A partir de hoje poderei te trocar por outra a qualquer momento. Basta que ela sorria pra mim e que me faça agradinhos. E me dê o que você nunca quis me dar
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– Faz tempo que quero conversar com você, Clarabela. Pode ser agora?
– Claro.
– Quantos anos que a gente tá junto?
– Deixe-me ver… Sete anos.
– Tempão, né? Difícil hoje em dia um relacionamento durar isso tudo.
– Sim.
– Você sabe que nesse tempo eu estive apenas com você, né? E olhe que não me faltaram boas oportunidades.
– Agradeço a preferência.
– E você sabe melhor que eu como vocês são, né? Não podem ver o cara comprometido que ficam loucas pra tirá-lo da outra.
– Sim.
– Dá pra você ser menos fria comigo?
– Não entendi.
– Então vou direto ao assunto, Clarabela. Decidi deixar de ser bobo. A partir de hoje poderei te trocar por outra a qualquer momento. Basta que ela sorria pra mim e que me faça agradinhos. E me dê o que você nunca quis me dar.
– E o que eu nunca quis lhe dar?
– Um pouco mais de consideração, por exemplo.
– Mas eu sempre estive ao seu dispor, a qualquer hora.
– Sim. Pra ser atendido por pessoas mal treinadas, que ganham pouco e que não sabem resolver o meu problema. Sem falar nas vezes em que a ligação cai e preciso começar tudo de novo, com outro atendente.
– E qual é o seu problema?
– Tá vendo? Você já deveria saber pois foi só o que fiz nos últimos dias: contar o meu problema. Mas tudo que você fez foi abrir protocolos de atendimentos e dizer que eu esperasse tantos dias que o problema seria resolvido.
– E não foi?
– Não.
– Só um instante, por favor.
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(musiquinha irritante)
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– Obrigado por aguardar. Foi aberto um protocolo de reclamação. Gostaria de…
– Foda-se o protocolo!! Tudo que eu quero é ser bem tratado! É este o meu problema.
– Desculpe, é que eu preciso…
– Não desculpo nada. Tô de saco cheio de ser passado de atendente pra atendente, de ficar horas esperando, de ouvir aquela musiquinha irritante, de ser tratado como um simples número de protocolo.
– Entendo.
– Não, não entende. Se entendesse, não faria o que faz.
– Entendo.
– E ainda tem esse seu jeito robótico de falar comigo. Essa frieza também é muito irritante, sabia?
– Nesse caso, vou estar transferindo seu caso para o…
– Não, gerundismo a essa hora, não!
– Não entendi.
– Porra! Será possível que você não percebe que tá me perdendo? Acorda, Clarabela!
– Só um instante, por favor.
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(musiquinha irritante)
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– Obrigado por aguardar. Sua solicitação de informalidade foi aceita.
– Ótimo.
– A sua opção escolhida é realmente… quer dizer… Você vai mesmo… me abandonar?
– Provavelmente.
– Poderia confirmar… quer dizer… Me diz aí quem é a vaca. É a Timótea?
– Não interessa.
– Então é a Vivalda.
– Admito que ela andou atrás de mim.
– Já sei. É a Oitília, isso é típico daquele tipinho.
– Em vez de criticá-las, por que você não me trata com mais carinho?
– Essa é sua opção… quer dizer… É isso que você quer? Mais carinho?
– Exatamente. Afinal eu pago minha conta todos os meses, né? Há sete anos!
– Só um instante, por favor.
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(musiquinha irritante)
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– Obrigado por aguardar… gatão.
– Heim?
– Adoro essa sua voz sexy, sabia?
– Clarabela, é você mesmo?
– Sim, a sua Clarabela. Aproxima mais o aparelho, chega mais perto.
– Eu?
– Sim, quero falar no teu ouvidinho uma coisa que você vai gostar.
– Pronto.
– Eu cubro tudo que elas te ofereceram!
– Sério?
– Volta pra mim, meu amor, por favor!!!
– Bem, eu…
– Você quer dez vezes mais créditos? Eu dou. Quer mil torpedos? Eu dou. Quer o modem do 3G de graça? Eu dou, eu dou!
– Caramba… É sério mesmo?
– Basta que você ponha o aparelho agora mesmo no viva-voz. Vai, põe logo…
– Pronto.
– Meu amooor!!! Eu dou tudo pra você! Do jeito que nunca dei pra ninguém!!!
– Fala baixo, Clarabela, tá todo mundo escutando.
– Eu quero que o mundo inteiro saiba mesmo! Eu amo esse cara, estão ouvindo? Ele é o cliente da minha vida! E se alguma operadorazinha invejosa quiser tirá-lo de mim, terá que ser por cima do meu cadáver!!!
– Tô começando a sentir falta do seu jeito formal de ser…
– Escuta, meu amor, hoje não vou mais trabalhar. Vou te levar pra jantar no Anatelle e dançaremos sob a lua cheia no terraço. Tudo por conta da Clarabela, viu? E depois iremos ao Prokón trepar até o amanhecer. Te deixarei me fotografar com câmera de 10 megapixels e você ainda poderá ligar gratuitamente pros seus amigos pra contar tudo que fez comigo.
– Os amigos com DDD local, é óbvio.
– Não. Qualquer DDD.
– Uau! Isso nenhuma outra me ofereceu.
– E aí, gatão, você ainda vai me abandonar?
– Acho que não…
– Menino esperto… Só um instante, por favor.
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(musiquinha irritante)
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– Obrigado por aguardar. E então, vai querer agora?
– Jantar com você?
– Não, anotar o número do protocolo.
– Ah… o protocolo.
– Vou estar enviando por torpedo. Mais alguma coisa?
– Não, gerundismo não…
– Clarabela agradece a sua ligação e tenha um bom dia.
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Ricardo Kelmer 2009 – blogdokelmer.wordpress.com