Em busca da mulher selvagem

Era por ela que eu sempre me apaixonava, essa mulher que era quem ela mesma desejava ser e não a mulher que a família, religião e sociedade impunham que ela fosse

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EmBuscaDaMulherSelvagem-02base4bFoi Marília quem me emprestou esse livro, em 2002, quando eu já andava curioso a seu respeito. Depois Rafaela me deu um de presente. E depois ganhei a versão digital. Ou seja, esse livro queria mesmo vir pra mim, e foram as mulheres que o trouxeram. Li e fiquei encantado. Nas páginas de Mulheres que correm com os lobos estava o que eu intuía sobre as mulheres e a relação entre os gêneros mas ainda não sabia verbalizar. O livro me chegou numa fase em que eu já lidava melhor com meus aspectos femininos e, por isso, me identifiquei profundamente com ele e com a histórica questão da domesticação da mulher.

Terminei a leitura sentindo em minha alma uma avalanche de ideias e sensações mas sentindo também que levaria um bom tempo até que tudo aquilo assentasse e eu conseguisse organizar meus pensamentos e reagrupar as verdades que, embora não fossem tão novas pra mim, agora eram obviamente, estupidamente claras. Através de mitos e lendas coletados em várias partes do mundo, a autora mostra como sobreviveu, mesmo escondida sob muitas formas simbólicas, o arquétipo do feminino selvagem, o modelo da mulher conectada com os ritmos e valores da Natureza e de sua própria natureza, o modelo da mulher livre. Um livro belíssimo, que tem ajudado muitas mulheres a resgatar o que séculos de repressão lhes usurparam: o direito de serem o que quiserem. Um livro que fala essencialmente do feminino mas também fala de homens e deveria ser lido pelos dois.

A mim, o livro de Clarissa me fez especialmente entender que, em minha vida, desde cedo me fascinou o arquétipo do feminino selvagem. Por causa disso sempre me atraíram as mulheres de iniciativa, as desafiadoras da cultura machista, as que recusavam o modelito cristão de mulher virtuosa, as que se rebelavam contra regras sociais idiotas, convenções sexuais sem sentido, modelos de relacionamento baseados na posse do outro e tudo que objetivava manter a mulher submissa e sob controle. Era por ela que eu sempre me apaixonava, essa mulher que era quem ela mesma desejava ser e não a mulher que a família, religião e sociedade impunham que ela fosse.

Esse livro me trouxe uma das mais importantes revelações que já tive, que a mulher da minha vida é e sempre foi uma só: a mulher livre. E que foi essa mulher que, mesmo sem saber, eu sempre busquei em minhas relações, ainda que a temesse. E que foi por ela que abandonei muitas mulheres, ao intuir, sem saber explicar nem pra mim, que eu jamais poderia ser totalmente eu ao lado de uma mulher domesticada.

Porém, como aceitar e amar essa mulher liberta sem, antes, eu mesmo me libertar do que também me limitava? Pra merecê-la, eu também precisava me libertar de vez de qualquer pretensão de controlá-la, esse resquício maldito de minha herança cultural-religiosa.

A ficha caiu após ler Mulheres que correm com os lobos: esse livro me ajudou a assimilar o feminino em meu ser e foi isso, exatamente isso que me fez deixar de temê-lo, me fez mais selvagem no sentido psicológico-arquetípico, me fez mais livre. O efeito prático disso tudo é que agora eu finalmente estava aberto pra relações mais igualitárias e, principalmente, pra receber a mulher livre que tanto buscava em minhas relações. Então ela veio, enfim ela pôde vir. Veio linda, plena e radiante, e eu vi em seus olhos o reflexo dela própria em mim. E desde então continua vindo, e eu e ela somos lobos que cruzam florestas atraindo-se pela fome louca que temos um do outro.

E eu sei que ela sempre virá, porque esse amor que trazemos em nós, geralmente incompreendido por não erguer cercas de posse e jaulas de controle, é o amor que aprendemos a respeitar em nossa própria natureza e que nos alimenta de alegria e liberdade a alma selvagem.

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Ricardo Kelmer 2009 – blogdokelmer.wordpress.com

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Mais sobre liberdade e o feminino selvagem:

> A mulher selvagem - Ela anda enjaulada, é verdade. Mas continua viva na alma das mulheres
> A mulher livre e eu – A liberdade dessa mulher reluz no seu jeito de ser o que é – e ela é o que todas as outras dizem ou buscam ser, mas só dizem e buscam, enquanto ela tranquilamente… é
> Em busca da mulher selvagem – Era por ela que eu sempre me apaixonava, essa mulher que era quem ela mesma desejava ser e não a mulher que a família, religião e sociedade impunham que ela fosse
> Amor em liberdadeO que você ama no outro? A pessoa em si? Ou o fato dela ser sua propriedade? E como pode saber que ela é só sua?
> As fogueiras de Beltane
As fogueiras estão acesas, a filha da Deusa está pronta. O casamento sagrado vai começar

LIVROS

> Mulheres que correm com os lobos - Mitos e histórias do arquétipo da mulher selvagem (Clarissa Pinkola Estés -  Editora Rocco, 1994)
> A prostituta sagrada – A face eterna do feminino (Nancy Qualls-Corbert – Editora Paulus, 1990)
> As brumas de Avalon
- (Marion Zimmer Bradley – Editora Imago, 1979)

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Comentarios01 >> COMENTÁRIOS

.001- Não tenho a menor dúvida, RK, que é pelas mulheres Lilith – mulheres serpentes, que tu é fascinado e arriadinho. Tua alma é Lilithiana, criatura de Deus e do Diabo, de Abraxas!!!! Tava com saudade de tu. Rauariú, sacerdote do Grande Mistério Andrógino? Onde mora o perigo, querido, também mora a salvação, a conjunção. Pat Maria, Salvador-BA – out2009

002- Gostei do que vc escreveu. Ando relendo de novo o livro e vejo quantas coisas se assemelham a mim. Parabens. Um abraço. Christina Costa, Brasília-DF – out2009

003- Li há pouco tempo a biografia de Leyla Diniz.Essa sim é a personificação do feminino selvagem. Bjs. Mônica Burkleward, Recife-PE – out2009

004- Nossa adorei o trecho. Síntese do que venho exercitando na minha vida. Jamille Abdalah, São Paulo-SP – out2009

005- Grande Kelmer, você, como sempre, produzindo textos bacanas e bem bolados. Esse do feminino, então, show de bola, a foto foi por demais bem feita. parabéns!!! Forte abraço. Luís Olímpio Ferraz Melo, Fortaleza-CE – out2009

006- Kelmer, vou correndo ler o livro Mulheres que correm com os lobos. Essa mulher, livre, que dá banana pro machismo, que vive plenamente todos os prazeres hedonistas que lhe interessam, que toma iniciativa (mesmo sabendo do preço que paga por isso), essa mulher, sou eu! Beijão e.. valeu o toque. Vou xeretar teu blog pra saber mais. Meire Viana, Fortaleza-CE – out2009

007- Meninas, vale entrar no blog e dar uma conferida… Beijos. Ana Zanelli, Rio de Janeiro-RJ – out2009

008- Kelmer, até que enfim um homem entendeu o livro da Clarisse… (!) Claudia Santiago de Abreu, Rio de Janeiro-RJ – out2009

009- Que crônica ótima,gostei,só nÂo sei se me encaixo ‘100% nesse modelo de MULHER SELVAGEM viu. bjo parabéns pelo o trabalho fantástico. Eunyce Fragoso, Campina Grande-PB – out2009

010- Ei amigo,que bom que você descobriu as mulheres que correm com lobos… Que elas sempre estejam presentes no seu mundo! Se cuida tá! Lua, Fortaleza-CE – out2009

011- vc é especial, realmente quer e gosta de conhecer a alma feminina. faz de um tudo para compreender!!! Uma tarefa um tanto complicada,,,, Haja paciência!!! rs. Vânia Farah, São Paulo-SP – out2009

012- Quem tem medo da mulher livre?? O homem preso, oras (risos) Beijos ternurentos Tô adorando o livro…pena estar na correria e estar com tempo reduzido a zero…. mas logo termino… Beijos, outros. Clau Assi, São Paulo-SP – out2009

013- Ricardo, eu sou tua fã demais!!!! Vc é www.tudodebom.com.br/quehomeéesse!!!!! O sonho de consumo de toda mulher selvagem, incluindo eu mesma, claro! Bjs;. Karla K, Fortaleza-CE – out2009

014- Hoje tive oportunidade de entrar no seu blog, por indicação de uma amiga. Fizemos parte de um grupo de vivências apoiadas na leitura do Mulheres que correm com lobos e ela me recomendou a leitura da sua crônica Em busca da mulher selvagem. Fiquei encantada. Acabei lendo também os contos As fogueiras de Beltrane, que amei, Um ano na seca e a crônica Homens perfeitos também alopram. Interessante como você circula com competência rara entre o sagrado/mítico/profano/humor… Será com prazer que voltarei à sua página. Parabéns belos belos textos e por suas múltiplas artes. Elvira, Brasília-DF – out2009

13 Respostas para “Em busca da mulher selvagem”

  1. Gledson Shiva Disse:

    Essa foto ficou legal,

    RK SELVAGEM!

    kkkkkkkkkkkkkkkkkkk!

  2. Dalva Disse:

    Olá, Kelmer!

    Passei por aqui para agradecer:
    meu livro chegou e estou amando a leitura!
    Obrigada!
    É sempre um prazer ler o que você escreve.
    Fico feliz em saber que encontrou no
    livro da Clarissa mais fontes de inspiração
    para novas história, que todos queremos ler!

    Bjs.

  3. Nonato Albuquerque Disse:

    Velho Kel,
    passei pra te deixar um abç e dizer que te adicionei entre os meus blogados.
    Paz e Bem

  4. Lua Disse:

    Ótimo!
    Curiosa com o livro.
    Bjssssssssss

  5. Ana Valeska Disse:

    Meu amigo, você sabe que a civilização pesa na vida de uma mulher. Dias desses escrevi no meu blog sobre o processo de encontro com meu eu selvagem:

    Abandonei as vestes dos conceitos civilizados acerca de quem eu sou e entrei na floresta como bicho entregue à linguagem dos instintos. A floresta é o meu subterrâneo. Nela encontro a caverna, a árvore e o rio. Na procura incessante do que eu sou, do que eu fui, vou tecendo a tapeçaria de minha vida, artesã incansável em meu ofício, unindo os fios, os símbolos e as cores que compõem a trama imbricada do sentido de minha existência. Faço isso para poder continuar o caminho. Para continuar o movimento predestinado, para cumprir dignamente meu destino traçado. Então é preciso, de vez em quando, combater, para vencer a parte civilizada, a bela domesticada que me faz cega e surda de mim.
    Venço o que é humano e continuo como bicho. Somente um bicho prossegue diante da ameaça da penumbra de uma floresta desconhecida. É como bicho que reconstruo as bases de meu corpo arcaico e reencontro a primeira consciência, essencial, base e fundamento da verdade e que vive na animalidade do humano que escapou de ser domesticado. No vibrar da carne crua da consciência do corpo selvagem, o místico pulsa, novamente, em seu estado natural. Falo da alma humana já encarnada e ainda virgem de abismos e acúmulos. Agora corro com os lobos. Na vivência dessa memória ancestral me reconheço. Sou a fera indomável, a fêmea selvagem. Farejo a terra e sigo a luz da intuição. Enxergo além do imaginável, meus ouvidos estão atentos a qualquer farfalhar de folhagens ou bater de asas. Meu corpo fala altivo e avisa à intenção do predador: sou fera e a força está comigo.
    Bj e saudade.

    • ricardokelmer Disse:

      > Coisa mais linda e poética a mulher que vive sua própria liberdade de ser… Por essas e outras, Leka, teus olhos, tua arte e a nossa história serão sempre uma luz-guia em minhalma.

  6. Sara Disse:

    Caro RK, há muito tempo acompanho seu trabalho e sou profundamente admiradora da sua maneira de escrever.
    A respeito da mulher selvagem, bem sabe vc que todas nós temos esse “q” de fera, e não seremos domesticadas nunca. Nem sequer almejamos isso, queremos sim ser amadas por alguém que faça valer esse amor tão nosso e tão arrebatador que somos capazes de oferecer.
    A sociedade é hipócrita (ou será medrosa?) em admitir isso, o que leva a atrasar o reconhecimento de algumas mulheres e a aceitação do nosso lado loba.
    Mas um dia acordamos e vemos que não há como nem pq fugir.
    É sempre bom, vermos pessoas como vc que não só aceitam como também admiram e assim permitem que mais e mais mulheres reconheçam esses sentimentos e faces de si mesma.
    Muito sucesso e alegrias na sua jornada. Sei que não tem fé no ser chamado Deus, mas, seja qual for sua crença, muita luz para vc.

  7. Débora Dias Pereira Disse:

    Oieee!! Nossa, amei seu texto original tanto quanto o que postei!! Obrigada pelo post e pela gentileza do comentário!! Estou adoraaaaaaaando seu blog, parabéns também a você! Tenha certeza que vou ler esse livro da Clarissa. Um beijão, Débora. – SP -

  8. ricardokelmer Disse:

    > E eu adooooro essas mulheres selvagens…

  9. Débora Dias Pereira Disse:

    :)
    rssssssss

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