Ricardo Kelmer 1999
A ciência acaba de abrir a porta a outras dimensões da realidade – não há mais como voltar
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O cinema é uma a arte que expressa muito bem uma das mais inquietantes questões do nosso tempo: o que é de fato a realidade? O filme 13º Andar, dirigido por Joseph Rusnak, junta-se assim à obra-prima Matrix e a eXistenZ e transforma 1999 num ano pródigo em filmes com essa temática.
Em 13º Andar um cientista experimenta a realidade virtual para buscar pistas sobre um assassinato e isso termina levando-o uma completa transformação de sua compreensão da realidade. Assim como no filme, em que o roteiro e a direção levam o espectador a viver as mesmas dúvidas do personagem, aqui na vida cotidiana os avanços tecnológicos estão nos fazendo repensar a atual noção comum de realidade. Talvez sejamos privilegiadas testemunhas de um salto quântico de consciência da espécie humana, o que nos fará perceber que o que entendemos por realidade na verdade é uma sala com paredes de vidro, onde o reflexo de tudo que há em nosso mundinho dificulta a visão do que pode existir além dele.
O enredo do filme não é mera ficção. A realidade virtual já é usada em diversas áreas do conhecimento: temos os jogos, o treinamento de astronautas e terapeutas que a utilizam para tratar de fobias. Sabe-se que a psique não distingue realidade objetiva de subjetiva (veja o caso dos sonhos), o que leva o cérebro a se comportar como se estivesse no mundo das coisas físicas.
Vamos nos encontrar mais tarde na praia? – você propõe à sua turma. Então, na hora combinada, vocês se encontram para tomar uma cerva, pegar uma cor e dar bons mergulhos. A diferença é que você não precisou sequer sair do seu quarto: bastou conectar-se a um programa de realidade virtual disponível na internet, onde várias pessoas podem se encontrar ao mesmo tempo. E mais: podem se ver, se tocar e até transar. Será que o mundo da realidade virtual se transformará numa nova droga, levando muita gente a passar horas de seu dia conectado a programas dos mais variados tipos? Não sei mas nesse mundo tudo, ou quase tudo, é possível. Pode-se viajar, conhecer pessoas e viver em outra época… Vivenciar experiências de outros e até mesmo de bichos, plantas, rochas e átomos… Assumir outra identidade, um outro corpo… Parece não haver limites.
O novo mundo não será total novidade para os que vivenciam estados alterados de consciência, por drogas ou experiências místicas. Estes já sabem da natureza múltipla da realidade e que ela é infinitamente maior e muito mais absurda que nossa compreensão dela. Mas talvez a realidade virtual vá mais além. Ela pode estar nos conduzindo a uma nova fronteira do espaço-espaço, onde perceberemos enfim que não somos bonecos indefesos a mercê de suas leis. A ciência acaba de abrir a porta a outras dimensões da realidade – não há mais como voltar.
Mas pode ser que o buraco seja ainda mais embaixo, sim. Talvez isso seja a porta que faltava para finalmente podermos ampliar a noção de “eu”. Os místicos nos falam há milênios da natureza múltipla do ser, que o que pensamos ser o “eu” na verdade é tão-somente uma extensão do “eu” dos outros. Em outras palavras: tudo é uma coisa só e está interconectado e interdependente de forma tal que o que se faz a algo ou alguém, se está a fazer com tudo e todos.
Mas isso a ecologia já nos diz, com sua teoria de Gaia. E a economia já nos revelou, com a globalização. E a psicologia também, com o inconsciente coletivo. O que parecia impossível está ocorrendo agora: tecnologia e misticismo convergem para as mesmas conclusões sobre a realidade. Feito viajantes que seguiram durante muito tempo por caminhos diversos e se encontram agora, com as mesmas constatações a respeito da vida.
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Ricardo Kelmer – blogdokelmer.wordpress.com
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13o Andar (Thirteen Floor – EUA, 1999 – Ficção científica)
Direção: Joseph Rusnak
Elenco: Craig Bierko, Armin Mueller-Stahl e Gretchen Mol
Cientista que trabalha num revolucionário projeto sobre realidade virtual é assassinado e James, o melhor amigo, desconfia que ele próprio é o assassino. Para entender o que se passou, vai buscar pistas dentro da própria realidade virtual, o que termina levando-o uma completa transformação de sua compreensão da realidade.
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http://www.worldofescher.com/gallery/jpgs/P3.jpg – é difícil explicar por palavras, por isso peguei nesta imagem de Escher para ilustrar a minha ideia. Nem acho que tenham sido seguidos caminhos diferentes para chegar ao mesmo lugar; o caminho é sempre o mesmo, mas percorrido de formas diversas.