Religião no esporte é gol contra

futebolbrasil2009copaconfed-02.jpgBrasil tricampeão da Copa das Confederações, Kaká o melhor jogador, Luís Fabiano o artilheiro, troféu Fair Play de equipe mais disciplinada… Festa bonita mesmo. Dunga, a Canarinho, a CBF e a torcida estão de parabéns!

Mas agora vou dar uma de estraga-prazer, é o jeito, pois tem algo que me preocupa muito mais que os gols que o Brasil faz ou deixa de fazer: tô falando do proselitismo religioso no esporte. Putz, esse negócio de jogador exibir mensagens religiosas já passou dos limites. A Fifa precisa fazer algo, assim como fez em relação às mensagens políticas, senão em breve o futebol será um grande púlpito de devotos a fazer propaganda de seus deuses e suas religiões pro mundo inteiro.

Lúcio foi o herói do jogo mas não deveria ter posado com aquela camisa onde se lia “I love Jesus”. Não foi um comportamento digno de capitão do time, afinal a cerimônia de premiação é oficialmente parte do evento e, além disso, Lúcio representa o grupo e nele há jogadores com outras crenças. Kaká também usou uma (“I belong to Jesus”) após a partida mas não a exibiu durante a premiação. E se outros jogadores fizerem o mesmo? Teremos um palanque religioso cheio de mensagens, com Deus, Alá, Jeová, Jesus, Shiva, Yemanjá e outras entidades disputando a atenção das câmeras. E os ateus, eles também não terão direito a uma camisa?

Se nada for feito, a religião invadirá os campos e quadras e o esporte virará uma cruzada entre os jogadores e seus deuses. Como um jogador evangélico se sentiria ao lado de outro que exibisse na camisa “Reencarnarei com Jesus” ou “Eu pertenço ao Demo”? Ué, se uma religião pode, todas podem. E se a minha religião for declaradamente contra a sua ou o meu deus for inimigo do seu? E as torcidas, como se comportarão? Será que esses jogadores não calculam o risco do que fazem num mundo onde as diferenças religiosas patrocinam atentados, guerras e genocídios?

Que Lúcio ame Jesus, tudo bem, ele ama quem quiser. Que Kaká pertença a Jesus, ótimo, o passe espiritual é dele. Mas o esporte nada tem a ver com as crenças pessoais dos jogadores – isso é misturar o público com o privado. É o mesmo que um deputado usar o plenário pra fazer propaganda de sua religião. Deputado tá no plenário pra legislar e jogador tá no campo pra jogar. Misturar política ou esporte com fervor religioso não dá certo. Por favor, senhores jogadores e senhoras jogadoras, respeitem o espectador que nada tem a ver com isso e divulguem sua fé em outra ocasião. O esporte, assim como o Estado, deve ser laico e não-político, pra que ele não se desvie de sua essência mais legítima, que é a confraternização entre os povos.

Sei que toco num tema delicado e não duvido que algum religioso raivoso me xingue e me acuse de ser contra a liberdade de expressão e coizital… Nada disso. Quem conhece meu trabalho sabe bem do quanto prezo e luto pela liberdade. Não tenho religião nem tenho deuses ou deusas a honrar (a Luana Piovani não conta) mas sempre lutarei pela liberdade individual de qualquer um de tê-los. Esporte, porém, não é igreja – pelo bem do esporte e pela paz no mundo, sigamos esse primeiro mandamento.

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Ricardo Kelmer 2009 – blogdokelmer.wordpress.com

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Leia mais sobre o assunto:

> Fifa repreende comemoração religiosa do Brasil – estadao.com.br

> Seleção de futebol é do Brasil ou de Jesus? - opovo.com.br

> Fervor religioso nos gramados causa constrangimentocolunistas.ig.com.br

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Como o fanatismo religioso reagiu a esta crônica:

> Religião no esporte é gol contra (jornal O Povo, coluna Kelméricas) – Crônica e comentários

18 Respostas para “Religião no esporte é gol contra”

  1. Manoel Disse:

    Prezado Kelme, passei a ser seu leitor por meio do jornal “o povo”, do Estado do Ceará. sempre que posso, leio suas crônicas aqui e tbm no jornal.

    quanto ao seu comentário acerca dos jogadores e suas mensagens religiosas, concordo em parte. concordo quando diz que aquelas mensagens religiosas são meios chatas, porque não são apropriadas para a ocasião. entretanto, discordo quando vc diz que a fifa deve tomar uma medida. acho que o desprezo é o melhor remédio para as atitudes desses jogadores. não acho que precisamos de medidas para isso, pois,afinal, o que impede um jogador ateu de tbm fazer as suas manifestações? Acredito, com todo respeito, que o verdadeiro ateu não se magoa com isso, uma vez que a função do ateu é desprezar a ideia de um Deus. a partir do momento que um debate dessa ordem nos cerca, a ideia de um Deus passa a ser aceita.

    Parabéns pelo blog.
    Você põe paixão nas letras.
    Grande Abraço!

    • ricardokelmer Disse:

      > Sua leitura muito me honra, meu cumpade. E seu comentário enriquece meu trabalho, muito obrigado.
      Minha preocupação com a religião no esporte vai além da minha posição particular de não-religioso: eu me preocupo com o futuro da humanidade e não vislumbro um bom futuro quando vejo o que as religiões estão fazendo, como os líderes religiosos enriquecem com a fé alheia e como bandidos usam a religião pra encobrirem ou justificarem seus crimes. Desconfio que a religião ainda nos trará terríveis problemas. O 11 de setembro e outros atentados terroristas-religiosos são um exemplo.

  2. Gledson Shiva Disse:

    Ótimas colocações,RK! vc ta afiado!

    Eu não vejo comemorações, apenas o jogo… mas é realmente chato ver aqueles caras mostrar as camisas com as inscrições “Só Jesus Salva”! “Deus é 10″! “Jesus te ama!”

    Putz! é deplorável… mas fazer o quê? a maior parte dos jogadores de futebol são de origem humilde, estão num contexto de manipulação desta gente que usa a organização religiosa para seus fins particulares, e acabam matando ou encobrindo a verdadeira religiosidade que há em todos nós, até nos ateus.

    Mas e o Kaka, em?! Filho de funcion´rios públicos federais, pessoas de uma classe que se supõe daria uma orientação menos… menos… menos supersticiosa. Ele é um caso enigmático.

  3. Lia Disse:

    Eu, hein, Rosa…
    Concordo com tudo que escreveu acima e ainda acrescento que morri de vergonha!!!
    “Aibilongtujesus”,ai, ai…
    A Fifa tem que coibir sim. Daqui a pouco a Al-Queada cai de pau na copa do mundo.
    Beijo, Ricardo.

  4. Alan Disse:

    Já ouviu falar em LIBERDADE DE EXPRESSÃO!?
    Não! Então leia essa frase da banda de rock Raimundos: LIBERDADE DE EXPRESSÃO, DEIXA EU FALAR FILHO DA PUTA!
    Então, filho da puta, cade uma se expressa da maneira que quiser, assim como você se expressa na sua coluna, que por sinal é muito sacal, as pessoa também tem livre arbítrio pra falar o que quiser. Ah, vou até fazer um abaixo assinado pra trocar de colunista, pois ultimamente so estou lendo baboseira no O POVO.

    • ricardokelmer Disse:

      > Dona Vilma, pule este comentário, viu? Pulou? Ótimo.
      Bem, eu avisei que ia aparecer um religioso raivoso que me acusaria de ser contra a liberdade de expressão, não avisei? Putz, deviam distribuir vacina antirrábica nessas igrejas… Mas acho que você merece uma resposta, Alan: vai já lavar esta boca, menino malino!

  5. Lia Disse:

    Ora bolas, que doido!
    Não se vai a um casamento de biquini assim como não se vai jogar bola de terno , fraque ou de vestido de noiva. Futebol deveria, ao menos pensava que sim, ser só chuteira, camisa do time- antigamente(devo estar velha mesmo, só pode) abraçava-se a camisa do time, pertencia-se ou “bilonguiava-se” ao clube que se jogava de coração e alma.Sangue, suor e lágrima! Agora é um tal de propaganda prá lá, jesus prá cá e se for neo nazista e a camisa for aibilonguitohitler???
    Liberdade de expressão tudo bem, tanto que todo mundo pode dar opinião, tem direito mas um pouquinho de senso é bem vindo.
    Tenho nada a ver com isso mas não consegui ficar calada- liberdade de expressão é o comentário ser moderado e ainda assim não ter havido censura para ele. Eu censuraria mas sou tirana e não democrática…haha!
    Vê se toma “tento” , rapá!

  6. Luiz Disse:

    Olá
    vejo que vc lê a bbc e copiou o artigo dos incrêdulos europeus. morei lá e não gostei do que vi . ou seja :
    se manifestações religiosas encomodam a vc e seus poucos leitores , deveria incomodar muito mais o belo mundo que vc e gente com idéias como a sua estão ajudando a criar a nossa volta .

    poooooooor favorrrrr

    use sua coluna e sua ( impar ) oportunidade de mìdia para passar valores mais relevantes a sua volta.
    o mundo precisa melhorar , por favor contribua com isto e deixe as questões religiosas para cada um cuidar. porventura futebol é relevante ou paixão pelo club de futebool é relevanteeeee?

    abraços a vc e seus leitores

    • ricardokelmer Disse:

      > Não sei que artigo da BBC é esse, pastor Luiz, mas seria ótimo se você nos passasse o link, pode ser? Eu e meus poucos leitores ficaríamos muito agradecidos. Obrigado por participar.

  7. Fabiano Disse:

    Qualquer manifestação de opinião que é permitida fora das quadras deveria ser permitida dentro. Não faz sentido de outra forma. Por que motivo a expressão religiosa dentro do esporte teria efeitos diferentes da que ocorre fora dele?

    O que quero dizer é que, mesmo se a proibição fosse justificável, ela, por lógica, deveria se aplicar a ambas as situações. Por exemplo, a camisa “I belong to Hitler” citada por Lia é inadmissível tanto fora como dentro do esporte.

    Da mesma forma, se promover a religião fosse sinônimo de guerra, essa divulgação deveria ser proibida tanto fora como dentro do esporte! Entretanto, isso está muito longe de ser um fato científico ou um consenso. Na verdade, a religião é bastante respeitada por seu papel na promoção de valores morais sólidos. Isso é tão verdade, que é argumentado por muitos como motivo para se incluir o Ensino Religioso em todas as escolas.

    Agora, proibir porque “é chato”, porque “é deplorável”, porque “não é um comportamento digno” ou porque “eu me sinto mal” não faz qualquer sentido. É justamente isso que a liberdade de expressão procura evitar!

    Abraços fraternos.

  8. Lia Disse:

    Hahahahahaha….
    Desculpa, Ricardo, colocar lenha na fogueira mas adoro isso.Toda discussão se não se parte para agressão é salutar e uma polêmicazinha nos abre os olhos para pontos que talvez não tenhamos visto antes.
    É verdade, I belong to hitler(note que o h é minusculo) foi demais mas não prá um neo nazista- este acharia super, dentro e fora do campo.
    Religião, futebol e sexo sempre dão controvérsias. Falando em liberdade de expressão deveriam lembrar tb que estae , por exemplo, não precisaria de canudo para ser exposta…Clarice Lispector era formada por acaso??
    Religião…Ora bolas, gente , cada macaco no seu galho e com direito a estar. Já pensou se o Kaká estivesse então com uma camisa com os dizeres “I love to be a macumbeiro”!!! Será que a igrejinha(mera instituição) universal, católica e etc aceitaria? Ou se o jogo fosse no Irã??? Mata-se por menos lá.
    Maomé, Jesus, Alá, Buda…
    Nas escolas há e deve haver ensinamentos religiosos( sobre ética, respeito, amor) mas não deveria ser imposta qual e no Brasil então, onde há um enorme sincretismo religioso.
    Meus filhos estudam numa escola Walfdorf baseada na antroposofia e lá convivem muito bem alemães, israelenses, cearenses, etc. Cada qual com sua religião ou sem ela.Sou agnóstica e meus filhos acreditam em Maria, Jesus como filho de Deus, coisa e tal. Meu marido tb…Eu não. Direito de cada um, não?
    Mas respeito acima de tudo.
    Em toda religião ensinam que o caminho do meio é o da sabedoria.
    Liberdade de expressão? A rede globo está ensinando adolescente a assaltar!
    Censura?? Ditadura é dose e não dá prá abrir precedente…Fazer o quê?
    Vai que é sua , Ricardo!!!
    Não tenho mais argumento…
    Por ora, rs.

  9. ricardokelmer Disse:

    > “Só a Igreja Hitleriana salva”. Expressar isso deve ser permitido, assim como “Eu pertenço a Jesus”. Mas há melhores e piores situações pra expressar crenças religiosas. Um evento esportivo transmitido pra todo o mundo não é das melhores.

  10. Carlos Amorim Disse:

    Kelmer,

    Continuando o assunto, além do que já conversamos por email…

    Essa questão da conveniência social das expressões religiosas possui grande relevância também, é um aspecto a ser aprofundado

    Eu entendo que o fanatismo deve ser rechaçado sempre, pois como do outro lado da moeda, da liberdade de expressão e de consciência que citei, também tolhe o direito alheio.

    Devemos debater até que ponto uma manifestação religiosa é proselitismo ou simples expressão de consciência.

    As religiões baseiam-se na fé, não cabendo discutir seu conteúdo e não sendo passível de verificar sua “veracidade”, se assim podemos dizer.

    Então, várias “verdades” religiosas coexistem e poderiam ter um convívio pacífico, se não fosse o fanatismo e a ambição em conversão de certas lideranças.

    Perguntas podem ser feitas:

    Kaká e Lúcio estavam manifestando sua fé ou querendo expandir sua crença?

    Os jogadores ao orarem à sua divindade suprema pretendiam associar sua vitória esportiva como sucesso fruto de uma religião?

    As frases ofendem a crença alheia?

    Qual o local adequado para a celebração?

    Talvez o caminho seja o MEIO e discutir isso como você fez, nos leve uma solução para acabar com constrangimentos que também são causados em outras ocasiões:

    - Religiosos que fazem proselitismo denegrindo a fé alheia

    - A presença de crucifixos católicos e somente católicos em prédios e espaços públicos de julgamento e reunião legislativa.

    Um grande abraço,

    Carlos.

  11. Chris Disse:

    Ainda bem que minha religião, o kardecismo é hiper, mega, super,ultra democrática e não ataca ninguém, nem se importa com isso…há questões tão mais relevantes…a fome na África e no Brasil , por exemplo.

  12. Gledson Shiva Disse:

    Socorro RK, a Kaká Estamos Salvos está vindo aí!…

    Ouvi no programa do Juka Kfouri que a esposa do Kaká acaba de inaugurar uma igreja em Madrid,

    Juka menciona que ela proferiu um discurso para um jornal, e que a fonte do Juca ficou shokado com as palavras da “bispa”.

    E agora? Que será de nós?…

  13. Chris Disse:

    E qualquer tentativa de catequisar alguém, sou contra…..sou pela liberdade de crenças, pela não agressão, pela ética, sempre, em todas as esferas….ética pode estar fora de moda, mas é importante se viver com ética em tudo, custe o que custar……palavra de kardecista!

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