Como afugentar um homem

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Mulher é um bicho capaz de conversar dias e dias seguidos, sem cansar, sobre seus sentimentos, sobre o namoro, o casamento, o que vai bem, o que vai mal, como seria se fosse ou como foria se não sesse…

O assunto é sentimento? Então pra mulher cada aspecto dele é um fractal, que pode ser ampliado, ampliado e sempre haverá novos detalhes que surgirão a cada ampliação. E, putz, como mulher se excita quando o assunto é sentimento! Mulher é apaixonada pelo amor.

Já a maioria dos homens prefere conversar sobre futebol, trabalho, política, arte, filosofia, automóvel, sexo, pescaria, o melhor anzol pra pescar, o estojinho do anzol… qualquer coisa menos sentimento. Eles veem mais sentido em falar sobre o que pensam do que sobre o que sentem. Às vezes eu faço este teste: pergunto a um amigo o que ele sente por sua mulher. Geralmente ele resume a resposta em duas ou três palavras e acabou. Isso quando ele não rebate, desconfiado: que pergunta é essa?

É claro que homem sente. Mas como há milênios somos programados desde a infância pra nos mostrarmos fortes e infalíveis, e sentimento é algo que pode fragilizar qualquer um, nós evitamos expor o que sentimos, até pra nós mesmos. E de tanto reprimir os sentimentos, acabamos muitas vezes até mesmo sem saber o que realmente sentimos. Ô racinha… E, assim, o reino Yin dos sentimentos a cada dia se torna pro homem uma terra cada vez mais estranha e hostil. Melhor manter distância dela. Melhor falar de algo que seja mais racional. Como a melhor fechadura pro estojinho do anzol.

o reino hostil dos sentimentos

A mentalidade patriarcal, sobre a qual foi construída nossa querida cultura, sempre desprezou os valores ligados ao feminino, ao Eros (relação). Claro, pois só assim a mentalidade maculina dominante, ligada ao Logos (conhecimento, razão) poderia se manter, sempre fazendo parecer menos importante o que é ligado à mulher. Dessa forma, a agressividade vale mais que a suavidade, cultura e civilização valem mais que a Natureza e a razão é mais importante que o sentimento. O Yang é melhor que o Yin. Logos é melhor que Eros.

Pra grande parte dos homens, sentimento é sinônimo de fraqueza. Mesmo que sinta, o homem evita demonstrar pois sabe que isso pode comprometê-lo diante dos outros homens. Com os amigos, ele dificilmente se sente à vontade pra falar de seus relacionamentos sob a ótica do sentimento. Amigos dificilmente se perguntam sobre o que sentem, como anda a relação com a mulher, se estão felizes, inseguros… Imagina! Tá metendo?, então tá tudo ótimo!

Mas as coisas estão mudando. Até porque a evolução psicológica da espécie não prosseguirá se ela não conseguir equilibrar os princípios femininos e masculinos que compõem a psique – algo cada vez mais urgente. E essa evolução se dá à medida que cada um se torna um ser psicologicamente mais equilibrado, mais autoconsciente. No homem isso significa reconhecer valores Yin e integrá-los à consciência, e na mulher é o oposto.

Se a mulher já tá numa segunda fase de sua revolução feminista, repensando os exageros e entendendo que não tem de ser igual ao homem (aleluia!), o homem, coitado, ainda tá procurando o isqueiro pra queimar o sutian, quer dizer, a cueca. Aos poucos, porém, ele perde o medo de assumir os sentimentos e de mostrar que nem sempre é forte e infalível. Os que fazem isso costumam ser mal interpretados, até pelos próprios amigos, mas é assim mesmo, sempre haverá os soldados da linha de frente, aqueles que recebem as primeiras balas.

E as mulheres? Elas também têm ainda o que aprender. Se o homem precisa urgentemente reconhecer o valor dos sentimentos e aprender a cuidar mais das relações, a Homa sapiens necessita, por exemplo, entender que não se pode por mais peso numa relação do que ela suporta carregar. É bom se atirar nos braços do homem amado, sim, claaaaro. É maravilhoso se jogaaaar de braços abertos e ser amparada pela própria relação, sim, é maravilhoso, é lindo, é tudoooo!!! Mas cuidado, fia. Senão ele perde o equilíbrio e a relação desaba com esse peso todo.

afugentando o homem

Vai mais devagar, menina. Não é você quem sempre faz questão das preliminares no sexo? Por quê? Porque seu ritmo é outro. A rapidez e a ansiedade sexual masculina já fizeram você se sentir quase que estuprada? Já? Poizentão. É assim que ele às vezes se sente na relação, sabia?

Velha tendência feminina, essa ansiedade louca pelo amor, essa mania de fazer a relação ocupar todo o espaço na vida de ambos… Isso costuma sufocar o homem, que tende a valorizar a individualidade mais que a mulher. Quer afugentar um homem que tá começando a gostar de você, fia? Então não perca uma chance de pressionar o infeliz em relação a seus sentimentos. Sufoque o desgraçado todo dia com o doce travesseirinho da relação. É tiro e queda.

- O que você tem, Maria Adélia?

- Tô chateada com você, Lindomar.

- Por quê?

- Você esqueceu que dia é hoje.

- Eu? Calma, deixa ver… Tem um calendário aí?

- Tá vendo? Você não se importa nem um pouco com a gente. Pra você tanto faz. Mas aposto como você sabe direitinho o dia em que o Fortaleza vai jogar a semifinal, ah, isso tenho certeza que você não esquece.

- Peraí, Maria Adélia, peraí… Hoje é… hoje… Ah, desisto. Que dia é hoje?

- Hoje, Lindomar, exatamente hoje, faz quatro dias que a gente se conheceu.

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Ricardo Kelmer 2007 – blogdokelmer.wordpress.com

18 Respostas para “Como afugentar um homem”

  1. Izabela Disse:

    Esse diálogo final do “Como afugentar um homem” é lido na minha palestra “Mulheres de Papel” e sempre arranca gargalhadas do público.

    Segunda fase da revolução feminista já é algo ultrapassado, tio prof. O bom mesmo é a pós-revolução feminista: o homem volta a ser o provedor do lar; nós passamos o dia em casa lendo-lendo-lendo, lendo o blog do RK, lendo os livros do RK, lendo outros autores tbm, lógico. E qdo o maridão voltar estaremos doces e viçosas esperando de espartilho vitoriano… :-D

    • ricardokelmer Disse:

      > Na-na-ni-na-não. ELA ganha dinheiro e me sustenta, pra eu poder ficar escrevendo. E EU a espero em casa, peladão, com o uísque servido, o baseado apertado, o dvd da Sade no ponto. E ela vem com aquela amiguinha safada, claro.

  2. Chris Disse:

    Querido amigo, não concordo que o amor é tudo na vida de uma mulher.Temos tantos compromissos e afazeres hoje que nem que quiséssemos voces seriam o centro de nosso universo. Não dá tempo.Estou falando de mulheres que têm uma carreira de responsa, eu por exemplo….não de mulheres que vivem por aí encostadas em papais, mamães, maridos.Estou falando de mulher de verdade!Guerreiras, independentes, corajosas.
    O que nos desanima mesmo, é essa covardia masculina de achar que dizer “eu gosto de vc\”, quer dizer que no dia seguinte estará com uma bola de ferro e corrente nos pés…quando as mulheres “de verdade” hoje também não deseja isso, quer uma coisa light, uma noite de amor e outra depois e nada mais, porém sem a eterna covardia masculina de só discutir futebol, bunda e carros……simples assim!
    Mas existem homens que ainda sabem falar isso sem medo, graças a deus!

  3. lia Disse:

    rsrsrs…é por aí mesmo, acho. Qdo começo a me sentir “leve” demais algo está errado, creio. Discutir relação é um saco mas sentir toda essa ‘coisa’ é bão demais!O homem já não acha, né. Qdo isso começa a ficar sem graça aí é que mora o perigo…Como a música “Socorro” do Arnaldo Antunes. Sentir, ainda que sofrendo. Se bem que adoro uma fossa! Well, Não acho que haja jeito de conciliar, talvez isso é que seja o mais interessante…Será? Se afugentamos ou vice versa é porque não era prá ser, porque não será. Ainda bem?rs
    Sabe Deus. Deus? Sabemos “P” nenhuma , essa é que é a verdade.Que bom que existem homens que sabem falar isso sem medo mas tomara que não passem de determinados limites senão acabam perdendo a mulher, pode crer! Ninguém gosta de homem bonzinho demais, infelizmente os cafajestes agradam mais- eita, machismo, né?rsrsrs
    Os misteriosos, mal humorados, inteligentíssimos e cínicos( mesmo de brincadeira) tipo Dr. House. Apaixonante!!!
    Bjssssssssss

    • ricardokelmer Disse:

      > Os cafajestes agradam mais? Agora que eu me tornei um cara comportado e respeitador você me diz uma coisa dessa? Pára o mundo que eu quero descer!!!

      • Lia Disse:

        Só em tese, só em tese…risos
        Mas bonzim e previsível demais é um saco, né não?
        E vice- versa, acho.
        Já dizia uma tia avó que não mora mais neste mundo há tempos :
        “Seja honesta mas não pareça!!!”
        Parem o mundo que eu quero descer????kkk
        Beijo

  4. Ilde Disse:

    NÃO ACEITE O 1º COMENTÁRIO, QUER DIZER, SE FOR ACEITAR, ESTE ESTÁ MAIS… COMPLETO (RSSS):

    Kelmer,

    Dia desses comentava com meu marido, que não era nada fácil para nós mulheres, sermos, via de regra, mais sensíveis que os homens. Pois, assim sendo, somos nós que pela sensibilidade somos mais atingidas pela “falta de tato” masculina em algumas situações. Então, também pela sensibilidade, nos vemos compelidas a relevar alguns desses deslizes.

    Isso é bom ou ruim? Bem, o fato de que não seja fácil, não significa que seja ruim. É bem verdade de que tais situações podem e muitas vezes magoam, mas num contexto geral, usando da sensibilidade ambos os lados saem ganhando.

    Fazendo um link com sua crônica, o assunto me faz lembrar de um texto do Dr. Dráuzio Varela, intitulado A Porta do Lado, onde ele demonstra que por pequenas coisas, somos capazes de estragar nosso dia e até relacionamentos de uma vida inteira.

    Creio que usar a “porta do lado” seja recomendável em todos os aspectos, especialmente se levarmos para o plano conjugal. Falo por experiência própria.

    Ok, concordo em parte com você sobre não “sufocar”, mas “falar sobre” é sim muito importante. Sabe, tenho um relacionamento maravilhoso com meu marido, mas é lógico que algumas vezes surgem dissidências, que seguem o caráter do texto do Dr. Dráuzio, ou seja, coisas corriqueiras, bobas, mas que se não resolvemos, não esclarecemos através do diálogo, podem acabar minando o amor, a paixão entre um casal. Se em coisas mínimas é assim, imagine em situações mais complexas. Daí a necessidade de uma boa DR (e entenda-se DR por Dialogar Relação).

    Deixe-me dar dois exemplos assim bem básicos:

    1. Meu amor dificilmente me diz NÃO, mas quando diz, fico magoada (talvez por já estar mal acostumada…risos), principalmente se for algo simples:
    Temos um gatinho super, hiper esperto, atentado mesmo! Eu, particularmente, adoro essa sua característica, o Henrique não. Às vezes parece que quer competir com o bichano, ver quem é mais forte, mais esperto (risos). E aconteceu de precisarmos colocar uma tela de proteção na grade que separa a área de serviço, do terraço, porque ele pulava pro terraço e aprontava, fazia caquinha nos vasos de planta, espalhava as pedras decorativas, uma zorra total. Bom, pra resumir a história, precisamos fazer isto umas quatro vezes porque o raio do gatinho sempre encontrava uma forma de burlar nossa estratégia e agora a poucos dias, pedi ao Henrique pra reforçar novamente a tela em outros pontos… ele, de picuinha, não fez. Pedi mais algumas vezes, com carinho, com jeitinho, sem jeitinho e nada, ele não fez! Puxa, fiquei muuuito triste com isso.

    Bom, alguns dias e várias lágrimas depois, no horário do almoço, fui em casa, chamei um senhor que costuma prestar serviços pra gente. Ele me comprou a tela, a colocou na grade e me cobrou absurdos R$ 25,00 só pra isso (risos), mas paguei com gosto!

    À noite, chamei o maridão pra conversar e disse algo mais ou menos assim: Amor, a nossa relação é muito, muito importante para mim e por ela eu lanço mão de qualquer “dispositivo” pra que não seja atingida, maculada. Não gostaria que precisasse lançar mão desses artifícios, acho que poderia ter atendido meu pedido sem nenhum demérito pra você, mas tudo bem, se não consegue ver as coisas da mesma forma, eu o faço por nós dois.

    Isto… além de dialogar relação, foi usar a porta do lado.

    2. O Henrique é espírita (Doutrina decodificada por Alan Kardec) e extremamente atuante nesse meio. Sempre que há algum evento lá está ele, seja carregando coisas, liderando/evangelizando grupos de jovens, ajudando a servir as refeições, etc. No início eu o acompanhava nesses eventos, no entanto, como ele ficava super atarefado, eu acabava me sentindo deslocada, porque além de ser católica, também não conhecia a maioria das pessoas, sem falar na minha fobia de multidão. Ainda tentei ajudar nas atividades, mas também não funcionou. Então, mesmo sem querer, ficava chateada com ele.

    Bom, parei, analisei a situação e encontrei um “dispositivo” pra não que isso não mais acontecesse: o chamei, expliquei como me sentia e o que havia decidido. Hoje eu simplesmente não participo desses eventos, mas dou o maior apoio para que ele participe, já que é algo com que se sente tão realizado. Até emito opiniões, dou idéias. Quando ele chega em casa, não estou de cara amarrada (risos) e ainda fico super feliz por ver seu entusiasmo, sua alegria ao me narrar os acontecimentos – sei que esta também é uma forma de participar e de colaborar com seu crescimento pessoal e me sinto muito orgulhosa dele.

    Isto… também foi usar a porta do lado.

    Desde o início instituí a DR em meu casamento e tem dado muito certo. Se pinta carência, neuras, tentações, bobeiras no horizonte… nada melhor do que um boa e franca conversa de travesseiro. Sei que ele também deve usar muuuuito “a porta do lado” comigo… risos… a diferença é que não comenta sempre, mas já tem progredido bastante neste sentido.

    Kelmer querido,

    Hoje, o fato de sermos, estarmos apaixonadas por um homem não significa nos tornarmos dependentes dele e nem que o sufocaremos com nossos sentimentos ou carências. Nada que a percepção e o carinho femininos não possam contornar.

    Bjs e até a próxima!

    Ilde

    • ricardokelmer Disse:

      > Dialogar a Relação… Agora inventaram esse eufemismo pra substituir o Discutir a Relação, essa expressão que faz muito homem de repente lembrar que esqueceu o vidro do carro aberto e sair correndo…

  5. Lia Disse:

    Bem que a minha mãe sempre me disse: As pessoas ou nascem com bom senso ou sem. Não adquirem…
    Esta vida é mesmo uma nau de insensatos onde me incluo. Ilde, vc parece que faz parte do primeiro time…rs
    E , Ricardo, sempre dando margem a reflexões, né?
    Bjs

  6. Ilde Disse:

    risos… Ok Lia, valeu! Olha, passei a crônica do Kelmer (acho que vou cobrar royaltes pelo merchan) com meu comentário para os meus “leitores”… mas me deu uma polêmica… risos… das boas!

    • Lia Disse:

      Polêmica é bom demais, né não, Ilde? A gente acaba vendo um “monte” de lados, mudando de idéia às vezes até. Bom, eu tô sempre avaliando e reformulando. O difícil é tomar uma decisão, não saio do canto!!!
      Isso aqui tá bem bacana, viu, Ricardo!!!
      Gostoso de ficar voltando!!!!

  7. Chris Disse:

    Parece que tivemos um debate dos bons aqui. Só quero lembrar ao escritor, que ele não tem procuração para falar pelos homens todos. Fala apenas por um grupo conhecido dele, provavelmente.Homens não falam de sentimentos, ah é, RK? E Vinicius de Moraes, Sheakspeare, Tom Jobim, Beatles, Eric Clapton,Frank Sinatra, Mario Quintana, Carlos Drummond de Andrade e cia de genios foram o que, meu querido? Mulheres?
    A paixão e amor foram mto mais cantados em verso e prosa pelos homens, por toda a vida, desde sempre. Homens com “H”, corajosos, sinceros…..

  8. Chris Disse:

    Voltei! Esqueci meu mais lindo lebloniano dos olhos de ardósia..o Chico, ainda tem o Chico….é mulher esse aí tb, ÓOOOOOOOOO que vc apanha, se disser algo do Chico!

  9. Ilde Disse:

    rss… Ai Kelmer, espero que vc não seja tão sacana quanto seus comentários… rsss

  10. Izabela Disse:

    CHRIS -> achei muito oportuno seu primeiro comentário por concordar que romantismo é bem, mas bemmmmmmmmmm, diferente de submissão.

    ILDE -> querida, vc ainda é pura e inocente! O RK é muitoooooooooo ++++++++ sacana do que todos os comentários dele juntos. Huahuha. Parabéns pelo modo como tem administrado seu casamento. Sou católica e sei o qto é difícil se relacionar com pessoas de outras crenças. Tbm adoro felinos e tenho a sorte de só atrair homens que detestam gatos.

    LIA -> minha admiração a sua saudosa vó. Peço que me permita me apropriar do ensinamento dela.

    RK -> e eu que achava que nós éramos tãoooooooooo diferentes… Tsc, tsc. Tudo que nós dois queremos é um SER que nos ame, nos ature e nos alimente para que possamos viver para a LITERATURA. ;-D
    Quem não nos conhece e ler isso vai nos imaginar dois vagabundos, exploradores, mercenários, interessereiros… Não vai nem desconfiar que eu corro feito louca p dar conta de quatro empregos e q vc viaja o país todo p “vender” seu trabalho. kkkkkkkkk.

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