amanhecer. Agora que são adultas, o que pode acontecer?

> Carma de mãe pra filha – Os filhos sempre pagam caro pelos pais que não se realizam em suas vidas

> Blade Runner: Deuses, humanos e andróides na berlinda – Como todo ser, o criador busca sempre transcender a sua própria condição e é criando que ele faz isso.

 

.

.

Seja Leitor Vip e ganhe:

Acesso aos Arquivos Secretos
Promoções e sorteios exclusivos
Basta enviar e-mail pra rkelmer(arroba)gmail.com com seu nome e cidade e dizendo como conheceu o Blog do Kelmer. (saiba mais)

.

.

Comentarios01 COMENTÁRIOS
.


Cio das letras: Sandra Regina

dezembro 3, 2010

Ricardo Kelmer 2010

Conheci Sandra Regina em julho, no sarau Sopa de Letrinhas, evento produzido pelo Vlado Lima. Depois ela assistiu ao meu espetáculo Viniciarte e me deu seu livro de presente. Sempre bom conhecer mulheres que não têm medo de fazer literatura erótica.

O texto sentido
Sandra Regina, poemas
Ilustração: Angela Giseli
1a edição, 2008, São Paulo-SP
Editora Limiar – editoralimiar.com.br

contato: sanrsouza(arroba)hotmail.com

.

.

enquanto falo
Sandra Regina
.

Enquanto a mão explora
A pele exposta
E contorna a forma firme
Que se mostra…
Enquanto a língua se enrola
Nos pêlos e faz o desenho da trilha
Que vai do umbigo à virilha
E é percorrida pelos dedos
Enquanto os lábios se molham
Na saliva que engulo
E misturo com o sêmen
Que me jorra por dentro
… Você lateja e me beija
completo e saciado
enquanto na boca guardo
(ainda ereto)
O gosto do falo

.

.

Ricardo Kelmer – blogdokelmer.wordpress.com

.

> Poemas e músicas de RK

.

.

Seja Leitor Vip e ganhe:

 Acesso aos Arquivos Secretos
Descontos, promoções e sorteios exclusivos
Basta enviar e-mail pra rkelmer(arroba)gmail.com com seu nome e cidade e dizendo como conheceu o Blog do Kelmer. (saiba mais)

.

.

Comentarios01COMENTÁRIOS
.


Mulheres na jornada do herói

setembro 15, 2010

Ricardo Kelmer 2010

É ainda mais interessante ver o relato das mulheres pois elas sempre foram, mais que os homens, historicamente reprimidas na busca pela essência mais legítima de suas vidas

A primeira vez que topei com o livro O Feminino e o Sagrado – Mulheres na Jornada do Herói foi quando eu lia a revista da Livraria da Vila. Lá estava ele num canto da página, a capinha e a sinopse, olhando todo manhoso pra mim, ei, cara, sabia que eu existo? Curioso, pedi ao atendente da livraria que me trouxesse um pra eu dar uma olhada. Ele procurou mas não encontrou nenhum exemplar na loja. Tudo bem, agradeci, vou pesquisar sobre ele na internet. E levei a revista pra casa. Ela, porém, terminou sumindo no meio da papelada sobre a mesa. E eu esqueci do livro.

Semanas depois eu tô no Espaço Cultural Alberico Rodrigues, em Pinheiros, e de repente vejo o livro sobre o balcão, sabia que eu existo, heim, sabia? Dessa vez peguei o danadinho nas mãos e li alguns trechos. E entendi porque nossos caminhos insistiam em se cruzar: esse livro tem muito a ver com meu trabalho. As autoras usaram as análises de Joseph Campbell pra desenvolver uma perspectiva feminina sobre o mito da jornada do herói, contando a história de 15 mulheres brasileiras e as transformações que elas viveram a partir do momento em que a força do mito irrompeu em suas vidas. É realmente um livro sensível e profundo, que pode inspirar a muitas mulheres e homens.

O livro queria que eu o levasse pra casa. Livros são muito carentes, sempre querem ser adotados, você sabe. Mas eu não tinha dinheiro e tive que deixá-lo lá. Dias depois minha amiga Bia me deu o livro de presente. Eu havia lhe falado dele e ela, que admira meu trabalho com cinema e mitologia, achou que poderia me ser útil.

Tô lendo o livro aos poucos. Vez em quando largo das dez mil coisas a fazer, escapulo do meu mundo de criações intermináveis e me deixo levar pela história de uma daquelas mulheres, seus caminhos percorridos, as crises, as superações… É sempre tocante saber como alguém um dia tornou-se o herói de sua própria vida. Porém, é ainda mais interessante ver o relato das mulheres pois elas sempre foram, mais que os homens, historicamente reprimidas na busca pela essência mais legítima de suas vidas.

Um dia conheci pessoalmente as autoras, Beatriz e Cristina. Tomamos um café e batemos um papo muito agradável. Elas me contaram sobre a experiência de entrevistar aquelas mulheres e de escrever o livro. Falaram também da palestra que fazem e sobre como é gratificante levar ao público aquelas ideias sagradas. Vi que são mulheres bem cientes do imenso poder de transformação do mito e do quanto o mundo precisa de pessoas que seguem seu verdadeiro caminho de autorrealização ou, como diria Campbell, seguem sua bliss. Parabéns, Cristina e Beatriz.

O Feminino e o Sagrado – Mulheres na Jornada do Herói
Beatriz Del Picchia e Cristina Balieiro
Editora Ágora, 2010

> Blog do livro

.

Ricardo Kelmer – blogdokelmer.wordpress.com

.

.

Mais sobre liberdade e o feminino selvagem:

> A mulher selvagem - Ela anda enjaulada, é verdade. Mas continua viva na alma das mulheres

> A mulher livre e eu – A liberdade dessa mulher reluz no seu jeito de ser o que é – e ela é o que todas as outras dizem ou buscam ser, mas só dizem e buscam, enquanto ela tranquilamente… é

> Em busca da mulher selvagem – Era por ela que eu sempre me apaixonava, essa mulher que era quem ela mesma desejava ser e não a mulher que a família, religião e sociedade impunham que ela fosse

> Amor em liberdade – O que você ama no outro? A pessoa em si? Ou o fato dela ser sua propriedade? E como pode saber que ela é só sua?

> As fogueiras de Beltane – As fogueiras estão acesas, a filha da Deusa está pronta. O casamento sagrado vai começar

> Medo de mulher - A mulher é um imenso mistério, que o homem jamais alcançará

> Alma una – Eu faço amor com a Terra / Sou a amante eterna / Do fogo, da água e do ar / Sou irmã de tudo que vive / Ninfa que brinca com a vida / Alma una com tudo que há

> Quem tem medo do desejo feminino? (1) – A maternidade, a castidade e a mansidão de Nossa Senhora como bom exemplo, e a força, a independência e a liberdade sexual da puta como exemplo contrário, a ser jamais seguido.

.
LIVROS

> Mulheres que correm com os lobos - Mitos e histórias do arquétipo da mulher selvagem (Clarissa Pinkola Estés -  Editora Rocco, 1994)

> A prostituta sagrada – A face eterna do feminino (Nancy Qualls-Corbert – Editora Paulus, 1990)

> As brumas de Avalon (Marion Zimmer Bradley – Editora Imago, 1979)

> Mulheres na jornada do herói (Beatriz Del Picchia e Cristina Balieiro – Editora Ágora, 2010) – É ainda mais interessante ver o relato das mulheres pois elas sempre foram, mais que os homens, historicamente reprimidas na busca pela essência mais legítima de suas vidas

.
CABARÉ SOÇAITE

> Cabaré Soçaite – Uma festa de sensualidade – Se você tem medo do desejo feminino, é melhor não ir…

.

.

Seja Leitor Vip e ganhe:

Acesso aos Arquivos Secretos
Descontos, promoções e sorteios exclusivos
Basta enviar e-mail pra rkelmer(arroba)gmail.com com seu nome e cidade e dizendo como conheceu o Blog do Kelmer. (saiba mais)

.

.

COMENTÁRIOS


Matrix e o Despertar do Herói cap 7

agosto 28, 2010

 

 

 

Matrix e o despertar do herói
A jornada mítica de autorrealização em Matrix e em nossas vidas
(Ensaio – Miragem Editorial/2005)
.

Usando a mitologia e a psicologia do inconsciente, Kelmer nos oferece uma visão diferente de Matrix, o filme que revolucionou o cinema, lotou salas em todo o mundo e tornou-se um fenômeno cultural, conquistando milhões de admiradores e instigando intensas discussões.

Em linguagem descontraída, o autor nos revela a estrutura mitológica do enredo de Matrix, mostrando-o como uma reedição moderna do antigo mito da jornada do herói, e o compara ao processo individual de autorrealização, do qual fazem parte as crises do despertar, o autoconhecer-se, os conflitos internos, as autossabotagens, a experiência do amor, a morte e o renascer.

Podemos ser muito mais que meras peças autômatas de uma engrenagem, dirigidos pelas circunstâncias, sem consciência do processo que vivemos. Em vez disso, podemos seguir os passos de Neo e todos os heróis míticos: despertarmos, assumirmos nosso destino e nos tornarmos, finalmente, o grande herói de nossas próprias vidas.

.

.

Cap 7

PARALELOS ENTRE A AVENTURA DE NEO
E O PROCESSO DE AUTORREALIZAÇÃO

.

Neo acorda em seu quarto e lê as estranhas mensagens no computador. Neo encontra Trinity.
> Início do despertar. O inconsciente se agita e seus conteúdos atingem a consciência, forçando o ego à autoinvestigação. Primeiro ciclo de confrontos. Dúvidas e inquietações.

Neo chega ao trabalho atrasado e é repreendido pelo chefe.
> Primeiras dificuldades. A sociedade reprime a diferenciação, desestimulando o autoconhecimento, dificultando a libertação dos padrões de comportamento coletivo.

Guiado por Morfeu, pelo celular, Neo tenta fugir mas é detido pelos agentes que o torturam e lhe inserem um dispositivo rastreador.
> O ego segue a intuição, que atua como guia em substituição à lógica racional. A sociedade intensifica a repressão e o indivíduo paga com sofrimento sua busca pela autorrealização.

Trinity convence Neo a seguir com os resistentes. O rastreador é retirado.
> O ego começa a assimilar os conteúdos inconscientes e se fortalece. O indivíduo está mais autoconsciente e ganha mais discernimento e autonomia.

Neo encontra Morfeu, toma a pílula vermelha e inicia seu processo de desconexão da Matrix.
> Dilemas e encruzilhadas no caminho. O indivíduo precisa mostrar que está realmente disposto a prosseguir.

Neo desperta no casulo, fora da Matrix. É desconectado do sistema e jogado no esgoto.
> Novo ciclo de confrontos. O ego é violentamente abalado pelos conteúdos inconscientes e a verdade sobre si mesmo desestrutura o indivíduo. Desequilíbrio psíquico. Crise existencial profunda.

Neo se recupera na nave. Os tripulantes cuidam de Neo.
> O ego sofre com a morte de velhos valores e padrões de comportamento. A psique conduz o ego no processo de autocura.

Morfeu mostra a Neo o que aconteceu com a Terra. Neo reluta em aceitar a verdade.
> Dúvidas, medo e dor no processo de morte e renascimento. Aceitação da transformação interior.

Neo treina com Morfeu em programas de simulação para saber agir dentro da Matrix.
> As novas informações sobre si mesmo são devidamente assimiladas pelo ego, que se torna mais forte, capaz e ciente de suas possibilidades. A força progressista da psique é ativada. O indivíduo se diferencia da massa e amadurece. A vida ganha sentido e se torna mais harmoniosa.

Neo é levado de volta à Matrix para consultar o Oráculo.
> O ego é testado em sua nova fase, vivenciando situações que põem à prova sua transformação.

O Oráculo examina Neo, que ainda não acredita ser o Predestinado.
> O indivíduo está mais autoconsciente porém ainda não acredita plenamente em seu potencial.

Os resistentes são traídos por Cypher. Morfeu é capturado pelos agentes.
> Ainda relutante em assumir certas responsabilidades, o ego sabota a si mesmo, atraindo insucessos. A força retrógrada está no comando.

Cypher mata os companheiros, zomba da crença de Trinity no Predestinado e ameaça matar Neo.
> Perigos da jornada. O ego é constantemente posto à prova. A fé e a confiança no processo são fundamentais.

Morfeu é torturado pelos agentes.
> A necessidade de liberar o potencial criativo e incorporá-lo definitivamente à consciência.

Neo e Trinity voltam à Matrix, enfrentam soldados e resgatam Morfeu.
> O indivíduo precisa assumir novas e importantes responsabilidades. É necessária a união dos opostos psíquicos.

Neo decide lutar contra o agente Smith. Neo foge mas é encurralado e morto.
> Mais fortalecido, o ego passa por novo ciclo de confrontos com o inconsciente. Crise. Novos aspectos do ser devem ser urgentemente reconhecidos.

Trinity declara seu amor por Neo e ele ressuscita na Matrix. Neo detém as balas no ar e elimina o agente Smith. Neo volta à nave e impede sua destruição pelas sentinelas.
> Após longo e difícil confronto, o ego enfim assimila os novos conteúdos. Velhos valores morrem. A consciência é ampliada e a psique se equilibra. O indivíduo emerge da crise renascido e ainda mais forte, autoconsciente, capaz e em harmonia consigo mesmo, com os outros e com o mundo ao redor. A diferenciação atinge o ponto culminante. O potencial criativo está inteiramente ativado.

Os Predestinados alcançam o centro de controle da Matrix e se reinserem no sistema.
> O avançado nível de autorrealização do indivíduo faz com que a sociedade reconheça e assimile sua experiência pessoal, incorporando-a aos valores coletivos e enriquecendo a cultura.

.

FIM

.

Ricardo Kelmer – blogdokelmer.wordpress.com

.

.

CONTEÚDO INTEGRAL DO LIVRO

Cap. 1 – Cinema, mito e psicologia
Cap. 2 – Toc, toc, toc… Acorde, Neo!
Cap. 3 – Não existe colher
Cap. 4 – Morrendo para vencer
Cap. 5 – Matrix Reloaded e Matrix Revolutions
Cap. 6 – Os personagens
Cap. 7 – Quadro comparativo

.

.

Seja Leitor Vip e ganhe:

 

Acesso aos Arquivos Secretos
Promoções e sorteios exclusivos
Basta enviar e-mail pra rkelmer(arroba)gmail.com com seu nome e cidade e dizendo como conheceu o Blog do Kelmer. (saiba mais)

.

.

Comentarios01 COMENTÁRIOS
.


Matrix e o Despertar do Herói cap 6

agosto 28, 2010

Matrix e o despertar do herói
A jornada mítica de autorrealização em Matrix e em nossas vidas
(Ensaio – Miragem Editorial/2005)
.

Usando a mitologia e a psicologia do inconsciente, Kelmer nos oferece uma visão diferente de Matrix, o filme que revolucionou o cinema, lotou salas em todo o mundo e tornou-se um fenômeno cultural, conquistando milhões de admiradores e instigando intensas discussões.

Em linguagem descontraída, o autor nos revela a estrutura mitológica do enredo de Matrix, mostrando-o como uma reedição moderna do antigo mito da jornada do herói, e o compara ao processo individual de autorrealização, do qual fazem parte as crises do despertar, o autoconhecer-se, os conflitos internos, as autossabotagens, a experiência do amor, a morte e o renascer.

Podemos ser muito mais que meras peças autômatas de uma engrenagem, dirigidos pelas circunstâncias, sem consciência do processo que vivemos. Em vez disso, podemos seguir os passos de Neo e todos os heróis míticos: despertarmos, assumirmos nosso destino e nos tornarmos, finalmente, o grande herói de nossas próprias vidas.

.

.

Cap 6

OS PERSONAGENS

Os personagens de Matrix, seu papel no filme e os aspectos psicológicos que representam no processo de autorrealização

.

PAPEL NO FILME

NEO – Personagem principal. Nascido na Matrix, Neo desconfia que há algo errado com a realidade, busca respostas e é localizado pelos rebeldes. Desperta e une-se a eles para ajudar os humanos na luta contra a Inteligência Artificial. Alguns dos rebeldes consideram que ele é o Predestinado de que fala a profecia do Oráculo e que salvará a humanidade. Neo é pressionado pelo dilema de ser ou não o Escolhido e luta contra sua própria natureza.

O PREDESTINADO – Aquele que virá e, com seus poderes, libertará os seres humanos da Matrix. Não se sabe exatamente como ele é nem o que fará mas sua vinda foi profetizada pelo Oráculo.

TRINITY – Principal personagem feminina. Oficial da nave Nabucodonossor. Reservada e discreta quanto aos sentimentos, ela é avisada pelo Oráculo que se apaixonará por um homem morto e que ele será o Predestinado. Trinity localiza Neo na Matrix e o convence a seguir os rebeldes, levando-o ao líder Morfeu. Somente no final, quando Neo está morto, é que ela revela seus sentimentos e o que lhe dissera o Oráculo.

MORFEU – Comandante da nave Nabucodonossor. Acredita firmemente na profecia do Oráculo, que diz que um dia o Predestinado virá para libertar a humanidade da Matrix. Ele busca e encontra Neo, um jovem que vive na Matrix. Morfeu está certo de que Neo é o Predestinado e por isso o liberta, treina-o para lutar contra os agentes e se sacrifica por ele.

AGENTES – Programas criados para capturar e eliminar humanos livres que invadem a Matrix. Podem tomar o corpo de qualquer pessoa e apresentam-se sempre de paletó e gravata e óculos escuros. São fortes, ágeis e extremamente frios e controlados. E invencíveis.

AGENTE SMITH – Líder dos agentes. Tem especial antipatia pelos humanos rebeldes pois é por causa deles que está preso à Matrix. Mata Neo com dez tiros à queima-roupa mas em seguida é por ele destruído no final do primeiro filme. Reaparece no segundo filme, mais poderoso e podendo atuar também fora da Matrix. Evolui tanto que, igual ao Predestinado, foge do controle da própria Matrix.

CYPHER – Membro da tripulação da nave que está cansado de lutar contra as máquinas e entra em acordo com os agentes da Matrix para entregar o líder Morfeu. Deseja esquecer tudo o que viveu e recomeçar a vida na Matrix. Para ele, ignorância é felicidade. Trai os colegas, mata três deles mas é morto quando se prepara para eliminar Neo.

ORÁCULO – Programa intuitivo desenvolvido pela Inteligência Artificial para estudar a psique humana e auxiliar na estabilização do sistema. O Oráculo profetiza aos resistentes que Morfeu encontrará o Predestinado, que Trinity se apaixonará por ele e que Morfeu por ele se sacrificará.

PAPEL NA PSIQUE

NEO – O ego. Centro da consciência. Tem a função de gerenciar o fluxo dos conteúdos entre a consciência e o inconsciente, entre os mundos interno e externo do indivíduo. Apesar do ego ser apenas uma parte do eu psíquico total, é com ele que o indivíduo tende a se identificar, considerando o ego e o eu total como absolutamente iguais. O impulso natural de autorrealização da psique, porém, leva o indivíduo a ampliar sua noção do eu através de um longo e contínuo processo de autoconhecimento, integrando conteúdos inconscientes à personalidade consciente. O processo exige o abandono de antigos valores, honestidade para consigo mesmo, coragem para enfrentar o que se desconhece de si próprio, perseverança e confiança no processo. O ego precisa morrer várias vezes para que um novo ego surja, mais capacitado para conduzir a consciência rumo a novos níveis de realização.

O PREDESTINADO – Realização da psique em toda a sua potencialidade. Culminação do processo de ampliação da consciência pelo conhecimento de si próprio e equilíbrio entre consciência e inconsciente. Efetivação do eu potencial em toda sua totalidade, capacitando o indivíduo a viver, finalmente, suas verdades mais íntimas e se harmonizar consigo mesmo, com as outras pessoas e toda a realidade.

TRINITY – Aspectos femininos da psique (yin), ligados ao cuidado, à maleabilidade, à paciência, aos sentimentos e à valorização dos relacionamentos. Representa a experiência enriquecedora do amor, que age confrontando o indivíduo com a verdade sobre ele mesmo e levando o ego a amadurecer, ampliando a consciência.

MORFEU – Aspectos masculinos da psique (yang), ligados à força criativa, autoconfiança, liderança, agressividade e capacidade de empreender. Representa a fé em todo o processo, o impulso e a força progressista da psique.

AGENTES – Conteúdos inconscientes (medos, traumas e bloqueios) dos quais o ego foge, evitando o confronto. Se não forem devidamente assimilados pela consciência causarão desequilíbrio psíquico, ocasionando gafes, fracassos, doenças e até mesmo a morte.

AGENTE SMITH – Conteúdo de dificílima assimilação por parte da consciência e que, por permanecer inconsciente durante muito tempo, cresce e se torna extremamente poderoso e perigoso, pondo em risco o processo de autorrealização.

CYPHER – Aspectos negativos da psique ligados ao cansaço, desilusão, cinismo e acomodação. É o componente de autossabotagem, a força retrógrada que impede a ampliação da consciência, constituindo-se no impulso oposto à autorrealização. É o traidor interno, sempre fugindo de responsabilidades e saudoso de um tempo em que havia menos autoconsciência e nenhum comprometimento com a transformação pessoal.

ORÁCULO – Representa o sagrado, o numinoso, o mistério, uma força maior à qual o indivíduo se submete com reverência. Pode ser uma religião formal, uma antiga tradição mística, uma poderosa verdade íntima, a ligação com as tradições ou o próprio sentimento religioso de estar unido a algo maior e mais antigo. Pode ser uma conexão intuitiva com a Natureza, com o Universo, com a humanidade. A conexão com o sagrado é arredia ao intelecto racional mas dá segurança e fornece um sentido para a vida.

.

(continua)

.

Ricardo Kelmer – blogdokelmer.wordpress.com

.

.

CONTEÚDO INTEGRAL DO LIVRO

Cap. 1 – Cinema, mito e psicologia
Cap. 2 – Toc, toc, toc… Acorde, Neo!
Cap. 3 – Não existe colher
Cap. 4 – Morrendo para vencer
Cap. 5 – Matrix Reloaded e Matrix Revolutions
Cap. 6 – Os personagens
Cap. 7 – Quadro comparativo

.

.

Seja Leitor Vip e ganhe:

> Acesso aos Arquivos Secretos
>
Promoções e sorteios exclusivos

Basta enviar e-mail pra rkelmer(arroba)gmail.com com seu nome e cidade e dizendo como conheceu o Blog do Kelmer.
(saiba mais)

.

.

Comentarios01 >> COMENTÁRIOS
.


Matrix e o Despertar do Herói cap 5

agosto 28, 2010

Matrix e o despertar do herói
A jornada mítica de autorrealização em Matrix e em nossas vidas
(Ensaio – Miragem Editorial/2005)
.

Usando a mitologia e a psicologia do inconsciente, Kelmer nos oferece uma visão diferente de Matrix, o filme que revolucionou o cinema, lotou salas em todo o mundo e tornou-se um fenômeno cultural, conquistando milhões de admiradores e instigando intensas discussões.

Em linguagem descontraída, o autor nos revela a estrutura mitológica do enredo de Matrix, mostrando-o como uma reedição moderna do antigo mito da jornada do herói, e o compara ao processo individual de autorrealização, do qual fazem parte as crises do despertar, o autoconhecer-se, os conflitos internos, as autossabotagens, a experiência do amor, a morte e o renascer.

Podemos ser muito mais que meras peças autômatas de uma engrenagem, dirigidos pelas circunstâncias, sem consciência do processo que vivemos. Em vez disso, podemos seguir os passos de Neo e todos os heróis míticos: despertarmos, assumirmos nosso destino e nos tornarmos, finalmente, o grande herói de nossas próprias vidas.

.

.

Cap 5

MATRIX RELOADED E MATRIX REVOLUTIONS

.

paralelos com o processo de autorrealização

O processo de autorrealização está perfeitamente ilustrado no enredo de Matrix, o filme inicial da trilogia. Nele acompanhamos o herói desde o início de sua aventura: as crises que levam ao despertar, o autoconhecimento, os conflitos internos, a assimilação dos conteúdos inconscientes, a autossabotagem, a experiência do amor, a morte e o renascimento. Em poucos filmes vemos a estrutura do mito da jornada do herói de modo tão preciso.

O filme inicial se fecha em si mesmo, no sentido de mostrar a trajetória completa do herói que se autorrealiza. Neo torna-se o Predestinado porque enfim se convence que sempre o fora. Em termos psicológicos: a consciência assimilou os conteúdos inconscientes que agiam livres, limitando a atuação do indivíduo, e equilibrou-se entre seus opostos, ampliando-se, permitindo a realização do potencial adormecido e levando o indivíduo a harmonizar-se consigo e o mundo à sua volta.

Vale a pena, porém, nos determos um pouco sobre os dois outros filmes da trilogia. Eles possuem alguns pontos interessantes que podem enriquecer nosso estudo.

Zion

A única cidade humana da história é Zion. É lá onde vivem os humanos que nascem fora da Matrix e os que se libertam dela. É lá onde se concentra a resistência contra a Inteligência Artificial. Zion fica no centro do planeta e somente os comandantes das naves possuem seus códigos de acesso.

Na psicologia junguiana há o conceito de Self, ou Si-mesmo, que significa a totalidade e ao mesmo tempo o centro regulador da psique. É no Si-mesmo que a consciência se espelha para crescer e se tornar mais ampliada pois ele é como a semente que traz em si o modelo da árvore futura. Assim como o ego é o centro da consciência, o Si-mesmo é o centro da psique total, uma espécie de, digamos assim, eu superior. É lá onde estão guardadas todas as potencialidades do ser, feito um código que necessita ser ativado para que se efetive aquilo que por enquanto é apenas potencial.

Neo e o Arquiteto

Em Matrix reloaded, ao se encontrar pela segunda vez com o Oráculo, Neo fica sabendo que deve se dirigir à Fonte, ao núcleo da Matrix. “A Fonte é o fim do caminho do Predestinado”, diz o Oráculo.

Neo vai até lá e encontra o Arquiteto, a imagem digital da Inteligência Artificial, criadora da Matrix. Sentado tranquilo em sua poltrona, o Arquiteto explica a Neo muitas coisas e o diálogo é um dos mais interessantes da trilogia. Entre várias revelações, Neo descobre que antes dele existiram cinco Predestinados. Entende também que a Matrix foi criada inicialmente representando um mundo perfeito, onde ninguém sofreria e todos seriam felizes. Mantendo os humanos nesse eterno estado idílico de sonho, a Inteligência Artificial seguiria no controle total.

Entretanto os humanos, mesmo adormecidos, rejeitavam o programa, causando-lhe instabilidade. A Inteligência Artificial insistiu mas todas as suas tentativas falharam, levando à perda de “safras inteiras” de humanos. Entendendo que o problema era decorrente da falibilidade humana, que não tolera a perfeição, a Matrix então foi transformada: no lugar de um mundo perfeito, a ilusão coletiva passou a ser ambientada numa réplica do mundo como ele era no final do século 20, com todas as suas imperfeições e injustiças. Mesmo assim as mentes humanas ainda não o aceitaram e o programa continuou instável. Como resolver o problema? Como fazer com que a mente humana aceitasse devidamente a realidade ilusória da Matrix e as pessoas pudessem ser mantidas escravas?

Foi então desenvolvido um programa “intuitivo”, chamado Oráculo, cuja tarefa era estudar profundamente a psique humana. A solução encontrada pelo Oráculo foi oferecer aos humanos uma possibilidade de não aceitar a realidade virtual, ainda que apenas num nível inconsciente. Eles continuariam adormecidos e escravos mas saberiam, de modo inconsciente, que poderiam despertar e se libertar. Oferecer aos humanos essa opção de saber que podiam se libertar era perigoso pois alguns deles poderiam efetivamente se libertar e, mesmo significando 0,01 da população, poderiam ameaçar a segurança do sistema. O jeito seria ter que reforçar a segurança.

A estratégia funcionou perfeitamente. A quase totalidade das mentes humanas aceitava o programa e o sistema se estabilizou. E as mentes que não aceitavam a ilusão da Matrix? Essa diminuta parcela dos humanos despertava do sonho coletivo e se libertava, formando a resistência. Eles então passavam a invadir o sistema e ajudar outros humanos a se libertar, causando certa instabilidade à Matrix. Para o sistema, porém, essa instabilidade era prevista e esses humanos eram uma anomalia inevitável, o preço a pagar pelo máximo possível de estabilização do sistema.

Entretanto, o preço incluía algo mais: dentro da anomalia haveria sempre a eventualidade matemática de uma anomalia maior, o supra-sumo anômalo, digamos assim. Periodicamente, entre esses humanos que se libertavam, haveria um com capacidades excepcionais, que aprenderia a agir dentro da Matrix melhor que todos, detectaria suas falhas e poderia provocar o colapso total do sistema: esse seria o Predestinado.

Tudo estava matematicamente previsto desde o início: a parcela de humanos que não aceitaria o programa e também os resistentes que sempre fugiriam para o centro da Terra e reconstruiriam Zion, a cidade humana, que funcionaria como centro da resistência. Por fim, o surgimento do Predestinado estava igualmente previsto pois ele era, segundo o próprio arquiteto, “uma soma de um resíduo de uma equação desequilibrada inerente à programação da Matrix”. Mas como lidar com ele?

Matrix: o sistema (quase) perfeito

Embora tenha programado a Matrix para lutar ferrenhamente contra todos os que a desafiam, a Inteligência Artificial sabia que mais cedo ou mais tarde o Predestinado sempre surgiria. Assim, restou lidar com ele da melhor forma possível: se não pode com seu inimigo, una-se a ele.

Como o Predestinado conhece as falhas do sistema melhor que o próprio sistema, sabe de seus pontos vulneráveis e aprende a burlar todas as suas regras, modificando a programação à sua vontade, o ideal então seria fazê-lo se reinserir no sistema, reprogramando a Matrix com os novos dados que ele traria. Fazendo isso, a anomalia reinsere a programação que traz consigo (sua experiência de vida, seus conhecimentos e todos os dados coletados sobre as falhas do sistema) e possibilita a atualização, um upgrade, da Matrix.

Mas como garantir que isso aconteça? Por que o Predestinado, inimigo da Matrix, aceitaria uma coisa dessa?

Para reconhecer a anomalia máxima, a Matrix está sempre a vasculhar a si própria a fim de localizar e eliminar todas as prováveis anomalias até que, dentre elas, sobreviva apenas aquela que, de fato, tem o poder de destruir, ou aperfeiçoar, o sistema. Após isso a anomalia deverá ser convencida a não destruir mas, em vez disso, aceitar ser reinserida no sistema.

Os próprios humanos rebeldes, sem saber, ajudam a Matrix a controlar o Predestinado pois creem nele, necessitam dele e sempre o levam ao Oráculo. Este, por sua vez, sempre incentiva o Predestinado a se dirigir à Fonte. Ao alcançá-la, o Predestinado sempre encontra o Arquiteto que lhe fala sobre a Matrix e ao final lhe apresenta duas opções: ou continua sua luta contra as máquinas ou se sacrifica, reinserindo-se no sistema.

Se as opções são essas, por que o Predestinado sempre se entrega? Porque não vale a pena continuar lutando. Vejamos. Se o Predestinado prossegue a luta, Zion é destruída pois a Inteligência Artificial cedo ou tarde saberá sua localização e tem tecnologia suficiente. Mais importante que isso, porém, é o fato de que, sem se atualizar, a Matrix entra em colapso, causando a morte de todos os humanos ligados ao sistema, o que, junto à destruição de Zion, significa a extinção da espécie humana. Quanto à vida da Inteligência Artificial, mesmo sem sua fonte principal de energia, os corpos humanos, ela ainda sobreviveria e recomeçaria tudo outra vez. Bem, isso é o que diz o Arquiteto. Será que é um blefe? Por via das dúvidas, o Predestinado nunca arrisca.

Por outro lado, aceitando reinserir-se no sistema, o Predestinado pode escolher 23 pessoas na Matrix para serem libertadas – elas fugirão para o centro da Terra e reconstruirão Zion, prosseguindo com a resistência. Ele se sacrifica pela humanidade mas os humanos continuam vivos. É verdade que a quase totalidade continuará escravizada, com seus corpos imersos em casulos e as mentes conectadas a uma ilusão coletiva. Mas esta opção não é pior que a extinção da espécie.

É por isso que os Predestinados anteriores a Neo se sacrificaram pela humanidade, reinserindo-se no sistema. Disseminando seus códigos, reintroduziram o programa principal e assim o sistema foi reiniciado, num nível mais avançado ainda. Dessa forma tudo prossegue como antes: a Inteligência Artificial dominando o planeta, a Matrix aperfeiçoada mantendo os humanos aprisionados e os humanos de Zion resistindo, tentando libertar mais humanos e, além disso, acreditando na profecia do Oráculo que um dia virá o Predestinado…

As máquinas, a Matrix, os humanos e o Predestinado formam assim um sistema só, autossustentável, cujas imperfeições são na verdade mecanismos imprescindíveis à harmonia maior. O que parece ameaça à Matrix é, na verdade, a garantia da estabilização e do aperfeiçoamento do sistema. O Predestinado é, assim, apenas mais uma peça na engrenagem. Ele toma conhecimento disso somente no final, quando chega à Fonte, mas então é levado, por seu amor à humanidade, a sacrificar-se, salvando a Matrix e permitindo à Inteligência Artificial continuar dominando o planeta e escravizando os humanos. Perfeito.

Na verdade, quase perfeito. Porque com Neo é diferente. Além do amor impessoal pela humanidade, característica de todos os Predestinados, ele ama Trinity. É justamente o amor romântico, além do amor fraternal, que o mantém disposto a lutar e desafiar as possibilidades, somente para continuar com ela, mesmo que isso ponha em risco toda a espécie humana. É um fator absolutamente novo, tão novo que a Inteligência Artificial não o previu.

E nem tinha como, coitada. Talvez as máquinas jamais consigam decifrar, calcular e prever o amor, essa força tão imensa, poderosa, insana e contraditória, essa equação tão desequilibrada e imprevisível. Tão imprevisível que a fragrância do amor de Neo e Trinity sensibiliza até o Oráculo e o leva a ajudar Neo mais do que deveria, arriscando o equilíbrio do sistema. Tão imprevisível que em troca de um beijo de Neo (mais um beijo traidor) Perséfone trai os interesses do marido Merovíngio e permite aos rebeldes o acesso ao Chaveiro e a posterior chegada de Neo à Fonte.

Um beijo. Ai, ai, apenas um beijo… Um simples toque de lábios faz Perséfone sentir novamente a doce e inebriante sensação de estar amando. A ela bastou apenas o gostinho da sensação perdida, do amor que um dia encheu de sentido os seus dias, bastou isso para Perséfone. Como quantificar, equacionar e programar o amor?

psique artificial

A Matrix é tão-somente um sistema de simulação da realidade, feito de muitos programas integrados, mas se parece bem mais com os humanos do que a Inteligência Artificial certamente gostaria de admitir. Aliás, em certos aspectos a Matrix parece uma imitação da psique humana. Podemos até falar de consciência e inconsciente, por mais estranho que pareça.

Consciência e inconsciente na Matrix? Antes que você feche o livro e diga que eu já estou forçando a barra, me dê só mais alguns parágrafos, por favor. Obrigado.

Veja só. A Matrix sabe tudo sobre si mesma? Não pois o sistema possui os seus próprios guetos virtuais, onde se escondem os programas rebeldes que seriam desativados. Além disso ela nem sempre sabe quando os humanos a invadem nem onde se encontram nem o que irão fazer. Os programas rebeldes até que não causam problemas sérios – mas os humanos invasores, estes sim dão uma dor de cabeça danada pois além do sistema não ter controle sobre eles, os humanos desejam destruí-lo. São os conteúdos inconscientes da Matrix. Sem falar em Smith que também sairá do controle do sistema.

A Matrix tem consciência de si através de seu programa gerenciador, que utiliza eficazes mecanismos de defesa (agentes) para perseguir e eliminar humanos invasores pois sabe que dentre eles pode surgir a anomalia prevista. Para o programa a anomalia representa o risco de morte do sistema mas na verdade será a sua própria continuação, num nível mais avançado. O programa, porém, não entende assim, e faz de tudo para que o sistema sobreviva. Parece até um velho conhecido nosso, não?

Isso mesmo, o programa gerenciador do sistema parece o ego. O ego da Matrix é igual a todos os egos: não quer morrer jamais. Mas não tem jeito, o Predestinado sempre vem. O programa gerenciador não sabe que o que morrerá é a versão antiga do sistema, obsoleta, uma versão incapaz de lidar com as novas exigências, com a agilidade e conhecimento do novo Predestinado. A Matrix, se entregando, se une a seu pior inimigo, e ressurge atualizada, mais poderosa ainda. Viu? É a Matrix assimilando conteúdos inconscientes…

Smith personifica com perfeição o desastre que um ego inflado pode causar à psique. Na Matrix, ele é o representante do sistema e existe tão-somente para gerenciar a relação delicada entre o sistema os humanos, reprimindo a ação destes. Smith não aceita a derrota, não quer ser deletado: é o egão que resiste, orgulhoso. A Inteligência Artificial, na pessoa do Arquiteto, já sabe que precisa se entender com o Predestinado para que o sistema passe para um novo nível – mas o diabo do Smith não quer saber de conversa. Sua teimosia é uma ameaça crescente ao próprio sistema e ele se torna mais perigoso até mesmo que Neo. Então, para manter o próprio equilíbrio, a Inteligência Artificial ajuda Neo a derrotar Smith. Assim também faz o Si-mesmo na psique quando o ego está inflado demais e compromete o equilíbrio do eu total: ele permite que os conteúdos inconscientes se manifestem tão fortemente que a vida sai do controle, vêm os desastres e insucessos e o ego, humilhado e impotente, não resiste e morre.

Uma psique artificial, com seu equilíbrio dinâmico e seus próprios ciclos de morte e renascimento – assim é a Matrix, por mais blasfemo que pareça. Senão vejamos: trata-se de um sistema autoconsciente mas não totalmente, que será sempre ameaçado e sabotado por seus próprios componentes indesejados, que um dia será por eles desestabilizado e, num processo de integração simbiótica, se unirá a eles para renovar a si mesmo e continuar vivo, mais forte e capaz – e então novos componentes indesejados surgirão e assim por diante. O centro desse sistema possui todas as informações e conhece perfeitamente o processo pois é ele que o comanda. Além disso essa espécie de Si-mesmo do sistema já o viu passar por tudo aquilo várias vezes, todos aqueles conflitos, e sabe que apesar de tudo o sistema sobreviverá.

Psique artificial, máquinas assimilando conteúdos inconscientes… Bem, é só uma comparação, claro, mas esse exercício de imaginação pode nos ajudar a vislumbrar como seria uma psicologia das máquinas. Sim, por que elas, sendo capazes de pensar por si próprias, não haveriam de ter uma psicologia? Talvez já seja hora de começar a pensar nessa possibilidade.

Aliás, o que Jung diria se soubesse que um dia suas ideias seriam utilizadas para explicar o comportamento das máquinas? Consideraria uma blasfêmia? Não sei. Talvez ele desse uma daquelas suas boas risadas: “Bem, chame uma delas qualquer dia para tomar um chá comigo à beira do lago…”

retribuindo à sociedade

A engenhosidade de toda a trama de Matrix merece um prêmio. O segundo episódio, Matrix reloaded, nos mostra a chegada do Predestinado à Fonte da Matrix e sua posterior reinserção no sistema. Ao nosso estudo, isso é mais um paralelo com o processo de autorrealização, mais precisamente o aspecto final do processo: a absorção, pela sociedade, da rica experiência do indivíduo que se autorrealiza. É o mito do herói revivido, o herói que se isola para depois retornar e salvar seu povo. É a volta do indivíduo ao outro lado da espiral indivíduo-sociedade após ter feito o percurso completo.

Vimos que o processo de autorrealização exige que o indivíduo se diferencie. Essa diferenciação tem vários níveis e começa logo após a concepção, quando óvulo e espermatozóide se unem para formar uma terceira substância. O novo ser é uma porção do inconsciente coletivo da espécie que se destaca, feito uma erupção vulcânica no fundo do oceano, e que formará, com suas experiências individuais, um inconsciente individual.

Uma segunda diferenciação ocorre após o nascimento, quando desse inconsciente pessoal se destaca uma nova porção: a consciência. Ela ainda é apenas um pedaço de terra submersa no grande oceano inconsciente, forçando passagem rumo à superfície, mas já revela as características que farão do indivíduo aquilo que ele potencialmente é. A consciência é, assim, uma parte diferenciada do inconsciente individual que se destacou do inconsciente geral da espécie – é uma ilha de individualidade.

Mais tarde, como vimos, o indivíduo precisa se diferenciar ainda mais, dessa vez qualitativamente, destacando-se da massa com os quais divide valores, ideias e regras de comportamento. Vimos que isso desestabiliza a ordem social e faz a sociedade reprimir a diferenciação.

Entretanto, há um ponto do processo em que a sociedade não só não consegue mais reprimir como é influenciada pelo indivíduo que se diferencia e se autorrealiza. Nesse ponto ocorre, numa analogia ao filme, a atualização do sistema. A força da autorrealização é tamanha que a sociedade é naturalmente levada a absorver as experiências do indivíduo, incorporando os novos valores e ideias que ele representa. O que antes era perigo à cultura, mostra-se agora seu próprio alimento, aquilo que lhe permite se enriquecer e sobreviver. A cultura se torna mais complexa mas só o consegue porque há indivíduos que se diferenciam e a desafiam. É como se o indivíduo se “redimisse” de seu afastamento do grupo, pagando sua diferenciação com benfeitorias culturais à espécie.

No Budismo, aquele que alcança a iluminação está livre dos problemas do mundo e nada mais pode perturbá-lo. Seu corpo está aqui mas sua consciência voa por outros níveis, além dos níveis cotidianos. A consciência atingiu tal grau de maturidade e interação com a realidade que está livre para mover-se, livre das dimensões do tempo e do espaço. Buda e outros que alcançaram a iluminação poderiam ter deixado que sua consciência partisse, finalmente liberta do corpo físico e das limitações terrenas. Mas preferiram ficar até o fim, até onde o corpo suportasse. Por quê? Para ensinar o que aprenderam. Esse é o exemplo de suprema compaixão do Bodhisattva, o ser que após uma vida inteira de busca finalmente atinge a iluminação – mas aceita permanecer nas limitações do mundo, como Buda fez, pondo à disposição da humanidade o seu conhecimento e toda a sua experiência.

Assim como o Bodhisattva, aquele que atinge a autorrealização está livre das pressões do mundo. O ser autorrealizado atingiu o equilíbrio entre consciência e inconsciente e nada mais o desequilibra. Ele agora pode finalmente descansar da longa jornada, esconder-se até o fim de seus dias num sitiozinho no alto da serra da Ibiapaba, sem TV e sem telefone, e aproveitar a paz de espírito que conquistou, longe do trânsito maluco, da poluição e dos operadores de telemarketing. Mas muitos não o fazem. Preferem continuar no mundo e contribuir com sua experiência para um mundo melhor. Reinserem-se no sistema, transbordantes de humildade e amor pela causa humana.

Essa reinserção contém certa dose de ironia pois o indivíduo autorrealizado que agora contribui para a sociedade é o mesmo que, no início de seu processo de diferenciação, era visto como ameaça à própria sociedade, com suas ideias diferentes e atitudes subversivas, e por isso foi bastante reprimido.

Apesar da intensa repressão que leva a maioria a desistir, sempre haverá os que se diferenciam, desafiando e incomodando a sociedade. São as anomalias que o sistema se esforça em evitar. Mas são anomalias previstas e, além disso, necessárias ao sistema. São como profecias que aguardam, pacientemente, que cada um de nós, predestinados que somos, decida realmente despertar.

.

(continua)

.

Ricardo Kelmer – blogdokelmer.wordpress.com

.

.

CONTEÚDO INTEGRAL DO LIVRO

Cap. 1 – Cinema, mito e psicologia
Cap. 2 – Toc, toc, toc… Acorde, Neo!
Cap. 3 – Não existe colher
Cap. 4 – Morrendo para vencer
Cap. 5 – Matrix Reloaded e Matrix Revolutions
Cap. 6 – Os personagens
Cap. 7 – Quadro comparativo

.

.

Seja Leitor Vip e ganhe:

> Acesso aos Arquivos Secretos
>
Promoções e sorteios exclusivos

Basta enviar e-mail pra rkelmer(arroba)gmail.com com seu nome e cidade e dizendo como conheceu o Blog do Kelmer.
(saiba mais)

.

.

Comentarios01 >> COMENTÁRIOS
.


Matrix e o Despertar do Herói cap 4

agosto 28, 2010

Matrix e o despertar do herói
A jornada mítica de autorrealização em Matrix e em nossas vidas
(Ensaio – Miragem Editorial/2005)
.

Usando a mitologia e a psicologia do inconsciente, Kelmer nos oferece uma visão diferente de Matrix, o filme que revolucionou o cinema, lotou salas em todo o mundo e tornou-se um fenômeno cultural, conquistando milhões de admiradores e instigando intensas discussões.

Em linguagem descontraída, o autor nos revela a estrutura mitológica do enredo de Matrix, mostrando-o como uma reedição moderna do antigo mito da jornada do herói, e o compara ao processo individual de autorrealização, do qual fazem parte as crises do despertar, o autoconhecer-se, os conflitos internos, as autossabotagens, a experiência do amor, a morte e o renascer.

Podemos ser muito mais que meras peças autômatas de uma engrenagem, dirigidos pelas circunstâncias, sem consciência do processo que vivemos. Em vez disso, podemos seguir os passos de Neo e todos os heróis míticos: despertarmos, assumirmos nosso destino e nos tornarmos, finalmente, o grande herói de nossas próprias vidas.

.

.

Cap 4

MORRENDO PARA VENCER

.

Cypher entrega os companheiros

Quando estão prestes a retornar à nave, após a visita de Neo ao Oráculo, os rebeldes são surpreendidos numa emboscada. Estão presos num prédio sem saída e cercados por muitos soldados armados. Foram traídos por Cypher, companheiro da própria resistência.

A primeira cena do filme é o diálogo telefônico entre Cypher e Trinity. Na tela as fileiras de caracteres (os códigos da Matrix) deslizam enquanto Trinity, na Matrix, diz que logo entrará em contato com aquele que Morfeu acredita ser o escolhido. Cypher pergunta se ela também acredita. Ela desconversa. Ele insiste mas ela não responde. Ouve-se um ruído na ligação. “Esta linha é mesmo segura?”, ela pergunta. Cypher confirma.

Mas não é. Depois entenderemos que Cypher já age aí como informante dos agentes da Matrix e, através dessa ligação, está entregando Trinity às autoridades do mundo virtual. Não fica claro para o espectador que assiste pela primeira vez mas começa aí a traição de Cypher, um dos elementos fundamentais da história de Matrix.

Mais tarde, na nave, quando Trinity leva o jantar para Neo, que ainda se recupera de seu despertar, Cypher a aborda e comenta, aparentemente enciumado, que ela nunca fez isso para ele. Em outras cenas Cypher volta a testar e zombar da crença de Trinity no Predestinado, coisa em que ele, particularmente, não consegue acreditar.

O comportamento de Cypher intriga o espectador, aumentando sua desconfiança, até a cena em que fica claro que ele é um traidor: Cypher está num restaurante, na Matrix, a negociar com o agente Smith a entrega do líder Morfeu. Então sabemos que ele cansou da vida de resistente e sente falta da realidade virtual, onde pode, por exemplo, degustar uma picanha suculenta como a que está saboreando. Ele exige condições para entregar o líder: quer ser reinserido na Matrix como alguém rico e famoso e nada quer lembrar de sua vida anterior. Smith concorda, satisfeito.

Cypher é a traição que nasce dentro da própria resistência, lembrando com isso que aqueles que lutam pela libertação da espécie humana são humanos, com todos os seus defeitos. Cypher não compartilha da crença no Predestinado. Pensando bem, é difícil mesmo crer que alguém possa destruir a tão poderosa Matrix e que esse alguém nascerá dentro dela própria. Cypher está cansado da vida desconfortável, de comer alimentos sem gosto, de fugir e se esconder, de lutar por algo que não acredita. Mesmo sendo um dos que conseguiram despertar, já não tem forças para continuar resistindo. Some-se a isso seu interesse velado por Trinity, seu ciúme por sabê-la interessada em Neo e, pronto, a traição já tem todos os ingredientes para se consumar.

Cypher é o Judas Iscariotes de Matrix. O espectador é levado a desprezá-lo como o traidor que de fato é mas observe-se: sem ele não haveria final feliz. Cypher e sua traição são necessários para que Neo finalmente se convença de que é o Predestinado. Se Morfeu não houvesse sido entregue por Cypher, Neo não teria porque voltar à Matrix, arriscando tudo pelo amigo. É arriscando sua própria vida, e morrendo, que Neo atinge mais um nível em sua autoconscientização. É voltando aos perigos da Matrix que Neo enfim pode se experimentar em toda sua potencialidade e cumprir o que profetizara o Oráculo: que ele morreria e que na outra vida seria o Predestinado. Sem a traição de Cypher nada disso poderia ocorrer.

No romance O Encontro Marcado, de Fernando Sabino, o protagonista diz, para espanto do padre diretor do colégio, que o grande medo de Jesus Cristo era que Judas não o traísse pois se ele não o fizesse, como Jesus cumpriria seu destino? Sem a traição de Judas, Jesus teria que tentar outros meios de morrer pela humanidade. O que seria de Jesus sem Judas? O que seria do cristianismo sem seu beijo entreguista? Esse é um dos paralelos de Matrix com a mitologia cristã. Aliás, o nome Cypher lembra Lúcifer.

o sabotador interno

No âmbito psicológico Cypher representa o componente de autossabotagem da psique. Cypher tem medo de arriscar o novo e prefere a segurança do velho, o que provoca estagnação e crise. Ele preferiria não saber o que sabe. O lema desse nosso companheiro interno é: “a ignorância é uma bênção”.

Cypher existe em todos nós: é a força retrógrada em eterno combate com o impulso progressista. De onde pode vir a verdadeira traição senão de dentro de nós mesmos? Isso nos lembra que o grande inimigo a vencer não se encontra lá fora: ele está dentro de cada um de nós e age na escuridão do inconsciente, sem ser molestado, dissimulando-se em nossos medos e bloqueios mais íntimos. Preferimos não encará-lo, é mais cômodo. E assim ele prossegue nos sabotando.

Há sempre um preço a pagar quando insistimos em não olhar para o que nos chama atenção em nós mesmos. O que é rejeitado na psique cresce silencioso e esse é o pior dos inimigos: um dia ele se manifestará e estará tão forte que não haverá como deter sua traição. Por isso os terapeutas insistem na necessidade do autoconhecimento psicológico – ele ainda é a melhor prevenção contra os Cyphers da vida.

O sabotador interno sente falta do tempo em que tínhamos menos autoconsciência e, exatamente por isso, menos responsabilidades. Cypher está no poder quando desistimos de lutar e achamos mais cômodo permanecer onde estamos, sem nos comprometer com mudanças pessoais, fingindo esquecer do que realmente devemos fazer em nossas vidas.

Cypher age toda vez que desistimos de lutar por nossos sonhos ou insistimos em padrões destrutivos de comportamento. Quer ver Cypher no comando? É só olhar para aquela garota que sempre dá um jeito de estragar seus relacionamentos porque no fundo acha que não merece ser feliz. Ela age de forma a ser rejeitada e quando de fato é rejeitada, confirma para si mesmo sua visão pessimista da vida, maldizendo o amor, as pessoas…

Com Cypher no comando há uma tendência para sarcasmos, ressentimentos, ódios encobertos e toda uma gama de sentimentos negativos. Além de não suportarmos ter de prosseguir lutando, também é insuportável ver os outros firmes em seu caminho e realizando seus sonhos. Para o Cypher que existe em nós, o que lhe resta é sabotar tudo o que nosso Morfeu planeja, numa vingança por se achar enganado e injustiçado pela vida. Enquanto Cypher não for chamado à conversa franca, não precisaremos de inimigo algum: seguiremos nós mesmos, sem perceber, sabotando nossos planos de felicidade, muitas vezes no último instante.

O exemplo de Cypher serve também para nunca esquecermos que na jornada do autoconhecimento ninguém está livre das tentações. A cada avanço, novos desafios se apresentam. O conhecimento e a experiência adquiridos nos dão poder, sim, mas o poder pode corromper o ego, fechando-nos ao aprendizado. A ampliação da consciência deve prosseguir e, para isso, novos aspectos do ser devem ser integrados.

A verdade liberta, sim, mas a cada nível de liberdade alcançado, um novo nível se apresenta e não podemos nos acomodar pois a tentação de desistir estará sempre presente, feito um diabinho a nos cutucar com seu tridente. Feito a picanha suculenta no garfo de Cypher.

a fé em si mesmo

Morfeu é capturado pelos agentes da Matrix mas Neo, Trinity, Apoc, Switch e Cypher conseguem escapar do prédio. Cypher é o primeiro a retornar à nave e, prosseguindo em sua traição, atira nos dois operadores. Podendo decidir sobre a vida e a morte dos colegas que ainda estão na Matrix, elimina Apoc e Switch, desconectando-os de seus corpos. Depois, pelo telefone, zomba da crença de Trinity no Predestinado e, por fim, quando se prepara para matar Neo, é morto por Tank, o operador que sobrevivera a seu ataque.

Antes de desconectar Trinity e Neo, Cypher deseja brincar com os sentimentos e a fé de Trinity e diz, sarcástico, pelo telefone: “Se ele é mesmo o Predestinado, então algo deverá acontecer e me impedir de puxar este cabo.” O suspense é insuportável. Trinity e Neo, na Matrix, se olham assustados, impotentes diante da traição do colega que prossegue, perverso: “Vamos, Trinity, olhe nos olhos dele e me diga: você ainda acredita que ele é o Predestinado? Sim ou não?”

Trinity olha para Neo e, assustada mas convicta, com o celular ao ouvido, responde: “Sim.” Nesse momento Tank surge e, mesmo ferido gravemente, atira em Cypher, impedindo-o de matar Neo.

Atente para o drama de Trinity. Se dissesse que acreditava, Cypher puxaria o cabo e mataria Neo, mostrando que, de fato, ele não era o Predestinado, e assim ridicularizaria Trinity e sua crença e ainda zombaria de sua paixão, da qual tinha ciúme. Porém, para Trinity havia ainda outra opção: dizer que não acreditava, poupando a si mesma do sarcasmo de Cypher. Entretanto, agindo assim ela não estaria sendo verdadeira consigo mesma pois negaria sua própria fé. Então, mesmo numa situação terrivelmente desfavorável, onde tudo parece perdido e só um milagre pode salvá-los, ela prefere assumir sua crença a qualquer custo. O que pode levar alguém a manter sua fé mesmo quando tudo aponta que ela é vã?

Na jornada da autorrealização, quando parece que já fomos suficientemente testados e que a vida não tem mais porque duvidar de nosso sincero esforço e honestidade em relação às nossas crenças pessoais, eis que nos vemos numa situação como a de Trinity. É como se uma força maior armasse toda a cena somente para testar, de forma definitiva, nossa fé naquilo que dizemos acreditar.

Nós acreditamos em nosso potencial, lutamos por nossos sonhos, temos fé que conseguiremos. Estamos certos disso tudo, não há dúvida. Mas isso não basta pois um belo dia a vida nos pede para… saltar no escuro. Não é possível. Simplesmente não acreditamos no que está acontecendo. Parece uma brincadeira do destino. Bem, não deixa de ser pois, apesar da fama de difícil, a vida tem um ótimo senso de humor.

Nesse ponto muitos desistem. De repente acham que não vale a pena arriscar tudo que conquistaram e decidem voltar. Arranjarão mil desculpas e tentarão se convencer que fizeram o certo – mas ficará sempre a sombra do arrependimento, para alguns sutil, para outros impossível de ser ignorada. Sutil ou não, o arrependimento de não haver tentado pode encher a vida de frustração.

Ninguém poderá decidir por nós quando esse difícil momento surgir. Só nós mesmos, por nossas atitudes, é que podemos mostrar o quanto confiamos no processo. Teremos que saltar no escuro para poder descobrir se o que nos aguarda é o terrível abismo ou se, na verdade, o chão sempre esteve a um palmo de nossos pés. Somente seguindo nossa fé mais íntima e dizendo um sim verdadeiro aos nossos sonhos é que saberemos se eles realmente fazem parte de nosso destino. Somente dizendo sim, como Trinity, é que pode acontecer um milagre.

Neo decide resgatar Morfeu

Neo e Trinity retornam à nave, salvos. Tank lhes comunica que terá que sacrificar Morfeu pois ele está na Matrix, sendo torturado pelos agentes, e a qualquer momento cansará e revelará os códigos de Zion, permitindo assim que as máquinas destruam a cidade.

Neo, porém, interrompe Tank, decidido a voltar à Matrix e resgatar Morfeu. Trinity tenta impedi-lo, dizendo que Morfeu se sacrificou para que eles pudessem salvar o Predestinado. Neo explica que Morfeu estava enganado pois acreditava que ele é algo que, na verdade, não é: “Não sou o Predestinado, Trinity. O Oráculo me disse.”

“Não. Tem de ser você.”

“Sinto muito. Sou um cara comum”.

“Não é verdade, Neo. Não pode ser verdade.”

“Por que não?”, Neo indaga e Trinity não responde.

Este é um momento bastante significativo da história. Neo, pela primeira vez, sente que é capaz de lutar contra a Matrix. Até então ele apenas treinou com Morfeu e entortou uma colher mas agora, na iminência da morte do homem que tanto acreditou e tanto fez por ele, Neo é tomado de súbita autoconfiança. Uma nova força parece brotar dentro dele, tão poderosa que o faz crer ser capaz de voltar à Matrix, lutar contra os agentes e resgatar Morfeu, algo que ninguém jamais conseguiu fazer.

Apesar disso tudo Neo ainda não acredita que é o Predestinado. Ele se sente impulsionado a realizar algo grandioso e sabe que é perfeitamente capaz mas essa convicção não vem do fato de se saber o Predestinado pois ele continua negando. De onde então vêm essa força e essa certeza imensas?

Aqui o herói está no limiar de uma profunda transformação interior, o momento em que um fenômeno muito importante começa a se produzir: o indivíduo se sente tomado pela força irresistível que já aponta no horizonte da consciência. A personalidade consciente ainda não admite a verdade mas ela é tão poderosa que avança do inconsciente para a consciência, encurralando as defesas do ego.

Nós nos transformamos através do autoconhecimento e chegamos até esse ponto mais cientes de nossas capacidades, sabendo que somos capazes. Ao mesmo tempo, porém, insistimos em negar certas coisas a nosso respeito, apesar delas estarem obviamente estampadas em nossas ideias e atitudes. É o último baluarte de resistência do velho ego que se mantém firme. Por quê?

Porque ainda estamos apegados a uma velha verdade sobre nós mesmos. Admitir isso significaria assumir uma responsabilidade definitiva sobre nossas vidas, algo que mudará tudo, inclusive nosso conceito sobre nós mesmos. Outras pessoas ao redor já sabem ou desconfiam disso mas nós insistimos em negar. São os resquícios do velho ego que, apesar das transformações já ocorridas, ainda se recusa a morrer inteiramente. É a percepção que temos de nós mesmos agarrando-se o quanto pode à comodidade que representa o não-assumir-se.

A história bíblica de Jonas, que é engolido por uma baleia, nos mostra o quanto é vão negarmos e fugirmos de nós mesmos, do nosso destino. Não adianta Jonas fugir no barco, ir para bem longe. Aquilo que o aguarda irá buscá-lo seja onde for e assim, enquanto nega para si mesmo e se esforça no rumo contrário, Jonas apenas adia o que precisa acontecer. Ele cairá ao mar, será engolido pela baleia e ela o vomitará numa praia, exatamente o lugar que ele tanto evitava ir. Porque é isso que aguarda o herói: o seu próprio destino de herói.

O ego sempre resiste. A autopercepção nunca abre caminho facilmente pra uma nova forma de entender a si próprio. Mas a psique é muito maior e poderosa que o ego e tem mecanismos para nos forçar a avançar em nosso caminho de autorrealização, rumo ao sempre fomos destinados a ser. E a psique é muito criativa, não duvide. Ela pode inventar acontecimentos repentinos, iscas bem camufladas ou até mesmo uma baleia.

unindo os opostos

Neo se prepara para voltar à Matrix. Trinity diz que vai com ele. Neo não concorda. Trinity, então, usa de sua autoridade como oficial da nave e, resoluta, diz que ou ela irá junto ou ele não irá. Neo tem de aceitar e os dois, então, são enviados de volta à Matrix. Eles invadem um prédio de segurança máxima, lutam contra soldados, usam um helicóptero e, por fim, libertam Morfeu.

A prática contínua do autoconhecimento nos torna confiantes em nós mesmos. Se sabemos quem somos, logo sabemos de nossas possibilidades. A autoconfiança é atingida quando deixamos de ser desconhecidos para nós mesmos e ficamos íntimos da nossa própria verdade. Após confrontar o inconsciente e assimilar aquilo que por muito tempo evitamos reconhecer em nossa personalidade total, eliminamos o inimigo interno, a força retrógrada, e podemos finalmente concentrar os esforços em outras frentes.

“Neo, ninguém nunca fez isso”, Trinity o adverte. Mas ele está inteiramente convicto: “É por isso que vai dar certo.” Neo sente que é capaz de realizar o impossível. Sua audácia surpreende os companheiros mas ele está tão decidido que só lhes resta concordar. Ocorre o mesmo quando atingimos esse ponto do autoconhecimento: fazemos coisas que antes eram impossíveis, superando os limites pessoais e surpreendendo a todos, até a nós mesmos.

Aqui, porém, cabe uma advertência. A autoconfiança é necessária para realizar grandes feitos, sim. No entanto, se o ego acha que conseguirá fazer tudo sozinho, acabará sofrendo amarga decepção. Autoconfiança nem sempre quer dizer autossuficiência. Apesar de agora se entender melhor com o inconsciente e ter assimilado os conteúdos que antes só atrapalhavam, a personalidade consciente precisa estar bem equilibrada para dar o grande salto. O herói necessita reunir todas as suas forças para o embate.

No caso de Neo, ele reluta em admitir a presença de Trinity na perigosa missão de resgate pois se considera capaz de resolver a parada sozinho. Mas tem de render-se à autoridade de Trinity. Temos aqui, mais uma vez, a atuação do aspecto feminino do herói. É esse aspecto que, mais uma vez, e dessa vez num nível mais profundo, exige ser devidamente reconhecido e integrado à consciência.

No início do filme, quando os resistentes ainda tentavam despertar Neo, foi Trinity quem manteve com ele o primeiro contato, cuidadosa, pelo computador, e depois na festa, sussurrando em seu ouvido. Depois foi ela quem o convenceu, delicadamente, a ficar no carro e permitir a retirada do aparelho rastreador. Em todos esses momentos Trinity agiu com cuidado para não afugentá-lo de vez. Precisou ser calma, doce, compreensiva e paciente, conquistando-lhe a confiança. Agora é diferente. Ela sabe que Neo, sozinho, não conseguirá salvar Morfeu. Ela sabe que sua repentina e enorme autoconfiança o cega para o risco e pode pôr tudo a perder.

A natureza feminina no homem, assim como a natureza masculina na mulher, é chamada a intervir em momentos cruciais onde a consciência corre o risco de se tornar unilateral, levando-nos a agir desequilibradamente. Sabemos que somos capazes, e de fato somos, mas só conseguiremos êxito se unirmos o que somos, masculino e feminino, força e delicadeza, razão e sentimento, yin e yang. Somente assim, finalmente equilibrados entre nossos opostos, é que seremos realmente capazes de fazer o impossível acontecer. Sem essa união, apenas um lado da força atuaria, e, certamente, não seria suficiente.

É sempre bom parar um pouco antes de dar o primeiro passo rumo a uma grande conquista e sentir se estamos suficientemente equilibrados para a missão. Mas, num mundo regido pela pressa do relógio, parar e dedicar um tempo a nós mesmos soa como um luxo impensável e muitas pessoas chegam a sentir culpa se não estão ocupadas trabalhando, produzindo, correndo de um lado para o outro. Muitas até adoram mostrar que estão sempre lotadas de trabalho, mesmo quando não estão.

Se precisamos empreender uma grande tarefa, que exige todo o nosso esforço e atenção e envolve enormes riscos, nada melhor que, antes de começar, reunir todas as forças, tudo o que somos. Quem se conhece mais, sempre tem mais chances de obter êxito no que faz. Quem não se conhece, pode até ter a força ou a delicadeza necessárias, mas sem unir harmoniosamente esses aspectos, ficará sempre a um passo de tudo aquilo que poderia realizar.

No filme é Trinity quem pilota o helicóptero e impede que um agente mate Neo. Por outro lado, é ele quem segura Morfeu pela mão e é ele também quem segura o cabo para que Trinity escape do helicóptero que cai. Sozinhos, nenhum dos dois conseguiria resgatar Morfeu. Juntos, não apenas o fazem como também reafirmam a atração que já sentiam um pelo outro, fortalecendo os sentimentos que mais tarde permitirão a Neo ressuscitar e se tornar, definitivamente, aquilo a que estava, desde o início, predestinado a ser.

humanos e vírus

A cena da tortura de Morfeu é muito interessante pelo fato de apresentar a visão das máquinas sobre a espécie humana. Enquanto aguarda que Morfeu canse e finalmente lhe revele os códigos de Zion, o agente Smith fala de uma curiosa conclusão a que chegou:

“Percebi que os seres humanos não são mais mamíferos. Todo mamífero deste planeta instintivamente desenvolve um equilíbrio natural com o meio ambiente. Os humanos não. Vocês se mudam para um lugar, se multiplicam até que todos os recursos naturais sejam consumidos e a única maneira de continuar sobrevivendo é mudar para outro lugar. Existe outro organismo que segue o mesmo padrão. É o vírus.”

O raciocínio do agente Smith é, para nós humanos, desconcertantemente lógico. Smith é o vilão que detesta a espécie humana e tudo fará para destruir Zion. Ele é o mal personificado, um programa de computador cujo objetivo é coordenar missões de captura de humanos dentro da Matrix e eliminá-los, custe o que custar. Apesar de tudo isso, o espectador é levado a admitir, a contragosto, que são sábias as suas palavras.

Smith tem toda razão: a espécie humana se comporta como os vírus, exatamente como os organismos que tanto tememos e combatemos. Até poucos séculos atrás, porém, o Homo sapiens mantinha uma relação simbiótica com o meio, respeitando as leis naturais e convivendo em harmonia com animais, vegetais e minerais. Havia o sentimento do sagrado em relação à Natureza pois instintivamente nos sentíamos unidos a ela e sabíamos que precisávamos dela para sobreviver, verdade que os índios sempre tentaram, e ainda tentam, nos mostrar.

Infelizmente o advento da civilização, a industrialização e agora a tecnologização mudaram isso. Hoje, desligados de nossas raízes e desconectados das leis naturais que regem a vida, tornamo-nos peritos em violentar a Natureza e não acordamos para o fato de que nós e a Natureza somos a mesma coisa pois compomos o mesmo planeta e dependemos dele. Sem Natureza não há planeta e sem planeta nós não existimos. A Natureza é o planeta inteiro, inclusive nós. É uma verdade que de tão óbvia não precisaria ser lembrada mas que fazemos questão de desconsiderar e até negar.

“Vocês são o mal, o câncer deste planeta. Vocês são a praga. E nós somos… a cura.”

As palavras do agente Smith são duras. Dói na consciência e é desconfortável reconhecer que ele está certo: a espécie humana é a grande praga da Terra, ela e sua cegueira absurda. Somos a peste humana que, por onde passa, deixa atrás de si um rastro de destruição. Já não destruímos apenas a Natureza: agora destruímos também culturas inteiras, dizimando seus valores.

Destruindo o ambiente em que vivemos, estamos destruindo também a nós mesmos, condenando à morte todos os dias milhares de pessoas, inclusive crianças, vítimas da ganância capitalista, do fanatismo religioso, do medo do diferente e da insaciável sede de poder.

Será que um dia, como em Matrix, as máquinas se rebelarão e, feito justiceiras do planeta, nos escravizarão, interrompendo assim a ação do câncer que tão bem representamos? Talvez isso não ocorra. Talvez seja a própria Terra que, em sua capacidade autorregulativa e cansada de ser agredida, decida sacrificar nossa espécie para que a vida no planeta possa prosseguir. De qualquer forma, talvez ainda haja tempo de reverter o processo. Isso dependeria de que uma parcela considerável da humanidade acordasse para o perigo que criamos. Dependeria de que pessoas simples, como eu e você, lembrassem da verdade mais óbvia.

Neo versus Smith

Morfeu volta à nave, seguido por Trinity. Neo, porém, é impedido de voltar pelo agente Smith, que surge no metrô. Ele pensa em correr mas volta-se e decide enfrentar Smith, contrariando a regra básica dos resistentes, que diz que jamais se deve lutar contra um agente pois até então todos os que tentaram, morreram.

Os agentes são programas criados para capturar e eliminar humanos intrusos no sistema. Não podem ser mortos. No máximo são “expulsos” do corpo humano que provisoriamente ocupam na Matrix para, ato contínuo, assumirem outro corpo, retornando para prosseguir a luta, sem um arranhão, sem cansaço. Eles não são apenas mais fortes que qualquer humano, são invencíveis. Por isso a recomendação: quando vir um agente, fuja o mais rápido que puder.

O agente Smith é o líder dos agentes. Quando Neo, no metrô, desobedece às recomendações de fugir e volta-se para lutar com Smith, o espectador já sabe tudo sobre os agentes e por isso sabe que Neo não pode destruí-lo. Como então ele poderá vencer?

Em termos psicológicos, o agente Smith representa algo muito difícil de ser assimilado pela consciência, um conteúdo inconsciente que se manteve intocado durante longo tempo, apesar de toda a ampliação da consciência. É algo que nos mete muito medo e do qual sempre fugimos, o que fez com que crescesse e se tornasse extremamente poderoso.

Um dia, porém, quando mais uma vez já estamos nos preparando para fugir, algo ocorre e decidimos ficar e encarar o que tanto evitávamos ver dentro de nós mesmos. É uma atitude de grande coragem e que só ocorre quando a consciência se encontra num elevado grau de ampliação. Aceitar o confronto com o mais poderoso dos inimigos internos não é para qualquer um mas somente para quem já encarou e venceu muitos outros, tendo disciplinado a força interior de tal forma que o embate se faz necessário e já não se pode mais adiá-lo.

Neo, através de sua parceria com Trinity, já aprendeu a equilibrar os opostos e se tornou ainda mais forte e capaz. Agora a prova final surge bem à sua frente. Ele tem a opção de fugir e mais uma vez adiar o confronto, nada o impede. Mas em seu íntimo o herói sempre sabe quando chegou a hora. Neo sabe que não pode mais adiar a resolução da questão que o aflige desde que despertou da Matrix. Ser ou não o Predestinado tornou-se uma pressão constante em sua mente e ele tem de esclarecer isso de uma vez por todas se quiser ter alguma paz. Smith nunca foi vencido, Neo sabe, mas é exatamente por isso que deve enfrentá-lo pois somente indo ao limite extremo das possibilidades é que saberá o que pode e não pode fazer.

Se prosseguirmos no caminho do autoconhecimento, superando dificuldade após dificuldade, um dia certamente também teremos de testar, num nível extremo, nossos limites de coragem, resistência e honestidade para com nossa verdade mais legítima. E o que exatamente enfrentaremos? Bem, o inimigo somos nós mesmos, sempre foi assim. Ele mora na escuridão do ser e somente se revelará por inteiro no instante em que decidirmos conhecê-lo de verdade. Até lá poderemos fazer suposições, desconfiar e teorizar sobre muitas coisas. Entretanto, quando o momento chegar, sempre estaremos desprevenidos.

Quando a hora da verdade soar no relógio de nossa jornada, descobriremos essa nova entidade dentro de nós. Tudo o que vivemos até então poderá nos ajudar, sim, mas agora trata-se de um fator inteiramente novo na história e para ele não poderia ter havido qualquer preparação conveniente. Estaremos sós diante de nossa outra parte, aquela que sempre existiu, dividindo conosco o espaço do nosso próprio ser mas levando uma vida autônoma. Ela é mais forte que nós. Porque ela faz parte do que nos tornaremos.

E agora? Fazemos como Neo, que decidiu lutar contra algo que é invencível? Ou fugimos? Por um lado, lutar se mostrará um esforço vão e, por outro, fugir apenas adiará o confronto inevitável. E agora, como escapar desse dilema?

meu nome é Neo

Neo e o agente Smith se posicionam um frente ao outro como nas cenas clássicas dos filmes de bang-bang. Eles avançam atirando mas não se acertam. Esmurram-se e rolam pelo chão da estação, medindo forças. A luta é equilibrada mas aos poucos Smith leva vantagem e consegue jogar Neo nos trilhos do metrô. Enquanto o trem se aproxima, Smith, imobilizando a Neo pelo pescoço, diz: “Está ouvindo, sr. Anderson? É o som do inevitável. O som de sua morte. Adeus.”

Neo, sufocado, cerra os dentes e responde: “Meu nome é… Neo!” E, num impulso, solta-se do abraço de Smith, deixando-o nos trilhos para ser esmagado pelo trem. Neo sai caminhando, julgando-se vitorioso, mas logo adiante o trem pára, as portas se abrem e Smith reaparece, renovado, pronto para prosseguir a luta.

O que parece simples frase de efeito, um desses batidos clichês de cinema, é na verdade o melhor modo de mostrar que Neo, nesse ponto decisivo de sua trajetória, está ciente de sua identidade e sua força. “Meu nome é Neo” encerra em poucas palavras todo o caminho por ele percorrido, as dúvidas vividas e os desafios superados. Ao recusar-se a ser chamado pelo nome que foi inicialmente batizado na Matrix, Neo, simbolicamente, rompe ainda mais sua ligação com o mundo das ilusões, rompimento iniciado ao criar o codinome Neo para atuar como pirata no mundo dos computadores. A criação do codinome, ainda na Matrix, inaugura o desenvolvimento de sua nova identidade. Ao insistir em ser chamado pelo novo nome, Neo confirma sua identidade e resiste à morte.

Porém, apesar de confiar em sua força, Neo ainda não se convenceu de que é o Predestinado, caso contrário não precisaria de tanto esforço, como veremos na cena do embate final com Smith. Ele precisa, primeiramente, “saber” que é o Predestinado. Enquanto isso não ocorrer, ele seguirá lutando e lutando contra algo que não pode derrotar.

Muitas pessoas mudam de nome quando casam ou ingressam em nova religião. É uma forma simbólica de cortar os laços que as prendiam a seu antigo mundo, aos velhos valores que norteavam a vida. É um modo de recomeçar, com uma nova identidade. Isso não quer dizer que precisamos comparecer ao cartório toda vez que nos transformamos. O que interessa é a mudança interior e não o nome. Se mudamos por dentro, nosso mundo em volta também muda pois como tudo está interligado, nada fica imune ao que se transforma.

Ao resistir à morte e insistir por sua vida, Neo está, na verdade, apegando-se ao que ele sabe de si próprio, à sua autopercepção. Porém, nesse momento sua autopercepção é limitada pois ele ainda não admite que é o Predestinado e somente o Predestinado pode vencer a Matrix. Assim sendo, sua luta contra Smith é, na verdade, a luta de Neo contra si mesmo, contra o que ele é e sempre foi (o Predestinado) mas ainda não consegue reconhecer. Mas, então, o que Neo deveria fazer?, você pode estar se perguntando. Chamar Smith para um cafezinho?

Seria ótimo se não precisássemos confrontar nossas partes não reconhecidas. Seria menos doloroso se pudéssemos nos entender pacificamente com nosso eu maldito. Mas não é assim que se dá o crescimento psíquico pois a consciência só evolui quando é intimada a largar sua cômoda posição e ir em frente. Entretanto, o ego, o velho ego, sempre se apega ao que ele é e sempre esquece que só é o que é porque um dia deixou de ser o que era para ser o que agora é.

O ego resiste mas é necessário que morra mais uma vez. Ele precisa passar a gerência do ser para um outro ego mais capaz. Neo precisa morrer para que morram junto os últimos resquícios de um Neo que ainda não crê que é o Predestinado. Por mais que afirme que é Neo e se aproxime da verdade que tanto evitou, se não morrer inteiramente para a antiga vida jamais chegará de fato à verdade e jamais será concretizado o que ele é em seu íntimo. Neo mudou e está mais forte mas ainda não mudou o suficiente pois continua tentando derrotar Smith e Smith não pode ser derrotado pois ele é o próprio Neo não reconhecido.

É um paradoxo de fritar neurônio mas é assim que funciona: quanto mais Neo se fortalecer, mais forte Smith será. Quanto mais Neo insistir em viver, outra vez a porta do trem abrirá e Smith ressurgirá, renovado, pronto para prosseguir a luta. Nós também agimos como Neo quando estamos no limiar da grande transformação e julgamos que é nosso dever matar a nossa outra parte, aquela de quem fugimos a vida inteira. É engano. Não conseguiremos derrotá-la por mais que lutemos pois ela é mais forte que nós. O que temos de fazer é admiti-la em nossa natureza pois ela é justamente o que nos falta para sermos inteiros.

Smith não morre porque Neo ainda não aceita que é o Predestinado. Como o Predestinado tem que morrer (“sua próxima vida, quem sabe…”, dissera o Oráculo), Neo evita o sacrifício. Pretende alcançar o máximo de si sem morrer. Obviamente não conseguirá. Ninguém consegue.

Em sua última noite antes de ser preso pelos romanos, Cristo, no jardim do Getsêmani, desesperou-se ante a visão do destino que o aguardava: sangue, humilhação, crucificação, dores terríveis e morte. Desejou que não precisasse passar por tudo aquilo e lutou, intimamente, contra o que tenebrosamente se aproximava. Agiu como Neo, tentando evitar o inevitável. Mas Cristo compreendeu que ao Predestinado é impossível vir a sê-lo sem antes padecer e morrer. Então entregou-se ao destino e abraçou com firmeza sua cruz.

Então Neo deveria ele mesmo jogar-se sob o trem a fim de apressar a chegada do novo nível de consciência? Também não. Neo tem de ir até o limite de suas forças e de seu sofrimento. Tem de aceitar seu fado como nós também teremos de aceitar quando chegar nossa hora. Infelizmente não nos é dado saltar etapas. Nem Cristo conseguiu.

o herói morre

Neo, percebendo enfim que não conseguirá derrotar Smith, começa a correr. Liga para a nave, implorando uma saída, rápido. Tank lhe indica a sala de um hotel e ele corre para lá a fim de atender a ligação telefônica, enquanto os três agentes o perseguem.

Depois de correr pelas ruas, subir escadas, saltar muros e invadir apartamentos, Neo corre por um corredor enquanto o telefone toca bem próximo. Ele abre a porta e dá de cara com Smith apontando-lhe uma arma. Um tiro é disparado à queima-roupa. Neo é atingido mas continua de pé, sem se mexer. Leva a mão à barriga e constata que está sangrando. Está tão surpreso que parece não sentir dor alguma, como se não acreditasse que tudo isso de fato está acontecendo.

Enquanto o telefone continua tocando, Smith dispara uma segunda vez. Neo cambaleia para trás e se apoia na parede do corredor. Olha para Smith e parece que fará algo mas Smith atira mais oito vezes. Seu corpo escorrega e tomba para o lado. Os agentes o examinam e confirmam: “Ele se foi”. Smith, imperturbável, fala: “Adeus, sr. Anderson.”

Façamos um pequeno exercício de imaginação. O que aconteceria se Neo tivesse atendido à chamada e, assim, retornasse a salvo para a nave, livre da perseguição dos agentes? Teria escapado de morrer, sim. Continuaria vivo, junto com seus companheiros. Talvez fosse levado a Zion. Talvez voltasse outro dia à Matrix, para ajudar outros humanos a despertar.

Entretanto, continuaria sendo Neo – e não o Predestinado. Não teria os poderes que somente sendo o Predestinado poderia ter. Não poderia manipular os códigos da Matrix e quebrar as regras do sistema como somente o Predestinado pode fazer. Se retornasse à nave, Neo não passaria pela última e decisiva transformação, aquela que é imprescindível ao herói: a morte.

Não é fácil encarar a morte, nós sabemos. Morte biológica ou morte como símbolo máximo de profunda transformação, nunca é fácil vivenciá-la. Mas não há outro modo de cruzar o portal. Somente com a morte do ego, ou seja, do nível de autopercepção em nos encontramos, é que chegaremos ao nível seguinte de ampliação da consciência. Enquanto não morremos, ficamos presos à fase na qual estamos, essa fase que já não tem nada de novo a nos oferecer. Morrer então significa, vamos dizer desta forma, saltar do nível 1 para o nível 2. Por outro lado, recusar-se a morrer significa botar uma vírgula depois do 1 e, por meio desse movimento ilusório, enganar-se com o 1,1 e mais adiante com o 1,15, depois com o 1,157 e assim sucessivamente. A vida prosseguirá nessa dízima e nós nos movimentaremos, sim, mas não será um movimento para frente, em direção do novo, ao 2, e sim um mergulhar cada vez mais fundo na fase atual, totalmente apegados a ela: 1,157 e depois 1,1574 e depois 1,15748 e a enrolação não tem fim.

Se Neo voltasse à nave, estaria apenas adiando seu confronto com Smith. Seria perda de tempo, o mesmo tempo que perdemos toda vez que não aceitamos a mudança necessária. Neo já morreu uma vez, na Matrix, e continuou vivo, na verdade mais vivo ainda. Ele já experimentou a morte de suas ilusões e venceu. Por que então sente medo de morrer mais uma vez?

Aqui o medo é justamente o que nos indica a necessidade de transformação. Ele, em si, não é algo ruim. Sentir medo é natural, faz parte do instinto de autopreservação. Ao perceber que novos conteúdos estão para vir à tona da consciência e que poderão desestabilizá-lo, o ego tende a se esforçar para impedir. O ego sente de longe o cheiro da mudança e quando ela está bem próxima ele usa de toda sua força para se manter no controle dos fatos pois sente que vai morrer.

A fuga de Neo pelas ruas é a fuga que a autopercepção empreende para não morrer e, assim, não dar vez à nova autopercepção que surgirá. O esforço desesperado do herói para atender à chamada que o levará de volta à segurança da nave é o mesmo esforço que todos nós empreendemos, inconscientemente, para escapar daquilo que nos aguarda: o nosso eu legítimo, nosso eu cada vez mais verdadeiro, aquele que desde o início estava predestinado a ser, feito uma antiga profecia.

Não adianta fugir. O medo do que nos libertará nos levará a fazer isso e aquilo, sempre justificando nossos atos, e a desenvolver mil estratégias para evitar sermos apanhados pela transformação. Mas para onde nos virarmos… lá estará o agente Smith, lá estará a morte nos espreitando.

Insistir demais na velha fase transformará nossa vida no joguinho do Pac-man: viveremos num cruel labirinto, correndo alucinados, cercados de problemas, insucessos e sofrimentos. No joguinho do crescimento psíquico o único modo de escapar é desistir da luta contra nós mesmos e aceitar a transformação. Muitas vezes agimos como Neo quando recebe o primeiro tiro e quase se convence de que isso não pode estar acontecendo. É por pouco. O herói está a um passo de finalmente alcançar a verdade mas não consegue pois ainda está perdido no labirinto, apegado à velha vida.

o amor libertador

Na nave, Morfeu, Tank e Trinity acompanham o que se passa na Matrix e ficam chocados ao ver que Neo morreu. Morfeu murmura, sem acreditar: “Não é possível…” Trinity se aproxima do corpo inerte de Neo e, calmamente, sussurra em seu ouvido: “Neo, eu já não sinto medo. O Oráculo me disse que eu me apaixonaria por um homem morto e que ele seria o Predestinado. Sendo assim você não pode estar morto pois eu te amo.” Ela beija a boca de Neo e seu corpo estremece, voltando à vida. “Agora levante”, ela diz. Na Matrix Neo desperta.

É bem significativo que venha de Trinity a ordem para que Neo desperte. Poderia ter vindo de Morfeu, o líder, mas veio de Trinity. Temos aqui, mais uma vez, a presença decisiva do feminino na jornada do nosso herói. Ele já havia se entendido com alguns aspectos yin de sua psique e, graças a essa união dos contrários, fortaleceu-se e conseguiu resgatar Morfeu, e tornou-se tão ágil que Smith não pôde derrotá-lo na luta.

Agora, porém, Neo está morto e Trinity, pela primeira vez, declara seu amor por ele, sussurrando em seu ouvido o que ela sempre mantivera em segredo, escondendo dele, dos colegas e, principalmente, dela mesma.

Você certamente lembra que na cabine telefônica do metrô, prestes a voltar à nave, Trinity fala para Neo que tem algo importante a dizer mas tem medo do que pode ocorrer se disser. Ela então fala que tudo que o Oráculo lhe disse aconteceu, menos isso. Isso o quê?, o espectador se indaga. Não fica claro pois Trinity retorna à nave antes que possa revelar o teor exato da profecia mas no fim do filme saberemos: ela se referia ao fato do Oráculo ter lhe dito que ela se apaixonaria por um homem morto e que ele seria o Predestinado. Ali, no metrô, Trinity está apaixonada por Neo mas ele… é um homem vivo! Ela está confusa: isso significa que o Oráculo errou? Ou que Neo não é o Predestinado? Pobre Trinity, não deve ter sido fácil conviver com tantas dúvidas.

Na nave, o gesto final de Trinity aciona de vez a profecia e desperta Neo, fazendo nascer o Predestinado. O sussurro de Trinity é o pneuma, o sopro milagroso da vida, o mesmo sopro com que Ísis ressuscita Osiris na mitologia egípcia. Ao nosso herói, faltava o amor para que ele se completasse e pudesse enfim ser ele mesmo em todo seu potencial. Quando tudo parecia perdido, o componente yin de sua psique entrou em ação, ocupando seu devido lugar na personalidade consciente.

A recusa de Trinity em dividir seus sentimentos com os companheiros significa a recusa do indivíduo em aceitar a realidade de seus sentimentos. Fixando-se mais em outras dimensões do ser, como a intelectual, o ego despreza a dimensão dos sentimentos que, assim, torna-se para ele um aspecto ameaçador. O ego pressente e tudo faz para não encarar o que o destruirá.

Bem, Trinity podia aos poucos ter assimilado seus próprios sentimentos e assim não deixaria tudo para ser perigosamente resolvido no último instante. Sim, poderia. Mas para assimilar os sentimentos é preciso, antes, reconhecê-los. Trinity os reprimia, tinha medo do que eles podiam significar, sequer falava deles. Como a consciência pode trabalhar algo que finge não existir?

É exatamente assim que o último inimigo se esconde da consciência, cresce na surdina e mais tarde irrompe, exigindo reconhecimento urgente. O ego não tem como vencer algo tão mais forte que ele. Então o ego morre, derrotado por aquilo que a consciência a todo custo evitou integrar a si mesma.

Neo morre porque não há outra maneira do Predestinado nascer. O ego morre porque somente um novo ego, que reconheça os conteúdos que exigem participação na consciência, pode comandar a jornada do eu total rumo à autorrealização.

O amor de Neo e Trinity, que os guia rumo à vitória final, é o mesmo amor romântico que guiou a mentalidade medieval, mostrando-se como imprescindível na busca moderna do indivíduo por sua essência mais legítima. É a misteriosa lógica alquímica que une duas pessoas e as transforma numa terceira, o casal, levando a individualidade a um novo nível.

Neo é o Predestinado

Neo desperta, abrindo os olhos devagar. Parece surpreso por estar vivo mas está muito tranquilo. Põe-se de pé e olha ao redor. Os agentes percebem, sacam suas armas e atiram.

“Não…”, Neo diz baixinho, sem se abalar, e estende o braço, detendo as balas no ar. Ele agora enxerga a Matrix através de todos os seus códigos, como os rebeldes a veem nos monitores da nave, mas com muito mais nitidez. Surpreso, Smith larga a arma e avança para Neo que se defende dos golpes com incrível facilidade. Neo então corre e salta para dentro de Smith, fazendo-o explodir. Depois reaparece, de pé, calmo e respirando profundamente. Os outros dois agentes saem correndo.

Com a aceitação do amor, Neo alcança mais um nível do despertar. É a consciência que se amplia ao integrar os derradeiros conteúdos que não admitia.

Mas isso tudo só aconteceu porque o ego morreu, o velho ego que há tempos se agarrava obstinadamente ao comando da consciência. O novo ego faz de nós pessoas mais equilibradas e mais cientes de nossas possibilidades. Além disso, a consciência ampliada nos propicia uma visão mais clara da realidade, fazendo-nos ver o mundo além das aparências, assim como Neo passa a ver a Matrix através de seus códigos, limpidamente. Agora já não podemos ser enganados como antes pois enxergamos tudo sem disfarces, principalmente a nós mesmos.

É bom deixar claro que a aceitação e a vivência do amor é o derradeiro inimigo que Neo tem de enfrentar para que possa se tornar, de fato, o Predestinado – mas para outras pessoas o último inimigo pode ser outro aspecto do ser. Seja qual for, será sempre algo que até o fim evitamos admitir em nós mesmos.

O taoísmo, milenar filosofia oriental, nos fala do Tao, o ritmo do Universo, o indetível escoamento da realidade. Para o taoísmo, sábio é aquele que capta esse ritmo e assim entende o equilíbrio dinâmico do crescimento e os ciclos de fluxo e refluxo da vida, harmonizando-se com ela. Isso é tornar-se um com o Tao, uno com tudo ao redor. Agindo assim o sábio pratica um dos princípios básicos do taoísmo: a unicidade. Ele torna-se uno com a vida porque, na verdade, é o que sempre foi mas não percebia.

Neo harmonizou-se totalmente com sua própria natureza  isso se refletiu automaticamente no mundo externo: ele passou a ser um com a realidade. Isso fica bem ilustrado na cena em que, após invadir o corpo de Smith e fazê-lo explodir, Neo respira fundo e a Matrix, ao seu redor, respira junto com ele, num movimento harmônico de contração e expansão.

Quem poderá ser mais forte que aquele que é um com a realidade? Neo consegue harmonizar-se com a Matrix de tal modo que nada mais é impossível para ele. Assim ocorre quando, após finalmente nos entendermos com o inconsciente, adquirimos um profundo grau de integração com a vida, nos conectando aos seus ciclos e respeitando as leis naturais. É mais ou menos como pegar onda: para chegar à praia, deve-se harmonizar os movimentos do corpo com o ritmo da onda, confiando no processo e abandonando-se ao sentido da força maior – tornando-se uno com ela. Desse modo as coisas se tornam mais fluídas e a vida mais simples. As dificuldades continuam, é claro, mas nós agora as vemos não como obstáculos mas como forças que, feito as ondas, podem nos conduzir à praia. E é por compreendermos as coisas desse novo modo que a vida se transforma no que há de melhor para nós.

É a isso que nos conduz a autorrealização: à efetivação do que somos e à harmonia com a vida. Não são todos os que a atingem. Na verdade são poucos pois a grande maioria desiste ante as primeiras dificuldades e se convence que é impossível. A maioria toma a pílula azul.

Porém, o impulso para a autorrealização está presente em todos nós. O que faremos com ele é que determinará se realmente nos tornaremos os heróis de nossas próprias vidas.

.

*     *     *

.

As luzes se acendem e os créditos na tela já estão subindo. O lanterninha vem nos avisar que o filme terminou e só então nos damos conta. Levantamos meio atordoados e saímos, envoltos em mil pensamentos. Teremos muitas coisas em que pensar nos próximos dias.

Na rua as pessoas voltam para a realidade de sua vida cotidiana. E, no interior de cada uma delas, o mito prossegue, vivo e pulsante, guardando o símbolo sagrado da autorrealização sob a mais importante de todas perguntas:

“Quem sou eu?”

.

(continua)

.

Ricardo Kelmer – blogdokelmer.wordpress.com

.

.

CONTEÚDO INTEGRAL DO LIVRO

Cap. 1 – Cinema, mito e psicologia
Cap. 2 – Toc, toc, toc… Acorde, Neo!C
Cap. 3 – Não existe colher
Cap. 4 – Morrendo para vencer
Cap. 5 – Matrix Reloaded e Matrix Revolutions
Cap. 6 – Os personagens
Cap. 7 – Quadro comparativo

.

.

Seja Leitor Vip e ganhe:

> Acesso aos Arquivos Secretos
>
Promoções e sorteios exclusivos

Basta enviar e-mail pra rkelmer(arroba)gmail.com com seu nome e cidade e dizendo como conheceu o Blog do Kelmer.
(saiba mais)

.

.

Comentarios01 >> COMENTÁRIOS
.


Seguir

Obtenha todo post novo entregue na sua caixa de entrada.

Join 85 other followers