O amor insano. O amor desafiador do tempo. O amor que descortina as mais absurdas possibilidades do ser.
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CAPÍTULO 2
2a parte
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- O que ela tá fazendo?
Uma lua minguante e milhões de estrelas salpicavam o céu de Tibau do Sul. A pequena fogueira à frente da barraca mantinha afastado o frio da noite. Havia vinho e comida. Deitado sobre a toalha, Guilherme olhava as estrelas. Ao seu lado Marcela folheava um livro e mexia com varetas.
- Consultando o I Ching.
- Já ouvi falar. Serve pra que mesmo?
- É um oráculo – Guilherme respondeu. – Serve pra você obter respostas sobre você mesmo e os acontecimentos. Tirar uma foto da situação em movimento.
- Como assim?
- Como tudo se transforma a todo momento, a foto mostra uma tendência, uma situação mudando pra outra. Por isso é chamado de livro das mutações.
- Muito místico pro meu gosto…
- Mas funciona. De certa forma é só um truque pra se investigar psicologicamente. Você se concentra na questão e mexe as varetas, ou as moedas, anotando os resultados. Dá pra fazer sem nada disso mas ai tem que estar muito conectado com o mundo. Um dia eu ainda consigo.
- E pra quem não acredita? Como eu?
- Sempre funciona. Mas talvez você não veja sentido na resposta.
Luca levantou e serviu vinho para Isadora. Depois despejou em sua caneca e sentou ao lado dela.
- Vai me dizer de onde me conhece ou preciso consultar o I Ching?
- Também não me respondeu se crê ou não em reencarnação.
- Faz diferença se eu disser sim ou não?
- Bem… Acho que não.
- Pois bem, não acredito.
- Por quê?
- Ah, porque só se morre uma vez na vida. E esse negócio de ter que pagar o carma… Você acredita?
- Claro que sim.
- Já lembrou de alguma vida passada?
- Hum, hum.
- Sério? E pode contar?
Ela perguntou se ele queria mesmo saber. Ele disse que sim. Isadora e Marcela trocaram um rápido olhar. Por um segundo ele viu nos olhos de Isadora o reflexo inquieto das labaredas e foi como se elas o prendessem. Ele sentiu-se escorregar lentamente para um outro estado de ser, as chamas nos olhos de Isadora, vermelho e amarelo e laranja e azul…
Luca sacudiu a cabeça, sentindo um princípio de vertigem.
- Dois anos atrás comecei a ter uns sonhos… – ela prosseguiu, sem perceber sua ligeira perturbação. – Era sempre o mesmo lugar, um povoado pequeno… Parecia final da Idade Média. No sonho tinha uma criança brincando mas eu nunca via os olhos dela. Esse sonho se repetiu durante meses. Fiz hipnose com uma terapeuta e aí as imagens vieram mais fortes. Eu pude ver os olhos da menina e… bem, eu me vi naqueles olhos, foi isso. E percebi que aquela criança era eu.
- Que século?
- Dezesseis. Sei disso porque depois fui pesquisar. A gente aprofundou a terapia e mais imagens vieram. Sensações também, muito fortes. Vi vários fatos da vida dessa menina passarem diante de mim, como num filme. Não só vi – eu vivi, não sei se dá pra entender. Não lembrei tudo mas lembrei muita coisa dessa vida. Reencarnação sempre fez sentido pra mim mas lembrar, lembrar mesmo de uma vida é diferente.
- E aí, o que aconteceu?
- Catarina, o nome dela. Espanhola do sul. Era uma adolescente pobre quando se casou com um alemão. Ele a levou pra viver na Alemanha. Ele era um homem rico e ela aprendeu a ser uma dama. Ela tinha tudo pra levar uma vida tranquila e confortável mas um dia conheceu um missionário português e se apaixonou perdidamente… Enrique. Era jesuíta. Lembro bem da expressão, os olhos negros, profundos, o olhar duro. Enrique conhecia pessoas importantes, viajava pra muitos países, sabia outras línguas. E era meio bruxo.
- Como assim?
- Pertencia a uma ordem secreta, essas coisas. Usava os sonhos pra saber o que acontecia na Corte, as tramas políticas da Igreja, entrava no sonho dos outros…
- No sonho dos outros?
- Sim. Ele visitava Catarina nos sonhos, planejavam os encontros. Ela teve um filho de Enrique mas achou mais prudente não revelar a ninguém e deixou o marido achar que era dele. Um dia o marido descobriu que não era e aí ela fugiu com Enrique, teve de deixar o filho pra trás. Mas algo deu errado na fuga e Enrique desapareceu.
- O que houve com ele?
- Não lembrei disso. Porque na verdade Catarina nunca soube. Mas é uma curiosidade que eu tenho. É bem provável que tenha sido preso ou algo assim. Catarina procurou pela península toda, durante anos, de cidade em cidade. Mas todas as pistas eram falsas. Nem nos sonhos ele aparecia mais. Até que um dia…
- O bruxo apareceu.
- Não.
- O marido apareceu.
- O filho. Anos depois, já crescido. Encontrou a mãe num convento, doente, meio fraca do juízo. Aqueles anos todos na estrada, procurando…
- Ela ficou doida?
Isadora fez uma pausa. Segurou a caneca de vinho quente com as duas mãos e por alguns segundos olhou para o céu.
- Ela voltou com o filho pra Munique. O marido já tinha morrido e o filho cuidou dela. Ele sabia quem era seu pai verdadeiro e por um tempo também tentou localizar Enrique. Mas nada conseguiu. Ela morreu assim, esperando notícias.
Durante algum tempo ninguém falou nada. Foi Luca quem quebrou o silêncio:
- Você lembrou de tudo isso?
- É mais que lembrar. Eu vivi de novo.
- Você acredita mesmo que foi essa Catarina?
- Hum, hum.
Isadora olhou para a fogueira. Apanhou algumas pedrinhas e atirou contra as chamas. Depois, sem desviar o olhar do fogo, perguntou:
- E você? Essa história não lhe diz nada?
- É interessante. Dava um bom filme.
- E o bruxo português?
- O que é que tem ele?
Isadora olhou para Marcela com o canto do olho.
- Ainda não entendi a pergunta, Isadora.
Ela continuou jogando pedrinhas na fogueira.
- Peraí. Não vá me dizer… Você acha que eu fui… esse Enrique?
Isadora olhou para ele, séria.
- Mas por quê?
- Percebi quando você apareceu no meu sonho.
- Eu disse isso no sonho?
- Não. Mas quando acordei, entendi tudo. Você tá diferente, claro… Mas eu sei que você é ele. Eu sei.
Luca riu constrangido. Olhou para a fogueira à sua frente, as fagulhas subindo e sumindo no ar. Levantou e foi buscar mais vinho.
- Aposto que você tá achando que isso é uma cantada, né, Luca?
- Se for, já ganhou o troféu criatividade. Mais vinho?
- Homem, tenha mais respeito por alguém que esperou quatrocentos anos por esse momento! – brincou Guilherme.
- Não liga, Luca – interrompeu Isadora. – Ele adora tirar sarro dessa história.
- Você não acredita, Guilherme?
- Não. Mas é divertido. Tenho uma prima que jura que já foi Cleópatra. Lembra até das posições prediletas do Marco Antonio…
Todos riram. Luca serviu-se de bolachas e voltou ao seu lugar.
- Mas respeito muito Isadora – prosseguiu Guilherme. – Ela é uma taoísta exemplar.
- Taoísta? Que diabo é isso?
- Taoísmo é a filosofia que tem por trás do I Ching. – respondeu Isadora, servindo mais vinho.
- Ah, tá. E você, Marcela, o que acha desse negócio de vidas passadas?
- O que eu acho é que você não devia zombar do que Isadora lhe contou.
- Isso tá parecendo a Inquisição… Eu não tô zombando. O problema é que Isadora pensa que eu fui alguém e eu não fui esse alguém. O que posso fazer?
- Isadora, você aceita Luca como seu legítimo ex-amante? – brincou Guilherme, fazendo novamente todos rirem.
- Um brinde a quem você é hoje, ok, Luca? – Isadora propôs.
- Ah, melhorou. E a este encontro.
- Encontro, não. Reencontro! – completou Marcela.
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(continua)
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Escrito por ricardokelmer 
Escrito por ricardokelmer
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Escrito por ricardokelmer 

Na onda da mulher-melancia, mulher-jaca, mulher-filé e outras classificações femininas hortifrutigranjeiras, nada mais justo que nós, homens do sexo masculino, sermos também classificados.
Obrigado a todos que participaram da discussão envolvendo meus textos “
No inferno diário de péssimas notícias mantido pelo narcotráfico, há pelo menos uma a soprar uma brisa de esperança: o movimento antiproibicionista cresce em todo o mundo e dá seus primeiros passos organizados no Brasil. Ele prega a descriminalização de plantas e drogas e a regulamentação de seu comércio. E não admite que o estado tenha o direito de decidir o que você deve ou não fazer ao seu corpo ou à sua mente. Se você já entendeu que enquanto há proibição não há saída para o caos social, você é um antiproibicionista. Bem-vindo ao time.
Todo mundo está careca de saber que há policiais que são pagos pelos próprios bandidos, ganhando muito mais que seu baixo salário na corporação. O narcotráfico paga, e muito bem, a advogados, juízes, políticos, religiosos, empresários e, não duvide, até a governantes que fazem acordos com as quadrilhas. Todos são elos na longa rede do narcotráfico e todos lucram com a ilegalidade da droga. São sócios discretos da bandidagem e para eles o caos social é financeiramente vantajoso, nada de mudanças, por favor.
No início dos tempos, lá pelos anos 1960-70, as pessoas achavam super-chique ter telefone em casa. Sim, eu juro que é verdade, veja as fotos da época pra comprovar: todo mundo tinha uma fotinha bem sorridente falando ao telefone na sala. Ter telefone significava que você podia se comunicar com alguém bem longe sem sair de casa. E igualmente chique era mostrar pros amigos o nome, endereço e telefone na lista telefônica. Era o máximo!



