O Irresistível Charme da Insanidade 2-2

Dezembro 31, 2008

O amor insano. O amor desafiador do tempo. O amor que descortina as mais absurdas possibilidades do ser.

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CAPÍTULO 2
2a parte
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- O que ela tá fazendo?

Uma lua minguante e milhões de estrelas salpicavam o céu de Tibau do Sul. A pequena fogueira à frente da barraca mantinha afastado o frio da noite. Havia vinho e comida. Deitado sobre a toalha, Guilherme olhava as estrelas. Ao seu lado Marcela folheava um livro e mexia com varetas.

- Consultando o I Ching.

- Já ouvi falar. Serve pra que mesmo?

- É um oráculo – Guilherme respondeu. – Serve pra você obter respostas sobre você mesmo e os acontecimentos. Tirar uma foto da situação em movimento.

- Como assim?

- Como tudo se transforma a todo momento, a foto mostra uma tendência, uma situação mudando pra outra. Por isso é chamado de livro das mutações.

- Muito místico pro meu gosto…

- Mas funciona. De certa forma é só um truque pra se investigar psicologicamente. Você se concentra na questão e mexe as varetas, ou as moedas, anotando os resultados. Dá pra fazer sem nada disso mas ai tem que estar muito conectado com o mundo. Um dia eu ainda consigo.

- E pra quem não acredita? Como eu?

- Sempre funciona. Mas talvez você não veja sentido na resposta.

Luca levantou e serviu vinho para Isadora. Depois despejou em sua caneca e sentou ao lado dela.

- Vai me dizer de onde me conhece ou preciso consultar o I Ching?

- Também não me respondeu se crê ou não em reencarnação.

- Faz diferença se eu disser sim ou não?

- Bem… Acho que não.

- Pois bem, não acredito.

- Por quê?

- Ah, porque só se morre uma vez na vida. E esse negócio de ter que pagar o carma… Você acredita?

- Claro que sim.

- Já lembrou de alguma vida passada?

- Hum, hum.

- Sério? E pode contar?

Ela perguntou se ele queria mesmo saber. Ele disse que sim. Isadora e Marcela trocaram um rápido olhar. Por um segundo ele viu nos olhos de Isadora o reflexo inquieto das labaredas e foi como se elas o prendessem. Ele sentiu-se escorregar lentamente para um outro estado de ser, as chamas nos olhos de Isadora, vermelho e amarelo e laranja e azul…

Luca sacudiu a cabeça, sentindo um princípio de vertigem.

- Dois anos atrás comecei a ter uns sonhos… – ela prosseguiu, sem perceber sua ligeira perturbação. – Era sempre o mesmo lugar, um povoado pequeno… Parecia final da Idade Média. No sonho tinha uma criança brincando mas eu nunca via os olhos dela. Esse sonho se repetiu durante meses. Fiz hipnose com uma terapeuta e aí as imagens vieram mais fortes. Eu pude ver os olhos da menina e… bem, eu me vi naqueles olhos, foi isso. E percebi que aquela criança era eu.

- Que século?

- Dezesseis. Sei disso porque depois fui pesquisar. A gente aprofundou a terapia e mais imagens vieram. Sensações também, muito fortes. Vi vários fatos da vida dessa menina passarem diante de mim, como num filme. Não só vi – eu vivi, não sei se dá pra entender. Não lembrei tudo mas lembrei muita coisa dessa vida. Reencarnação sempre fez sentido pra mim mas lembrar, lembrar mesmo de uma vida é diferente.

- E aí, o que aconteceu?

- Catarina, o nome dela. Espanhola do sul. Era uma adolescente pobre quando se casou com um alemão. Ele a levou pra viver na Alemanha. Ele era um homem rico e ela aprendeu a ser uma dama. Ela tinha tudo pra levar uma vida tranquila e confortável mas um dia conheceu um missionário português e se apaixonou perdidamente… Enrique. Era jesuíta. Lembro bem da expressão, os olhos negros, profundos, o olhar duro. Enrique conhecia pessoas importantes, viajava pra muitos países, sabia outras línguas. E era meio bruxo.

- Como assim?

- Pertencia a uma ordem secreta, essas coisas. Usava os sonhos pra saber o que acontecia na Corte, as tramas políticas da Igreja, entrava no sonho dos outros…

- No sonho dos outros?

- Sim. Ele visitava Catarina nos sonhos, planejavam os encontros. Ela teve um filho de Enrique mas achou mais prudente não revelar a ninguém e deixou o marido achar que era dele. Um dia o marido descobriu que não era e aí ela fugiu com Enrique, teve de deixar o filho pra trás. Mas algo deu errado na fuga e Enrique desapareceu.

- O que houve com ele?

- Não lembrei disso. Porque na verdade Catarina nunca soube. Mas é uma curiosidade que eu tenho. É bem provável que tenha sido preso ou algo assim. Catarina procurou pela península toda, durante anos, de cidade em cidade. Mas todas as pistas eram falsas. Nem nos sonhos ele aparecia mais. Até que um dia…

- O bruxo apareceu.

- Não.

- O marido apareceu.

- O filho. Anos depois, já crescido. Encontrou a mãe num convento, doente, meio fraca do juízo. Aqueles anos todos na estrada, procurando…

- Ela ficou doida?

Isadora fez uma pausa. Segurou a caneca de vinho quente com as duas mãos e por alguns segundos olhou para o céu.

- Ela voltou com o filho pra Munique. O marido já tinha morrido e o filho cuidou dela. Ele sabia quem era seu pai verdadeiro e por um tempo também tentou localizar Enrique. Mas nada conseguiu. Ela morreu assim, esperando notícias.

Durante algum tempo ninguém falou nada. Foi Luca quem quebrou o silêncio:

- Você lembrou de tudo isso?

- É mais que lembrar. Eu vivi de novo.

- Você acredita mesmo que foi essa Catarina?

- Hum, hum.

Isadora olhou para a fogueira. Apanhou algumas pedrinhas e atirou contra as chamas. Depois, sem desviar o olhar do fogo, perguntou:

- E você? Essa história não lhe diz nada?

- É interessante. Dava um bom filme.

- E o bruxo português?

- O que é que tem ele?

Isadora olhou para Marcela com o canto do olho.

- Ainda não entendi a pergunta, Isadora.

Ela continuou jogando pedrinhas na fogueira.

- Peraí. Não vá me dizer… Você acha que eu fui… esse Enrique?

Isadora olhou para ele, séria.

- Mas por quê?

- Percebi quando você apareceu no meu sonho.

- Eu disse isso no sonho?

- Não. Mas quando acordei, entendi tudo. Você tá diferente, claro… Mas eu sei que você é ele. Eu sei.

Luca riu constrangido. Olhou para a fogueira à sua frente, as fagulhas subindo e sumindo no ar. Levantou e foi buscar mais vinho.

- Aposto que você tá achando que isso é uma cantada, né, Luca?

- Se for, já ganhou o troféu criatividade. Mais vinho?

- Homem, tenha mais respeito por alguém que esperou quatrocentos anos por esse momento! – brincou Guilherme.

- Não liga, Luca – interrompeu Isadora. – Ele adora tirar sarro dessa história.

- Você não acredita, Guilherme?

- Não. Mas é divertido. Tenho uma prima que jura que já foi Cleópatra. Lembra até das posições prediletas do Marco Antonio…

Todos riram. Luca serviu-se de bolachas e voltou ao seu lugar.

- Mas respeito muito Isadora – prosseguiu Guilherme. – Ela é uma taoísta exemplar.

- Taoísta? Que diabo é isso?

- Taoísmo é a filosofia que tem por trás do I Ching. – respondeu Isadora, servindo mais vinho.

- Ah, tá. E você, Marcela, o que acha desse negócio de vidas passadas?

- O que eu acho é que você não devia zombar do que Isadora lhe contou.

- Isso tá parecendo a Inquisição… Eu não tô zombando. O problema é que Isadora pensa que eu fui alguém e eu não fui esse alguém. O que posso fazer?

- Isadora, você aceita Luca como seu legítimo ex-amante? – brincou Guilherme, fazendo novamente todos rirem.

- Um brinde a quem você é hoje, ok, Luca? – Isadora propôs.

- Ah, melhorou. E a este encontro.

- Encontro, não. Reencontro! – completou Marcela.
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(continua)

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TRILHA SONORA

Este romance possui uma trilha sonora própria, com músicas compostas por RK e parceiros. Adquirindo o livro (impresso ou eletrônico), você recebe as músicas em mp3 por e-mail.

Vídeo-clipe com a música Blues de Luz Neon,
da trilha sonora do romance
O Irresistível Charme da Insanidade

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Viajando com Marsicano

Dezembro 27, 2008

Meu primeiro contato com Alberto Marsicano foi pelo livro Jim Morrison por ele mesmo, que li no começo dos anos 90. Marsicano foi o organizador da obra, que integrava aquela coleção da Martin Claret sobre ídolos do rock.

Alguns anos depois dou de cara com o cara em Campina Grande, no Encontro da Nova Consciência, um festival multicultural mucholoco que rola lá durante o Carnaval desde 1992. Marsicano foi um dos convidados e tocou sua cítara, encantando a platéia do evento. Gostei do cara: artista genial, visionário lisérgico, maluco da paz. A partir daí passamos a nos encontrar lá, renovando anualmente a celebração da amizade, da vida e da poesia, eu, ele e outro poeta-músico maluco, o jornalista André de Sena. Longos papos sobre Rimbaud, Doors, Blake, Baudelaire, rock, drogas, deusas… E Marsicano sempre surpreendendo, tocando cítara até com os roqueiros do evento, com os forrozeiros, os emboladores…

Marsicano é um grande conhecedor e tradutor de poesia inglesa. Mas ele é mais conhecido pela música que faz. O cara é considerado o maior citarista do Brasil, discípulo de Ravi Shankar. Seu disco Sitar Hendrix, que foi indicado ao Grammy, é uma releitura de Jimi Hendrix sobre a cítara, misturando rock, blues e baião – sensacional! Pra quem não sabe, Hendrix era aluno de cítara (confira a faixa Cherokee mist no disco Axis bold as love) e tinha um projeto de gravar um disco tocando o instrumento. Marsicano realizou o sonho do guitarrista. Valeu, cumpade!

Quando escuto esse disco, a imagem de Marsicano aparece no holograma esfumaçado da minha memória: ele no palco, sentado no chão, abraçado à sua cítara, os longos cabelos brancos, o corpo sacudindo com a música, a expressão de êxtase… Adoraria saber o que ele sente nesses momentos em que viaja por sua música louca, por onde vai sua alma andarilha na carona das melodias estranhas e belas que borbulham de seu instrumento. Mas isso só ele sabe. A mim, me compete apenas escutar. E fazer minha própria viagem, claro.

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Ricardo Kelmer 2008 – blogdokelmer.wordpress.com

Para baixar o disco The Electric Sitar Experience
http://sharebee.com/4b6b135c

Site de Alberto Marsicano
http://albertomarsicano.vilabol.uol.com.br


Protegido: O último homem do mundo (na íntegra)

Dezembro 24, 2008

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A fantástica loja de idéias (trecho)

Dezembro 24, 2008

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A fantástica loja de idéias
Projetor 3D, supositório para disfarçar peido, máquina de sexo virtual com personalidades… Todas aquelas idéias geniais que se têm quando se está doidão são vendidas nessa loja.

(trecho do conto)

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(Texto transcrito da gravação do programa Canabistrô, exibido no dia 26/08/2005, pelo site Terramestra)

- Bom dia, queridos amigos telespectadores do Canabistrô, seu melhor programa de viagem! Eu sou Bia Voyage e hoje vamos apresentar pra vocês aquela matéria que havíamos prometido na semana passada, a loja de idéias Ki Lombra, na praia de Canoa Quebrada. Uma das sócias da loja, a Lulu, recebeu nossa reportagem com muita simpatia e a matéria taí no ponto pra vocês verem, tá sensacional, vocês não vão acreditar nas idéias dos malucos. Mas antes vamos às mensagens dos nossos patrocinadores.

Entra comercial da revista Lucidez Total. Matérias e reportagens do mês. Gatinha Canabis. Maconha e autoconhecimento. As mil e uma utilidades da planta para a indústria. Entrevista com o Deputado Federal Fernando Gabeira.

Entra comercial do colírio HOMO TOTAL, para usuários gays. Um rapaz aborda outro no balcão do bar e diz que seus olhos são muito bonitos para ficarem vermelhos e irritados daquele jeito. Então puxa do bolso um colírio que o outro pinga e quando devolve, seus olhos já estão brancos. Áudio: HOMO TOTAL, colírio pra quem entende…

Entra comercial da maconha MARLEY. Uma garota assiste a um filme no cinema, viajando bastante. Uma outra, atrás dela, cochila. A outra vibra com as cenas e a outra só cochila. No final do filme, as duas saem, uma satisfeita e a outra sonolenta. Áudio: Maconha MARLEY, a diferença tá na cara.

- Oi, gente, estamos de volta com o Canabistrô, eu sou Bia Voyage e você é uma pessoa que tá aí na sua e deseja se antenar com as novidades do mundo hemp, não é?, trocar idéias com a gente, conhecer pessoas e se informar a respeito da canabis. Não é isso? Isso. Porque usuário consciente faz a diferença. Agora vamos ver, vamos ver, quem acertou a pergunta da semana passada. Qual é a dose mortal de canabis? Vamos ver, abre o envelope aqui, isso… Resposta: dois quilos jogados do 25o andar de um prédio. Acertou! O felizardo da semana mora em… Cabrobró, olha só, Cabrobró, em Pernambuco. Um beijão pra moçada de Cabrobró que tá de olho no nosso programa. Mas não é um felizardo, é uma felizarda. Beleza. Você sabe que aqui no programa a gente não lê o nome completo, só as iniciais. Então lá vai: A, M, O, S. Ok? A produção vai entrar em contato com você. E você, sua sortuda, vai receber em casa nosso kit Canabistrô completo, com camiseta, óculos, CD do programa, uma caixa de sedas Sedosa, maquininha, debulhador, marica e um exemplar da revista Lucidez Total. Parabéns. Solta o primeiro clip aí enquanto eu vou despachar essa encomenda no correio. Volto já, moçada.

Entra o clip da música Libera a Pamonha, da banda Intocáveis Putz Band.

- Bacana esse clip, heim? Recebemos esta semana, é novinho. Se você gostou, ligue agora mesmo ou acesse nosso site na internet, esse que taí no vídeo, www.terramestra.net, e concorra a um CD da Intocáveis Putz Band, essa banda virtual mucho loca, que por sinal tem um baixista gatíssimo, vocês viram? Eu vi, não vou mentir. Mas vamos deixar de galinhagem que meu diretor já tá me olhando feio aqui. Libera a matéria com a Lulu. Libera o produto!

Entra matéria sobre a loja Ki Lombra.

- Olha só, gente… Eu sou Bia Voyage, pro programa Canabistrô, e você vai conhecer agora uma loja louquíssima que existe aqui em Canoa Quebrada, essa praia maravilhosa do Ceará. É a loja Ki Lombra. Sabe o que ela vende? Idéias! Idéias de todo tipo mas, de preferência, idéias malucas. As proprietárias são duas senhoras, a Lulu e a Ely. Um dia elas vieram passar um fim de semana aqui em Canoa Quebrada, se apaixonaram pelo local e decidiram ficar. Aí tiveram a idéia de montar uma lojinha pra vender as idéias que elas tinham quando tavam doidonas. Começaram devagarinho, uma idéia aqui, outra ali, aí começou a aparecer gente interessada, artista, escritor, músico, gente de todo tipo interessada em idéias novas, idéias malucas, coisa diferente. A notícia foi se espalhando e hoje elas, além das próprias idéias, também vendem idéias dos outros. A maluqueira fuma, olha só, viaja nas idéias e depois vem aqui e vende pra elas. Não foi uma sacação genial? Uma sacação maravilhosa dessa é lógico que mais cedo ou mais tarde os outros iam copiar, né? E copiaram mesmo. Aqui em Canoa a concorrência já apareceu, já tem mais três lojas parecidas com esta, todas de idéias malucas. A Ki Lombra é a mais antiga e a mais visitada pelos turistas que vêm aqui, é a mais famosa, certamente pela qualidade dos produtos. Mas também pela simpatia das donas, vocês vão ver. Olha só, A Lulu é essa aqui. Passa o dia de biquíni, o tempo todo de alto astral. Faz tempo que a senhora tem esse negócio, dona Lulu?

- Pode tirar o “dona”, viu, minha filha.

- Ah, me desculpe, eu esqueci. Faz tempo que vocês têm esse negócio, Lulu?

- Cinco anos.

- Dá pra faturar uma graninha com idéia maluca?

- Dá pra tirar a da cerveja, não tenho do que reclamar não.

- E sua sócia, a Ely?

- Ely tá viajando, tá cuidando da abertura de uma franquia da Ki Lombra em Piripiri.

- Em Piripiri? No Piauí?

- Lá mesmo. O povo lá é chegado numas idéias…

- E quantas franquias vocês têm?

- Deixa eu ver… Piripiri, Olinda, Jericoacoara, Jurerê e semana passada inaugurou uma em Ipanema. Mas a gente tem um bocado de propostas, de vários países. Tamo estudando.

- Como que vocês fazem? O maluco ou a maluca vem aqui, conta a viagem…

- Isso aí. Conta a viagem. A gente escuta. Se servir, a gente compra.

- Se for maluca demais, vocês dispensam?

- Aí é que eu compro mesmo, minha filha. As que vendem mais são essas, eh, eh.

- E a clientela, é boa?

- Tem gente boa e gente ruim, né, como em todo canto. De primeira vinha aqui só músico, escritor, pessoal que trabalha com cinema, televisão. Depois passou a vir outras pessoas. Até político já veio.

- Político?

- É. Porque tem maluco que tem umas idéias que serve pra política, umas idéias boas de se aproveitar.

- Tem alguma aí pra gente ver?

- Tinha muita. Mas hoje eu não vendo mais idéia pra político não. Quando eu vejo que é dessa raça, não vendo. Porque é tudo um bando de aproveitador, tudo nojento. Sabe aquela idéia do imposto único, pra substituir todos os impostos, um por cento sobre cada cheque? Foi uma moça que me vendeu, idéia boa. Aí veio um deputado aí, olhou, gostou e comprou. Pra quê? Pra transformar nesse imposto aí sobre movimentação financeira. Olha a ironia: o que era pra acabar com essa enormidade de imposto que tem aí, acabou virando mais um imposto. Por isso que pra político eu não vendo. Vai tudo pro inferno, arder pela eternidade todinha!

- Dá pra ver que a Lulu não gosta de político, né? Mas vamos ver o que é que tem por aqui. Isso aqui, o que é?

- Isso foi um menino que deixou semana passada. É um Flatex.

- Parece um apito.

- É um supositório pra quem sofre de flatulência crônica.

- Mas que coisa! Não acredito! Verdade, Lulu? Mostra aqui, Ferdinando, mostra aqui pertinho.

- Verdade. O preço tá bom, cinquenta pilas, eh, eh.

- Quer dizer que com isso o pum fica retido. Mas que coisa, olha só, gente… Mas e se o pum chega aqui, vê que não tem saída… não periga ele pegar outro caminho e escapulir pela boca? É pior, não?

- Não, minha filha, fica retido não. O flato passa por essa frestazinha aí, ó, e libera uma fragrância bem suave. Tem Patchuli e Flores do Campo. Tinha um de Coisa Queimando mas levaram ontem.

- Coisa Queimando? E alguém se interessou por uma fragrância dessa?

- É dos que mais vende. Porque disfarça bem, fica todo mundo preocupado, procurando o que é que tá queimando…

- Ahhh, é verdade. Olha só, mas que idéia maluca…

- Quer levar um Flores do Campo pra você?

- Não, obrigado. Mas esse Flatex serve também praqueles puns barulhentos?

- Arrá! Pra esses é que existe o Flatex Som. Tem Pássaros, Buzina, Freio, Celular…

- Flatex Som… Não acredito. A pessoa solta um pum, o ambiente fica perfumado, toca uma musiquinha e ninguém percebe. Que voyage… O que um fumo bom não faz, heim? Que mais que tem por aqui, Lulu?

- Tem Noves-Fora de Placa de Carro.

- Ah, esse é manjado. Já vi nos seus concorrentes, não é só você quem tem.

- Mas esse é diferente, minha filha, esse é diferente… Olha aqui, parece um Noves-Fora de Placa comum, igual a esses que tem por aí, né? Mas esse tem um detalhe que os outros não têm: é Noves-Fora + Palavra.

- Palavra?

- Sim, você olha a placa do carro e tem que dizer a primeira palavra ou frase que vier à mente com as iniciais da placa. É mais difícil, só pra iniciados. Foi a Ely quem inventou, nesse dia ela tava inspirada. Olha esta aqui. ABE 9473. Quanto é o noves-fora de 9473?

- Ahn… Cinco.

- Isso. E o que lhe vem à mente com ABE?

- Com ABE? Humm, deixa eu ver…

- Não, tem que dizer no ato, não pode pensar. Tem que dizer a primeira idéia que vier, mesmo que não seja nada diretamente relacionado a ABE.

- Abacate.

- Abacate cinco, entendeu?

- Ahhh…

- Ou então Abelha, A Bela e a Fera… A Bunda da Ely. O que vier.

- Nossa, mas o maluco tem de ser fera pra tirar o noves-fora e ainda pensar numa palavra…

- Com o tempo pega prática. Quem compra muito é ator, pra exercitar o improviso. Mas também é muito bom praqueles momentos em que você tá preso no engarrafamento.

- Ah, é. Só maluco mesmo… Êpa, isso aqui eu não conheço.

- Chegou sexta-feira. É um pacote de inventos do futuro. Tem três inventos aí.

- Isso parece um projetor de slides.

- É um Holocine, um projetor holográfico com som. Exibe imagens em 360 graus. Filme, show, qualquer coisa. Em vez de você assistir ao último show da Kátia Freitas numa tevê ou num telão, você liga o Holocine e se sente no próprio local do show, como se a Kátia realmente estivesse cantando bem à sua frente, como se você estivesse num camarote de frente pro palco.

- Que interessante…

- E pode ser visto de qualquer lugar, a imagem se ajusta automaticamente ao ângulo de visão.

- Gente, o futuro já chegou! E essa cabine aqui?

- É o Celebri-Sex. Sexo virtual com pessoas famosas. Você escolhe se hoje quer transar com a Sabrina Sato ou com a Angelina Jolie. Então você entra na cabine, senta, conecta os sensores na pele, põe o visor 3D e escolha a pessoa aqui no painel. Sua estrela preferida vai surgir na tela.

- Que maravilha! Mas sente mesmo, quer dizer, a sensação é a mesma do sexo no mundo real?

- Igualzinha. Quer experimentar?

(…)

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> Este conto integra o o livro Baseado Nisso

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Ricardo Kelmer – blogdokelmer.wordpress.com


Minhoca na cabeça (trecho)

Dezembro 24, 2008

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Minhoca na cabeça
Quando o jovem escritor fuma, minhocas saem de sua cabeça. É mais um caso do além para Javier Viegas resolver.

(trecho do conto)

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Usados e Abusados. Ivan conferiu a placa na fachada da loja de usados e entrou. A moça no balcão o cumprimentou.

– Boa tarde. Posso ajudar?

– É aqui a loja do Javier?

– Sim, Javier Viegas. No momento ele está atendendo. Deve desocupar em quinze minutos. Aguarde um pouco, por favor.

Ivan sentou-se no sofá e pegou uma revista para folhear. Logo depois estava entretido numa matéria sobre extraterrestres que raptam pessoas para implantar chips em seus cérebros e depois as devolvem à Terra e elas só conseguem recordar o que se passou em sessões de hipnose. Foi quando o homem apareceu, saindo da salinha ao lado, acompanhado de um senhora de quem se despediu.

– Até logo, dona Iracema. Não esqueça de acender a vela hoje, heim? Vela amarela, virgem, de sete dias. Até logo.

O homem virou-se para Ivan:

– Boa tarde, o senhor está me aguardando?

Ivan reparou na figura: moreno, barrigudinho, meio calvo, cabelo preto, provavelmente com tintura, numa trança única que descia até o meio das costas. Devia ter seus cinquenta anos. Um sotaque espanhol e uns trejeitos afeminados.

– Vi seu anúncio no jornal.

– Ah, entre, entre, por favor. Aceita um licorzinho de manga? Ana Isaura, traz dois licorzinhos pra gente, traz.

Era uma sala decorada com coisas antigas, quadros, candelabros, móveis rústicos. Javier lhe ofereceu uma cadeira em frente à mesa e a seguir sentou-se na sua, do outro lado, brincando com a longa trança sobre o peito.

– Prazer. Javier Viegas. Tarô e outros babados.

– Prazer, Ivan.

– Ivan, el terrible, ui… Mas diga, meu filho, a que devo o prazer de receber olhos tão bonitos? Lindo, e eu me sinto enfeitiçada, iééé…

– É o seguinte, seo Javier…

– Seo não. Assim eu não atendo. Pode levantar e ir embora.

– Desculpe. Javier. Bem, Javier, é uma coisa assim meio… esquisita.

– Mi querido, já vi tanta coisa esquisita neste mundo que não me assusto com mais nada. Olha seu licorzinho aí. É caseiro, viu?

Ivan recebeu o cálice que a atendente lhe oferecia. Levou-o à boca mas foi interrompido por Javier.

– Menino, que heresia! Não vai brindar não?

– Ah, claro, claro…

Javier ergueu o cálice e fechou os olhos, concentrado, em silêncio. Ivan esperou que ele concluísse seu ritual, talvez fosse algo esotérico, melhor acompanhar. Ivan fechou os olhos, respirou fundo e escutou:

– Beber sem brindar, dez anos sem pimbar… Brindar sem ver, dez anos sem foder… Foder sem brindar, dez anos sem gozar… Gozar sem foder, dez anos sem beber…

Ivan abriu os olhos surpreso. Javier bebia seu licor, compenetrado, os olhos fechados. Que diabo de sujeito era aquele?

– Gostou do licor?

– Muito bom.

– Minha mãe quem faz. Dona Carmela. Todo mês ela me manda um vidrão assim. Esse é de manga, que é muy bueno mas tem um de café que você não acredita. Aliás, estou procurando um sócio, esses licores de mamãe podem deixar qualquer um milionário. Você não estaria interessado?

– Não obrigado, não gosto de comércio.

– Después não diga que eu não avisei. Mas fale, conte seu problema.

– Bem, eu… O senhor, digo, você fuma? – Ivan fez o gesto de quem fuma um baseado.

– Marijuana? Não no primeiro encontro – respondeu Javier, rindo. Ivan riu sem jeito. – Não é minha droga predileta mas de vez em quando dou meus tapinhas pra ir ver o Almodovar.

– Certo. Bem, eu fumo. Quer dizer, fumava. Deixei exatamente porque começou a acontecer uma coisa estranha…

– Hummm, está melhorando. A-do-ro cositas estranhas.

Ivan olhou para a porta, desconfiado.

– Está fechada, menino, fique tranquilo. Fora duas entidades aqui atrás – e apontou com a ponta da trança por sobre o ombro – aqui nesta sala só tem eu e você, você e eu. Juntinhos. Tim Maia era ótimo, não?

– Ah, sim. Era sim. – Ivan pigarreou e prosseguiu. – Você vê espíritos, Javier?

– Vejo.

– Vê mesmo?

– Desde que eu era niño de teta. Mas diga, que coisa estranha é essa que lhe acontece?

– Quando eu fumo um baseado, começam a sair minhocas da minha cabeça.

– Minhocas?

– Isso.

– Saem minhocas de dentro da sua cabeça?

– Exatamente. Minhocas. Saem pelas orelhas.

Ivan aguardou enquanto Javier o observava.

– Faz tempo que você fuma marijuana?

– Desde os dezoito. Tô com trinta e quatro.

– Fuma todo dia?

– Geralmente quando vou escrever. Umas três vezes por semana. Sou escritor.

– Ah, é escritor? Que bueno receber um escritor em minha sala. Ainda mais um escritor que tem minhoca na cabeça…

– É sério, Javier, não estou brincando. E não é viagem não, é verdade. Olhe, eu trouxe uma aqui pra você ver.

Ivan tirou do bolso um saquinho de plástico e o estendeu sobre a mesa. Mas Javier o interrompeu.

– Não, não, obrigado. Eu acredito em você.

– Pode pegar. É inofensiva.

– Não preciso pegar em sua minhoca pra saber que ela existe, criatura, estoy vendo.

– E então? O que você acha?

– Já procurou um médico?

– Nunca falei pra ninguém. Quem ia acreditar?

– Então vamos ter que ver esse babado de perto. Quinta-feira, oito da noite. Tá bom pra você?

– Tá bom.

– Então me espere que eu apareço.

– E quanto vai cobrar?

– Pelo quê?

– Sei lá. Você vai fazer alguma coisa, não vai?

– Bueno, eu cobraria esses seus olhos. Botaria eles numa moldura pra eles ficarem olhando pra mim todo dia. Mas como eu sei que você não me daria, então vou cobrar só o preço de custo.

– E quanto é?

– Mil.

– Mil reais?

– Caro, é?

– Bem que me disseram que você é careiro.

– Careiro é quem cobra caro e não resolve. Eu resolvo.

(…)

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Mais sobre o livro Baseado Nisso

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Animação no jantar (trecho)

Dezembro 23, 2008

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Animação no jantar
Os pais de Mária Amélia estão impressionados com o namorado da filha, um profundo conhecedor da psicologia dos super-heróis.

(trecho do conto)

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– Pai, mãe, esse aqui é o Mingo.

– Boa noite, seo Erandir. Boa noite, dona Gilda.

– Boa noite, Mingo. Sente aí pra jantar.

– Obrigado.

– Gosta de sopa de feijão, Mingo?

– Gosto, dona Gilda.

– Eu sirvo pra você. Maria Amélia, pega mais pão na cozinha.

– Você sempre janta de óculos escuros, Mingo?

– Estou com um probleminha nos olhos.

– Ah.

– Maria Amélia me disse que você está concluindo uma tese de mestrado, Mingo. É verdade?

– É.

– E sobre o que é mesmo?

– Personagens de gibis e desenho animado.

– Interessante.

– O Mingo é um grande estudioso da psicologia dos super-heróis.

– Que bom.

– Quer mais pão, Mingo?

– Aceito.

– No meu tempo os desenhos eram muito bons, educativos, ensinavam coisas boas às crianças. Hoje o que se vê é só porcaria. Muita violência. Muito sangue.

– Concordo com o senhor.

– Na minha opinião o último desenho que ainda prestava era aquele dos Smurfs. Você assistia?

– Sim.

– O que você acha? Era bom, não era? O Gargamel sempre se dava mal. Isso mostrava às crianças que fazer o mal não compensa. Desenho educativo.

– Quer bolo, Mingo?

– Aceito. Na verdade, seo Erandir, o Gargamel era usuário de LSD.

– Ahn?

– Usuário sim. O senhor conhece LSD?

– Se eu conheço? Sim. Quer dizer, não. Já li alguma coisa.

– Pois é. Aquele LSD não era dos melhores, a gente logo via. Atente pro comportamento do Gargamel. Fica a vida inteira perseguindo uns homenzinhos azuis que vestem gorros e fraldinhas. Aprofundando um pouco mais, podemos nos perguntar: pra quê ele quer tanto pegar os Smurfs?

– Ahn… Pra comer, né?

– Erandir! Tenha modos!

– Mas o senhor tá certo, seo Erandir. O LSD de péssima qualidade potencializa as tendências pedófilas do Gargamel. Isso hoje dá cadeia, o senhor sabe. Sem falar que ele abusava psicologicamente de seu gato, um prato cheio pra sociedade protetora dos animais entrar com um processo contra ele, milhões de dólares.

– Eu nunca tinha pensado nesses termos.

– Esse é o problema, seo Erandir. A gente não pára pra pensar e acaba engolindo tudo que botam na TV. Tem mais bolo?

– Eu gostava mais do Patolino. Ele era muito engraçado, heim, Erandir?

– Eu não gostava, Gilda. Ele era muito agoniado.

– Exatamente, seo Erandir. O Patolino é o maior cheirador do planeta.

– Cheirador?

– Cocaína, mãe. Cheirador de coca.

– O cara é ligadão demais, seo Erandir. Não pára de falar um só instante, tem uns papos muito estranhos. E sofre de mania de perseguição. É tão ligadão que consegue ficar gritando, pulando sem parar, arrancando as penas e batendo a cabeça no chão sem sentir dor.

– Cocaína faz isso?

– Uma vez ele cheirou tanto, seo Erandir, mas tanto, que travou geral.

– Travou geral?

– Isso. Foi uma travada tão violenta que o queixo dele foi bater atrás da cabeça, o senhor lembra?

– Puxa! Eu gostava tanto do Patolino… Mas por que ninguém nunca disse que ele cheirava cocaína?

– Se dissessem, dona Gilda, os pais não deixariam seus filhos assistir.

– Viu, Gilda? Bem que eu não gostava dele.

– Ah, eu gosto. Quer dizer, depois dessa revelação, já não sei…

– E o Popeye? Aqui na rua tinha uma vizinha do outro lado da rua, a Lindalva, lembra da Lindalva, Gilda? Ela era bem magrinha. A gente chamava ela de Olívia Palito. Olhaí, influência dos desenhos.

– Olívia Palito. É uma personagem inspirada em muitas mulheres que existem por aí, seo Erandir, mulheres de carne e osso.

– No caso da Lindalva, mais osso do que carne.

– Exatamente. Mas a Olívia é uma personagem tremendamente complexa. Foi a primeira heroína da TV a usar descaradamente anfetaminas e moderadores de apetite. Na verdade ela é anoréxica. E ainda é evangélica.

– Evangélica?

– O senhor nunca reparou? Veja o estilo da roupa: saia abaixo do joelho, blusa fechadinha, tudo muito comportado e sem graça.

– Que coincidência! A Lindalva também era evangélica. Não era, Gilda?

– Olhaí. Essas personagens não são criadas à toa. Tem todo um embasamento condizente com a realidade. A Olívia é evangélica mas é uma evangélica muito doida pois fica provocando o Popeye o tempo todo. Faz o coitado gastar uma fortuna tomando Viagra misturado com espinafre. Como se não bastasse, engana o cara o tempo todo com falsas promessas de casamento. E tem mais. A safada adora ser raptada e amarrada pelo Brutus. Sexo selvagem. É a famosa magrinha que aguenta o tranco…

– Isso! Exatamente!

– E o Scooby-Doo, Mingo, fala do Scooby.

– Era um cachorro muito doido. Mas muito mais doido era o dono.

– Como era mesmo o nome dele?

– Salsicha.

– Salsicha! Eu não gostava muito dele não. Era assim meio, meio sujo…

– O Salsicha, seo Erandir, é o suspeito número um, o maconheiro típico.

– Ele fumava? Nunca reparei.

– É só ver o jeitão dele, as roupas, o cabelo, o cavanhaque… O maluco conversa com um cachorro e está sempre na maior larica, louco pra traçar um sanduba. Isso sem falar naquele furgão psicodélico: eles se trancavam pra fumar um e saíam de lá vendo fantasma pra todo lado… Mas o Salsicha tinha muita moral com os roteiristas porque mesmo com aquela bandeira toda, nunca levou uma geral dos homi. O Scooby não fumava mas pegava toda a maresia e por isso também vivia na larica.

– Larica?

– Aquela fome que dá depois de fumar.  Esse bolo tá bom mesmo… Vou pegar mais um pouquinho. Mas voltando ao Scooby, um cachorro que come, em média, cento e vinte biscoitos por episódio não pode ser normal.

– Que coisa… Eu nunca tinha visto por esse lado.

– Fala do Homem-Aranha, Mingo, fala.

– Ah, o Homem-Aranha eu gosto! Lembra, Gilda, que eu tinha a coleção completa? Peter Parker. Esse sim era um super-herói educativo, você não concorda? Cuidava da tia doente, tinha muito carinho por ela…

– Tinha muito apego por ela, né? Mas não era por ela não, era pelo dinheirinho que ela tinha na poupança. Um nome mais apropriado pro Homem-Aranha seria Homem-Urubu pois ele tava ali sempre rondando a tia, esperando a velha morrer pra pegar a herança. E ainda vivia em eterno conflito por não assumir sua bissexualidade.

– O Homem-Aranha? Era gay?

– O senhor acha que aquele negócio de ficar soltando teinha de aranha pra lá e pra cá é coisa de homem sério? É o primeiro caso de super-herói que começa a carreira por causa de uma picadura. E o cara é azarado pra cacete: a primeira namorada, uma loiraça rica e boazuda, morreu assassinada pelo Duende Verde. O senhor sabia que Duende Verde é o nome de uma boate gay lá em Pelotas?

– Não sabia.

– Pois é. Super-herói gay tem muito por aí.

– Hummm… Não sei se quero saber de mais algum…

– Batman.

– Ah, não!

– Ah, sim. Essa é a dupla homossexual mais bandeirosa do mundo dos super-heróis. O clássico exemplo do solteirão que curte garotão. O garotão esperto, que se aproveita do coroa pra pagar a faculdade. Homem-morcego. Morcego faz o quê, seo Erandir? Sai à noite e chupa fruta. Menino-prodígio. Prodígio em quê? Isso é lá apelido que um homem sério bote no outro! E ainda tem o mordomo.

– O Alfred? Que é que tem ele?

– Aquela pouca-vergonha rolando ali na bat-caverna, todo dia… O senhor acha que o Alfred não ia saber? Claro que sabia. Se é que não participava também. Aquela cara de diretor de seminário…

– Gente… Eu tô muito surpresa. Como você descobriu isso tudo, Mingo?

– Pesquisando, dona Gilda, pesquisando…

– Acho que vou proibir o Cacá de assistir TV. Batman, Homem-Aranha… Tudo gay!

– O Cacá gosta é do He-Man. Chega da escola e liga logo a TV.

– Hummm… Logo o He-Man?

(…)

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> Este conto integra o o livro Baseado Nisso

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Ricardo Kelmer – blogdokelmer.wordpress.com


A verdadeira história do resgate do solado Rian (trecho)

Dezembro 23, 2008

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A verdadeira história do resgate do soldado Rian
O soldado Rian foi capturado pelos inimigos. Seu sargento acredita que pode salvá-lo. Mas é uma missão quase impossível.

(trecho do conto)

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Eu já havia me juntado a dois companheiros na 13ª base quando o soldado Rian, que deixava o 4o quadrante, foi capturado no momento em que tentava nos alcançar. Fora de fato uma tentativa arriscada pois o 3o quadrante possuía dois destacamentos inimigos posicionados imediatamente atrás de nós. No entanto, se ele conseguisse, já poderíamos começar a comemorar a vitória pois ele era o último soldado.

Vi quando renderam o soldado Rian, lhe bateram com o rifle e o levaram arrastado. Uma vez prisioneiro no 4o quadrante, Rian tentou escapar através da 20a e 22a bases, que estavam livres, mas levou azar: vieram as Senas Obscenas e o impediram. As Senas costumam aparecer nesses piores momentos. A seguir o inimigo conquistou a 20a e aí a coisa piorou de vez pois Rian passou a dispor de apenas uma única base para escapar, exatamente a 22a, e durante três tentativas consecutivas não conseguiu, o que possibilitou ao inimigo retirar com tranquilidade um destacamento inteiro do 1o quadrante e levá-lo ao 3º.

A sorte é que o inimigo também não foi competente o suficiente para conquistar a 22a, deixando-a livre para mais uma tentativa de fuga. Foi assim que pude vislumbrar uma saída. Levei o plano ao comandante Martan.

– Deixe ver se entendi. Você quer se entregar, sargento Veras?

– Sim, comandante.

– Na 11ª?

– Exato, senhor.

– Você acha que aquele bunda-mole do Rian vale seu sacrifício?

– É o meu melhor soldado, senhor. Sem falar que ele anima bastante as noites da companhia com o seu violão. É a única chance que temos de vencer. Atrairei o destacamento que ocupa a 10a e me deixarei aprisionar. Juntos, eu e Rian teremos mais chances de escapar do que ele sozinho.

– Ou então perderemos de vez esta batalha. Mesmo que vocês dois escapem, talvez não consigam retornar a tempo.

– Dê-me uma chance, senhor.

O comandante Martan levantou da cadeira e caminhou pela sala, o olhar no chão. Foi até a janela e ficou a observar a movimentação de alguns destacamentos lá fora, nos rostos dos soldados a visível apreensão pelo companheiro aprisionado. Nós sabíamos perfeitamente o que aqueles demônios faziam com seus prisioneiros. Talvez, aquela hora, Rian sequer estivesse vivo para merecer que o Comando alterasse seus planos e fosse lá tentar resgatá-lo.

Mas eu sentia que ele estava vivo, que ele resistira a tudo o que porventura houvessem lhe feito. Havíamos nascido ali, vivido nossa infância no meio daquelas montanhas, daqueles rios. Conhecíamos todas as árvores e sabíamos os atalhos e as cavernas. Juntos participamos da tomada do 3o Quadrante na batalha de Barbanetto e, praticamente sozinhos, esfarelamos dois destacamentos, mandando-os para a prisão. Eu não podia voltar ao QG assim, deixando Rian lá, sozinho, a mercê do sadismo daqueles monstros.

– Sargento Veras, às vezes é melhor salvar o que possuímos do que arriscar perder tudo.

– Sei disso, senhor.

– Estamos em vantagem aqui em Ludicósia e não estou disposto a perder o que já conquistei. A guerra nos ensina a ser práticos. Um soldado a menos não interferirá no resultado final. Por outro lado, se perdermos você, eles, além de tomarem sua posição, poderão nos fazer um bom estrago.

A cruel lógica da guerra estava ao seu lado, eu sabia. Mas eu tinha que tentar.

– Eles ainda não conquistaram a 22ª, senhor. Podem fazê-lo na próxima investida, eu sei. Mas se eu atraí-los na 11a, isso lhes desviará a atenção e eles ainda desmontarão a barricada na 12a.

– Nada garante.

– Eles me querem prisioneiro, senhor. Isca melhor não há. Barbanetto ainda está atravessada na garganta deles.

– Para seu plano dar certo, sargento, vocês teriam que sair imediatamente e ocupar a 22a.

– Operação Ternos Eternos, senhor. Já está engatilhada.

– Se não conseguirem na primeira tentativa, tudo estará perdido.

– Conseguiremos, senhor.

Ele me encarou durante um bom tempo. Era como se tentasse ver através de meus olhos um indício qualquer que enfim lhe revelasse minha incompetência para tal missão. Bastaria um indício qualquer, qualquer um… Quem poderia acreditar em missão tão suicida?

– Permissão concedida, sargento Veras. Tentaremos resgatar o soldado Rian.

Ele saiu e eu saí atrás dele, sorrindo por dentro. Agora tudo que eu precisava era apenas que toda a sorte do mundo estivesse ao meu lado, só isso.

(…)

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> Este conto integra o o livro Baseado Nisso

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Ricardo Kelmer – blogdokelmer.wordpress.com


Plutão sai de férias (trecho)

Dezembro 23, 2008

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Plutão sai de férias
O baseado acontecedor é aquele que provoca acontecimentos inusitados. Alfredo fumou um desses e reencontrou um amigo que acha que sua mulher o está traindo.

(trecho do conto)

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Alfredo abriu o estojinho, olhou, olhou e escolheu o baseado acontecedor. Era uma noite de sexta-feira e havia lhe batido uma vontade de fazer algo diferente. Então nada mais apropriado que um fumo acontecedor.

Sim, porque existiam diversas qualidades de fumo, ele sabia disso. Existia o fumo energético, que servia perfeitamente para jogar bola, por exemplo. Existia o fumo musical, ideal para escutar Pink Floyd, Frank Zappa, Renascence, Cristiano Pinho, Érico Baymma… Havia também o namorador, o leitor, o Warner Bros, o bom-dia, o digestivo etc. Bom maconheiro que era, Alfredo sabia das melhores plantações e comprava direto na fonte, controlando assim a exata origem do fumo. Com o tempo aprendera a catalogá-los, cada um na sua especialidade.

O acontecedor atraía situações insólitas, era essa sua especialidade. Situações nem sempre positivas, é verdade, mas esse era um risco que se corria. Fumo ideal para quem gostava de novidade. Pois bem, pensou Alfredo, acendendo o cigarro, vamos ver agora o que é que acontece. Eram sete horas da noite de uma sexta-feira.

Alfredo sentou no sofá e ligou a TV. Já sentia o efeito do fumo, como se os sentidos e o raciocínio se prolongassem além dos próprios limites, descortinando novos horizontes de possibilidades. Procurou algo nos canais, zap-zap, mas não encontrou. Então pegou o jornal, começou a folhear. No caderno de variedades, entre as mesmices de sempre, encontrou algo curioso: uma palestra sobre astrologia cármica.

– Mas que porra é essa?

Meia hora depois lá estava Alfredo no Olimpo Center, ficava pertinho  de casa. Sala 14, ficava no final do corredor. Escolheu uma cadeira nos fundos da sala e sentou-se, observando as pessoas. Um bando de esotéricos malucos, pensou, que conhece profundamente os segredos da vida. Esse povo que à noite sai do corpo pra ajudar desencarnados a deixar de vez o corpo físico. Esse povo que alardeia suas vidas passadas como quem exibe conquistas sexuais ou fala do carro novo. Alfredo balançou a cabeça. O fumo acontecedor o fizera ir a uma palestra sobre astrologia cármica, fosse lá o que isso significasse, em plena noite de sexta-feira. Agora era relaxar.

Mas que nada. Não suportou muito tempo. Como é que em pleno século 20, perguntava-se, ainda havia pessoas que se deixavam influenciar pelos astros? Então levantou e saiu, aliviado. No corredor parou para beber água.

– Fala, Alfredo! Tá lembrado de mim?

Pronto, gente conhecida. Numa palestra de astrologia cármica. Êta, mundo pequeno.

– Ahn… Plínio.

Era o Plínio, amigo da faculdade, uns cinco anos que não se viam.

– Não sabia que você se interessava por esses assuntos.

– Na verdade não muito – disse Alfredo, enxugando a boca.

– Dois amigos que se encontram. Anos sem ser ver. Encontram-se sexta-feira à noite. Numa palestra de astrologia cármica. O que é que isso quer mostrar? Heim? Quer mostrar…

– O quê?

– Então, tô dizendo. O que é que isso quer mostrar? Heim? Quer mostrar que isso é um Acontecimento. Com A maiúsculo. A… contecimento – repetiu Plínio, desenhando no ar a letra A.

– Ahh…

Plínio sempre gostara daqueles temas. Pelo jeito continuava o mesmo: ingênuo e acreditando em tudo. Em tudo que não existia.

– Já tá saindo, Alfredo? Eu também. Tá indo pra onde?

– Tomar uma cerveja. Sabe de algum bar aqui perto?

– Tem o Opunte bem aqui na esquina.

– Opunte. Que nome.

– Vou com você. Eu já assisti essa palestra.

– Ah, é?

– Cinco vezes.

Dez minutos depois, já na primeira cerveja, Alfredo admirava o traseiro de uma mulher que levantara da mesa vizinha quando escutou Plínio comentar algo.

– Como?

– Sexo anal.

– O que é que tem?

– Não é recomendável, sabia?

– Ora, e por quê?

– Infesta o mundo astral. O astral fica que é um fedor só.

– Que papo, Plínio… Só se for os que você anda pegando por aí…

– É sério. Se quiser lhe mostro um livro que explica isso.

– Depois. Tô com muita coisa pra ler.

– Ôba, então vamos comemorar.

– O quê?

– Comemorar que Plutão está mais próximo do Sol que Netuno.

– Não sabia. Está, é?

– Está.

– Ora veja. Então precisamos comemorar – Alfredo ergueu o copo. Comemorar que Plutão estava mais próximo do Sol. Isso sim era um pretexto.

Soubera um tempo desses que o Plínio terminara casando com a Nisa, a gostosa do curso. A mais gostosa e também a mais galinha de todas, fama de fogosa e competente. Grande Nisa. Pensando bem, até que os dois tinham algo a ver. O Plínio sempre fora chegado em astrologia e a Nisa botava tarô nos intervalos, cobrava cinco paus, lembrava bem. Tinha uns peitões maravilhosos. Grandes e filantrópicos – ela os oferecia em decotes todos os dias, como numa bandeja, generosíssimos. A sabedoria popular, aliás, juntando seus dotes físicos e espirituais, alcunhou-a oportunamente Peitonisa. Pois bem, a Peitonisa casada com o Plínio. Que coisa.

– Mas por quê?

– Por que o quê?

– Por que Plutão está mais próximo do Sol que Saturno? – perguntou Alfredo. Quase dissera “peitão”.

– Saturno não, Netuno.

– Netuno.

– Por causa de sua órbita. É mais elíptica – explicou Plínio, gesticulando a órbita de Plutão. – Entendeu? Mais elíptica, ó… – e repetiu o gesto. – Faça aí pra ver se entendeu mesmo.

– Entendi, pode continuar.

– Isso faz com que às vezes ele se aproxime mais do Sol que Netuno, que normalmente está mais próximo.

– Ahh.

Uma vez aconteceu, já no final do curso. A Nisa lhe concedera o prazer de chafurdar o rosto entre os peitos dela, por trás da cantina. Ficou maravilhado, que nem menino em parque de diversão, que não sabe o que escolher. E só não chegaram às vias de fato porque tinha gente por perto. Então o curso terminou e nunca mais teve outra chance. Nisa e seus peitos impossíveis sumiram de sua vida. Essa era a grande falha de seu currículo universitário. Reprovado em Introdução a Peitonisa.

– Mas por quê? – perguntou Alfredo, rindo sozinho. Melhor parar de pensar na mulher do amigo, coisa feia.

– Por que o quê?

– Por que brindar a isso? Ainda não entendi.

– Ora, porque essa situação só vai durar até 1999. Um nove nove nove.

– Que situação?

– Plutão estar mais próximo do Sol que Netuno. Começou em sete nove e vai até nove nove.

Não mudara nada. Era o mesmo chato de antigos tempos, com seus planetas, suas órbitas, a simbologia. Tomaria três cervejas com ele, divertiria-se um pouco com suas histórias mirabolantes e pronto, depois iria para casa rastrear alguma coisa na tevê e fumar o velho dorminhoco. O acontecedor já fizera sua parte: encontrar o Plínio depois daqueles anos todos era realmente um acontecimento. Um Acontecimento. O Plínio às vezes se tornava um pouco chato, é verdade, mas também era um sujeito engraçado.

– E o que é que tem de tão importante numa coisa dessa, Plínio?

– Você não percebe?

– Perceber o quê?

– Isso são as férias de Plutão. Plutão vai à praia.

– Ahhhh…

Plutão vai à praia. Alfredo ficou pensando no planeta Plutão de calção e chinelas havaianas, segurando uma bóia, o jornal debaixo do braço.

– Vai, por que não? Os deuses também têm direito a férias.

– Sem dúvida.

A mitologia romana! Havia esquecido da mitologia romana. Quantas vezes, no intervalo das aulas, Plínio o puxara para falar das eternas confusões que Mercúrio aprontava e de como Juno descobriu que a ninfa Eco favorecia as infidelidades de Júpiter ao distraí-la com longas histórias e assim Juno a puniu, condenando-a a não mais falar sem que fosse interrogada e a só responder às perguntas com as últimas palavras que lhe fossem dirigidas. Daí seu nome, Eco.

– Quando Plutão vai à praia, sabe o que acontece?

– Juro que não sei, Plínio.

– Plutão é irmão de Júpiter e Netuno, todos filhos de Saturno, o deus que devorava seus filhos. Eles se rebelaram contra o pai e dividiram os reinos. Júpiter ficou com o Céu, Netuno com o Mar e Plutão com o Inferno. Plutão é o deus do Inferno, lugar pra onde vão todas as almas depois da morte, pra serem julgadas. Pois olha só: quando ele tira férias, o Inferno vira uma bagunça: falta funcionário, o serviço acumula, o barqueiro que faz a travessia do rio cobra mais caro, morto volta porque não tem ninguém pra receber, é uma confusão. O que é que isso quer dizer? Heim? Quer dizer que…

– O que é que quer dizer?

– É isso que eu tô dizendo. O que é que quer dizer? Quer dizer que mesmo que você morra, corre o risco de não poder entrar no Inferno. Aí o que é que acontece?

– O que é que acontece?

– Deixa eu dizer, você é muito impaciente. O que é que acontece? Heim? Acontece que muitos que morrem ficam por aí vagando, sem saber pra onde ir, alma penada zanzando de lá pra cá – e ele mostrava com as mãos como as almas penavam, de lá pra cá, de cá pra lá – esperando que Plutão volte de férias e reorganize o Inferno pra poder enfim recebê-las.

– Pros antigos não havia paraíso depois da morte?

– É que o Inferno tem várias partes. Olha só, vou explicar. A primeira é o Érebo, onde tem um rio tenebroso chamado Cocito, feito das lágrimas dos maus. Caronte, o barqueiro do Inferno, é o encarregado de levar as almas ao julgamento, no Campo da Verdade. Mas Caronte se recusa a levar as almas daqueles que não tiveram sepultura e assim eles vagam pela margem do rio a implorar durante cem anos até que o barqueiro canse de recusá-los.

– Que coisa horripilante.

– Demais. Depois vem o Inferno dos maus, um lugar absolutamente terrível, pra onde vão os condenados. Tem rios de lava, pântanos lamacentos e fedorentos, lagos gelados onde as almas são mergulhadas e outras barbaridades. Depois vem o Tártaro. No Tártaro fica o palácio de Plutão e a prisão dos antigos deuses expulsos do Olimpo. Por último vêm os Campos Elísios, o paraíso.

– E quem julgava?

– Três juízes: Éacos, Minos e Radamanto. Quem é condenado vai pro Inferno dos maus. Permanece lá o tempo que for necessário. Quando sair de lá, vai pro setor de reencarnação onde recebe o roteiro de sua próxima vida. O que é que isso significa? Heim? Significa… Peraí, deixa eu falar, significa que durante esses vinte anos em que Plutão saiu de férias, muita alma ficou penando por aí pelo meio do mundo.

– Ficou?

– Ficou.

– Sério?

– Sério.

– Você viu alguma?

– Já vi sim, várias vezes.

– Onde?

– Lá em casa, por exemplo, tem um espírito que toda sexta aparece. Foi o primo da minha mulher quem viu pela primeira vez.

– Na sua casa?

– Meu primo estava hospedado lá, passando o fim de semana. Levantou de madrugada pra beber água e viu o espírito. Foi seguindo, seguindo e descobriu que ele tava indo pro quarto da minha mulher.

– E você? Viu também?

– Eu tava viajando nesse dia.

– Ah. Viajando.

– Mas é verdade, minha mulher confirmou.

– Sua mulher também viu?

– Viu. E disse até que o espírito deixou um buquê de narcisos de presente pra ela.

– Um buquê de narcisos.

– Pois foi.

Um dia, três anos antes, encontrara a Nisa no shopping. Olharam-se maliciosamente, ela lhe piscou um olho e ele só não foi lá ter com ela porque estava acompanhado. Mas naqueles poucos segundos toda a cena lhe passou novamente no pensamento, inteirinha, Nisa subindo a camiseta, os peitões mais desejados da Humanas. Por alguns segundos sentiu-se novamente encostado à parede da cantina. Sentiu inclusive o cheiro oleoso do velho sanduíche de queijo. O encontro no shopping fora três anos antes e no dia ele não sabia que ela já era mulher do Plínio, a danada. E agora ela certamente estava dando pro primo, nas barbas do marido. E o coitado acreditando em espíritos.

– Ô, Plínio…

– Diz. Garçom, mais uma estupidamente.

– Você que é mais entendido que eu nesses assuntos, me diz uma coisa. Por que essas almas, já que não podem entrar no Inferno, não fazem como Plutão e vão pegar uma praiazinha também? Tanta coisa melhor pra fazer do que ficar assustando a mulher dos outros no meio da madrugada…

– Não sei. Acho que elas não podem frequentar a mesma praia dos deuses. Nunca tinha pensado nisso. Vou consultar.

– Faz isso.

– Pode deixar.

– Ô, Plínio…

– Do que é que você está rindo?

– Desculpe – Alfredo não sabia se devia dizer. – Posso ser bem franco com você?

(…)

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> Este conto integra o o livro Baseado Nisso

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Ricardo Kelmer – blogdokelmer.wordpress.com


Questão de dias (trecho)

Dezembro 23, 2008

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Questão de dias
A mãe de Luís Carlos encontrou maconha no armário do filho. Ele prometeu que pararia de fumar e agora o pai quer que ele marque o dia.

(trecho do conto)

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– E aí, filhão, já marcou o dia? – perguntou seo Tavares, sorridente, dando um leve tapinha na cabeça do filho, como fazem os amigos camaradas.

– Ainda não, pai – respondeu Luís Carlos, terminando a sobremesa do almoço. – Mas não tá longe não.

– Certo, certo… Mas você não acha que esse dia tá demorando muito, meu filho?

– Ah, pai, tem que ser um dia especial, né? Não pode ser qualquer dia…

– Tá certo, tá certo – concordou seo Tavares. – É mesmo um dia especial. Mas não demore muito. O tempo costuma enterrar as decisões que a gente toma e demora a realizar.

– Beleza, pai.

Luís Carlos limpou a boca no guardanapo, pediu licença e levantou-se, tinha que voltar à loja. Beijou a mãe e o pai e saiu para o ponto de ônibus. No caminho ia pensando no absurdo da situação. O pior é que não tinha idéia de como sair da enrascada.

Tudo começara naquela noite de segunda-feira. Ele chegou da loja à noite, tomou banho e jantou normalmente com os pais. Não desconfiou de nada. Depois do jantar foi ao quarto, tendo antes o cuidado de fechar a porta. Abriu o guarda-roupa, foi na última gaveta e retirou a velha caixinha de madeira. E levou um susto: não havia nada na caixinha. Puta merda, cadê a parada?, pensou enquanto procurava por entre as cuecas e as meias. Nada. O fumo havia sumido. Por um instante imaginou que houvesse deixado em algum outro lugar. Mas não, era ali mesmo que guardava, sempre foi. Sentou-se na cama e remoeu o pensamento atrás de alguma pista. Foi nesse instante que a mãe bateu na porta e entrou.

– Filho, a gente podia conversar um pouco?

Ih, sujou…, ele pensou, já imaginando tudo. Então dona Leonor contou. Fora procurar um par de meia do marido no guarda-roupa do filho quando se deparou com aquela caixinha.

– E o que a senhora fez com o que tava dentro, mãe? – Luís Carlos queria saber.

– Meu filho, você não jurou pra mim e pra seu pai que tinha parado com essa coisa?

Luís Carlos sentiu o coração gelar, aquilo não podia estar acontecendo, que merda… Vamos, Luís Carlos, pense rápido, vamos… Precisava encontrar um meio de se safar de mais aquela. Mas agora a coisa era séria: ela havia descoberto a parada e não adiantaria dizer que não era dele, que não sabia que diabo aquela coisa estava fazendo ali no bolso do seu casaco. Não dava mais para continuar nas velhas desculpas.

– Meu filho, você é um menino tão bonito, inteligente. Tem um emprego bom, tem pais que adoram você… Maconha é coisa pra marginal, meu filho, e você não é marginal. Ô, Luís Carlos…

Dona Leonor já ameaçava chorar. Era preciso pensar rápido.

– Mãe, o que a senhora fez com a…

– Você nunca pensou que um dia pode ser preso, meu filho? Ô, Luís Carlos, isso é uma coisa tão triste…

– Desculpe, mãe. Mas não chore não, tá? Não chore que dessa vez eu prometo que vou parar. Dessa vez é sério.

– Você jura, meu filho?

– Juro pelo meu glorioso alvinegro.

– Ah, Luís Carlos, isso não é jura que se faça! Jure por uma coisa séria.

– Mas mãe, você quer coisa mais séria que…

– Seu glorioso foi rebaixado. Não vale mais nem jura.

– É, mas a senhora viu que naquela última partida…

– Não mude de assunto.

Ele olhou para a flâmula do time na parede, mais para fugir do olhar da mãe, que o encarava daquele jeito que só as mães sabem fazer. Dessa vez a situação extrapolara. Tinha que dizer algo certeiro. Mas o quê?

– Está bem, mãe, está bem.

Vamos, Luís Carlos, pense em algo, pense.

– Está bem, mãe.

Isso, continue.

– Ok, mãe, ok.

Algo mais criativo, Luís Carlos.

– Eu lhe peço desculpas, mãe, pela tristeza que eu possa estar lhe causando. Desculpe, viu?

Bom começo. Continue, está indo bem.

– Olhe, mãe, eu vou ser sincero com a senhora…

Essa era sempre uma boa frase. Boa para ganhar tempo. Mas perigosa porque agora tinha de ser sincero mesmo.

– Isso é só uma fase, mãe. Eu sei que é só uma fase e que um dia vai passar. A senhora não pensa, por acaso, que eu quero passar o resto da minha vida fumando maconha, né? Isso não tem cabimento. Um dia eu sei que isso vai perder a importância e eu vou parar, eu sei disso.

Ele percebeu um leve brilho de esperança no olhar da mãe e continuou:

– Eu só preciso de um tempo, mãe. Isso não vai durar a vida toda. Eu sei. Lembra quando eu tomava aqueles porres de rum todo fim de semana e ficava passando mal, acabado no sofá? Lembra, né? Foi uma fase braba. É, foi mesmo. Mas passou, não foi? Foi só uma fase. Pois é. Da mesma forma agora, mãe. Eu sei que um dia eu vou olhar prum baseado e dizer assim pra ele: “Quer saber de uma coisa, meu chapa? Não tô mais a fim de fumar você não.” E aí acabou, não fumo mais.

Bela argumentação. Digna de um tribunal. Às vezes se surpreendia consigo mesmo. Bem que o pai ainda tentara fazê-lo advogado, herdar o escritório, ele é que não quis. Dona Leonor olhou para o filho e o abraçou emocionada. Luís Carlos sentiu-se aliviado. Teria sido perfeito se o pai não surgisse à porta do quarto.

– Tudo bem, filho, mas se você quer mesmo parar, então precisa levar a coisa a sério e marcar logo a data.

– Marcar a data? – Luís Carlos soltou-se da mãe, surpreso.

(…)

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> Este conto integra o o livro Baseado Nisso

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Ricardo Kelmer – blogdokelmer.wordpress.com


Os revolta (trecho)

Dezembro 23, 2008

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Os revolta
Pais maconheiros e filhos caretas. Isso pode dar certo?

(trecho do conto)

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Tarde de sábado no shopping. Na saída do cinema Rosinha escutou seu nome:

– Rosinhaaaaaaaaa!!!

Era a Neusa, amiga das antigas, anos e anos que não se viam. Rosinha cutucou o marido.

– Olha só, Robledo! A Neusa e o Charles. Lembra deles?

– Será que ainda são muito chatos?

– Ah, deixe disso, Robledo… Eles também não são assim como você diz.

– São piores, Rosa.

– Pelo menos se comporte. Eles sempre gostaram muito de você.

– Como é mesmo o nome dos filhos deles? São uns nomes assim bem babacas…

– Oi, Neusa!

Abraço para cá, abraço para lá, como vão as coisas, quanto tempo, e os meninos, cadê o resto da turma.

– A gente podia sentar ali, Neusa. Tomar um chope, botar os papos em dia…

– Ai, adorei. Vamos, Charles? A gente liga pros meninos e avisa que vai chegar um pouco mais tarde.

Sentaram à mesa e pediram chopes e tira-gostos. E lembraram muitos fatos divertidos. Charles lembrou um carnaval em que ele e Robledo saíram de mulher e um sujeito quase os atropelou. Apesar de não terem se ferido, decidiram ir à delegacia prestar queixa e os policiais simplesmente não conseguiam levar a sério a situação, um vestido de odalisca e outro de coelhinha com cenoura e tudo.

– Bledinho, você nunca me contou desse episódio…

– Bledinho?! – gozou Charles. – Ela chama você de Bledinho?

– Ô, Neusa, já te disse pra não me chamar assim em público. Olha aí o que é que dá…

– Você ficava muito bem de mulher, Robledo. Hoje tá com mais barriga, né?

– É. Tô com mais barriga mas em compensação tô com menas bunda…

E Robledo riu, satisfeito com a própria piada, vingado.

– E os meninos, Neusa? Já devem estar grandes, né?

– Enormes!

– Como é mesmo o nome deles? – perguntou Robledo.

– Charles Jr. e Anna Priscilla. Com dois N e dois L. Ele tem quinze e ela treze.

– Charles Jr. E Anna Priscilla, isso! – disse Robledo, se controlando para não rir.

– Nossa, como o tempo passa, Neusa… Peguei esses meninos no colo…

– E vocês?

Rosinha cutucou o marido.

– O Robledo não quer filho. Não gosta de menino.

– Ah, Robledo… – protestou Neusa. – Filho é ótimo. Dá trabalho no começo mas depois melhora.

– Depois acostuma, isso sim – consertou Robledo.

– E como é o relacionamento de vocês, Neusa, é legal, é aberto? – quis saber Rosinha, se empolgando com o assunto.

– Ah, é maravilhoso. A gente se entende bem. Tem aqueles desentendimentos que pai tem com filho mas é assim mesmo.

– Difícil hoje em dia os filhos se entenderem bem com os pais – completou Charles.

– É. Mas com a gente não tem problema. Eles têm a liberdade deles e a gente tem a nossa.

– Que bom, Neusa. O Charles Jr. já decidiu o que vai ser?

– Ainda não. O negócio dele por enquanto é computador. Se deixar, passa o dia lá. Aliás, foi com ele que eu aprendi a mexer em computador.

– Viu, Robledo, como filho é uma coisa boa?

– É sim, eu sei – respondeu Robledo, terminando seu chope e pedindo outro. – Pra vender jogo de computador então é uma maravilha…

– Ai, Robledo, não sei como é que eu casei com você!…

Algumas rodadas depois, Charles inclinou-se para o centro da mesa e jogou a indireta:

– Mas por falar nisso, e vocês, ainda curtem um… – e fez o tradicional gesto juntando os dedos, insinuante.

– Não acredito! – respondeu Rosinha, surpresa. – Vocês ainda fumam também?!

– Psiu, Rosa! – reclamou Robledo, beliscando a mulher. Quer que o shopping todo saiba?

– Eu achava que a gente era o último casal maluco da turma! – Rosinha riu, tapando a boca.

– Que nada. Eu e o Charles ainda fumamos. Não como naquele tempo, né, que ali também já era exagero. Mas vez em quando o Charles consegue uma coisinha. Vocês não tão a fim?

– Eu tô – respondeu Rosinha, animada. – Tá, Bledinho?

Robledo disse que sim. Então pediram a saideira, pagaram e rumaram para o apartamento de Neusa e Charles.

– Psiu! Os meninos já podem ter chegado – avisou Charles, abrindo a porta do apartamento. – Esperem aqui na sala que eu vou conferir.

E sumiu no corredor, pisando no chão de mansinho, pé ante pé. Voltou logo depois.

– Ainda não chegaram. Dá tempo a gente fumar. Entrem, entrem, fiquem à vontade. Eu vou buscar.

(…)

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> Este conto integra o o livro Baseado Nisso

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Ricardo Kelmer – blogdokelmer.wordpress.com


Menu de homem

Dezembro 22, 2008

mulhercomida01aNa onda da mulher-melancia, mulher-jaca, mulher-filé e outras classificações femininas hortifrutigranjeiras, nada mais justo que nós, homens do sexo masculino, sermos também classificados.

Dia desses recebi um imeio que falava disso. Então decidi transcrever aqui, acrescentando um comentariozinho. Com você, leitorinha, o Menu de Homem. Fique à vontade pra escolher.

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Homem-Miojo: em três minutos tá pronto pra comer
> Ops, vamos esclarecer esse negócio. Todo homem, por natureza, é homem-miojo. A não ser que o fogo esteja muito baixo.

Homem-Lagosta: só come quem tem dinheiro
> Confesso: tem época que eu sou o próprio Homem-PF.

Homem-Camarão: só tem merda na cabeça mas é gostoso e você come assim mesmo
> Meu amigo Marquinhos era um desse. Não conseguia emendar um papo sério sobre nada, só se interessava por duas coisas: maconha e mulher. Nesta ordem. E ainda tinha um dente faltando aqui do lado. Mas tinha algo que parecia ser irresistível aos olhos femininos, acho que era o jeitinho de safado dele, sei lá. Toda vez que eu via o Marquinhos com uma mulher maravilhosa, e isso era frequente, eu jogava fora os livros que eu tava lendo. E cancelava o dentista. Tá decidido: quando eu fizer 70 anos, vou virar homem-camarão.

Homem-Caranguejo: é feio e peludo mas você bate nele, limpa direitinho e come
> Bate, limpa e come? O que é isso? Um ritual de sadomasoquismo, fetiche de bebê e antropofagia? Meninas, vocês andam muito afoitas, calma. O mundo só vai acabar em 2012.

Homem-Pão: tem sempre o mesmo gosto mas você come todo dia
> Comer a mesma coisa todo dia? Não vocês não podem ser humanas.

Homem-Bacalhau: você só come uma vez por ano
> E na frente de todo mundo.

Homem-Rã: todo mundo já comeu, menos você
> Essa me lembra a diferença entre a puta, a filha-da-puta e a chata. A puta é aquela que dá pra todo mundo, até pra você. A filha-da-puta dá pra todo mundo, menos pra você. E a chata só quer dar pra você.

Homem-Salada: é bonito mas quando você come descobre que não é tão gostoso assim
> Então eu devo estar mais pra Homem-escargot.

Homem-Jiló: é horrível mas você conhece alguém que come
> Se o jiló tiver uma conta polpuda, você conhece vááárias que comem.

Homem-Feijoada: você come e ele fica te enchendo o dia todinho
> Homem encher o saco depois de uma trepada? É o fim do mundo.

Homem-Cafezinho de supermercado: você nem faz questão mas como é de graça, você come
> De graça? Tudo bem. Mas como sou um grande defensor da emancipação feminina, você paga o motel, tá, fia?

Homem-Docinho de festa: você fica com vergonha de chegar junto, então vem outra, come e deixa você chupando dedo
> Bem feito.

Homem-Cogumelo venenoso: comeu, tá fudida
> Prefiro ser apenas o Homem-Cogumelo: é uma viaaagem…

Homem-Coqueiro: pode trepar que não tem galho
> Às vezes o galho dá na testa.

Homem-Bis: você come, repete e nem se lembra das calorias!
> Tenho o tradicional e o de chocolate branco, viu?

Homem-Coca 2 litros: dá pra seis
> Mas vai ligeiro senão sai o gás.

Homem-Pé-de-chuchu: você é obrigada a comer senão a vizinha vai lá e come
> Ô coisa saudável é concorrência…

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Ricardo Kelmer 2008 – blogdokelmer.wordpress.com


A profecia (trecho)

Dezembro 22, 2008

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A profecia
A melhor maconha da galáxia, a da Terra, está faltando no mercado. Os culpados são os mulgélicos, fanáticos religiosos que tomaram o poder no planeta. O Conselho Intergalático se reúne para decidir o que fazer.

(trecho do conto)

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A Sra. Ziegr, presidenta do Conselho da Confederação Galática, entrou na sala e ocupou sua poltrona à grande mesa. Ela trazia o semblante sério e nas mãos alguns envelopes.

– Conselheiros, bom dia. Convoquei-os a esta reunião extraordinária porque acabo de receber o relatório do Centro de Registros. Como é de conhecimento de todos, fatos preocupantes estão acontecendo no planeta Terra. Por causa deles seremos obrigados a cortar o suprimento da canabis terráquea a todos os planetas confederados por tempo indeterminado.

O rumor na sala foi geral.

- Silêncio, por favor, silêncio!

Mas os rumores cresciam e a presidenta Ziegr teve de bater na mesa. Ela entendia perfeitamente o porquê da indignação. Todos já haviam protestado em reuniões anteriores pela diminuição da cota de canabis terráquea para seus planetas e alertavam para o perigo do corte definitivo.

– Eu sabia que isso ia acontecer! – protestou o conselheiro Baqt. – Todos sabiam! Menos o Centro de Registros!

– Por favor, conselheiros! Deixem-me mostrar o relatório antes de discutir o que faremos.

As vozes se calaram e a presidenta Ziegr passou a ler o relatório. Ele dizia que a canabis já não podia ser encontrada com facilidade no planeta Terra e que já se estudava a possibilidade de pesquisar outros planetas para o plantio.

– Bobagem! – levantou-se Baqt, irritado. – Todo mundo está cansado de saber que, exceto a Terra, nenhum planeta desta zona da galáxia reúne condições perfeitas para o plantio da canabis!

– Isso mesmo! – complementou uma conselheira. – Por que gastar verbas com pesquisas inúteis? Precisamos intervir antes que a canabis terráquea seja totalmente extinta.

– Exatamente! Minha família, por exemplo, não fuma um baseado que preste faz mais de um ano – gracejou Reuzaramon, o mais velho dos conselheiros.

Ziegr escutou com paciência mais algumas considerações. Estavam todos revoltados. Então prosseguiu:

– Conselheiros, a canabis terráquea é material estratégico para a galáxia, todos nós sabemos. Foi ela que propiciou o desenvolvimento ecológico de todos os nossos planetas e nos permitiu superar a delicada fase do término dos combustíveis fósseis. Para isso, no entanto, a Confederação agiu de forma não muito ética para com um planeta irmão. Durante milênios, nossas naves abordaram a Terra e de lá retiraram a canabis para abastecer nossos mundos.

– Eram os deuses astronautas? Não. Eram os deuses maconheiros – sussurrou Reuzaramon para o colega ao lado.

– Agimos assim porque os terráqueos não estavam preparados para nos conhecer, claro – continuou Ziegr. – Agora, porém, grandes mudanças operam naquele planeta e exigem que tomemos uma posição.

– São os mulgélicos, aposto!

– Eles mesmos – respondeu Ziegr.

– Calhordas! – gritou Baqt, erguendo-se. – Por causa deles só estou fumando maconha de Fens, aquela porcaria.

– Conselheiros, semana passada a nave da Monitoria 54 resgatou, da órbita da Terra, uma pequena cápsula contendo informações valiosas. São textos e imagens sobre o momento atual da Terra e que confirmam o último relatório do Centro de Registros.

Ziegr entregou a cada um dos conselheiros um óculos projetor, pediu que cada um assistisse com atenção e encerrou a reunião, avisando que prosseguiriam à tarde.

Reuzaramon, o mais velho dos conselheiros, rumou para o jardim dos fundos do prédio, lá era mais agradável. Sentou-se num banco, pôs o óculos projetor e ligou. Enquanto as imagens tridimensionais se formavam à sua frente, ele escutava…

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A ecologia toma impulso no planeta Terra no final do segundo milênio da era cristã com a constatação de que a sociedade industrial e tecnológica produzia riqueza e conforto mas também gerava um enorme perigo ao planeta e a todas as formas de vida. A partir daí uma crescente conscientização ecológica desenvolveu-se e direcionou os rumos de uma nova noção de desenvolvimento para o planeta: o desenvolvimento sustentável, onde a prioridade é manter os avanços tecnológicos sem abrir mão do equilíbrio ambiental.

No primeiro século do terceiro milênio um acontecimento crucial vem somar-se a toda essa revolução: a canabis, até então criminalizada em quase todo o planeta, é reconhecida oficialmente pela maioria dos blocos geopolíticos como matéria-prima estratégica para a sociedade. O baixo custo, a alta performance produtiva, a não-necessidade de agrotóxicos e o seu caráter limpo e renovável a credenciam como a grande alternativa ecológica para a crise dos combustíveis fósseis que se instalara no mundo.

Assim, sob recomendação da ONU, os blocos geopolíticos mudam suas leis e descriminalizam a canabis. Cultivar, comercializar e consumir maconha deixa de ser crime e as leis referentes a ela se inspiram nas leis que regulamentam outras drogas legalmente aceitas como o álcool. Dessa planta altamente estratégica extraem-se milhares de produtos essenciais ao dia-a-dia da sociedade, permitindo que o mundo respire aliviado após décadas de medo e incertezas quanto à saúde do planeta. A planta mostra-se eclética a ponto de ser utilizada também na medicina terapêutica.

Junto à canabis, outros recursos naturais também passam a ser utilizados dentro dos princípios do desenvolvimento ecológico. A canabis, porém, logo apresenta-se como carro-chefe dessa transformação pois à sua intensa utilização industrial vem juntar-se o tema das liberdades individuais, gerando providenciais discussões sobre a relação do ser humano com as drogas e a questão do tráfico, da violência e dos interesses econômicos, além de questionar a eficácia dos programas de saúde pública e o tratamento policial dispensado ao usuário.

Nem todos, porém, concordam com isso. Ocorrem protestos em vários setores da sociedade e uma nova organização político-religiosa surge para combater o que ela entende por “exageros da democracia”, como o uso livre da maconha. São os autodenominados mulgélicos (multidões angelicais), fanáticos religiosos de caráter ultraconservador que cultuam a tecnologia máxima e defendem o terrorismo como forma de garantir seus valores. A eles se juntam todos aqueles que discordam da legalização da canabis e assim a organização cresce e promove vários atos terroristas por todo o mundo, utilizando tecnologia química e biológica contra a população. Através de sua política ultra-radical tomam o poder em alguns blocos e aos poucos conseguem exterminar os principais líderes democráticos.

Estamos sob domínio dos mulgélicos há uma década. Eles governam o mundo globalizado, convocando todos a se entregar aos braços de seu deus que em breve, crêem eles, voltará para carregar os abençoados consigo rumo ao paraíso, abandonando na Terra os seguidores do demônio. Os mulgélicos perseguem aqueles que não comungam da crença de seu deus e castram as liberdades individuais conquistadas. Para eles a canabis é a personificação do Mal e precisa ser combatida com toda a força e métodos possíveis. De nada adiantam os argumentos médicos e sociológicos, de nada valem os direitos humanos: os usuários passam a ser perseguidos pelo mundo inteiro e mortos com crueldade. E o cultivo da canabis, novamente proibido, abre caminho para o retorno de antigas, caras e poluentes formas de produção industrial, intoxicando novamente o planeta e pondo em risco o equilíbrio ambiental.

O culto exacerbado da tecnologia torna cegos os mulgélicos e eles não percebem que estão conduzindo a espécie humana ao seu extermínio. Contra esses argumentos, e até mesmo contra todos os fatos, eles respondem que seu deus está chegando para resgatá-los e assim ficará provado quem está certo.

Hoje vivemos num planeta praticamente esgotado de recursos naturais e a grande alternativa foi bloqueada pela política repressora dos mulgélicos. O ar, os rios e os oceanos estão sujos. A preservação da fauna e da flora não é mais importante – importante é tentar converter os infiéis. Catástrofes naturais acontecem todos os dias mas os mulgélicos vêem nisso o legítimo cumprimento de suas profecias, o sinal dos últimos dias que antecedem a tão esperada chegada de seu deus.

A única possibilidade que nós, os resistentes dessa ditadura teocrática, vislumbramos foi pedir ajuda a outros planetas. Certamente há vida em outros mundos e talvez eles tenham passado por problemas semelhantes aos nossos. Talvez seus habitantes possam ajudar a Terra a reencontrar o caminho das liberdades individuais e do desenvolvimento auto-sustentável.

Isso é um pedido de S.O.S interplanetário. Talvez ainda haja tempo de salvar este planeta que já foi tão belo. Ainda podemos reaprender a respeitar as liberdades que pertencem ao ser humano. Clandestinamente ainda cultivamos os últimos exemplares da canabis em plantações disfarçadas, o que nos proporciona raros momentos de prazer e a esperança de que ainda podemos retomar o crescimento interrompido. Mas tudo está por um fio pois não sabemos até quando o planeta suportará.

Nosso plano é soltar esta mensagem no espaço, feito uma mensagem de náufrago. Talvez consigamos. É uma operação arriscada e com poucas chances de sucesso. Mas talvez alguma nave a recolha e esta mensagem alcance boas mãos.

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Reuzaramon retirou o óculos projetor e olhou para o céu. Terra…, sussurrou ele. Era realmente um belo planeta. Lembrou que alguns anos antes, apreensivo com os rumos que o planeta tomava, enviara uma mensagem à Terra. Lá era o ano de 1998 e um jovem escritor brasileiro captara em sonho a sua mensagem e a inserira como comentário de orelha no livro que escrevia sobre a canabis. Foi certamente o primeiro livro da Terra cuja orelha foi verdadeiramente escrita por um extraterrestre. Mas a grande maioria dos leitores creditou a coisa toda à criatividade e ao espírito gozador do escritor. De qualquer forma, aquele livro dera sua parcela de contribuição na discussão sobre o tema e ele, Reuzaramon, fizera parte. Era o final do século 20 e, mesmo à sombra dos preconceitos e da desinformação, começava-se a discutir seriamente aqueles assuntos.

Lembrou então que seu planeta natal vivera coisas semelhantes e que a história da evolução das espécies era sempre marcada por momentos cruciais onde velhos e novos valores protagonizavam o dramático teatro do mito do Juízo Final. Antes da criação da Confederação Galática muitos planetas morreram e com eles o seu povo, por não saber encontrar seu caminho de desenvolvimento sustentável e de respeito às liberdades individuais. Hoje a Confederação, ciente de que a morte de um planeta empobrece o Universo, estava sempre atenta para tentar ajudar – mas somente quando isso representava a última chance pois o sagrado princípio da soberania dos mundos regia a Constituição Galática.

Reuzaramon levantou-se do banco, guardando o óculos no bolso. Olhou mais uma vez para o céu e depois seguiu para a sala. Talvez fosse mesmo o momento da Confederação intervir.

(…)

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> Este conto integra o o livro Baseado Nisso

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Ricardo Kelmer – blogdokelmer.wordpress.com


O dia em que papai e mamãe ficaram muito doidos (trecho)

Dezembro 22, 2008

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O dia em que papai e mamãe ficaram muito doidos
Juninho está preocupado. Seus pais decidiram experimentar um baseado para saber o que o filho via de tão bom nisso.

(trecho do conto)

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– Juninho, eu e sua mãe decidimos fumar um baseado com você.

O menino ficou olhando para os pais, sem acreditar no que escutava. Depois de tantos anos insistindo em conselhos, castigos e orações, seu pai e sua mãe resolveram experimentar para saber o que afinal o filho tanto via num cigarro de maconha. O importante era a união da família.

Juninho ficou tão surpreso, atordoado mesmo, que quando deu-se conta já havia entregue o baseado e seus pais estavam sentados em sua cama, fumando e tossindo. Juninho recusou-se a fumar também, inventou uma desculpa qualquer. Mas a verdade é que alguém tinha de ficar careta para segurar a onda.

– Não tô sentindo nada – reclamou a mãe.

– Calma, Vanda, demora um pouco – explicou o pai com ar de entendido. – Não é, Juninho?

– Você tá bem, mãe?

– Tô ótima, quer dizer, tô normal. Normalíssima – respondeu a mãe, rindo.

– Eu também – disse o pai. – Aliás, nunca me senti tão normal em toda a minha vida.

– Mãe, qualquer coisa tem leite na geladeira, viu?

– Engraçado… Vanda, há algo errado com minhas orelhas?

– Suas orelhas? – ela olhou curiosa para o marido. – Não, Afonso, por quê?

– Elas estão maiores, não?… – Ele apalpava as orelhas, intrigado.

– É normal, pai. É viagem.

– É normal as orelhas crescerem? – perguntou o pai, indo conferir no espelho do banheiro.

– Pois eu continuo normalíssima – observou a mãe, rindo do marido. – Eu e minhas orelhas.

– Tem gente que não viaja da primeira vez, mãe.

– Vanda! Vanda, vem aqui correndo!

A mãe correu assustada. Chegou ao banheiro e deu com o marido se observando atentamente ao espelho.

– Eu sempre fui assim, Vanda? Sempre?

– Assim como? – Ela não compreendia. Juninho, atrás dela, muito menos.

– Como você pôde aturar essa barba horrorosa durante todos esses anos, Vanda? Heim?

– Não vem com essa, Afonso. Você sempre disse que era o seu charme…

– Sei não, acho que eu ficaria melhor sem barba…

– Pai… – Juninho começava a se preocupar.

– Minhas preces foram ouvidas! – A mãe ria, voltando para o quarto.

– Mãe, não deixe… – Juninho estava assustado com o rumo das coisas. – Isso é viagem, mãe, é viagem…

– Então não se meta na viagem de seu pai – ralhou a mãe, beliscando Juninho, sem conseguir parar de rir.

(…)

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> Este conto integra o o livro Baseado Nisso

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Ricardo Kelmer – blogdokelmer.wordpress.com


O ateu e o inalcançável Mistério

Dezembro 18, 2008

criancalua001Obrigado a todos que participaram da discussão envolvendo meus textos “A menina, a exorcista e a cantora” e “Vade retro fanatismo“. Sinto-me muito honrado por merecer a gentileza de tantos comentários.

Aproveito pra pedir desculpas por não postar no primeiro texto o link pro site da Igreja Batista da Lagoinha, foi pressa de publicar, falha minha. E mesmo que eu considere um crime o proselitismo religioso aplicado a crianças, o leitor tinha o direito de conhecer logo a versão do proselitista infantil.

Uau, há muita inverdade e absurdo sobre mim nos comentários postados. Mas isso, no fundo, não tem importância. Esclareço apenas uma coisa: não tenho religião. Considero-me um ateu místico – porque me relaciono com a vida de uma forma meio mística mas sem a crença em deuses. Se há uma crença que sigo é o amor pela Terra e pela Humanidade. A Terra é minha Mãe Sagrada, meu país sem fronteiras, e toda a Humanidade, em sua bela diversidade, é a minha família. Não pertenço a nenhum rebanho de Deus, não sou de nenhum povo escolhido – faço parte do Povo da Terra.

Cresci no catolicismo e se, após a adolescência, consegui escapar de sua prisão cultural, por outro lado meu fascínio pelo Sagrado e pelo Mistério aumentou. Inspiram-me e me emocionam as mitologias das religiões mas entendo seus deuses como meras projeções humanas, criações culturais a respeito do imenso e insondável mistério da vida, e assim sendo, vejo a religião como uma questão de foro íntimo, algo inteiramente pessoal.

O religioso, porém, tende a entender sua visão particular do Mistério como verdade única e inquestionável e quem pensa diferente está errado. O fanático vai um passo além: ele se sente no dever de pregar, converter e salvar os diferentes do Mal. E o fanático radical é capaz de agredir, destruir e matar em nome de seu deus. O ideal seria que todo religioso percebesse que sua verdade é apenas uma versão do inalcançável Mistério, mais ou menos como um acontecimento que tem inúmeras testemunhas mas que, ainda assim, nunca é esclarecido inteiramente.

Sinto que o fanatismo religioso, com seu ódio ao diferente, nos trará cada vez mais problemas. Em tempos de crise financeira, problemas sociais, violência, guerras e desequilíbrio ecológico, o apelo religioso se intensifica e é aí que o fanatismo prolifera, com seu discurso salvacionista. O que pode ser mais perigoso que alguém que tem a mais absoluta certeza que age em nome do ser supremo do Universo, que lhe deu ordens de nos salvar? Putz, ninguém merece.

São poucos os que se arriscam a questionar os posicionamentos religiosos, mesmo quando eles são claramente perigosos. A crítica à religião chega ao religioso como terrível blasfêmia e não como um legítimo e sadio ato de discordância entre dois pontos de vista. Apesar disso, as pessoas livres não devem se omitir e, quando for o caso, precisam apontar e criticar os abusos religiosos, assim como todo tipo de abuso, sem medo de irem queimar no Inferno. Até porque lá deve ter uns inferninhos ótimos.

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Ricardo Kelmer 2008 – blogdokelmer.wordpress.com

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elelualobo01

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Trechos de comentários postados
em minha coluna no Jornal O Povo
Pra ler todos os comentários

01. Sou judeu,cearense e um antes de tudo isto,sou um homem da Terra.Por uma questao de hereditariedade pertenco ao que no ponto de vista religioso,chamamos de O Povo Escolhido. (…) Parabens!!! Gostaria de um dia ter oportunidade de conhece-lo para poder dize-lo que compactuo com os seus pensamentos e que este artigo :Eu gostaria de ter escrito sem tirar uma virgula. (…) Tenho 63 anos e passo para os meus filhos exatamente: A compreensao com a Humanidade e com os seus seres humanos,independentemente de sua pele,religiao e grau de cultura. Estarei sempre a suas ordens e aqui em Israel, temos um grupo de brasileiros judeus que “Um dia Quem sabe…Voce poderia nos dar o prazer de proferir uma palestra destas que vc fara no BNB. - Newton Gondin

02- Interessante e inteligente, estou no momento pensando assim. - Paulo Roberto

03. me identifiquei muito com seu pensamento. Parabéns por divulgar o Humanismo. – J Gomes

04. Costumo ler, frequentemente, sua coluna, sem nunca ter tido vontade de publicar comentários.No entanto, hoje, senti vontade de registrar minha total identificação com suas palavras e meu crescente respeito e admiração por você e por sua condução nesse episódio.Muitos são os caminhos e acredito, acima de tudo, na liberdade de escolha de cada um! – Isabelle

05. Seu jeito meio irônico, meio sério, não lhe livra da crítica de procurar justificativas indo aos antípodas. Não é certo que os que professam alguma religião (“algum rebanho de Deus”) sejam todos necessariamente idiotas fanáticos, contrários à “Mãe Terra” ou à idéia de um “país sem fronteiras”. Contra-exemplos abundam. Quanto ao seu desdém com respeito à Igreja, não sei qual o motivo disso, mas como escreveu certo pensador francês: A IGREJA (CATÓLICA) NÃO SÃO SEUS PADRES; SÃO SEUS SANTOS. Pense nisso. Quanto a mim, prefiro apostar no melhor e continuar tentando seguir a Cristo do que andar feito barata tonta seguindo o último modismo politicamente correto; estes, indo aos antípodas, são fanáticos com sinal trocado. – Geguba

06. o senhor diz que educar meu filho na doutrina cristã que recebi dos meus pais é um crime, sugere que o ato de pregar o evangelho é fanatismo, que nós, os “fanáticos”, odiamos o diferente, e que a certeza de que agimos em nome do criador é algo de extremo perigo. O senhor quer mesmo que eu acredite que isso é um “legítimo e sadio ato de discordância entre dois pontos de vista” ? Isso é um ataque tão venenoso, são generalizações tão absurdas quanto as que o senhor critica. Anderson Fortaleza

07. Ateu-mistico,, kkk Eh muita falta do que fazer. Nnca li tanta besteira na minha vida. Perdi minutos preciosos da minha vida. e nao valeu e nem vale a pena tudo isso… – Pedro

08. Talvez não saiba, fato comum entre jornalistas, escritores, intelectuais, que possuem, às vezes, pois muitos enganam a si mesmos, razoável conhecimento cultural, porém conhecem muito pouco sobre religião, por impaciência, por preconceito, que tanto combatem, etc., talvez você não saiba mas esse ateísmo místico, voltado à natureza tem um nome: adoração a Deusa Gaia – A Terra, a Mãe Sagrada – uma religião da chamada Nova Era, onde, sem perceber, adora-se à criação no lugar do Criador. Há muitas religiões que seguem esse caminho, como a Maçonaria (uma religião disfarçada), Zoroastrismo (de Niestzche, que morreu louco), budismo, hinduísmo, etc. Só há um que não adora a natureza: o cristão, pois esse adora o Criador, Jesus Cristo. - Napoleão Jr.

09. Parabenizo ao Sr. Ricardo Kelmer, autor do corajoso depoimento, pois, num país de religiosidades e idolatrias mistificatórias, como o nosso, contrapor-se, como bem o diz, à quaisquer conceitos, dogmas e preconceitos das diversas matrizes das religiosidades é certeza de “Queimar, pretinho, no inferno!”, invariavelmente! Não sou contra quaisquer manifestações desse cunho, atenta contra o meu pensar, apenas as radicalidades e as tentativas de “forçamento da barra”, quando alguns se acham no direito de empurrar os seus credos à todas as outras pessoas, achando-se, assim, o único justo e o seu credo, o único certo! – Clécio Oliveira

10. Você precisa estudar mais sobre religiões e crenças para não expressar de forma tão medíocre sua paupérrima opinião. Concordo que todo fanatismo, exrtemismo ou qualquer forma de afunilamento de pensamento seja ignorante, mas fatos bíblicos não são meramente estórias e sim comprovações arqueológicas, científicas e históricas. Contra fatos não há argumentos. – Daniel Paula

11. Novamente reafirmo o brilhantismo de seus textos. Sobre os dois mencionados no inicio deste artigo, confesso que me diverti muito. É preciso sem dúvida pessoas de coragem que denunciem abusos seja lá no campo religioso, cientifico ou filosófico. Precisamos, juntos, chegar em soluções saudáveis para sociedade, repeitando principios universais como igualdade, fraternidade e liberdade. – Ricardo

12. Um pouco de filosofia nunca fez nem fará mal a ninguém. Até nos ajuda nessa incessante busca de nós mesmos enquanto seres vagantes neste mundão de meu Deus. O grande perigo está apenas em concedermos voz aos falsos profetas ou nos deixarmos levar pela lábia academicista e estéril de certos teóricos. O Sr. Ricardo Kelmer tem razão quando se refere à cegueira do fanático religioso e o mal que isso representa para qualquer sociedade; peca, contudo, ao se dizer ateu ou tentar estabelecer como verdade algo que é fruto tão-somente de suas próprias conclusões. Tal atitude não me parece a forma mais adequada para tentar impor uma tese. - Astolfo Lima

13. Vc diz: Sinto que o fanatismo religioso, com seu ódio ao diferente, nos trará cada vez mais problemas. Será que o ódio não é seu?Será que vc não trás um ódio porque nós somos diferentes de vc?Pois vc externa esse seu ódio e perseguição A nós seus textos, ou eu estou errado, ou vc realmente TEM UM AMOR PELA HUMANIDADE E PELA TERRA, SUA FAMILIA.Falar de amor é facil o dificil é viver o amor!Pense nisso meu irmão!Jesus te ama!E eu continuo orando por vc, é de graça, não pagará oferta e dízimos ok?Há, mas oro com fé viu?Com o mais puro fanatismo ao meu Jesus. – Paulo

14. Parabens Ricardo!! O que a nossa sociedade precisa eh de pessoas com coragem como voce. Eu proprio me sinto muito cansado de tanta alienacao e oportunismos religiosos. Concordo com voce que a religiao eh algo individial (a crenca, a fe) mas quanto as igreja (umas mais que outras) tudo o que fazem eh manipular essa crenca para tirar algum proveito seja ele politico, social ou economico. Nao quero me estender mas nao podia perder a ocasiao para parabeniza-lo e dizer que que voce nao esta so, que outras pessoas compartilhas os mesmos pensamentos. – Ermeson

15. O único Deus disse “quem crer em Jesus será salvo” Jo 3.16. seguir a Cristo está acima de religião e o que está em questão é a salvação de nossas almas pois “toda a terra passará mas aquele que faz a vontade de Deus permanece para sempre” I Jo 2.17. – Marcio

16. O místico não é o ser mais racional, afinal ele leva em conta os fatores sobrenaturais desprezando as causas físicas e científicas. Não seria também uma espécie de alienação? O que é pior o fanático ou o alienado de provas físicas e científicas? Há, esse assunto já está cansando. – Lili

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Leia a trilogia:

- A menina, a exorcista e a cantora
- Vade retro fanatismo
- O ateu e o inalcançável Mistério

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Guerra às drogas não, antiproibiconismo sim

Dezembro 15, 2008

Quem ganha e quem perde com a proibição das drogas?

3a parte da série Rio Droga de Janeiro

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figdrogaslegalizacaomaconha1No inferno diário de péssimas notícias mantido pelo narcotráfico, há pelo menos uma a soprar uma brisa de esperança: o movimento antiproibicionista cresce em todo o mundo e dá seus primeiros passos organizados no Brasil. Ele prega a descriminalização de plantas e drogas e a regulamentação de seu comércio. E não admite que o estado tenha o direito de decidir o que você deve ou não fazer ao seu corpo ou à sua mente. Se você já entendeu que enquanto há proibição não há saída para o caos social, você é um antiproibicionista. Bem-vindo ao time.

É um tema espinhoso e polêmico. Difícil tocar nele pois é complexo demais, envolve tantas questões e pontos de vista diferentes… E, principalmente, envolve desinformação, preconceito e medo. Mas está ocorrendo algo curioso. A violência causada pelo comércio da droga ilegal alcançou níveis tão insuportáveis que a sociedade está sendo forçada, pela primeira vez, a encarar o problema de frente, sem hipocrisia. Não dá mais para varrer a sujeira, e o sangue, para baixo do tapete. O tapete do mundo já está vermelho.

Não adianta dizer aos usuários de drogas ilegais que eles alimentam o tráfico. É um argumento ingênuo pois significa culpar a natureza humana e sua busca natural por estados especiais de consciência. Se sempre haverá procura, sempre haverá quem forneça. Assim, se o Estado não assume as responsabilidades relativas à questão, alguém o fará. E se o Estado proíbe, a busca natural das pessoas obrigatoriamente descamba para o submundo da clandestinidade, da criminalidade e da violência.

A busca por estados especiais de consciência, através do álcool, gases naturais, plantas e técnicas meditativas, seja em contextos terapêuticos, religiosos ou recreativos, sempre fez parte de todas as sociedades. Por ser um anseio intrínseco à condição humana, proibir as pessoas de buscar esses estados não impediu que elas prosseguissem buscando. Aliás, o que se vê hoje é o aumento generalizado dessa procura, da qual o tráfico se aproveita, e muito bem, fortalecendo-se cada vez mais, infiltrando-se em governos e corrompendo quem surja à sua frente, desde policiais e advogados a políticos, juízes e religiosos, tomando o poder do Estado e fazendo suas próprias leis. E destruindo as sociedades, causando violência e terror.

Quem luta pela não-proibição compra briga não com a sociedade mas com o próprio tráfico, que é o maior interessado na proibição e sabe que deve mantê-la para manter seu poder. O tráfico sabe que as pessoas não pararão de buscar as drogas. Sabe também que o Estado, comprometido com a hipocrisia e o preconceito, evita sujar as mãos com a questão. O tráfico sabe mais que ninguém que o dinheiro compra tudo, inclusive o silêncio que mantém tudo como está. O dinheiro do tráfico financia inclusive o medo de se discutir o assunto. E nada muda. E as drogas sintéticas ficam mais baratas e acessíveis. E tudo piora.

A tal guerra às drogas já começou derrotada porque é sempre inglório lutar contra a natureza humana. Assim como a Lei Seca, o fim da proibição é questão de tempo. O que milhões de pessoas sempre pediram no mundo inteiro com argumentos sensatos e nunca foram ouvidas, se tornará realidade por causa da violência insuportável causada pelo tráfico. Não será uma transição fácil pois a sociedade terá antes que largar a hipocrisia e olhar de frente para um de seus piores fantasmas – e se isso já é difícil num nível individual, socialmente é mais complicado. Sim, droga pode destruir quem faz uso dela, claro, mas isso não pode ser motivo para proibir seu uso. O que você acharia se fosse proibido de beber sua cervejinha só porque seu vizinho se tornou um alcoólatra?

Quem tem a droga tem o poder. Não há saída para a sociedade a não ser tomar o poder do tráfico, legalizando as drogas e controlando seu comércio. Não precisamos de proibição. Precisamos é educar nossos filhos e prepará-los para um mundo onde sempre haverá drogas. Não precisamos de uma polícia da mente mas de democracia, direitos humanos e liberdades individuais. Precisamos de uma sociedade mais justa, com emprego para todos, e não de tráfico e muito menos de guerra às drogas. Precisamos é de amor ao planeta e à humanidade. Precisamos de paz.

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Fotos: Psicotropicus

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Textos da trilogia
Quem tem a droga tem o poder
Os discretos sócios do narcotráfico
Guerras às drogas não, antiproibicionismo sim

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Ricardo Kelmer 2005 – blogdokelmer.wordpress.com

Este e outros textos você encontra no livro Blues da Vida Crônica

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As drogas chegam ao senadoNesses dias de avacalhação geral da classe política, é muito bom ver que há sensatez e honestidade lá no Congresso. O senador Jefferson Peres (PDT-AM), falecido em 2008, foi mais um dos que se convenceram que a legalização das drogas é a única saída para o problema da violência e da corrupção gerado pelo narcotráfico no mundo inteiro. Sua entrevista revela lucidez, equilíbrio e visão ampla dos problemas brasileiros e mundiais. E revela também muita franqueza e coragem de dizer aquilo que muitos concordam mas têm medo de dizer. Parabéns, senador!
> Para ler a entrevista.


Os discretos sócios do narcotráfico

Dezembro 15, 2008

Quem ganha e quem perde com a proibição das drogas?

2a parte da série Rio Droga de Janeiro

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figdrogaspoliciadouglas-engleapTodo mundo está careca de saber que há policiais que são pagos pelos próprios bandidos, ganhando muito mais que seu baixo salário na corporação. O narcotráfico paga, e muito bem, a advogados, juízes, políticos, religiosos, empresários e, não duvide, até a governantes que fazem acordos com as quadrilhas. Todos são elos na longa rede do narcotráfico e todos lucram com a ilegalidade da droga. São sócios discretos da bandidagem e para eles o caos social é financeiramente vantajoso, nada de mudanças, por favor.

É tanta a dinheirama envolvida que as ideologias, o bom senso e a consciência ficam em segundo plano. Que se foda o mundo! – pensa o sujeito ao fazer as contas de quanto lucrará dando uma mãozinha, só uma mãozinha ao tráfico. – Vai todo mundo pro inferno mesmo! O que é que eu vou ficar fazendo sozinho no céu… Pois é. Todo mundo comprado. Parece aqueles filmes onde o mocinho descobre horrorizado que todos, simplesmente todos ao redor são cruéis alienígenas disfarçados e que não há saída.

O negócio da droga ilegal é o maior do planeta, movimentando bilhões e bilhões. As quadrilhas internacionais mexem também com pirataria de CDs e DVDs, armas, tráfico de órgãos, imigrantes ilegais… Elas movimentam mais dinheiro que um país inteiro. E os governos? Ah, sim, os governos. Bem, eles declararam guerra às drogas, claro. Que nome pomposo! Dá quase para ouvir as cornetas e os tambores. Quase posso ver os cidadãos marchando com seus estandartes, todos gritando, rumo ao campo de batalha.

Mas peraí. Quem vão combater? Os bandidos? Ou os usuários? Já sabemos que não adianta desmantelar as quadrilhas ou matar seu líder pois para cada um que sai de cena, há dez querendo entrar. Também não dá para prender todo mundo que fuma um baseado. Então talvez seja mesmo um combate à própria droga. Mas qual droga? E como se combate a droga? Fuzilando pés de maconha? Erradicando folhas de coca da face do planeta? E como lutar contra as drogas sintéticas, que sintetizam tudo em pequenas pílulas e que qualquer bunda-suja fabrica no quartinho do fundo da casa e transporta no bolso da bermuda?

E o cigarro? E o álcool? Por acaso não são drogas também e comprovadamente mais nocivas que um baseado? Ok, ok, não vamos falar disso agora senão a discussão vai se ramificar mais que o próprio tráfico. A questão primordial então não é como combater as drogas. A questão é: será mesmo possível combater algo que a própria sociedade deseja?

A guerra às drogas já nasceu perdida. Não sejamos hipócritas: o mundo quer e sempre quis as drogas. As sociedades sempre conviveram com as drogas, lícitas ou não, porque precisam delas. Então: se há demanda, sempre haverá oferta. Chegamos agora a um nível mais profundo da questão: não estamos perdendo tempo, dinheiro e vidas tentando exterminar algo que nós mesmos não queremos que morra?

Não é um mundo sem drogas o que as pessoas desejam, até porque na prática seria impossível. E depois seria também injusto pois há os que fazem uso de drogas, legais ou ilegais, dentro de limites saudáveis, sem prejudicar a si ou a outros. O que as pessoas verdadeiramente desejam é um mundo sem violência, isso sim. Mas as drogas geram violência, há quem diga. Não, o buraco é mais embaixo. Culpar as drogas pela violência é um julgamento injusto, fruto da histeria coletiva causada pela tal guerra às drogas. Isso é lógica reducionista. É caça às bruxas. O que de fato gera violência não é a droga em si mas a sua proibição, que automaticamente a liga à criminalidade.

Veja o caso da cerveja e do cigarro: causam mais mortes que as drogas ilícitas. Ninguém, porém, os relaciona à criminalidade pois são drogas abençoadas pelo mundo legalizado. No entanto, se fossem proibidas, haveria igualmente em torno delas redes de tráfico, corrupção, violência e crimes. Cientes disso e de que as pessoas beberão e fumarão sendo ou não proibido (veja o caso da fracassada Lei Seca dos anos 1930), o que fazem os governos? Assumem a responsabilidade, fiscalizando produção e venda e cobrando impostos que são aplicados para manter controle sobre a qualidade, fazer pesquisas e campanhas educacionais, obter estatísticas e tratar dos males causados pelo mau uso. Melhor ter o controle de algo tão perigoso que deixá-lo nas mãos de bandidos.

A guerra às drogas é de uma ingenuidade risível. Os sócios do narcotráfico sabem disso. Gasta-se uma fortuna diária para manter a droga proibida e no entanto ela esta aí para quem quiser, na hora que quiser e diariamente somos violentados pelos que têm a droga e realmente mandam no pedaço. A guerra às drogas jamais funcionará simplesmente porque mira o alvo errado. O grande inimigo não é a droga: é a criminalização de seu uso.

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Foto: Douglas Engle/AP
Foto 2: Psicotropicus

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Textos da trilogia
Quem tem a droga tem o poder
Os discretos sócios do narcotráfico
Guerras às drogas não, antiproibicionismo sim

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Ricardo Kelmer 2005 – blogdokelmer.wordpress.com

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As drogas chegam ao senadoNesses dias de avacalhação geral da classe política, é muito bom ver que há sensatez e honestidade lá no Congresso. O senador Jefferson Peres (PDT-AM), falecido em 2008, foi mais um dos que se convenceram que a legalização das drogas é a única saída para o problema da violência e da corrupção gerado pelo narcotráfico no mundo inteiro. Sua entrevista revela lucidez, equilíbrio e visão ampla dos problemas brasileiros e mundiais. E revela também muita franqueza e coragem de dizer aquilo que muitos concordam mas têm medo de dizer. Parabéns, senador!
> Para ler a entrevista
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O nome da paz é privacidade

Dezembro 14, 2008

internetcrimes01No início dos tempos, lá pelos anos 1960-70, as pessoas achavam super-chique ter telefone em casa. Sim, eu juro que é verdade, veja as fotos da época pra comprovar: todo mundo tinha uma fotinha bem sorridente falando ao telefone na sala. Ter telefone significava que você podia se comunicar com alguém bem longe sem sair de casa. E igualmente chique era mostrar pros amigos o nome, endereço e telefone na lista telefônica. Era o máximo!

Hoje em dia qualquer pé-rapado da periferia do terceiro mundo tem celular, o que é ótimo. Por outro lado, cada vez mais gente, preocupada com a segurança, solicita às empresas que retirem seus nomes da lista telefônica.

Com a internet está acontecendo algo similar. No início dos novos tempos, lá na década de 1990, era chique dizer “anota meu e-mail”. Ter e-mail era símbolo de status, significava que você podia se comunicar com alguém em qualquer lugar do mundo sem sair do quarto. Era o máximo!

Hoje em dia qualquer analfabeto dos cafundós do mato possui e-mail. Ótimo. Por outro lado, cada vez mais gente, preocupada com a segurança, evita divulgar abertamente seu endereço de e-mail.

Com a lista telefônica, o medo é que a exposição nos traga trotes e telefonemas inoportunos, além de roubos e assaltos em nossa casa. Com a internet, o medo é que bandidos da rede invadam nosso computador e tenham acesso a dados pessoais como a senha do banco ou do cartão de crédito. Em ambos os casos, porém, a palavrinha mágica por trás da questão é a mesma: privacidade. Num mundo onde tanto as empresas como a bandidagem se especializaram em coletar informações pessoais dos cidadãos, a privacidade tornou-se um bem cada vez mais desejado.

As empresas trocam entre si os dados de seus clientes, algo que deveria ser altamente sigiloso. E os bandidos rastreiam diariamente a rede pra conseguir endereços de e-mail, pros quais enviarão suas armadilhas, vírus, links falsos etc. Contra as empresas, infelizmente nada podemos fazer. E contra os bandidos da rede? Se dependesse apenas de cada um, poderíamos fazer muito, mas infelizmente as pessoas têm péssimos hábitos na internet, o que invalida todos os nossos cuidados pessoais. Nossos próprios amigos, por exemplo, desrespeitam nossa privacidade quando expõem nossos endereços em mensagens coletivas que são passadas e repassadas, levando com elas nossos endereços a desconhecidos do mundo todo.

Atualmente a principal porta de entrada de nossas vidas não fica mais na sala – mas no computador. É através dele que os criminosos nos descobrem e atacam, danificando nossos computadores e roubando nosso dinheiro. Mesmo que você seja muito cuidadoso na internet, basta um único conhecido deixar seu endereço exposto pra imediatamente você começar a receber mensagens de desconhecidos que não lhe interessam, além de mensagens que parecem úteis e bacanas mas que na verdade são armadilhas de criminosos. Aí tudo que eles precisam é de um segundo de desatenção sua.

Pode soar alarmista mas isso é o que acontece: todos os dias milhares de pessoas, no mundo inteiro, são vítimas dos crimes praticados pela internet. A única coisa que podemos fazer, individualmente, é ser mais cuidadosos quando conectados. No âmbito coletivo, podemos preservar nossos amigos desses perigos, escondendo seus endereços nas mensagens que enviamos – é justamente pra isso que serve o recurso “cópia oculta” (cco ou bcc).

Aliás, os provedores de e-mail, como Google e Hotmail, poderiam ajudar bastante: bastaria criar um mecanismo que dificultasse a exposição de endereços em mensagens coletivas. Por exemplo, antes do usuário enviar a mensagem, o programa alertaria: “Os endereços dos destinatários ficarão expostos, o que pode ameaçar a segurança e privacidade de sua família e seus amigos. Você deseja enviar mesmo assim ou prefere ocultar os endereços?” Fica a sugestão.

E fica um lembrete a você, usuário da rede. Fazer a nossa parte não garante que acabaremos com os problemas do mundo – mas não fazer a nossa parte garante que nada mudará.

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Ricardo Kelmer 2008 – blogdokelmer.wordpress.com

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Vade retro fanatismo

Dezembro 10, 2008

religiosoevangelico03Mulgélicos são personagens do meu conto A profecia, um grupo de fanáticos religiosos de direita que atacam os que não compartilham de suas crenças. Poucas pessoas têm coragem de criticá-los e, assim, eles vão conquistando espaços na sociedade até que passam a governar vários países e transformam o planeta inteiro numa raivosa e sanguinária ditadura religiosa.

Poizentão. Minha crônica A menina, a exorcista e a cantora parece que despertou a ira dos mulgélicos do mundo real. Faz uma semana que recebo mensagens de evangélicos revoltados com meu texto. Alguns acusam-me de não ter pesquisado bem o assunto e deturpar tudo. Até aí tudo bem, são críticas razoáveis. Mas alguns me xingam de idiota e imbecil e afirmam que meu livro Vocês Terráqueas (coitado, sobrou pra ele) é um “livrinho de merda”, mesmo sem terem lido. E mais: que eu tô possuído pelo demônio e já tenho garantido meu passaporte pro Inferno. Tudo gente bacana e muito educada, como se pode ver. Devem ser parente do Torquemada.

Se discutir com fanático já é uma tarefa inglória, avalie discutir com fanático religioso. Como argumentar com um tipo de gente que fala em nome de Deus? Como discutir com alguém cujas opiniões representam o ser mais poderoso do Universo, criador de tudo que há? Não dá. Mais fácil discutir com o próprio Satanás, que pelo menos nunca vai tentar me convencer que eu tô possuído.

Uma coisa interessante é constatar que no discurso do fanático sempre há mais referências ao Diabo e ao Inferno que a Deus. Por que será? Aliás, como conseguem saber tão facilmente que uma pessoa tá possuída, como eu? Devem ler todo dia o Malleus Maleficarum, só pode ser. Amor, compreensão, união? Eles nunca falam disso. Parecem mais uma horda de pitbulls raivosos, espumando ódio e intolerância. Eu tô exagerando? Então confira você mesmo, é só acessar a página de comentários ao final do texto. Esse pessoal apenas reforça a desconfiança que muita gente tem: a religião ainda vai fazer deste mundo um Inferno.

E pra quem quiser saber da versão da tal cantora, ei-la: http://www.diantedotrono.com.br/MATERIA/lst_materia.asp?nCodMateria=1308.

A seguir, alguns trechos dos comentários postados pelos pitbulls, pra eles verem que eu li. Ah, como já tô condenado mesmo, quem souber de barzinhos legais no Inferno, desde já aceito sugestões.

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Ricardo Kelmer 2008 – blogdokelmer.wordpress.com

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diabo04a

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Trechos de comentários postados
em minha coluna no Jornal O Povo.
Pra ler todos os comentários

01. você deve ter tido experiências não muito boas com “evangélicos” vamos assim dizer, mas experimente um dia, dessarmado de seus conceitos, entrar em uma igreja cristã e assistir um culto a Deus, quem sabe alguns de seus conceitos podem mudar – Jorge Rubens Guerreiro

02. A maioria dos cristãos não conseguem ser tolerantes porque creem que estão predestinados a salvar os pecadores. Quem são os pecadores? Aqueles que se identificam com uma outra doutrina religiosa, aqueles que não acreditam em nenhuma, ou aqueles que os criticam. – Lane Lima

03. Ninguém merece esses fanáticos religiosos, parece q estão toda hora tendo q provar alguma coisa… Talvez pelo passado obscuro (sempre são ex-drogados, ex-ladrões, etc… ou atuais ladrões, etc.). Prefiro levar a vida leve, sem fazer mal a ninguém, respeitando a todos. Conciência limpa é independente da religião. – Michele

04. Quer testar a tolerância de um evangélico? Discuta sobre o seguinte tema com ele: espiritísmo. Então você verá toda sua tolerância, compreensão e respeito pela fé alheia. – Rodrigo Braga

05. Continuo postando a mesma coisa que postei na ultima crônica: Kelmer é o Cara! - Ana

06. Fico feliz!!!!!, em vê q o palhaço voltou ao picadeiro com suas piadas preconceituosas, inconstrutiveis, repetitiva ,fulteis, obscuras, e mais ainda vejo que esta conseguindo seguidores, q talvez com mais algumas materias já estejam prontos a fazer o mesmo q seu GURU. – Erasmo Cavalcante

07. Kelmer, parabens pela sua coragem em mostrar para a sociedade, a quanto estão distorcendo a mensagem que o mestre JESUS deixou na terra, a grande maioria desses “pastores” não passam de aproveitadores de mentes fracas e pertubadas pelos demonios que eles não param de exaltar. – José Eurino

08. Hoje porém, crente traz a tona vários adjetivos negativos. Muito por conta do rentável nicho de mercado que o “mundo gospel” proporcionou. É chic atletas, cantores, atores (pornôs) se dizerem evangélicos. Dá lucro e visibilidade. Aí Deus se torna o maior marketeiro, e tudo o mais se inverte. – Erlon

09. pra Deus, coração puro é aquele que respeita o próximo. Esse povo evangélico é muito “santo”! Só eles se salvam, né? Para mim esse povo tem uma verdadeira idolatria pelo capeta, pois não falam em outra coisa, senão citá-lo sempre. Parabéns Ricardo! – Amyr Fontenele

10. Há um ditado popular que diz mais ou menos o seguinte: “ninguém joga pedra em cachorro morto”, por isso Kelmer, tenha a certeza de que se você incomoda essas pessoas, é porque a verdade dói. Nenhum deles nunca abordou ou teria a coragem de abordar os absurdos que se cometem em nome de Deus,muito menos os escândalos muitas vezes noticiados e largamente comentados na sociedade, que dizem respeito à extorsão de dinheiro dos “FIÉIS”. – Sinval Vasconcelos

11. eu queria dizer o quanto admirei essa sua atitude de não se calar diante das ofensas proferidas pelos “donos da verdade”. Ah, e outra… se descobrir o tal barzinho no inferno dá um toque, ok??? – Marco Meira Mayer

12. Caro Ricardo Kelmer, Se você for dar ouvidos para essa gente…. Faça o seu trabalho! Sucesso!!! – Jarisvan

13. se tu encontrar um point interessante lá embaixo, guarda um lugar pra mim, do teu lado, porque eu prefiro sacudir o esqueleto num sambão infernal do que passar a eternidade tocando harpa. – Keivy Oliveira

14. Grande Keeelmer!!!! Isso realmente é algo para se indignar, é lavagem cerebral mesmo. Tipo, minha mãe que é crente foi chamada a pouco tempo pra lecionar no estado, logo no primeiro salário mandou 100,00 pra universal e 100,00 pra outra igreja de crente. – Daniel Gargas

15. posso te dizer que eu virei SUA FÃ após ler esse seu texto, não somente pelas colocações em si, mas por tamanha a sua coragem em responder às descorteses manifestações de uma parcela dos leitores da sua coluna. – Lara Pinheiro

16. com isso dá pra ter uma pequena noção do que o coitado do Salman Bushdie deve ter passado quando escreveu “Versos Satânicos”. De outra sorte, vejamos o contra-senso: Deus (o próprio) nos concedeu o livre-arbítrio; mas seus auto-intitulados “procuradores” não admitem a liberdade de pensamento. – Jennyson Oliveira

17. Tó contigo e não abro Kelmer…esses povo são loucos…. Adooorrrrooooo sua crônicas… – Jessyka

18. Ricardo, a pessoas que se dizem cristãs precisam ler mais livros a não ser a Bíblia, que pelo jeito nem isso estão fazendo direito, precisam ver exposições de arte, precisam conhecer outras culturas e ver como é linda esta heterogeneidade. A Igreja está doente e precisa ser curada. Curada de sua intolerância e hipocresia. – Juliana Duarte

19. ja que vc esta de passagem marcada pro inferno, qualquer coisa me procura, so falar com o Senhor Satanás que vc me acha. Não se preocupe, pq te mostrarei os melhores bares e prostibulos do nosso inferninho hahahahaha. – Samael

20. Ô Ricardo Kelmer me desculpe, mas vcé um sínico!Um perseguidor de Cristãos!Vc recebeu estas críticas, sabe pq?Pq vc escreveu um artigo altamente preconceituoso nos acusando de lavadores de cérebro, malucos e dizendo que a menina não precisava de religião, que ela precisava de uma familia.ELA PRECISA DE JESUS SIM, SABE PQ?PQ JESUS NÃO É RELIGIÃO, JESUS É SALVAÇÃO! – Paulo

21. E a besteira que você falou?! Você se deu ao trabalho de ir checar?! Parece que não. Preferiu chamar a atenção dos teus leitores (alguns bem fanáticos também, né?) na atitude dos evangélicos revoltados e ficar neste papel de “fui atacado por xiitas”…..putz….você também…. – João Santos

22. Ricardo, leio e continuarei lendo suas crônicas, pois gosto muito delas. E espero que você obtenha sucesso em sua vida, tanto profissional quanto pessoal. Agora, só uma dica: cuidado com as palavras, nem todos estão preparados pra ouvir certas verdades. – Luisa

23. com irresponsabilidade só faz cuspir suas ferrenhas críticas aos Evangélicos como ele sempre faz(se vc não sabe ele é um ferrenho perseguidor, injuriador,crítico dos evangélicos) e só consegue comentários aqui, ou promoção, ou aparecer como vitima,como santo, como coitadinho, quando os ataca ou quando envia um e-mail para seus amigos (veja os comentários aqui nos detonando da maioria dos “amiguinhos dele”).Só assim ele se faz. – Renato

24. Caro RK, Precisamos de voluntários para fortalecer nossa frente cristã que leva a verdadeira fé às pessoas. Muitas delas não têm consciência de que deveriam adorar Jesus Cristo, seguir nossos dogmas e se sentir culpadas por não terem sido redimidas do pecado original. Ajude-nos abrir os olhos dessas pessoas que como você pensam conhecer felicidade sem Cristo! Seu objetivo como missionário será viajar até países subdesenvolvidos e ensinar a seus habitantes sobre Cristo. Ajudá-los a esquecer suas culturas e tradições será o melhor que você poderá fazer por eles! Aí sim você conhecerá A VERDADE, DEUS e todas as glórias de ser um verdadeiro cristão. – Gustavo Guerreiro

25. Parabens Kelmer. Minha unica discordancia é que acho que temos que respeitar o processo evolutivo dos seres que apos o estagio de animais se tornam religiosos para, somente depois, comecarem a se tornar seres humanos pensantes. – Gisela

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Um Ano na Seca – Tá acabando

Dezembro 9, 2008

Estamos chegando ao fim desta ridícula e deprimente história, ufa. Após 14 meses de sofrimento, estarei novamente no interior de uma mulher – de onde eu nunca deveria ter saído, dizem as más línguas. E após 30 capítulos, você, leitorinha, finalmente poderá saber como que a secura acabou.

Os capítulos são estes:

- O início da tragédia
- Daniele (2 capítulos)
- Sonja (5 capítulos)
- O harém de celebridades (5 capítulos)
- Rose da Vila Mimosa
(7 capítulos)
- Cabô o doce
- Marília (8 capítulos)

Se você é Leitor Vip, é só clicar aqui pra continuar a ler a história.

Se você ainda não é Leitor Vip, pode ser agora mesmo, bastando adquirir um livro kelmérico, um mísero livrinho, pode ser até as versões eletrônicas, que são mais baratas. Além do acesso aos textos protegidos por senha, você participará também de promoções exclusivas aos Leitores Vips. E ainda me ajudará a não desistir da carreira de escritor pra tentar concurso pro Banco do Brasil.

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O ataque da raposa de fogo

Dezembro 4, 2008

firefox01Pra acessar este meu blog, você precisou usar um navegador. Provavelmente seu navegador é o Explorer, da Microsoft. Mas depois de ler este texto, talvez você decida trocá-lo pela raposinha de fogo, reforçando uma tendência mundial.

A cada dia o Explorer perde mais usuários pro FireFox, o navegador da Fundação Mozilla. Os motivos são um só: o FireFox é melhor. E por que é melhor? Porque é mais leve e mais funcional. E também porque é gratuito. Aliás, ele não apenas é gratuito como seu código é aberto (open source), ou seja, todos podem estudar como funciona e ajudar a desenvolver versões melhores. Por todos esses motivos a raposinha desperta muito mais simpatia que o Explorer.

A pesquisa realizada pela Net Applications (dados de out2008) mostra que o Explorer, que a poucos anos atrás estava em mais de 90% dos computadores do mundo, hoje está em 71,5% deles, enquanto o Firefox está em 20%. Segundo a pesquisa, o Explorer perdeu 4 pontos percentuais desde o início de 2008 e o FireFox subiu 3 pontos.

Eu sempre usei o Explorer – até conhecer a raposinha em 2007. Atualmente só uso o FireFox mas vezinquando uso os dois e comparo – só pra constatar que o navegador da Mozilla continua muito melhor. Isso tem uma lógica simples: como há mais gente no mundo inteiro estudando e aperfeiçoando o FireFox (e sem interesses financeiros), ele se atualiza mais rápido, oferecendo sempre recursos e facilidades de uma forma que o Explorer não consegue acompanhar.

Então, por que a maioria usa o Explorer? Porque a maioria dos computadores sai das lojas com o Windows instalado e nele já vem embutido o navegador Explorer. Em outras palavras: a liderança do Explorer se deve ao apoio do gigante Windows. Como se vê, é uma luta desigual. Ainda assim, a cada mês que passa a raposinha morde um pedaço maior do bolo, o que nos leva a prever que em breve ela poderá alcançar a liderança na preferência dos usuários.

E antes que você se pergunte, eu respondo: não, pessoalmente não tô ganhando nada com esse papo. Quem tá ganhando é a comunidade de internautas, da qual eu e você fazemos parte, que acredita em coisas como internet melhor e mais justa e descentralização do poder.

Mesmo que você use o Explorer, minha sugestão é que baixe o FireFox e experimente. Você pode manter os dois instalados, sem problema, e pode escolher por qual deles vai navegar hoje.

Pra baixar o FireFox pelo site do Superdonwloads: http://superdownloads.uol.com.br/download/154/mozilla-firefox-alpha

Pra baixar o FireFox pelo site do Baixaqui:
http://baixaki.ig.com.br/download/Mozilla-Firefox.htm

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