Filme: Desconstruindo Harry

Novembro 4, 2009

FILMEDesconstruindoHarry-10Desconstruindo Harry

FICHA TÉCNICA

Deconstructing Harry
EUA, 1997 – 95 min
Elenco: Woody Allen, Kirstie Alley, Tobey Maguire, Demi Moore, Robin Williams, Billy Crystal e outros
Roteiro e direção: Woody Allen
Indicado ao Oscar de Melhor Roteiro Original

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RK COMENTA

Niilismos e orgasmos

Harry Block é um conhecido escritor que usa e abusa de referências autobiográficas em seus livros, o que acaba por incomodar seus amigos, familiares e amantes, que se descobrem nas histórias publicadas e não gostam nada de como foram retratados. Em meio a uma crise criativa, abandonado pela amante e preparando-se para ser homenageado pela própria escola que no passado o expulsou, Harry passa a se relacionar com seus próprios personagens, que lhe mostrarão novas formas de compreender sua vida confusa.

Eis mais um daqueles deliciosos personagens cheios de neuras de Woody Allen. Harry gasta todo seu dinheiro com análise, advogados e putas e ele é o primeiro a prevenir suas amantes para que não se apaixonem por ele. Acusado por sua ex-mulher de levar a vida baseado tão-somente em niilismo, cinismo, sarcasmo e orgasmo, ele consegue irritá-la ainda mais dizendo que com um slogan desses, seria eleito presidente da França.

Desconstruindo Harry é um filme muito divertido, principalmente para escritores que se relacionam intensamente com sua própria obra e com seus personagens. Se você costuma escrever inspirado diretamente em seus relacionamentos e nem sempre consegue distinguir o que inventou em seus textos daquilo que copiou da vida, então conheça Harry Block. E dê boas risadas dele e de você também.

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Ricardo Kelmer 2009 – blogdokelmer.wordpress.com

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Em busca da mulher selvagem

Outubro 19, 2009

Era por ela que eu sempre me apaixonava, essa mulher que era quem ela mesma desejava ser e não a mulher que a família, religião e sociedade impunham que ela fosse

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EmBuscaDaMulherSelvagem-02base4bFoi Marília quem me emprestou esse livro, em 2002, quando eu já andava curioso a seu respeito. Depois Rafaela me deu um de presente. E depois ganhei a versão digital. Ou seja, esse livro queria mesmo vir pra mim, e foram as mulheres que o trouxeram. Li e fiquei encantado. Nas páginas de Mulheres que correm com os lobos estava o que eu intuía sobre as mulheres e a relação entre os gêneros mas ainda não sabia verbalizar. O livro me chegou numa fase em que eu já lidava melhor com meus aspectos femininos e, por isso, me identifiquei profundamente com ele e com a histórica questão da domesticação da mulher.

Terminei a leitura sentindo em minha alma uma avalanche de ideias e sensações mas sentindo também que levaria um bom tempo até que tudo aquilo assentasse e eu conseguisse organizar meus pensamentos e reagrupar as verdades que, embora não fossem tão novas pra mim, agora eram obviamente, estupidamente claras. Através de mitos e lendas coletados em várias partes do mundo, a autora mostra como sobreviveu, mesmo escondida sob muitas formas simbólicas, o arquétipo do feminino selvagem, o modelo da mulher conectada com os ritmos e valores da Natureza e de sua própria natureza, o modelo da mulher livre. Um livro belíssimo, que tem ajudado muitas mulheres a resgatar o que séculos de repressão lhes usurparam: o direito de serem o que quiserem. Um livro que fala essencialmente do feminino mas também fala de homens e deveria ser lido pelos dois.

A mim, o livro de Clarissa me fez especialmente entender que, em minha vida, desde cedo me fascinou o arquétipo do feminino selvagem. Por causa disso sempre me atraíram as mulheres de iniciativa, as desafiadoras da cultura machista, as que recusavam o modelito cristão de mulher virtuosa, as que se rebelavam contra regras sociais idiotas, convenções sexuais sem sentido, modelos de relacionamento baseados na posse do outro e tudo que objetivava manter a mulher submissa e sob controle. Era por ela que eu sempre me apaixonava, essa mulher que era quem ela mesma desejava ser e não a mulher que a família, religião e sociedade impunham que ela fosse.

Esse livro me trouxe uma das mais importantes revelações que já tive, que a mulher da minha vida é e sempre foi uma só: a mulher livre. E que foi essa mulher que, mesmo sem saber, eu sempre busquei em minhas relações, ainda que a temesse. E que foi por ela que abandonei muitas mulheres, ao intuir, sem saber explicar nem pra mim, que eu jamais poderia ser totalmente eu ao lado de uma mulher domesticada.

Porém, como aceitar e amar essa mulher liberta sem, antes, eu mesmo me libertar do que também me limitava? Pra merecê-la, eu também precisava me libertar de vez de qualquer pretensão de controlá-la, esse resquício maldito de minha herança cultural-religiosa.

A ficha caiu após ler Mulheres que correm com os lobos: esse livro me ajudou a assimilar o feminino em meu ser e foi isso, exatamente isso que me fez deixar de temê-lo, me fez mais selvagem no sentido psicológico-arquetípico, me fez mais livre. O efeito prático disso tudo é que agora eu finalmente estava aberto pra relações mais igualitárias e, principalmente, pra receber a mulher livre que tanto buscava em minhas relações. Então ela veio, enfim ela pôde vir. Veio linda, plena e radiante, e eu vi em seus olhos o reflexo dela própria em mim. E desde então continua vindo, e eu e ela somos lobos que cruzam florestas atraindo-se pela fome louca que temos um do outro.

E eu sei que ela sempre virá, porque esse amor que trazemos em nós, geralmente incompreendido por não erguer cercas de posse e jaulas de controle, é o amor que aprendemos a respeitar em nossa própria natureza e que nos alimenta de alegria e liberdade a alma selvagem.

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Ricardo Kelmer 2009 – blogdokelmer.wordpress.com

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Mais sobre liberdade e o feminino selvagem:

> A mulher selvagem - Ela anda enjaulada, é verdade. Mas continua viva na alma das mulheres
> A mulher livre e eu – A liberdade dessa mulher reluz no seu jeito de ser o que é – e ela é o que todas as outras dizem ou buscam ser, mas só dizem e buscam, enquanto ela tranquilamente… é
> Em busca da mulher selvagem – Era por ela que eu sempre me apaixonava, essa mulher que era quem ela mesma desejava ser e não a mulher que a família, religião e sociedade impunham que ela fosse
> Amor em liberdadeO que você ama no outro? A pessoa em si? Ou o fato dela ser sua propriedade? E como pode saber que ela é só sua?
> As fogueiras de Beltane
As fogueiras estão acesas, a filha da Deusa está pronta. O casamento sagrado vai começar

LIVROS

> Mulheres que correm com os lobos - Mitos e histórias do arquétipo da mulher selvagem (Clarissa Pinkola Estés -  Editora Rocco, 1994)
> A prostituta sagrada – A face eterna do feminino (Nancy Qualls-Corbert – Editora Paulus, 1990)
> As brumas de Avalon
- (Marion Zimmer Bradley – Editora Imago, 1979)

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Comentarios01 >> COMENTÁRIOS

.001- Não tenho a menor dúvida, RK, que é pelas mulheres Lilith – mulheres serpentes, que tu é fascinado e arriadinho. Tua alma é Lilithiana, criatura de Deus e do Diabo, de Abraxas!!!! Tava com saudade de tu. Rauariú, sacerdote do Grande Mistério Andrógino? Onde mora o perigo, querido, também mora a salvação, a conjunção. Pat Maria, Salvador-BA – out2009

002- Gostei do que vc escreveu. Ando relendo de novo o livro e vejo quantas coisas se assemelham a mim. Parabens. Um abraço. Christina Costa, Brasília-DF – out2009

003- Li há pouco tempo a biografia de Leyla Diniz.Essa sim é a personificação do feminino selvagem. Bjs. Mônica Burkleward, Recife-PE – out2009

004- Nossa adorei o trecho. Síntese do que venho exercitando na minha vida. Jamille Abdalah, São Paulo-SP – out2009

005- Grande Kelmer, você, como sempre, produzindo textos bacanas e bem bolados. Esse do feminino, então, show de bola, a foto foi por demais bem feita. parabéns!!! Forte abraço. Luís Olímpio Ferraz Melo, Fortaleza-CE – out2009

006- Kelmer, vou correndo ler o livro Mulheres que correm com os lobos. Essa mulher, livre, que dá banana pro machismo, que vive plenamente todos os prazeres hedonistas que lhe interessam, que toma iniciativa (mesmo sabendo do preço que paga por isso), essa mulher, sou eu! Beijão e.. valeu o toque. Vou xeretar teu blog pra saber mais. Meire Viana, Fortaleza-CE – out2009

007- Meninas, vale entrar no blog e dar uma conferida… Beijos. Ana Zanelli, Rio de Janeiro-RJ – out2009

008- Kelmer, até que enfim um homem entendeu o livro da Clarisse… (!) Claudia Santiago de Abreu, Rio de Janeiro-RJ – out2009

009- Que crônica ótima,gostei,só nÂo sei se me encaixo ‘100% nesse modelo de MULHER SELVAGEM viu. bjo parabéns pelo o trabalho fantástico. Eunyce Fragoso, Campina Grande-PB – out2009

010- Ei amigo,que bom que você descobriu as mulheres que correm com lobos… Que elas sempre estejam presentes no seu mundo! Se cuida tá! Lua, Fortaleza-CE – out2009

011- vc é especial, realmente quer e gosta de conhecer a alma feminina. faz de um tudo para compreender!!! Uma tarefa um tanto complicada,,,, Haja paciência!!! rs. Vânia Farah, São Paulo-SP – out2009

012- Quem tem medo da mulher livre?? O homem preso, oras (risos) Beijos ternurentos Tô adorando o livro…pena estar na correria e estar com tempo reduzido a zero…. mas logo termino… Beijos, outros. Clau Assi, São Paulo-SP – out2009

013- Ricardo, eu sou tua fã demais!!!! Vc é www.tudodebom.com.br/quehomeéesse!!!!! O sonho de consumo de toda mulher selvagem, incluindo eu mesma, claro! Bjs;. Karla K, Fortaleza-CE – out2009

014- Hoje tive oportunidade de entrar no seu blog, por indicação de uma amiga. Fizemos parte de um grupo de vivências apoiadas na leitura do Mulheres que correm com lobos e ela me recomendou a leitura da sua crônica Em busca da mulher selvagem. Fiquei encantada. Acabei lendo também os contos As fogueiras de Beltrane, que amei, Um ano na seca e a crônica Homens perfeitos também alopram. Interessante como você circula com competência rara entre o sagrado/mítico/profano/humor… Será com prazer que voltarei à sua página. Parabéns belos belos textos e por suas múltiplas artes. Elvira, Brasília-DF – out2009


O pop pornográfico de RK (André de Sena)

Agosto 31, 2009

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O POP PORNOGRÁFICO DE RICARDO KELMER
Por André de Sena

Há, atualmente, uma fronteira tênue entre a literatura tradicional e o entretenimento que vem sendo ocupada por alguns escritores de talento e suas obras marginais em relação ao grande mercado editorial. Estes novos escritores endossam uma das grandes contradições no universo da crítica literária atual, o fato de que a decantada crise da ficcionalidade – que vai do chamado esgotamento das antigas formas literárias até a perda da ilusão de que a literatura poderia servir de espelho da realidade, passando ainda por fatores mais prosaicos como a debandada dos leitores por conta do aparecimento das mídias visuais (tv, cinema, internet, etc) – não vem sendo corroborada pela verdadeira efervescência dos blogs e diários on-line, que chega mesmo a propor novos caminhos à própria literatura.

A pletora de blogs vem revelando democraticamente talentos que, há pouco mais de uma década, estariam fatalmente destinados ao completo silêncio por conta do apertado funil da indústria editorial, que faz com que uma fração mínima de autores tenha direito à voz. E, para os críticos tradicionais que ainda torcem o nariz para esta novíssima produção ficcional, aqui vai um alerta: há muita boa literatura sendo gerada, bastando algumas horas de navegação via Internet para constatar isso. Até mesmo a nova linguagem cifrada/codificada utilizada pelos membros da rede – na qual alguns exagerados já viram inclusive o fim da norma culta – por vezes pode render gratos neologismos que impulsionam a alquimia da língua como um todo.

O livro “Vocês terráqueas”, do escritor cearense Ricardo Kelmer, atualmente radicado em São Paulo, lançado ao mesmo tempo em formato impresso (Miragem Editorial) e em formato e-book, para ser lido na tela do computador, é um bom exemplo desta nova literatura que floresce, pari passu, à completa inserção da Internet na vida das pessoas. Os contos e crônicas reunidos nesta obra, que poderiam ser catalogados, grosso modo, como “pop/pornográficos”, mostram que a literatura é mais camaleônica do que se supunha e vai buscar para seu denso arsenal até mesmo a informalidade da escritura dos e-mails e o prosaísmo das situações mais antilíricas. De fato, a literatura não necessita apenas de grandes mestres da prosa para ser pulsante de vida – a linguagem comum, diária, também pode inspirar pelo aspecto da inovação e da poesia.

Com nove livros na bagagem, a exemplo de “A arte zen de tanger caranguejos”, “Guia prático de sobrevivência para o final dos tempos”, “Baseado nisso” e “Blues da vida crônica”, Ricardo Kelmer vem lapidando aos poucos sua prosa característica, informal com conteúdo, irônica e, por vezes, poética. Mas foi a partir da criação de um blog, o blogdokelmer.wordpress.com, que ele se tornou conhecido em todo país, principalmente quando decidiu “turbinar” sua escrita, unindo três universos distintos, o da pop literatura, o da literatura de humor e o da pornografia light, para confeccionar uma obra autoral válida. “Vocês terráqueas” é o fruto mais recente dessa união, que também deu origem, no blog do autor, ao link “Kelmer para mulheres”, uma divertida série de textos eróticos relativa ao universo feminino que conta ainda com os “arquivos secretos”, apenas para leitores cadastrados (estes sim, “mais” pornográficos). Em todo o caso, é o humor que se destaca em todas estas obras, dissolvedor de modos e gêneros literários, metaficcional por excelência.

Como espelha o título, os vinte e um contos e quinze crônicas reunidas em “Vocês terráqueas” tratam, com os mais diversos matizes, do universo feminino, ou, mais exatamente, da estranheza, horror e fascinação que este pode suscitar. Ciganas, lolitas, santas, prostitutas, espiãs, sacerdotisas pagãs, entidades do além, mulheres selvagens – em todas as personagens, destaca-se o reflexo do olhar masculino fascinado, amedrontado, seduzido. Pode-se afirmar que Kelmer já é dono de um estilo próprio (no fundo, uma das almejadas metas de todo escritor) e, do ponto de vista narrativo, há três pequenas obras-primas em “Vocês terráqueas”, os contos “O presente de Mariana”, “A professora de literatura do meu marido” e “Gisele, a espiã nua que eliminou o Brasil”. Os temas são curiosos, mas desenvolvidos com talento: no primeiro conto, uma entidade se apaixona por um homem após uma sessão de umbanda; no segundo, há a descrição de um mundo meio futurista onde as pessoas escolhem as características físicas e psicológicas de seus amantes; no terceiro, narra-se a história de um homem que crê piamente que sua “cueca da sorte” seja a responsável pelas vitórias nos jogos da seleção brasileira.

Muitos outros contos interessantes e iconoclastas de Kelmer ficaram de fora desta obra, mas podem ser lidos no blog do autor, como “O último homem do mundo”, que retoma o tema do pacto fáustico em um contexto atual (as relações de poder entre homens e mulheres), além da escrachada série “Um ano na seca”, diário que narra as aventuras de um homem apaixonado por sua boneca inflável, onde o humor mais burlesco acaba diluindo o pornográfico e dando lume a uma espécie de gênero literário híbrido, que é um dos trunfos da escrita kelmérica.

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André de Sena é jornalista, músico e estudioso de literatura. É autor de dois livros de poemas, Bosques da Moira e Miratio. Mora em Recife-PE.

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Saiba mais sobre o livro:
Vocês Terráqueas – Seduções e perdições do Feminino

O que mais escreveram sobre este livro:

> Desconstruindo Kelmer (por Wanessa) – Totalmente metida e curiosa, eu me debrucei sobre o conto e fiz minha própria interpretação. Bem, a presença da Mestra, a vida, a Deusa, o Tao, o fluxo irrevogável de tudo, não me espanta que seja uma figura feminina…


Desconstruindo Kelmer (Wanessa)

Julho 12, 2009

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Desconstruindo Kelmer
por Wanessa, 2009

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Eu adoro o Vocês Terráqueas. E eu, grande releitora que sou, claro que escarafunchei o livro todo, li de cabo a rabo incontáveis vezes. Principalmente depois daquela conversa que nós tivemos, em que tu me contou um segredinho que se esconde em alguns textos. Depois disso, a tua obra virou um mistério ainda maior pra mim. Comecei a ler teus textos com mais atenção, agora entendo melhor algumas coisas e desconheço completamente outras.

Um conto em especial me instigou desde a primeira leitura: Cristal. A ordem dos acontecimentos é compreensível, tem começo, meio e fim, mas não dá pra terminar a leitura sem a sensação de que tem algo muito maior que eu não consegui captar. Eu, meio Sherlock Holmes das palavras, fico tentando decifrar os enigmas, seguir possíveis pistas, mas é tudo em vão. Não dá.

Totalmente metida e curiosa, eu me debrucei sobre o conto e fiz minha própria interpretação. Bem, a presença da Mestra, a vida, a Deusa, o Tao, o fluxo irrevogável de tudo, não me espanta que seja uma figura feminina. Um presente de aniversário, a viagem sem escolha. Depois o corredor cheio de portas e ela aparece, a Simone. Provavelmente um amor da adolescência. Eu vejo um Ricardo cheio de ideias, querendo tudo ao mesmo tempo. Tempo que, até então era inesgotável e por isso permitia um monte de erros que levam a um rompimento doloroso, que deixa uma dor que invade, dor física, forte.

Encontro com a Renata. A bailarina que faz piruetas num nicho, algum lugar perdido, intocável. Os movimentos leves; contemplamos a beleza porque é finita. Melhor não me demorar por aqui, não há tempo, só pra recuperar o fôlego, o assombro diante das surpresas da vida.

A Bel traz o encontro com a princesa, o primeiro. Joga suas tranças da torre; beleza e loucura juntas provocam vertigem? A morte do primeiro Ricardo, daquele que por vezes era desconhecido de si próprio, te deixa profundamente grato, a mim também. Vânia, Valesca, Vanessa, Valéria, são tantas as possibilidades dessa musicista sensual, sensual como doce desmanchando na boca. O inalcançável, mesmo que a distância entre os corpos seja curta. É preciso achar-se a si, antes do outro. Talvez a fuga seja o melhor caminho quando o vaso ainda está vazio.

Minhas dúvidas se multiplicam em relação aos nomes, Fabiana, Fabíola, Fátima… o nome tanto faz, as fantasias são múltiplas, volúveis, diáfanas. Encantam e entontecem. É preciso um fio que te conduza a realidade, uma mão talvez. E ela sabe fazer isso, no meio do redemoinho de possibilidades e sonhos, é bom se saber compreendido por alguém, uma certeza tranquilizadora de não ser tão estranho, hermético. Gisele, como a espiã nua em Paris, a tua cara isso. E mais uma vez a tontura, mas essa é diferente e conheço: a euforia da excitação e o gozo (ai, que saudade da tua carinha gozando…), a sensação de ir cada vez mais fundo, mais longe. Transpiração e transcendência lado a lado.

O inferno te espera e traz também o sabor indigesto. A inquietação, o ápice do sofrimento e desespero. A alma conturbada se rende a mais uma morte. Passou pelo seu Karma, Karine. As palavras não bastam para agradecer por uma nova vida. E no fim, sete encontros, sete vidas que hoje formam um só cristal, o mais belo, o ser mais incrível que ja conheci na vida, tu. Talvez eu tenha acertado um pouco, talvez tenha passado longe, mas uma coisa eu aprendi com esse conto, às vezes racionalizar sobre o que está diante dos olhos, só torna tudo mais complicado, a compreensão pode ser simples, não precisa muito. Apenas sentir.

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> Para ler Cristal


LIVROS – A Prostituta Sagrada

Junho 17, 2009

livroaprostitutasagrada02A prostituta sagrada - A face eterna do Feminino
Nancy Qualls-Corbett (Editora Paulus, 1990)

O eterno feminino e sua relação com espiritualidade e sexualidade. Quando a deusa do amor ainda era honrada, a prostituta sagrada era virgem no sentido original do termo: pessoa íntegra que servia de mediadora para que a deusa chegasse até a humanidade. Este livro mostra como nossa vitalidade e alegria de viver dependem de restaurarmos a alma da prostituta sagrada, a fim de nos proporcionar uma nova compreensão da vida.

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RK COMENTA:

Em muitas culturas antigas a sexualidade convivia muito bem com a religiosidade, sem a ideia do pecado que mais tarde a religião cristã viria trazer, impregnando toda a cultura ocidental. Se hoje, para a maioria de nós, lugar de religião é na igreja e lugar de sexo é na cama, para essas antigas culturas as duas coisas podiam ser vivenciadas harmoniosamente no mesmo contexto pois a percepção da sexualidade era também uma percepção do Mistério e do Sagrado.

Nos rituais do hierogamos (o casamento sagrado do feminino com o masculino) que existiram em culturas não-patriarcais da Antiguidade, sacerdotes e sacerdotisas usavam o ato sexual como forma de reverenciar a Deusa do Amor e, assim, atrair sua simpatia e auxílio ao seu povo. Isso pode não fazer sentido para quem reverencia deuses masculinos e dissociados do sexo mas naqueles tempos em que a Deusa do Amor era honrada (em suas diversas formas, como Afrodite, Inana, Ihstar…), os rituais em seu louvor iniciavam a mulher num novo nível de sua vida, preparando-a para as relações amorosas e equilibrando nela o masculino e o feminino, a força e a suavidade, tornando-a una em si mesma (o sentido original do termo “virgem” é justamente este). O mesmo ocorria aos homens que se entregavam aos mistérios sagrados.

Hoje já não veneramos a Deusa do Amor como os antigos faziam. Mas amamos. Porém, amaríamos de um modo mais sadio e nossa relação com a própria sexualidade seria melhor se nisso tudo tivéssemos a noção do Sagrado – que infelizmente perdemos nos descaminhos da civilização. elaprostitutasagrada01

Não, não precisamos voltar a cultuar as antigas deusas e reeditar os rituais das prostitutas sagradas, até porque hoje sabemos que as deidades são representações personalizadas de aspectos do nosso próprio psiquismo. Mas podemos vivenciar os Mistérios a partir de nosso crescimento psíquico e servir ao Sagrado através de nossas vidas e nossas relações amorosas. Cada homem e cada mulher pode ser o sacerdote e a sacerdotisa do Amor em sua própria vida.

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Ricardo Kelmer 2009 – blogdokelmer.wordpress.com

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Mais sobre sexualidade e religião:

> Corpo e sociedadeO homem, a mulher e a renúncia sexual no início do cristianismo (Peter Brown, Jorge Zahar Editor, 1990)
> Atos impuros – A vida de uma freira lésbica na Itália da Renascença (Judith C Brown, Brasiliense, 1987)
> Hierogamos na Wikipedia
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EmBuscaDaMulherSelvagem-02base4bMais sobre liberdade e o feminino selvagem:

> A mulher selvagem - Ela anda enjaulada, é verdade. Mas continua viva na alma das mulheres
> A mulher livre e eu – A liberdade dessa mulher reluz no seu jeito de ser o que é – e ela é o que todas as outras dizem ou buscam ser, mas só dizem e buscam, enquanto ela tranquilamente… é
> Em busca da mulher selvagem – Era por ela que eu sempre me apaixonava, essa mulher que era quem ela mesma desejava ser e não a mulher que a família, religião e sociedade impunham que ela fosse
> Amor em liberdadeO que você ama no outro? A pessoa em si? Ou o fato dela ser sua propriedade? E como pode saber que ela é só sua?
> As fogueiras de Beltane
As fogueiras estão acesas, a filha da Deusa está pronta. O casamento sagrado vai começar

LIVROS

> Mulheres que correm com os lobos - Mitos e histórias do arquétipo da mulher selvagem (Clarissa Pinkola Estés -  Editora Rocco, 1994)
> A prostituta sagrada – A face eterna do feminino (Nancy Qualls-Corbert – Editora Paulus, 1990)
> As brumas de Avalon
- (Marion Zimmer Bradley – Editora Imago, 1979)
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Um mito a 300 km por hora

Abril 21, 2009

UM MITO A 300 KM POR HORA
O arquétipo do herói na trajetória de Ayrton Senna

Ricardo Kelmer

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figherois034cA psicologia do inconsciente nos ensina que os mitos, longe de serem meras historinhas curiosas e fantasiosas, são uma espécie de estrutura psicológica dos povos, que sustenta sua psique coletiva assim como os ossos sustentam o corpo.

Todos nós estamos, em cada fase da vida, revivendo antigos mitos, mesmo que não o percebamos. Somos novos atores pra antiquíssimas tramas. A água somos nós e a estrutura do mito é o leito do rio. Isso não quer dizer que somos meros fantoches à mercê do enredo dos mitos. Podemos ser ou não, dependendo do grau de autoconsciência que temos e de nossa vontade de mudar o rumo dos acontecimentos. A maioria das pessoas sequer conhece os mitos − como poderiam se tocar que estão vivendo um mito em particular para, assim, poder mudar o enredo?

Existe um importante mito que acompanha a humanidade desde tempos remotos. Trata-se do mito da “jornada do herói”. O estudo da mitologia comparada nos mostra que o tema da jornada do herói está presente na mitologia de todos os povos. Eis o esqueleto que geralmente sustenta esse mito: o herói é alguém que aparentemente leva uma vida como a de todos os outros (mas pode haver um fato que indique predestinação ou predisposição psicológica a grandes feitos). Um dia algo ocorre e sua vida muda. Ele intui ou sabe que necessita fazer algo senão sua vida (ou a vida da comunidade) empaca. Ele é obrigado a abandonar a segurança de sua família, sua terra e parte em busca de um tesouro, um objeto precioso, um inimigo, a cura para uma doença ou desgraça pessoal ou coletiva ou sai para salvar uma princesa. Enfrenta diversos perigos e arrisca sua vida. No final vence os perigos e retorna à sua terra, sua família, seu lar, levando algo importante ao povo, muitas vezes destronando um velho rei cansado, doente ou injusto. Ele agora é outra pessoa, mais forte, mais sábio e mais seguro de si e do que é importante à coletividade. E seu retorno inaugura uma nova fase, rica, abundante e pacífica. Algumas vezes o herói morre mas mesmo sua morte termina por significar a chegada de um tempo melhor.

No plano da psicologia do inconsciente, o mito se reedita no dia-a-dia das pessoas geralmente assim: o indivíduo tem uma vida relativamente comum mas um dia algo o faz inquietar-se. Pode ser um fato inexplicável, um acidente, uma doença, um insucesso profissional, uma fracasso amoroso, a morte. Pode ser uma revelação interior. O indivíduo começa a se transformar porque já não consegue conviver com suas antigas verdades: elas podem ser cômodas mas já não satisfazem plenamente. Então o indivíduo é obrigado a deixar seu antigo mundo e buscar um novo valor, uma nova posição na família ou na sociedade − algo que tenha mais a ver com o novo estágio psicológico em que está entrando. O indivíduo abandona a segurança de velhas verdades e parte em busca desse algo precioso que pode estar relacionado à profissão, aos relacionamentos, à realização pessoal ou à aceitação de si mesmo. Os perigos a enfrentar são muitos: a insegurança dos novos e desconhecidos valores, o medo de falhar, o arrependimento de ter deixado para trás a comodidade de antigas verdades, a incompreensão alheia, a dificuldade de lidar com um novo eu que ainda não se instalou completamente e ao mesmo tempo com um antigo eu que já não tem utilidade mas, por outro lado, se recusa a morrer.

Nesse momento doloroso o indivíduo vive uma espécie de limbo − ele não é uma coisa nem outra. Já não é o antigo eu mas também ainda não é um novo eu. De ambos os lados a vida o pressiona e exige atitudes firmes. Mas como pode ele agir com firmeza se por dentro é uma dúvida só? Trata-se de um instante decisivo onde a solidão vem atingi-lo como um raio. As pessoas mais próximas certamente perceberão algo de estranho mas não poderão fazer muito por ele a não ser demonstrar compreensão e carinho. Somente o próprio indivíduo poderá percorrer, por si mesmo, o caminho escuro que tem pela frente e encontrar as respostas que aquietarão seu espírito.

Se o indivíduo persiste na busca, certamente será recompensado com aquilo que sua vida necessita para não empacar e seguir em frente, como um rio que, apesar de todas as dificuldades, flui sempre em direção ao mar. Ele retornará de sua longa noite escura mais forte, mais ciente de si, mais centrado, mais poderoso. As novas verdades que conquistou destronarão as velhas − é a renovação, tão vital à vida. Quem vence tais desafios adquire força suficiente para vencer muitos outros que ainda virão. Por outro lado, se o indivíduo desiste de enfrentar os desafios, a vida poderá se transformar num imenso deserto de frustrações, culpas e projeções inconscientes de ódio e inveja.

Muitos são os chamados a essa grande aventura da transformação pessoal e da realização íntima mais profunda. Mas são poucos os que realmente têm a coragem de enfrentar a escuridão de seu próprio destino. Esses são os heróis. Muitos são anônimos, ninguém jamais ouvirá falar. Mas isso não importa. O que vale é que eles aceitaram o desafio, lutaram, sofreram e no final obtiveram uma imensa vitória, vitória essa que, mesmo que ninguém saiba, para eles vale mais que tudo. Além disso, com seu precioso exemplo eles enriquecem a vida de seus próximos, sua família, seus amigos, sua comunidade e até mesmo a humanidade inteira. São heróis.

ayrtonsenna031aAYRTON SENNA

Há os heróis que morrem anônimos, sim, e são a maioria. Mas há os que atingem celebridade. A humanidade precisa desses para conhecer seu exemplo e por ele se guiar. São modelos de vida. A história pessoal do piloto brasileiro Ayrton Senna é mais uma reedição do velho mito da jornada do herói.

Sua infância foi tranquila mas desde cedo uma inquietação especial lhe tomava o espírito e se fazia clara em seus olhos. Nas redações do primário já se via como um piloto. Era o sonho de sua vida tomando forma. A mãe conta que de tão veloz, o menino era atrapalhado. Velocidade: era essa a delícia de sua vida. Delícia e desafio.

Foi campeão desde o começo da carreira, no kart. Subiu cada degrau armado da convicção que só possui quem enfrenta seu próprio destino de peito aberto. Abandonou família, namoradas, amigos, o seu país e foi viver sozinho na Europa. Foi preparado para todas as adversidades. Ele só queria uma oportunidade para provar que podia realizar seu grande sonho. Sim, sua família possuía dinheiro e condições de ajudá-lo mas a solidão física não tem preço. E a solidão da alma, que Ayrton parece ter vivido a vida inteira, é insuportável − mas o herói que segue seu destino precisa passar por seu deserto.

De fato, no Brasil ele certamente teria uma vida muito fácil, teria tudo que quisesse. Mas na Europa ele não era ninguém − aliás, era um brasileiro, o que muitas vezes é ainda pior. Por mais dinheiro que sua família tivesse, nada pagava a dor de só poder contar consigo mesmo para atingir o grande sonho de sua vida. Ele, porém, suportou tudo em nome desse sonho: ser o maior piloto de todos os tempos. Bastava só uma oportunidade. E ela surgiu. E ele não a largou mais.

Ayton precisou lutar contra muitos perigos: sua própria obstinação excessiva que muitas vezes atrapalhava, a inveja, a mesquinhez e a rivalidade explosiva do mundo da Fórmula Um, arqui-rivais talentosos e também os seus erros que algumas vezes quase botaram tudo a perder. Lutou contra as incessantes investidas da mídia que queriam tirar dele a privacidade que tanto prezava. Mas ele conseguiu. A bandeira que Ayrton fazia tremular nas manhãs de domingo devolvia ao seu povo o orgulho perdido e a esperança de que, sim, da mesma forma que aquele abusado Silva de capacete verde-amarelo, outros Silvas também podiam vencer na vida. Ayrton Senna da Silva tornou-se o maior piloto de todos os tempos e tudo indica que ninguém o superará. Não somente seu país mas o planeta inteiro reconhece seu valor e seus feitos inesquecíveis.

Muito antes de morrer, naquela fatídica curva para a esquerda do circuito de Ímola, já fixara morada definitiva em seu olhar uma expressão incomum, uma angústia indefinida, uma dor da alma. Ayrton parecia sempre sozinho. Por quê? Ninguém sabia responder e ele não se manifestava a respeito. Seria alguma mulher? Algum problema na família? Talvez nada disso. Talvez ele já intuísse sobre o que o aguardava. Talvez vivesse um dilema: em que exatamente a sua vida e suas vitórias e seu dinheiro estariam contribuindo positivamente para a humanidade? Certamente ele pensou nisso algumas vezes pois antes daquele trágico domingo de 1994 já havia manifestado à sua irmã seu outro sonho secreto: usar o dinheiro e o prestígio que ganhara para mudar o destino das crianças do Brasil. Ele já pensava que quando parasse de correr poderia se dedicar a esse novo desafio − ainda maior que o primeiro. Hoje é sua irmã Viviane quem administra esse sonho, com competência. O Instituto Ayrton Senna é uma referência mundial no trato com a infância carente. Que maravilha seria se outros ídolos fizessem o mesmo!

É isso o que aquela crônica (O Herói e a Princesa) insinua e condensa em imagens metaforizadas: a trajetória da vida de Ayrton possui o tal esqueleto que sustenta o mito da jornada do herói. Há outros detalhes significativos em sua vida mas deixemos para lá. O importante, ao meu ver, é que ele foi um sujeito que vislumbrou seu destino, apostou todas as fichas em si mesmo, encarou os perigos, lutou contra todas as dificuldades e por fim atingiu a sua máxima realização pessoal que era ser o piloto maior, o insuperável. Enfrentou terríveis monstros internos, destronou outros reis das pistas, envolveu-se com princesas e plebéias e sua morte (a princesa maior), ironicamente, apressou a realização de seu outro sonho: cuidar das crianças de seu país. Nesse ponto sua história deixa o âmbito pessoal, as glórias esportivas e se mistura ao universo do social. Pronto, é o mito que se completa: o herói morre mas sua morte traz benefícios ao seu povo.

É inquietante pensar assim mas tudo soa quase como uma… predestinação. E soa também, o que é mais inquietante ainda, como um sacrifício, uma auto-imolação. Não estou afirmando que ele se sacrificou − estou dizendo que, sob uma visão mitológica, olhando os fatos do ângulo futuro, soa como se fosse. Aliás, quando penso nisso e no nome do circuito em que ele se foi, tenho arrepios…ayrtonsenna035jpg

Ayrton Senna é um ídolo nacional e mundial, sim. Mas é muito mais que isso: ele é um herói. Primeiro porque aceitou, lutou e realizou seu destino, sua lenda pessoal, sua missão − coisa que poucos têm a coragem de fazer. E é um herói também porque transformou e continua transformando, para melhor, a vida de milhares de crianças neste país tão grande quanto injusto, oferecendo-lhes algo precioso que elas certamente jamais teriam, algo que ele teve: uma oportunidade. Só isso. Uma oportunidade. Para essas crianças, jamais haverá um herói maior.

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Ricardo Kelmer 1999 – blogdokelmer.wordpress.com

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Mais sobre Ayrton Senna:

> O herói e a princesa



Protegido: Íntima idade (o ensaio peladão)

Janeiro 16, 2009

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A pouca vergonha do escritor peladão

Janeiro 16, 2009

figrkintimaidade11Comecei a tirar a roupa e de repente me senti nu antes mesmo de estar. O que é que tu tá olhando, Brigite?, olha pra lá. Ela riu e virou o rosto. Pronto, agora pode olhar. Ela se virou e mais uma vez foi de um profissionalismo impecável, apontando pro dito cujo e exclamando: Só isso?!

Depois de voltarmos de nosso acesso de riso expliquei que era o clima chuvoso, o frio, sacomué. Lei física: frio encolhe, calor estica.

Botei pra tocar minha coletânea de mp3 Mistureba 2, servi mais um domecq e finalmente começamos.

Eu ia tirando umas fotos e ela outras. Jamais havia ficado nu diante de Brigite mas isso não foi realmente problema pra nenhum dos dois. Ela embarcou na onda e de repente éramos os dois vivendo uma experiência meio absurda, meio surreal. Às vezes parecia que aquilo não estava acontecendo, que era uma viagem minha, como se eu fosse um personagem de um dos meus contos e aí eu dava por mim e, putz, Brigite havia feito seis fotos.

Pensamos em fotografar na sacada, eu peladão pro mundo, o auge do mau-gosto da arquitetura carioca contemporânea. Mas desisti, eu não queria mais problema com os vizinhos, já bastavam as festinhas que rolavam no apê, o rock’n'roll troando, o converseiro solto na alta madrugada. Talvez fosse melhor manter minha fama de escritor excêntrico do que me transformar no tarado do terceiro andar. Ou não? Agora fiquei na dúvida.

Em minha turma particular de amigos, os anos fechados (30, 40, 50…) têm de ser comemorados em alto estilo, mas em alto estilo mesmo, algo que seja não apenas marcante mas que entre definitivamente pro rol das grandes histórias da turma.

A última grande comemoração havia sido do intocável Toinho Martan, que comemorou seus 40 anos durante um mês, saindo, fazendo festa, reunindo amigos, tocando e endoidando quase diariamente. No final ele mais parecia um zumbi – mas conseguiu. Uma façanha memorável, vamos aplaudir, por favor.

Então, em 2004, chegou a minha vez. O que eu poderia fazer pra comemorar os meus 40 anos que fosse ainda mais marcante que a proeza do meu amigo? Foi minha vizinha louca de Botafogo, a Brigite, quem me deu a idéia: Por que você não faz um ensaio fotográfico peladão? Poizeu peguei corda e fiz. Íntima Idade é o nome do ensaio, que é composto de 15 fotos e um texto acompanhante. E os comentários, claro, cada um melhor que o outro.

Hoje, 5 anos depois, posso dizer que alcancei meu objetivo pois meu ensaio peladão entrou pra lista de temas folclóricos da turma e é pouco provável que seja igualado. Alguns amigos comentam meio rindo e meio constrangido mas sempre fazem questão de dizer que sim, eles me perdoam por tamanho ridículo. Entre as mulheres a recepção foi melhor, elas elogiaram minha corajosa atitude artística e algumas até deixaram o telefone caso eu precisasse de uma máquina fotográfica melhor. Ainda há pessoas generosas no mundo, que bom.

Provocar o mundo – tenho que admitir que eu gosto…

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Ricardo Kelmer 2009 – blogdokelmer.wordpress.com

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