Um ano na seca (04) Sonja

Setembro 10, 2009

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Sonja – Soprando forte

Onde eu parei mesmo? Ah, sim, a Sonja. Poizentão. Eu havia contado pra um camarada sobre minha trágica situação e ele, compadecido, combinou que me apresentaria a uma ninfeta deveras generosa chamada Sonja. O nome dela é esse mesmo?, perguntei. Não, não era. Era nome de guerra. Ah, tá. Sonja, a guerreira.

Mas do jeito que eu tava a perigo, ela é quem teria que se defender.

Marcamos pra uma quinta-feira, lá mesmo em meu apartamento em Botafogo. Na hora marcada meu amigo chegou, devidamente acompanhado da ninfeta. Ele nos apresentou, fazendo umas piadinhas que me deixaram meio sem jeito. E ela pelo jeito já devia estar acostumada. Sentei na poltrona e eles no sofá. Botei um Led Zeppelin pra gente escutar mas acho que ela não curtiu muito, fazia o tipo mais ripirrope. Servi domecq mas ela não bebeu, Sonja não bebia. Logo depois meu amigo foi embora, me deixando a sós com a ninfeta. Eu tava meio nervoso mas ela tava na dela, tranquila, me olhando com aqueles olhos grandes e verdes que ela tinha.

Lá pelas tantas achei que já tava bom de lero-lero: peguei Sonja pela mão e levei pra sacada pra gente ver o Cristo iluminado. Enquanto ela olhava eu não me aguentei mais nas calças e, bufo!, derrubei-a no chão, que nem um homem das cavernas alucinado. E comecei a soprar dentro dela. Nunca em toda a minha vida eu tinha feito aquilo, juro. Soprei durante meia hora e no final eu tava caído no chão, botando os bofes pra fora, parecia que havia corrido uma maratona. Em compensação Sonja tava bem cheinha. Meu amigo tinha razão: ela era bem fornida. Peituda e bunduda do jeito que homem do sexo masculino gosta.

Meu amigo me garantira que ela tava bem limpinha, ele a havia lavado no dia anterior. Mas achei melhor garantir e dei um bom banho na Sonja, com detergente e água sanitária, até botei um rexona no sovaco dela. De volta à sacada, nos encostamos na grade e enquanto eu bulinava sua bunda, recitei uns poemas do Vinicius pra fazer um clima assim meio romântico, de tudo ao meu amor serei atento. Olhei pra Sonja e ele tava de boca aberta, os olhos arregalados, certamente enternecida com meu esforço por agradá-la. Ela não me disse mas senti que meu amigo, com ela, não valorizava muito as preliminares. Homens…

Então os sete meses sem sexo gritaram dentro de mim e perguntei se ela queria ir pro meu quarto ou se preferia fazer ali mesmo. Você escolhe, Ricardinho… Acho que ela falou isso, não lembro bem. É que eu já tinha tomado metade do domecq e quando chego nesse ponto, dou pra ouvir coisas, ver gente morta, é um horror. Então eu escolhi o lugar, e escolhi ali mesmo, na sacada, sacomué, sempre fui chegado em sexo em locais inusitados. Foi quando Sonja falou, maliciosa: Locais inusitados assim tipo o meu cu, né, fofo?

Nesse exato instante eu me apaixonei. Quem não se apaixonaria?

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Ricardo Kelmer 2007-2008 – blogdokelmer.wordpress.com

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>> COMENTÁRIOS

01- É. Eu não fazia idéia mesmo, fico sempre lhe subestimando e nunca acho que você vai se superar na continuação da saga de secura de 1 ano. E deve ser por isso mesmo que tomarei um remedinho pra cólicas daqui a pouquinho. Vai matar outro de rir, Kelmer, aliás, Ricardinho! (falei isso com a boca aberta e olhos arregalados, enternecidos…kkk) – Rafaela, Campina Grande-PB

02. Vc sabe tudo… e a Sonja também… INCRIVEL…”catártico” Ô Ricardooooo Termina essa estória pelamordeDeus…rsrsr… – Cristina Rodrigues, Santos-SP


Lolita, Lolita

Setembro 3, 2009

A calcinha desce suave pelas coxas finas, beija os joelhos, pousa nos pezinhos… Engulo seco. Diante de mim a luz dos meus dias, fogo em minha alma

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LolitaLolita-03A cena sempre me extasia, sua língua faceira saltando três vezes… Olho em silêncio enquanto ela lambe o papel, fecha o baseado e acende, segurando na ponta de seus dedinhos finos. Ela puxa a fumaça devagar, os olhinhos fechados, tão linda… E eu amo sua boca enquanto ela solta a fumaça. A boca. Que ela sempre esquece entreaberta, na medida exata, meio dedo, ela faz de propósito, sabe que não resisto. O que essas colegiais andam aprendendo no intervalo do recreio?

Vai, fuma, minha amiga quem me deu, você vai gostar. Hoje não, meu anjo, obrigado. Ah, é?, então eu não faço aquilo. Então cumpro minha parte no trato, dou uma tragadinha, o suficiente para que a doce chantagista se satisfaça. Ela me mostra a língua, me chama de velho careta. Entendam, quero sóbrios os meus sentidos, para depois passar todas as imagens, uma por uma, e recordar… e recordar… até que seja novamente terça-feira.

Trancada a porta da suíte. Cerradas as cortinas. Os pequenos cuidados de sempre. Mas as cortinas, eu sei, ela depois abrirá para olhar a cidade, ela e seu prazer de me desobedecer. E eu paciente a puxarei para dentro, perigoso ficar na sacada, meu anjinho, eu já disse, principalmente assim de calcinha. Ela protestará, claro: Seu chato, parece meu pai! E citará probabilidades, uma chance em mil de alguém reconhecê-la ali no vigésimo andar. Mas vocês hão de convir, já foi sorte demais encontrá-la, não tenho mais idade para abusar do destino.

No frigobar ela se diverte: iogurtes, suquinhos e chocolates que devora e guarda na mochila, levará para a amiga. Na TV, pára nos clipes musicais, essas bandas modernas com nomes estranhos e garotos idiotas que ela adora. Ela zomba do meu ciúme cantarolando em seu inglês vacilante, o que me faz lembrar de seu curso, justamente onde ela deveria estar agora. Mas vocês vão entender, as terças são minhas.

Ela vem para a cama, lânguida e relaxada. Tira minha camisa e brinca com os pelos brancos do meu peito, me aperta as sobras da barriga. Com meus suspensórios brinca de me chicotear, rindo como fosse a coisa mais engraçada do mundo. Depois salta da cama: Me dispa, escravo, é uma ordem. Sim, minha princesa.

Fico na ponta da cama, ela à minha frente. Tiro seu uniforme com cuidado, da outra vez rasguei a saia. Desabotoo a camisa e os seios pequenos me olham. Pergunto se estão com saudade e ela os move para cima e para baixo: Sim, estamos… E outra vez morre de rir. As meias brancas mantenho no lugar, quase no joelho, gosto assim. A fita no cabelo também. Ela ergue a saia plissada e surge a calcinha, hoje é azul claro, combina com a tarde. A vontade é de arrancá-la, me controlo, o coração quer sair do peito. A calcinha desce suave pelas coxas finas, beija os joelhos, pousa nos pezinhos… Engulo seco. Diante de mim a luz dos meus dias, fogo em minha alma.

É nas curvas de seu corpo quase infantil que eu me desgoverno: tento dirigi-la mas ela faz o que tem vontade e minhas juntas sofrem para segui-la. Ela geme sob o peso de meu corpo, dança sobre ele, senta em meu rosto, vira de costas, sim, sou tua Lolita, para sempre, sim… Lembro do trato e ela cumpre a promessa, bebendo-me até a última gota, adora observar minhas reações. Depois, na telinha da máquina, ela apaga as fotos em que está feia e zomba da minha expressão apaixonada, manda por e-mail, pliiis, você nunca manda, malvado… Ela me oferece chiclete e diz que a amiga quer um dia participar também… Paro, sem acreditar no que ouço. Você não devia ter contado, nossa felicidade não precisa de mais ninguém! Mas ela é minha amiga… Foda-se sua amiga, já falamos disso, quer estragar tudo, tem merda na cabeça??!!

Vamos em silêncio até o shopping, uma lágrima escorre de seu olho. Que eu não vejo porque não ouso olhar mas sei, porque é a mesma lágrima que tremula no meu. Paro e ela sai do carro, fecha a porta. Três passos e retorna, e emoldura o rosto na janela, e sussurra: Fica assim não, desculpa… A boca. Por favor, não quero que acabe, pliiis… A boca entreaberta, meio dedo. Meu coração se derrete. Entrego-lhe o dinheiro do cinema e do lanche, mais um pouco para gastar com bobagens. Te amo, ela diz sorrindo, e eu respondo eu também. Ela conta orgulhosa que verá um filme de 14 anos, entrará com a carteira de uma colega. Não precisa correr, meu anjo, tem tempo. Mas ela já se virou. E lá se vai minha Lolita, correndo estabanada pelo estacionamento, mochila às costas, as pernas, as meias brancas. Tão linda em seu prazer de me contrariar.

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Ricardo Kelmer 2005 – blogdokelmer.wordpress.com

Este e outros textos você encontra no livro Vocês Terráqueas

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Comentarios01 >> COMENTÁRIOS

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01- O primeiro conto q li foi sobre a Lolita… sorriso… fiquei um pouco incomodada, sabe aquela coisa hipócrita de achar a menina mto nova, mas no fundo sentindo maior tesão pela coisa??? Pois é, lembrei também q sempre tive uma queda, não, um TOMBO, por homens assim 15, 20 anos mais velhos (e hj isto me é complicado… rsss). Ilde Nascimento, São Luís-MA – abr2009


Um ano na seca (03) Daniele

Setembro 3, 2009

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Daniele – Safada ou comportadinha

A saga kelmérica Um Ano na Seca tem feito rir algumas leitoras sádicas. Não foi nada engraçado ficar um ano inteiro sem sexo mas se isso hoje diverte o respeitável público, então ótimo, vou encarar a coisa como, digamos assim, uma saudável reciclagem das desgraças da minha vida pregressa.

Onde parei no capítulo passado? Ah… Daniele, a morena de papel. Que comprei na banca por oito pilas e levei pra casa quando eu já tava a seis meses sem dar umazinha. Poisbem. Durante algumas semanas eu e Daniele vivemos bons momentos mas… havia um probleminha. Eu sempre queria Dani de quatro, ela ficava linda assim. Mas na hora H, quando eu tava chegando lá, a página virava e Dani passava pra outra posição, uma posição bem sem graça, que merda. Acabamos discutindo, eu querendo Dani safada de quatro e ela se querendo toda comportadinha numa poltrona.

Percebi que meus sentimentos já não eram os mesmos do início. Então fui até a janela e disse, sem olhar pra ela, olhando o fim de tarde lá fora: Beibe, preciso de um tempo. Ela ficou meio tristinha mas entendeu na boa. É uma vantagem das mulheres de papel, elas sempre entendem quando o cara precisa de um tempo. Daniele acabou na quarta gaveta do guarda-roupa, junto com a caixinha do brau. Até hoje desconfio que foi ela quem fumou o precioso, um especialíssimo que eu tinha guardado pro carnaval. Mas tudo bem, foi bom enquanto durou. Meses depois eu me mudei de Botafogo e desde então não tenho notícia de Dani, acho que a coitada caiu da mudança. Sorte de quem pegou.

Com isso, acabei voltando às ex-namoradas debaixo do chuveiro. Nada contra, claro, mas acontece que naquela secura de seis meses eu já havia homenageado todas elas, não havia sobrado nem mesmo uma fulana que anos atrás me atacou numa festa, terminamos num hotelzinho vagabundo e, quando acordei de manhã, a última coisa que eu lembrava era a gente saindo da festa e cadê que eu conseguia lembrar do nome da criatura? Nem do rosto eu lembrava mais. E até eu hoje não lembro. Imagine o estado do cidadão… Poisbem, até essa eu homenageei, lá debaixo do chuveiro. Homenageei sim, pra você ver a consideração que eu tenho com minhas ex e até com as taradas de festa, viu?

Foi aí que um amigo me apresentou Sonja. Que não era de papel.

Ih, infelizmente acabou o espaço. Posso continuar semana que vem? Não? Ah, mocinha, não seja tão exigente comigo, entenda minha situação, eu tô precisando desabafar, aprendi isso com vocês, botar pra fora os sentimentos, né isso? Então, tô botando. Mas não dá pra botar tudo de uma vez. Se você estiver aqui na próxima semana, eu continuo. Você vem, beibe?

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01. Continua a história do 1 ano na seca q está ótima, tô imaginando quem seja a Sonja. Daniela, São Paulo-SP

02. Meu desejo pra 2008: saber o final da saga kelmérica de 1 ano na seca. Não faça assim, clemência!!! Prometo lhe indicar novos leitores. Mas, por favor, continue a saga da estiagem! – Jessica (de onde mesmo?)


Um ano na seca (02) Daniele

Agosto 25, 2009

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Daniele – A morena da banca

Atendendo aos pedidos de 4 curiosas leitoras (Suely, de Brasília, Rafaela, de Campina Grande, GG, de Fortaleza, e Jéssica, que não sei de onde saiu) lá vai a continuação da minha triste saga de abstinência sexual, que comecei a contar no capítulo anterior. Pra você ver o tipo de literatura que a juventude de hoje tá lendo, é o fim do mundo…

Poisbem. Seis meses de Rio de Janeiro. Seis meses sem dar nenhumazinha. Morando sozinho, vivia de casa pro trabalho e do trabalho pra casa, a energia totalmente voltada pra economizar o máximo de dinheiro possível. Sem amigos homens com quem sair, sem namorada, sem nem um rolinho sequer, o jeito era ficar em casa escrevendo e ouvindo música, bebendo sozinho. Vivia uma fase de repensar a vida e reavaliar valores, precisava mesmo de solidão.

No começo o tesão até que ficou comportado. Eu me resolvia com as ex-namoradas mesmo, homenageando-as durante o banho: apoiava um braço na parede, escolhia a ex da vez e mandava ver. A água quentinha escorrendo pelo corpo é uma diliça mas o perigo dessa posição, não sei se você sabe, é que as pernas ficam bambas, a vista escurece e bufo!, a gente cai pro lado, se estatelando duro no chão. Um dia caí e bati a cabeça na privada, fiquei com um galo horrível na testa durante uma semana. Mas os acidentes também têm seu lado positivo. Esse me fez perceber, finalmente, que aquilo já tava passando dos limites. No outro dia tomei uma decisão: revesti a privada de esponja. Agora não tinha mais perigo.

Um dia abateu-se sobre mim a desgraça: eu lá, sob o chuveiro, pronto pra mais uma homenagem quando percebi que… o estoque de ex havia se esgotado. Simplesmente não tinha mais nenhuma ex, todas já haviam passado por aquele chuveiro, até mesmo os casos, os rolos de um mês, de uma semana, de uma noite, as ficantes, todas, todas. Putz, e agora? Desesperado, vesti uma roupa e saí decidido: só voltaria pra casa acompanhado.

Voltei com Daniele, uma morena linda, jeitinho meigo, uma bunda doce e irresistível. Ainda tentei barganhar o preço mas o dono da banca foi irredutível. Paguei oito reais, pus a Sexy na mochila e voltei pra casa. Sou um cara exigente com mulher, até mesmo com mulher de papel, não gasto meus zóides com qualquer peladona não. Qualé? Tá pensando que achei os bichinhos no lixo?

Daniele me fez companhia durante algumas semanas. Como ela não gostava de água, namorávamos na cama mesmo, nada de chuveiro. Até que um dia…

Hummm, vou parar por aqui. Acho que essas confidências eróticas estão ficando bizarras. Nem mesmo Suely, GG, Rafaela, Jéssica e Marcia, as taradas do blog, vão aguentar.

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01. Você tá é enrolando, não quer continuar sua saga para nós, sensíveis mulheres que somos, nos deleitarmos com sua seca quase nordestina. Continue, continue…Rafaela, Campina Grande-PB

02. Como é que pode? Fico uma semana esperando ansiosamente você postar e no final das contas você não termina a história..Isso não é coisa que se faça com suas pobres leitoras! hehe Ow Kelmer, continuuaaaa, por favor – Flávia, Fortaleza-CE

03. Dessa vez, vc se superou! Sua narrativa tá tão engraçada que eu fiquei rindo sozinha feito doida, na frente do micro. Mas esse suspense todo já tá me dando ansiedade.  Conta logo o resto da saga, vaaaiii!!! – Jessica (de onde mesmo?)

04. Oi meu querido…rapaz as meninas estão com toda razão..(vc faz muuuuuito suspense…)conta logooooo…vc não imagina o quanto nos deliciamos lendo suas histórias, reais ou não, e outra é tudo de bom vermos a opnião sincera de um homem, saber o que vcs pensam é tudo. Ahhh, quanto as risadas da Jéssica ela não está só (EU TAMBÉM.. HEHEHEH). PIOR, QUE SEMPRE LEIO NO TRABALHO… KKKKKK BJOOOOO – GG, Fortaleza-CE


Um ano na seca (01) O início da tragédia

Agosto 24, 2009

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O início da tragédia

Eu já fiquei um ano sem sexo. Verdade. Quer saber mesmo? Foi quando eu tinha 4 anos.

Ahahahah! Desculpe, leitorinha, não resisti à piada. Agora falando sério, já fiquei um ano no perigo sim, e eu já era quarentão, olha que coisa. Em 2004 eu havia me mudado pro Rio de Janeiro e, sem amigos com quem sair, sem namorada e sem dinheiro, tudo que eu fazia era ir pro trabalho e voltar pra casa. No começo não teve problema algum pois minha energia tava tão voltada pro trabalho e pra economizar grana que as ex-namoradas resolviam o problema. Comassim? Ora, era só lembrar delas na hora do banho…

Mas depois de seis meses a coisa começou a ficar feia e as ex já não resolviam, eu já havia homenageado todas elas, tava até repetindo.

Putz, mas será que você tá realmente interessada nesse papo de punheteiro véi safado? Bem, sejamos francos: se você frequenta este blog, é porque santa você não é, né? Então dá licença que eu vou continuar a história. Então, como eu ia dizendo…

Não, melhor não, depois vão dizer que eu tô pervertendo menores pela internet. Dá licença, deixa eu fechar a calça pra ir embora, tira a mão daí.

Mas se você postar um recadinho bem fofinho pedindo pra eu contar o resto da história, eu conto, viu? :-)

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01- Sobre seu ano de abstinência uma curiosidade: vc contou o tempo? como foi o primeiro encontro? Suely, Brasília-DF

02- Meu desejo de ruiva é que você termine a historinha de 1 ano de seca. kkk Sucesso, Kelmer. – Rafaela, Campina Grande-PB

03- Fiquei curiosa pra saber como vc foi levando a secura depois do 6º mês. Conta, vai! Ah, não esquece de contar também como foi que vc saiu desse 1 ano de secura! A pobrezinha sobreviveu? (brincadeirinha…) – Jéssica (de onde mesmo?)

04- muito me interessou a sua experiência de um aninho sem nada..pobrezinho.. pq eu, nossaaaa, meu namo já sabe quando fico irritada.. das duas uma ou é tpm ou é falta…conte aí mais de como vc saiu dessa, todas nós mujeres queremos saber!!! besos ;) - GG, Fortaleza-CE


Cristal

Julho 22, 2009

Ele quer falar sobre tudo que viveu ali dentro, todos aqueles anos, os amores e desamores, o quanto sofreu e fez sofrer, perdeu e se encontrou… Mas não precisa, ela já sabe

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Cristal-03Ele pensa enquanto a pergunta da Mestra ainda ecoa: Que tal passar o aniversário com sete namoradas? Ele olha para trás, para frente, o corredor infinito, portas de um lado e outro. Que estranho presente de aniversário…. A Mestra abre a porta. Ele pensa. Pode recusar? Não, ele sabe que não pode. E entra, devagar, desconfiado.

Silêncio. Uma sala enorme, toda branca. À esquerda ele vê dois olhos verdes. Chega mais perto e reconhece: é ela. Uma dor repentina o entristece. O que acontece com os sentimentos que desprezamos em nós mesmos? Ele se desculpa: Eu era só um garoto estúpido mas amei você mesmo assim, acredite…

Rejuvenescido. É como ele se sente no ambiente seguinte onde a bailarina faz piruetas sobre uma nuvem. Ela sorri um sorriso tão juvenil que imediatamente ele se sente mais jovem do que é, do que era. Quer sentar para admirar mas não há tempo. Resta-lhe dizer: Tudo valeu, as alegrias, as brigas, tudo, mas o tempo, infelizmente não houve tempo, você já estava de partida, fui apenas sua despedida desse mundo…

Beleza e loucura… beleza e loucura… De algum lugar escuta alguém sussurrar. Lá encima, no alto da torre. A linda princesa. Ela o chama, implora que a liberte de sua prisão. E joga duas enormes tranças. Que caem a seus pés. Bela e irresistível como o diamante da insanidade… E ele foi, subiu agarrado às suas tranças até o alto. E lá no alto teve medo do que ele era. Horrorizado, despencou. E morreu sua primeira morte, rígido de dor. Obrigado por ter me matado, princesa, eu a amarei para sempre por isso, obrigado…

Vazio. O aposento vazio. Ele escuta um piano… Um som doce, tão doce que o sente na boca, se desmanchando sob a língua. Depois que se desmancha é que percebe que o doce… é ela. Tenta provar o som mais uma vez… porém tudo volta a ser o imenso vazio. Sente-se tão incomodado que se apressa para sair… mas uma idéia súbita o faz voltar. E então compreende. O vazio é ele, ele todo o imenso vazio, sem nada para oferecer além da própria busca alucinada por si mesmo. Ela ao piano, os seios generosos, ela e a doçura que sempre se desmancha antes que ele a alcance… Desculpa, por favor, que era eu um vaso vazio?…

Fantasias. Mil fantasias nos espelhos ao redor. Qual delas será ele? Experimenta todas e nenhuma lhe cabe. Sente-se perdido em meio a tudo aquilo que não é ele e se angustia ainda mais. Então surge a mão dela, amorosa e compreensiva a acariciá-lo. Ele leva a mão ao peito e se acalma. No meio do caleidoscópio de tantos eus ele sussurra: Você me vê, mais do que eu mesmo, e isso me faz existir…

Girando e girando e girando… Ele agora gira no escuro, sem saber onde se encontra. Está úmido e abafado. Enquanto gira, sente a excitação lhe subir pela virilha, mais, mais… Um segundo antes de gozar, percebe que está na caverna e então compreende que está dentro dela, ela o comeu, viúva negra. Entorpecido, deita-se para morrer, finalmente descansar na escuridão total. Mas no último segundo desperta aterrorizado e, com as forças que restam, levanta e as luzes se acendem. Fomos fundo, meu bem, fomos tão fundo em nós…

Karma. O último ambiente é o ônibus que o levará ao inferno. Quer desistir mas o olhar de sua irmã lhe diz que não há outro caminho para o céu. Ele entra, fecha os olhos e chora indefeso, pressentindo o que virá. A rodomoça oferece o cálice e quando o bebe, vê que é sangue. Não há palavras para descrever o gosto, a dor, o inferno, a morte. Dias sem noites e noites sem dias sem poder dormir. Rendido, permite que demônios devorem sua carne. Sem mais qualquer orgulho, abre os braços e oferece a alma à Terra. Na última noite escuta pombas brincarem no teto… e percebe que renascerá. E tudo se esclarece: Você é o que eu precisava viver para que o Cosmos se reequilibrasse em mim, não há palavras para agradecer…

A porta se abre e ele cai de joelhos, chorando de gratidão. A Mestra o abraça, compreensiva. Ele quer falar sobre tudo que viveu ali dentro, todos aqueles anos, os amores e desamores, o quanto sofreu e fez sofrer, perdeu e se encontrou… Mas não precisa, ela já sabe. Ela pede que ele abra a mão… e lá estão sete pedrinhas de cristal, em todas o reflexo de seu próprio rosto. Extasiado, ele pega os cristais com cuidado, admirando seu brilho. Então, de repente, não são mais sete, são apenas um, o mais belo. Ele aperta o cristal ao peito e respira fundo. Quer dizer algo mas, pensando bem, não há nada para dizer. Nem pensar. Apenas sentir.

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Ricardo Kelmer 2005 – blogdokelmer.wordpress.com

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> Este texto integra o livro Vocês Terráqueas – Seduções e perdições do Feminino

> Desconstruindo Kelmer (por Wanessa) – Totalmente metida e curiosa, eu me debrucei sobre o conto e fiz minha própria interpretação. Bem, a presença da Mestra, a vida, a Deusa, o Tao, o fluxo irrevogável de tudo, não me espanta que seja uma figura feminina…


O último homem do mundo (9)

Julho 12, 2009
O sonho de Agenor é que todas as mulheres do mundo o desejem. Para isso ele está disposto a fazer um pacto com o diabo. Mas há um velho ditado que diz: cuidado com o que deseja pois você pode conseguir…

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CAP. 9

Na rodoviária, enquanto Agenor esperava o ônibus, foi surpreendido pela equipe de tevê da capital, que havia acabado de chegar a Jubá à sua procura. Ele não quis dar entrevista mas mesmo assim o filmaram entrando no ônibus.

Na estrada, a caminho de Bocariús, foi que atinou: o pacto com o diabo! E ficou pasmo, os olhos arregalados. Tudo aquilo seria o pacto funcionando?, ele se perguntava, a mão sobre o coração agitado. Talvez o diabo estivesse realizando seu desejo, embora por vias que ele jamais pudesse atinar. Todo o tempo pensou que ficaria mais bonito, talvez o diabo lhe fornecesse um perfume irresistível… Mas não, não foi nada disso.

Se era realmente o pacto funcionando, então lamentava que os outros homens estivessem pagando tão caro pela sua felicidade. Mas talvez fosse só por um tempo, logo voltariam ao normal. Mas se voltassem ao normal, como ficaria ele?

O ônibus chegou a Bocariús na hora do almoço. Agenor estava faminto, pensava somente num prato de comida. Encostou-se no balcão da lanchonete e pediu arroz, feijão, bife e ovo. Na tevê passava uma reportagem, mostrando o último homem de Jubá entrando no ônibus, seguindo para… Bocariús.

Todos na lanchonete pararam ao ouvir o nome da cidade. Agenor nem respirava. A garçonete foi a primeira a reconhecê-lo.

– Gente, é ele! O homem de Jubá!

No instante seguinte estavam todos à sua volta, queriam perguntar coisas, tocá-lo. Os homens imploravam que divulgasse a receita milagrosa, as mulheres o abordavam eufóricas. Agenor se desvencilhou como pôde e saiu. Mas as pessoas o seguiram. É o cara de Jubá!, uma garota gritou da janela do ônibus que passava na rua. Ele vai morar aqui!, gritou a outra. E a terceira completou: E vai casar comigo!!!

Em poucos minutos uma multidão o acompanhava pelas ruas, parecia uma procissão. O comércio fechou para vê-lo passar. Agenor correu e a multidão correu atrás. Finalmente ele chegou à casa da irmã de sua mãe, ofegante, a roupa rasgada, um sapato faltando. Tia Zulmira, noventa e cinco quilos de gordura e macheza, abriu rápido a porta e botou para dentro o sobrinho escangalhado. Depois, brandindo a carabina velha, gritou que o primeiro que chegasse perto ia ficar que nem peneira. E atirou para o alto, espalhando a multidão.

Mas a cidade inteira já sabia quem havia chegado e não o deixaram em paz nem por um minuto. Eram populares, radialistas, comerciantes, religiosos, vereadores e toda classe de gente interessada em ter com o último homem de Jubá. A tia trancara portas e janelas e desligara o telefone. Mas lá fora a multidão alvoroçada gritava seu nome, homens e mulheres, e tarde da noite ainda tinha gente rondando a casa.

Agenor estava cada vez mais assustado. A tia, porém, lhe garantiu que ali dentro ele estava seguro.

– Obrigado, tia. Vou ficar em dívida com a senhora para o resto da vida.

De madrugada, outra noite sem conseguir dormir, Agenor viu a tia entrando no quarto.

– Ô, meu filho, acuda sua tia, acuda… Não é só lá em Jubá que tem carestia de homem não…

Foi assim que Agenor pagou a dívida.

Antes que amanhecesse, ele aproveitou a escuridão, correu para a estrada e pegou carona num caminhão. Sorte que o motorista não o reconheceu. Desceu numa cidadezinha que nem sabia o nome. Mas lá também as pessoas imediatamente o reconheceram. Ele até que tentou conversar mas a confusão logo se instalou ao seu redor, os homens, raivosos, se arregimentando para capá-lo e as mulheres, revoltadas, tentando impedir. Quando a polícia chegou, ele precisou correr bastante para não ser preso por incitar a desordem.

Pobre Agenor. Já não havia mais onde se esconder. Sua imagem fora divulgada pela tevê para o mundo inteiro, o mundo todo sabia seu nome, conhecia detalhes de sua vida. Para onde fosse, seria reconhecido e apanhado. Podia ser preso, podia ser morto.

Mas havia um lugar sim, lembrou Agenor, a esperança de repente renascida. A capital. Lá tinha muita gente, parecia formigueiro. E as pessoas estavam sempre ocupadas demais para reparar nas outras.

Foi assim que Agenor, pela primeira vez na vida, pisou o chão da cidade grande. Escondendo o rosto com boné e óculos escuros, claro. Na primeira lixeira jogou fora todos os seus documentos. Não era mais Agenor. Era um ninguém.

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(continua)

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Desconstruindo Kelmer (Wanessa)

Julho 12, 2009

Cristal-03b.

Desconstruindo Kelmer
por Wanessa, 2009

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Eu adoro o Vocês Terráqueas. E eu, grande releitora que sou, claro que escarafunchei o livro todo, li de cabo a rabo incontáveis vezes. Principalmente depois daquela conversa que nós tivemos, em que tu me contou um segredinho que se esconde em alguns textos. Depois disso, a tua obra virou um mistério ainda maior pra mim. Comecei a ler teus textos com mais atenção, agora entendo melhor algumas coisas e desconheço completamente outras.

Um conto em especial me instigou desde a primeira leitura: Cristal. A ordem dos acontecimentos é compreensível, tem começo, meio e fim, mas não dá pra terminar a leitura sem a sensação de que tem algo muito maior que eu não consegui captar. Eu, meio Sherlock Holmes das palavras, fico tentando decifrar os enigmas, seguir possíveis pistas, mas é tudo em vão. Não dá.

Totalmente metida e curiosa, eu me debrucei sobre o conto e fiz minha própria interpretação. Bem, a presença da Mestra, a vida, a Deusa, o Tao, o fluxo irrevogável de tudo, não me espanta que seja uma figura feminina. Um presente de aniversário, a viagem sem escolha. Depois o corredor cheio de portas e ela aparece, a Simone. Provavelmente um amor da adolescência. Eu vejo um Ricardo cheio de ideias, querendo tudo ao mesmo tempo. Tempo que, até então era inesgotável e por isso permitia um monte de erros que levam a um rompimento doloroso, que deixa uma dor que invade, dor física, forte.

Encontro com a Renata. A bailarina que faz piruetas num nicho, algum lugar perdido, intocável. Os movimentos leves; contemplamos a beleza porque é finita. Melhor não me demorar por aqui, não há tempo, só pra recuperar o fôlego, o assombro diante das surpresas da vida.

A Bel traz o encontro com a princesa, o primeiro. Joga suas tranças da torre; beleza e loucura juntas provocam vertigem? A morte do primeiro Ricardo, daquele que por vezes era desconhecido de si próprio, te deixa profundamente grato, a mim também. Vânia, Valesca, Vanessa, Valéria, são tantas as possibilidades dessa musicista sensual, sensual como doce desmanchando na boca. O inalcançável, mesmo que a distância entre os corpos seja curta. É preciso achar-se a si, antes do outro. Talvez a fuga seja o melhor caminho quando o vaso ainda está vazio.

Minhas dúvidas se multiplicam em relação aos nomes, Fabiana, Fabíola, Fátima… o nome tanto faz, as fantasias são múltiplas, volúveis, diáfanas. Encantam e entontecem. É preciso um fio que te conduza a realidade, uma mão talvez. E ela sabe fazer isso, no meio do redemoinho de possibilidades e sonhos, é bom se saber compreendido por alguém, uma certeza tranquilizadora de não ser tão estranho, hermético. Gisele, como a espiã nua em Paris, a tua cara isso. E mais uma vez a tontura, mas essa é diferente e conheço: a euforia da excitação e o gozo (ai, que saudade da tua carinha gozando…), a sensação de ir cada vez mais fundo, mais longe. Transpiração e transcendência lado a lado.

O inferno te espera e traz também o sabor indigesto. A inquietação, o ápice do sofrimento e desespero. A alma conturbada se rende a mais uma morte. Passou pelo seu Karma, Karine. As palavras não bastam para agradecer por uma nova vida. E no fim, sete encontros, sete vidas que hoje formam um só cristal, o mais belo, o ser mais incrível que ja conheci na vida, tu. Talvez eu tenha acertado um pouco, talvez tenha passado longe, mas uma coisa eu aprendi com esse conto, às vezes racionalizar sobre o que está diante dos olhos, só torna tudo mais complicado, a compreensão pode ser simples, não precisa muito. Apenas sentir.

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> Para ler Cristal


A garçonete da minha vida

Julho 8, 2009
As aventuras de Diametral e Ninfa Jessi
E a história assim registrará: naquela sexta de dezembro Diametral, que não era ainda Diametral, e Ninfa Jessi, que já era Ninfa Jessi, começaram oficialmente a mais bela e safada história de amor jamais contada, ele que a amava em silêncio havia um ano, ela chorando de raiva, desamparo e tesão

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NinfaJessiGarconete-01c

Ninfa Jessi e seus fetiches. Que eu adoro, por sinal. Um deles é por garçonete. Pelas garçonetes e também por ser uma garçonete. Pra ela é umas das melhores profissões que uma mulher pode ter na vida.

- Homens, mulheres e vodca toda noite, Gatão! E ainda ser paga pra isso!

Quando a conheci, pelo Orkut, Jessi tinha 19 aninhos. Idade perfeita pra uma taradinha como ela se perder no lado bom da vida. De família do interior, mal esperou fazer 18 anos: largou o namorado careta, a cidade que não entendia seu cabelo mutante e suas lentes coloridas e se picou pra capital, queria estudar cinema. Dividia um quarto com uma amiga e trampava num espaço cultural, onde via filme de graça e estava sempre conhecendo homens e mulheres interessantes – conhecendo e comendo, claro, que ela desde então já não prestava. Jessi, a pequena tarada.

Mas, como ela gosta de dizer, tinha espaço pra mais adrenalina nas veias de sua vida. Na verdade Jessi queria era ampliar o diâmetro do mundo, o mundo que ela conhecia ainda era pequeno demais pra tanto sonho e tesão que ardiam em sua alma e em seu corpo. Ela precisava de mim e não sabia. Mas antes de mim ainda haveria alguns capítulos em sua vida.

Então o Bukowski abriu vaga pra novas garçonetes. Bukowski, o bar que toda menina má sonha ter no currículo. Era um barzinho rock´n´roll que era meio inferninho, onde as garçonetes faziam uns shows performáticos bem apimentados. Cara, o público enlouquecia, choviam gorjetas. A casa pagava academia pras meninas manterem seus corpinhos em forma e elas tinham até professora de dança. Era bem organizado o negócio. E lá estava a adrenalina que minha pequena precisava.

Ela passou na entrevista, passou no teste de dança e aí ficou faltando apenas o teste final que a professora exigia. Adivinha onde era o teste final? Na cama da professora, claro, professorinha esperta.

Já perfeitamente ciente das delícias que uma xana proporciona, o tal do teste final não desmotivou minha pequena nem um pouco. E ela fez, claro. Mas a professora deve ter ficado com muita dúvida pois em vez de um só, fez um bocadão de testes finais com ela. O resultado é que as duas se apaixonaram, é mesmo difícil não se encantar pela Jessi, e assim a pequena tarada virou garçonete do Bukowski e foi morar com sua professora de dança.

- Melhor que dançar, ela me ensinou a comer direitinho uma mulher, Gatão. Isso não tem preço, tem?

Ninfa Jessi não presta.

Vem desse romance com a professora outro fetiche de Jessi, que hoje ela não dispensa com nossas namoradas: a morena adorava que ela a comesse com aqueles paus de borracha, ficava louca, gozava horrores. Jessi diz que numa dessas vezes, sua morena de quatro e ela metendo forte, por alguns instantes deixou de ser ela mesma e de repente era um homem, e quase pôde entender realmente, de corpo e alma, o que é ser homem. Foi algo meio místico, que nunca mais se repetiria com a mesma intensidade, mas que sempre volta quando ela está dentro de uma mulher, e também quando ela me vê dentro de uma mulher – nesses momentos seu olhar sempre busca o meu, como se nele pudesse reencontrar a louca sensação que ela uma noite teve. Como se através de mim e do nosso amor, trepando com nossas namoradas, ela pudesse enfim ser o homem que ela não é.

NinfaJessi-027Durante seis meses Jessi experimentou a felicidade que jamais tivera em sua vida. Tinha o emprego dos seus sonhos, ganhava bem, era querida por todos os clientes e vivia seu lindo caso de amor. Seus shows no Bukowski? Eram dos mais aguardados, principalmente quando ela atuava com Sheilinha, a Sheila Dinamite. Todas as meninas tinham nomes artísticos e vem dessa época seu nome, Ninfa Jessi, bolado pela professora. Nome perfeito, combinava demais com ela, com os modelitos de ninfeta que ela usava, os lacinhos no cabelo – e, é claro, com seu apetite sexual. Não haveria nome melhor.

Mas nesse mundo os ventos mudam, né? O primeiro grande amor da vida de Jessi durou até o dia em que um vento em forma de loirinha desempregada bateu lá no Bukowski pra fazer teste pra garçonete. Exatamente, a professora trocou Jessi por ela. Pobre Jessi, sofreu pra caramba. Deixou o apê da professora e alugou uma quitinete. Mas o pior era ter que encontrar sua paixão quase todos os dias e se morder de ciúmes sempre que chegava garçonete nova na casa.

Foi por esses dias aí que fui lá no Bukowski. Nossa amizade, que havia começado numa comunidade bluseira do Orkut – sim, foi o blues crônico da vida que fez nossos caminhos se cruzarem – estava no estágio messenger. Já apaixonado pela pequena tarada, como ela mesma se chamava, e sabendo que ela estava no Bukowski, me piquei pra lá. Cara, paguei a maior grana pra entrar, e tudo que eu tinha no bolso só deu pra tomar duas cervas. E ela nem me viu. Mas valeu a pena. Foi a primeira vez que meus olhos pousaram diretamente em Ninfa jessi. E vê-la ali, com seu jeitinho cativante de moleca safada, dançando nua no balcão com outra menina, putamerda, foi inesquecível. Era a mulher perfeita, inacreditavelmente perfeita, assustadoramente perfeita. A Deusa-Ninfa dos meus sonhos que nem nos melhores sonhos eu havia sonhado. E sabe quando bate aquela certeza fulminante e inexplicável no destino? Bateu. No Bukowski, apertado no meio de outros caras e outras meninas que assistiam ao show, eu tive a calma certeza que ali estava a mulher da minha existência, a deusa que seguiria comigo pela vida. O motivo de eu acordar todos os dias com aquela dilacerante saudade do que eu nunca tinha vivido.

Faltava só ela também saber disso.

(continua)

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Ricardo Kelmer 2009 – blogdokelmer.wordpress.com

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NinfaJessiGarconetes-01d> A continuação do conto, contendo fotos de Ninfa Jessi e de um show no Bukowski, além do Álbum das Garçonetes, está disponível aqui (somente para Leitor Vip)

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Protegido: A garçonete da minha vida (VIP)

Julho 8, 2009

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O último homem do mundo (8)

Abril 9, 2009
O sonho de Agenor é que todas as mulheres do mundo o desejem. Para isso ele está disposto a fazer um pacto com o diabo. Mas há um velho ditado que diz: cuidado com o que deseja pois você pode conseguir…

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CAP. 8

No dia seguinte um conhecido repórter da rádio local, de modos muito delicados, e que fazia uma reportagem sobre a epidemia, cismou de querer entrevistar algum homem que ainda estivesse com suas funções de macho normais. Acionando seus contatos e perguntando daqui e dali, o repórter soube do carteiro Agenor. Animado com a descoberta, alcançou-o no momento em que, fim de expediente, trabalho terminado, o moço se encaminhava para matar uma barata lá para o lado do açude. Porém, tímido como era, Agenor nem deixou que o repórter lhe explicasse o motivo da entrevista e saiu correndo.

Naquela mesma noite a reportagem foi ao ar. Não continha a entrevista de Agenor, claro, mas falava dele, e muito. E bem.

Dez minutos após terminada a reportagem já tinha gente em frente à casa do carteiro Agenor. Dois amigos e sete vizinhas. Dona Fafá disse que o filho não estava mas que não devia demorar a chegar. Todos resolveram aguardar, os dois amigos e as sete vizinhas. Oito, porque chegou mais uma. Aliás, nove.

Do outro lado da cidade, Agenor pediu que a garota parasse um pouquinho com o vai-e-vem sobre seu corpo porque ele acabara de escutar seu nome no rádio.

– Preciso ir para casa – ele falou, afastando a garota. – Mamãe deve estar preocupada.

– Ah, fica mais um pouquinho…

Era a terceira vez que escutava aquela mesma frase naquele dia.

Alguns minutos depois Agenor dobrou a esquina de sua rua e tomou um susto. Havia um bando de gente em frente à sua casa. Ele se escondeu atrás de uma árvore, com medo, enquanto pensava o que fazer. Decidiu entrar pelos fundos.

– Filho, aquilo que saiu no rádio é verdade? – Foi a primeira coisa que a mãe perguntou, ao abrir a porta do quintal para ele entrar.

– Mãe, a senhora viu? Está cheio de gente lá fora.

– Na sala também. O Chico da Magnólia, seu tio Ferreirinha… Suas primas também estão aí. Até o prefeito veio.

– Pode dizer para todo mundo que eu viajei.

– Mas…

– Vai, mãe. Vou esperar aqui.

Agenor escondeu-se no quartinho dos fundos enquanto dona Fafá voltava à sala.

– Foi um custo mas foram embora – ela disse, retornando. – Agora me conte direito essa história.

Agenor falou que não sabia o que estava acontecendo. Mas estava muito preocupado com tudo aquilo.

– Então vá dormir, filho, que é melhor. Estou vendo que você está cansado. Trabalhou muito hoje, né?

Agenor pediu a bênção e foi para o quarto. Mas sono que é bom, não teve, não conseguiu pregar o olho. Sem falar que no meio da madrugada uma vizinha conseguiu entrar pela janela e se atracou com ele, foi um custo soltá-la, a moça pedindo pelo amor que ele tinha a Nossa Senhorinha que também desse uma chinelada em sua barata, que ela andava muito precisada. E já perto de amanhecer foi a Jaciara, filha do dono do cartório, que todo mundo desconfiava ser meio destrambelhada do juízo. Pois ela provou que era mesmo: trepou-se no telhado da casa, e ficou lá em cima, nua, berrando para o mundo inteiro ouvir que estava grávida de Agenor e que ele devia casar com ela. Mentira, claro, Agenor nunca nem tocara na moça, e ela antes nunca nem tinha olhado para ele.

Assustado e exausto pela noite em claro, Agenor decidiu que o melhor era ir embora.

– A gente pode mudar de endereço.

– Não vai adiantar, mãe.

– O mundo lá fora é tão perigoso, filho. Essas mulheres todas se enxerindo para você…

Agenor olhou para a mãe e sentiu uma pontada de tristeza magoar seu coração. Súbito percebeu o quanto estava sendo egoísta. Como podia pensar em abandonar sua mãe querida, deixá-la sozinha? Pensava apenas em si mesmo, esquecera da mãe. Como podia ser tão ingrato com aquela que lhe deu a vida, que o criou e nutriu?

Então se achegou no colo da mãe, que o abraçou forte, abraço sentido, apertado, seu corpo envolvendo o do filho amado… Agenor fechou os olhos e deixou-se levar por aquele abraço gostoso, o mormaço aconchegante dos seios de dona Fafá, que o apertava mais forte contra si, mais forte, mais forte…

Agenor abriu os olhos. O rosto afundado entre os seios grandes da mãe, quase não conseguia respirar. Um terror repentino se apossou de sua alma. O que estava fazendo?

– Tenho que ir embora, mãe… – balbuciou, levantando-se. – A senhora me perdoa?

– Eu sabia que um dia você ia partir, filho.

Ela então foi ao quarto e voltou com umas notas que tirara do fundo da gaveta.

– Guardei esse dinheirinho para você. É muito não mas ajuda. Tome, leve. Vou ligar para minha irmã Zulmira para ela lhe receber.

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(continua)

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Diâmetros exaltados

Março 26, 2009
As aventuras de Diametral e Ninfa Jessi
Jessi é uma pequena que conheci, adivinha onde, no Orkut. Linda, louca e gostosa. Tem duas manias: uma é trocar a cor do cabelo. A outra é ampliar o diâmetro comigo. Comigo e umas namoradas que ela arruma pra gente se divertir

diametralninfajessi05b

O júri decidiu que Diametral é culpado das acusações de incentivo ao sexo promíscuo e doentio entre os jovens brasileiros. A pena é assistir durante um ano a todos os programas religiosos do MNBC na madrugada. Faça-se cumprir.

Aaaahhh!!! Acordo de repente, sobressaltado. Olho ao redor. Estou no quarto do motel. Ninfa Jessi dorme nua ao meu lado. Ufa, foi só um sonho ruim… Levanto, afasto devagar a cortina da janela e observo. Lá fora o jipe no estacionamento, o luminoso do motel Centelha Vermelha, a estrada escura e deserta. Está tudo bem, eles não têm nossa localização.

Volto à cama. Jessi murmura algo e me abraça. Melhor dormir, amanhã cedo seguiremos. Mas a lembrança dos últimos acontecimentos insiste. Tudo começou quando conheci aquele site de relacionamentos…

Julho de 2005. Lá estou eu me cadastrando no Orkut. Esse negócio virou mania no Brasil. Tem gente que vive lá conectado e só sai pra comer e dormir, isso quando não dorme sobre o teclado. Tem mulher que conheceu o marido lá. É lá que muito marido monitora as paqueras da mulher. Tem de um tudo. Outro dia conheci uma comunidade que luta pela liberdade dos pinguins de geladeira. Claro que entrei.

Novembro de 2005. Crio em meu site pessoal uma seção chamada Submundo Orkut, pra comentar o que rola nessa tal dimensão onde milhões de brasileiros vivem parte de suas vidas. É, eu assumo, sou bisbilhoteiro do comportamento alheio. Por falar nisso, algo que sempre me chamou a atenção foi aquela frase de boas-vindas que consta na página de abertura: Participe do Orkut para ampliar o diâmetro do seu círculo social. Que frase mais esdrúxula! Comento com Jessi e ela solta sua gargalhada inconfundível. Jessi é uma pequena que conheci, adivinha onde, no Orkut. Linda, louca e gostosa. Tem duas manias: uma é trocar a cor do cabelo. A outra é ampliar o diâmetro comigo. Comigo e umas namoradas que ela arruma pra gente se divertir. Ninfa Jessi.

Junho de 2006. A crônica Ampliando o diâmetro é publicada na Kelméricas, minha coluna semanal no site do jornal O Povo. O texto é uma gozação sobre essa tal frase do diâmetro.

Dia seguinte. Recebo as primeiras mensagens. São os leitores, a grande maioria me parabeniza pela crônica. Alguns não gostam e, entre esses, um se diz integrante de um tal MNBC, Movimento Nacional pelos Bons Costumes, e afirma que solicitará ao jornal a minha saída do quadro de cronistas. E completa ameaçando me processar por incentivo ao sexo promíscuo e doentio entre os jovens brasileiros. Não acredito… Jessi fica indignada: Esse povo devia é ter mais senso de humor, em vez de ficar se preocupando com o diâmetro dos outros!

Próximo dia. Pelo sim pelo não, lá estou eu no computador, xícara de café ao lado, buscando informações sobre esse tal de MNBC. Não encontro nada. Será que era pegadinha? Descubro porém que a direção do jornal de fato recebeu protestos de uma meia dúzia de dois ou três leitores indignados com meu texto. Hummm, talvez o MNBC seja uma entidade meio secreta, tipo Opus Dei, que reúne gente estranha em reuniões noturnas e não divulga suas atividades. Desligo o computador e vou pra janela respirar. E percebo que alguém me observa do prédio ao lado. Hummm, não estou gostando disso…

Semana seguinte. Coisas estranhas estão acontecendo. Pessoas me seguem na rua. O telefone toca e quando atendo, desligam. Talvez seja melhor ficar em casa. Pra garantir, melhor fechar todas as janelas. Melhor também não atender o telefone. Na terça entrei no elevador e reparei nas duas mulheres que entraram depois de mim: saias abaixo do joelho, blusinha comportada, cabelo preso, um livro grosso e escuro ao peito… Pregadoras do MNBC!!! Saí correndo, apavorado.

Julho de 2006. Estão batendo na porta. Não vou atender, são eles, vieram me pegar, é o meu fim… Mas reconheço a voz: é Jessi. Abro e vejo uma Jessi ruiva, até que ficou bonito. Ela me olha sério. E diz que tem algo importante pra me dizer. E diz: Entrei pro MNBC. Fico olhando pra ela, sem acreditar, não é possível… Ela então sorri, sobe a camiseta e me exibe aqueles peitos impossíveis que ela tem. E completa: Movimento das Ninfômanas Bem Comidas. E me empurra pro sofá, rindo e já desabotoando minha calça.

Vinte minutos depois, suados e abraçados no sofá, Jessi diz que não posso permitir que um bando de careta recalcado destrua minha vida. Mas fazer o quê? E ela responde: Ora, Gatão, o que a gente sabe fazer melhor… sexo e humor. Quando ela fala, tudo é óbvio. Vamos, pega a mochila, tá na hora, e não esquece o notebook. Pergunto o que planeja e ela sobe na cadeira, solene: Vamos ampliar o diâmetro do mundoooo!

Cinco dias depois. Pelo retrovisor o Centelha Vermelha vai ficando pra trás. À frente a estrada nos convida a novas aventuras. Ninfa Jessi estava certa, eu não podia continuar aceitando aquela situação. Pois bem. Não sou mais aquele cara medroso, agora eu sou… Diametral! E minha missão é horrorizar os caretas com os meus textos. Vocês pediram, caretas imbecis! Enquanto dirijo, Jessi revisa minha crônica da semana e se irrita com a forma poética com que descrevi nossa última trepada, e diz que meus leitores querem ver mais sacanagem. Meus leitores e você, corrijo. Ela solta sua gargalhada e depois faz biquinho: Então publica aquela fotinha que eu tirei no motel, vai… Oquei, pequena. O que ela não me pede sorrindo que eu não faço gemendo?

Duas horas depois. Paro o jipe na estrada pra abastecer. Desço e olho o céu, o horizonte está escuro, ameaçador. Sopra um vento gelado, papéis voam… Dias difíceis virão, digo pra mim mesmo. Entramos na lanchonete e pedimos duas cervas. Num canto uns caras feios tocam Não me peça pra te amar, sempre bom ouvir um blues. Jessi me mostra a notícia no jornal: MNBC procura cronista fugitivo. Sorrio discreto por trás do óculos escuro. Hummm, perigo: a garçonete está olhando demais…

Ei, você é o Diametral!, ela exclama, alegre. Psiu, não espalha…, respondo aliviado. Eu também não gosto do MNBC, ela diz, toda cúmplice. Entrego-lhe um cartão, acessa minha coluna, boneca, e deixa tua mensagem de apoio pra nossa luta. A garçonete guarda o papel no bolso e faz sinal de positivo. Ela é a Ninfa Jessi?, pergunta, surpresa. E Jessi, que adora uma garçonete, responde, inclinando-se e expondo seu decote irresistível: Em carne, osso e hormônios. A garota parece hipnotizada.

Pedido atendido, pequena

Pedido atendido, pequena

Pago as cervejas e deixo uma boa gorjeta. Jessi pergunta se a garota quer um autógrafo. Ela gagueja que si-si-sim. Tem preferência de lugar? E a garota nã-nã-não sabe o que dizer. Ninfa Jessi então a puxa pela cintura e… tasca-lhe um beijo na boca daqueles que não acaba nunca. Depois larga a garota que fica lá, extasiada. Ai, ai, Jessi não presta.

Na mesa ao lado uma senhora está simplesmente hor-ro-ri-za-da. Vejo que ela veste saia abaixo do joelho, cabelo preso, segura uma bíblia… Pronto, logo o MNBC saberá que estivemos aqui. Levanto e caminho pra saída: Vamos, pequena, tem muita estrada pela frente. E Jessi me segue, retocando o batom: E muito diâmetro pra ampliar!

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Ricardo Kelmer 2006 – blogdokelmer.wordpress.com

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As taras de Lara

Fevereiro 14, 2009

elasexo01Noite dessas Lara foi com o namorado prum bar e tomaram umas caipiroscas. Lara estava tarada essa noite, mais que o normal. Ela cismou que queria ir prum motel, queria porque queria.

- Desde quarta-feira que a gente não transa, Clodomir.

- Lara, quarta foi anteontem…

- Então? Dois dias sem nenhum sexozinho.

Clodomir tentou argumentar, já estava muito tarde, quase meia-noite. Nunca é tarde pro desejo, ela respondeu, guiada mais pela necessidade mesmo do que pela filosofia. Ele lembrou que estava sem dinheiro. Paga no cartão, ela insistiu, o Deliryus parcela em cinco vezes. Ele apelou: Lara, eu trabalhei demais esta semana, tô pregado, vamos deixar pra amanhã…

Ela quase desanimou. Quase. Porque enxergou uma última saída. Tá bem, então nada de motel, dariam umazinha no carro mesmo, que estava estacionado um pouco depois do bar, num cantinho mais discreto da rua, jogo rápido, ele não ia cansar nadinha. Clodomir suspirou, resignado.

Dez minutos depois Lara reclinou o banco do carona, tirou a calcinha, ergueu a saia e deitou-se, os pés apoiados no console, as pernas abertas. Abertas não, escancaradas. Clodomir, coitado, fez o que pôde. Indo e vindo encima dela, o suor escorrendo pelo rosto, um calor danado por causa dos vidros fechados, ele era um olho no peixe e outro no gato, preocupado com a segurança, podia aparecer alguém, um assaltante, hoje em dia não se pode vacilar, ops, dobrou um carro na rua, não, passou direto, tudo bem…

Mas tá pensando que Lara queria saber de segurança? Que nada! Estava tão tarada que em três minutos gozou, gozou que nem uma louca condenada, gritando dentro do carro, o carro que já estava com os vidros todos embaçados, um pé chutou e arrancou o espelho retrovisor, o outro quase quebrou o tocacedê, um escândalo. Quando Clodomir se preparava pra sair de cima dela, Lara o puxou de volta, queria mais, agora queria de quatro, vem, meu gatão endiabrado, vem logo, taradão da lagoa negra…

- Ah, não, Lara – ele protestou, e explicou paciente: – Não vamos abusar da sorte, tem muito assalto por aqui, é sério.

- Que assalto que nada, vem logo!

Mas ele não foi. Em vez disso, fechou a calça e voltou pro seu banco, pô, alguém ali tinha que ter um mínimo de juízo. Lara, ainda arfando, olhou séria pro namorado. Depois, calma e silenciosamente, vestiu a calcinha, ajeitou a saia e voltou o banco pra posição normal. E não falou mais nada até chegar em casa, uma tromba deeeeesse tamanho. Clodomir estava impressionado com aquele drama todo mas não sabia se ria ou levava a coisa a sério. Eles namoravam fazia pouco tempo e ele nunca a vira daquele jeito.

- Caramba, Lara, você ficou com raiva mesmo, heim?

- Acho melhor você ir mais depressa. Tá tarde, lembra? – foi tudo que ela disse, fria que nem uma espiã alemã.

Mal ele parou o carro em frente ao prédio dela, Lara abriu a porta e saiu. Em vez do beijo de despedida, apenas um a gente se fala amanhã. E entrou. E Clodomir ficou lá, olhando pro nada, sem acreditar.

No dia seguinte ela ligou envergonhada e pediu desculpas. Clodomir aceitou, claro, e eles deram boas risadas, estava tudo bem. Mas agora Clodomir já sabia: com Lara jamais haveria argumento bom o suficiente. Quando ela quisesse, ai dele se não correspondesse.

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Ricardo Kelmer 2008 – blogdokelmer.wordpress.com


O último homem do mundo (7)

Janeiro 12, 2009
O sonho de Agenor é que todas as mulheres do mundo o desejem. Para isso ele está disposto a fazer um pacto com o diabo. Mas há um velho ditado que diz: cuidado com o que deseja pois você pode conseguir…

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CAP. 7

Desde o primeiro caso notificado em Jubá tinham se passado quase seis meses e as estatísticas mostravam que mais de noventa por cento da população mundial masculina fora afetada pela repentina impotência e os casos prosseguiam aumentando, sem poupar nem os adolescentes, coitados, mal entrados no assunto. Podia-se realizar inseminação artificial nas mulheres, é claro, mas isso não resolvia o problema. Muito menos explicava.

Enquanto isso médicos e terapeutas faturavam alto com o desespero, pais de santo engordavam a conta bancária, pomadas e sprays milagrosos surgiam às centenas e os vibradores viraram itens obrigatoríssimos no comércio inteiro, fazendo surgir inclusive um projeto de lei que incluía o vibrador na cesta básica.

Enquanto o mundo vivia seu terrível pesadelo, naquele domingo Agenor acordou sorridente. Após dois sorvetes na lanchonete e três noites de conversa mole na porta de sua casa, Dorinha aceitara seu pedido e agora estavam namorando, ela que já fazia algum tempo comprovava, nas despedidas ao portão, que aquele romance tinha, literalmente, onde se segurar. E para comemorar o namoro, ela conseguiu folga no restaurante e passaram o sábado na lagoa bebendo vermute. No final, já noite escura, ela o puxou para si e ali mesmo sacramentaram o nheco-nheco, ele alegríssimo, ela em desesperado ardor, como se havia muito não soubesse como era um homem, coitada. Nessa noite ela foi a mulher mais feliz do mundo e, embora não houvesse muitas estrelas no céu, Dorinha viu todas elas, de pertinho, brilhando em todas as cores, uma constelação de felicidade.

Quando as amigas de Dorinha souberam que ela estava namorando Agenor e andava cantarolando alegre e vistosa, chegaram à mais óbvia das mais óbvias das conclusões. Assim foi que a partir desse dia, Agenor pôde perceber uns olhares mais insinuantes pela rua e por onde quer que fosse.

Belo dia, ao receber a correspondência entregue por Agenor, a moça da butique, de nome Carmela e apelido Botinha, que por sinal era prima da Dorinha, mas, ao contrário da prima, nunca se prestara a saliência na frente do portão, perguntou mui delicadamente a Agenor se por um acaso ele não faria a gentileza de matar uma barata voadora que teimava em não querer deixar o depósito lá atrás, ela que tinha pavor de barata, quanto mais voadora. Agenor, muito solícito, se dispôs. Quando chegou ao depósito foi que percebeu que era outra a barata. Embora a moça não fosse lá muito bem dotada de atributos físicos, tendo, inclusive, de usar bota ortopédica, daí o apelido, por causa de uma perna maior que a outra, sem falar num braço seco que furou no prego, Agenor foi solidário, ah, foi sim, e fez com que a danada da barata se aquietasse. E voltou para a rua de ânimo revigorado, nem ligando para os cães que detestavam carteiros.

Mas em cidade pequena as notícias correm que nem fogo morro acima. Dois dias depois elas foram dar no ouvido de Dorinha que, depois de largar meia dúzia de mãozada na cara da prima traidora, tratou logo de tomar providências contra o perigo que seu patrimônio corria. O que fez: botou as amigas, todas de altíssima confiança, para acompanhar a trajetória do namorado pelas ruas da cidade, olheiras a bem dizer, uma vez que ela mesma não podia fazê-lo, já que pegava no batente o dia inteiro no restaurante.

Uma semana depois Agenor já havia sido requisitado para matar duas dezenas de baratas pela cidade, inclusive na casa das tais olheiras, algumas delas crentes, irmãs em Cristo, sim, que Cristo, bom que se diga, não tem nada a ver com certas agonias femininas que costumam dar no final da tarde, quando o sol desce em Jubá e sopra um ventinho fresco que se intromete por baixo das saias.

Dorinha, de sangue quente por causa da crescente fama do namorado, agarrou-o pelo cangote no meio da praça e deu o ultimato: ou ela ou as baratas, que ela não era mulher de dividir com as outras aquilo que de direito era só dela.

Agenor pensou um pouco. Não era sua intenção magoá-la, Dorinha era mulher boa e ele gostava muito dela. Mas é que as baratas… Bem, elas lhe acenavam com um horizonte bem mais amplo de possibilidades, digamos dessa forma. Andava até pensando em montar uma firmazinha de dedetização, o mercado era promissor.

Ficaria com elas, as baratas. Foi o que respondeu.

Quem estava na praça viu quando o tabefe de Dorinha estalou no pé da orelha do carteiro, tabefe daqueles de ficar zunindo por três dias. Ela virou as costas e saiu, o passo ligeiro, a tromba desse tamanho, deixando Agenor de quatro a recolher as correspondências caídas ao chão.

Na mesma noite, porém, ela haveria de cair em si e se arrepender, tentar reconciliação, haja vista a carência horrorosa de homem na cidade. Melhor dividir o prato que não ter o que comer, coisa mais óbvia, né?

Mas nada feito. Agora era Agenor quem não queria. Ela chegara atrasada à obviedade.

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(continua)

> Ler todos os capítulos já publicados

> Ler o conto na íntegra (Leitor Vip)

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> Este conto integra o livro Baseado nisso – Liberando o bom humor da maconha


Protegido: O último homem do mundo (na íntegra)

Dezembro 24, 2008

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A fantástica loja de idéias (trecho)

Dezembro 24, 2008

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A fantástica loja de idéias
Projetor 3D, supositório para disfarçar peido, máquina de sexo virtual com personalidades… Todas aquelas idéias geniais que se têm quando se está doidão são vendidas nessa loja.

(trecho do conto)

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(Texto transcrito da gravação do programa Canabistrô, exibido no dia 26/08/2005, pelo site Terramestra)

- Bom dia, queridos amigos telespectadores do Canabistrô, seu melhor programa de viagem! Eu sou Bia Voyage e hoje vamos apresentar pra vocês aquela matéria que havíamos prometido na semana passada, a loja de idéias Ki Lombra, na praia de Canoa Quebrada. Uma das sócias da loja, a Lulu, recebeu nossa reportagem com muita simpatia e a matéria taí no ponto pra vocês verem, tá sensacional, vocês não vão acreditar nas idéias dos malucos. Mas antes vamos às mensagens dos nossos patrocinadores.

Entra comercial da revista Lucidez Total. Matérias e reportagens do mês. Gatinha Canabis. Maconha e autoconhecimento. As mil e uma utilidades da planta para a indústria. Entrevista com o Deputado Federal Fernando Gabeira.

Entra comercial do colírio HOMO TOTAL, para usuários gays. Um rapaz aborda outro no balcão do bar e diz que seus olhos são muito bonitos para ficarem vermelhos e irritados daquele jeito. Então puxa do bolso um colírio que o outro pinga e quando devolve, seus olhos já estão brancos. Áudio: HOMO TOTAL, colírio pra quem entende…

Entra comercial da maconha MARLEY. Uma garota assiste a um filme no cinema, viajando bastante. Uma outra, atrás dela, cochila. A outra vibra com as cenas e a outra só cochila. No final do filme, as duas saem, uma satisfeita e a outra sonolenta. Áudio: Maconha MARLEY, a diferença tá na cara.

- Oi, gente, estamos de volta com o Canabistrô, eu sou Bia Voyage e você é uma pessoa que tá aí na sua e deseja se antenar com as novidades do mundo hemp, não é?, trocar idéias com a gente, conhecer pessoas e se informar a respeito da canabis. Não é isso? Isso. Porque usuário consciente faz a diferença. Agora vamos ver, vamos ver, quem acertou a pergunta da semana passada. Qual é a dose mortal de canabis? Vamos ver, abre o envelope aqui, isso… Resposta: dois quilos jogados do 25o andar de um prédio. Acertou! O felizardo da semana mora em… Cabrobró, olha só, Cabrobró, em Pernambuco. Um beijão pra moçada de Cabrobró que tá de olho no nosso programa. Mas não é um felizardo, é uma felizarda. Beleza. Você sabe que aqui no programa a gente não lê o nome completo, só as iniciais. Então lá vai: A, M, O, S. Ok? A produção vai entrar em contato com você. E você, sua sortuda, vai receber em casa nosso kit Canabistrô completo, com camiseta, óculos, CD do programa, uma caixa de sedas Sedosa, maquininha, debulhador, marica e um exemplar da revista Lucidez Total. Parabéns. Solta o primeiro clip aí enquanto eu vou despachar essa encomenda no correio. Volto já, moçada.

Entra o clip da música Libera a Pamonha, da banda Intocáveis Putz Band.

- Bacana esse clip, heim? Recebemos esta semana, é novinho. Se você gostou, ligue agora mesmo ou acesse nosso site na internet, esse que taí no vídeo, www.terramestra.net, e concorra a um CD da Intocáveis Putz Band, essa banda virtual mucho loca, que por sinal tem um baixista gatíssimo, vocês viram? Eu vi, não vou mentir. Mas vamos deixar de galinhagem que meu diretor já tá me olhando feio aqui. Libera a matéria com a Lulu. Libera o produto!

Entra matéria sobre a loja Ki Lombra.

- Olha só, gente… Eu sou Bia Voyage, pro programa Canabistrô, e você vai conhecer agora uma loja louquíssima que existe aqui em Canoa Quebrada, essa praia maravilhosa do Ceará. É a loja Ki Lombra. Sabe o que ela vende? Idéias! Idéias de todo tipo mas, de preferência, idéias malucas. As proprietárias são duas senhoras, a Lulu e a Ely. Um dia elas vieram passar um fim de semana aqui em Canoa Quebrada, se apaixonaram pelo local e decidiram ficar. Aí tiveram a idéia de montar uma lojinha pra vender as idéias que elas tinham quando tavam doidonas. Começaram devagarinho, uma idéia aqui, outra ali, aí começou a aparecer gente interessada, artista, escritor, músico, gente de todo tipo interessada em idéias novas, idéias malucas, coisa diferente. A notícia foi se espalhando e hoje elas, além das próprias idéias, também vendem idéias dos outros. A maluqueira fuma, olha só, viaja nas idéias e depois vem aqui e vende pra elas. Não foi uma sacação genial? Uma sacação maravilhosa dessa é lógico que mais cedo ou mais tarde os outros iam copiar, né? E copiaram mesmo. Aqui em Canoa a concorrência já apareceu, já tem mais três lojas parecidas com esta, todas de idéias malucas. A Ki Lombra é a mais antiga e a mais visitada pelos turistas que vêm aqui, é a mais famosa, certamente pela qualidade dos produtos. Mas também pela simpatia das donas, vocês vão ver. Olha só, A Lulu é essa aqui. Passa o dia de biquíni, o tempo todo de alto astral. Faz tempo que a senhora tem esse negócio, dona Lulu?

- Pode tirar o “dona”, viu, minha filha.

- Ah, me desculpe, eu esqueci. Faz tempo que vocês têm esse negócio, Lulu?

- Cinco anos.

- Dá pra faturar uma graninha com idéia maluca?

- Dá pra tirar a da cerveja, não tenho do que reclamar não.

- E sua sócia, a Ely?

- Ely tá viajando, tá cuidando da abertura de uma franquia da Ki Lombra em Piripiri.

- Em Piripiri? No Piauí?

- Lá mesmo. O povo lá é chegado numas idéias…

- E quantas franquias vocês têm?

- Deixa eu ver… Piripiri, Olinda, Jericoacoara, Jurerê e semana passada inaugurou uma em Ipanema. Mas a gente tem um bocado de propostas, de vários países. Tamo estudando.

- Como que vocês fazem? O maluco ou a maluca vem aqui, conta a viagem…

- Isso aí. Conta a viagem. A gente escuta. Se servir, a gente compra.

- Se for maluca demais, vocês dispensam?

- Aí é que eu compro mesmo, minha filha. As que vendem mais são essas, eh, eh.

- E a clientela, é boa?

- Tem gente boa e gente ruim, né, como em todo canto. De primeira vinha aqui só músico, escritor, pessoal que trabalha com cinema, televisão. Depois passou a vir outras pessoas. Até político já veio.

- Político?

- É. Porque tem maluco que tem umas idéias que serve pra política, umas idéias boas de se aproveitar.

- Tem alguma aí pra gente ver?

- Tinha muita. Mas hoje eu não vendo mais idéia pra político não. Quando eu vejo que é dessa raça, não vendo. Porque é tudo um bando de aproveitador, tudo nojento. Sabe aquela idéia do imposto único, pra substituir todos os impostos, um por cento sobre cada cheque? Foi uma moça que me vendeu, idéia boa. Aí veio um deputado aí, olhou, gostou e comprou. Pra quê? Pra transformar nesse imposto aí sobre movimentação financeira. Olha a ironia: o que era pra acabar com essa enormidade de imposto que tem aí, acabou virando mais um imposto. Por isso que pra político eu não vendo. Vai tudo pro inferno, arder pela eternidade todinha!

- Dá pra ver que a Lulu não gosta de político, né? Mas vamos ver o que é que tem por aqui. Isso aqui, o que é?

- Isso foi um menino que deixou semana passada. É um Flatex.

- Parece um apito.

- É um supositório pra quem sofre de flatulência crônica.

- Mas que coisa! Não acredito! Verdade, Lulu? Mostra aqui, Ferdinando, mostra aqui pertinho.

- Verdade. O preço tá bom, cinquenta pilas, eh, eh.

- Quer dizer que com isso o pum fica retido. Mas que coisa, olha só, gente… Mas e se o pum chega aqui, vê que não tem saída… não periga ele pegar outro caminho e escapulir pela boca? É pior, não?

- Não, minha filha, fica retido não. O flato passa por essa frestazinha aí, ó, e libera uma fragrância bem suave. Tem Patchuli e Flores do Campo. Tinha um de Coisa Queimando mas levaram ontem.

- Coisa Queimando? E alguém se interessou por uma fragrância dessa?

- É dos que mais vende. Porque disfarça bem, fica todo mundo preocupado, procurando o que é que tá queimando…

- Ahhh, é verdade. Olha só, mas que idéia maluca…

- Quer levar um Flores do Campo pra você?

- Não, obrigado. Mas esse Flatex serve também praqueles puns barulhentos?

- Arrá! Pra esses é que existe o Flatex Som. Tem Pássaros, Buzina, Freio, Celular…

- Flatex Som… Não acredito. A pessoa solta um pum, o ambiente fica perfumado, toca uma musiquinha e ninguém percebe. Que voyage… O que um fumo bom não faz, heim? Que mais que tem por aqui, Lulu?

- Tem Noves-Fora de Placa de Carro.

- Ah, esse é manjado. Já vi nos seus concorrentes, não é só você quem tem.

- Mas esse é diferente, minha filha, esse é diferente… Olha aqui, parece um Noves-Fora de Placa comum, igual a esses que tem por aí, né? Mas esse tem um detalhe que os outros não têm: é Noves-Fora + Palavra.

- Palavra?

- Sim, você olha a placa do carro e tem que dizer a primeira palavra ou frase que vier à mente com as iniciais da placa. É mais difícil, só pra iniciados. Foi a Ely quem inventou, nesse dia ela tava inspirada. Olha esta aqui. ABE 9473. Quanto é o noves-fora de 9473?

- Ahn… Cinco.

- Isso. E o que lhe vem à mente com ABE?

- Com ABE? Humm, deixa eu ver…

- Não, tem que dizer no ato, não pode pensar. Tem que dizer a primeira idéia que vier, mesmo que não seja nada diretamente relacionado a ABE.

- Abacate.

- Abacate cinco, entendeu?

- Ahhh…

- Ou então Abelha, A Bela e a Fera… A Bunda da Ely. O que vier.

- Nossa, mas o maluco tem de ser fera pra tirar o noves-fora e ainda pensar numa palavra…

- Com o tempo pega prática. Quem compra muito é ator, pra exercitar o improviso. Mas também é muito bom praqueles momentos em que você tá preso no engarrafamento.

- Ah, é. Só maluco mesmo… Êpa, isso aqui eu não conheço.

- Chegou sexta-feira. É um pacote de inventos do futuro. Tem três inventos aí.

- Isso parece um projetor de slides.

- É um Holocine, um projetor holográfico com som. Exibe imagens em 360 graus. Filme, show, qualquer coisa. Em vez de você assistir ao último show da Kátia Freitas numa tevê ou num telão, você liga o Holocine e se sente no próprio local do show, como se a Kátia realmente estivesse cantando bem à sua frente, como se você estivesse num camarote de frente pro palco.

- Que interessante…

- E pode ser visto de qualquer lugar, a imagem se ajusta automaticamente ao ângulo de visão.

- Gente, o futuro já chegou! E essa cabine aqui?

- É o Celebri-Sex. Sexo virtual com pessoas famosas. Você escolhe se hoje quer transar com a Sabrina Sato ou com a Angelina Jolie. Então você entra na cabine, senta, conecta os sensores na pele, põe o visor 3D e escolha a pessoa aqui no painel. Sua estrela preferida vai surgir na tela.

- Que maravilha! Mas sente mesmo, quer dizer, a sensação é a mesma do sexo no mundo real?

- Igualzinha. Quer experimentar?

(…)

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> Este conto integra o o livro Baseado Nisso

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Ricardo Kelmer – blogdokelmer.wordpress.com


Minhoca na cabeça (trecho)

Dezembro 24, 2008

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Minhoca na cabeça
Quando o jovem escritor fuma, minhocas saem de sua cabeça. É mais um caso do além para Javier Viegas resolver.

(trecho do conto)

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Usados e Abusados. Ivan conferiu a placa na fachada da loja de usados e entrou. A moça no balcão o cumprimentou.

– Boa tarde. Posso ajudar?

– É aqui a loja do Javier?

– Sim, Javier Viegas. No momento ele está atendendo. Deve desocupar em quinze minutos. Aguarde um pouco, por favor.

Ivan sentou-se no sofá e pegou uma revista para folhear. Logo depois estava entretido numa matéria sobre extraterrestres que raptam pessoas para implantar chips em seus cérebros e depois as devolvem à Terra e elas só conseguem recordar o que se passou em sessões de hipnose. Foi quando o homem apareceu, saindo da salinha ao lado, acompanhado de um senhora de quem se despediu.

– Até logo, dona Iracema. Não esqueça de acender a vela hoje, heim? Vela amarela, virgem, de sete dias. Até logo.

O homem virou-se para Ivan:

– Boa tarde, o senhor está me aguardando?

Ivan reparou na figura: moreno, barrigudinho, meio calvo, cabelo preto, provavelmente com tintura, numa trança única que descia até o meio das costas. Devia ter seus cinquenta anos. Um sotaque espanhol e uns trejeitos afeminados.

– Vi seu anúncio no jornal.

– Ah, entre, entre, por favor. Aceita um licorzinho de manga? Ana Isaura, traz dois licorzinhos pra gente, traz.

Era uma sala decorada com coisas antigas, quadros, candelabros, móveis rústicos. Javier lhe ofereceu uma cadeira em frente à mesa e a seguir sentou-se na sua, do outro lado, brincando com a longa trança sobre o peito.

– Prazer. Javier Viegas. Tarô e outros babados.

– Prazer, Ivan.

– Ivan, el terrible, ui… Mas diga, meu filho, a que devo o prazer de receber olhos tão bonitos? Lindo, e eu me sinto enfeitiçada, iééé…

– É o seguinte, seo Javier…

– Seo não. Assim eu não atendo. Pode levantar e ir embora.

– Desculpe. Javier. Bem, Javier, é uma coisa assim meio… esquisita.

– Mi querido, já vi tanta coisa esquisita neste mundo que não me assusto com mais nada. Olha seu licorzinho aí. É caseiro, viu?

Ivan recebeu o cálice que a atendente lhe oferecia. Levou-o à boca mas foi interrompido por Javier.

– Menino, que heresia! Não vai brindar não?

– Ah, claro, claro…

Javier ergueu o cálice e fechou os olhos, concentrado, em silêncio. Ivan esperou que ele concluísse seu ritual, talvez fosse algo esotérico, melhor acompanhar. Ivan fechou os olhos, respirou fundo e escutou:

– Beber sem brindar, dez anos sem pimbar… Brindar sem ver, dez anos sem foder… Foder sem brindar, dez anos sem gozar… Gozar sem foder, dez anos sem beber…

Ivan abriu os olhos surpreso. Javier bebia seu licor, compenetrado, os olhos fechados. Que diabo de sujeito era aquele?

– Gostou do licor?

– Muito bom.

– Minha mãe quem faz. Dona Carmela. Todo mês ela me manda um vidrão assim. Esse é de manga, que é muy bueno mas tem um de café que você não acredita. Aliás, estou procurando um sócio, esses licores de mamãe podem deixar qualquer um milionário. Você não estaria interessado?

– Não obrigado, não gosto de comércio.

– Después não diga que eu não avisei. Mas fale, conte seu problema.

– Bem, eu… O senhor, digo, você fuma? – Ivan fez o gesto de quem fuma um baseado.

– Marijuana? Não no primeiro encontro – respondeu Javier, rindo. Ivan riu sem jeito. – Não é minha droga predileta mas de vez em quando dou meus tapinhas pra ir ver o Almodovar.

– Certo. Bem, eu fumo. Quer dizer, fumava. Deixei exatamente porque começou a acontecer uma coisa estranha…

– Hummm, está melhorando. A-do-ro cositas estranhas.

Ivan olhou para a porta, desconfiado.

– Está fechada, menino, fique tranquilo. Fora duas entidades aqui atrás – e apontou com a ponta da trança por sobre o ombro – aqui nesta sala só tem eu e você, você e eu. Juntinhos. Tim Maia era ótimo, não?

– Ah, sim. Era sim. – Ivan pigarreou e prosseguiu. – Você vê espíritos, Javier?

– Vejo.

– Vê mesmo?

– Desde que eu era niño de teta. Mas diga, que coisa estranha é essa que lhe acontece?

– Quando eu fumo um baseado, começam a sair minhocas da minha cabeça.

– Minhocas?

– Isso.

– Saem minhocas de dentro da sua cabeça?

– Exatamente. Minhocas. Saem pelas orelhas.

Ivan aguardou enquanto Javier o observava.

– Faz tempo que você fuma marijuana?

– Desde os dezoito. Tô com trinta e quatro.

– Fuma todo dia?

– Geralmente quando vou escrever. Umas três vezes por semana. Sou escritor.

– Ah, é escritor? Que bueno receber um escritor em minha sala. Ainda mais um escritor que tem minhoca na cabeça…

– É sério, Javier, não estou brincando. E não é viagem não, é verdade. Olhe, eu trouxe uma aqui pra você ver.

Ivan tirou do bolso um saquinho de plástico e o estendeu sobre a mesa. Mas Javier o interrompeu.

– Não, não, obrigado. Eu acredito em você.

– Pode pegar. É inofensiva.

– Não preciso pegar em sua minhoca pra saber que ela existe, criatura, estoy vendo.

– E então? O que você acha?

– Já procurou um médico?

– Nunca falei pra ninguém. Quem ia acreditar?

– Então vamos ter que ver esse babado de perto. Quinta-feira, oito da noite. Tá bom pra você?

– Tá bom.

– Então me espere que eu apareço.

– E quanto vai cobrar?

– Pelo quê?

– Sei lá. Você vai fazer alguma coisa, não vai?

– Bueno, eu cobraria esses seus olhos. Botaria eles numa moldura pra eles ficarem olhando pra mim todo dia. Mas como eu sei que você não me daria, então vou cobrar só o preço de custo.

– E quanto é?

– Mil.

– Mil reais?

– Caro, é?

– Bem que me disseram que você é careiro.

– Careiro é quem cobra caro e não resolve. Eu resolvo.

(…)

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Mais sobre o livro Baseado Nisso

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Ricardo Kelmer – blogdokelmer.wordpress.com


Animação no jantar (trecho)

Dezembro 23, 2008

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Animação no jantar
Os pais de Mária Amélia estão impressionados com o namorado da filha, um profundo conhecedor da psicologia dos super-heróis.

(trecho do conto)

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– Pai, mãe, esse aqui é o Mingo.

– Boa noite, seo Erandir. Boa noite, dona Gilda.

– Boa noite, Mingo. Sente aí pra jantar.

– Obrigado.

– Gosta de sopa de feijão, Mingo?

– Gosto, dona Gilda.

– Eu sirvo pra você. Maria Amélia, pega mais pão na cozinha.

– Você sempre janta de óculos escuros, Mingo?

– Estou com um probleminha nos olhos.

– Ah.

– Maria Amélia me disse que você está concluindo uma tese de mestrado, Mingo. É verdade?

– É.

– E sobre o que é mesmo?

– Personagens de gibis e desenho animado.

– Interessante.

– O Mingo é um grande estudioso da psicologia dos super-heróis.

– Que bom.

– Quer mais pão, Mingo?

– Aceito.

– No meu tempo os desenhos eram muito bons, educativos, ensinavam coisas boas às crianças. Hoje o que se vê é só porcaria. Muita violência. Muito sangue.

– Concordo com o senhor.

– Na minha opinião o último desenho que ainda prestava era aquele dos Smurfs. Você assistia?

– Sim.

– O que você acha? Era bom, não era? O Gargamel sempre se dava mal. Isso mostrava às crianças que fazer o mal não compensa. Desenho educativo.

– Quer bolo, Mingo?

– Aceito. Na verdade, seo Erandir, o Gargamel era usuário de LSD.

– Ahn?

– Usuário sim. O senhor conhece LSD?

– Se eu conheço? Sim. Quer dizer, não. Já li alguma coisa.

– Pois é. Aquele LSD não era dos melhores, a gente logo via. Atente pro comportamento do Gargamel. Fica a vida inteira perseguindo uns homenzinhos azuis que vestem gorros e fraldinhas. Aprofundando um pouco mais, podemos nos perguntar: pra quê ele quer tanto pegar os Smurfs?

– Ahn… Pra comer, né?

– Erandir! Tenha modos!

– Mas o senhor tá certo, seo Erandir. O LSD de péssima qualidade potencializa as tendências pedófilas do Gargamel. Isso hoje dá cadeia, o senhor sabe. Sem falar que ele abusava psicologicamente de seu gato, um prato cheio pra sociedade protetora dos animais entrar com um processo contra ele, milhões de dólares.

– Eu nunca tinha pensado nesses termos.

– Esse é o problema, seo Erandir. A gente não pára pra pensar e acaba engolindo tudo que botam na TV. Tem mais bolo?

– Eu gostava mais do Patolino. Ele era muito engraçado, heim, Erandir?

– Eu não gostava, Gilda. Ele era muito agoniado.

– Exatamente, seo Erandir. O Patolino é o maior cheirador do planeta.

– Cheirador?

– Cocaína, mãe. Cheirador de coca.

– O cara é ligadão demais, seo Erandir. Não pára de falar um só instante, tem uns papos muito estranhos. E sofre de mania de perseguição. É tão ligadão que consegue ficar gritando, pulando sem parar, arrancando as penas e batendo a cabeça no chão sem sentir dor.

– Cocaína faz isso?

– Uma vez ele cheirou tanto, seo Erandir, mas tanto, que travou geral.

– Travou geral?

– Isso. Foi uma travada tão violenta que o queixo dele foi bater atrás da cabeça, o senhor lembra?

– Puxa! Eu gostava tanto do Patolino… Mas por que ninguém nunca disse que ele cheirava cocaína?

– Se dissessem, dona Gilda, os pais não deixariam seus filhos assistir.

– Viu, Gilda? Bem que eu não gostava dele.

– Ah, eu gosto. Quer dizer, depois dessa revelação, já não sei…

– E o Popeye? Aqui na rua tinha uma vizinha do outro lado da rua, a Lindalva, lembra da Lindalva, Gilda? Ela era bem magrinha. A gente chamava ela de Olívia Palito. Olhaí, influência dos desenhos.

– Olívia Palito. É uma personagem inspirada em muitas mulheres que existem por aí, seo Erandir, mulheres de carne e osso.

– No caso da Lindalva, mais osso do que carne.

– Exatamente. Mas a Olívia é uma personagem tremendamente complexa. Foi a primeira heroína da TV a usar descaradamente anfetaminas e moderadores de apetite. Na verdade ela é anoréxica. E ainda é evangélica.

– Evangélica?

– O senhor nunca reparou? Veja o estilo da roupa: saia abaixo do joelho, blusa fechadinha, tudo muito comportado e sem graça.

– Que coincidência! A Lindalva também era evangélica. Não era, Gilda?

– Olhaí. Essas personagens não são criadas à toa. Tem todo um embasamento condizente com a realidade. A Olívia é evangélica mas é uma evangélica muito doida pois fica provocando o Popeye o tempo todo. Faz o coitado gastar uma fortuna tomando Viagra misturado com espinafre. Como se não bastasse, engana o cara o tempo todo com falsas promessas de casamento. E tem mais. A safada adora ser raptada e amarrada pelo Brutus. Sexo selvagem. É a famosa magrinha que aguenta o tranco…

– Isso! Exatamente!

– E o Scooby-Doo, Mingo, fala do Scooby.

– Era um cachorro muito doido. Mas muito mais doido era o dono.

– Como era mesmo o nome dele?

– Salsicha.

– Salsicha! Eu não gostava muito dele não. Era assim meio, meio sujo…

– O Salsicha, seo Erandir, é o suspeito número um, o maconheiro típico.

– Ele fumava? Nunca reparei.

– É só ver o jeitão dele, as roupas, o cabelo, o cavanhaque… O maluco conversa com um cachorro e está sempre na maior larica, louco pra traçar um sanduba. Isso sem falar naquele furgão psicodélico: eles se trancavam pra fumar um e saíam de lá vendo fantasma pra todo lado… Mas o Salsicha tinha muita moral com os roteiristas porque mesmo com aquela bandeira toda, nunca levou uma geral dos homi. O Scooby não fumava mas pegava toda a maresia e por isso também vivia na larica.

– Larica?

– Aquela fome que dá depois de fumar.  Esse bolo tá bom mesmo… Vou pegar mais um pouquinho. Mas voltando ao Scooby, um cachorro que come, em média, cento e vinte biscoitos por episódio não pode ser normal.

– Que coisa… Eu nunca tinha visto por esse lado.

– Fala do Homem-Aranha, Mingo, fala.

– Ah, o Homem-Aranha eu gosto! Lembra, Gilda, que eu tinha a coleção completa? Peter Parker. Esse sim era um super-herói educativo, você não concorda? Cuidava da tia doente, tinha muito carinho por ela…

– Tinha muito apego por ela, né? Mas não era por ela não, era pelo dinheirinho que ela tinha na poupança. Um nome mais apropriado pro Homem-Aranha seria Homem-Urubu pois ele tava ali sempre rondando a tia, esperando a velha morrer pra pegar a herança. E ainda vivia em eterno conflito por não assumir sua bissexualidade.

– O Homem-Aranha? Era gay?

– O senhor acha que aquele negócio de ficar soltando teinha de aranha pra lá e pra cá é coisa de homem sério? É o primeiro caso de super-herói que começa a carreira por causa de uma picadura. E o cara é azarado pra cacete: a primeira namorada, uma loiraça rica e boazuda, morreu assassinada pelo Duende Verde. O senhor sabia que Duende Verde é o nome de uma boate gay lá em Pelotas?

– Não sabia.

– Pois é. Super-herói gay tem muito por aí.

– Hummm… Não sei se quero saber de mais algum…

– Batman.

– Ah, não!

– Ah, sim. Essa é a dupla homossexual mais bandeirosa do mundo dos super-heróis. O clássico exemplo do solteirão que curte garotão. O garotão esperto, que se aproveita do coroa pra pagar a faculdade. Homem-morcego. Morcego faz o quê, seo Erandir? Sai à noite e chupa fruta. Menino-prodígio. Prodígio em quê? Isso é lá apelido que um homem sério bote no outro! E ainda tem o mordomo.

– O Alfred? Que é que tem ele?

– Aquela pouca-vergonha rolando ali na bat-caverna, todo dia… O senhor acha que o Alfred não ia saber? Claro que sabia. Se é que não participava também. Aquela cara de diretor de seminário…

– Gente… Eu tô muito surpresa. Como você descobriu isso tudo, Mingo?

– Pesquisando, dona Gilda, pesquisando…

– Acho que vou proibir o Cacá de assistir TV. Batman, Homem-Aranha… Tudo gay!

– O Cacá gosta é do He-Man. Chega da escola e liga logo a TV.

– Hummm… Logo o He-Man?

(…)

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> Este conto integra o o livro Baseado Nisso

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Ricardo Kelmer – blogdokelmer.wordpress.com


A verdadeira história do resgate do solado Rian (trecho)

Dezembro 23, 2008

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A verdadeira história do resgate do soldado Rian
O soldado Rian foi capturado pelos inimigos. Seu sargento acredita que pode salvá-lo. Mas é uma missão quase impossível.

(trecho do conto)

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Eu já havia me juntado a dois companheiros na 13ª base quando o soldado Rian, que deixava o 4o quadrante, foi capturado no momento em que tentava nos alcançar. Fora de fato uma tentativa arriscada pois o 3o quadrante possuía dois destacamentos inimigos posicionados imediatamente atrás de nós. No entanto, se ele conseguisse, já poderíamos começar a comemorar a vitória pois ele era o último soldado.

Vi quando renderam o soldado Rian, lhe bateram com o rifle e o levaram arrastado. Uma vez prisioneiro no 4o quadrante, Rian tentou escapar através da 20a e 22a bases, que estavam livres, mas levou azar: vieram as Senas Obscenas e o impediram. As Senas costumam aparecer nesses piores momentos. A seguir o inimigo conquistou a 20a e aí a coisa piorou de vez pois Rian passou a dispor de apenas uma única base para escapar, exatamente a 22a, e durante três tentativas consecutivas não conseguiu, o que possibilitou ao inimigo retirar com tranquilidade um destacamento inteiro do 1o quadrante e levá-lo ao 3º.

A sorte é que o inimigo também não foi competente o suficiente para conquistar a 22a, deixando-a livre para mais uma tentativa de fuga. Foi assim que pude vislumbrar uma saída. Levei o plano ao comandante Martan.

– Deixe ver se entendi. Você quer se entregar, sargento Veras?

– Sim, comandante.

– Na 11ª?

– Exato, senhor.

– Você acha que aquele bunda-mole do Rian vale seu sacrifício?

– É o meu melhor soldado, senhor. Sem falar que ele anima bastante as noites da companhia com o seu violão. É a única chance que temos de vencer. Atrairei o destacamento que ocupa a 10a e me deixarei aprisionar. Juntos, eu e Rian teremos mais chances de escapar do que ele sozinho.

– Ou então perderemos de vez esta batalha. Mesmo que vocês dois escapem, talvez não consigam retornar a tempo.

– Dê-me uma chance, senhor.

O comandante Martan levantou da cadeira e caminhou pela sala, o olhar no chão. Foi até a janela e ficou a observar a movimentação de alguns destacamentos lá fora, nos rostos dos soldados a visível apreensão pelo companheiro aprisionado. Nós sabíamos perfeitamente o que aqueles demônios faziam com seus prisioneiros. Talvez, aquela hora, Rian sequer estivesse vivo para merecer que o Comando alterasse seus planos e fosse lá tentar resgatá-lo.

Mas eu sentia que ele estava vivo, que ele resistira a tudo o que porventura houvessem lhe feito. Havíamos nascido ali, vivido nossa infância no meio daquelas montanhas, daqueles rios. Conhecíamos todas as árvores e sabíamos os atalhos e as cavernas. Juntos participamos da tomada do 3o Quadrante na batalha de Barbanetto e, praticamente sozinhos, esfarelamos dois destacamentos, mandando-os para a prisão. Eu não podia voltar ao QG assim, deixando Rian lá, sozinho, a mercê do sadismo daqueles monstros.

– Sargento Veras, às vezes é melhor salvar o que possuímos do que arriscar perder tudo.

– Sei disso, senhor.

– Estamos em vantagem aqui em Ludicósia e não estou disposto a perder o que já conquistei. A guerra nos ensina a ser práticos. Um soldado a menos não interferirá no resultado final. Por outro lado, se perdermos você, eles, além de tomarem sua posição, poderão nos fazer um bom estrago.

A cruel lógica da guerra estava ao seu lado, eu sabia. Mas eu tinha que tentar.

– Eles ainda não conquistaram a 22ª, senhor. Podem fazê-lo na próxima investida, eu sei. Mas se eu atraí-los na 11a, isso lhes desviará a atenção e eles ainda desmontarão a barricada na 12a.

– Nada garante.

– Eles me querem prisioneiro, senhor. Isca melhor não há. Barbanetto ainda está atravessada na garganta deles.

– Para seu plano dar certo, sargento, vocês teriam que sair imediatamente e ocupar a 22a.

– Operação Ternos Eternos, senhor. Já está engatilhada.

– Se não conseguirem na primeira tentativa, tudo estará perdido.

– Conseguiremos, senhor.

Ele me encarou durante um bom tempo. Era como se tentasse ver através de meus olhos um indício qualquer que enfim lhe revelasse minha incompetência para tal missão. Bastaria um indício qualquer, qualquer um… Quem poderia acreditar em missão tão suicida?

– Permissão concedida, sargento Veras. Tentaremos resgatar o soldado Rian.

Ele saiu e eu saí atrás dele, sorrindo por dentro. Agora tudo que eu precisava era apenas que toda a sorte do mundo estivesse ao meu lado, só isso.

(…)

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> Este conto integra o o livro Baseado Nisso

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Ricardo Kelmer – blogdokelmer.wordpress.com


Plutão sai de férias (trecho)

Dezembro 23, 2008

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Plutão sai de férias
O baseado acontecedor é aquele que provoca acontecimentos inusitados. Alfredo fumou um desses e reencontrou um amigo que acha que sua mulher o está traindo.

(trecho do conto)

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Alfredo abriu o estojinho, olhou, olhou e escolheu o baseado acontecedor. Era uma noite de sexta-feira e havia lhe batido uma vontade de fazer algo diferente. Então nada mais apropriado que um fumo acontecedor.

Sim, porque existiam diversas qualidades de fumo, ele sabia disso. Existia o fumo energético, que servia perfeitamente para jogar bola, por exemplo. Existia o fumo musical, ideal para escutar Pink Floyd, Frank Zappa, Renascence, Cristiano Pinho, Érico Baymma… Havia também o namorador, o leitor, o Warner Bros, o bom-dia, o digestivo etc. Bom maconheiro que era, Alfredo sabia das melhores plantações e comprava direto na fonte, controlando assim a exata origem do fumo. Com o tempo aprendera a catalogá-los, cada um na sua especialidade.

O acontecedor atraía situações insólitas, era essa sua especialidade. Situações nem sempre positivas, é verdade, mas esse era um risco que se corria. Fumo ideal para quem gostava de novidade. Pois bem, pensou Alfredo, acendendo o cigarro, vamos ver agora o que é que acontece. Eram sete horas da noite de uma sexta-feira.

Alfredo sentou no sofá e ligou a TV. Já sentia o efeito do fumo, como se os sentidos e o raciocínio se prolongassem além dos próprios limites, descortinando novos horizontes de possibilidades. Procurou algo nos canais, zap-zap, mas não encontrou. Então pegou o jornal, começou a folhear. No caderno de variedades, entre as mesmices de sempre, encontrou algo curioso: uma palestra sobre astrologia cármica.

– Mas que porra é essa?

Meia hora depois lá estava Alfredo no Olimpo Center, ficava pertinho  de casa. Sala 14, ficava no final do corredor. Escolheu uma cadeira nos fundos da sala e sentou-se, observando as pessoas. Um bando de esotéricos malucos, pensou, que conhece profundamente os segredos da vida. Esse povo que à noite sai do corpo pra ajudar desencarnados a deixar de vez o corpo físico. Esse povo que alardeia suas vidas passadas como quem exibe conquistas sexuais ou fala do carro novo. Alfredo balançou a cabeça. O fumo acontecedor o fizera ir a uma palestra sobre astrologia cármica, fosse lá o que isso significasse, em plena noite de sexta-feira. Agora era relaxar.

Mas que nada. Não suportou muito tempo. Como é que em pleno século 20, perguntava-se, ainda havia pessoas que se deixavam influenciar pelos astros? Então levantou e saiu, aliviado. No corredor parou para beber água.

– Fala, Alfredo! Tá lembrado de mim?

Pronto, gente conhecida. Numa palestra de astrologia cármica. Êta, mundo pequeno.

– Ahn… Plínio.

Era o Plínio, amigo da faculdade, uns cinco anos que não se viam.

– Não sabia que você se interessava por esses assuntos.

– Na verdade não muito – disse Alfredo, enxugando a boca.

– Dois amigos que se encontram. Anos sem ser ver. Encontram-se sexta-feira à noite. Numa palestra de astrologia cármica. O que é que isso quer mostrar? Heim? Quer mostrar…

– O quê?

– Então, tô dizendo. O que é que isso quer mostrar? Heim? Quer mostrar que isso é um Acontecimento. Com A maiúsculo. A… contecimento – repetiu Plínio, desenhando no ar a letra A.

– Ahh…

Plínio sempre gostara daqueles temas. Pelo jeito continuava o mesmo: ingênuo e acreditando em tudo. Em tudo que não existia.

– Já tá saindo, Alfredo? Eu também. Tá indo pra onde?

– Tomar uma cerveja. Sabe de algum bar aqui perto?

– Tem o Opunte bem aqui na esquina.

– Opunte. Que nome.

– Vou com você. Eu já assisti essa palestra.

– Ah, é?

– Cinco vezes.

Dez minutos depois, já na primeira cerveja, Alfredo admirava o traseiro de uma mulher que levantara da mesa vizinha quando escutou Plínio comentar algo.

– Como?

– Sexo anal.

– O que é que tem?

– Não é recomendável, sabia?

– Ora, e por quê?

– Infesta o mundo astral. O astral fica que é um fedor só.

– Que papo, Plínio… Só se for os que você anda pegando por aí…

– É sério. Se quiser lhe mostro um livro que explica isso.

– Depois. Tô com muita coisa pra ler.

– Ôba, então vamos comemorar.

– O quê?

– Comemorar que Plutão está mais próximo do Sol que Netuno.

– Não sabia. Está, é?

– Está.

– Ora veja. Então precisamos comemorar – Alfredo ergueu o copo. Comemorar que Plutão estava mais próximo do Sol. Isso sim era um pretexto.

Soubera um tempo desses que o Plínio terminara casando com a Nisa, a gostosa do curso. A mais gostosa e também a mais galinha de todas, fama de fogosa e competente. Grande Nisa. Pensando bem, até que os dois tinham algo a ver. O Plínio sempre fora chegado em astrologia e a Nisa botava tarô nos intervalos, cobrava cinco paus, lembrava bem. Tinha uns peitões maravilhosos. Grandes e filantrópicos – ela os oferecia em decotes todos os dias, como numa bandeja, generosíssimos. A sabedoria popular, aliás, juntando seus dotes físicos e espirituais, alcunhou-a oportunamente Peitonisa. Pois bem, a Peitonisa casada com o Plínio. Que coisa.

– Mas por quê?

– Por que o quê?

– Por que Plutão está mais próximo do Sol que Saturno? – perguntou Alfredo. Quase dissera “peitão”.

– Saturno não, Netuno.

– Netuno.

– Por causa de sua órbita. É mais elíptica – explicou Plínio, gesticulando a órbita de Plutão. – Entendeu? Mais elíptica, ó… – e repetiu o gesto. – Faça aí pra ver se entendeu mesmo.

– Entendi, pode continuar.

– Isso faz com que às vezes ele se aproxime mais do Sol que Netuno, que normalmente está mais próximo.

– Ahh.

Uma vez aconteceu, já no final do curso. A Nisa lhe concedera o prazer de chafurdar o rosto entre os peitos dela, por trás da cantina. Ficou maravilhado, que nem menino em parque de diversão, que não sabe o que escolher. E só não chegaram às vias de fato porque tinha gente por perto. Então o curso terminou e nunca mais teve outra chance. Nisa e seus peitos impossíveis sumiram de sua vida. Essa era a grande falha de seu currículo universitário. Reprovado em Introdução a Peitonisa.

– Mas por quê? – perguntou Alfredo, rindo sozinho. Melhor parar de pensar na mulher do amigo, coisa feia.

– Por que o quê?

– Por que brindar a isso? Ainda não entendi.

– Ora, porque essa situação só vai durar até 1999. Um nove nove nove.

– Que situação?

– Plutão estar mais próximo do Sol que Netuno. Começou em sete nove e vai até nove nove.

Não mudara nada. Era o mesmo chato de antigos tempos, com seus planetas, suas órbitas, a simbologia. Tomaria três cervejas com ele, divertiria-se um pouco com suas histórias mirabolantes e pronto, depois iria para casa rastrear alguma coisa na tevê e fumar o velho dorminhoco. O acontecedor já fizera sua parte: encontrar o Plínio depois daqueles anos todos era realmente um acontecimento. Um Acontecimento. O Plínio às vezes se tornava um pouco chato, é verdade, mas também era um sujeito engraçado.

– E o que é que tem de tão importante numa coisa dessa, Plínio?

– Você não percebe?

– Perceber o quê?

– Isso são as férias de Plutão. Plutão vai à praia.

– Ahhhh…

Plutão vai à praia. Alfredo ficou pensando no planeta Plutão de calção e chinelas havaianas, segurando uma bóia, o jornal debaixo do braço.

– Vai, por que não? Os deuses também têm direito a férias.

– Sem dúvida.

A mitologia romana! Havia esquecido da mitologia romana. Quantas vezes, no intervalo das aulas, Plínio o puxara para falar das eternas confusões que Mercúrio aprontava e de como Juno descobriu que a ninfa Eco favorecia as infidelidades de Júpiter ao distraí-la com longas histórias e assim Juno a puniu, condenando-a a não mais falar sem que fosse interrogada e a só responder às perguntas com as últimas palavras que lhe fossem dirigidas. Daí seu nome, Eco.

– Quando Plutão vai à praia, sabe o que acontece?

– Juro que não sei, Plínio.

– Plutão é irmão de Júpiter e Netuno, todos filhos de Saturno, o deus que devorava seus filhos. Eles se rebelaram contra o pai e dividiram os reinos. Júpiter ficou com o Céu, Netuno com o Mar e Plutão com o Inferno. Plutão é o deus do Inferno, lugar pra onde vão todas as almas depois da morte, pra serem julgadas. Pois olha só: quando ele tira férias, o Inferno vira uma bagunça: falta funcionário, o serviço acumula, o barqueiro que faz a travessia do rio cobra mais caro, morto volta porque não tem ninguém pra receber, é uma confusão. O que é que isso quer dizer? Heim? Quer dizer que…

– O que é que quer dizer?

– É isso que eu tô dizendo. O que é que quer dizer? Quer dizer que mesmo que você morra, corre o risco de não poder entrar no Inferno. Aí o que é que acontece?

– O que é que acontece?

– Deixa eu dizer, você é muito impaciente. O que é que acontece? Heim? Acontece que muitos que morrem ficam por aí vagando, sem saber pra onde ir, alma penada zanzando de lá pra cá – e ele mostrava com as mãos como as almas penavam, de lá pra cá, de cá pra lá – esperando que Plutão volte de férias e reorganize o Inferno pra poder enfim recebê-las.

– Pros antigos não havia paraíso depois da morte?

– É que o Inferno tem várias partes. Olha só, vou explicar. A primeira é o Érebo, onde tem um rio tenebroso chamado Cocito, feito das lágrimas dos maus. Caronte, o barqueiro do Inferno, é o encarregado de levar as almas ao julgamento, no Campo da Verdade. Mas Caronte se recusa a levar as almas daqueles que não tiveram sepultura e assim eles vagam pela margem do rio a implorar durante cem anos até que o barqueiro canse de recusá-los.

– Que coisa horripilante.

– Demais. Depois vem o Inferno dos maus, um lugar absolutamente terrível, pra onde vão os condenados. Tem rios de lava, pântanos lamacentos e fedorentos, lagos gelados onde as almas são mergulhadas e outras barbaridades. Depois vem o Tártaro. No Tártaro fica o palácio de Plutão e a prisão dos antigos deuses expulsos do Olimpo. Por último vêm os Campos Elísios, o paraíso.

– E quem julgava?

– Três juízes: Éacos, Minos e Radamanto. Quem é condenado vai pro Inferno dos maus. Permanece lá o tempo que for necessário. Quando sair de lá, vai pro setor de reencarnação onde recebe o roteiro de sua próxima vida. O que é que isso significa? Heim? Significa… Peraí, deixa eu falar, significa que durante esses vinte anos em que Plutão saiu de férias, muita alma ficou penando por aí pelo meio do mundo.

– Ficou?

– Ficou.

– Sério?

– Sério.

– Você viu alguma?

– Já vi sim, várias vezes.

– Onde?

– Lá em casa, por exemplo, tem um espírito que toda sexta aparece. Foi o primo da minha mulher quem viu pela primeira vez.

– Na sua casa?

– Meu primo estava hospedado lá, passando o fim de semana. Levantou de madrugada pra beber água e viu o espírito. Foi seguindo, seguindo e descobriu que ele tava indo pro quarto da minha mulher.

– E você? Viu também?

– Eu tava viajando nesse dia.

– Ah. Viajando.

– Mas é verdade, minha mulher confirmou.

– Sua mulher também viu?

– Viu. E disse até que o espírito deixou um buquê de narcisos de presente pra ela.

– Um buquê de narcisos.

– Pois foi.

Um dia, três anos antes, encontrara a Nisa no shopping. Olharam-se maliciosamente, ela lhe piscou um olho e ele só não foi lá ter com ela porque estava acompanhado. Mas naqueles poucos segundos toda a cena lhe passou novamente no pensamento, inteirinha, Nisa subindo a camiseta, os peitões mais desejados da Humanas. Por alguns segundos sentiu-se novamente encostado à parede da cantina. Sentiu inclusive o cheiro oleoso do velho sanduíche de queijo. O encontro no shopping fora três anos antes e no dia ele não sabia que ela já era mulher do Plínio, a danada. E agora ela certamente estava dando pro primo, nas barbas do marido. E o coitado acreditando em espíritos.

– Ô, Plínio…

– Diz. Garçom, mais uma estupidamente.

– Você que é mais entendido que eu nesses assuntos, me diz uma coisa. Por que essas almas, já que não podem entrar no Inferno, não fazem como Plutão e vão pegar uma praiazinha também? Tanta coisa melhor pra fazer do que ficar assustando a mulher dos outros no meio da madrugada…

– Não sei. Acho que elas não podem frequentar a mesma praia dos deuses. Nunca tinha pensado nisso. Vou consultar.

– Faz isso.

– Pode deixar.

– Ô, Plínio…

– Do que é que você está rindo?

– Desculpe – Alfredo não sabia se devia dizer. – Posso ser bem franco com você?

(…)

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> Este conto integra o o livro Baseado Nisso

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Ricardo Kelmer – blogdokelmer.wordpress.com