Ricardo Kelmer 2000
Meia-noite. Volto do banho. Elas estão todas deitadas em minha cama, lânguidas odaliscas a me aguardar
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Putz, que perdição essas feiras de livros! Pra um leitor compulsivo como eu são verdadeira tortura. Tantos livros se oferecendo e tão pouco dinheiro pra gastar… Mas sabe quando o diabo tenta, né? É aquela coceira que não deixa o cidadão em paz. E eu resisto a tudo, menos às tentações. Ai, a luxúria literária… Então lá vou eu. Respiro fundo e repito pra mim mesmo: só tenho isso, só posso gastar isso, só vou gastar isso. Neurolinguística, pensamento positivo, autocontrole. E seja o que o diabo quiser.
Das estantes as tentações acenam e sorriem. Algumas finjo que não é comigo. Outras arrisco uma olhadinha de canto de olho e passo reto. Mas tem umas ousadas: elas simplesmente me puxam pelo braço e quando dou conta lá estou eu a acariciar sua celulose macia… E cheirar também, sim, adoro cheirar essas coisinhas. Será que ainda inventarão livro eletrônico com cheiro? Certamente. Leremos então O Perfume e sentiremos todos aqueles cheiros da Paris antiga. As páginas do Brasil Nunca Mais trarão cheiro de carne eletrocutada. Uau.
Saio da feira em êxtase, sete sacolas em cada braço, sacoleiro literário do Paraguai. Uma delas rasga próximo ao carro, livros se machucam no asfalto. A capa de um deles amassa, eu quase choro. Sigo equilibrando dois Jung e um Campbell na cabeça, uma súbita admiração pelas lavadeiras. Chego em casa sultão em seu harém: com qual odalisca começar? Esta. Não, aquela. Não, esta aqui que já está de páginas abertas. Bem, melhor tomar um banho antes. Ela não, eu.
Mas essas feiras não mexem apenas com minha porção leitor. Há também o escritor. E ele caminha silencioso, olhando os filhos dos outros nas vitrines. Termina comparando com os seus, não tem jeito. Então acontece! De repente ele surge na vitrine e, puf! somem todos os outros, só ele no mundo. O escritor passa em frente a seu livro, faz que não vê, para adiante, finge que esqueceu algo, volta e passa de novo. A criatura está ali e é claro que sabe que seu criador a observa. Se pudesse, desceria e iria dar-lhe um bicudo na canela, protestar: “Muito engraçado! Eu te sustento e ainda sou obrigada a ficar aqui nessa posição ridícula o dia inteiro…” Mas livro não dá bicudo. Sua vingança é botar mau olhado em si mesmo e não vender. Irgh!
O escritor então se afasta um pouco, quem sabe flagrará o momento exato em que o anônimo leitor se aproximará? Ah, o leitor, essa entidade mágica… O escritor o observa: ele se detém ante a vitrine, olha, estende o braço, toca sua criação, folheia seus primeiros segredos e, instante sublime!, chama o vendedor. Os dois conversam, não dá pra ouvir o que dizem. Suspense. Rufam os tambores. Segundos depois o leitor agradece e vai embora. Sem o livro. São cruéis, os leitores. Mas talvez não o fossem se o preço nas capas não desestimulasse tanto.
Filho não gosta que os pais o observem demais, analisem o tempo todo como se comporta. Então deixo o rebento lá, exposto em sua trágica solidão de quem não sabe o sentido da própria existência. E eu, por acaso, sei? Não sei se sei. Talvez não passe disso mesmo a minha sina: ser mensageiro das minhas profundezas, Mercúrio de mim mesmo. Seja o que for, não há mais retorno possível. Escrever pra mim é mais que prazer ou trabalho: é precisão. Se não botar pra fora o que penso e sinto, enlouqueço de vez. E eu bem sei como tratam os loucos. Não quero ser mal tratado. Por isso sigo fingindo normalidade num mundo de reis nus e insanos.
Meia-noite. Volto do banho. Elas estão todas deitadas em minha cama, lânguidas odaliscas a me aguardar. Brinco de fechar os olhos e tentar adivinhá-las pelo cheiro, a textura da pele. Puxo uma delas e deslizo a língua em sua orelha, apoio o queixo no osso da lombada, deixo-me assim ficar, gozando as preliminares. Do inferno me ameaçam os ecos de uma vaga preocupação com o cartão de crédito… Ela, porém, sussurra meu nome e é a visão de seu corpo seminu em minhas mãos que me salva. Sorrio agradecido e abro sua capa, devagar. Agora ela tem suas verdades escancaradas e suspira. Agora sabe, finalmente, porque existe. Ela fecha os olhos e se delicia de tanto saber que foi pra esse sublime momento de entrega que foi criada, foi sim.
Quanto a mim, daqui a pouco tombarei pro lado e adormecerei, sua cabeça pousada em meu peito. E sonharei um mundo lindo onde as sacolas não rasgam e nem preciso me endividar pra ter os livros que nas vitrines sussurram meu nome.
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Ricardo Kelmer – blogdokelmer.wordpress.com
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COMENTÁRIOS
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01- Adorei esta crônica. Parece que vc leu meus sentimentos e emoções acerca das feiras de livros e livrarias em geral. Fico assim tb, qual viciada diante do vício. Não consigo ir a uma livraria só para olhar. Preciso possuir o livro! Nem emprestado tem o mesmo sabor. Eu quero o livro pra mim. Assim mesmo, egoísticamente. Gosto de tê-los à minha volta, em todos os cantos. E gosto de relê-los depois de tempos. Livros me emocionam… mas preciso tocá-los. pois é… sou tarada por livros. Adorei a sua crônica. De verdade. Mesmo! beijosssssss cá da Ilha da magia. Odete, Florianópolis-SC – abr2007
02- nossaaaaaaaa, Ricardo Kelmer eu amei =P. Rosana Pereira Marinho, Juazeiro do Norte-CE – ago2011
03- meu amigo kelmer.. sua imaginação domina sua criatividade. ou seria o inverso (rs_rs). Roberto Paiva, Fortaleza-CE – ago2011
04- seu olhar odalisca/diz no fundo/ah! deixa estar… Jules Laforgue. Alberto Marsicano, São Paulo-SP – ago2011
05- Gostei como gosto de várias coisas q vc escreve, começando pelo “Mulher Selvagem”, passando pelo livro e os textos frequentes. Nathalie Sterblitch, Resende-RJ – ago2011