O brega não tem cura

novembro 26, 2011

Ricardo Kelmer 2001

Porque o senhor sabe, né, o brega sempre puxa uma dose, que puxa outra, que puxa a lembrança daquela ingrata, que puxa outra dose…

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Pois é, doutor… essa coisa do brega. Não sei explicar. Sou chegado sim, assumo. Já tentei largar várias vezes e nada. Até na igreja fui. O pastor disse que tinha um demônio dentro de mim, se eu fosse lá no culto ele tirava. Mas não fui muito com a cara daquele pastor não. Foi aí que me falaram desse negócio de terapia. Tem cura pro brega, doutor?

Se lembro de algo na infância? Hummm, deixa eu ver… Bem, lá em casa tinha uma empregada. Marluce o nome dela. Eu na sala fazendo o dever de casa e lá na cozinha a Marluce pendurava o radinho no armário e mandava ver no brega. E tome Lindomar Castilho, Bartô Galeno, Núbia Lafayette, Roberto Muller, Diana, a tarde inteira. Eu estudando OSPB e pensando na menina da cadeira de rodas, tudo eu faria pra ver novamente feliz…

Depois eu cresci e a coisa só piorou. Porque o senhor sabe, né, o brega sempre puxa uma dose, que puxa outra, que puxa a lembrança daquela ingrata, que puxa outra dose… Quando a gente vê, já está lá no Roque Santeiro se esgulepando na cachaça, sábado seis da manhã, virado da noite, escutando os Pholhas e ligando praquela ex que casou, botando o celular pra ela ouvir She Made me Cry, ô desgraceira. Tem cura pra isso, doutor?

Pois foi exatamente por conta desses desmantelos que larguei o brega. Larguei. Dei meus discos tudinho, deixei de cantar Secretária da Beira do Cais debaixo do chuveiro, não quis mais saber. Arreneguei aquela vida pregressa, virei outro homem, me regenerei.

Mas semana passada, doutor… tive uma recaída. Foi terrível. Genival Santos no BNB Clube. Com Fernando Mendes e Raimundo Soldado, olha a tentação. E sabe quem mais? Ele, o homem da pílula: Odair José. Me deu logo uma coceira no juízo. Quando vi já estava lá dentro tomando montilla, todo empolgado. Tinha muita gente sim, aquele cheiro de conturrê no meio do mundo. Moça velha? Vixe, tinha de puxar de rodo. “Não tem jeito que dê jeito, pra você ficar comigo…” É, Raimundo Soldado. Trinta anos de peleja e o homem ainda não foi promovido, injustiça.

E o Fernando Mendes? “Numa tarde tão linda de sol, ela me apareceu…” Esta o senhor conhece, né? Linda. Marluce caía no chão por esta música. Cadeira de Rodas? Cantou também, claro. Nessa hora me deu até saudade de estudar OSPB, pro senhor ver o que o brega não faz… E a cabeleira do Fernando, rapaz! Essas técnicas modernas de alongamento são uma coisa…

E o Genival, homem de Deus! “Sendo assim, vou acabar ficando louco…” Clássica, né? “Meu coração está em greve…” Ai, meu Jesus Cristino! “Se errar uma vez dou castigo pra não se acostumar, se errar outra vez mando embora pra saber me respeitar…” Isso é que é bonito, doutor: melhor mandar embora que dar um tiro na desgraçada, né?

E o Odair… Ah, doutor, o homem tem aquela cara de bandido de velho-oeste mas é o puro cavalheiro do brega, sempre distinto, gestos elegantes, precisa ver. Eu era um olho no palco e outro no chão pra não escorregar nas latas de cerveja. Da próxima vez eu mesmo pago um servente pra limpar aquela sujeira. Mas o Odair bem ali na frente compensava tudo. Pare de Tomar a Pílula, Cadê Você?, A Noite Mais Linda do Mundo… Cantou tudo. Qual? Eu, Você e a Praça? Cantou sim. O senhor parece que é chegado também, né? Vou Tirar Você Desse Lugar… Também cantou, claro.

Aliás, esta música só me lembra a Mardônia, lá do Crateús. Menina boa, educada, tinha ginásio. Muito mimosa. Mas o pai bulinava muito ela, o senhor sabe, e a mãe vivia por aí embriagada, nem ligava pra menina. Não deu outra: ela fugiu de casa, se mandou pro rumo de cá. Menor de idade. Acabou lá no Farol, no Hamburg Bar, o senhor chegou a frequentar? Não? Pois não sabe o que perdeu. Foi lá que eu conheci ela. Novinha, bonitinha, cheirosa que era uma beleza. Me apaixonei, né? Como é que não se apaixona? Vixe, deixei muito dinheiro naquele cabaré, o senhor nem imagina. Até chamei ela pra morar comigo mas ela não quis não. Até emprego de balconista na Lobrás eu arrumei pra ela. Quem disse que quis? Quis nada. Preferiu se juntar com um fuleragem lá, mais liso que eu. Depois sumiu. Nunca mais que vi.

Pois sabe quem eu encontrei lá no show? Justamente: a Mardônia. Dez anos depois. De shortinho jeans e batinha frente-única, pense… Um pouco mais gordinha mas ainda bem aprumada. Ah, eu não me aguentei. Fui lá onde ela tava e… ahn? Acabou o tempo? Já? Puxa, passou rápido. Mas diga ao menos se tem cura, doutor, diga. Eu preciso saber. Tem não, né? Tem nada. Eu sabia.

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Ricardo Kelmer – blogdokelmer.wordpress.com

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> Esta crônica integra o livro A Arte Zen de Tanger Caranguejos

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Na Wikipedia

Genival SantosFernando Mendes
Raimundo SoldadoOdair José

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LEIA NESTE BLOG

> A celebração da putchéuris - A história fuleragem da Intocáveis Putz Band

> A volta da Intocáveis – Oh não! – Um show com os restos mortais da Intocáveis Putz Band

> Roque Santeiro, o meu bar do coração – Uma homenagem ao bar Roque Santeiro

> Ser mulher não é pra qualquer umÉ dada a saída, lá se vai o trenzinho. Num vagão as Belas, abalando nos modelitos, no outro as Madrinhas, abalando com o isopor e o estojinho de primeiro-socorro

> Breg Brothers com fígado acebolado – Encher a cara, curtir dor de cotovelo e brindar a todas as vezes em que fomos cornos…

> A pouca vergonha do escritor peladão – Foi minha vizinha louca de Botafogo, a Brigite, quem me deu a ideia: Por que você não faz um ensaio fotográfico peladão pra comemorar seus 40 anos?

> O dia em que morri no Rock in Rio – O primeiro baseado que fumei daria um filme. Um não, vários

> A sociedade feladaputa de Geraldo Luz – Crítica social, literatura, filosofia, anarquismo, sacrilégios explícitos e sodomismos irreparáveis

> Odair José, primeiro e único - Se você, meu amigo, é desses que sentem atração por esse universo brega pré-FM, feito de bares de cortininha, radiola com discos arranhados e meninas vindas do interior… então escute Odair

> Maluquice beleza – Já que a formiga só trabalha porque não sabe cantar, Raulzito pegou a linha 743 e foi ser cigarra

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Comentarios01 COMENTÁRIOS
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01- Adorei! Kelmer, voce é o cara! bjs de fã. Sandra Ribella, Limeira-SP – nov2011

02- quero me curar não, ó doutor… Flávia Castelo Batista Magalhães, Fortaleza-CE – nov2011

03- eu sou brega!!!!!!!!! Magna Mastroianni, São Paulo-SP – nov2011

04- Eu escuto brega desde que me entendo por gente !!!! Adoro. Monalisa Serafim, Fortaleza-CE – nov2011

05- Maravilha Kelme!!! Só tu pra escreve dessa forma! Adoro! Lendo a crônica, parecia que tu tava falando o repertório de ontem do Roque Santeiro, inclusive, vamos em você na hora da “cadeira de rodas”… Vania Vieira, Fortaleza-CE – nov2011

06- E se tivesse eu ficava doente pra sempre. Eduardo Lima, Fortaleza-CE – nov2011

07- Adorei! Bjs. Carmem Távora, Brasília-DF – nov2011


Cabaré Soçaite out2011 – Fotos

novembro 21, 2011

Ricardo Kelmer 2011

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E o Cabaré Soçaite voltou a incendiar a noite de Fortaleza. A 11a edição da festa (10a em Fortaleza) aconteceu em 29out, no Órbita Bar, na Praia de Iracema. Foi a segunda parceria da festa mais sensual da cidade com o Órbita. E foi novamente sucesso. O DJ desta edição foi Felipe Kaiser, o VJ foi Márcio Maahs e a banda The Dillas agitou o público com sucessos da dance music. Tivemos também performances sensuais com dançarinas e dançarinos e o concurso Musa e Muso do Cabaré, que premiou os vencedores com um fim de semana em Jericoacoara-CE (Pousada Casa do Ângelo), além de vale-compra na sex shop Via Libido.

A próxima edição em Fortaleza será novamente na Órbita (10.03.12). E a 2a edição paulistana ainda não tem data pra acontecer. Se você deseja sugerir um local, entre em contato.

> Veja o vídeo desta edição

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PARCEIROS DESTA EDIÇÃO:

- Pousada Casa do Ângelo (Jericoacoara-CE)
Via Libido Sex Shop (Fortaleza-CE)
Confraria São Tomé (Fortaleza-CE)
Butiquim (Fortaleza-CE)
Hotel das Falésias (Praia das Fontes-CE)
Segundo Sentido Cosméticos (Fortaleza-CE)

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MAIS FOTOS E VÍDEOS E A HISTÓRIA DA FESTA

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FOTOS
(Denise Borges e Íris de Oliveira. Clique para ampliar)

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Maltrata ele, vai, pisa nele, pisa

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Você é nova aqui no Cabaré?

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The Dillas inspirando a plateia

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A cantora Di Ferreira soltando seu vozeirão

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The Dillas pra sempre em nossos corações

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Só quero se for na boquinha

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DJ Felipe Kaiser

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Concurso Musa do Cabaré

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Viu o desenho do tapete como é bonito?

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Candidata argumentando com o júri

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Quem resiste a esse trenzinho?

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As finalistas em ação

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A Musa do Cabaré agradecendo à torcida

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Amor de cabaré

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Cabaré pegando fogo

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Cabarete vive sua noite de diva

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Garota má leva cintada

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Um beijo por uma tequila

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Don Juan DeMarco da Caatinga

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A máfia do Cabaré

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Concurso Muso do Cabaré

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Candidatos arrepiando a plateia

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Calma, meninas, tem pra todas

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Eu… você… dãããã…

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Dita, Fadinha e Areta arrebentando o Cabaré

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Fadinha sendo atacada

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Dita maltratando um pobre coitado

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Fadinha serelepe popistar

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Posando para seu desejo

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A comportadinha do Cabaré

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> VIDEO-CLIPE DESTA EDIÇÃO

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 COMENTÁRIOS
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01- Parabéns Ricardo Kelmer. Rosa Veronica Nogueira Moreira, Fortaleza-CE – nov2011

02- haha kelmer amei as fotos. Fortuna Milena, Fortaleza-CE – nov2011

03- Amore eu quero ir. E a minha cara :-) Ana Junqueira Bachelet, São Paulo-SP – nov2011

04- Eu fui!!!!!!!!!! Quero é mais. Meire Viana, Fortaleza-CE – nov2011



Mordida na última sessão

novembro 14, 2011

Ricardo Kelmer 2001

A maioria dos vampiros são ilustres desconhecidos, gente como você que rala no dia a dia para pagar as contas e assiste ao Sexy Time antes de dormir
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Eu a conheci na fila do Entrevista com o Vampiro, última sessão. Linda, sensual e misteriosa – foi paixão à primeira olhada. Depois do filme ela me convidou a tomar um uísque no bar. Aceitei, claro, encantado com seus olhos lânguidos. Algumas horas depois virei o rosto para o lado e, na escuridão do quarto, procurei o relógio digital. Quase cinco da manhã, em breve amanheceria. Sobre meu corpo ela se contorcia freneticamente, os cabelos negros balançando. Sua bela silhueta a me cavalgar foi a última imagem que vi pois logo depois uma onda de prazer incontido me invadiu e fechei os olhos, rendido. Enquanto a onda me arrebatava, senti que ela prendia meus braços à cama, beijava-me a boca e tchum!, cravava os caninos afiados em meu pescoço. Na confusão de sensações só deu tempo de pensar: “Uma vampira!”. E apaguei.

Pela carinha que você está fazendo, minha amiga, vejo que não acredita em relatos como esse, não é? Você é uma mulher moderna, não acredita em vampiros. Bem, melhor para eles. Pois eu lhe digo: eles existem. Existem e estão por aí, espalhados entre as pessoas comuns, selecionando o próximo pescoço. Evidente que não dá para reconhecê-los apenas olhando. Na maioria dos casos, só se percebe um vampiro quando já é tarde demais. Como no primeiro parágrafo.

Claro, há vampiros e vampiros. Com o passar dos séculos muitas linhagens se desenvolveram e hoje já não dá para agrupá-los num só rótulo. Tem vampiro que até vai à missa, acredita? Tem vampiro cuja imagem não reflete no espelho – e ainda assim são hipervaidosos! Há os que dormem em caixões refrigerados e há também, creia, os que fazem bronzeamento artificial para disfarçar a falta de sol. Tem de um tudo nesse mundo de caninos afiados.

Nosferatu, Drácula, Vampirella, algum desses famosos você conhece. Mas a maioria dos vampiros são ilustres desconhecidos, gente como você que rala no dia a dia para pagar as contas e assiste ao Sexy Time antes de dormir. Sim, tem aqueles que se transformam em morcegos e dormem num caibro, pendurados de cabeça para baixo – tudo para fugir do aluguel. Em compensação ninguém dorme com eles. Só no cinema é que vampiro não trabalha, se veste superbem e ainda mora em cobertura. Conheci uma vampira, garçonete num bar da Praia de Iracema, que mandou botar vidro fumê e ar condicionado no seu fusca para poder dormir dentro dele durante o dia. Para você ver como vida de vampiro não é mole.

No filme Fome de Viver Catherine Deneuve, ai, ai, é uma linda e charmosa vampira que seduz homens e mulheres. Ah, minha amiga, nem você resistiria àquele charme francês… Vampiros sabem conquistar como ninguém. Muita gente boa já caiu na lábia vamp. Exemplo? Lucélia Santos. Isso mesmo, pode conferir em As Sete Vampiras. Brad Pitt, Wynona Rider e David Bowie também caíram. Nem Xena, a guerreira, escapou. Se eles que são tão chiques caíram, por que você estaria imune? Ninguém está. Um belo dia, querida, você vai acordar e lá estarão as duas marquinhas no pescoço. Ou na virilha, pelas coxas que você tem…

Como é que sei dessas coisas? Não importa. O que interessa é: o que fazer se você levar uma dentada? Eu lhe digo: relaxe e goze. Aceite o fato e se prepare para um mundo novo, cheio de novidades. Você é uma mulher bonita, vai aproveitar à beça. Sim, tem vida eterna. Mas cuidado, tem sempre um caça-vampiros de plantão, desses bem neuróticos, cheio de frustração na vida, doido para lhe enfiar a estaca no coração. Por isso vampiro tem de ser discreto. Vantagem mesmo é que a maioria não envelhece, não adoece, não tem ressaca nem pega aids. A vida vira uma festa, toda noite na gandaia, já pensou? O diabo é o cartão de crédito que vive estourado.

Você já viu Quente como Licor? É uma história de amor entre vampiros que se prostituem para conseguir sangue. Está em cartaz no Cine Franzé. Que tal irmos esta semana? Ótimo! Então está marcado, a gente se encontra na entrada. Podemos ir na última sessão?

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Ricardo Kelmer – blogdokelmer.wordpress.com

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FILMES CITADOS

> Entrevista com o Vampiro – The Vampire Chronicles. EUA, 1994, Terror. Direção: Neil Jordan. Roteiro: Anne Rice, baseado em livro de Anne Rice. Elenco: Tom Cruise, Brad Pitt, Antonio Banderas, Stephen Rea.

> Fome de Viver – The Hunger. EUA/Inglaterra, 1983, Terror. Direção: Tony Scott. Roteiro: James Costigan, Ivan Davis e Michael Thomas, baseado em livro de Whitley Strieber. Elenco: Catherine Deneuve, David Bowie, Susan Sarandon, Cliff De Young.

> As Sete Vampiras – Brasil, 1987, Comédia. Direção: Ivan Cardoso. Roteiro: R. F. Luchetti. Elenco: Andréa Beltrão, Ivon Cury, Danielle Daumerie, Wilson Grey, John Herbert, Leo Jaime, Zezé Macedo, Nuno Leal Maia, Lucélia Santos.

> Drácula de Bram Stocker – Bram Stoker’s Dracula. EUA, 1992, Terror. Direção: Francis Ford Coppola. Roteiro: James V. Hart, baseado em livro de Bram Stoker. Elenco: Gary Oldman, Winona Ryder, Keanu Reeves, Anthony Hopkins.

> Quente como Licor – Todas as informações sobre este filme foram misteriosamente apagadas da internet.

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LEIA TAMBÉM

> Meu fantasma predileto – Diziam que era a alma de alguém que fora escritor e que se aproveitava do ambiente literário de meu quarto para reviver antigos prazeres mundanos

> O íncubo – Íncubos eram demônios que invadiam o sono das mulheres para copular com elas – uma difundida crença medieval. Mas… e se ainda existirem?

> Vade retro Satanás – O Mal pode ter mudado de nome e de estratégias. Mas sua morada ainda é a mesma, o nosso próprio interior

> Mordida na última sessão - A maioria dos vampiros são ilustres desconhecidos, gente como você que rala no dia a dia para pagar as contas e assiste ao Sexy Time antes de dormir.

> Cine Kelmer apresenta – Dicas de filmes

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Comentarios01COMENTÁRIOS
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01- hum…adoreiii. Carol Nobre, Fortaleza-CE – nov2011

02- Uhnnn….sabe que sempre gostei bastante dessas histórias a respeito de meus ancestrais, rs…. Paula Medeiros de Castro, São Paulo-SP – nov2011


Rumo à estação simplicidade

novembro 5, 2011

Ricardo Kelmer 2006

Jurei me manter sempre no caminho, sem pesos nem apegos excessivos, pronto pra pegar a estrada no momento em que a vida assim quisesse
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São Paulo surge aos poucos, me dando as boas vindas através das fábricas, indústrias e motéis que vão passando pela janela do ônibus. Ao longe a silhueta paulistana de concreto, os altos prédios envoltos naquele eterno abraço cinzento. Aqui na poltrona eu respiro fundo: mais uma estação, lá vamos nós, ô vidinha cigana…

Intuição. Ela de novo. Fazia uns meses que a danada sussurrava em meu ouvido, apontando os sinais pelo caminho. Até que, naquela manhã de primavera carioca, me espreguiçando na cama, lembrei do sonho que tivera. E então eu soube exatamente o que deveria fazer, uma certeza tranquila, que vinha não apenas da mente mas também do corpo inteiro. Saltei da cama, liguei o computador e enviei mensagens aos amigos, avisando que iria tentar a vida em São Paulo. E comuniquei à dona do apartamento que eu desocuparia o quarto no fim do mês. E onde ficaria em São Paulo? Não sabia. Mas isso não importava, o importante era que eu havia decidido. E que os sinais do mundo concordavam comigo. O resto era o resto.

Mudanças, mudanças… Já devia estar acostumado, eu sei, mas é que ainda não consegui me livrar desse friozinho que dá na barriga, o próprio corpo querendo me lembrar do pacto. Sim, um dia fiz um pacto: jurei me manter sempre no caminho, sem pesos nem apegos excessivos, pronto pra pegar a estrada no momento em que a vida assim quisesse. E em troca dessa disponibilidade, a própria vida cuidaria do resto.

Percebi que, de fato, precisava ser ainda mais desapegado quando chegou a hora de me desfazer dos excessos acumulados em dois anos de Rio de Janeiro. Não era muita coisa mas pra quem está sempre se mudando, qualquer peso a mais faz diferença. Além do mais, eu nem sabia onde ficaria em São Paulo. E estava levando o computador. E ainda havia os meus próprios livros, que preciso ter sempre comigo pra vender, afinal ainda sou um escritor camelô. Então a mesa e a estante eu dei. A tevê eu vendi. Pensei em levar o ventilador mas desisti, seria um capricho. E as roupas, deixei metade delas, não foi tão difícil. Mas confesso que fraquejei ao me despedir de uma mimosa calcinha, lembrança de uma noite especial. Desculpa, dona da calcinha, mas até os caprichos românticos pesam na mochila.

Levei alguns dias pra me desfazer dos livros e cedês. Cada vez que fazia a triagem, faltava coragem e eu deixava pra amanhã. Mas não tinha outro jeito. Acabei dando todos os meus cedês, não escapou nem mesmo o da Intocáveis Putz Band, que entreguei olhando pro outro lado, pra nem ver. Com os livros, porém, o dilema alcançou proporções horripilantes. Era a escolha literária de Sofia: precisei ir várias vezes ao sebo, cada vez levando um pouquinho mais de livros. Não sei o que doía mais, se o fato de deixar meus Jung e meus Campbell ou a micharia que recebi por eles. No fim decidi que iriam comigo apenas meu velho I Ching e uma dúzia de livros que precisava ler com urgência. Sentia-me triste por abandonar os velhos companheiros mas ao mesmo estava aliviado por fazer o que devia ser feito.

Então lá estava eu olhando pros meus pertences, tudo socado em uma bolsa, duas mochilas e três caixas, sendo duas só pro computador, esse trambolho. Notibuque pro escritor camelô! – esta será minha próxima campanha da fraternidade kelmérica. Pois bem, aquela tralha toda me repreendendo, ô rapaz, você tem que se tornar mais leve e ágil, quando… puff, compreendi! Subitamente compreendi que o tal pacto era mais sutil e profundo do que eu imaginava. Tratava-se de se tornar fisicamente leve, sim, leve e ágil pra se sair bem nas mudanças – mas tratava-se também de se tornar leve de espírito, de se desapegar cada vez mais de ideias e padrões de comportamento que se tornaram pesados. Assim como as coisas se acumulam no armário, certas ideias e posturas também perdem a utilidade e, se antes eram fundamentais, com o tempo se tornam apenas um capricho e mais adiante viram um trambolho difícil de se carregar. Era incrível, o pacto tinha outra camada de entendimento por baixo, que falava de simplificar não somente o estilo de vida mas também a si mesmo. Uau! A vida parecia jogar comigo, deixando mensagens cifradas pelo caminho…

Salto na rodoviária, pisando finalmente o chão paulistano, nas mãos o endereço de uma casa na zona sul. Lembro do velho ensinamento taoísta que diz que a simplicidade é a última das estações – será que ela ainda está muito longe? Enquanto o táxi avança pelas ruas, sinto-me estranhamente leve e confiante, acho que ainda estou sob efeito do clarão de percepção do dia anterior, parece um baseado de efeito prolongado. Então sorrio, pensando no quanto tentamos controlar a vida e complicamos tudo. E rio ao lembrar que uma semana antes eu não tinha sequer um lugar pra ficar. Rio mais ainda quando lembro que não tenho nenhum trabalho à vista. Chego quase a gargalhar pensando na ridícula simplicidade e obviedade de tudo… O motorista me olha desconfiado. Como dizer a ele que acabo de descobrir que a coisa mais simples que pode existir… é viver?

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Ricardo Kelmer – blogdokelmer.wordpress.com

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O Irresistível Charme da Insanidade
romance

Um músico obcecado pelo controle da vida. Uma viajante taoísta em busca de seu mestre e amante do século 16. O amor que desafia a lógica do tempo e descortina as mais loucas possibilidades do ser.

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LEIA NESTE BLOG

> É a Tao coisa – Uma maneira intuitiva de compreender a realidade através da harmonia com o Tao

> Rumo à estação simplicidade – Jurei me manter sempre no caminho, sem pesos nem apegos excessivos, pronto pra pegar a estrada no momento em que a vida assim quisesse

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