Ricardo Kelmer 2010
Se hoje a sexualidade feminina ainda apavora a mentalidade cristã, no século 17 ela era algo absolutamente demoníaco
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Benedetta Carlini foi abadessa de um convento no século 17 na pequena cidade italiana de Pescia. Era uma mulher mística e visionária, que ganhou fama por seus encontros sobrenaturais com Jesus Cristo e que em seus transes obrava milagres, sofria com estigmas em seu corpo e falava em várias línguas. Num de seus transes aceitou o pedido de Cristo e casou-se com ele em cerimônia realizada na capela do convento, diante de várias pessoas.
As autoridades eclesiásticas, desconfiadas, promoveram um inquérito, analisando detalhadamente o caso. Ao final, a investigação concluiu que a abadessa, na verdade, era vítima de enganações do Diabo, e revelou também que ela e sua ajudante, a jovem freira Bartolomea Crivelli, mantinham relações sexuais secretas no convento. Benedetta escapou da condenação na fogueira mas foi isolada na prisão do convento, onde ficou por 35 anos, até sua morte aos 71 anos.
A incrível história de Benedetta foi descoberta pela historiadora estadunidense Judith C. Brown no Arquivo do Estado de Florença. Impressionada com o material que encontrara, Judith o transformou no livro Atos Impuros – A vida de uma freira lésbica na Itália da Renascença, lançado em 1986. Numa ágil narrativa romanceada, Atos Impuros nos leva a acompanhar as investigações eclesiásticas sobre Benedetta, oferecendo-nos uma boa oportunidade de observar a vida social na Renascença e o cotidiano dos conventos no século 17. E também expõe o modo cruel que a Igreja Católica tinha de lidar com duas questões que até hoje lhe são bastante embaraçosas: a espiritualidade e a sexualidade femininas.
Religião é controle. Uma prova disso é que os líderes religiosos tendem a desestimular o contato direto das pessoas com a divindade pois isso desestabiliza a hierarquia, desvalorizando o papel intermediador dos sacerdotes. Outra forma de controle religioso é a repressão da sexualidade. Como o Cristianismo é uma religião de homens que têm pavor da natureza e do feminino, eles desde o início buscaram reprimir e controlar a mulher, associando-a ao sexo pecaminoso. E ainda fazem isso até hoje.
Espiritualidade e sexualidade – o caso de Benedetta mexe nos dois vespeiros de uma só vez. Uma mulher que mantém uma intensa relação mística com Cristo a ponto de ser eleita por ele sua noiva, que obra milagres e se torna famosa e querida entre o povo era algo ameaçador demais para a estrutura de poder da Igreja, e ainda mais se essa mulher era uma abadessa e, para completar, lésbica. Se hoje a sexualidade feminina ainda apavora a mentalidade cristã, no século 17 ela era algo absolutamente demoníaco.
Apesar de toda a repressão do Cristianismo, o arquétipo do feminino livre manteve-se vivo na psique das mulheres e cada vez mais elas despertam para vivê-lo conscientemente em suas vidas. São mulheres que mantém sua própria relação com o sagrado sem se deixar prender por dogmas religiosos e vivem sua verdadeira sexualidade sem a culpa que a religião insiste em lhes impor. No século 17 a mulher livre foi presa e queimada viva. Hoje a religião não tem mais o mesmo poder de ditar o que as pessoas devem ser e como devem se relacionar com o divino. É a liberdade vencendo o medo do inferno.
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Ricardo Kelmer – blogdokelmer.wordpress.com
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O LIVRO
A edição de Atos Impuros que li é a da editora Brasiliense, 1987. Não encontrei nenhuma capa da edição brasileira em boa definição. Mas encontrei a capa de uma edição em italiano e outra em inglês.
Há edições em português disponíveis pra compra no site Estante Virtual.
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COMENTÁRIOS
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01- Escreve demaaaaisss!!! E como é bom ler seus textos impregnados de energia da deusa mãe!!! Continue prenhe de luz de inspiração, caro irmão terráqueo!!! Bjs. Vou ver se escapo de um outro compromisso e vou pro Cabaré, que lá, sim, é lugar de mulher séria!!! Bjsss. KK, Fortaleza-CE – nov2010
02- Kelmer, texto excelente. Obrigada. Ana Paula, Fortaleza-CE – nov2010
03- Positivamente concordo com você. A sexualidade feminina ainda não se descobriu de todo, principalmente em sua relação com o sagrado. E até em nós mesmas ainda há restrições que impedem essa relação sagrada de se manifestar. Abadessa? Uma bruxa,isto sim, em sua essência na melhor acepção deste termo. A melhor acepção possível. Relações com o sagrado ATRAVÉS do sexo. Isto sim!Quando todas as mulheres e homens descobrirem isto serão de fato felizes. Fátima Braga, Recife-PE – nov2010
04- Kelmer, é a própria história “verdadeira” da beata Maria de Araújo. A mesma contada por ela nos depoimentos ao santo ofício, registrados no inquérito contra o padra cícero. Parece que são várias, não digo lésbicas, mas beatas que casavam com cristo. beijos. Veronica Guedes, Fortaleza-CE – nov2010
05- Maravilhosa crônica, Kelmer! =) beijos. Larissa Azevedo, Natal-RN – nov2010
06- Pois é, criatura daimônica, Benedetta, noiva de Cristo, era ANDRÓGINA. MEZZO MOGLIE, MEZZO UOMO. A primeira vez que li sobre ela fiquei fascinada. Que sofrimento atroz o dela, né RK? Que atrocidade separar as amantes! A separação dos AMANTES é um dor excruciante. Dor Bizarra. Patrícia Lobo, Salvador-BA – nov2010
07- Oi Ricardo, Ja ouvi falar dessa história pela parte de meu pai, afinal somos Carlini e creio que Benedetta seria uma de nossas primeiras ansestrais. Conhecidência interessante! Parabéns pelo Blog, Um abraço. Jacqueline Nappo Carlini, São Paulo-SP – nov2010