A liberdade dessa mulher reluz no seu jeito de ser o que é – e ela é o que todas as outras dizem ou buscam ser, mas só dizem e buscam, enquanto ela tranquilamente… é
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É ela quem eu quero, a dona dessa boca. A boca docemente familiar que amanhece de mansinho na minha quando desperto de mais uma madrugada de sonho e suor. Porém, bem mais que a boca, é o beijo da liberdade dessa mulher que me refresca a vida.
É ela quem eu desejo, a dona desse corpo. O corpo que me sugere as mais poéticas indecências e me convida a desvendar os segredos que eu já sei de cor e quando estou lá, puff, de repente já não sei mais e então me perco por seus montes e planícies e cavernas e ao fim de tudo me contorço e urro e explodo no mais puro prazer de me perder. Porém, bem mais que no corpo, é na liberdade dessa mulher que a vida se desnuda pra mim.
É da presença dela que eu preciso, ela que me traz a certeza que não seguirei só. É de sua voz que carecem meus ouvidos, a voz que me embala a alma de blues e me faz convidá-la: vamos dançar, meu amor? É o meu olhar no seu que vejo quando nada mais vejo no breu das incertezas. Mas, sobretudo, é a liberdade dessa mulher que me clareia o caminho.
Ela é livre porque, apesar de ter nascido imersa numa cultura, cedo entendeu que não deveria limitar-se às suas regras e assim modelou seu ser com o que de melhor ela mesma encontrou pelo mundo. Evidente que esse não limitar-se às convenções fará dela uma eterna transgressora a incomodar os que só admitem o mundo pelas lentes de sua cultura e religião. Mas esse é o preço da alma liberta, ela sabe. E eu faço questão de pagar junto dela.
Houve um tempo que ela entendia seu corpo como algo contra o qual deve lutar todos os dias – até que percebeu que sua verdadeira beleza não vem de cosméticos mas de sua alma harmonizada com os ritmos naturais da vida. Hoje ela não precisa gastar para ficar chique e bonita pois a elegância da simplicidade há muito a fez sua modelo exclusiva. Sim, a mulher livre possui vaidades mas ela não é boba, sabe que os criadores de moda não almejam a sua felicidade mas a sua escravidão. E quanto a vestir-se pra fazer inveja a outras mulheres, bem, ela não precisa disso pois sabe que mais tarde quem rasgará sua roupa sou eu.
Os mistérios de si, ela vai buscá-los pois sabe que jamais seremos livres sem nos livrarmos do que por dentro nos paralisa e nos faz sabotar a própria vida. Ser livre é ampliar a cada dia a real noção de si, isso ela há muito compreendeu, e é por esse motivo que os que se libertam não se enganam mais como antes e, por serem verdadeiros, mais verdadeiras são suas relações.
E por bem saber o que ela é e o que não é, essa mulher nada tem a provar a ninguém. Se interpretam erroneamente seu jeito espontâneo, ela ri ainda mais do que pensam dela. Se seus desejos transcendem os velhos modelos sexuais, ela festeja e os divide generosa com eles ou elas, e em nome de seu sagrado prazer ela é a cadela devassa, a santa dadivosa da luxúria, a puta mais linda e desvairada que há.
A liberdade dessa mulher reluz no seu jeito de ser o que é – e ela é o que todas as outras dizem ou buscam ser, mas só dizem e buscam, enquanto ela tranquilamente… é. Por não estar apegada a poder e dinheiro, ela é a mais rica e poderosa de todas. E é justamente por saber que a velhice é o segredo final da sabedoria que a vida todo dia vem banhá-la de alegria e vesti-la com esse jeitinho de menina encantador.
É esta a mulher que dança pela vida comigo, duas individualidades que se harmonizam mas não se anulam em estúpidas noções de controle e compromisso: amamos o outro e não a posse do outro. Estamos juntos porque finalmente encontramos a liberdade que admira, acolhe e incentiva a nossa própria e até nos permite dividir com o mundo o nosso amor. E por não sofrer temendo perder quem na verdade nunca possuímos, mais vivemos e gozamos o melhor amor que temos pra nos dar.
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Ricardo Kelmer 2009 – blogdokelmer.wordpress.com
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Mais sobre liberdade e o feminino selvagem:
> A mulher selvagem - Ela anda enjaulada, é verdade. Mas continua viva na alma das mulheres
> A mulher livre e eu – A liberdade dessa mulher reluz no seu jeito de ser o que é – e ela é o que todas as outras dizem ou buscam ser, mas só dizem e buscam, enquanto ela tranquilamente… é
> Em busca da mulher selvagem – Era por ela que eu sempre me apaixonava, essa mulher que era quem ela mesma desejava ser e não a mulher que a família, religião e sociedade impunham que ela fosse
> Amor em liberdade – O que você ama no outro? A pessoa em si? Ou o fato dela ser sua propriedade? E como pode saber que ela é só sua?
> As fogueiras de Beltane – As fogueiras estão acesas, a filha da Deusa está pronta. O casamento sagrado vai começar
LIVROS
> Mulheres que correm com os lobos - Mitos e histórias do arquétipo da mulher selvagem (Clarissa Pinkola Estés - Editora Rocco, 1994)
> A prostituta sagrada – A face eterna do feminino (Nancy Qualls-Corbert – Editora Paulus, 1990)
> As brumas de Avalon - (Marion Zimmer Bradley – Editora Imago, 1979)

Junho 8, 2009 às 2:51 pm |
Bom,bom mesmo acho q nessa data estava precisando saber realmente essa mulher que vive em cada uma de nós.E os homens coitados dos homens.Pq eles são apenas seres pro criadores ,para nos fazer bem e as vezes mal.
parabéns Kelmer pela abertura de meus ares como mulher!
Bj
Ah e ve se aparece mais em Fortaleza viu !
Junho 9, 2009 às 11:54 am |
> Ser procriador? Um mero ser procriador?! Putz, então é isso que somos, um bilau ereto (nem sempre, é vero) permanentemente à disposição do instinto de preservação da espécie? Tô chocado, muito chocado… Aproveito pra anunciar que nesta sexta-feira meus instintos estarão bem animadinhos, viu?
Junho 8, 2009 às 2:54 pm |
Pôxa, que lindo!
Junho 10, 2009 às 7:56 pm |
> Linda é a mulher livre, Lia.
Junho 11, 2009 às 11:09 pm
rs…Sem dúvida, mas como isto não me pertence, resta-me a emoção de ler e te parabenizar pelo lindo texto!
Bjo
Junho 9, 2009 às 10:32 am |
Voltando ao blog depois de um longo e tenebroso sumiço…
Definitivamente VT precisa ser reeditado para conter A MULHER LIVRE E EU – quase um complemento de A MULHER SELVAGEM.
Como é que um batráquio desengonçado pode escrever tão bem? (risos) Credo, eu fico chocada com teu talento!!! Aff, nan… Isso é o que eu chamo de injusta distribuição de renda – tanto homem insensível e desinformado por aí, enquanto RK privatiza toda a percepção do feminino. Qto egoísmo, tio prof!!! ;-D
Junho 10, 2009 às 8:19 pm |
> Mais uma vez você acerta, Izabela. De fato, “A mulher livre e eu” (2009) é uma espécie de continuação do tema do feminino selvagem que iniciei com “A mulher selvagem” (2004). Em “A mulher livre e eu”, porém, o foco se alterna entre o arquétipo do feminino selvagem e a questão do amor e da liberdade. Na verdade, nesta nova crônica o tema principal é o relacionamento regido pela liberdade de amar e não de possuir. Há outra questão: aqui o narrador fala em primeira pessoa, ele se mostra, se implica – ele tá na relação. Em “A mulher selvagem” ele apenas vê e comenta sobre a mulher selvagem, há um distanciamento de observador. Será que isso quer dizer que o feminino selvagem já não amedronta tanto este batráquio desengonçado?
Mais sobre o tema: “Amor em liberdade“
Junho 10, 2009 às 11:59 am |
Mais do que lindo, é mágico! Amo sua sensibilidade, o modo como você leva o texto e a vida. A mulher livre tem muita sorte de ser contada e desejada por alguem tão especial. Eu vou continuar me inspirando nessas mulheres kelméricas, livres e selvagens; e sonhando em sentir um amor tão intenso quanto esse perto de mim outra vez. Parabéns pelo texto, as palavras são apaixonadas por você e eu também.
beijosss
Junho 11, 2009 às 2:06 pm |
> Como um escritor que tem leitoras como você não escreveria com paixão? Obrigado.
Junho 10, 2009 às 6:11 pm |
Puxa Ricardo, estou encantada aqui com suas crônicas, já ri de muitas, me emocionei com outras e amei de paixão algumas. Mas quando me deparei com esta aqui me deu um friozinho na barriga, ela é simplesmente sensacional. Não sei se é porque sou aquariana, e como toda aquariana, adoro liberdade e transgressão…rss.
Você está de parabéns!!! Bjs.
Junho 11, 2009 às 2:07 pm |
> Liberdade a transgressão. Você acertou a senha, Wal, pode entrar. E tire os sapatos, por favor.
Junho 11, 2009 às 5:32 pm |
Adorei!!!
Bjssssss
Junho 17, 2009 às 1:00 pm |
> Lua, ó Lua, não deixa ninguém te pisar…
Junho 11, 2009 às 7:05 pm |
Uau, acho que nunca li nada tao romantico vindo do Ricardo Kelmer, sera que meu amigo esta finalmente se entregando ao “amor” ou eh so ficcao mesmo?
Junho 16, 2009 às 1:05 am |
> Só a mulher livre saberá a resposta…
Junho 12, 2009 às 8:03 am |
Entendo a sua mulher como a nossa, a mulher do poeta e mesmo a mulher do homem que sabe bem da mulher (anima) companheira que nele já reside, bem antes de existência, elaé metafísica com sua universalidade pulsante.
Valeu, Kelmer, fico feliz em saber que há para sempre a verdadeira mulher, e nem Amélia ela é. São tantas…
Abs
Junho 16, 2009 às 1:11 am |
> É poraí, cumpade Maninho. Quem buscamos sempre mora antes dentro de nós. Entonces, melhor nos conhecermos primeiro.
Junho 12, 2009 às 1:10 pm |
“…e ela é o que todas as outras dizem ou buscam ser, mas só dizem e buscam, enquanto ela tranquilamente… é.”
Mulher rara, de caráter duvidoso, que não se encontra facilmente por aí…todas as mulheres que são, mas as que VERDADEIRAMENTE o são, sambem-se. E como…
Bj Kelmer
Junho 16, 2009 às 1:12 am |
> Sim, Eva, sim, essas que são sabem-se, e sambam-se, sinuosas e sensuais…
Junho 12, 2009 às 1:43 pm |
Muitas vezes me perco em pensamentos tentando descobrir como as pessoas imaginam que sou, e hoje lendo tua crônica, descobri que sou muitas. Entenda, compreendi que somos o que somos e mais o que as pessoas imaginam que somos. E cada pessoa vai nos recriar de acordo com seu universo. Devassa pra freira, conservadora pra libertina, careta pra descolada… Tua crônica me permitiu penetrar bem no teu lado feminino e ver quanta sutileza há em você. Gosto muito do cafajeste, mas adorei o homem sensível. Pois é, foi justamente a partir dessa análise da forma como escreve e de quem você realmente é (embora talvez nem você mesmo o conheça) que descobri que sou muitas, sou várias, múltiplas, assim como você o é… Isso me acalmou pra caramba, abrandou minha inquietação por que compreendi que jamais serei pra alguém aquilo que realmente sou.
Junho 17, 2009 às 1:06 pm |
> Muito prazer, eu sou o Ricardo Kelmer, o cafajeste sensível. Hummm, sei não. Será que vai dar certo, Ana, se eu passar a me apresentar assim?
Junho 12, 2009 às 4:37 pm |
Excelente! Identificação à primeira leitura!
Junho 17, 2009 às 1:08 pm |
> Ah, Dani, você não conta. Você é Musa.
Junho 12, 2009 às 11:33 pm |
Tudo bom, Kelmo? :D
Muito bom, esse texto; gosto de te ler assim.
E Homem Livre, hein? existe? conta-nos lá! :)
beijos novamente com cheirinho de alecrim ***
Junho 17, 2009 às 1:14 pm |
> O homem livre… Dá um tempo, Susanita, que primeiro tenho que vivenciar e aprender com a Anima. O Masculino Profundo é uma estação depois. Mas obrigado pelo incentivo vindo daí dalemar.
Junho 17, 2009 às 8:45 am |
E haja transbordamento…para enaltecer à mulher,Ricardo!E que mulher é essa que já não fisgou o Kelmer,de vez?(risos)Dessa vez vc se superou,viu!
Sucesso, meu querido!
Junho 21, 2009 às 3:13 am |
> Fisgai-me! Fisgai-me!
Junho 17, 2009 às 2:07 pm |
Kelmer, a tua forma de expressão tem um não-sei-quê que sempre me envolve, me encanta… e me vejo expressa em cada uma dessas muitas mulheres, da mais tímida a mais arrojada, da mais pura a mais libidinosa… de-lí-cia SER MULHER.
Bjssss
Junho 21, 2009 às 3:16 am |
> Uma mulher na verdade são muitas. Mas uma mulher será cada vez mais ela mesma quanto mais as muitas que elas são puderem livremente ser.
Junho 17, 2009 às 6:10 pm |
Eu não me identifiquei mto não…adorei o texto, primoroso. Mas essa coisa de todo mundo é de todo mundo, sei não….mto utópico. Quem sabe numa próxima encarnação?
Bjos flamejantes.
Junho 21, 2009 às 3:23 am |
> Tirando os casos de escravidão e submissão consentida, ninguém é de ninguém, Chris. Mas isso tá loooonge de significar que todo mundo é de todo mundo. Quem ama, possui? Não. Quem ama, liberta.
Junho 21, 2009 às 2:02 pm |
Ricardo,
Linda sua crônica. Todas as mulheres deveriam lê-la, todos os homens deveriam pensar sobre ela…posso colocar no meu orkut? Claro que irei colocar seu nome no crédito. Ok?
bjss, e aguardo outras!
Carla Pompilio
Junho 21, 2009 às 2:26 pm |
> A honra é minha, Carlinha, de ter minha crônica em teu Orkut. Obrigadooo.
Julho 7, 2009 às 12:04 am |
Em verdade eu sempre digo o seguinte ao me relacionar : eu estou COM você , mas eu não sou DE
você ,,, toda troca é sempre mais que interativa …
esse é o encanto do gosto de ser e estar …
Beijos siderais !
Outubro 25, 2009 às 10:41 pm |
kelmer querido, voltei. Obrigada por mais este escrito!
2009 foi um ano de plenos abismos e chega com ele vc assim tão eu. Cada detalhe do escrito faz-me sentir segura do quanto é meritoso estar e ser… não permanecer e enlivrar-me! voar e pousar, em ensaios de voos inspirados em moscas, abelhas, libélulas, borboletas, garças e águias. Em vassouras ou avião. Assentar-me como cadela, gata, vaca, raposa, loba. Abrir-me como petalas e dormir como montanhas, seichos e diamantes… A femealidade para mim é o puro exercício das manifestacoes animais, vegetais, minerais e etéreas… como é grande… o meu amor… por vocês homens que complementam, contestam, provam, reprovam e são! beijos suelípticos!
Novembro 2, 2009 às 10:58 am |
Kelmer, Estou adorando ler suas crônicas, essa então! amei! Parebéns, você é uma pessoa muito sensível! Beijos Dóris.
Novembro 2, 2009 às 6:53 pm |
> Com leitoras como você, Dóris, agora a responsabilidade aumenta!