Vingativas

abril 4, 2012

Ricardo Kelmer 2006

Duas mulheres que raptam um ator famoso e, como vingança por ele tê-las desprezado, levam-no a um hotel, amarram-no e…

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Wuhmmm… Wuhmmmppfff… Foi o som abafado de sua própria voz que o despertou… aos poucos… como se voltasse de um lugar longe… muito longe… Ele abriu os olhos. E tudo que viu foi escuridão. Onde estava? Sentia-se zonzo. Tentou se mover mas não pôde, tinha os braços e pernas presos. Então percebeu que estava deitado numa cama, amarrado com cordas. E nu. Estava nu! E uma mordaça na boca. Mas… que diabos de pesadelo era aquele? O que estava acontecendo?

Imediatamente tentou lembrar dos últimos acontecimentos. A festa de lançamento de seu filme Vingativas, as tevês entrevistando-o, as fãs gritando e pedindo autógrafos… Depois a boate, as garotas da cidade brigando por uma foto ao lado do ator principal… Ele até tentou atender a todas mas era impossível. E depois… depois… nada. Não lembrava de mais nada.

Lentamente a escuridão se dissipou. Apesar da confusão mental, percebeu que estava num quarto de hotel. Mas não era o seu quarto. Pela janela aberta podia ver o céu, as luzes da cidade… E ele amarrado na cama, nu. Mas que diabos, quem teria feito… Nesse momento uma forte luz o atingiu em cheio, cegando-o. Demorou alguns segundos até entender que a luz vinha do banheiro. E na porta a silhueta de uma… mulher.

Linda noite para uma vingança, não? – ela falou, e caminhou calmamente em direção à cama. Por um instante ele teve a sensação que já vivera aquele momento, aquela frase… A mulher ajoelhou-se ao seu lado na cama e só então pôde vê-la melhor… Era uma garota morena e tudo que vestia era uma… máscara preta. E segurava uma taça. Na taça um líquido vermelho. Não, não a conhecia. Mas havia algo familiar em tudo aquilo…

Imagem, ação! A voz veio do lado oposto do quarto. Havia outra mulher! E ela aproximou-se devagar. Era uma garota loira, também estava nua e usava máscara preta. E segurava algo… uma pequena câmera. Ela estava filmando! Ele tentou se soltar mais uma vez mas não conseguiu. De repente sentiu um líquido frio sobre seu pênis… A morena pingava vinho sobre ele. Lembrou da boate, teriam posto algo em sua bebida? Mas o pensamento não prosseguiu pois a morena reclinou a cabeça, afastando os cabelos, e passou a lambê-lo. O contato da língua morna contrastou com o frio do vinho e ele fechou os olhos, sentindo o arrepio lhe percorrer o corpo inteiro, sentindo-se ser engolido pela boca ágil e macia. Tentou manter-se atento mas no centro de seu ser pequenas ondas de prazer se formavam e vinham dar na praia dos seus sentidos, inundando o pensamento.

A luz que vinha do banheiro enquadrava certeiramente a cama, iluminando seu corpo nu. Sentia-se exposto como uma tela de cinema. A loira posicionou-se com a câmera de forma a aproveitar o máximo da luz. A morena então virou-se de frente para ele e passou uma perna sobre seu corpo. Ele duvidou que fosse acontecer o que imaginava. Mas foi o que aconteceu. Devagar ela desceu sobre o pênis duro, devagar, enterrando tudo dentro dela. Em rápidos movimentos ela subiu e desceu, desceu e subiu, e o vai e vem de seu corpo acionou novamente as ondas de prazer. E foi assim, no balanço das ondas cada vez mais fortes, que ele viu a garota fechar os olhos, estremecer e cravar as unhas em seu peito. E urrar feito bicho.

Nem bem a morena se recuperou, a outra rapidamente posicionou a câmera sobre a mesa, ajustou o enquadramento e foi para a cama. As duas mascaradas agora brincavam com seu pênis, uma oferecendo à outra, como se fosse um sorvete irresistível, as duas saboreando-o de uma só vez, ele nas duas bocas ao mesmo tempo, entrando e saindo, saindo e entrando… Então ele finalmente lembrou: a cena do seu filme! A mesma cena! Duas mulheres que raptam um ator famoso e, como vingança por ele tê-las desprezado, levam-no a um hotel, amarram-no, aproveitam-se bastante dele e no fim… o castram. Elas o castram! A ficção de Vingativas se tornava real! E foi assim, dividido entre o terror e o êxtase, que ele sentiu as ondas se transformando num tsunami que rapidamente percorreu o interior de seu corpo, afunilou abaixo da cintura, comprimiu-se e, finalmente, lançou-se num forte jato sobre as duas bocas. E ele viu as bocas sorverem todo o líquido que jorrava, com avidez, urgente, como se fosse a última água do deserto. Seus olhos teimavam em se fechar mas ele viu quando a fonte secou e então as bocas se uniram num longo beijo, dividindo o líquido entre elas.

Enquanto ele arfava, sentindo as ondas se acalmarem dentro de si, elas se vestiram em silêncio e saíram. Ele pensou em chamá-las mas não teve forças, ainda estava zonzo. Que loucura, que loucura…, pensou, fechando os olhos e engolindo a saliva seca, o coração ainda batendo forte, tum-tum-tum… Não, os amigos jamais acreditariam naquilo, nem que jurasse de pé junto. Ele vivera a cena de seu próprio filme, a mesmíssima cena, que coisa… Bem, só o final mudara. Felizmente para melhor. Ele sorriu e somente então abriu os olhos. E ficou sério. A morena estava de volta. Em pé, ao lado da cama. Olhando para ele com um sorriso estranho. E algo reluzia em sua mão… Uma faca! Foi tudo bem rápido. Num movimento certeiro ela aproximou-se, encostou a faca e… zapt!, cortou a corda de um dos braços. E foi embora. Para sempre.

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Ricardo Kelmer – blogdokelmer.wordpress.com

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Este e outros textos você encontra no livro
Vocês Terráqueas – Seduções e perdições do feminino

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LEIA NESTE BLOG

> A torta de chocolate – Sexo e chocolate. Para muita gente as duas coisas têm tudo a ver. Para Celina era bem mais que isso…..

> As fogueiras de Beltane – As fogueiras estão acesas, a filha da Deusa está pronta. O casamento sagrado vai começar

> Quem tem medo do desejo feminino? – Você consegue imaginar Nossa Senhora tendo desejos sexuais? Alguma vez na vida você a imaginou fodendo?

> O íncubo – Demônios que invadem o sono das mulheres para copular com elas

>Lolita, Lolita – Ela é uma garotinha encantadora. E eu poderia ser seu pai. Mas não sou…

> Amor em fuga – Que mundo idiota. Pra poder viver o amor, a gente tem que fugir de casa

> A entrega – Memórias eróticas – A ex-bailarina filosofa sobre amor e sexo anal enquanto narra sua intensa experiência com a prática-tabu

> Por trás do sexo anal – Há algo de divinamente demoníaco no sexo anal que, literalmente, a-lu-ci-na algumas mulheres

> Vingativas – Duas mulheres que raptam um ator famoso e, como vingança por ele tê-las desprezado, levam-no a um hotel, amarram-no e…

> Postagens no tema “erótico”

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SÉRIES ERÓTICAS DESTE BLOG

> As aventuras de Diametral e Ninfa Jessi – A mais bela e safada história de amor jamais contada.

> As taras de Lara – Desde pequena que Lara só pensa naquilo. E ai do homem que não a satisfaz.

> Um ano na seca – O que pode acontecer a um homem após doze meses sem sexo?

> O último homem do mundoO sonho de Agenor é que todas as mulheres do mundo o desejem. Para isso ele está disposto a fazer um pacto com o diabo. Mas há um velho ditado que diz: cuidado com o que deseja pois você pode conseguir…

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Canalha Kelmer

março 23, 2012

Por: Rômero Barbosa, 2012

Cara, essa tal de Cibele queria era te dar. Queria ler sacanagens escritas por você pra depois tu comer ela todinha

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Escrevia Contos, contos sobre minha vida interiorana; andar de bicicleta no final do dia, pescar com papai de canoa a remo, etc. Porém os conteúdos predominantes nessas curtas estórias vinham recheados de dilemas éticos, repúdio às injustiças humanas e falta de respeito ao meio ambiente.

Após escrevê-los, compartilhava via e-mail com meus amigos. Cibele, colega de curso, encostou em mim quando criava um desses contos. Fitou-me sensualmente:

 Tá escrevendo o quê?

 Só mais um conto enquanto a aula não acaba  respondi.

Ela permaneceu me olhando diferente, sorrindo maliciosa. Eu, ingênuo (ou idiota mesmo), levei na esportiva. Cibele continuou, direta:

 Você não escreve nada erótico?

Espontaneamente sorri, refutei espantado:

 Não. Meus Contos geralmente falam de conceitos morais, éticos. Sobre como viver bem em sociedade.

A moça fechou o viso, se encolheu no canto. Antes soltou um murmúrio:

 Vou voltar a assistir aula.

Sentido culpado, buscando me redimir, toquei no ombro dela e salientei (provavelmente o maior erro que cometi):

 Eu sei de um cara que escreve sacanagem de maneira legal, até…

 É, e quem é?  Perguntou ela ansiosa.

 Um tal de Ricardo Kelmer, ele tem um blog, mora em São Paulo eu acho. Entre lá e dê uma olhada.

Anotei num papel o endereço eletrônico pra ela.

Semanas depois conversando com amigos na mesa de bar, relatei o ocorrido. Os filhos da puta riram da minha cara, e pior, com razão. Ainda falaram “cara, essa tal de Cibele queria era te dar. Queria ler sacanagens escritas por você pra depois tu comer ela todinha.” Desesperado, corri ao telefone e liguei para Cibele. O celular deu fora de área. Lembrei do número residencial, liguei. Logo sua mãe atendeu e me relatou sua ausência, havia saído de férias para São Paulo. Foi o fim. Tenho certeza, Cibele foi dar ao tal Ricardo Kelmer. Que merda!

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> Rômero Barbosa mora em Porto Nacional, Tocantins

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LEIA NESTE BLOG

> Cristal – Ele quer falar sobre tudo que viveu ali dentro, todos aqueles anos, os amores e desamores, o quanto sofreu e fez sofrer, perdeu e se encontrou… Mas não precisa, ela já sabe

> Desconstruindo Kelmer (por Wanessa, inspirado no conto Cristal) – Totalmente metida e curiosa, eu me debrucei sobre o conto e fiz minha própria interpretação. Bem, a presença da Mestra, a vida, a Deusa, o Tao, o fluxo irrevogável de tudo, não me espanta que seja uma figura feminina…

> Inculta e bela, dengosa e cruel – Então arrumei de novo a mochila, me despedi com muitos beijos, seu hálito de vodca me soprando toda a sorte do mundo, eu barquinho de papel rio abaixo, louco para ir, doido para ficar

> Maior que meu horizonte (por Wanessa, inspirado na crônica Inculta e Bela, Dengosa e Cruel)E quando eu penso que ele já está de novo envolvido em meus contornos, hipnotizado pelo balanço dos meus quadris e minha maré, ele foge

> Confissões de uma leitorinha nua (Por Leitorinha) – Fiquei tão à vontade pra ler a página dele na net que agora o fazia completamente nua

> Canalha Kelmer (Por Rômero Barbosa) – Cara, essa tal de Cibele queria era te dar. Queria ler sacanagens escritas por você pra depois tu comer ela todinha

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As quarenta raposas

fevereiro 27, 2012

Ricardo Kelmer 1996

E tão rápido quanto surgiu, ela desapareceria, deixando para trás seu rastro de sangue, terror e mistério

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O desfile chegara ao final. A última modelo concluíra sua performance e a plateia ainda aplaudia quando de repente cessaram a música e as luzes. Os aplausos pararam e ficaram todos em expectativa. Foi nesse exato instante, no vácuo dos pensamentos, que o anjo da morte surgiu e sua presença arrepiou a todos. Surgiu no início da passarela. Parecia ser apenas mais uma modelo num casaco de pele da coleção de inverno. Mas não era. Mais tarde a produção não saberia explicar quem poderia ser aquela mulher. A equipe de modelos também não a reconheceu e os seguranças balbuciaram desculpas. E tão rápido quanto surgiu, ela desapareceria, deixando para trás seu rastro de sangue, terror e mistério.

Ela postou-se à entrada, séria, e cravou seus olhos negros por sobre a plateia. Um frisson correu pelo ambiente. Um vento frio cruzou o salão. Mas não se ouviu nenhum rumor, absolutamente nada, e flash nenhum foi disparado. A vida ficou suspensa e nada mais existiu. Um silêncio vindo de fora do tempo caiu sobre sua figura altiva e naquele eterno segundo ela foi o anjo vingador: belo, justo e implacável.

E, no entanto, era linda, irresistivelmente linda… E sua figura atraía os olhos feito ímã. O casaco de pele de cor castanho deixava à mostra seus joelhos e os pés tocavam descalços a passarela. O rosto tinha traços indígenas sul-americanos e o cabelo negro descia numa trança pelas costas. E era rude e imperturbável seu olhar.

Pôs-se então a caminhar. Seu andar lento e seguro seguiu pelo silêncio frio da passarela, como se pisasse o interior de cada um. E em cada um o negrume dos seus olhos cravou-se sem dó, como um justiceiro que desnuda os pensares e nada escapa de seu julgamento. De repente todos sentiram-se indignos e era como se sua presença os enchesse a todos de uma dolorosa vergonha, vinda de algum lugar dentro deles mesmos.

Completado o percurso, ela parou e levou as mãos às costas. De um gesto libertou os longos cabelos que espalharam-se pelo ar e assentaram-se sobre os ombros, pousando macios nas costas. Nesse momento a música disparou e as luzes coloridas voltaram a piscar. E o angustiante silêncio foi finalmente preenchido.

Agora era o ritmo frenético da música em alto volume. Agora eram as cores dos holofotes, piscando alucinadas. Seu passo tornou-se mais rápido. Ela percorreu o segundo corredor, perpendicular ao primeiro. E desabotoou o pesado casaco. Após o derradeiro botão começou a girar, a girar, e seu casaco, acompanhando o movimento, pareceu uma hélice. Aos olhos pasmos de todos surgiu o seu corpo nu, inteiramente nu. E ninguém conseguiu desviar o olhar daquele exótico bailado.

As primeiras gotas de sangue salpicaram os fotógrafos à beira da passarela, eles que depois perceberiam não terem feito foto alguma, que mancada. O sangue bateu-lhes no rosto, no peito e atingiu os equipamentos. Surpresos, contorceram-se agoniados e cheios de nojo enquanto os primeiros gritos explodiam na plateia. Nas mesas mais atrás aquelas pessoas finamente vestidas viram, de um segundo para outro, suas roupas respingadas de sangue e também seus rostos e as taças de champanhe.

Enquanto ela girava e girava na passarela, o terror explodiu num grande rumor abafado pela música estrondosa. Rostos ensanguentados, semblantes apavorados. Roupas salpicadas de vermelho e gritos de pavor. Uns choravam descontrolados, sem compreender de onde vinha tanto sangue. Outros corriam pela multidão sem saber para onde ir. Era de repente um imenso pesadelo, absurdo e real.

Então ela parou de girar. Livrou-se do casaco. Seu corpo nu surgiu inteiro e vigoroso sob o pisca-pisca das luzes. E ela caminhou serena para o lugar por onde entrara. O corpo nu avançou em passos decididos enquanto o braço arrastava atrás de si o pesado casaco, feito uma longa cauda castanha, deixando pelo chão um largo rastro de sangue.

Ela chegou ao início da passarela e foi recebida pelo estilista idealizador da coleção, que tentou falar mas nada conseguiu dizer. Seu olho negro o atingiu em cheio, imobilizando-o, e por um momento ele viu não uma mulher mas um bicho. Ela depositou pesadamente em seus braços o casaco ensopado de sangue e, antes de sumir para sempre, disse, bem perto de seu ouvido, para que a música não o impedisse de compreender o mais importante:

– É preciso matar quarenta raposas para fazer um casaco desses.

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Ricardo Kelmer – blogdokelmer.wordpress.com

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> Este texto integra o livro Vocês Terráqueas – Seduções e perdições do Feminino

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> Cristal – Ele quer falar sobre tudo que viveu ali dentro, todos aqueles anos, os amores e desamores, o quanto sofreu e fez sofrer, perdeu e se encontrou… Mas não precisa, ela já sabe

> O íncubo - Íncubos eram demônios que invadiam o sono das mulheres para copular com elas, uma popular crença medieval. Mas… e se ainda existirem?

> As fogueiras de Beltane – A filha da deusa está pronta. O ritual do casamento sagrado vai começar

> Minha noite com a Jurema – Nessa noite memorável fui conduzido para dentro de mim mesmo pelo próprio espírito da planta, que me guiou, comunicou-se comigo, me assustou, me fez rir e ensinou coisas maravilhosas

> Xamanismo de vida fácil – A tradição xamânica dos povos primitivos experimenta uma espécie de retorno, atraindo o interesse de pesquisadores e curiosos

> O desejo da Deusa -

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A última mensagem

julho 11, 2011

Ricardo Kelmer 2010

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Ele despediu-se dos colegas, dobrou a esquina e encostou-se no muro do colégio. Pôs a mochila com livros no chão e, nervoso, digitou no celular uma mensagem para ela, dizendo que estava bastante arrependido do que fizera. E esperou, olhando o movimento dos carros na avenida. Alguns minutos depois enviou outra mensagem, pedindo que ela o perdoasse, por favor, por favor. E ela novamente não respondeu. Então enviou uma terceira mensagem, avisando que se ela não o perdoasse, ele se mataria. Dessa vez ela respondeu: precisava de um tempo para pensar. Ele guardou o aparelho no bolso, respirou fundo e sentou-se na calçada, ansioso pela resposta que definiria sua vida. Ou sua morte. Quinze minutos depois seu celular foi encontrado junto ao meio-fio, a alguns metros do corpo, que jazia atropelado no asfalto. Na tela do aparelho piscava a última mensagem recebida: “Eu te perdoo, meu amor. Vem correndo!”

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Ricardo Kelmer – blogdokelmer.wordpress.com

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> A metamorfose – Um miniconto sobre o fundo do poço

> Amor em fuga – Que mundo idiota. Pra poder viver o amor a gente tem que fugir de casa

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A metamorfose

junho 19, 2011

Ricardo Kelmer 2010


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Ele rastejou silenciosamente para trás do compensado que servia de parede no barraco, agachou-se, pôs a pasta de crack sobre a latinha de cerveja amassada, acendeu o isqueiro e inalou pelo buraco. E de repente sumiram a dor, o desemprego, a fome, o leite do filho que ele não havia comprado… Quase no fim, o menino acordou. Pai, o que é isso? Subitamente a dor voltou, diferente, agora feita de vergonha e da sensação de fundo do poço. É veneno de barata. E cadê a barata, pai?

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Ricardo Kelmer – blogdokelmer.wordpress.com

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LEIA TAMBÉM

> Só o crack salva – Se os problemas relacionados ao crack ficassem restritos às camadas pobres da população, os ricos jamais se incomodariam e o horário nobre da tevê nem tocaria no assunto

> Governo não sabe como tratar craqueiro, diz Drauzio Varella (Folha de São Paulo, 21.05.2010)

> A metamorfose – Um miniconto sobre o fundo do poço

> A última mensagem Um miniconto sobre amor e perdão

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O punhal

junho 5, 2011

Ricardo Kelmer 2004

Mulheres que amam, arriscam, sofrem, morrem… E sobrevivem
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Faca, lâmina, estilete. Fora a saudade cortante que as mensagens trazem, ela não tem do que se queixar. Aliás, também não gosta de reclamar da saudade pois ainda que traga sempre consigo a melancolia, a saudade de sua terra e seus amigos é uma companhia, uma espécie de presença que no fim das contas faz com que não se sinta tão só.

A distância e a solidão, que no início pesavam cruéis sobre todo seu ser, acabaram ensinando-a a extrair forças de si mesmo, a arrancar de dentro de sua alma aquilo que hoje a fortalece nos momentos em que a vontade é de largar tudo e pegar o primeiro voo de volta. Ela então para e respira fundo. Depois vai à janela olhar a rua, o movimento das pessoas. Lá fora o mundo segue seu caminho, tudo está como sempre esteve e como deve estar. É somente dentro dela que os ventos sopram fortes, agitando sua alma feito roupa no varal.

Banir de si o medo de arriscar o novo. Despir-se das armaduras que a protegem dos perigos do mundo. Mas que perigos? Haverá perigo maior no mundo que a recusa de viver o que é preciso viver? Ela compreendeu isso saltando no abismo de seu próprio medo de arriscar. Aprendeu saltando, arriscando, pagando para ver até onde era capaz. E ainda hoje se surpreende ao perceber que sempre é capaz de mais um pouco, sempre um pouquinho mais. É, para a alma imensa tudo vale a pena.

Intuitivamente ela sabe que nasceu para ser feliz, sempre soube, mas… ah, esse diabinho tagarela! Sempre tentando convencê-la a boicotar a própria felicidade. Tantas vezes ela lhe deu ouvidos, a boba. E estragou tudo. E depois olhava o estrago e não conseguia acreditar que ela mesmo fez aquilo, um gol contra no último minuto. Mas agora é diferente. O diabinho ainda está lá, sim, mas ela não o escuta ou, se escuta, ri das artimanhas do danado. A maior tentação hoje é seguir as pistas de sua sagrada felicidade.

Aprendeu também que o amor é uma chama que ilumina e dá sentido à vida, chama a aquecer corpo e espírito nas noites frias. Mas a chama um dia se apagou e ela demorou um pouquinho mais para entender que não adianta tentar reacendê-la. Para quê? Para iluminar o que ela já conhece? Para aquecer o que não mais sente frio? Foi o amor que a levou para longe, foi por amor que ela fez tudo que fez, sim, mas agora ele não tem mais forças para conduzi-la pois ela mudou, já não é a mesma, a vida mudou, tudo mudou. Haverá outros amores? Esbarrará em outra paixão irresistível na próxima esquina? Perguntas, perguntas…

Nas tardes de outono gosta de olhar as árvores, as folhas em tons de laranja, vermelho e amarelo caindo em rodopios. Ela também rodopia mas em pensamento, girando pelas memórias, lembrando das verdades que antes tão bem sabiam movê-la. As verdades que a levaram ao lugar onde agora está, onde ficaram? Ficaram pelo caminho, como as folhas que caem das árvores quando não são mais úteis. Caem e voltam à terra, para se decompor e depois retornar à arvore em forma de nutrientes e ser folha novamente, outra folha, outra utilidade. A vida como passagem para algo maior. As verdades como trampolins para outras verdades mais abrangentes. O amor como portal para outros níveis de si mesma. O si-mesmo como guia maior de toda uma vida.

A rua lá fora, as pessoas caminhando, as árvores do outono… Ela dá por si, enxuga uma lágrima e volta o olhar à tela do computador, as mensagens dos amigos, notícias frescas da terrinha, as palavras lhe trazendo os cheiros dengosos de um tempo antigo e tão presente, o calor dos abraços, a urgência dos desejos, velhas paixões que não morrem, um aperto no coração. Ai, a saudade é mesmo um punhal encravado, impossível de retirar… Nesses momentos, mais que nunca, ela se sente longe, muito longe de tudo… Mas então fecha os olhos e respira fundo, uma vez, depois outra… Ela abre os olhos e pela janela vê que o mundo continua o mesmo mundo. Tudo normal, tudo seguindo seu caminho, tudo bem. Fora esse punhal enterrado no fundo da alma está tudo bem, nada a reclamar.

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Ricardo Kelmer – blogdokelmer.wordpress.com

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Este texto integra o livro
Vocês Terráqueas – Seduções e perdições do feminino

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en español

EL PUÑAL
Ricardo Kelmer 2004

Cuchillo, lámina, estilete. Afuera la añoranza cortante que los mensajes traen, ella no tiene de lo que quejarse. Por el contrario, también no le gusta reclamar de añoranza pues aunque traiga siempre consigo la melancolía, la añoranza de su tierra y de sus amigos es una compañía, una especie de presencia que a fines de cuentas hace con que no se sienta tan sola.

La distancia y la soledad, que en principio pesaban crueles sobre todo su ser, acabaron enseñádola a extraer fuerzas de sí misma, a arrancar de dentro de su alma aquello que hoy la fortalece en los momentos en que la voluntad es de largar todo y coger el primer vuelo de vuelta. Ella entonces se para y respira hondo. Después va a la ventana mirar la calle, el movimiento de las personas. Allá fuera el mundo sigue su camino, todo está como siempre estuvo y como debe estar. Es solamente dentro de ella que los vientos soplan fuertes, agitando su alma como ropa en el colgador.

Expulsar de sí el miedo de arriesgar el nuevo. Desnudarse de las armaduras que la protegen de los peligros del mundo. ¿Pero qué peligros? ¿Habrá mayor peligro en el mundo que la repulsa en vivir lo que es necesario vivir? Ella comprendió eso saltando en el abismo de su propio miedo de arriesgar. Aprendió saltando, arriesgando, pagando para ver hasta donde era capaz. Y todavía hoy se sorprende al darse cuenta que siempre es capaz de un poco más, siempre un poquito más. Es eso, para el alma inmenso todo vale la pena.

Intuitivamente ella sabe que nació para ser feliz, siempre supo, pero ¡ah, ese diablito parlanchín! Siempre intentando convencerla a boicotear la propia felicidad. Tantas veces ella le dió oídos, la tonta. Y estropeó todo. Y después miraba el estrago y no conseguía creer que ella misma había hecho aquello, un gol contra en el último minuto. Pero ahora es diferente. El diablito todavía está allá, sí, pero ella no lo escucha o, si lo hace, se ríe de sus artimañas y sigue las pistas de su felicidad.

Aprendió también que el amor es una llama que ilumina y da sentido a la vida, llama a calentar cuerpo y espíritu en las noches frías. Pero la llama un día se apagó y ella tardó un poquito más en entender que de nada adelanta intentar reencenderla. ¿Para qué? ¿Para iluminar lo que ella ya conoce? ¿Para calentar lo que no más siente frío? Fue el amor que la llevó para lejos, fue por amor que hizo todo lo que hizo, sí, pero ahora él no tiene más fuerzas para conducirla pues ella ha cambiado, ya no es la misma, la vida cambió, todo ha cambiado. ¿Habrá otros amores? ¿Desbarrará en otra pasión irresistible en la próxima esquina? Preguntas, preguntas…

En las tardes de otoño le gusta mirar los árboles, las hojas en tonos de naranja, rojo y amarillo cayendo en volteos. Ella también voltea pero en pensamiento, girando por las memorias, acordándose de las verdades que antes tan bien sabían moverla. Las verdades que la llevaron al lugar donde ahora está, ¿dónde quedaron? Se quedaron por el camino, como las hojas que caen de los árboles cuando no son más útiles. Caen y vuelven a la tierra, para descomponerse y después retornar al árbol en forma de nutrientes y ser hoja nuevamente, otra hoja, otra utilidad. La vida como pasaje para algo mayor. Las verdades como trampolines para otras verdades más encerradas. El amor como portal para otros niveles de sí misma. El sí-mismo como guía mayor de toda una vida.

La calle allá fuera, las personas caminando, los árboles del otoño… Ella se da cuenta de sí misma, seca una lágrima y vuelve la mirada a la pantalla del ordenador, los mensajes de los amigos, notícias frescas de la tierra querida, las palabras traéndole los olores mañosos de un tiempo añejo y tan presente, el calor de los abrazos, la urgencia de los deseos, viejas pasiones que no mueren, un aprieto en el corazón. Ay, la añoranza sí es un puñal enclavado, imposible de retirar… En esos momentos, más que nunca, ella se siente lejos, muy lejos de todo… Y entonces cierra los ojos y respira hondo, una vez, después otra… Ella abre los ojos y por la ventana ve que el mundo continúa el mismo mundo. Todo normal, todo bien. Afuera ese puñal enterrado en el fondo del alma está todo bien, nada a reclamar.

TRADUÇÃO: Candice Graziani (candicegraziani@ig.com.br)

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- Kelmer Para Mulheres – Nesta seção do blog, homem fica de fora

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001- Eu te conto. Ela está lá, sozinha e tem certeza de ter aprendido. E aprendeu. Mas as vezes ela faz questão de esquecer que aprendeu, pra não se privar… De sentir falta, de sentir tristezinha…. A vida muda diante de seus olhos. De fato, a vida é a mesma, ela so não conhecia assim, tão aberta à sua frente. /// Eu me mudei pra outro pais ha quase 8 meses. E parecia que vc descrevia alguns dos meus momentos.. Até deu pra pensar que vc me espionou. Gostei do texto. E ja que tava lá, tão facil de te escrever, e já que são 3h da manhã e minha cabeça se recusa a repousar (não me pergunte porquê), lá me venho eu, escrever mais uma a um desconhecido. Sem nem saber se terei ouvidos. Enfim, gostei do seu texto e é isso. Boa sorte! Fernanda, França – fev2005

002- Uma pergunta: poderia v. me explicar como vs (compositores, escritores…) falam de mim como se fosse eu mesma? V. naum estava pensando em mim qdo escreveu este ‘punhal’ ? Estava? Teté Bastos, California-EUA – fev2005

003- Ricardinho Te amo, com todo respeito e admiração! Fiquei encantada com esta crônica, você é fera em matéria de mulher, sabe unir a razão e a sensibilidade como ninguém, sorte de sua digníssima, parabéns!!!! beijões. Roberta Passos, Fortaleza-CE – mar2005

004- Valeu Kelma! André Rola, Rio de Janeiro-RJ – mai2005

005- Rika, Torno a dizer: amei o seu texto, lindo!!! Você é um homem com a alma feminina. Por isso, nos encanta e nos faz tanto bem. Por favor, não deixe nunca de escrever pra gente,tá? Obrigada e mais uma vez, parabéns! Beijos… Anabela Alcântara Pinto, Fortaleza-CE – mai2005

006- Ricardo, Conheci seu site é muito legal, adorei o texto o Punhal que por coinscidência ou não parece um pouco com minha vida, vivo bastante algumas passagens dele e a vida é assim mesmo, lá fora as pessoas vivem e nós é que teremos que lidar com os nossos punhais do dia-a-dia. Abraços. Vânia Cavalcante, Fortaleza-CE – mai2005

007- Oi Ricardo, amei O Punhal. Fala de você. Beijos e saudades. Valeska, Fortaleza-CE – mai2005

008- ah, sacanagem…agora li outra crônica…Punhal..ah q linda… parabéns! Muito bem, me explique como conseguiu tirar uma idéia tão feminina e atual??? putz, agora vou virar baba ovo…rs beijos de novo. Débora Pissarra, São Paulo-SP – jun2005

009- Óptimo texto, Ricardo. Bom lembrar, no entanto, que é importante que o punhal esteja enterrado dentro, bem fundo, a carne cicatrizando em volta, o gume calcificando. Mas a ponta saida, impedindo de nos acomodarmos, espetando na pele e fazendo sangrar ao primeiro sinal de resignação. Beijos de além-mar. Susana X. Mota, Leiria-Portugal – jun2005

010- estou mandando o link para duas amigas brasileiras que moram aqui em Pittsburgh e vieram casadas com maridos americanos que já ficaram no passado – vão se assustar e achar que vc as conhece secretamente e escreveu diretamente para elas :-). E sob uma ótica perfeitamente feminina, o que é um feito e tanto para um escritor do sexo masculino! AB, Pittsburgh-EUA – ago2005


Protegido: O mistério da morena turbinada (VIP)

outubro 13, 2010

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O mistério da morena turbinada

outubro 1, 2010

Ricardo Kelmer 2006

Aí um dia ela, inocentemente, leva o computador numa loja pra consertar. Algum tempo depois dezenas de fotos suas estão na rede, inclusive fotos íntimas

1ª parte

Tem sempre um mistério na fila. E o mistério da vez me chegou através do Orkut, num despretensioso pedido de adicionar. Fernanda, o nome dela. Olhei a foto da moça: morena, sorridente, cabelão preto liso, um decote generoso… Queria ser minha amiga. Que meigo. Mas não deixara recado. E Erri Kelmer não adiciona sem recado, são normas da empresa. Mas o diabo é que um decote daquele desestrutura a vida do cidadão trabalhador. Aceito.

Um clique e lá tô eu na página da morena. Hummm, na foto ampliada da capa a moça ficou ainda mais atraente. Dou uma sacada na apresentação e vejo que ela mora em Santos, tem 28 aninhos, humm, é psicóloga, hummm, e modelo fotográfico, hummmmm…. Ops. Modelo psicóloga? É estranho, né? É, eu sei, mas não sejamos tão rígidos, esse mundo é louco mesmo. Então clico pra ver as fotos do álbum da Fernanda, vamos conhecer melhor a moça que deseja ser minha amiga.

Raramente me surpreendo no Orkut, sou macaco velho. Mas daquela vez engoli seco. O que é isso?, eu me perguntava enquanto via as fotos. A morena realmente era violenta. Linda, gostosa, bundão, peitão, bocão, tudo ão. Um olho cinza-azulado e um sorriso manga-larga daqueles. Lá estava morena de shortinho, morena num impossível vestidinho branco tomara-que-caia, morena indo às compras, morena na balada com as amiguinhas e morena de biquíni, sentada assim, como direi, beeem descontraída pros olhos do internauta.

Babei nas doze fotos, logo eu que sou passado e cozido na casca do alho. No começo, pelas roupas desconcertantes que ela usava, sempre valorizando curvas e protuberâncias, sem falar na marquinha assassina do biquíni, achei que fosse alguma super-atriz de cinema pornô ou uma garota de programa classe AA pra cavalheiros de fino trato. Mas logo me condenei por estar sendo tão preconceituoso. Por que uma psicóloga não pode também ser modelo, heim? Por que psicóloga não pode ser turbinada, usar roupitchas criminosas e ter um doce jeitinho brejeiro, heim, heim? Oh, como sou vil! Que mentalidade curta tenho eu! Sim, eu mereço apodrecer junto aos vermes rastejantes na lama fétida dos umbrais, sim, eu mereço! A moça era apenas espontânea, só isso. E queria ser minha amiga. Certamente gostou do meu singelo jeitão de batráquio de ressaca, talvez deseje me conhecer pessoalmente… Isso. Aí ela me ligará e eu a convidarei a visitar meu duplex com vista pra Paulista e aí ela aceitará uma dose de blequilêibou, nós dois lá na varanda, aí ela dirá que pareço o Fábio Jr., ah, que é isso, Fernanda, assim você me deixa encabulado… Só um instante, Fernanda, meu celular tá tocando, só um instantinho, não vá fugir, heim? Alô? Alô?

Iludido, ô iludido, acorda! Fernanda não existe. Ela não passa de um personagem do Orkut, mais um dos milhares de perfis falsos criados pra sacanear com tarados sebosos como você, que passam o dia na internet atrás de mulher pelada. Entendeu, vagabundo? Agora desliga o celular e vê se cai na real.

Roupitcha básica pra ir na padaria

No instante seguinte Fernanda sumiu no ar e o copo dela espatifou-se no chão. O duplex na Paulista evaporou-se e dei por mim de volta ao meu quartinho alugado nesse pombal do centro, que divido com a Tábata, minha barata voadora de estimação, que, por sinal, é minha assistente. Quer dizer que Fernanda é uma miragem? Pô, sacanagem! Um demente que não tem o que fazer armou a arapuca e eu caí direitinho. Meus hormônios masculinos caíram – me corrige Tábata, que entende bem de instintos animais. Então, de volta à dura realidade, me achando o idiota dos idiotas, fui fuçar o Orkut da personagem Fernanda. E vi que ela gosta de ler e até cita uns escritores que nunca ouvi falar na vida. Na tevê, curte telejornais, programas de entrevistas e… Ana Maria Braga. Ana Maria Braga?! Eclética, a moça. Demonstrando todo o seu lado sofisticado, ela curte jazz, blues e concerto de piano. Frequenta academia, claro, e, surpresa, mora com os pais. E uma de suas paixões é sua família, ô, que meigo. Meigo mas incongruente. O inventor da Fernanda Fuschini passaria fome se trabalhasse com perfil de personagem. A não ser que fosse uma história de esquizofrênicos.

Aí, curioso pra saber se alguém mais tinha caído na pegadinha, fui fuçar os recados dela. Putz! Como tem homem idiota nesse mundo! Rimos muito, eu e Tábata, olhando pra cara dos abestados, todos babando pela morena e deixando seus recadinhos melosos e ridículos. Um tal de Dica mandou essa: “oi.vc arrasa.cuida bem desse corpao que deus te deu.benza deus.ufa…….” Detalhe: o Dica é casado. Ahahahah! Tome tenência, seo Dica! Tem medo da tua mulher descobrir essas tuas galinhagens não? E esse outro, um tal de Voltei: “nao sei o que falar suas fotos travaram minha boca,meu inconciente esta dentro de vc no meio das suas pernas fazendo vc gozar com a língua”. Ahahahah! Inconsciente agora tem língua e faz sexo oral. Que pena que Jung não conheceu o Orkut.

Decididamente o melhor foi o Allan Genaro, esse bateu o recorde: “ola fernanda….td bem???? me desculpe entrar sem permissao no seu orkut, mais nossa vc nao existe …… to bobo …..vc é muito linda, e o melhor vc mora perto de mim sabia?” Ahahahah! Pode uma coisa dessa? O cara já tá se imaginando saindo de casa, todo cheiroso, caminhando duas quadras e pegando a Fernanda pra sair. Vai ser iludido assim lá na Baixada!

Aliviado por não ser o único tarado seboso idiota do mundo, deixei um recadinho parabenizando o criador da pegadinha, sim, só pode ser homem, só homem faz essas merdas. Tábata quis também deixar recado, dizendo que era óbvio que a moça era siliconada, que se ela tivesse dinheiro também teria bunda e peitos maravilhosos como aqueles. Pense numa baratinha despeitada… Não permiti, claro. Pois não é que dias depois recebo recado de uma senhora, de sobrenome Fuschini, me parabenizando também! Por desmascarar a tal fulaninha. A senhora afirmava que não existia nenhuma sem-vergonha como aquela na família dela e coisital. Ahahahah! A incansável defensora da moralidade dos Fuschini. Não respondi ao recado mas ele me atiçou de vez a curiosidade. Talvez a incrível morena não se chamasse Fernanda Fuschini, isso era bem provável. Mas ela existia, sim, estava ali na tela, em carne e osso – e peitos. E se ela existia, agora eu queria descobrir quem ela era. Mais um mistério pro investigador Erri Kelmer. Atenda os telefonemas, Tábata, vou dar uma boa volta pela rede.

2ª parte

Maria Fernanda Fuschini. Encontrei alguém com esse nome numa lista de chamada pra matrícula da Unesp de Lorena, estado de São Paulo, vestibular de 2003, curso de Engenharia de Materiais. Arrá! Existia, de fato, uma Fernanda Fuschini. Mas como saber se era a morena das roupitchas impossíveis?

Insisti mais um pouco e encontrei outra Fernanda Fuschini no Orkut, mas esta era de Guarujá. Infelizmente não tinha nenhuma foto e quase nenhuma informação pessoal. Não parecia ter ligação com o caso. Hummm… Aquela estratégia não estava me levando longe, talvez eu devesse tomar uma outra linha investigativa. Mas qual? Tudo que eu tinha eram umas fotos e um nome que podia ser falso. Bem, já eram nove da noite e eu estava faminto, melhor parar um pouco. Então desci no boteco, me encostei no balcão e pedi o velho xizégui. Xizégui com um joguinho da terceira divisão na tevê. Nada mal. O cidadão trabalhador também merece, né?

Nem precisava tanto

Sorte. Bom investigador tem que ter sorte. Alguns dias depois, acidentalmente, vi uma foto no Orkut e achei familiar… Caramba, era a morena! A mesma pessoa mas com outro nome: Paula Marques. E esta morava no Rio Grande do Sul. As fotos eram as mesmas da Fernanda. Mas dados como idade e altura eram diferentes, assim como outras informações pessoais. Mais um perfil falso, certamente. Deduzi que os dois perfis foram criados por pessoas diferentes, dois caras que decidiram homenagear a morena turbinada reproduzindo suas fotos no Orkut. E talvez até houvesse mais perfis além daqueles dois, com outros nomes. A morena certamente não se chamava Fernanda nem Paula. Oquei. Mas não era muita coisa pra minha investigação. Eu precisava de algo novo.

Três semanas depois, quando eu já desanimava, a informação que eu buscava me chegou. Sem eu pedir. Sorte de bom investigador. Sabe esses amigos que não têm nada pra fazer na vida e todo dia te enviam foto de amadora, vídeo de séquiço bizarro, essas coisas bem educativas? Poizé, eu tenho vários desse tipo, tanto amigos como amigas. Uau, que expressão mais curiosa: como amigas. Preciso dizer isso mais vezes. Mas voltemos ao prato principal. Um amigo tarado seboso me enviou um arquivo com uma centena de fotos de uma tal Maria da Graça Mello. E sabe essas pessoas que não resistem a uma sacanagenzinha? Poizé, sou eu. Ainda bem. Então abri o arquivo, assim meio desinteressado, só pra dar uma conferida e… arrááá! Adivinha quem era a tal Maria da Graça, adivinha. Adivinhooooou. Era a morena das roupitchas incríveis.

Entre as fotos, estavam todas as que eu já vira no Orkut. O resto, porém, era novidade. E que novidade! Agora dava pra conhecer bem melhor a moça. Analisando as fotos, desconfiei que ela seria mesmo do Rio Grande do Sul pois numa delas havia uma cuia de chimarrão e em outra a placa do carro era de Porto Alegre. Mas quem teria conseguido todas aquelas fotos, e como? E o nome da moça? Será que Maria da Graça Mello também era outro nome falso? Atenda os telefones, Tábata.

Ro-rô-rô… Pois não é que esse era mesmo o nome verdadeiro? Maria da Graça é um desses casos de sucesso instantâneo da grande rede, uma lenda da internet. Veja só o que descobri: gaúcha de Cachoeiro do Sul, 26 aninhos, 1,60m, Maria da Graça é formada em Direito pela Ulbra e trabalhava como bancária, sendo também modelo. Olhaí… Modelo advogada. E eu cismando porque a outra era modelo psicóloga… Aí um dia ela, inocentemente, leva o computador numa loja pra consertar. Algum tempo depois dezenas de fotos suas estão na rede, inclusive fotos íntimas: dois funcionários da loja copiaram as fotos de seu computador e publicaram na internet, os calhordas. As fotos se espalham e assim rapidamente a linda morena das roupitchas inacreditáveis se torna conhecida entre os internautas. Essa é a história. Que coisa, a gente não pode mais nem levar o computador pra consertar, é o fim do mundo. Ah, parece que ela processou a loja.

Insisti um pouco mais na pesquisa e descobri dezenas de sites que republicaram as fotos, com comentários ultra-apaixonados, de homens e mulheres. Descobri vídeo-clips com suas fotos, realizados por admiradores anônimos. Descobri até um vídeo curtinho feito por um cara, de dentro de um carro, que a filmou saindo de casa e caminhando na calçada. Por aí você tira a paixão que a moça desperta na torcida. Sem ter a intenção, e a um custo que ela certamente jamais imaginou ter de pagar, Maria da Graça virou não apenas lenda – virou musa da internet.

O que ela disse sobre isso tudo? Não sei, não encontrei nada. Mas encontrei uma matéria no Jornal do Povo, de Cachoeiro do Sul, de 2005, onde ela comenta sobre por que chama a atenção: “Sou um pouco diferente das outras meninas, não sigo padrões comuns para me vestir e uso roupas mais ousadas.” Bem, pelo menos ela reconhece. Ela diz que nas idas frequentes a um shopping em Porto Alegre, sempre volta com muitos cartões de agências de modelos. Não duvido, não duvido. Mas diz que nunca ouviu nada ofensivo por causa das roupas que usa. Ofensivo? Claro que não. Ela é tão bonita e vistosa, e suas roupas tão ousadas, pra usar sua própria expressão, e o conjunto da obra é tão impressionante, que se alguém por acaso pensasse mesmo em ofendê-la, daqui que passasse o assombro ela já estaria longe.

Modelito pra lavar louça

Satisfeito com a missão cumprida, ponho o caso na pasta Mistérios Resolvidos e me despeço de Maria da Graça, ainda meio encantado com toda essa mistura ambígua de sensualidade, inocência e perdição que ela inspira. Parece uma personagem do Manara. Então percebo Tábata me olhando com seu velho olhar pidão. Claro, garota, você também merece. E dou-lhe um docinho de amendoim, que ela adora. Quanto a mim, desço no boteco pra comemorar com um conhaque duplo mais uma lenda da internet desvendada. E quanto a você, Maria da Graça, gostaria que soubesse que agora você faz parte do time das minhas heroínas, junto a Druuna, Vampirella e Karine Alexandrino. Espero sinceramente que ganhe o processo contra a loja, que seja feliz e continue sendo a gracinha que você é. Será impossível controlar a publicação de suas fotos na rede pois, como você sabe, caiu na rede, é da rede. Mas quem sabe as mesmas fotos que te trouxeram constrangimento não te trarão alguma oportunidade interessante, né?

Ah, e quanto aos meus honorários, nem pense nisso, senhorita, por favor. Fiz por amor à profissão. Como? A gente se conhecer? Ahn… bem… claro, claro que podemos. Mas olhe, eu fico tímido diante das minhas heroínas, é capaz de me dar gagueira, começar a tremer e sair correndo, vai ser vergonhoso. Como? Você me amarra numa cadeira? Super-Graça, não diga essas coisas… Heim? Você vai com aquele vestidinho branco da foto do balcão? Ah, não, o vestidinho branco não, assim você já tá abusando do cidadão trabalhador, tenha paciência. Tá pensando o quê, heim?, heim? Aceito.

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Ricardo Kelmer – blogdokelmer.wordpress.com

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> Este texto integra o livro Vocês Terráqueas

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Investigador Erri Kelmer passando mal.

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> Matéria com Maria da Graça Mello (RBS TV, 18.03.07)

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> Veja aqui as fotos proibidas da morena turninada e os vídeos com o making of dos ensaios eróticos. Exclusivo pra Leitor Vip: basta digitar a senha de 2010.

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MAIS CASOS DO INVESTIGADOR ERRI KELMER

> O mistério da morena turbinadaAí um dia ela, inocentemente, leva o computador numa loja pra consertar. Algum tempo depois dezenas de fotos suas estão na rede, inclusive fotos íntimas

> O mistério da cearense pornô da CaliforniaUma artista linda e gostosa, intelectual e transgressora, que adora perversões e entre uma orgia e outra luta pela liberação das mulheres

> Tábata, a mulher barata – Não fazia parte dos meus planos ter uma secretária ninfômana, alcoólatra e escandalosa mas fazemos uma boa dupla no mundo das investigações sexuais.

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SÉRIES ERÓTICAS DESTE BLOG

> As aventuras de Diametral e Ninfa Jessi – A mais bela e safada história de amor jamais contada.

> As taras de Lara - Desde pequena que Lara só pensa naquilo. E ai do homem que não a satisfaz.

> Um ano na seca – O que pode acontecer a um homem após doze meses sem sexo?

> O último homem do mundo - O sonho de Agenor é que todas as mulheres do mundo o desejem. Para isso ele está disposto a fazer um pacto com o diabo. Mas há um velho ditado que diz: cuidado com o que deseja pois você pode conseguir…

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COMENTÁRIOS
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01- vc arrasa sempre..parabéns!!! Feliz Ano novo pra vc, que Deus o abençoe sempre e nos permita conviver com tal humor e inteligência por muitas décadas(se não se importar em ficar velhinho, claro) beijos de uma de suas … fãs – Ana Virgínia, Fortaleza-CE – dez2006

02- meu……………….. .fantastico somplismente fantastico a coluna da fernanda q vc fez magnifico…….sem palavras responde ai c puder Abraços. Gustavo Coelho, São Bernardo do Campo-SP – dez2006

03- Olá Ricardo!!! Amei o texto, divertido e real. Infelizmente. Eu já fui uma desses taradas de plantão, rs, qse caí na lábia dum “galã” orkutiano… Sorte, que desconfiava, um cara lindo, descente, inteligente…e não era viado? Só podia ser invençao dum barrigudo punheteiro que não tinha nada melhor a fazer do que sacanear mocinhas incautas como eu…rs Bom, é isso! Beijo pra vc e aceno pra sua assistente(de longe, não sou fã de baratas). Daniela Polvani, São Paulo-SP – dez2006

04- Comentário: Meu caro colega tarado seboso idiota da internet, também faço parte desta categoria e acho que sei de quem se trata esta morena turbinada, o nome da maravilhosa criatura é: Maria da Graça Mello. Sempre gostei (e quem não gosta?) de humor e sacanagem e vc escreve isso numa mistura bem dosada. Só que agora passarei a mandar os links dos seus textos pras listas que participo com maior afinco. Tarados unidos jamais serão detidos… Rubens, Fortaleza-CE – dez2006

05- keeeeeeeeeeeeeeeeeeeee !!!!!!!! FELIZ ANO NOVOOOOOOOOOOOOOOOO… Se a TURBINADA é psicólogaaaaaa…eu sou um mico de circoooooooooo…rsss… bjs Ro PS. Pelo menos meus turbos são verdadeiroooooooooooosssss…. .rsss… Rosângela Letty, São Paulo-SP – jan2007

06- Olá Ricardo estás bem?ADOREI O TEXTO,SAUDADES!!!!!!!!!!!! Silvana Reis, Lisboa-Portugal – jan2007

07- Ilustre Kelmer Entrou meses atras wem Marsicano 3 uma nifeta sexi chamada Marry Jane (Marijuana). Começou a me escrever tietando, texcendo elogios. Respondi com depoimentos erotixcos. E a coisa foi crescendo ate que sugeri um encontro. Mas a coisa nao rolava nunca. Era sempre aquela bolinação intwerminavel. Ate que um dia uma voz feminina surge no meu telefone e reconheci ser da (…), uma chinesinha anã cocainomana inveterada e psicoide. Falei; O que voce quer (…)??? E ela desligou. Depois num recado, a voz dizia-se da Marry Jane, mas pude sacar que o perfil Marry Jane era falso, e a ninfeta nao era outra senão a fronteiriça paranoica da (…). Que Puta Alugação!!! Alberto Marsicano, São Paulo-SP – jan2007

08- INDA RAI NEGORREI! ADOREI!!!!!!!!!!!! Ana Lúcia Castelo, Newark-EUA – jan2007

09- Ricardo! Você é mesmo um incansável observador das coisas do mundo! Grata pelo envio do convite ao seu texto. Aproveito para lhe desejar um 2007 pleno de inspiração e reconhecimento! Juraci Maia, Lisboa-Portugal – jan2007

10- Bom demais!!!! Marcos André Borges, Fortaleza-CE – jan2007

11- adoreeeeeeeeeeeeeeeeei txiuuuuuuuuu, o negócio lá da Gracinha kkkkkkkkkk A-D-O-R-E-I!!!!!!!!!!!!!!!! é tu e mais ninguem viu? kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk bjs bjs bjsssssssssssssssssssssssssss. Gizelle Saraiva, Natal – jan2007

12- hahahhhahahahaha.rs eu dei tanta risada lendo seu texto, mas que coisa né, impressionante como nos engamos nos deixamos seduzir e se não fossem pessoas inteligente como vce, para investigar estes casos, imagine só quantas babadas ja não teria o seu e outros monitores, fico imaginando a cara da sua baratinha tabatha rindo e pensando ai este galã parecido com o fabio junior fuçou fuçou e acabou descobrindo uma heroína da net que apenas tinha ido levar seu computador sem imaginar que suas fotos pudessem ser extraviadas. Achei sensacional e muito bem humorado o texto, parabens Ricardo pela investigação e por seu espírito crítico, bjus. Érika Ortiz, São Bernardo do Campo-SP – jan2007

13- Como tem passado? Adorei este conto! É bem real!!!!!! Tenha um feliz 2007! De coração! Danila Gomes, Fortaleza-CE – jan2007

14- Valeu, meu camaradinha! Continue mandando q eu vou lá e leio! Bom Ano Novo pr’ocê! Palmas pro novo L.F. Verissimo… Engate uma reduzida e mande bala q vc chega lá!Só podia vir mesmo é da capital do nosso Ceará — eu só num digo o nome da cidade pq, diferentemente de vc, sou VOZÃO do coração do meu povão!!! Mas tudo bem; sei reconhecer o talento alheio qdo vejo um q nem vc, mesmo q seja torcedor do “stela”, seu único “defeito”… Rsrsrsrsrsrsrsrsrsrsrsrsrsrsrs! E vamo pa frente pq a campanha do BI tá só começano… Wander Nunes Frota, Fortaleza-CE – jan2007

15- Erri Kelmer , parabéns pelo caso resolvido e não esquecendo a ajudante voadora, Tábata, envio um abraço bem virtual, ajudante é ajudante e merece cumprimentos, né?Bem de longe, bem de longe.Adorei o mistério e seu decorrer.Qualquer mistério insolúvel pedirei humildemente a ajuda do investigador e sua, hã…, ajudante.Beijo.Feliz 2007. Lia Aderaldo, Fortaleza-CE – jan2007

16- SEU TEXTO SOBRE A MORENA É SIMPLESMENTE: I N C R Í V E L!!! Andrea Menge, Niterói-RJ – jan2007

17- Ricardo, Incrível o teu senso de humor e a tua capacidade para descrever tão bem os encantos e os mistérios que cercam a Maria das Graças! Parabéns! E quanto ao resultado da soma entre a “mistura ambígua de sensualidade, inocência e perdição que ela inspira” e os teus instintos animais em ebulição, sem comentários!!!! kkkkk. Kátia Regis, João Pessoa-PB – jan2007

18- Eu adorei o Mistério da morena turbinada. Modelo e Psicóloga. Há.Há. Na verdade Orkut é um grande divã de pobre. Ô povo pra suvinar analista. E aquelas autodefinições me matam. Neura pra todo lado. E quem se define nem percebe. Por isso mesmo adorei o investigador que desvenda mistérios no Orkut. Grande contribuição para a sociedade. Há . Há. Dê noticias. bjs. Marcinha Sucupira, Fortaleza-CE – jan2007

19- Adorei o texto da morena do Orkut. Mariucha Madureira, Brasília-DF – ja/2007

20- esse texto é muuuuuito bom!!!! hauhauahuaha dei muitas gargalhadas.. saudades de vc, qdo vem ao Rio?? Beeeijos meus e da Lívia. Daniela Cecchi, Rio de Janeiro-RJ – jan2007

21- Oiiii, vim te dar os parabéns =] adoreiii “O mistério da morena turbinada”, ótimo!!! aproveitando a oportunidade, feliz 2007! beijos : * Priscila Piffer, Rio de Janeiro-RJ – jan2007

22- Adorei a história rsssssssss… Ora, sou tua amiga no orkut há tanto tempo e vc nunca reparou que sou linda??? Rssssssssssssssss…… Afffff…. homem é tudo igual mesmo rssssssssss…. Um 2007 de muito sucesso pra vc, ricardo. Beijão. Ana Cristina Souto, Fortaleza-CE – jan2007

23- sei nao meu irmao, + continuo achando que e uma traveca do piaui!!!! melhor da rua joao pessoa, aqui em campina!!!! Cesar de Cesário, Campina Grande-PB – jan2007

24- Bom, muito bom, excelente uso das palavras, das imagens, dos aspectos sedutores da criação nesse exercício, tá tudo no lugar, como na morena… Outra coisa: com temas assim, até eu… Pense numa coisinha inspiradora! é, é mesmo um material pra te dar um milhão de dólares, de um milharal americano Abs. Max Krichanã, Fortaleza-CE – jan2007

25- Muito elogiado o “morena turbinada ” inclusive pela citada Karine Alexandrino que te manda um bj. bjão bonequinho ! Michele Diamanti, Fortaleza-CE – jan2007

26- Muito bom Ricardo! Esse é o seu estilo.Tema interessante e atual, humor e criatividade. Eu torcí para que fosse uma mensagem “real”. Pensando bem !!!! Eduardo Macedo, Recife-PE – jan2007

27- Oi Kelmer, To te lendo aqui de Paris acredita? Nada me separa de ti. Como sempre ri demais. Foi bom, pq hoje nao to la muito bem, em Paris, pode? So eu mesmo! Bjs. Lígia Virgínia, Paris-França – jan2007

28- kelmer, s-e-n-s-a-c-i-o-n-a-l, sampa tá te inspirando. fiquei até com vontade de conhecer a tábata e tomar um conhaques desses. bjs. Ihvna Chacon, Fortaleza-CE – jan2007

29- PARABENS!!! seu artigo é muito bem escrito e inteligente! a maria adorou o texto. Site Maria da Graça On Line – fev2007

30- Eta crônica boa!! Mede forças com L.F.Veríssimo ou Fernando Sabino nos bons tempos. Adriano Petrachi, Ferrara, Itália – out2010


Gisele, a espiã nua que eliminou o Brasil

julho 11, 2010

Ricardo Kelmer 2006

Gisele, aquele rostinho lindo, aquele sorriso meigo, na verdade era uma fria e sedutora agente secreta a serviço da seleção francesa

Faltava meia hora pro jogo começar. Brasil e França lutando por uma vaga na semifinal da Copa do Mundo de Futebol de 2006. Horácio tomou banho cantando o hino nacional, se enxugou em meio a uns passinhos de samba e foi ao quarto se vestir. Estava tranquilo e otimista. Abriu a gaveta do armário e fez uma pose solene enquanto esticava o braço pra pegar sua arma, a arma mortífera, aquela que levou o Brasil ao título em 2002 e agora o consagraria hexacampeão.

Ué? Que estranho… A cueca da sorte não estava na gaveta das cuecas. Procurou então na outra gaveta. Nada. Procurou na outra, depois na outra… E nada. Estaria no cesto de roupa suja? Correu pro cesto, jogou tudo no chão… mas também não estava lá. Voltou pro quarto e procurou mais uma vez em todas as gavetas, olhando com redobrada atenção. Remexeu no guarda-roupa inteiro, olhou embaixo e encima. Procurou sob a cama, atrás dos livros… e nada. A cueca simplesmente sumira.

Horácio procurou se acalmar, precisava se acalmar, a seleção brasileira dependia disso. Quando fora a última vez que usou? No dia do último jogo, claro, só usava a cueca da sorte em dia de jogo da seleção. Na Copa de 2002 usara sete vezes, nas sete vitórias do Brasil. Nesta Copa usara quatro vezes, nas quatro vitórias, a última alguns dias antes. Repassou os acontecimentos feito um filme: o último jogo, a vitória brasileira, a comemoração no bar, os amigos, todo mundo festejando… E depois? Depois terminou a noite com Gisele, ai, Gisele, ali mesmo em seu quarto. Gisele, a gata que todos cobiçavam. Ele nem acreditou quando ela começou a lhe dar bola no bar, achou até que ela estava brincando com ele. Mas não estava. Ela lhe sussurrou no ouvido, com aquele sotaque encantador, que o queria, que o queria muito, muito e urgente. E aí, bem, aí ele aproveitou a boa sorte e a levou pro seu apartamento, onde transaram bastante, sexo de alta qualidade. E depois ela foi embora. E ele dormiu feliz, pela vitória no campo e na cama.

Será que Gisele levara a cueca? Mas por que levaria? Ela não tinha cara de ser colecionadora de cuecas amarelas usadas. E por que levaria sem lhe pedir? Não, não fazia sentido. Gisele era uma pessoa educada, de classe, uma francesa super-educada, que escolhera o Brasil pra morar e…

E de repente uma bigorna lhe caiu sobre a cabeça. E tudo ficou espantosamente claro. Gisele era francesa! Tinha pai brasileiro, sim, mas nascera na França. E ele havia comentado no bar sobre a cueca da sorte. Ela sabia de tudo!

Durante algum tempo ficou ali, sentado na cama, em estado de choque. Uma espiã francesa… Não, não podia ser, essas coisas só acontecem nos filmes. Uma agente secreta que se infiltra entre torcedores brasileiros e descobre a principal arma da seleção pentacampeã… Não, isso já era demais, estava tendo alucinações. Uma espiã que o seduzira maquiavelicamente e agora estava de posse da principal arma brasileira, muito mais poderosa que as arrancadas do Ronaldo, as pedaladas do Robinho e os dribles do Ronaldinho. E se ela já houvesse dado fim à cueca, rasgado, incinerado, desmaterializado?

Não, não, não. Não queria nem pensar nessa hipótese. Talvez a cueca ainda existisse, devia estar em algum lugar. Mas onde? Perguntar pra Gisele de nada adiantaria, ela não revelaria o segredo que daria ao Brasil a vaga na semifinal. Quem diria… Gisele, aquele rostinho lindo, aquele sorriso meigo, na verdade era uma fria e sedutora agente secreta a serviço da seleção francesa. Um sistema tático mil vezes mais eficiente que o 4-2-2-2. Definitivamente o futebol perdera sua romântica inocência.

Ligou a tevê, nervoso. Os times estavam em campo, o jogo iria começar. Precisava fazer alguma coisa. Pegou o telefone e ligou. Do outro lado ela atendeu. Precisava ser frio também, ela não podia desconfiar de nada. Oi, Gisele, tudo bem, vai ver o jogo onde, ah, tá, não, vou ver aqui mesmo, tá, então depois a gente se encontra por aí, heim, claro que vai dar Brasil, ahahah, claro, um beijo, macherri, tchau.

Cínica. Cínica e fria como toda espiã. Ela estava muito confiante, exageradamente confiante, ninguém fica tão confiante assim quando vai jogar contra o Brasil. Horácio respirou fundo, procurando se acalmar. Tentou analisar a situação de modo racional. A seleção brasileira tinha os melhores jogadores do planeta, era a grande favorita ao título. Somente um desastre poderia fazê-la perder aquele jogo. É, talvez dessa vez o time não precisasse da cueca da sorte. Só uma vezinha. Então vestiu outra cueca, botou uma bermuda, a camisa, pegou uma cerveja na geladeira e ligou a tevê. Não mais veria o jogo com os amigos. Veria em casa mesmo, sozinho.

O time nunca precisou tanto da cueca. A seleção estava irreconhecível, totalmente travada, absolutamente apática. Estava um completo desastre. Quando o árbitro encerrou o primeiro tempo, o placar em zero a zero, ele ficou ali sentado na poltrona e parecia que lhe pesava sobre os ombros toda a frustração de centenas de milhões de torcedores no mundo inteiro com a seleção canarinho. Então, sem aguentar mais, levantou da cadeira de um pulo, decidido. Calçou o tênis, pegou a carteira e saiu correndo. Desceu as escadas de cinco em cinco degraus, atropelou uma senhora na portaria, correu até a avenida. Só então lembrou que àquela hora táxi nenhum estaria na rua. E agora?

A última vez que fizera exercício foi uma faxina no apartamento, quando a faxineira não pôde ir, isso seis meses atrás. Estava meio gordinho, fora de forma. Mas o dever cívico se impunha. E o segundo tempo já estava começando! Então encheu-se de disposição e pôs-se a correr.

Com cinco minutos de corrida as pernas começaram a pesar. Mas precisava prosseguir, precisava. Com dez minutos já estava difícil respirar. Mas precisava, precisava. Com quinze minutos, suado e ofegante, começou a pensar em desistir. Com vinte minutos não pensou mais: desistiu. E parou. E se encostou num poste, quase botando os bofes pra fora. Não aguentava mais dar um passo. Se ao menos passasse um táxi… Então, do outro lado da rua, viu um bar, muitas pessoas. E uma tevê a transmitir o jogo. Caminhou até lá e perguntou do placar. Um a zero pra França.

Ele não acreditou. Conferiu o placar na tela da tevê. Infelizmente era verdade, o Brasil estava perdendo. E aquelas pessoas nem desconfiavam que a culpa era dele…

Nesse instante alguma força insuspeitada emergiu do mais profundo do seu ser, espalhou-se por seu sangue e lhe deu forças. E Horácio recomeçou a correr. Bem, é verdade que mais parecia uma corrida em câmera lenta mas pra ele era o maior esforço do mundo. Trinta minutos do segundo tempo, talvez ainda desse tempo, tinha que dar, tamanho esforço não poderia ser em vão. Trinta e cinco minutos. Ele seguia em seu passinho curto e arrastado enquanto o tempo, implacável, prosseguia mais rápido que o normal.

Quando cruzava a praça tropeçou numa pedra e se espatifou no chão, cena grotesca. Quase ficou lá pro resto da vida mas levantou feito um zumbi e continuou sua marcha obstinada. Aos quarenta minutos do segundo tempo avistou a casa e juntou o que lhe restava de força pra chegar até lá, o coração à beira de explodir. Lembrou do primeiro maratonista grego, aquele que concluiu o percurso e caiu morto. Não, não podia morrer agora, agora não.

Finalmente chegou à casa. A campainha, tocar a campainha… Estender o braço… Pressionar o botão… Blim-blom… Baixar o braço… Encostar-se no portão… Um senhor apareceu, apressado, vestindo bermuda e camisa amarela. Seo Valdemar, pai da Gisele.

Sem saber como dizer o que precisava dizer, Horácio começou perguntando por Gisele. À sua frente seo Valdemar o observava e parecia tentar desvendar o que aquela figura bizarra teria a ver com sua filha. Desconfiado, ele respondeu que Gisele tinha ido ver o jogo num bar. E agora? Seo Valdemar, sua filha está com minha cueca da sorte e eu preciso urgentemente estar dentro dela, da cueca, claro, pro Brasil virar o jogo. Como dizer uma coisa dessa? Não, não conseguiria.

Mas precisava, precisava. Respirou fundo e começou: Seo Valdemar… o senhor acredita em… superstição? O pai da moça se aproximou um pouco mais e, olhando-o firme nos olhos, respondeu: O Brasil perdendo e você me faz vir até aqui pra perguntar se eu acredito em superstição? E lhe deu as costas, voltando pra sala.

Horácio sentiu que era o fim. Nada mais a fazer.

Mas se quiser entrar pra ver o final do jogo, entra logo e fecha o portão. Era a voz de seo Valdemar, que já sumia na porta.

Horácio obedeceu rapidamente e no instante seguinte estava na sala, ao lado de seo Valdemar e de uma senhora que entendeu logo ser sua esposa francesa, a mãe da agente secreta, que acenou pra ele rapidamente, absorta na tela da tevê. Coitada, nem desconfiava das verdadeiras atividades da filha…

Quarenta e quatro minutos do segundo tempo. O Brasil continuava perdendo. Perdendo e jogando incrivelmente mal, sem atitude de pentacampeão. Os jogadores pareciam anestesiados, perdidos, incapazes de reagir. Que falta fazia a cueca! Ele tinha três ou quatro minutos pra salvar o país, não podia mais desperdiçar nenhum segundo.

Por favor, onde fica o banheiro? Seo Valdemar, concentrado na tevê, apontou pro corredor e ele saiu. Em frente ao banheiro mudou de direção e entrou rapidamente num quarto. Pelas fotos na parede, era o quarto de Gisele. Abriu o guarda-roupa e começou a tirar todas as peças de roupa. Na primeira gaveta nada. Na segunda nada. Nada na terceira, nem na quarta. Nem na quinta, nem na sexta, nem na sétima, como um guarda-roupa podia ter tanta gaveta?

De repente parou. Parou e pela primeira vez teve a exata noção do que fazia. Estava na casa de uma garota que mal conhecia, procurando por uma cueca que nem sabia se ainda existia, uma cueca que supostamente seria a responsável pelas vitórias brasileiras… Que ridículo. E pensar que chegara mesmo a imaginar que Gisele era uma agente secreta francesa cuja missão era raptar uma cueca… Não devia estar muito bem da cabeça. O Brasil perdia porque a França jogava melhor, simplesmente por isso, não tinha nada a ver com mandingas e rituais de boa sorte.

Falta!

Ele escutou a voz do locutor.

Falta na entrada da grande área, é a última chance do Brasil!!!

Horácio lançou-se novamente sobre o guarda-roupa, determinado, abrindo a última gaveta, tirando de lá todas as roupas e jogando tudo no chão. O intrépido cavaleiro arrancando as tripas do dragão guardião do tesouro encantado. Então, surgindo lá no fundo, o que viu? O tesouro. A cueca. A cueca amarela da sorte. Por alguns segundos ficou olhando, sem acreditar, como se estivesse diante do Santo Graal.

É a última chance!, o locutor repetiu, despertando-o do transe.

Ele então livrou-se rapidamente dos tênis.

Momento dramático!

Tirou a bermuda.

O árbitro autorizou!

Pegou a cueca e vestiu com toda a rapidez do mundo.

Correu pra bola!

Mas no segundo pé a cueca enganchou…

Bateu!

… e ele se desequilibrou e caiu no chão…

Pra fora!

… metade da cueca numa perna e a outra metade enganchada no pé.

Fim de jogo! O Brasil está fora da Copa!

Ficou imóvel durante um tempo, deitado no chão do quarto. Da sala vinha a voz do locutor feito o eco de um som distante. Ao seu redor vestidos, blusas, meias e calcinhas espalhados pelo chão. O Brasil estava fora da Copa. Toda uma nação derrotada pela astúcia de Gisele, a nova encarnação da espiã nua que abalou Paris.

Levantou. Vestiu a bermuda e calçou os tênis. Ainda pensou em arrumar a bagunça que fizera mas não, pelo menos aquele trabalho Gisele teria. Na sala, seo Valdemar arrasado, ainda de olho na tevê, nem o viu passar. Na cozinha sua esposa cantava a Marselhesa. Caminhou pela rua devagar, evitando o olhar das pessoas. Se elas soubessem…

Pegou um ônibus e sentou no último banco, encolhido em sua vergonha. Tentou pensar em outra coisa, qualquer coisa que fosse, mas não conseguiu. Então, não resistindo mais, tirou do bolso a cueca. E olhou pra ela como alguém que espera ser despertado de um pesadelo. Então, feito uma bola de cristal, as imagens começaram a se formar à sua frente… Pôde ver as manchetes do dia seguinte, os programas de tevê, os comentários inconformados, as análises do jogo, todos buscando as causas da derrota. Viu a incrível dimensão que aquela derrota tomou. Viu a população saindo às ruas, exigindo a cabeça dos culpados, um drama nacional. Viu os jogadores sendo interrogados, o técnico demitido. Viu a polícia envolvida, viu vários suspeitos de traição à pátria sendo detidos, estrangeiros envolvidos num meticuloso esquema de espionagem, entre eles uma garota francesa que admitia ser uma agente secreta a serviço da seleção de Zidane e que contara com um comparsa brasileiro chamado Horácio…

Voltou a si de repente, assustado. Olhou pra um lado e pro outro, com medo de alguém também ter visto o que ele vira. Olhou pra cueca mais uma vez. E então não teve dúvidas: esticou o braço pela janela e atirou-a no meio da rua. Depois se encostou no banco e respirou fundo. Pegariam Gisele mas pelo menos não o pegariam com a prova do crime.

O ônibus seguiu pela avenida, sumindo no movimento da cidade que aos poucos voltava ao normal. No asfalto ficou a cueca amarela, agora saco de pancada dos automóveis derrotados.

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Ricardo Kelmer – blogdokelmer.wordpress.com

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Este texto integra o livro Vocês Terráqueas

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01- Achei muito legal!Fiquei cheia de expectativa pra saber que fim tinha levado aquela bendita cueca.Fiquei até cansada daquela correria do Horácio.Caramba,coitado!Na hora em que ele acha a cueca e começa a tentar vesti-la e acaba caindo no chão,imaginei que a mãe da Gisele fosse aparecer no quarto cantando a Marselhesa toda feliz…” Allons enfants de la Patrie,l e jour de gloire est arrivé…” e,derrepente, o encontraria deitado em cima dos vestidos,meias e calcinhas da filha,nu,com a cueca em uma das pernas.Que situação,heim? Adorei o texto do início ao fim.Muito bom.Vc descreveu muito bem as situações e emoções, me fazendo visualizar tudo como se fosse uma cena. Sidiany Colares, Fortaleza-CE – jul2006

02- Demais o texto!!!! Acertou em cheio na identificação do brasileiro com as superstições em copas. Ainda bem que os franceses não acaharm o meu gorrinho da sorte. Um abraço! Jayme Akstein, Rio de Janeiro-RJ – jul2006

03- Ahahahaha, delicioso, esse texto!! Olha, eu acho muito verosímil! Aliás, tenho quase a certeza que foi isso mesmo que aconteceu! Beijos. Susana Mota, Leiria-Portugal – jul2006

04- Hoje amanheci com nostalgia. Aos 59 anos acho ter este direito. Relembrei-me de meu início de carreira nas leituras. Gizele, a espiã nua que abalou pariz. Estou ao computador e apelo para o meu “santo” Google e eis que aparece em primeria página seu artigo da sua gizele nua que arrasou o Brasil… Leio, não leio, li! Cara, foi demais. Adorei. e tenho certeza que a gizele dos meus sonhos saudosos ainda está viva. A mesminha. Se bem que ela brigava mais era pelos Estados Unidos, não era? Não a sua Gizele, a outra. Ou era só contra a Rússia. Mas, está de parabens. Quem conheceu a outra, (octagenária por agora) sabe que seria bem capaz de abrir as pernas por uma boa causa (deles) é claro. Paulo Chinelate, Fortaleza-CE – set2007

05- Vc é muiiiito bom! risos Adoro … bjs Arlene, Rio de Janeiro-RJ – jul2010

06- muiiiiiiiiiiiito legal. este eu já li! beijosss. Lucia Gonczy, São Paulo-SP – jul2010

07- kkkkkkkkkkkkkk não fala mau da Gisele , eu era fã dela..alais fui fiel leitora da serie q fizeram de livro de bolso de uma filha(ficticia dela)A série ZZ7 Brigith Monfort , filha da espiã gisele com um genetal alemão… vc me trouxe lembranças…rsrs bjão. Beth Ghimel, Manaus-AM – jul2010

08- “kkkkkkkkkkkkkkkkkkkk….Demais!!!” Lia Aderaldo Demétrio, Fortaleza-CE – jul2010


A ilha (uma fábula do autoconhecimento)

junho 10, 2010

Ricardo Kelmer 1997

Talvez uma ilha na verdade fosse uma… montanha! Sim, uma montanha com o pico fora dágua

Era uma ilha que vivia no meio do oceano. Levava uma vida tranquila, sem grandes questionamentos. Conhecia outras ilhas e com elas se comunicava. Um dia, porém, uma ideia inquietou a ilha: se toda vez que a maré baixava, uma porção de terra se descobria, então até que ponto haveria terra? Até que ponto a ilha existia?

Isso lhe tirou o sono por várias noites. De repente seu conceito sobre si mesma começou a mudar. Sempre se considerara uma porção de terra boiando à superfície da água, isso era ponto pacífico, todas as outras ilhas também pensavam assim. Mas agora já não podia acreditar nisso. Uma ilha não terminava logo abaixo da linha das ondas. Não. Continuava para baixo. Talvez uma ilha na verdade fosse uma… montanha! Sim, uma montanha com o pico fora dágua.

Saber que ela “continuava” além daquilo que sempre julgou ser era algo espantoso de se pensar. Assim, dia após dia, a ilha prosseguiu em seus esforços de autoinvestigação – precisava saber até onde existia. No entanto, à medida que sua atenção mergulhava em si mesma, as águas ficavam mais escuras. Era preciso cada vez mais concentração para não se perder. Ela prosseguiu, mais atenta, e descobriu que aquilo que existia abaixo da superfície continuava sendo ela mesma, sim, mas parecia ter algo como uma vida própria.

Cada vez mais surpresa, a ilha constatou que aquela parte mais profunda de si mesma levava uma existência semi-independente, porém interagindo sempre com a superfície: influenciando e sendo influenciada por ela. A ilha então soube a razão por que se comportava dessa ou daquela maneira e muitas coisas ficaram mais claras a respeito de si mesma, de seus relacionamentos com outras ilhas e da vida de modo geral. E a cada descoberta que fazia, outras mais se anunciavam e de repente era como se o Universo se expandisse para dentro dela mesma!

Muito tempo se passou até que se convencesse, verdadeiramente, de que era mesmo uma montanha com o pico emerso. Ela estava presa a uma base e essa base era uma enorme extensão de terra que funcionava como chão. Vinham de lá todas as ilhas. E para lá voltariam todas quando os movimentos da terra, dos ventos e das águas as forçassem a isso. Mas a grande maioria das ilhas não sabia que todas elas continuavam para baixo: por isso não entendiam as reais motivações de muito do que faziam. A parte acima da superfície era tudo que sabiam sobre si mesmas e isso era pouco. A parte submersa, a montanha, era a parte inconsciente de cada ilha, aquilo que desconheciam de si mesmas. E a terra do fundo do mar era o inconsciente maior, único, de todas elas, o lugar de onde vinham.

Ao entender esse fato, a ilha lembrou do tempo em que sua consciência de si própria se limitava àquela minúscula porção de terra à superfície. Todas as ilhas vêm do mesmo lugar – ela repetiu, intrigada com suas descobertas – porque são feitas da mesma terra… A areia e os nutrientes que as raízes de suas plantas colhem, vem tudo do mesmo chão… Todas as ilhas que existem são no fundo uma coisa só, que se experimenta em várias extensões de si própria e cada extensão possui consciência de si mas esta consciência é limitada pois quase nunca desce em direção ao fundo, acomodando-se na parte mais superficial… Se cada ilha se aprofundasse em sua noção de si própria, acabaria se conhecendo melhor e, por virem todas do mesmo lugar, conheceria melhor a todas as outras ilhas.

A ilha viu que eram ideias grandes demais, confundiam a mente. Aquela autoinvestigação era importante mas requeria muita atenção para não se perder durante o processo. Só assim poderia transitar com êxito entre as duas camadas de realidade, a que ficava à superfície e aquela mais escura e misteriosa que prosseguia rumo a seu próprio interior.

Enquanto tudo isso acontecia, as outras ilhas observavam seu comportamento e não entendiam bem o que ela tentava lhes dizer. A ilha sentiu-se só. Viu-se então pensando do ponto de vista da terra lá do fundo: se elas não se conhecem e elas todas são parte de mim, então eu ainda não me conheço tão bem… Assim sendo, como poderia condená-las? Não, não podia. Deveria entender e aceitar o ritmo natural da vida de cada uma das ilhas. Deveria agir com a mãe sábia e bondosa que incentiva todos os seus filhos mas tem de respeitar o caminho individual de cada um deles…

Foi então que, subitamente, a ilha percebeu, num intenso clarão de compreensão, que toda aquela vasta extensão de terra lá embaixo funcionava como um útero a expulsar pedaços de si mesma, forçando-os à superfície. Uma vez lá, eles se entendiam ilhas e começavam então sua aventura individual em busca de saber quem de fato eram, de onde vieram e por que existiam. Mas por que a terra fazia isso? Talvez para ela própria aprender com a experiência individual de cada ilha. Talvez, ao morrer, uma ilha levava à terra sua própria experiência, e ela serviria para formar as futuras ilhas e, assim, toda ilha continha em si, sem se dar conta, a mesmíssima areia das que a antecederam. Talvez, através da vida de cada uma das ilhas, a terra aprendia cada vez mais sobre si mesma…

Se isso era verdade, então cada ilha possuía uma enorme responsabilidade: conhecer-se a fundo, viver a vida da melhor forma possível e aprender o máximo que pudesse pois tudo o que vivesse formaria o material do qual seriam feitas as ilhas que a sucederiam.

A vida é mesmo uma tremenda aventura! – pensou a ilha enquanto se divertia com os olhares estranhos que as outras lhe lançavam. Uma aventura de cada ilha. Mas também da terra inteira.

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Ricardo Kelmer – blogdokelmer.wordpress.com

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> Este texto integra o livro A Arte Zen de Tanger Caranguejos

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SOBRE CARL JUNG

> Carl Gustav Jung (26.07.1875 – 06.06.1961)
Psiquiatra e pensador suíço. Fundador da psicologia analítica, também conhecida como psicologia junguiana. Jung, assim como Joseph Campbell (1904-1987), ajudou a reacender o interesse sobre a mitologia, situando os mitos como elementos essenciais na busca do indivíduo por sua essência e completude

> Jung – a jornada do autodescobrimento - Vídeo com um resumo da vida e das ideias de Carl Jung, o psicólogo e pensador suíço criador da teoria do inconsciente coletivo

> Jung na Wikipedia

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LEIA NESTE BLOG

> Livros: He, She, WeOs rios de nossas vidas na verdade correm por leitos muito, muito antigos – os mesmos leitos que outras águas, ou outras pessoas, percorreram do mesmo modo

> Mulheres na jornada do herói – É ainda mais interessante ver o relato das mulheres pois elas sempre foram, mais que os homens, historicamente reprimidas na busca pela essência mais legítima de suas vidas

> A ilha – Uma fábula sobre o autoconhecimento

> Mariana quer noivar – Você abdicaria das relações amorosas em sua vida em troca de dinheiro ou sucesso na carreira?

> Carma de mãe pra filha – Os filhos sempre pagam caro pelos pais que não se realizam em suas vidas

> A humanidade, o psicólogo e a esperança – Os acontecimentos mostram que a humanidade está se unificando, unindo seus opostos

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01- Oi Ricardo, parabéns pela concepção da ilha. Nem Jung teria feito melhor! Abraços. Angela Schnoor, Rio de Janeiro-RJ – nov2004

02- Caro Ricardo , Fiquei sendo seu fã desde que em 1999 qdo assiti a uma palestra tua no auditório do colegio capital sobre o filme MATRIX. Na tua palestra fizeste uma analogia de espelhos dentro de uma bola de vidro a refletir a luz do sol com nós seres humanos e perguntaste: O que é necessário fazer para mudar o modo do globo de vidro refletir a luz do sol? Ao que respondeste… basta mudar um só espelho. Assim querias dizer que não precisamos mudar ninguém somente a nós mesmo. Cara vc não sabe o quanto já falei de vc para as pessoas a quem conto esta analogia. O fato é que ouvir aquelas tuas palavras me levou a uma pesquisa igual “A ILHA”. Continue sempre assim… em constante questionamento consigo mesmo pois acredite foi assim que passei a ser uma pessoa melhor. Luiz Ferreira de Sousa Junior, Fortaleza-CE – nov2004

03- Mais um que a Amandinha aqui se Identifica… A Ilha!!! Belíssimo!!! hehehee Bkjão bom carnaaaaaaa aeeeeee hehehe. Amanda Gallindo Borges, Florianópolis-SC – fev/2007

04- Olá Xará, Há dias que quero te prestar um elogio. Encontrei em seu site um conto. A Ilha. Se eu pudesse limitar em uma única palavra o que dali absorvi, eu diria que INSPIRAÇÃO seria ela. Sua mensagem provoca o despertar. Oxalá o despertar coletivo. Mas, se assim não for, que seja o individual. Ilhas somos todos, alguns já sabem, outros ainda não. Gosto de pensar que já sei. Creio que cada um de nós tem um talento único, porém é muito difícil descobrir qual. Talvez o meu seja contemplar. Há tantas coisas belas por aqui nesta vida que muita gente não vê, ou se vê, não dá a atenção devida. Mas, quem sou eu para dizer quão atento alguém deve ser ?! Eu também procuro ser uma ilha que se diverte com esses pensamentos. Seu conto é uma coisa bela. Parabéns. Ricardo Rodriguez, São Bernardo do Campo-SP – fev2007

05- Li o primeiro texto do seu livro (“A Ilha”) e gostei da abordagem, da ilha como um ser pensante. Vou ler os outros com a calma que a leitura exige…rs De minha parte, tenho um blog (link no rodapé do e-mail) e um fotolog (http://cidadeembaixa.nafoto.net) ansiosos por comentários. Quando tiveres um tempinho, visite. Alessandro Pinesso, São Paulo-SP – ago2007

06- Que bom reler isso! Dos teus livros que eu li, o que eu mais gosto é o Arte Zen, porque lá eu encontro os meus dois RKs prediletos: aquele cara com um humor cruelmente puro e um outro, que me leva pra navegar nas águas densas da alma e da mente. Eu adoro essa crõnica da ilha que, como outros textos teus, tem sido um guia precioso nos mares que essa ilhazinha aqui habita. Beijos da tua leitora mais taradinha! Kdela, Fortaleza-CE – abr2009

07- Prarabéns Kelmer pelo texto da “ilha” Adorei! Seus escritos estão sempre contribuindo para meus estudos! Dóris Burlamaqui, Fortaleza-CE – nov2010

08- É muito difícil baixar a maré e enxergar toda a extensão de nós mesmos. Mas quando nos dispomos a fazer isso é muito recompensador. Maravilhoso texto!!! Maria do Carmo Antunes, São Paulo-SP – abr2011

09- Adorei esse trecho: “Se isso era verdade, então cada ilha possuía uma enorme responsabilidade: conhecer-se a fundo, viver a vida da melhor forma possível e aprender o máximo que pudesse pois tudo o que vivesse formaria o material do qual seriam feitas as ilhas que a sucederiam.” Paula Izabela, Juazeiro do Norte-CE – abr2011


A profecia

maio 18, 2010

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A PROFECIA
Ricardo Kelmer 1998

A melhor maconha da galáxia, a da Terra, está faltando no mercado. Os culpados são os mulgélicos, fanáticos religiosos que tomaram o poder no planeta. O Conselho Intergalático se reúne para decidir o que fazer

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A Sra. Ziegr, presidenta do Conselho da Confederação Galática, entrou na sala e ocupou sua poltrona à grande mesa. Ela trazia o semblante sério e nas mãos alguns envelopes.

– Conselheiros, bom dia. Convoquei-os a esta reunião extraordinária porque acabo de receber o relatório do Centro de Registros. Como é de conhecimento de todos, fatos preocupantes estão acontecendo no planeta Terra. Por causa deles seremos obrigados a cortar o suprimento da canabis terráquea a todos os planetas confederados por tempo indeterminado.

O rumor na sala foi geral.

– Silêncio, por favor, silêncio!

Mas os rumores cresciam e a presidenta Ziegr teve de bater na mesa. Ela entendia perfeitamente o porquê da indignação. Todos já haviam protestado em reuniões anteriores pela diminuição da cota de canabis terráquea para seus planetas e alertavam para o perigo do corte definitivo.

– Eu sabia que isso ia acontecer! – protestou o conselheiro Baqt. – Todos sabiam. Menos o Centro de Registros.

– Por favor, conselheiros. Deixem-me mostrar o relatório antes de discutir o que faremos.

As vozes se calaram e a presidenta Ziegr passou a ler o relatório. Ele dizia que a canabis já não podia ser encontrada com facilidade no planeta Terra e que já se estudava a possibilidade de pesquisar outros planetas para o plantio.

– Bobagem! – levantou-se Baqt, irritado. – Todo mundo está cansado de saber que, exceto a Terra, nenhum planeta desta zona da galáxia reúne condições perfeitas para o plantio da canabis!

– Isso mesmo! – complementou uma conselheira. – Por que gastar verbas com pesquisas inúteis? Precisamos intervir antes que a canabis terráquea seja totalmente extinta.

– Exatamente! Minha família, por exemplo, não fuma um baseado que preste faz mais de um ano – disse Reuzaramon, o mais velho dos conselheiros.

Ziegr escutou com paciência mais algumas considerações. Estavam todos revoltados. Então prosseguiu:

– Conselheiros, a canabis terráquea é material estratégico para a galáxia, todos nós sabemos. Foi ela que propiciou o desenvolvimento ecológico dos planetas confederados e lhes permitiu superar a delicada fase do término dos combustíveis fósseis. Para isso, no entanto, durante milênios as naves da Confederação abordaram a Terra e, na calada da noite, de lá retiraram a canabis para abastecer nossos mundos.

– Eram os deuses astronautas? Não. Eram os deuses maconheiros – sussurrou Reuzaramon para o colega ao lado.

– Agimos assim porque precisávamos da canabis, claro, mas também porque os terráqueos não estavam preparados para nos conhecer – continuou Ziegr. – Agora, porém, grandes mudanças operam naquele planeta e exigem que tomemos uma posição.

– São os mulgélicos, aposto!

– Eles mesmos – respondeu Ziegr.

– Calhordas! – gritou Baqt, erguendo-se. – Por causa deles só estou fumando maconha de Fens, aquela porcaria.

– Conselheiros, semana passada a nave da Monitoria 54 resgatou, da órbita da Terra, uma pequena cápsula contendo informações valiosas. São textos e imagens sobre o momento atual da Terra e que confirmam o último relatório do Centro de Registros.

Ziegr entregou a cada um dos conselheiros um óculos projetor, pediu que cada um assistisse com atenção e encerrou a reunião, avisando que prosseguiriam à tarde.

Reuzaramon, o mais velho dos conselheiros, rumou para o jardim dos fundos do prédio, lá era mais agradável. Sentou-se num banco, pôs o óculos projetor e ligou. Enquanto as imagens tridimensionais se formavam à sua frente, ele escutava…

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A ecologia toma impulso no planeta Terra no final do segundo milênio da era cristã com a constatação de que a sociedade industrial e tecnológica produzia riqueza e conforto mas também gerava um enorme perigo ao planeta e a todas as formas de vida. A partir daí uma crescente conscientização ecológica desenvolveu-se e direcionou os rumos de uma nova noção de desenvolvimento para o planeta: o desenvolvimento sustentável, onde a prioridade é manter os avanços tecnológicos sem abrir mão do equilíbrio ambiental.

No primeiro século do terceiro milênio um acontecimento crucial vem somar-se a toda essa revolução: a canabis, até então criminalizada em quase todo o planeta, é reconhecida oficialmente pela maioria dos blocos geopolíticos como matéria-prima estratégica para a sociedade. O baixo custo, a alta performance produtiva, a não-necessidade de agrotóxicos e o seu caráter limpo e renovável a credenciam como a grande alternativa ecológica para a crise dos combustíveis fósseis que se instalara no mundo.

Assim, sob recomendação da ONU, os blocos geopolíticos mudam suas leis e descriminalizam a canabis. Cultivar, comercializar e consumir maconha deixa de ser crime e as leis referentes a ela se inspiram nas leis que regulamentam outras drogas legalmente aceitas como o álcool. Dessa planta altamente estratégica extraem-se milhares de produtos essenciais ao dia a dia da sociedade, permitindo que o mundo respire aliviado após décadas de medo e incertezas quanto à saúde do planeta. A planta mostra-se eclética a ponto de ser utilizada também na medicina terapêutica.

Junto à canabis, outros recursos naturais também passam a ser utilizados dentro dos princípios do desenvolvimento ecológico. A canabis, porém, logo apresenta-se como carro-chefe dessa transformação pois à sua intensa utilização industrial vem juntar-se o tema das liberdades individuais, gerando providenciais discussões sobre a relação do ser humano com as drogas e a questão do tráfico, da violência e dos interesses econômicos, além de questionar a eficácia dos programas de saúde pública e o tratamento policial dispensado ao usuário.

Nem todos, porém, concordam com isso. Ocorrem protestos em vários setores da sociedade e uma nova organização político-religiosa surge para combater o que ela entende por “exageros da democracia”, como o uso livre da maconha. São os autodenominados mulgélicos (multidões angelicais), fanáticos religiosos de caráter ultraconservador que cultuam a tecnologia máxima e defendem o terrorismo como forma de garantir seus valores. A eles se juntam todos aqueles que discordam da legalização da canabis e assim a organização cresce e promove vários atos terroristas por todo o mundo, utilizando tecnologia química e biológica contra a população. Através de sua política ultrarradical tomam o poder em alguns blocos e aos poucos conseguem exterminar os principais líderes democráticos.

Estamos sob domínio dos mulgélicos há uma década. Eles governam o mundo globalizado, convocando todos a se entregar aos braços de seu deus que em breve, creem eles, voltará para carregar os abençoados consigo rumo ao Paraíso, abandonando na Terra os seguidores de Satanás. Os mulgélicos perseguem aqueles que não comungam da crença de seu deus e castram as liberdades individuais conquistadas. Para eles a canabis é a personificação do Mal e precisa ser combatida com toda a força e métodos possíveis. De nada adiantam os argumentos médicos e sociológicos, de nada valem os direitos humanos: os usuários passam a ser perseguidos pelo mundo inteiro e mortos com crueldade. E o cultivo da canabis, novamente proibido, abre caminho para o retorno de antigas, caras e poluentes formas de produção industrial, intoxicando novamente o planeta e pondo em risco o equilíbrio ambiental.

O culto exacerbado da tecnologia torna cegos os mulgélicos e eles não percebem que estão conduzindo a espécie humana ao seu extermínio. Contra esses argumentos, e até mesmo contra todos os fatos, eles respondem que seu deus está chegando para resgatá-los e assim ficará provado quem está certo.

Hoje vivemos num planeta praticamente esgotado de recursos naturais e a grande alternativa foi bloqueada pela política repressora dos mulgélicos. O ar, os rios e os oceanos estão sujos. A preservação da fauna e da flora não é mais importante – importante é tentar converter os infiéis. Catástrofes naturais acontecem todos os dias mas os mulgélicos veem nisso o legítimo cumprimento de suas profecias, o sinal dos últimos dias que antecedem a tão esperada chegada de seu deus.

A única possibilidade que nós, os resistentes dessa ditadura teocrática, vislumbramos foi pedir ajuda a outros planetas. Certamente há vida em outros mundos e talvez eles tenham passado por problemas semelhantes aos nossos. Talvez seus habitantes possam ajudar a Terra a reencontrar o caminho das liberdades individuais e do desenvolvimento autossustentável.

Isso é um pedido de socorro interplanetário. Talvez ainda haja tempo de salvar este planeta que já foi tão belo. Ainda podemos reaprender a respeitar as liberdades que pertencem ao ser humano. Clandestinamente ainda cultivamos os últimos exemplares da canabis em plantações disfarçadas, o que nos proporciona raros momentos de prazer e a esperança de que ainda podemos retomar o crescimento interrompido. Mas tudo está por um fio pois não sabemos até quando o planeta suportará.

Nosso plano é soltar esta mensagem no espaço, feito uma mensagem de náufrago. Talvez consigamos. É uma operação arriscada e com poucas chances de sucesso. Mas talvez alguma nave a recolha e esta mensagem alcance boas mãos.

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Reuzaramon retirou o óculos projetor e olhou para o céu. Terra…, sussurrou ele. Era realmente um belo planeta. Lembrou então que seu planeta natal vivera coisas semelhantes às que os terráqueos agora viviam e que a história da evolução das espécies era sempre marcada por momentos cruciais onde velhos e novos valores protagonizavam o dramático teatro do mito do Juízo Final. Antes da criação da Confederação Galática muitos planetas morreram e com eles o seu povo, por não saber encontrar seu caminho de democracia e desenvolvimento sustentável. Hoje a Confederação, ciente de que a morte de um planeta empobrece o Universo, estava sempre atenta para tentar ajudar – mas somente quando isso representava a última chance pois o sagrado princípio da soberania dos mundos regia a Constituição Galática.

Reuzaramon levantou-se do banco, guardando o óculos no bolso. Olhou mais uma vez para o céu e depois seguiu para a sala. Talvez fosse mesmo o momento da Confederação intervir.

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baseadonissocapaa6a– Muito bem, Conselheiros – falou a presidenta Ziegr, contando os votos. – A maioria considerou que o Conselho deve intervir no planeta Terra. E que não podemos mais continuar roubando maconha de lá.

– Exatamente. O que está em jogo são os interesses da Galáxia.

– Isso mesmo! Os desvarios de um grupo de fanáticos religiosos não podem interromper a evolução do Universo.

– Mas como interviremos no planeta sem desrespeitar sua soberania? – insistiam os que não concordavam com a intervenção.

Reuzaramon pediu a palavra.

– Conselheiros, nenhum planeta é autônomo no último sentido do termo. Sabemos que todos os mundos estão ligados numa interdependência sutil mas vital e o que é feito a um repercute em todos. A Terra é apenas um dos elos dessa imensa corrente que se chama galáxia, que por sua vez é apenas um dos elos do Universo, que por sua vez é apenas um dos muitos universos possíveis. Quanto mais abrangemos nossa compreensão da realidade, mais percebemos o quanto tudo está ligado. O que acontece na Terra está influenciando o destino de outros mundos e por isso a Confederação deve intervir.

– Você fala assim porque não é o seu mundo que será invadido!

– Conselheiros, por favor, deixem-me terminar. A espécie humana já está madura o suficiente para compreender que não está sozinha no Universo. Além disso, a canabis da Terra é a melhor de todas e ela é indispensável à evolução do planeta. Sem ela não haverá desenvolvimento autossustentável. Sem ela, a Terra corre o risco de se destruir. E sem a Terra, senhoras e senhores deste Conselho, a Via Lactea enfrentará um grave desequilíbrio.

Reuzaramon foi aplaudido.

– A intervenção já foi decidida – falou Ziegr. – Mesmo assim resta uma dúvida. Como faremos? Não podemos atacar os mulgélicos nem podemos plantar canabis no planeta às escondidas.

– Que tal envolver o planeta numa grande baforada de maconha? – brincou alguém. – Assim todos finalmente experimentarão e tirarão suas próprias conclusões…

– O verdadeiro efeito estufa!

– Ou podemos fornecer armas com balas de canabis para os resistentes atirarem nos mulgélicos…

– Conselheiros, por favor. Precisamos de um plano de intervenção pacífica, sem comprometermos nossa carta de princípios. E não dispomos de muito tempo.

– Talvez possamos convencer os mulgélicos a retomar o crescimento ecológico – propôs uma conselheira. – Eles têm de entender que não há outra saída para o planeta deles.

– É inútil, minha senhora – falou Reuzaramon. – Para um fanático religioso, quem não está com ele, está de mãos dadas com o Mal.

Chegaram ao incômodo impasse. A intervenção se fazia necessária mas parecia não haver maneira de realizá-la sem ferir os princípios éticos da Confederação. Até que Reuzaramon ergueu o braço.

– Eu sei a saída do labirinto.

Todos olharam curiosos para ele.

– Nós sabemos o que pensam os terráqueos, sabemos sobre suas crenças e suas profecias. Isso é tudo que precisamos.

– Explique melhor, Reuzaramon – pediu Ziegr.

– As profecias falam do Juízo Final, que é o que está ocorrendo lá agora. Parte dos terráqueos já entendeu que a linguagem da profecia é simbólica, que “fim do mundo” é só o fim de uma fase. Mas outros entendem ao pé da letra, acham que a salvação virá de fora. Estes se acham os eleitos e creem que seu deus, de fato, irá resgatá-los. Ora, ora… As profecias se realizam porque no fundo as pessoas creem nelas. Se existe a profecia, então ela deve ser realizada.

– Está bem, Reuzaramon. Mas quem vai realizá-la? E de que modo?

– Conselheiros… Esqueceram que quem acredita em deuses, precisa de deuses para viver? Que sem eles nada faz sentido?

Reuzaramon sorriu ao perceber que finalmente começava a ser compreendido.

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baseadonissocapaa6aNaquela manhã as nuvens do planeta Terra se abriram e dos céus desceram naves gigantescas. As trombetas soaram ensurdecedoras, para todos ouvirem, em todos os cantos do mundo, em todos os lares e escritórios. De todos os lados surgiram as naves e de cada uma delas saiu um anjo com roupa prateada e grandes asas reluzentes para avisar que o grande dia chegara e que os eleitos seriam levados.

– Aí está! – berravam os líderes mulgélicos com lágrimas nos olhos. – Aí está o Deus Todo Abençoado que veio resgatar seu rebanho querido!

A imprensa do mundo inteiro transmitia o fim do mundo. Nas residências, nas repartições, nas academias, todos se mantinham em frente à TV. Audiência total. Até os botequins estavam lotados.

– Ô, seo Manel! Dá tempo tomar a saideira?

Os mulgélicos atenderam ao chamado e ocuparam os assentos das naves, emocionados, gratificados por sua fé finalmente recompensada. Muitos tentaram se converter de última hora mas não havia mais lugar nas naves.

– Eu até que queria ir mas os cambistas estão explorando!

– Que dia pro fim do mundo! Deus podia esperar passar o réveillon.

Ao final da manhã as naves partiram, levando todos os mulgélicos ao paraíso prometido. Uma nave, porém, a maior de todas, permaneceu no pátio da sede da ONU. Suspense. Bilhões de pessoas acompanhando pela TV. Uma voz ecoou, vinda da nave:

– Amigos terráqueos. Ouviremos agora o pronunciamento da excelentíssima Presidenta do Conselho da Confederação Galática, sra. Ziegr.

A presidenta surgiu à porta da nave, de microfone à mão. Pigarreou discretamente e começou a falar:

– Serei breve, amigos terráqueos.

Ela fez uma pausa, juntou as mãos como quem implora, e falou:

– Alguém tem um?

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Ricardo Kelmer – blogdokelmer.wordpress.com

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> Este conto integra o o livro
Baseado Nisso
– Liberando o bom humor da maconha

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O dia em que papai e mamãe ficaram muito doidos

maio 18, 2010

baseadonissocapaa6a.

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O DIA EM QUE PAPAI E MAMÃE
FICARAM MUITO DOIDOS

Ricardo Kelmer 1998

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Juninho está preocupado. Seus pais decidiram experimentar um baseado para saber o que o filho via de tão bom nisso

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– JUNINHO, eu e sua mãe decidimos fumar um baseado com você.

O menino ficou olhando para os pais, sem acreditar no que escutava. Depois de tantos anos insistindo em conselhos, castigos e orações, seu pai e sua mãe resolveram experimentar para saber o que afinal o filho tanto via num cigarro de maconha. O importante era a união da família.

Juninho ficou tão surpreso, atordoado mesmo, que quando deu-se conta já havia entregue o baseado e seus pais estavam sentados em sua cama, fumando e tossindo. Juninho recusou-se a fumar também, inventou uma desculpa qualquer. Mas a verdade é que alguém tinha de ficar careta para segurar a onda.

– Não tô sentindo nada – reclamou a mãe.

– Calma, Vanda, demora um pouco – explicou o pai com ar de entendido. – Não é, Juninho?

– Você tá bem, mãe?

– Tô ótima, quer dizer, tô normal. Normalíssima – respondeu a mãe, rindo.

– Eu também – disse o pai. – Aliás, nunca me senti tão normal em toda a minha vida.

– Mãe, qualquer coisa tem leite na geladeira, viu?

– Vanda, há algo errado com minhas orelhas?

– Suas orelhas? – ela olhou curiosa para o marido. – Não, Afonso, por quê?

– Elas estão maiores, não?… – Ele apalpava as orelhas, intrigado.

– É normal, pai. É viagem.

– É normal as orelhas crescerem? – perguntou o pai, indo conferir no espelho do banheiro.

– Pois eu continuo normalíssima – observou a mãe, rindo. – Eu e minhas orelhas.

– Tem gente que não viaja da primeira vez, mãe.

– Vanda!!! Vem aqui correndo!

A mãe correu assustada. Chegou ao banheiro e deu com o marido se observando atentamente ao espelho.

– Eu sempre fui assim, Vanda? Sempre?

– Assim como? – Ela não compreendia. Juninho, atrás dela, muito menos.

– Como você pôde aturar essa barba horrorosa durante todos esses anos? Heim?

– Ué? Você sempre disse que era o seu charme…

– Sei não, acho que eu ficaria melhor sem barba.

– Pai… – Juninho começava a se preocupar.

– Não acredito! – exclamou a mãe, erguendo as mãos. – Minhas preces foram ouvidas!

– Mãe, não deixe… – pediu Juninho, assustado com o rumo das coisas. – Isso é viagem, mãe, é viagem…

– Então não se meta na viagem de seu pai – ralhou a mãe.

– Vanda, faz quantos anos que você não solta seu cabelo? – perguntou o pai de volta do banheiro, retirando de repente a fivela da cabeça da mulher. Ela tentou impedir mas foi tarde.

– Afonso! Dá aqui, dá!

– Não fica melhor assim, filho, não fica? Eu sempre disse mas ela nunca escutou.

– Pai, eu acho que… será que… vocês…

– Juninho, você tem algum cedê aí pra eu dançar com sua mãe? O que é isso aqui?

– É rap. Acho que vocês não vão gostar muito não…

– Tá vendo, Vanda? Precisamos comprar uns cedês pra nós dois.

– Pai, bota um pouco desse colírio aqui…

– Afonso… – disse a mãe, o tom da voz levemente lânguido, como havia muito tempo ela não experimentava. – A noite está ótima… Bem que a gente podia ir dançar. Inaugurou um barzinho aqui perto…

– Sabe que você teve uma grande ideia?

– Não precisava pingar tanto, pai. Mãe, você tem certeza que…

– Vou tomar logo meu banho. Será que ainda sei dançar?

– E por que a gente não toma banho junto? Economiza água…

– Economiza água… Ahahahah!!! Economiza água… – repetiu a mãe, morrendo de rir.

Naquela noite eles voltaram para casa às três da manhã. Juninho ainda rolava na cama, preocupado. Não conseguira dormir e muito menos estudar para a prova. Escutou abrirem a porta e experimentou um alívio imenso. Os dois entraram se esforçando para não fazer barulho – mas não conseguiram.

– Afonso, você ficou um gato sem a barba…

– Aqui não, Vanda, vai acordar o Juninho…

Juninho virou para o outro lado. Não devia ter permitido, sabia que não devia. E se tivessem realmente gostado? E se ficassem viciados, o que podia acontecer? Seu pai tirara a barba depois de vinte anos, ficou tão estranho, não conseguiu olhar direito para ele. E se chamassem os amigos para fumar, o que eles achariam? E o trabalho do pai, não podia prejudicar? E a mãe então, nunca vira a mãe rir tanto, parecia uma… uma louca. E se dessem muita bandeira e a polícia descobrisse, a vergonha que seria… Não podia fazer mal à saúde deles? Não era perigoso fumar e sair por aí?

Juninho puxou o lençol, fechando os olhos, tinha de acordar muito cedo. Bem, talvez fosse só empolgação, ele pensou, primeira vez é assim mesmo, pai e mãe são muito inexperientes para fumar maconha. Do corredor ainda chegavam as vozes, abafadas:

– Afonso, onde será que ele guarda?

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Ricardo Kelmer – blogdokelmer.wordpress.com

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> Este conto integra o o livro Baseado Nisso

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01- Oi Ricardo Cara, eu ri demais “No Dia em que papai e mamãe ficaram muito doidos” hahahaha… isso já valeu o meu domingo. Beijos. Ana Cristina Souto, Fortaleza-CE – jan2006

02- adorooooooooooo muito bom…rs. Magna Mastroianni, São Paulo-SP – abr2011

03- Adorei!!! Aliás, tenho lido vários, e tá difícil não gostar de algum, viu?rsrs. Bjão!! Simone Marini, São Paulo-SP – abr2011

04- Esse Ricardão!!! ahahahah :* Gisela Symanski, Porto Alegre-RS – abr2011



Inspiración, essa vadia

abril 12, 2010

Ricardo Kelmer 1989

E não adianta argumentar, seu signo é a urgência. Desejo não é coisa que se adie, ela sempre diz

Inspiración… Os poetas de todos os tempos, eles sabem: não há nada, absolutamente nada igual a uma noite com ela. Por isso é que, apesar de não estar quente, achei necessário um bom banho. Troquei as calças e a camisa mas mantive o cabelo molhado e sem pentear, do jeito que ela gosta. Pus lençóis novos na cama e até pedi a uma das meninas da taberna que me emprestasse a escova de cabelos, uma do cabo de osso trabalhado, bem bonita, que ela comprou do marroquino. Inspiración é muito vaidosa.

Eu empresto, mas só se o poeta fizer um verso pra mim – ela negociou. As meninas adoram poesia. Sorri, fingindo que não esperava por aquilo. Mas era uma troca justa, uma escova por um verso. Então improvisei quatro linhas, a dona da escova sentada em meu colo, e, ao final, ganhei um beijo e a escova. E deixei a taberna, levando uma garrafa de vinho debaixo do braço e uma alegria mal disfarçada no canto da boca. Que ficassem e se divertissem eles, os amigos lascivos e as amigas embriagadas. Eu iria para casa, esperar por Inspiración. Nada como uma boa isca para atrair a cigana do imprevisível, os poetas sabem.

Maria de la Inspiración… Foram as meninas que me contaram que ela andava pelas ruas do povoado hoje de manhã. Que bela notícia…, pensei enquanto o som de seu nome me remetia às tantas alegrias que essa cigana desatinada me proporcionou durante a vida. Quantos versos lhe dediquei, cavalgando-a com paixão noites adentro? Poemas de saliva, rimas de sêmen, sonetos de suor…

É uma vadia, eu sei, eu sei, não precisa repetir. Todos sabem e não há poeta que não o saiba deveras. O povoado inteiro a conhece e as nossas pudicas mulheres a evitam quando ela, para alegria dos homens daqui, resolve aparecer. Mas isso certamente se trata de uma inassumida inveja por parte dessas respeitáveis senhoras recatadas e sem graça. Por não terem os homens na mão como os tem a cigana adorável. Tão bonita que nem precisava tanto. Ardente como nenhuma delas jamais poderá ser, de tão preocupadas com a vida alheia. E o vinho mais forte, creia, não embriaga tanto quanto a visão de seu corpo nu.

Mas vadia. Dona de uma inconstância irritante. Como adivinhar o que pensa, saber o que realmente quer? Costumo lhe dizer que ela é como são todos os felinos: aparecem quando não se espera e se os chamamos, não vêm. Ela? Ela apenas ri, vaidosa da própria crueldade. Sim, ela é muito cruel. Usa e abusa de decotes generosos, servindo os seios em bandeja para a fome da noite. E se realiza, sim, como se realiza, sob os olhares dos homens. Então creio mesmo que deva se alimentar dos desejos alheios, a danada.

É fácil percebê-la numa festa: duas ou três canecas de vinho e lá está Inspiración caminhando por entre as mesas, toda faceira e provocante, aceitando de bom grado vinho e elogios. Claro, desnecessário dizer que sua simples presença deixa enlouquecidos os árabes: da última vez presenciei meia dúzia de confusões. Os mais velados arregalam os olhos e coçam os bigodes – mas lhes transparece pela cara o que se lhes passa na cabeça. Não creia, no entanto, ser possível subjugá-la. Ouse dominá-la e verá que escapole feito água entre os dedos. Submete-se apenas se lhe for vantajoso. Inspiración é tão fugaz quanto o brilho daquela estrela cadente.

E quando tenho a certeza de que homem nenhum a fará abrir as pernas essa noite, eu inclusive, eis que vejo a vadia deixar a taberna de braços com o embriagado catalão, tão deslumbrado com a sorte que pagou bebida a meio mundo.

Eu a amo. Com desprezo, doçura e paixão, não nego. Mas essa sua volubilidade eterna nunca me dá tempo de me preparar. Aparece de surpresa em lugares ou situações que eu jamais esperaria. Surge de repente e eu, desprevenido, sinto-a irresistível insinuar-se lânguida pela minha virilha, as costas, o pescoço. E não adianta argumentar, seu signo é a urgência. Desejo não é coisa que se adie, ela sempre diz. E não é mesmo, não é mesmo, descobre a cada vez meu corpo vertido em beijos, minha alma convertida em versos.

Às vezes me enche de ciúmes, a diaba. Vejo-a na mesa de outros homens, sorridente, generosa. Mas não me permito levá-la tão a sério. Sorrio e entendo sua alma alegre e infantil. E quando inventa de dançar? Aí sim, é a própria expressão da felicidade. Solta os cabelos negros e com eles chicoteia o ar. Joga longe os sapatos e vai, rodopiando ao ritmo das palmas, tão cheia de graça e tão exata que penso se realmente não terá sido a dança inventada para ela. Seus movimentos aprisionam os olhares e os homens se deliciam com a mais remota possibilidade de possuírem-na, e babam e gesticulam e se ensurdecem de tantos gritos e exclamações desvairadas. As meninas da casa são suas amigas e ela sempre lhes traz roupas e enfeites e faz revelações pelas cartas sem cobrar. É uma dádiva essa cigana.

Marca encontros e me faz esperar em vão. Outras vezes acha de aparecer na pior hora possível. Rejeita meus versos em noites sem lua e em outras noites se deleita com eles e os deposita carinhosa em seu decote enluarado. Previsível é coisa que Inspiración jamais conseguirá ser, não há jeito.

Mas certas iscas costumam dar resultado, sim. Por isso é que vim para casa mais cedo, deixei para trás a festa na taberna. A noite agradável, o vinho, o azeite da candeia renovado, meu corpo de banho tomado… Mel de atrair abelha.

Armadilha…, Inspiración dirá, já posso ouvir, o sorriso que eu já sei nos lábios vermelhos. Então servirei mais vinho, apaixonado pelo seu pentear-se ao espelho, o cabelo negro languidamente acariciado pela escova a que ela não resiste. O corpo inflamável sob o vestido de pano fino… Candeia acesa em monte de feno seco… – eu já me vejo escrevendo depois sobre suas costas nuas, inspirado .

– O poeta está ficando ordinário – ela sussurrará, virando-se na cama e me roubando um beijo. E eu, que certos escrúpulos já perdi:

– A gente se merece…

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Ricardo Kelmer – blogdokelmer.wordpress.com

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> Este texto integra o livro Vocês Terráqueas - Seduções e perdições do Feminino

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Mais sobre liberdade e o feminino selvagem:

EmBuscaDaMulherSelvagem-02base4c

> A mulher selvagem - Ela anda enjaulada, é verdade. Mas continua viva na alma das mulheres

> A mulher livre e eu – A liberdade dessa mulher reluz no seu jeito de ser o que é – e ela é o que todas as outras dizem ou buscam ser, mas só dizem e buscam, enquanto ela tranquilamente… é

> Em busca da mulher selvagem – Era por ela que eu sempre me apaixonava, essa mulher que era quem ela mesma desejava ser e não a mulher que a família, religião e sociedade impunham que ela fosse

> Amor em liberdade – O que você ama no outro? A pessoa em si? Ou o fato dela ser sua propriedade? E como pode saber que ela é só sua?

> As fogueiras de Beltane – As fogueiras estão acesas, a filha da Deusa está pronta. O casamento sagrado vai começar

> Medo de mulher - A mulher é um imenso mistério, que o homem jamais alcançará

> Alma una – Eu faço amor com a Terra / Sou a amante eterna / Do fogo, da água e do ar / Sou irmã de tudo que vive / Ninfa que brinca com a vida / Alma una com tudo que há

> Quem tem medo do desejo feminino? (1) – A maternidade, a castidade e a mansidão de Nossa Senhora como bom exemplo, e a força, a independência e a liberdade sexual da puta como exemplo contrário, a ser jamais seguido.

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LIVROS

> Mulheres que correm com os lobos - Mitos e histórias do arquétipo da mulher selvagem (Clarissa Pinkola Estés -  Editora Rocco, 1994)

> A prostituta sagrada – A face eterna do feminino (Nancy Qualls-Corbert – Editora Paulus, 1990)

> As brumas de Avalon (Marion Zimmer Bradley – Editora Imago, 1979)

> Mulheres na jornada do herói (Beatriz Del Picchia e Cristina Balieiro – Editora Ágora, 2010) – É ainda mais interessante ver o relato das mulheres pois elas sempre foram, mais que os homens, historicamente reprimidas na busca pela essência mais legítima de suas vidas

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CABARÉ SOÇAITE

> Cabaré Soçaite – Uma festa de sensualidade – Se você medo do desejo feminino, é melhor não ir…

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01- Achei lindo o conto da cigana. Como diria Oswaldo Montenegro em sua musica, “Virtuosa e profana Pra cantar o sol. Dança, dança, dança pra cantar o sol Todo ao amor que emanar, pra cantar o sol Fiz do meu corpo cabana Pra cantar o sol…” e por aí vai. Acho que essa coisa de mistério que envolve os nômades é que faz tudo ficar ainda mais encantador, lindo!! Marcia Morozoff, Brasília-DF – jan2006

02- Viva a você, caro amigo. Nos delicia com tuas linhas sempre sinuosas como uma bela e incomível cigana. Viva o Phoder da palavras bem ditas e mal ditas idem Só para te passar um grande abraço. Maninho (Aluisio Martins), Fortaleza-CE – jan2007

03- costumo fugir do mundo real ás madrugadas no bate papo do meu estado…meu personagem é esssa mulher sobre quem ecreveu…assim me visto assim me imponho. sou conhecida como “vadia”. meus devaneios ficam apenas alimentando ou atormentando espíritos inocentes me sinto gostosa faço meus parceiros delirarem…é tudo virtual, não permito encontros mas eles só descobrem isso quando já estão envolvidos enebriados, seduzidos…e eu me vou deixando-os livres…para sonharem comigo. bjs amigo. Diva, Macapá-AP – abr2007

04- Curioso. Será a musa, sempre feminina? Se pensarmos nela como “Inspiracion”, sim. Sempre sim. Alma, fada, algo diáfano que se deixa penetrar pelo espírito masculino. Mas quem (ou o quê) inspira as mulheres a escrever? Levanto a peteca porque o Ricardo nos dá uma imagem feminina da inspiração assim como fizeram os escritores de todo o Mundo. Digamos então que existe a ECLOSÃO. E que esta, apesar de substantivo feminino, é notoriamente masculina. Assim se chama meu “muso”. E ele chega como um Cavaleiro do Fogo, um Príncipe de Bastões me obrigando a fazer sua vontade. E escrever que nem uma louca, num astral de emergência. Por falar nisso, por onde andará meu cavaleiro? Monica Berger, Curitiba-PR – ago2007

05- A colocação da mulher, que mesmo sendo vadia, tem todo o encantamento do homem… lindo! Será que todas nós temos um pouco de Inspiración? Mulheres masculinizadas… isso no sexo masculino agora tem até nome, e é: metrossexualismo! Concordo no ponto em que mulheres devem exigir direitos iguais, mas não perder o jeito feminino! Talvez isso pareça contraditório para algumas pessoas… Pamela Bathory, Juiz de Fora-MG – set2007

06- O texto da Inspiración é um de meus favoritos. Aprecio a Espanha (que duplo sentido! rs) e, como danço Salão, já me arrisquei no flamenco…Enfim. O conto é maravilhoso e, ao contrário da comentarista anterior, eu não diria ‘apesar de ser vadia’, mas justamente por sê-la. Engraçado como as pessoas sempre intepretam um sentido pejorativo nisto… Estou ansiosa pelo novo livro, e sempre estarei passando por aqui para conferir os novos escritos. Abraços. Mariana Melo, Maceió-AL – set2007

07- Talvez todas mulheres sejam Inspiración, não que sejam vadias, mas que seja mulher, que não sejam marrentas; mulheres que tem suas curvas, saliências e reentrâncias. Um bom conto. Abraços! Kelly Cristina, Fortaleza-CE – set2007

08- Correndo o risco de estar um pouco atrasada, mas gostaria de dizer que achei muito lindo o texto sobre a Inspiração, rsrs, uma vadia! a frase que mais gostei foi: “à minha maneira eu a amo. Com desprezo, doçura e paixão”. Essa mulher me lembra Lilith. Adoro Lilith. Um abraço, e que Inspiración te acompanhe! Fabiane Ponte, Curitiba-PR – set2007

09- Inspiración vadia é tão linda!!!!!! CIGANA DO IMPRVISÍVEL É DEMAIS!!!! Beeeijo calliente na tua Alma Cigana Na tua Bela e Perigosa Inspiración. Patrícia Lobo, Salvador-BA – jun2011



Cerejas ao meio-dia

fevereiro 28, 2010

Ricardo Kelmer 2004

Linda e poética, ela dá a volta no carro e todas as buzinas se calam. Claro, um poema de cereja em plena avenida, não é todo dia

Alto meio-dia de sábado. Converso com um amigo, à porta de sua loja, os carros passando na avenida, quando de repente ela surge. Caminhando na calçada, devagar e tranquila, aquele jeitinho avoado dela. Cabelinho solto. Sandalinha. E o vestidinho vermelho. Hummm, o vestidinho… Sabe cereja de bolo? Dessa cor. Quando vejo, a cereja sorri pra mim, aquele olharzinho sapeca que já desconcentrou muita estátua importante. Aquele sorrisinho doce que eu conheço e que me faz ficar derretido. Que nem chantilli na boca.

Mas pára o mundo um pouquinho, por favor, pára. Devo estar vendo coisas. Aceno pra ver se é verdade. É verdade, ela dá com a mãozinha assim, meio torto, cereja é adoravelmente desajeitadinha. A brusca poesia da cereja que passa, diria o poeta. Mas talvez seja miragem, digo eu. Nunca se sabe, esse sol forte na moleira, melhor conferir. Num impulso deixo o amigo falando sozinho, entro no carro e acelero. Anteontem ela estava na fila do cinema, o mesmo vestidinho, e eu fiquei louco pra puxar papo mas fiquei sem jeito, fico tímido quando me interesso por uma mulher, é uma desgraça. E agora ela de novo, o destino dando uma forcinha, convém não rejeitar. Se por causa de um grito se perde a boiada, imagine uma cereja.

Crau! Cem metros depois lá está a cereja caminhando. Encosto devagarinho pra ela não assustar, os carros buzinando atrás: A dama de vermelho quer carona? Ela pára, sorri chantilli e ajeita o cabelinho que o vento despenteia, ajeita de novo, despenteia, ô vento chato, né? Ela imediatamente faz piada com o fato de estar com o mesmo vestido da noite do cinema. Mulher liga pra umas coisas… Deixe disso, cereja, por mim você pode usar esse vestido todos os dias, viu, usar e tirar, usar e tirar… Não, eu não digo isso, claro, só penso. Minha canalhice não vai a tanto. Lembre-se, sou um sujeito tímido.

Linda e poética, ela dá a volta no carro e todas as buzinas se calam. Claro, um poema de cereja em plena avenida, não é todo dia. Não era pra estar ali, é uma falha na Matrix. Ela entra e senta, perninhas juntas. Tento não olhar, juro, mas não dá. De perto é ainda mais suculenta. Ai, ai, somos dois desajeitados num momento crucial da vida. Como são ridículos os terráqueos… Procuro algo pra dizer mas tenho a mais absoluta certeza que direi bobagem. Penso em coisas triviais mas subitamente me toco que tudo que penso tem conotações sexuais, que coisa impressionante a minha mente. De carro é mais gostoso, né? Ou: se quiser reclinar o banco…

As opções são péssimas. Decido então falar do tempo. Mas quando abro a boca… ela pede pra eu parar, havíamos chegado. Já?! Que pena, eu ainda tentava sintonizar uma FM. Ela agradece, beijinho no rosto e desce. O lobo mau fica no carro, tristonho, olhando Vestidinho Vermelho atravessar a rua, sem entender o sentido de tudo isso. Não, tem que haver algo mais, as deusas do destino têm muito o que fazer, elas não se dariam ao trabalho de promover esse reencontro e tudo terminar assim, não, não faz sentido…

Os impulsos, ah, os impulsos… Ei, tenho um presente pra ti!, grito de repente, é a primeira coisa que me vem. Ela pára, se vira e vem até a porta. Entrego-lhe um exemplar de Saliências para o Fim de Tarde, digo que é presente de aniversário. Ainda está longe, ela diz. Digo que o tempo é relativo (que idiotice…). Ela sorri sem jeito e diz um obrigado daqueles que entra por um ouvido e não sai mais. Aí acontece algo incrível, algo que nem mesmo minha mente pecaminosa ousaria prever: cereja se inclina… aproxima seu rosto e… me beija… levemente… no cantinho… da boca. E vai-se embora, faceira e cruel como só as aparições do meio-dia podem ser. Não. Isso não se faz com o cidadão trabalhador e pagador dos seus impostos. Não se faz.

Babando chantilli. Ainda estou lá, sentado dentro do carro, babando chantilli. E séculos se passam. Nascem e morrem os impérios… Eras glaciais… O Sol se apaga… Quando dou por mim, ela já sumiu. Cerejinha se foi. Dessa vez pra sempre. Ou pelo menos até o nunca mais do quem sabe quando. Mas quando? Eu sei. Quando ela, falha na Matrix, virá atrapalhando o trânsito e surgirá novamente suculenta em seu vestido vermelho. Sim, o vestidinho vermelho, que ela não sabe, e nem vocês vão dizer, é segredo, mas ela veste especialmente pra mim.

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Ricardo Kelmer – blogdokelmer.wordpress.com

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Este e outros textos
integram o livro Vocês Terráqueas

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> Kelmer Para Mulheres – Nesta seção do blog, homem fica de fora

> Mulher marrenta e homem vaidoso – Estamos tentando equilibrar os princípios yin e yang na psique – mas aqui e ali erramos na dosagem

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Comentarios01 COMENTÁRIOS
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001 – Muito fofo!!!! Christina, Rio de Janeiro-RJ – mai2006

002- adoreeeii. Danielle Freire Milfont, Fortaleza-CE – mar2011

003- Gostei tbm… rsrsrsrss. Michelle Costa, Fortaleza-CE – mar2011

004- Adoro todo vestido vermelho… Já li este conto p um grupo de internos de uma casa de saúde mental. Só uma louca p levar a obra de um louco p os outros. Paula Izabela, Juazeiro do Norte-CE – mar2011

005- adorei a ‘cereja’. Gloria Sousa, Fortaleza-CE – mar2011

006- Uma delícia, adorei!! :) Mabel Amorim, Campina Grande-PB – mar2011

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As vizinhas que a crise traz

fevereiro 24, 2010

As aventuras de Diametral e Ninfa Jessi

Ricardo Kelmer 2009

Jessi passou o gel e a fantasia de Rahbe foi devidamente realizada, enquanto minha pequena fazia o complemento, beijando e masturbando nossa generosa vizinha

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Más notícias. Perdi a última coluna de jornal que me restava. Pelo jeito os caretas do MNBC conseguiram convencer mais um editor de que Diametral é um péssimo exemplo pra juventude brasileira. Que bosta. Esse tal Movimento Nacional pelos Bons Costumes nos elegeu inimigos mortais, a mim e a Ninfa Jessi, desde que começamos nossa sexualíssima campanha pela ampliação do diâmetro do mundo.

Ei, gatão, não nos abatamos! – Ninfa Jessi procurou logo me animar. – Em momentos de crise, vale a estratégia do cocô: é indo em frente que a gente encontra a saída.

O que seria de mim sem a sabedoria da minha pequena…

Rooooonc! O estômago deu o aviso: cinco da tarde e a gente nem tinha almoçado ainda. Fui na cozinha e abri a geladeira: uma garrafa dágua e um ovo. A coisa tava feia. Saímos catando dinheiro pela casa e tudo que conseguimos foi juntar quinze pratas. Me deu vontade de chorar. O que se faz numa situação dessa?

Ora, o que qualquer cara de bom senso faria: daria a grana pra namorada ir no supermercado falou Jessi, me tomando o dinheiro. – Nessas horas mulher sabe gastar melhor.

Meia hora depois Ninfa Jessi voltou do supermercado. Abri a porta do apartamento, ela me entregou a sacola e anunciou, toda solene: Hora de comemorar a crise! Na sacola havia uma garrafa de vodca vagabunda e um pacotinho de tiragosto. Sábia Jessi. Foi quando percebi, humm, que ela não viera sozinha, hummmm, havia uma garota parada atrás dela, de shortinho, camiseta e sandalinha, hummmmmmm.

Encontrei Rahbe no elevador. Ela veio comemorar a crise com a gente.

Ninfa Jessi não presta. Rahbe é a ninfeta do 702 que adora acompanhar as aventuras sexuais de Diametral e Ninfa Jessi em minha coluna no jornal. Ops, minha ex-coluna. Que bosta, nem gosto de lembrar. Maldito MNBC. Rahbe me deu dois beijinhos e entrou na sala. Belo e volumoso par de peitos Rahbe tinha. Ideal pra fazer espanhola.

Dez minutos depois estávamos no tapete da sala, ouvindo The Doors, que Jessi adooora, e mandando ver na vodca. Na segunda dose ela e Rahbe chegaram à conclusão que eu deveria criar um blog pra continuar publicando nossas aventuras e brindamos a essa ideia. Depois Jessi serviu uma dose dupla pra todos e quis saber da ninfeta qual a nossa aventura que ela mais gostava, e Rahbe disse que era a transa com as enfermeiras na festa à fantasia, que aquilo a havia excitado bastante pois ela queria ser enfermeira. Na metade da garrafa, já bem animadinha, Jessi proclamou, soleníssima, que a melhor função da roupa sempre foi ser tirada, sapientíssima Jessi. Dito isso, fez um strip-tease completo, ao som de The Spy, em homenagem à nossa peituda vizinha que, ao final, aplaudiu bastante, maravilhada com a performance de minha pequena. Tão maravilhada que, tchum, pulou sobre dela.

As cenas seguintes eu assisti de camarote, as duas enlouquecidas no sofá num festival de línguas e dedos, cena de altíssima voltagem. Como Jessi sempre diz que nenhum homem chupa uma mulher como outra mulher chupa, aproveitei que elas faziam um meia-nove e tratei de aprender um pouco mais sobre o assunto. Em outras palavras: hora das fotinhas. Câmera na mão, registrei o valioso momento, até que não me controlei mais e entrei na festa, pedindo pra Rahbe me fazer uma espanhola naqueles peitões irresistíveis, o que ela fez com muita propriedade, acho que já tava acostumada ao pedido. Depois Rahbe cochichou no ouvido de Jessi, que sorriu e me disse:

Gatão, ela quer ampliar o diâmetro. Vou buscar o gel.

Caramba, mais uma com essa fantasia de ser enrabada pelo Diametral. Fazer o quê, né? Enquanto Jessi ia no quarto pegar o gel, pus a ninfeta de quatro no sofá e, após verificar que o cu da moça era do tipo semirrosa, um tipo de valor 8,5 no mercado, fiz as preliminares com a língua até deixá-la alucinada, elas sempre ficam alucinadas com isso. Depois Jessi passou o gel e a fantasia de Rahbe foi devidamente realizada, enquanto minha pequena fazia o complemento, beijando e masturbando nossa generosa vizinha. Generosa e escandalosa. Caramba, como aquela menina berrava! Na reunião seguinte do condomínio os espiões do MNBC teriam um prato cheio pra reclamar. Povo recalcado. Não trepa nem deixa ninguém trepar.

Pedimos pra ela dormir com a gente mas Rahbe explicou que estava de recuperação em química e tinha prova no dia seguinte, ainda precisava estudar. Ninfeta responsável, exemplo bonito de se ver. Rahbe nos beijou e voltou pra casa toda felizinha, levando seu diâmetro semirrosa 8,5 devidamente ampliado. Agora ela não seria apenas uma simples leitora das aventuras de Diametral e Ninfa Jessi – seria personagem. E antes de ir ainda deixou uma curiosa sugestão pra Jessi:

Por que você não entra no ramo de strip-tease pela internet? Tem gente ganhando superbem com isso, sabia?

Mas Jessi não gostou muito da ideia. De manhã, porém, enquanto me despertava com seu tradicional boquete sabor menta, minha pequena já havia mudado de opinião:

Começo amanhã mesmo, gatão. Vou usar aquele quartinho do fundo. Vinte minutos, cinquenta pratas. Ninfa Jessi, sua amante virtual. Que tal?

Ninfa Jessi não presta.

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Ricardo Kelmer – blogdokelmer.wordpress.com

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> Confira os bastidores e as imagens desta aventura de Diametral e Ninfa Jessi (exclusivo pra Leitores Vips)

> Mais aventuras de Diametral e Ninfa Jessi

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SÉRIES ERÓTICAS DESTE BLOG

> As aventuras de Diametral e Ninfa Jessi – A mais bela e safada história de amor jamais contada.

> As taras de Lara – Desde pequena que Lara só pensa naquilo. E ai do homem que não a satisfaz.

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> O último homem do mundoO sonho de Agenor é que todas as mulheres do mundo o desejem. Para isso ele está disposto a fazer um pacto com o diabo. Mas há um velho ditado que diz: cuidado com o que deseja pois você pode conseguir…

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LEIA NESTE BLOG

> Por trás do sexo analHá algo de divinamente demoníaco no sexo anal que, literalmente, a-lu-ci-na algumas mulheres

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DICA DE LIVRO

> A entrega – Memórias eróticas (Toni Bentley, editora Objetiva) – A ex-bailarina filosofa sobre sua profunda experiência de amor e submissão através do sexo anal

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CABARÉ SOÇAITE

> Cabaré Soçaite – Uma festa de sensualidade – Se você tem medo do desejo feminino, é melhor não ir…

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Jessi passou o gel e a fantasia de Rahbe foi devidamente realizada, enquanto minha pequena fazia o complemento, beijando e masturbando nossa generosa vizinha

Protegido: As vizinhas que a crise traz (VIP)

fevereiro 24, 2010

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Mariana quer noivar

janeiro 24, 2010

Ricardo Kelmer 2010

Você abdicaria das relações amorosas em sua vida em troca de dinheiro ou sucesso na carreira?

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Em 1991, quando eu morava em Manaus, conheci uma entidade da umbanda que me causou forte impressão: a cabocla Mariana. Anos depois escrevi um conto sobre ela, O Presente de Mariana, que tá em meu livro Guia de Sobrevivência para o Fim dos Tempos, publicado originalmente em 1997. É um dos meus contos de que mais gosto.

A crença em Mariana adquire nuances diversas dependendo da região do país mas a versão à qual fui apresentado conta que Mariana foi encantada aos 17 anos e meio, tem a pele branquinha, olhos azuis e cabelo ruivo cor de telha, é bonita, graciosa e brincalhona, dá conselhos gerais aos que a procuram mas sua especialidade, digamos assim, é noivar com os homens. Noivar com Mariana significa fazer um pacto com a entidade: ela ensina ao homem a ter sucesso nos negócios mas, em troca, exige exclusividade em sua vida. Isso significa que o noivo jamais poderá ter qualquer outra mulher pois Mariana simplesmente não permitirá.

Há vários aspectos interessantes envolvidos na crença. O tema fáustico da venda da alma, por exemplo, é imediatamente visível em Mariana. É aquela velha história, bem conhecida de nós pobres mortais: que preço estamos dispostos a pagar pelo que desejamos conquistar? Você abdicaria das relações amorosas em sua vida em troca de dinheiro ou sucesso na carreira? Num mundo onde o que importa é ser alguém, mas que seja alguém rico e famoso, muitas pessoas vendem suas almas nesse sentido, priorizando os negócios e a carreira em detrimento de suas relações amorosas, o que as leva a errar por um sem-fim de relacionamentos insatisfatórios. Vencedor nos negócios, infeliz no amor.

Fazendo uso agora da psicologia arquetípica, vemos em Mariana uma versão curiosa do arquétipo da menina-mulher, aquela que, com sua irresistível mistura de inocência, encanto e malícia, seduz os homens e os arrasta pelos redemoinhos das loucas paixões inconsequentes. Mariana seduz, sim, mas o faz usando um tipo de sabedoria de ordem racional e prática que costuma interessar aos homens: ela os ensina a ganhar dinheiro. O noivo de Mariana tem, então, sua energia criativa direcionada pro sucesso profissional com tal intensidade que, de fato, ele o consegue, ou seja, Mariana cumpriu sua parte. O pacto funcionou.

Porém, se por um lado Mariana tem essa sabedoria pra ofertar, por outro lado ela é uma adolescente geniosa, ciumenta e possessiva. O noivo de Mariana não escapará de seus caprichos. Focado no reino dos negócios, ele adquire a sabedoria racional necessária pra se realizar profissionalmente mas no reino dos relacionamentos ele possui a idade de sua noiva, 17 anos e meio, uma espécie de limbo evolutivo, um nem-lá-nem-cá da maturidade psicológica onde a ingenuidade, a possessividade e os caprichos infantis não dão espaço a uma relação adulta e sadia. Preso num estágio infantilizado dos sentimentos, o noivo de Mariana inconscientemente boicota seus relacionamentos amorosos com a sua visão ingênua das relações, sua insegurança e seus joguinhos de controle e poder, e ao final sempre põe tudo a perder. Ele sofre com isso mas não consegue escapar desse padrão de comportamento pois, ainda que não lembre, jurou ser fiel à sua noiva.

Mariana seria, assim, um complexo energético autônomo que se instala na psique masculina e desenvolve intensamente a função racional (pensamento), levando o ego a direcionar a atenção pros negócios e conduzindo o indivíduo ao sucesso profissional, ao mesmo tempo que mantém subdesenvolvida a função oposta (sentimento). O noivado com Mariana é, então, um pacto interno e inconsciente que o indivíduo faz consigo mesmo em nome da realização profissional mas que provoca um perigoso desequilíbrio psíquico. O noivo de Mariana é um indivíduo racionalmente desenvolvido, capacitado pro mundo dos negócios, mas sentimentalmente imaturo. Dê uma olhada nos homens financeiramente muito bem sucedidos e encontrará facilmente entre eles alguns noivos de Mariana.

E as mulheres? No contexto ritualístico da Umbanda, pelo menos até onde sei, a cabocla Mariana não noiva com mulheres. Entretanto, o fato de Mariana possuir tais habilidades pros negócios, um dom mais ligado à energia yang masculina, sugere que ela também possui em sua constituição algum componente masculino. Isso significa que ela é um complexo psíquico dual, dotado de elementos femininos e masculinos, yin e yang. Assim sendo, a mesma dinâmica do processo também deve ocorrer na psique feminina, ainda mais nos tempos atuais em que a mulher já está bem inserida no mundo dos negócios. Talvez haja alguma diferença mas, a rigor, as mulheres também assimilam a sabedoria racional e adulta de Mariana pra ganhar dinheiro ao mesmo tempo que também incorporam a ingenuidade infantil de Mariana em seus relacionamentos, inviabilizando a todos, um atrás do outro. Eu não ficaria surpreso se soubesse de alguma entidade masculina similar à cabocla Mariana, dirigida especificamente às mulheres pois, afinal, a mudança dos tempos se reflete também no surgimento de novos complexos psíquicos autônomos e, consequentemente, no surgimento de entidades, santos e outros fenômenos espirituais-religiosos que passam, assim, a representá-los no plano externo.

Mas deixemos de teorizações, vamos ao conto. Espero que você goste e, se quiser comentar, fique à vontade. Com você, Mariana…

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Ricardo Kelmer – blogdokelmer.wordpress.com

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A cabocla Mariana, entidade da umbanda, propõe noivado ao moço Dedé. Noivar com ela significa conseguir estabilidade financeira mas em troca ela exige fidelidade absoluta

Conto: O presente de Mariana

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ilha03a> Livros: He, She, We – Os rios de nossas vidas na verdade correm por leitos muito, muito antigos – os mesmos leitos que outras águas, ou outras pessoas, percorreram do mesmo modo

> Mulheres na jornada do herói – É ainda mais interessante ver o relato das mulheres pois elas sempre foram, mais que os homens, historicamente reprimidas na busca pela essência mais legítima de suas vidas

> A ilha – Uma fábula sobre o autoconhecimento

> Mariana quer noivar – Você abdicaria das relações amorosas em sua vida em troca de dinheiro ou sucesso na carreira?

> Carma de mãe pra filha – Os filhos sempre pagam caro pelos pais que não se realizam em suas vidas

> Vade retro Satanás – O Mal pode ter mudado de nome e de estratégias. Mas sua morada ainda é a mesma, o nosso próprio interior

> Blade Runner – Deuses, humanos e andróides na berlinda – Como todo ser, o criador busca sempre transcender a sua própria condição e é criando que ele faz isso

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01- Muito bom! – Marcos André Borges, Fortaleza-CE – 2010


Lama

janeiro 21, 2010

Ricardo Kelmer 2006

E foi por amor, quando já não havia mais dinheiro, quando mendigavam comida na porta dos restaurantes, quando já não havia mais alternativas, que Lena decidiu alugar o corpo na praça da Central

Se quiser fumar, eu fumo
Se quiser beber, eu bebo
Não interessa a ninguém

Oito horas da noite. Lena põe o CD no aparelho de som e sobe o volume até o máximo. A música que toca, estridente, é um velho samba-canção de fossa, cantado por Núbia Lafayette. Na calçada as pessoas passam curiosas, olhando para dentro do bar. Mas Lena não as vê. Encostada à porta do bar, acende um cigarro, dá uma longa tragada e solta a fumaça para cima. Do outro lado da rua está a igreja, ela pode ver o movimento lá dentro, os pastores já no palco, os fiéis sentados nos bancos a aguardar o início do culto. Na entrada uma moça e um rapaz convidam os transeuntes a entrar e aceitar o Senhor Jesus. Lena sorri de vê-los constrangidos pela música que ecoa de seu bar. Então ele surge, bem à entrada da igreja, de paletó, a bíblia na mão. O rapaz aponta para o outro lado da rua e ele se vira para olhar. É nesse momento que seus olhares se cruzam. E é como se dez anos não houvessem se passado. Os olhares se mantêm fixos um no outro, intercalados pelos carros que passam pela rua. Lena se delicia ao constatar a imensa surpresa nos olhos dele. Pega o copo na mesa e toma um gole de campari. Quando olha novamente, ele já voltou para o interior da igreja.

Se o meu passado foi lama
Hoje quem me difama
Viveu na lama também

Olhai, irmãos, olhai em vossa volta e vereis a Babilônia a seduzir com seu hálito de bebida e suas promessas de luxúria!!! A voz dele, amplificada, extrapola os limites da igreja, atravessa a rua e parece duelar com a música do bar. Lena, imperturbável, toma mais um gole de seu campari. O garçom se aproxima e comenta algo sobre o volume da música mas ela não responde, permanece na mesma posição, o olhar distante. Olhai, irmãs, e vereis as mensageiras de Satanás na porta dos bares e dos prostíbulos, essas almas perdidas cuja especialidade é levar os homens junto com elas para o Inferno!!!

Comendo da minha comida
Bebendo a mesma bebida
Respirando o mesmo ar

Ele era um garoto quando ela o conheceu… e se perdeu de paixão. Foi uma paixão instantânea, mútua e avassaladora. Semanas depois seu marido descobriu, expulsou-a de casa e ela alugou para eles um pequeno quarto no centro, cuja cama passou a ser o templo sagrado de seus desejos insaciáveis. E, uma vez juntos, perderam-se ainda mais. Para sustentar os vícios, que não eram poucos, enganaram, roubaram e assaltaram, afundando-se cada vez mais nesse amor bandido. Foi por amor que várias vezes ela foi buscá-lo no hospital, tantas brigas que ele arrumava pelas ruas. Foi por amor que várias vezes, louca de ciúmes, ela bateu nas mulheres que ele insistia em cortejar descaradamente em sua presença. E foi por amor, quando já não havia mais dinheiro, quando mendigavam comida na porta dos restaurantes, quando já não havia mais alternativas, que Lena decidiu alugar o corpo na praça da Central.

E hoje, por ciúme ou por despeito
Acha-se com o direito
De querer me humilhar

Foram oito anos de praça. Oito anos suportando o bafo de cachaça dos operários e o suor fedido dos mendigos. Oito anos vendendo por meia hora aquilo que deveria ser apenas dele durante toda a vida. No fim da noite ela levava o arrecadado para ele, que aguardava no bar, bebendo e jogando com os amigos. Uma noite, porém, não o encontrou lá. Procurou-o pelas ruas mas nelas ele também não estava. Quando chegou em casa, já de manhã, encontrou-o em sua cama, com outra mulher. Ela não lembra exatamente do que fez mas nos autos do processo consta que os policiais, alertados pelos vizinhos, a encontraram sentada no chão, ainda segurando a faca, tranquila e cantarolando um triste samba-canção. E ao seu lado os dois corpos ensanguentados.

Quem és tu? Quem foste tu?
Não és nada
Se na vida fui errada
Tu foste errado também

Doze anos depois foi libertada. Deixou o presídio e foi diretamente ao prédio onde antigamente morava com ele. Depois de muito perguntar foi que soube onde poderia encontrá-lo. Surpresa com o que ouviu, rumou para lá. Era uma modesta igreja evangélica que funcionava no salão do segundo andar de um prédio velho. Ela chegou, sentou-se no último banco para que ele não a reconhecesse e o escutou pregar. Ele falava de amor, fraternidade e perdão. Era um sermão bonito, que tocava o coração. Mas o de Lena não tocou. Antes do final ela levantou-se, interrompendo o culto, e de dedo em riste na cara dele, gritou tudo que se acumulara em seu coração naqueles doze anos. Doze anos em que ele jamais fora visitá-la. Sequer lhe mandara um lençol limpo. Um mísero bilhete sequer. Ele não conseguiu dizer nada, assustado e constrangido por ver exposto, diante dos fiéis, todo o seu passado sombrio. Quando ela fez uma pausa, ele aproveitou e anunciou, solene e em voz alta, para todos ouvirem, que ela estava possuída por Satanás. Imediatamente os seguranças avançaram e a seguraram, enquanto o outro pastor assumia o ritual de exorcismo. Ela protestou. Mas foi inútil. Gritou e se debateu. Mas foi tudo inútil. Minutos depois, vencida pelo cansaço, pelo desânimo e pela decepção, deixou-se cair no chão, chorando todas as lágrimas que em doze anos não chorara, enquanto os fiéis, braços erguidos ao céu, louvavam a glória do Senhor Jesus.

Não compreendeste o sacrifício
Sorriste do meu suplício
Me trocando por alguém

Foram várias noites em claro, lutando contra sua própria alma dilacerada e dividida. Uma parte ainda o amava, muito, profundamente, mas a outra parte simplesmente não conseguia perdoá-lo. Durante quarenta dias e quarenta noites amor e ódio fizeram de sua alma campo de horrenda batalha, sequiosos por conquistá-la. Até que um dia ela, enfim, adormeceu sorrindo. E dormiu o sono justo dos que finalmente compreendem aquele que talvez seja o maior dos mistérios do amor: que ele perdoa até mesmo o que não tem como ser perdoado. No outro dia ela foi ao culto, disposta a contar-lhe a boa nova que soprava alegre em seu espírito feito uma brisa de verão. Mas quando chegou à porta do salão, foi barrada pela esposa dele, que disse, numa frase curta e cheia de desprezo, que ali ela jamais seria bem-vinda. Enquanto Lena tentava assimilar a surpresa, alguns fiéis chegaram e a enxotaram, levando-a para fora e a arrastando até o beco ao lado. Foi lá que a apedrejaram. Jogada ao chão, quase desfalecida, o sangue a cobrir-lhe a vista, ela ainda o viu se aproximar, largar um punhado de areia sobre seu corpo e dizer: Pra mim você já morreu.

Se eu errei, se pequei
Pouco importa

A voz do garçom chega novamente, se misturando às dolorosas lembranças. Enquanto ele comenta algo sobre um caixão e clientes indo embora, dez anos se passam rapidamente em sua mente, dez anos em que ela apenas trabalhou e trabalhou e trabalhou, inteiramente obcecada. E o resultado está aí, na forma desse pequeno bar, que ela inaugura exatamente essa noite. Nesse instante um casal entra, eles observam o interior do recinto, dão meia-volta e saem, assustados. O garçom, perdendo a paciência, diz que ali ele não trabalha e vai embora. Lena dá outra tragada no cigarro e entra. Caminha até o centro do bar, entre as mesas, e toca o caixão. É um caixão branco de madeira brilhosa, suspenso sobre o pedestal de ferro, como se fosse a decoração principal do bar. Grudada pelo lado de dentro do vidro, por onde se veria o rosto do defunto, o que se vê é uma foto desbotada, onde, sentado numa mesa de bar, um homem jovem sorri.

Se aos teus olhos estou morta
Pra mim morreste também

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Ricardo Kelmer – blogdokelmer.wordpress.com

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Este conto integra a série Trilha da Vida Loca. A letra usada é da música  Lama, de Aylce Chaves e Paulo Marques. A ilustração é de Harley Maquiavel.

Este e outros textos integram o livro Vocês Terráqueas.

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> Núbia Lafayette – Lama

MAIS

Núbia Lafayette canta Lama, 1993 (vídeo)
Núbia Lafayette canta Devolvi, 1994 (vídeo)
Vídeo-homenagem a Núbia Lafayette
Notícia da morte de Núbia Lafayette, 18.06.07

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> Odair José, primeiro e único – Se você, meu amigo, é desses que sentem atração por esse universo brega pré-FM, feito de bares de cortininha, radiola com discos arranhados e meninas vindas do interior… então escute Odair

> Vou tirar você desse lugar – De repente a semana cansativa, o trabalho desgastante, o crediário atrasado da tevê, tudo passou a ser apenas detalhes insignificantes a evaporar ao toque dos dedos dela…

> Lama – E foi por amor, quando já não havia mais dinheiro, quando mendigavam comida na porta dos restaurantes, quando já não havia mais alternativas, que Lena decidiu alugar o corpo na praça da Central

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01- É claro q eu queria com a música anexada, e parece q vc se tocou disso a tempo e me mandou as duas opções de e-mail. Gostei pra caramba.Li com a música tocando ao fundo, e texto e música se integram naturalmente.O clima é esse.Mais uma vez, vc foi perfeito! Beijos. Mônica Burkle Ward, Recife-PE – abr2007

02- Oba!!!! Adorei Lama e a trilha sonora. Na verdade todos teus textos são hilários…vou começar a esboçar alguns… Beijinhos. Liliana Ostrovski, Rio de Janeiro-RJ – abr2007

03- Claro q quero a trilha sonora, cara. Muito boa!!!! Muito boa mesmo essa história… VALE UM CURTA… Já pensou? E qto ao Campari, foi boa pedida!! José Lins Jr., Juazeiro do Norte-CE – abr2007

04- olá..ricardo adorei..ler ….o que vc me mandou… Maria Aparecida Brígido, São Paulo-SP – abr2007

05- Adorei essa modalidade de literatura on line, com trilha sonora…. É muito bom vc ter uma musica dando o clima da estória…. Ciça Castello, Rio de Janeiro-RJ – abr2007

06- Oi Kelmer, Já estava com saudade. Bom demais. Adorei! Beijos. Virgínia Lígia de Freitas, Fortaleza-CE – abr2007

07- O CONTO DA VIDA LOUCA ESTÁ TUDIBOM. PARABENS!!!!!BJU Christina Alecrim, Rio de Janeiro-RJ – abr2007

08- Oi Ricardo, Divertidissima sua “trilha da vida loca”, eu ja tinha lido o texto na sua coluna no Povo e fiquei pensando como seria o tal bolero, ai surpresa, a noite chega seu email com a trilha sonora! Haja drama, hein? Parabens! Ah, e quando vai ter apideiti no site? Beijinho de saturday morning. Ana Wauneka, San Diego-EUA – abr2007

09- Dear Ricardo, Adorei a interpretacao da trilha da musica Lama. Voce e’ demais. Adoro de verdade o que voce escreve. E quando e’ que vens me visitar aqui na California? Tem coisas unicas por aqui pra voce observar e depois quem sabe escrever sobre elas. Beijinhos. Raquel F. Araujo, Los Angeles-EUA – abr2007

10- Nossa! Porque depois de tanto sofrimento ela ainda tem que continuar a destruir a própria vida e o seu ganha pão por causa de um sacana?Eu fique muito deprimida com o final deste conto.Ela deveria ter realmente ter aceitado esta dura lição da vida,agradecido por tudo o que aprendeu e por ter sobrevivido e dali prá frente tocar a vida dela com mais humildade e amor no coração. Bia Leite, São Paulo-SP – abr2007

11- Parabéns pelo belo texto, Ricardo! Interessante a maneira pela qual vc abordou as ironias e as desventuras que cercam o universo do desejo e das paixões. Kátia Albuquerque, João Pessoa-PB – abr2007

12- Cara! Parabéns!!! Gosto muito de ler seus textos! Me envie sempre que puder!!! Forte abraço de um fã! Thiago Jede, Três de Maio-RS – abr2007

13- Caramba, que final, rapaz!!!!! GENIAL! Parabéns, mais uma vez! Humberto Batista, Fortaleza-CE – abr2007

14- Minha nossa… sempre, sempre você. Ao terminar de ler estava exausta. Amores… sempre eles… Fabiana Polotto, São José do Rio Preto-SP – abr2007

15- Bem, sobre o texto, adorei, mesmo, assim como a trilha, só vc mesmo, sempre criativo! Parabéns! Jayme Akstein, Rio de Janeiro-RJ – abr2007

16- Tu tá cada vez melhor, macho véio. José Everton de Castro Jr., Fortaleza-CE – abr2007

17- Campari. :^) Como adivinhou minha bebida preferida??? Bjus… Rildete Ribeiro, Aracaju-SE – abr2007

18- Achei lindo,extremamente sensível, mas muito triste…. Isso tudo daria um belo filme! Tu poderias me mandar a música? Beijinhos. Vanessa Santini Vebber, Caxias do Sul-RS – abr2007

19- Loner, meu breg brother!!! Tá EXCELENTE! Só lembrei dos velhos tempos de Roque Santeiro. Sensacional!!! Valeu! Beijos. Malena, Brasília-DF – abr2007

20- Recebo sempre seus emails e já que, além de nordestino você passou dois meses pelo nordeste. Grava essa: NÃO EXISTE PAREA PRA VOCÊ.Risos.Um abraço. Francisca Fernandes, Fortaleza-CE – abr2007

21- Ô, Kelmer, esse negócio aí da Lena num é amor nao, Cara, é doença… Abraço lusitano e fraterno. Flamarion Pelúcio, Fortaleza-CE – mai2007

22- Adorei a TRILHA DA VIDA LOCA: LAMA. É uma série, não? Muito bem escrito, personagens fortes e sua linguagem está melhor a cada dia. Gostei muitíssimo! Que bom! Cara, mande ver !!! Admiro-o muito nesta empreitada que já é jornada de tantos anos e gosto muito de você, pessoa massa! Abração. Érico Baymma, Fortaleza-CE – mai2007

23- Caro Ricardo Lafayet, O texto é péssimo!!! Não prende a atenção do leitor.Tema banal no cotidiano.Não há humor, poesia, … Prenda o leitor meu caro!!! Na minha opinião, o que faço com imparcialidade, vc alterna bons e maus textos. Quando gosto de um, sei q o seguinte será ruim!!!!! Eduardo Macedo, Recife-PE – mai2007

24- Tá com a gôta!!!!!!!!!!!!!!!!! Show! Nazaré Franca, Fortaleza-CE – mai2007

25- perfeito!como sempre brilhante!te admiro muito!bjs. Beth Alencar, Fortaleza-CE – mai2007

26- Oi, Ricardo! Caramba, vç tem a extrema facilidade de fazer o leitor ler, visualizar e sentir ao mesmo tempo. As emoções de ambos foram introjetadas de tal forma que senti como se estivesse vivendo aquilo.E é que li sem ouvir a música, imagine o apelo q se torna então.Brilhante, sou kelmerfã de carteirinha! Beijos. Lia Aderaldo, Fortaleza-CE – mai2007

27- Eita!!! “Pega fogooooooooooooo o cabaré!!!!” Da até pra dançar um bolerão, hahahahaha!!! Pensa numa “Boate Azul”!!! Adorei o texto!!!! Só trocaria o campari por uma vodka!!! huahuahuahua!!!!! Bjssssssssss. Lua Morena, Luziânia-GO – mai2007

28- Ricardo , que massa a história. Curti. Irei a Sampa semana que vem . Se rolar podemos trocar uma idéia!! abços. Petrus, Fortaleza-CE – mai2007

29- DOREEEEEEEEEEEEI !!! Beijo grande. Ilana Nahm, Rio de Janeiro-RJ – mai2007

30- Lama é o máximo ,dá um filme fantástico , e Odair José me fez viajar nas lembranças , nos finais de noites ,lá na abolição……….no dia que só chegamos em casa a noite depois de um tour enormeeeeeeeeeeee nos bares e restaurantes da cidade , depois de um luau ,com a irmã da Cris , lembra? bom demais…………..tudo que lí me transportou total para lembranças maravilhosas…. é meu amigo , voce está ótimo , muito + sensivel ,calmo ,muito + tudo de bom em um homem……………. Cristina Cabral, Fortaleza-CE – out2007

31- Adoooooooro essa música num mix com Preconceito. Divinas!! Tenho o CD Imitação da Vida (Bethânia) com as duas. Carmem Mouzo, Rio de Janeiro-RJ – fev2011

32- Muiiitttoooo booommmmm!!! Luce Galvão, Fortaleza-CE – fev2011

33- Gostei da ousadia do texto, sou evangélica e tenho horror dessa história de colocar a culpa de tudo em Satanás. Ora e o livre arbítrio? Nota 10 pra o texto “LAMA”. Marilde Jorge, Fortaleza-CE – fev2011


Vou tirar você desse lugar

janeiro 8, 2010

Ricardo Kelmer 2006

De repente a semana cansativa, o trabalho desgastante, o crediário atrasado da tevê, tudo passou a ser apenas detalhes insignificantes a evaporar ao toque dos dedos dela…

Olha, a primeira vez que eu estive aqui
Foi só pra me distrair
Eu vim em busca de amor

Dario foi ao balcão e pediu um montila. Era a primeira vez que ia no Leila´s. Virou a dose de um gole, depois cuspiu no chão e esfregou o sapato em cima. Reparou na luz vermelha do teto, o efeito bacana que dava no ambiente. Na máquina tocava uma música do Odair José e uns casais dançavam entre as mesas. Dario deu uma coçadinha nos possuídos e pediu outra dose. Foi nesse momento que ela apareceu, vinda da penumbra do corredor. Usava sainha jeans e bustiê estampado de manga comprida. Ela se encostou na parede, mascou o chiclete e olhou pra ele de rabicho de olho. Ele a achou muito mimosa. Ela pregou o chiclete atrás da cortininha de babado e… sorriu.

Olha, foi então que eu lhe conheci
Naquela noite fria, em seus braços
Meus problemas esqueci

Uma hora depois ele saiu de cima dela e foi se limpar na bacia que ficava sobre a mesinha de madeira. Quando voltou, ela estava sentada na cama e segurava um copo. Peguei um montila pra você, por minha conta – ela falou. Ele agradeceu, bebeu e perguntou se ela queria. Ela disse que não gostava mas que ia beber porque estava gostando de estar com ele. Ela tomou um gole e fez careta. E Dario achou lindo. Ela acariciou seus cabelos e disse que o achava parecido com aquele cantor. Ele riu, descontraído. De repente a semana cansativa, o trabalho desgastante, o crediário atrasado da tevê, tudo passou a ser apenas detalhes insignificantes a evaporar ao toque dos dedos dela…

Olha, a segunda vez que eu estive aqui
Já não foi pra distrair
Eu senti saudade de você

Uma semana depois, quando ele chegou e perguntou pela Josélia, e a gerente disse que ela estava ocupada, ele se esforçou pra disfarçar a frustração. Ele então comunicou que era o próximo e pediu um montila pra esperar. Mas a gerente respondeu que tinha quatro na frente. Quatro? Será que escutara direito? E olhe que hoje a clientela dela tá fraca, a gerente explicou enquanto anotava o nome dele num caderno de sete matérias cheio de fotos de artistas. Dario virou a dose e pediu uma dupla. E foi sentar na mesa do canto, perto da maquininha de música.

Olha, eu precisei do seu carinho
Pois eu me sentia tão sozinho
Já não podia mais lhe esquecer

Duas horas depois, quando Josélia apareceu e o levou ao quarto, ele enjoou e vomitou na porta oito montilas, duas coxinhas e um sarrabulho. Ela o levou ao banheiro e deu banho nele. Depois deitou-o na cama e começou a tirar a roupa mas ele a interrompeu e disse, engolindo as sílabas, que daquela vez queria ficar abraçado com ela, só isso. Surpresa, Josélia ajeitou o travesseiro e ele deitou, se aconchegando ao corpo dela. Ela o beijou no rosto com suavidade e fez carinho em sua cabeça. E Dario adormeceu.

Eu vou tirar você desse lugar
Eu vou levar você pra ficar comigo
E não interessa o que os outros vão pensar

O salário como vendedor na loja de autopeças não era muito bom mas ele conseguira um empréstimo e estava montando uma carrocinha de cachorro-quente na esquina do Fórum, ela poderia ajudá-lo a tomar conta da carrocinha, não era um trabalho complicado. Sentados na mesa do canto, a preferida dele, ela o escutava falar. Tinha também um cliente da loja, que era dono de um colégio, ele tentaria uma bolsa com esse cara pra ela estudar. Nesse instante ela não conseguiu mais segurar a lágrima que insistia em escapar de seu olho. Ele percebeu e tocou seu rosto, desviando a lágrima para seu dedo, a luz vermelha do teto refletindo na gotinha. O que foi?, ele perguntou. E ela então falou de Goiânia, as cartas que enviava pros pais, onde contava sobre como ia bem no supletivo – mentira que renovava já fazia dois anos. Acho até que eles já sabem, ela murmurou, chorosa. Dario sorriu, compreensivo, e disse que adoraria conhecê-los, que deveriam ser pessoas maravilhosas e… Eles devem ter vergonha de mim, ela interrompeu. Ele pegou no queixo dela, erguendo seu rosto e olhando bem no olho: Mas eu, eu tenho orgulho.

Eu sei que você tem medo de não dar certo
Pensa que o passado vai estar sempre perto
E que um dia eu possa me arrepender

Na saída do cinema, enquanto ele comprava outro saco de pipoca, ela não conseguia deixar de admirar o cartaz do filme. Estava radiante. Imaginava que cinema era algo bonito mas não imaginava que fosse tanto. Ele a escutou falar excitada do filme, das músicas românticas, de como a moça era linda e de como não esperava que o moço voltasse pra salvá-la do marido cruel. Ele a pegou pela mão e atravessaram a rua, rumo à pracinha. Ela não queria ir pra lá mas ele disse que não havia problema e insistiu tanto que ela cedeu. Então, sentados no banquinho, ela disse que ele era um homem muito bom, que gostava muito dele mas… o problema é que ela era… Ele não a deixou terminar: segurou seu queixo e a beijou na boca. E Josélia pela primeira vez não afastou os lábios. Foi nesse momento que ele escutou, vindo de um grupo de rapazes que bebiam na birosca ao lado: Grande Dario, me chupando por tabela…

Eu quero que você não pense em nada triste
Pois quando o amor existe
Não existe tempo pra sofrer

Hoje faz um ano que Dario e Josélia se conheceram. Semana passada ela ganhou o anel de noivado e o abraçou forte, chorando emocionada. Ela ainda trabalha no Leila´s onde, aliás, está cada vez mais requisitada, principalmente depois que passou a usar o anel. E é justamente pelo movimento que proporciona à casa que a gerente aceitou suas reivindicações. Uma delas é que agora ela só começa os programas depois das onze, que é a hora que chega do supletivo. E a outra é que ela tem sempre direito a quinze minutos de intervalo – que Josélia faz questão de aproveitar, todos eles, tomando um montila com Dario em sua mesinha predileta.

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Ricardo Kelmer – blogdokelmer.wordpress.com

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Este conto integra a série Trilha da Vida Loca. A letra usada é da música Vou tirar você desse lugar, de Odair José.

Este e outros textos integram o livro Vocês Terráqueas

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OUÇA E BAIXE (mp3)

> Vou tirar você desse lugar
> A noite mais linda do mundo
> Cadê você
> Eu, você e a praça
> Esta noite você vai ter que ser minha
> Eu te quero, te adoro, te gosto

VÍDEO

> Odair José canta Vou tirar você desse lugar, show no Centro Cultural Light, Rio de Janeiro-RJ, 27.11.07

LEIA NESTE BLOG

> Odair José, primeiro e único - Se você, meu amigo, é desses que sentem atração por esse universo brega pré-FM, feito de bares de cortininha, radiola com discos arranhados e meninas vindas do interior… então escute Odair

> Vou tirar você desse lugar – De repente a semana cansativa, o trabalho desgastante, o crediário atrasado da tevê, tudo passou a ser apenas detalhes insignificantes a evaporar ao toque dos dedos dela…

> Lama – E foi por amor, quando já não havia mais dinheiro, quando mendigavam comida na porta dos restaurantes, quando já não havia mais alternativas, que Lena decidiu alugar o corpo na praça da Central

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Comentarios01COMENTÁRIOS
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01- interessante Ricardo, como produtor vejo um projeto de grande porte, pois só pode ser assim, Envolve questões de direitos autorais de um monte de gente, pois alem dos caantores, compositores e ECAD, tem a parte das gravadoras, é uma coisa trabalhosa, mas se pode pensar a respeito, envolvendo varios outros atores, como por exemplo uma base de produção aí em SP, é isso. Gledson Shiva, Fortaleza-CE – fev2007

02- Adorei o texto, se não tivesse o nome do escritor saberia q era seu… Lua Morena, Brasília-DF – fev2007

03- Valeu, cara, adorei, sou fã do Odair, desde quando morava em Tamboril… Pedro Rodrigues Salgueiro, Fortaleza-CE – fev2007

04- “Vou tirar vc desse lugar” é uma musica da safra “brega” que considero mto bonita e sensível…e a estória que vc bolou, que vc pressupõe possa ter acontecido…está perfeita, imaginei a cena…mtas estórias desse tipo devem ter de fato acontecido. Gostei. Bjux e parabéns. Christina Alecrim, Rio de Janeiro-RJ – fev2007

05- Tio, gostei muito do conto! Bem cinematográfico mesmo: descritivo, detalhista. Muito bom! Tô doido pra ler os próximos da série! Abração! Levy Galvão Mota, Fortaleza-CE – fev2007

06- Fala, Ricardo! Gostei da idéia. E essa música do Odair é muito boa mesmo. Não sei se você já ouviu na voz dos Los Hermanos, mas a versão ficou show. Abraço. Alex Felix, São Paulo-SP – fev2007

07- Rapaz, muito boa essa do Odair José… Essa música é um fenômeno e a historia por cima casou perfeito! Pode ter certeza que se compilar tudo num livro, vai fazer o maior sucesso… Muito bom mesmo! Eu já cheguei a pensar em algo do gênero, tipo fazer um filme mesmo em cima da letra de uma música. A minha preferida, que eu ainda executarei, é aquela “Geni e o Zeppellin”, do Chico Buarque… Mas aí já é hostória quase pronta, né… Só roteirizar. Marcelo Gavini, São Paulo-SP – fev2007

08- beleza irmão, muito bom!!!! cara, tu foi frequentador de berel mermo, hem? César de Cesário, Campina Grande-PB – fev2007

09- Muito bom, Kelmer! Estou ansioso para ler os próximos! abraço! Marcos Siqueira, Rio de Janeiro-RJ – fev2007

10- Ora… ora… grande idéia, a sua. Tenho grande fascínio por música em geral, especialmente as instrumentais . Costumo dizer que uma das personagens coadjuvantes de meu livro é justamente a M úsica. Haveria alguma chance de contribuir com um conto? Um abraço! Sergio dos Santos, São Paulo-SP – fev2007

11- A história de amor entre Dário e Josélia exala uma profunda intimidade com a letra da música de Odair José. Ao ler este conto, eu tive uma deliciosa sensação de que ouvia/lia uma única música que parecia deslizar com suavidade! Parabéns RK! Kátia Regis, João Pessoa-PB – fev2007

12- RK, ótima a idéia dos curtas!!! Todo apoio e ajuda (que não é lá muita coisa) no que precisar. Abraço! Wanderson Uchôa, Fortaleza-CE – fev2007

13- leio sua coluna no O povo. Massa. PQP a do Dário quase conta a minha vida! A minha Josélia não topou… Diz uma coisa, posso mandar uma bobagens minhas pra vc ler? Coisa curta. Faço filosofia na UFC e tenho umas viagens pra por no papel mais organizado. Forte abraço. Leandro de Paula, Fortaleza-CE – mar2007

14- isso me da uma saudade, bons momentos do cabare no acervo!!!!!!! Rodrigo Chaves Ferreira, Fortaleza-CE – fev2011


As taras de Lara – Começando por trás

novembro 28, 2009

Ricardo Kelmer 2009

De costas pro namorado e sempre vigiando o espelho, ela guiou-o pra dentro de sua bunda com urgentes e desajeitados movimentos de sobe e desce

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Lara tinha 13 anos quando o fogo avassalador dos desejos lançou suas primeiras labaredas sobre ela. Foi na época em que começou a namorar Fabinho, que era dois anos mais velho e que se apaixonara à primeira vista pela menina de formas já bem arredondadas e de jeitinho muito sapeca que um dia ele conheceu na fila pra ver Harry Potter. Seo Gilson e dona Eudora se assustaram com a precocidade da filha única, tão novinha e já querendo namorar sério, mas consentiram que Fabinho a visitasse aos sábados, e só, que era pra não atrapalhar os estudos.

Numa noite, quando o namoro já ia pelos seis meses, e como sempre acontecia quando ele a visitava, seus pais ficaram na sala vendo TV enquanto eles namoravam comportadinhos que nem dois anjinhos no sofá da varanda. Quando acabou a novela, seo Gilson, como sempre, perguntou se eles queriam ver algo na TV e Lara disse que não. Ele desligou o aparelho e, antes de se recolher ao quarto com a mulher, pediu que a filha não esquecesse de apagar as luzes. Era seu modo sutil de dizer que Lara tinha cinco minutos e nem um segundo a mais pra botar o namorado pra correr.

– Pode deixar, papis. Boa noite, durma bem – respondeu a menina Lara, meiga e obediente como sempre, a menininha do papai.

Pelo espelho na parede da sala, que ela tratava de manter sempre estrategicamente posicionado, Lara viu os pais entrando no quarto e fechando a porta. Então, rapidamente, abriu a calça do namorado, pôs seu pau pra fora e começou a lhe tocar uma punheta. Como não havia prédio vizinho e a única ameaça à privacidade do jovem casal vinha de dentro, Lara nesses momentos ficava vesga: era um olho no peixe e o outro lá, no espelho da parede.

Fabinho marcou o tempo em seu relógio, recostou-se no sofá, fechou os olhos e tratou de aproveitar, como vinha fazendo nas últimas semanas, desde que a namorada aprendera a nobre arte da punheta completa, com direito a chupar e engolir. Dessa vez, porém, Lara suspendeu o ato pela metade e, sem avisar, puxou da bolsa e lhe entregou uma camisinha, dessas que já vêm lubrificadas. Fabinho, surpreso, demorou alguns segundos pra reagir, ô Fabinho. Mas felizmente reagiu e, no instante seguinte, pluft, a camisinha já estava posta no devido lugar. Lara então suspendeu a saia, baixou a calcinha e sentou sobre o pau ereto, tudo feito num silêncio de mosteiro. De costas pro namorado e sempre vigiando o espelho, ela guiou-o pra dentro de sua bunda com urgentes e desajeitados movimentos de sobe e desce, sentindo mais prazer que dor, enquanto Fabinho, ainda meio abobalhado, simplesmente não acreditava que estava enrabando sua namorada.

Dois minutos depois o corpo do garoto sacudiu-se todo e ele gozou, mordendo o próprio braço pra não fazer barulho. Lara, envolta na inebriante sensação que lhe dava aquele tubo de carne pulsante em seu cu, prosseguiu subindo e descendo, querendo mais, porém Fabinho pediu que ela parasse, só um pouquinho. Mas ela realmente queria mais, estava muito bom, e continuou, ainda mais forte, o que obrigou o namorado a afastá-la de uma vez. A contragosto, ela levantou-se e Fabinho mostrou-lhe o relógio: cinco minutos. Ela suspirou, resignada, melhor não abusar da sorte, e teve de se contentar com chupar o resto de gozo que ficara no pau já semiamolecido. Após se recomporem, Lara o acompanhou até a porta e se despediram, Fabinho parecendo um zumbi, ainda sem acreditar.

E ela? Ah, Lara dormiu feliz, quase eufórica: agora não era mais virgem. Sentia-se de repente mais adulta, sentia-se especial, era uma sensação maravilhosa. Mas junto da felicidade havia um sabor de desapontamento, por não ter feito mais, fora tão pouco, tão pouco… E por que pelo cu? Porque tinha verdadeiro pavor de engravidar  um ano antes sua prima embuchara por causa de uma camisinha furada e um aborto mal sucedido quase a matara. O conselho, pois, veio justamente da prima: Dá o cu, Larinha, que nunca vai ter perigo de pegar barriga. Conselho seguido. E em seu blog secreto, que só ela podia acessar, Lara no outro dia deixaria o registro da experiência: Ameeei dar o cu Prazer em ondinhas Caraca, a gente se sente tão safada Quero maisssssssssssss.

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Ricardo Kelmer – blogdokelmer.wordpress.com

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(Continua. Exclusivo para Leitor Vip. Basta digitar a senha de 2009.)

> Leitor Vip pode ler o capítulo na íntegra aqui.

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> As Taras de Lara – capítulos publicados

> E você, generosa leitorinha, conhece alguém como Lara? Não gostaria de contribuir com a série? Envie suas sugestões: rkelmer(arroba)gmail.com

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LEIA NESTE BLOG

> Por trás do sexo anal – Há algo de divinamente demoníaco no sexo anal que, literalmente, a-lu-ci-na algumas mulheres

> Cabaré Soçaite – Uma festa de sensualidade – Se você tem medo do desejo feminino, é melhor não ir…

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SÉRIES ERÓTICAS DESTE BLOG

> As aventuras de Diametral e Ninfa Jessi – A mais bela e safada história de amor jamais contada.

> As taras de Lara – Desde pequena que Lara só pensa naquilo. E ai do homem que não a satisfaz.

> Um ano na seca – O que pode acontecer a um homem após doze meses sem sexo?

> O último homem do mundo – O sonho de Agenor é que todas as mulheres do mundo o desejem. Para isso ele está disposto a fazer um pacto com o diabo. Mas há um velho ditado que diz: cuidado com o que deseja pois você pode conseguir…

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DICA DE LIVRO

> A entrega – Memórias eróticas (Toni Bentley, editora Objetiva) - A ex-bailarina filosofa sobre amor e salvação no sexo anal

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01- GENIAL!!!!!!!! André de Sena, Recife-PE – nov2009

02- tem mais o que fazer não?!!!! Magna Mastroianni, São Paulo-SP – nov2009

03- Já vi começarem por cima, por baixo, agora por trás… kkkkkkkkk. Paula Izabela, Juazeiro do Norte-CE – nov2009

04- Gostei da Tara ops, da Lara! Na minha adolescencia que não foi nem um pouco transviada, conheci uma Lara, ela me fez pensar muito no que podemos descobrir!!! rs beijos e sucesso! Wilza Manzur, Rio de Janeiro-RJ – dez2009

05- Começar por trás deve ser massa! rsrsrs. Laisa, Belém-PA – dez2009

06- As taras de Lara…hummmmmmmmmmmmmmmm. Drica, Jundiaí-SP – dez2009

07- hj eu lí no trabalho as taras de Lara,e todo o final das suas fotos sensuais.olha vou te confidenciar uma coisa,vc não pertence a este mundo,vem cá de onde vc é heim?Marte,Venus,rsrsrsr.bjus. Lucia, Fortaleza-CE – dez2010


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