Cabaré Soçaite – 2008dez

novembro 27, 2008

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CABARÉ SOÇAITE (3)

18dez2008
Buoni Amici´s (Centro Dragão do Mar – Fortaleza)
Produção: Franciscus Galba e Ricardo Kelmer

DJs: Marquinhos e RKBaré

.babydolls200811-02Baby Dolls

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SORTEIO DE INGRESSOS
Orkut – Comunidade Amicis

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.O Cabaré Soçaite foi criado por mim em 2003, quando morava em Fortaleza e era diretor da Caboca (Confraria de Apoio às Boas Causas), um clube de cultura e entretenimento. A idéia é brincar com o tema da sensualidade e do erotismo de uma forma leve e poética, homenageando os antigos cabarés através das músicas, das imagens no telão, da decoração e da participação das pessoas com suas performances e suas vestimentas.

1a edição – Nov2003, boate do hotel Vila Galé, com show do cantor Rossé Sabadia. DJ: André Wesarusk. Produção: RK e Cristina Cabral.
2a edição – 19mar2008, Buoni Amici´s. DJs: Guga de Castro, Caú Borges e RKBaré.
Produção: RK e Franciscus Galba.
3a edição – 18dez2008, Buoni Amici´s. Show com a banda Baby Dolls. DJs: Marquinhos e RKBaré. Produção: RK e Franciscus Galba.

>> Quer levar o Cabaré Soçaite pra sua cidade? Entre em contato: rkelmer(arroba)gmail.com

>> Indique patrocinadores pra nossa festa. Se o negócio for fechado, você leva 20% de comissão.

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VÍDEO-CLIPE DA FESTA

Assistir em alta qualidade



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FOTOS DA EDIÇÃO ANTERIOR (2008mar)


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FOTOS DA FESTA (2008dez)

Clique para ampliar

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SORTEIO Vocês Terráqueas 1

novembro 26, 2008

Ricardo Kelmer 2008

vtpromocaonatal2008-01

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Presenteie alguém com o livro Vocês Terráqueas

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Será sorteado 1 (um) exemplar do livro. O sorteado indicará quem receberá o presente (no Brasil) e eu enviarei pelo correio um exemplar com dedicatória. Tudo por minha conta.

PROMOÇÃO EXCLUSIVA PRA LEITORES VIPS


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PARA PARTICIPAR DA PROMOÇÃO
Deixe um comentário abaixo indicando um texto kelmérico de sua preferência. Não esqueça de escrever seu nome/sobrenome e sua cidade.

O SORTEIO
1. O sorteio será realizado em 20.12.08 (sábado). A referência será o número do 1o prêmio do sorteio da LOTERIA FEDERAL, extração de 20.12.08. Confira o resultado da extração aqui: http://www1.caixa.gov.br/loterias/loterias/federal/federal_resultado.asp

2. O número do 1o prêmio (5 algarismos) da extração será dividido pela quantidade de participantes da promoção e valerá o resto da operação para determinar o número sorteado da nossa lista oficial. Exemplo: Se o resto for 5, o sorteado será o número 5 de nossa lista. Se não houver resto, o sorteado será, obviamente, o último número da lista.

LISTA OFICIAL
A lista oficial dos participantes, com seus números para o sorteio, será atualizada aqui neste espaço.

Boa sorte! E obrigado por ser Leitor Vip.

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Saiba mais sobre o livro

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RESULTADO

O prêmio da Loteria Federal do dia 20dez foi 44674. Pra saber quem foi nosso sorteado:

44674 dividido pela quantidade de participantes (5) = 8934
Resto da operação = 4

Nosso participante sorteado é o 4
> Paula Izabela

Parabéns, garota. Agora você me diz pra quem eu devo enviar o livro. E o endereço, claro.

Muito obrigado aos outros Leitores Vips que participaram da promoção. Quem sabe da próxima vez, né? Abração.

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Seja Leitor Vip e ganhe:

Acesso aos Arquivos Secretos
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Cabaré Soçaite 2008mar

novembro 25, 2008

cabaresocaite2008-01b

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CABARÉ SOÇAITE (2)

19mar2008
Buoni Amici´s (Centro Dragão do Mar – Fortaleza)
Produção: Franciscus Galba e Ricardo Kelmer

DJs: Guga de Castro, Caú Borges e RKBaré

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SORTEIO DE INGRESSOS
Orkut – Comunidade Amicis

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.O Cabaré Soçaite foi criado por mim em 2003, quando morava em Fortaleza e era diretor da Caboca (Confraria de Apoio às Boas Causas), um clube de cultura e entretenimento. A idéia é brincar com o tema da sensualidade e do erotismo de uma forma poética e divertida, homenageando os antigos cabarés através das músicas, das imagens no telão, da decoração e da participação das pessoas com suas performances e suas vestimentas.

1a edição – Nov2003, boate do hotel Vila Galé, com show do cantor Rossé Sabadia. DJ: André Wesarusk. Produção: RK e Cristina Cabral.
2a edição – 19mar2008, Buoni Amici´s. DJs: Guga de Castro, Caú Borges e RKBaré.
Produção: RK e Franciscus Galba.
3a edição – 18dez2008, Buoni Amici´s. Show com a banda Baby Dolls. DJs: Marquinhos e RKBaré. Produção: RK e Franciscus Galba.

>> Quer levar o Cabaré Soçaite pra sua cidade? Entre em contato: rkelmer(arroba)gmail.com

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em breve

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FOTOS DA FESTA

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Dança do empenado

Dança do empenado

Aperta que cabe

Aperta que cabe

Segura a cabeça pra não perder o juizo

Segura a cabeça pra não perder o juízo

DJ Guga de Castro com a boca ocupada

DJ Guga de Castro com a boca ocupada

Menina nova na casa sempre faz sucesso

Menina nova na casa sempre faz sucesso

Será que esse sofá aguenta tanto charme?

Será que esse sofá aguenta tanto charme?

Bom demais, bom demais, bom demais...

Bom demais, bom demais, bom demais...

Dono de cabaré tem suas vantagens

Dono de cabaré tem suas vantagens

Calorumano, calorumano!!!

Calorumano, calorumano!!!

Sob a benção dos Stones

Sob a benção dos Stones

Lá em Suécia tem disso no

Lá em Suécia tem disso no

Quero sair daqui mais não

Quero sair daqui mais não

Me segura senão eu caio

Me segura senão eu caio

Mô, precisamos de um sofazim desse lá em casa...

Mô, precisamos de um sofazim desse lá em casa...

RKBaré, produtor Galba e DJ Caú Borges

RKBaré, produtor Galba e DJ Caú Borges

Meninas, olha o passarinho

Meninas, olha o passarinho

O dono do cabaré em momento relax

O dono do cabaré em momento relax

Vai aprendendo, viu, vai aprendendo...

É chato ser gostoso

Ai, papai, cabaré é bom demais!!!

Ai, papai, cabaré é bom demais!!!

Faz um mês que esse lençol não é lavado

Faz um mês que esse lençol não é lavado

De quem é esse cabelo aqui?

De quem é esse cabelo aqui?


Virgulina, essa danada

novembro 21, 2008

Ricardo Kelmer 2008

A importância de uma vírgula

Se o homem soubesse o valor que tem a mulher andaria de quatro
à sua procura

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Quando você leu a frase acima, onde fez a pausa na leitura? Após a palavra “tem”? Ou após a palavra “mulher”?

Se você é homem, é bem provável que tenha feito a pausa após a palavra “tem”. Mas se você é mulher, provavelmente fez a pausa após a palavra “mulher”.

Este é um ótimo exemplo da importância do bom uso da vírgula nos textos. Mas, independente de como lemos a frase, esse negócio de andar de quatro pode até fazer parte das nossas fantasias, mas lasca o joelho da gente…

A propósito, a ABI (Associação Brasileira de Imprensa), na campanha dos 100 anos de sua criação, usou como mote justamente a vírgula pra mostrar a importância da boa informação na construção de uma sociedade livre e democrática. Vale a pena reproduzir o texto aqui, em nome da liberdade e da democracia, causas pelas quais este escriba sonhador sempre lutará.

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A VÍRGULA

1. Vírgula pode ser uma pausa… Ou não.
Não, espere.
Não espere.

2. Ela pode sumir com seu dinheiro.
23,4.
2,34.

3. Pode ser autoritária.
Aceito, obrigado.
Aceito obrigado.

4. Pode criar heróis.
Isso só, ele resolve.
Isso só ele resolve.

5. E vilões.
Esse, juiz, é corrupto.
Esse juiz é corrupto.

6. Ela pode ser a solução.
Vamos perder, nada foi resolvido.
Vamos perder nada, foi resolvido.

7. A vírgula muda uma opinião.
Não queremos saber.
Não, queremos saber.
Uma vírgula muda tudo.

ABI: 100 anos lutando para que ninguém mude uma vírgula da sua informação.

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(Veja o filme da campanha, de 60 seg)

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Ricardo Kelmer – blogdokelmer.wordpress.com

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Há algo de podre no 202

novembro 21, 2008

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Quando crianças, as primas guardavam um terrível segredo sobre o amanhecer. Agora que cresceram, o que pode acontecer?

Terror, fantástico.

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(Este conto integra o livro Guia de Sobrevivência para o Fim dos Tempos)

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HÁ ALGO DE PODRE NO 202
Ricardo Kelmer 1997

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EU E MINHA PRIMA HELGA sempre parecemos duas irmãs, de tão unidas. A mesma idade, os mesmos gostos. Na escola sentávamos lado a lado e corríamos de mãos dadas pelo pátio, alegres como dois passarinhos. Na verdade Helga sempre foi minha única amiga de verdade.

Foi o melhor tempo de minha vida. Éramos crianças e o mundo inteiro o cenário de uma grande brincadeira. Depois éramos quase adolescentes e o mundo passou a ser a fonte inesgotável de deslumbramento, nós duas encantadas e amedrontadas com as possibilidades que a vida descortinava à nossa frente. E tínhamos uma à outra para nos proteger e confiar nossos segredos.

Nos fins de semana ela costumava dormir lá em casa e nossas noites eram recheadas de papos sem fim, nossas músicas preferidas, os diários compartilhados. Quando começamos a nos interessar pelos garotos, treinávamos, uma com a outra, os beijos que daríamos neles. E no escuro do meu quarto nós nos ensinávamos mutuamente sobre os prazeres que nossos corpos podiam nos oferecer.

Helga era um sentido. Acho que era o único.

Uma noite mostrei-lhe uma foto do amanhecer, uma foto muito bonita na página de uma revista. Perguntei-lhe se ela já havia visto o nascer do sol. Helga me respondeu que não mas que sabia de um segredo. E perguntou se eu sabia guardar um segredo por toda a vida. Eu beijei meus dedos em cruz e disse que sim, que ela podia confiar em mim, eu jamais a trairia.

– Então promete.

– Prometo que nunca, jamais vou te trair – respondi, e toda a solenidade do momento nos envolvia feito música.

Ela então trancou a porta do meu quarto e me fez sentar ao seu lado na cama. E falou baixinho em meu ouvido que do outro lado da noite não havia crianças, que era por isso que os adultos não as deixavam ver o amanhecer. Mas um dia, quando nós fôssemos adultas, cruzaríamos a noite, juntas, sem medo, e veríamos o amanhecer. Era o segredo. E sua promessa.

Abracei-a, confiante em suas palavras, e nessa noite dormimos juntinhas, num só abraço, protegidas de todo o mal e cúmplices para toda a vida de um segredo e de uma promessa que nos unia ainda mais.

Um dia sua família precisou mudar de cidade e Helga foi embora. Choramos bastante, lamentando nossa triste sina. Beijei-a com toda a doçura e disse-lhe que a amava. Ela enxugou minhas lágrimas, disse que me amava também e que tudo faria para que em breve nos reencontrássemos.

Mas a vida não seria tão simples quanto nossos planos infantis. As cidades eram distantes e nossas famílias não eram ricas. Não pudemos nos ver nas férias seguintes e tivemos de nos contentar com nossas cartas quase diárias, já que os poucos minutos que dispúnhamos ao telefone eram um nada diante das tantas coisas que tínhamos para falar. Aos poucos, porém, as cartas de Helga passaram a demorar uma semana, depois um mês, depois meses… E um dia não chegaram mais. Entristecida de saudade, eu insisti, escrevendo ainda mais. Mas ela nunca voltou a responder. Chorei minhas mágoas com mamãe e ela me consolou dizendo que havia outras meninas legais e que eu faria outras amizades.

Infelizmente mamãe estava errada.

Um dia, quatro anos e vinte e cinco dias depois de nossa despedida, eu soube que Helga estava na cidade e iria lá em casa jantar conosco. Vibrei de alegria. Limpei e arrumei o quarto, troquei a cortina e pus lençóis e cobertores novos na cama.

Quando a porta abriu, tive duas surpresas. Helga estava diferente, havia crescido, era uma mulher. Estava ainda mais bonita. A outra surpresa foi o rapaz que estava com ela. Era seu namorado. Ela não havia falado dele. Eu não sabia. Apesar de simpático, não me senti à vontade com sua presença. Ela não deveria tê-lo levado lá em casa.

Helga me abraçou e beijou com carinho, disse que estava com saudade. Perguntei por que não respondera às minhas cartas e ela disse que não tinha tempo para escrever mas que lia todas. Perguntei se as guardara. Ela riu, olhou para minha mãe e respondeu que sim.

Jantamos todos juntos e Helga contou as novidades, falou dos meus tios e que no fim do ano faria vestibular para Física, queria ser cientista. Eu não conseguia deixar de olhar para ela. Como estava linda!

Depois do jantar fomos para a sala ver televisão. Sentei-me entre Helga e seu namorado, assim evitaria que ele a beijasse. Quando ficou tarde, mamãe sugeriu que ela ficasse para dormir. Para minha alegria Helga aceitou. Então ela despediu-se do namorado, combinando a hora que ele passaria para pegá-la no dia seguinte. Ele saiu e eu tranquei a porta.

Reservei minha cama para Helga, enquanto eu dormiria na rede. Quando ficamos a sós no quarto, puxei de baixo da cama o baú. Abri e mostrei-lhe meu maior tesouro: nossos antigos CDs, nossas fotos, meus diários, todas as suas cartas e os bilhetinhos que trocávamos durante as aulas.

Ela olhou tudo surpresa, não acreditando que eu realmente guardara tudo aquilo durante tantos anos. Segurou curiosa duas mechas de cabelo presas numa fita amarela e eu disse que eram nossos, ou ela não lembrava que cortávamos juntas nossos cabelos? Helga leu trechos de meu diário onde eu narrava meu sofrimento por estar distante dela e, nesse momento, sua voz parecia uma doce canção que falava de saudade. Perguntei-lhe se ainda me amava.

Ela parou de ler e olhou para mim. E me chamou para perto dela, na cama. Sentei a seu lado. Ela ajeitou meu cabelo e disse que gostava muito de mim, que jamais esqueceria nossa amizade. Perguntei se ela ainda sabia beijar. Ela riu e disse que sim. Então beijei sua boca. Ela correspondeu por alguns segundos mas depois afastou-se. Perguntei se não havia gostado. Ela então falou que o que havia acontecido entre nós era coisa de crianças, que agora éramos adolescentes, quase adultas, que em breve estaríamos na faculdade.

Respondi que ela estava enganada, que nosso amor não era coisa de criança, que eu não a esquecera nem por um só minuto e que ela ainda era a coisa mais importante do mundo para mim. Ela me olhou carinhosamente e me abraçou. Disse que jamais esqueceria o que vivêramos, que lembrava de tudo com muita ternura e que, apesar do tempo e da distância, eu continuava sendo sua prima preferida. Insisti: ainda me amava? Sim, ela respondeu, mas que agora devíamos deixar aquelas lembranças guardadas numa caixinha e cuidar da vida, seguir em frente.

Ela juntou tudo e pôs de volta no baú. Trancou e me entregou a chave. Tentei entender o que ela fazia mas estava confusa. Ela disse que já estava tarde, precisava dormir, no outro dia tinha que acordar cedo.

Helga dormiu. Eu não. Fiquei a noite inteira sentada no chão, ao lado da cama, vigiando seu sono para que nada de ruim lhe acontecesse. Tão bonita ela dormindo, parecia um anjo… A réstia de claridade que vinha da janela parecia acariciar seu rosto. Era como se a lua, invejosa, também quisesse beijá-la, como eu beijei.

De repente olhei para a janela e vi que estava… amanhecendo! Levantei e fui até lá. Afastei a cortina e abri a janela. O céu já não era um breu. Por trás dos prédios ele começava a mudar de cor. A escuridão cedia espaço a bonitas nuvens alaranjadas e alguns raios pareciam furá-las e lançar-se mais acima. Era o amanhecer, o primeiro que eu presenciava em toda a minha vida.

Sorri, sentindo uma estranheza, uma sensação misturada de vitória e desconforto. E de medo. O amanhecer era bonito mas ao mesmo tempo que admirava, eu estava com medo. Então era aquele o mundo do qual falara minha prima, o mundo para o qual um dia ela prometeu que iríamos juntas… Mas eu não sabia se queria ir, não me agradava a ideia de um mundo sem crianças. Estava bastante confusa.

Olhei para Helga, que dormia na cama. E a visão de seu rosto me encheu de coragem. Então me ajoelhei ao lado e a chamei, com ela eu não teria medo de ir. Chamei-a para que cumpríssemos o que ela uma vez prometera, que entraríamos juntas no mundo dos adultos.

Ela se mexeu na cama, sussurrou algo e voltou a dormir. Chamei-a novamente, ela tinha que levantar, tínhamos que entrar juntas, eu não iria sem ela. Mas ela disse que era cedo, que precisava dormir, que eu fosse dormir também. Chamei-a de novo. Ela então me olhou com raiva e disse que se eu não fosse para minha rede, chamaria minha mãe.

Afastei-me, surpresa. Helga jamais havia falado comigo naquele tom. Fiquei ali olhando para ela, tentando entender. Por que ela não queria ir? Não fazia sentido. Eu não iria sozinha. Sem Helga, o que eu faria no mundo dos adultos?

Então entendi. Ela preferia ficar em nosso mundo, o mundo das crianças, que ficava do lado de cá da noite. Aliviada por ter finalmente entendido tudo, fechei a janela e deitei na rede.

Quando estava quase dormindo escutei algo que chamou minha atenção. Era um som de galope, pareciam cavalos se aproximando. Olhei para a janela. Era de lá que vinha o som. Levantei e fui até lá. E vi.

Eram muitas, nem sei dizer quantas. Vinham montadas em seus cavalos bufantes, o galope alvoroçado. Gritavam e urravam e gargalhavam feito loucas. Empunhavam foices e lanças e as brandiam sobre as cabeças. Eram cadáveres humanos, esqueletos com restos de carne ainda pendurados. Criaturas semimortas, grotescas, horríveis. Pareciam saídas de seus caixões. A coisa mais pavorosa que eu já vira e haveria de ver em toda a vida.

Elas estavam logo à frente, expelindo ódio e crueldade pelos olhos vermelhos. E olhavam todas para minha janela, para onde eu estava, todos aqueles horríveis olhos vermelhos olhando para mim. Na imensidão da cidade, no meio dos prédios, as criaturas sabiam exatamente onde eu estava. Olhavam fixo para minha janela, para mim, e se aproximavam em seu galope enlouquecido e barulhento.

O desespero subiu pela minha garganta e quando eu tentei chamar Helga, minha voz simplesmente não saiu. Elas estavam chegando e eu não podia gritar. Quis correr mas minhas pernas não se mexeram e ali continuei, parada na janela. Elas se aproximavam e o barulho era cada vez maior. Como Helga podia continuar dormindo com aquele som ensurdecedor?

Enfim chegaram. Pararam diante da janela. Eu escutava seus cavalos alvoroçados, bufando, prontos para invadir o quarto. Pude sentir aquele horrível de coisa podre, de animal morto, insuportável…

Então juntei todas as minhas forças e, tão rápida quanto pude, saltei e joguei-me na cama, colando-me ao corpo de minha prima. Puxei o cobertor e me cobri dos pés à cabeça. Ela acordou e perguntou o que eu estava fazendo ali. Não consegui falar nada. De olhos fechados, tremia de terror.

Helga explicou que eu tivera um pesadelo, que estava tudo bem, que eu podia dormir com ela. Eu tremia, encolhida sobre mim mesma, apertando os olhos, petrificada de pavor. Helga me abraçou, tentando me acalmar. Mas era inútil. Elas estavam na janela e entrariam no instante seguinte.

Helga pediu que eu abrisse os olhos. Não abri. Ela insistiu, pediu que eu abrisse, que era ela quem estava ali, estava ao meu lado, sua prima querida. Não abri, não podia. Apenas tremia e tremia.

Ela então pegou minha mão, apertou-a na sua e pôs algo entre meus dedos. Era a nossa mecha de cabelo, que ficara fora do baú. Helga disse que aquilo era um amuleto, que eu não deveria mais ter medo, que o amuleto me protegeria todas as noites. Era só segurá-lo que o pesadelo iria embora.

Segurei a mecha de cabelo em minha mão, apertando-a com toda a força que pude. Então aos poucos percebi que as criaturas se afastavam. O amuleto funcionava mesmo. Continuei segurando e apertando. E as criaturas se foram. Aos poucos parei de tremer e chorei de alívio e agradecimento. Abracei minha prima amada e assim adormecemos, juntinhas. Protegidas. Como nos velhos tempos. Como nunca deveria ter deixado de ser.

Quando despertei, porém, estava sozinha. Minha prima já havia saído. Olhei para a janela e o céu estava azul. Abri a mão e lá estava o amuleto.

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TENHO ATUALMENTE 21 ANOS. Saí de casa, vim cursar faculdade em outra cidade. Meu pais alugaram um pequeno apartamento, que é onde moro, junto com Ramin, meu gato persa. Ele é castrado e nunca sai do apartamento, assim me faz companhia.

Sempre cuidei de estar em casa antes do amanhecer para não ter o desprazer de rever aquela cena horrível. Por conta disso recusei muitos convites para passeios pois temia não estar em minha cama, protegida, quando as criaturas malignas chegassem, vindas do mundo onde não há crianças. Sim, eu ainda tinha o amuleto. Mas ele era algo muito sagrado para que eu o usasse por aí em qualquer lugar.

Nunca falei das criaturas com quem fosse, nem com meus pais, nem amigas nem ninguém. Era meu segredo, meu e de Helga. Um dia, porém, num momento de fraqueza, cedi e acabei contando para Luiz. Já namorávamos havia alguns meses e ele sempre indagava sobre minha relutância em ver o amanhecer. Gostava dele e achei que entenderia, por isso que contei. Num momento de fraqueza quebrei nosso segredo.

Perguntei a Luiz se ele não as via, as criaturas horrendas, quando amanhecia. Perguntei se não escutava o barulho ensandecido dos galopes quando surgiam aos primeiros raios do dia. Se não sentia o cheiro insuportável de bicho morto. Ele era uma pessoa sensível, certamente entenderia. Falei que muitos anos atrás Helga havia me alertado sobre o outro lado da noite, que havia me contado o segredo do amanhecer e que um dia eu finalmente vira com meus próprios olhos. Falei do amuleto que eu usava, que minha prima me dera especialmente para me proteger, que era por isso que eu sempre o usava num cordão no pescoço quando dormia.

Terminei de falar e fiquei aguardando, nervosa. Nesse instante lembrei de Helga e senti todo o peso da quebra de um pacto valioso. O que ela pensaria? Será que me entenderia? Se ela conhecesse Luiz, certamente entenderia sim, ele era uma pessoa boa, gostava de mim.

Luiz escutou tudo e ficou muito sério. Perguntou várias vezes se eu não estava brincando e várias vezes respondi que não. Até que ele parou de perguntar. Compreendi nesse exato momento que não devia ter contado. Eu me enganara. Arrependida, não toquei mais no assunto. Lembrava de Helga e me sentia péssima por ter traído nosso segredo. O que ela pensaria?

Depois daí Luiz mudou. Passou a me tratar de um modo mais frio. E, pior, tentou me convencer que aquilo tudo era invenção minha, que as criaturas malignas não existiam, que eu devia ver o amanhecer sem o amuleto para constatar o que ele dizia.

Eu deveria ter terminado o namoro aí mesmo. Senti muita raiva por ele me tratar como uma louca. Sei que não sou louca, eu vi as criaturas. Escutei o galope atropelado, os uivos alucinados, pude sentir o mau cheiro tomando conta do ar e por pouco suas garras não tocaram meu pescoço.

Ainda namoramos mais algumas semanas, apesar dele continuar tentando me convencer. Volta e meia tocava no assunto e eu não queria escutar, não queria mais falar sobre isso, sabia que não adiantava. Terminamos porque um dia ele fez algo que não pude aceitar.

Foi numa noite em que dormimos juntos. Acordei de repente, assustada. Ele me chamava. Apontava para a janela do meu quarto e pedia que eu olhasse, dizia que nada havia lá fora, havia apenas o amanhecer.

Olhei para a janela, ainda zonza de sono, e quase desmaiei do susto que tomei. Lá estavam as criaturas chegando, elas e sua correria alucinada. Já vinham perto, eu podia escutá-las como se estivessem dentro do apartamento.

Olhei para sua mão e vi o amuleto. Luiz o tirara de meu pescoço enquanto eu dormia, o idiota. Nesse instante fui tomada por um ódio que nunca imaginei que pudesse ter. Ver o amuleto nas mãos daquele estúpido me deixou absolutamente enfurecida. Ele não podia ter feito aquilo.

Então o empurrei para fora da cama, gritando desesperada que ele não tinha o direito, que não fazia ideia do que estava fazendo. Eu tentava recuperar o amuleto mas ele não deixava, e dizia que eu olhasse lá para fora, que estava tudo normal, não havia nenhuma criatura maligna…

Eu poderia tê-lo matado, sinceramente que poderia. Luiz me tratava como se eu fosse uma louca. De fato, fiquei tomada pelo desespero, fiquei sim. Mas quem não ficaria vendo-as tão próximo?

Empurrei-o violentamente para o corredor e de lá para a sala. Ele tentava me conter, pedia calma, dizia que eu precisava de tratamento, que gostava muito de mim e queria me ajudar. Eu não queria ouvir e gritava que ele fosse embora. De um canto da sala Ramin, despertado pelos gritos, via a tudo assustado. Eu estava mesmo desesperada. Não tinha tempo. Luiz me entregava à morte e não percebia isso.

Não sei onde arrumei tanta força, afinal Luiz é bem mais forte que eu. Mas abri a porta da sala e o atirei longe. Ele caiu de costas no chão e foi rolando pelos degraus da escada. Apanhei o amuleto no chão e gritei, antes de bater a porta, que nunca mais queria vê-lo. E corri para o quarto, atirando-me à cama e me cobrindo com o cobertor.

Vivi tudo de novo, o inferno que eu jurara que jamais viveria novamente. Elas chegaram como da outra vez. Olharam pela janela e… entraram. Puseram-se em volta de minha cama, observando-me, todos aqueles cadáveres nojentos. Não, ninguém pode imaginar o que seja isso…

Enquanto eu, embaixo do cobertor, tremia e apertava em minhas mãos o amuleto, podia sentir seus olhares queimando feito brasa em minha pele, o bafo quente, o odor putrefato, meu corpo a um palmo de suas garras asquerosas… Não, ninguém não pode saber.

Então, aos poucos, elas começaram a se afastar, foram saindo. Sabiam que nada podiam contra mim se eu estivesse com o amuleto.

No mesmo dia Luiz me ligou mas não atendi. Mandou-me mensagens que não li. Farta dele, desliguei o celular. No dia seguinte peguei o ônibus para a cidade em que Helga morava, precisava lhe contar o que fizera. Não fui digna de seu segredo. Precisava que me perdoasse.

Cheguei à tarde. Da rodoviária peguei outro ônibus até a casa dela. Cheguei, toquei a campainha. E perguntei por minha prima. Foi então que soube que Helga havia morrido. Naquela manhã.

A princípio não acreditei. A voz no interfone perguntou quem eu era. Mas eu não consegui dizer mais nada. Uma mulher abriu o portão. Estava vestida de preto, o semblante triste. Ela falou algo sobre um acidente e explicou onde era o velório, estavam todos lá. Ela perguntou se eu entendera. Não lembro o que respondi mas eu entendi sim. Entendi tudo.

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AGORA, NESTE EXATO INSTANTE, são cinco e dez da manhã. Estou de volta ao meu apartamento, aqui na sala, sentada nesta poltrona, de frente para a grande janela de vidro. O sol surge às minhas costas, do lado oposto – eu tivera o cuidado de escolher um apartamento virado para o poente – mas já posso ver o céu deste lado começando a clarear. Em poucos minutos será dia.

Trouxe da cozinha mais uma xícara de café. Quero estar bem desperta para o que vai acontecer.

Já ouço o barulho, sinto o mau cheiro… Tento manter-me calma. Mas o peito está para explodir.

Já posso vê-las, as criaturas e seus semblantes enlouquecidos. E os berros, meu Deus, os berros… Não sei como os vizinhos não acordam com todo esse barulho. E minha vizinha, que reclama de qualquer coisinha, como pode não escutar?

Deixei no pratinho de Ramin ração suficiente para uns cinco dias. Espero que alguém se dê conta antes que o bichinho morra de fome.

Elas estão chegando, já me viram. A horda inteira me observa, com seus olhos vermelhos, as expressões de ódio. E a correria faz o apartamento tremer. Como podem não escutar, meu Deus? Os vasos caem, tudo treme! Até Ramin, de sono tão pesado, já veio ver o que está acontecendo…

Elas já estão aqui. Caminham sádicas ao redor da poltrona e o som de seus passos ecoa pela sala. Deus, como são repugnantes! E o cheiro, é impossível respirar… Ramin ficou apavorado com o que viu: arrepiou-se todo e saiu numa carreira pelo corredor, deve ter-se metido embaixo do armário, coitado. Eu bem que poderia tê-lo poupado disso.

Uma delas passa a mão em meu cabelo, a mão ossuda, restos de pele pendurada… O cheiro é insuportável. O asco me sobe à garganta e reprimo o vômito. Estou imóvel, não respiro, olho fixo para frente. Uma delas empunha uma foice. Por que não faz logo o que veio fazer?

Estão todas na sala e riem de mim às gargalhadas. Tento manter um mínimo de dignidade mas estou tão nervosa que meu queixo treme sem parar… Só queria que tudo acabasse logo.

Então uma das criaturas puxa meu cabelo e reclina minha cabeça para trás, expondo inteiramente meu pescoço. Sinto meu coração acelerado. Ela aproxima seu rosto do meu e percebo que sua boca espuma, posso sentir o bafo quente. A que empunha a foice se aproxima. Evito seus olhares fechando os olhos e assim os mantenho.

A criatura puxa meu cabelo um pouco mais. A baba de sua boca pinga sobre meus lábios cerrados e escorre pelos cantos… Eu me esforço para controlar a repulsa. Percebo que suas unhas afiadas tocam meu pescoço. Meu queixo ainda treme. Todas elas tocam meu pescoço, deslizando lentamente suas unhas como se saboreassem um aperitivo.

Duas imagens surgem em minha mente. A primeira é o amuleto enterrado no jardim da praça, a porção de terra a cobri-lo, nossas mechas de cabelo unidas para sempre. A segunda imagem é de Helga, olhando para mim, seus olhos tristes e decepcionados…

As lágrimas começam a escorrer pelo meu rosto. Minha cabeça continua inclinada para trás, meu pescoço exposto. Sem suportar mais o olhar de Helga, eu choro. Choro de olhos fechados e rezo para que tudo termine logo.

Então, num movimento brusco, a criatura faz o que deve fazer.

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Ricardo Kelmer – blogdokelmer.wordpress.com

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(Este conto integra o livro Guia de Sobrevivência para o Fim dos Tempos)

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A menina, a exorcista e a cantora

novembro 18, 2008

Ricardo Kelmer 2008

Primeiro a menina é usada como laboratório de novas técnicas de exorcismo. Agora é usada como objeto de promoção de igreja evangélica

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Lucélia Rodrigues da Silva. Quando ela tinha 12 anos seus pais a entregaram a uma empresária chamada Silvia Calabresi Lima, em troca de algumas cestas básicas. Porém, em vez de receber carinho e proteção, Lucélia ganhou um passaporte pro inferno.

Silvia percebeu que a menina estava possuída pelo diabo e então, durante quinze meses, manteve-a presa e incomunicável no apartamento, com o intuito, segundo ela própria, de tirar o demo do corpo da menina. Pra isso ela a amordaçava e amarrava, arrancava suas unhas, socava seus dentes, cortava sua língua com alicate e a obrigava a comer baratas e cocô de cachorro. Até que a polícia invadiu a masmorra, quer dizer, o apartamento, libertou Lucélia e prendeu Silvia.

Parece filme, né? Mas é um fato verídico, aconteceu em Goiânia, e você certamente lembra dele. Lucélia foi libertada em mar2008 e hoje está no Cevam (Centro de Valorização da Mulher), uma ONG de Goiânia, esperando ser adotada por alguma família. Lucélia viveu uma tragédia absurda, bizarra, uma coisa inimaginável, que pode comprometer o futuro de qualquer criança. Mas pelo menos o pior já passou, né?

Ô ilusão.

Você conhece a cantora Ana Paula Valadão? Nem eu. Mas muitos evangélicos conhecem, ela é uma dessas popistars gospel, ligada à Igreja Batista da Lagoinha, fundada por seu pai e que tem sede em Belo Horizonte. Igreja Batista da onde? Da Lagoinha. Mas vamos em frente. Lucélia, com autorização da Justiça, foi passear em Belo Horizonte, a convite da cantora, que ficara sensibilizada com o caso da menina. Lucélia, pelo jeito, voltou de lá transformada. Eis o que ela disse, segundo reportagem da revista Veja de 12nov2008:

– Eu me converti em Jesus. Preciso corrigir meu gênio.

Não esqueça que ela tem apenas 13 anos. Lucélia também falou sobre sua tragédia pessoal:

– A culpada fui eu. Eu, que não estava tocada por Jesus.

Primeiro a menina é usada como laboratório de novas técnicas de exorcismo. Agora é usada como objeto de promoção de igreja evangélica. Vem cá, seu Juiz, me desculpe a ignorância mas a verdadeira proteção de que essa menina precisa não seria contra religiosos? E esta Ana Paula, por que em vez de converter a menina, não foi levar Jesus pra Silvia, lá no presídio, ela sim deve estar muito precisada. Lucélia não precisa de religião, precisa é de uma família.

Mas nem tudo está perdido. Pelo menos agora Lucélia sabe que precisa de um corretivo pois ela mesma é a culpada de suas desgraças. Louvada seja a Igreja Batista da Lagoinha.

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Ricardo Kelmer – blogdokelmer.wordpress.com

Imagem: “A Virgem castigando o menino Jesus perante três testemunhas” de Max Ernst – 1926

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LEIA A TRILOGIA

> A menina, a exorcista e a cantora – Primeiro a menina é usada como laboratório de novas técnicas de exorcismo. Agora é usada como objeto de promoção de igreja evangélica

> Vade retro fanatismo – Mais fácil discutir com o próprio Satanás, que pelo menos nunca vai tentar me convencer que eu tô possuído

> O ateu e o inalcançável Mistério – O ideal seria que todo religioso percebesse que sua verdade é apenas uma versão do inalcançável Mistério

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LEIA NESTE BLOG

> As fogueiras de Beltane – A sexualidade sem culpa de uma sacerdotisa pagã

> A noiva lésbica de Cristo – Se hoje a sexualidade feminina ainda apavora a mentalidade cristã, no século 17 ela era algo absolutamente demoníaco

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> Religião no esporte é gol contra – Se nada for feito, a religião invadirá os campos e quadras e o esporte virará uma cruzada entre os jogadores e seus deuses. CONTÉM COMENTÁRIOS AGRESSIVOS DE FANÁTICOS RELIGIOSOS

> Entrevista com o ateu – Um pregador evangélico entrevista um escritor ateu. O que pode sair desse mato?

> O mundo é uma mentira – Este filme mostra o quanto a história é manipulada pelas elites religiosas e econômicas, que “criam” os fatos e nos fazem todos acreditarmos neles, lutarmos por eles, matarmos por eles

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01- sabe quem vai marcar presença na sua noite de autógrafos??? só os capetas e demônios,seus maiores inspiradores.tadinho. Jessica, coluna Kelméricas, Jornal O Povo – nov2008

02- que comentário ridículo,como pode alguém menorprezar tanto a palavra de Deus,pois eu apoio a ANA PAULA VALADÃO,serva de DEUS, e pobre de espírito quem não conhece a JESUS.sÓ ELE LIBERTA E SALVA,NINGUÉM SERÁ SALVO SE NÃO FOR POR ELE.o seu idiota,vai pedir perdão a DEUS pelo que você comentou aquí vai,seu imbecil. Há,ja ia esquecendo,SEU LIVRINHO DE MERDA,VAI SER UM FRACASSO. Edna, coluna Kelméricas, Jornal O Povo – nov2008

03- como alguém escreve um livro tão idiota como esse??? e o comentário???? filho,onde você se formou??? vou processar a falcudade que te vendeu,ops,concedeu o diploma.ainda bem que você deu uma palta de como vai ser sua noite de autógrafos,seria lamentável perder 1º o tempo indo até lá só pra ver tanta merda. Eduarda, coluna Kelméricas, Jornal O Povo – nov2008

04- sabe onde o sr Ricardo Kelmer deveria ir dá autógrafos??? na igreja universal,para espantar o demônios dos couros.êita cabocada que ele deve ter viu!!!! espera o passaporte para o inferno,já está sendo enviado.hhhaaaaaaaaaaa…. Fátima, coluna Kelméricas, Jornal O Povo – nov2008

05- claro que o ser Ricardo tinha que ser de São Paulo,tudo que não presta sai de lá não é verdade??? tá vindo envergonhar seu estado né.Só que aquí em Fortaleza,tem pessoas decêntes,sai fora imbecil,quem têm cultura e inteliogência,jamais vai perder tempo indo ter ver seu idiota.SAI FORA CAPETA,ESSA TERRA É DE DEUS. , coluna Kelméricas, Jornal O Povo – nov2008

06- Ô SEU louis Cifher E RICARDO E CIA. VOCÊ DEVE SER O PRÓPIO CAPETA NÉ VERDADE,POIS SAIBE DE UMA COISA,DEUS É MAIS,MAIOR QUE O UNIVERSO ,E VOCÊ TEM INVEJA PORQUE NÃO CHEGA NEM NO SUBSOLO QUE ELE PISA,TÚ E TEUS DEMÔNIOS ESTÃO CONDENADOS AO LAGO DE FOGO A 2ª MORTE. Anja, coluna Kelméricas, Jornal O Povo – nov2008


O presente de Mariana

novembro 15, 2008

Ricardo Kelmer 1998

A cabocla Mariana, entidade da umbanda, propõe noivado ao moço Dedé. Ela garante estabilidade financeira mas em troca exige fidelidade absoluta

> Este conto integra o livro
Guia de Sobrevivência para o Fim dos Tempos

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O PRESENTE DE MARIANA
Ricardo Kelmer 1998

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ESTAMOS FAZENDO DEZ ANOS de casados, eu e Mirley. É uma mulher incrível, faço questão de lhe dizer, e continua bela e fascinante como no dia em que a conheci. Para comemorar a data viemos passar o fim de semana em nossa casa de praia. Trouxemos vinho, velas aromáticas e nossos discos preferidos. Dez anos de alegrias. Dois filhos maravilhosos. Houve dificuldades, é claro, mas nosso amor superou tudo.

Nesse momento Mirley está na praia com as crianças. Preferi ficar aqui na rede da varanda, escutando Julio Iglesias, olhando as árvores do terreno, me deliciando com o vento, o som que ele faz nas folhas. Dez anos. Tantas coisas vividas…

Recordei fatos, sensações, dizeres e pequenos eventos banais. Recordei os dias difíceis, um fraquejando, o outro segurando a barra… Ri sozinho de tantos encontros e desencontros, interessantes acasos, brigas homéricas que o tempo sempre faz tornarem-se ridículas. Em dez anos de convivência acumula-se o inevitável pó das coisas corriqueiras, eu sei, eu sei, mas um olhar ainda apaixonado, acredite-me, é capaz de captar poesia por trás da mais empoeirada rotina.

E foi nesta manhã, aqui na rede a vasculhar o passado, que súbito me veio a lembrança de Mariana. Foi como se um vento soprasse a areia de cima do acontecimento esquecido. Soprou e surgiu Mariana, ela e seu jeito gracioso de menina, o sorriso… E eu recordei tudo.

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ERA UMA QUARTA-FEIRA, o dia em que botavam mesa na casa de dona Neide, uma médium conhecida no bairro. Joca perguntara se eu gostaria de conhecer uma sessão de umbanda manauara, eu disse que sim e lá fomos nós.

Eu havia deixado Recife para ir morar em Manaus, onde investira todas as minhas economias num negócio de exportação. Minha namorada Mirley foi comigo mas infelizmente não se deu com o clima da região e voltou. Eu fiquei, eu e a promessa de que em breve faria algum dinheiro e voltaria também. Mas por aqueles dias, quase um ano depois, os negócios seguiam muito difíceis e o dinheiro e a esperança cada vez mais curtos. As perspectivas não eram nada positivas. E a saudade de Mirley me incomodava demais, feito um espinho encravado na alma. Sem ela ao meu lado, tudo era mais difícil de suportar. Quem sabe então alguma entidade poderia me dar uma mãozinha?

Formou-se a mesa. Estava concorrida a sessão daquela noite, algumas pessoas tiveram de ficar em pé, ao redor. Co-mo era minha primeira vez, deixaram-me sentar e bem ao lado de dona Neide, a médium, uma senhora muito distinta, corpo moreno e mirrado, cabelos e olhos bem pretos. Num canto da sala ficava a mesa do congá e nela pude distinguir imagens de Jesus Cristo, são Jorge, são Sebastião, são Cosme e são Damião e a da Virgem. A médium pediu a bênção de Oxalá, do Mestre Jesus, da entidade responsável pelo terreiro, que não lembro mais, e dos sete orixás: Orixalá, Ogum, Oxossi, Xangô, Yorimá, Yori e Yemanjá. Dez anos depois ainda hoje recordo dos orixás.

Nunca acreditei nessas coisas, acho que se pode explicá-las pela autossugestão. Mas como sou tímido, aquela experiência nova me deixou pouco à vontade. Via as pessoas expondo seus problemas às entidades e aquilo me soava estranho. Vi que umas conversavam ao ouvido delas, reservadamente, mas nem assim arrumei coragem. Sentia-me ridículo só de me imaginar falando ao ouvido de um imaginário preto velho baforando fumaça de fumo de palha, com aquelas pessoas fazendo um fundo sonoro de cantigas meio desafinadas.

Por ocasião da visita das entidades não senti nenhuma mudança mais significativa na médium. Observava-a com discrição mas atentamente, procurando falhas ou comprova-ções do além. Uma coisa, porém, me chamou a atenção: foram as sete doses, isso mesmo, sete doses de cachaça que ela tomou durante a visita de um caboclo não-sei-quem. Sem falar nas cervejas que outras entidades pediram e tomaram. Pela lógica dona Neide, com sua fraca compleição física, terminaria a sessão bastante embriagada.

Foi no fim que Mariana apareceu. Eu já interpelava Joca de canto de olho, demonstrando minha impaciência, quando dona Neide mais uma vez estremeceu, fechou os olhos e entrou em transe. De imediato percebi uma fragrância suave no ambiente, um cheiro de madeira, de mato fresco, e olhei discretamente ao redor para ver quem estaria usando perfume tão agradável.

Todos saudaram a entidade que chegava.

– Salve, Mariana.

– Salve, cabocla Mariana. Bem vinda.

– Bem vinda, Mariana do cabelo cor de telha.

– Salve, salve! – dona Neide respondeu, falando para todos. E percebi que sua voz se tornara mais juvenil.

– Quanto tempo que não aparece, Mariana.

– Êta, hoje tá cheio. Gente nova, homem bonito, que bom. Êta, felicidade!

Achei aquilo tudo ridículo e tive vontade de rir. Nesse exato instante, porém, o olhar de dona Neide cruzou com o meu. E tomei um susto. Aquele não era seu olhar, era outro. Estava diferente, mais brilhante, mais vivo. Tentei desviar, incomodado, mas algo me impediu.

– Esse é meu amigo Dedé – Joca tratou logo de me apresentar. – Tá vindo pela primeira vez.

– Tem um olho bonito, ele – dona Neide falou, meio séria, meio sorrindo.

Fiquei sem saber o que dizer, as atenções todas sobre mim. Procurava algo para fazer com as mãos sobre a mesa e evitar os olhares, principalmente o de dona Neide. Era estranho: dona Neide continuava ali, ao meu lado, mas ao mesmo tempo… não parecia ser ela. Não podia ser ela.

– O moço é encabulado, é? – ela perguntou, falando a poucos centímetros de meu rosto. Tinha um olhar meigo mas nele havia qualquer coisa de dominador. Era algo sutil mas que prendia meu olhar. Ela tocou meu rosto, sorriu e se virou, buscando os velhos conhecidos da mesa. Respirei aliviado.

Dona Neide, ou Mariana, cumprimentou a todos os presentes. Pude perceber que se demorava mais nos homens. Pediu notícias sobre conhecidos, perguntou sobre um e outro, riu de casos e se divertiu com uma confusão ocorrida dias antes na rua. Eu estava tão sem jeito com a situação que nem lembrei de pedir que também desse uma forcinha nos meus negócios. Contentei-me em admirar seus modos graciosos e seu bom humor. Decididamente, era uma entidade cativante.

Havia algo, porém, que me chamava a atenção desde o início de seus falares. Ela perguntava por seu noivo fulano e seu outro noivo beltrano e pelo jeito parecia ter muitos noivos. Curioso, cutuquei Joca e ele me explicou, falando baixinho ao meu ouvido:

– A cabocla Mariana não morreu, foi encantada, com 17 anos e meio. Ela é muito bonita. Tem a pele branca e o cabelo ruivo, da cor de telha. E o olho azulzinho. Quando se engraça de um homem, pergunta se ele quer ser noivo dela. Homem que é noivo de Mariana consegue o que quiser nos negócios, sobe rapidinho na vida.

Senti um frio no estômago. Ajeitei-me na cadeira, mais para perto do meu amigo.

– Meu irmão é noivo dela. Tu conheceu a loja dele, Dedé. Pois dois anos atrás não tinha nem onde cair morto. Enriqueceu rapidinho.

– E o que faz ela se engraçar de um homem?

– Ah, não sei. Ela gosta e pronto.

– E o que ela pede em troca?

– Ela é ciumenta, exige exclusividade total. Homem que noiva com Mariana não tem mais mulher nenhuma.

– Mas… como assim?

Alguém fez psiiiiuuu… Sorri um pedido de desculpas e me recompus. Mas o assunto era irresistível.

– Ela estraga qualquer xodó teu – prosseguiu Joca. Olha aquele ali, o Luís. Noivou com ela. Foi ele quem com-prou esta casa e deu de presente pra dona Neide fazer as sessões. Era um pé-rapado e hoje é dono de supermercado. Em compensação nunca mais se ajeitou com mulher nenhuma, Mariana sempre estraga o namoro.

– E não dá pra desfazer o trato?

– Não. Tem que ser muito macho pra noivar com ela.

– Pois eu topava um negócio desse.

– Tu não é doido!

– Se ela me arrumar dinheiro, eu vou embora daqui e ela não me encontra nunca mais. Caso com Mirley e ainda fico com dinheiro no bolso.

– Ela não te deixa sair daqui, Dedé. Tu não sabe o poder dessa menina, tu não sabe.

Já não adiantariam os conselhos. Eu estava tomado por um estranho frenesi. Entrara ali sem acreditar em nada daquilo mas agora estava disposto a abrir uma brecha em minha incredulidade para a cabocla Mariana se ela fosse real-mente capaz de me tirar do sufoco em que eu me encontrava. Quanto à questão dela estragar relacionamentos, bem, isso pra mim já era demais, não dava para acreditar.

– Antes de eu ir embora, queria conversar com este moço aqui… – Mariana virou-se para mim subitamente, me pegando de surpresa. – Não precisa me dizer que a vida não anda fácil pra ti, né? Moço honesto, trabalhador… Vem de longe, né?

Concordei com a cabeça. Era impressionante seu olhar. Eu me sentia envolto por um estranho carinho, uma água morna, aconchegante… um cheiro gostoso de mato fresco…

– Aposto que deixou namorada chorando, não foi?

Sorri encabulado.

– Sabe que a primeira coisa que elas reparam é no teu olho bonito?

Senti as faces quentes de vergonha.

– E sabe olhar do jeito que mulher gosta.

Eu não soube o que dizer.

– Precisa só respeitar um pouquinho mais as entidades. Eu sei que tu é inteligente. Mas com as entidades ninguém pode.

Falou e tocou meu braço. Decididamente não era a mão de dona Neide. Era a mão macia de uma garota.

– Mas eu respeito… – tentei consertar, incomodado pela exposição de meus secretos pensamentos.

– Então respeite mais um pouquinho que não faz mal. Tu sabe muita coisa. Mas ninguém sabe tudo.

Fiquei em silêncio, cada vez mais nervoso. Reprimenda de entidade, quem diria.

– Não sabe, por exemplo, ganhar dinheiro.

Ela falou e riu. E era uma risada de menina.

– Se quiser, Mariana te ensina.

No silêncio que se fez, escutei as batidas de meu cora-ção. O que ela estava mesmo propondo?

– Ele não tá interessado, Mariana – interrompeu Joca, batendo amavelmente em meu ombro.

– Verdade? – ela perguntou, os olhos nos meus. E por um segundo me pareceram azuis.

– Bem… eu…

– Teu caso não é sem jeito. Só umas coisinhas que estão emperradas.

Mariana prosseguiu me olhando, séria. Nesse momento senti algo estranho, uma leve sensação de torpor…

– Pra mim é fácil resolver.

– Em quanto tempo? – eu quis saber. Ela tinha mesmo olhos azuis. Ou era impressão minha?

– Mais rápido do que tu imagina.

Eram azuis sim. Um azul límpido, suave, quase uma carícia. Não era impressão – eu via. Não sei como. Mas eu via.

– Simpatizei contigo.

E o cabelo comprido, cor de telha. A pele branquinha, o jeito de menina levada. Não me peça para explicar – eu via.

– Mariana, ele não tá interessado – Joca nos interrompeu novamente.

– Tu continua despeitado, Joca. Só porque eu nunca quis ser tua noiva. Sabia, Dedé? Sabia que ele pediu pra noivar comigo e eu não quis?

Olhei para o meu amigo. Aquilo ele nunca me dissera.

– Faz muito tempo, Mariana. Eu nem sabia o que tava fazendo.

– Por isso que ainda hoje tá nessa situação, pedindo di-nheiro emprestado pro irmão. Nunca sabe o que tá fazendo.

– Você sabe que eu tô sem emprego.

Pensei em meu amigo Joca. Era mais velho que eu e já tentara muita coisa na vida. Nada dava certo. Os amigos esta-vam sempre lhe dando uma força. Parecia ter o estigma dos fracassados. Mariana teria visto isso nele? Por isso não aceitou noivar?

– Dedé? – ela me chamou. – Olhe, semana que vem eu volto. Pense com carinho porque eu só proponho uma vez.

– Isso é verdade – um homem falou por trás de mim. – Se não aceitar, ela não dá outra chance não.

– Espere… – Eu segurei seu braço. – Eu aceito.

Mariana abriu de novo seu sorriso lindo. Seus olhos a-zuis brilharam. Ela pegou minha mão, pondo-a entre as suas, beijou-as, olhou-me firme e perguntou:

– Você quer ser meu noivo?

Pensei em Mirley, no quanto gostava dela. Ela me perdoaria? A causa pelo menos era justa. Por um segundo senti que meu futuro estava se decidindo naquele exato segundo e que qualquer que fosse a decisão tomada, não haveria como voltar atrás. O olhar de Mariana estava no meu e era como ser ternamente abraçado… Eu já não estava na sala. Estava com ela, caminhando pela floresta, Mariana e seu vestido branco, o belo cabelo ruivo numa trança caindo no ombro, nós dois rindo, nós dois molhando os pés na água fria do igarapé, nossas mãos juntas, os corpos juntinhos, seu rosto perto do meu, mais perto, mais pertinho, sua boca, nossas bocas…

– Ele vai pensar, Mariana – Joca falou, me fazendo voltar à mesa. – Ele vai pensar direitinho e quarta-feira dá a resposta.

Olhei para ele com raiva.

– Então na quarta eu volto aqui pra saber – ela disse. E largou minha mão, virando-se para se despedir de todos.

Logo depois dona Neide abriu os olhos e, distinta como sempre, sorriu a todos e pediu que uníssemos as mãos numa oração pelos mais necessitados e por todos os pedidos bem-intencionados que foram feitos. Eu a observei com atenção e não percebi nenhum sinal de embriaguez. Ela havia bebido muito naquela hora e meia e sequer apresentava hálito de bebida. Isso me impressionou, é verdade, mas não tanto quanto a transformação de dona Neide: em seu semblante, em sua voz e em seus gestos já não havia mais o mínimo traço da jovem Mariana. A cabocla de olhos azuis e do cabelo cor de telha, se alguma vez estivera ao meu lado, já não se encontrava mais ali.

Enquanto caminhávamos na rua Joca me falou sobre o episódio do noivado frustrado com Mariana. Confessou que na época teve muita vergonha mas que agora já havia superado. E, inclusive, agradecia todos os dias por Mariana não tê-lo querido pois atualmente namorava uma garota óti-ma.

Eu queria saber sobre Mariana, estava inteiramente curioso.

– Ela se engraçou mesmo de ti. Mas não vai cair na besteira de noivar com ela, Dedé.

– Isso parece papo de noivo desprezado…

– Eu sei que parece. Mas me diga uma coisa: adianta ter muito dinheiro e nunca encontrar alguém pra dar o coração? Adianta?

– Eu vou pra bem longe. Ela não me encontra.

– Olha o que ela disse… Tu tem de ter mais respeito.

– Respeito eu tenho. Só não consigo é acreditar.

Joca riu, bateu em meu ombro e falou:

– Já vi muita gente chegar aqui em Manaus do jeito que tu chegou e voltar diferente, já vi.

E riu gostosamente.

Eu não me importava de voltar diferente, desde que estivesse melhor de vida. As opiniões de Joca não me demoveriam de meus propósitos. Noivaria com Mariana, juntaria um dinheiro e me mandaria dali. Já fazia planos até de como investir a grana. Uma soparia no Recife Antigo. Ou talvez uma fábrica de gelo em Olinda.

– Não vou poder ir contigo na quarta-feira – ele avisou. – Tu vai sozinho fazer essa besteira.

Naquelas dias sonhei duas vezes com Mariana – e a sensação agradável do sonho me acompanhava o resto do dia. Várias vezes senti seu cheiro, na rua, no ônibus… De repente percebia o aroma gostoso de mato fresco e então sua presença tomava conta do ambient, e algo em mim tornava-se mais calmo, mais compreensivo, mais doce.

Não tive jeito de conversar sobre isso com ninguém, nem mesmo com Joca. Com Mirley, nem pensar. O que lhe diria, que estava embevecidamente enamorado de uma entidade de 17 anos? Que pensava nela toda hora e tomava sustos quando via algum cabelo cor de telha passar na rua? Que me pegava desenhando seu nome em papel de guardanapo? Como dizer que noivaria com uma entidade de umbanda por causa de nosso futuro? Não, melhor não dizer. Seria um segredo meu e de Mariana.

Na quarta-feira seguinte eu estava lá de novo. E mais uma vez dona Neide recebeu as entidades. Como na sessão anterior, Mariana foi a última a aparecer. De novo o aroma suave de madeira, de mato fresco. De novo a voz alegre, a graça juvenil. Senti meu carinho por ela se derramando pela mesa. Admirei a beleza dos gestos simples, os mínimos detalhes. Como podia ser tão encantadora? Descobri que gostava dela. Muito.

Depois de conversar com algumas pessoas, Mariana finalmente virou-se para mim. E sorriu. E outra vez seu sorriso me trouxe o frescor de cachoeiras.

– Oi, moço bonito.

– Oi, Mariana.

– Pensou em mim esses dias, não foi?

– Pensei.

– Eu também pensei. Muito.

– Verdade?

Ela parou de sorrir e percebi tristeza em seu olhar.

– Olha, tenho uma coisa pra te dizer. Vem pra cá, vem… – E me chamou para que eu sentasse na cadeira ao seu lado, a que era reservada às conversas de pé-de-ouvido. Enquanto os outros entoavam uma cantiga, ela começou:

– Tu é mais protegido do que eu pensava. Vieram dizer pra eu não me meter contigo.

Não entendi.

– Olha, tu não pode ser meu noivo.

– Por que não? – perguntei surpreso.

– Tem entidade maior que eu, tenho que respeitar. Fiquei muito triste com isso.

Parecia o rompimento de um relacionamento profundo. Senti vontade de chorar em seu colo.

– Tu já tá protegido, moço bonito, não precisa de mim.

– Preciso – insisti. Já havia mandado às favas qualquer vergonha e discrição. – Preciso de você sim, Mariana.

– Vai, segue o teu caminho que é um caminho bom. Esse momento tá difícil mas tu é homem forte e vai atravessar a floresta. Tenha fé.

De repente lembrei de Mirley. E senti que não teria mais forças para continuar lutando. Finalmente vencido, impotente. Era o fim.

– Olha, já que tu não pode ser meu noivo, vou te deixar um presente. – E segurou minha mão, me puxando mais para perto. Agora ela sussurrava em meu ouvido. – Pra tu não ter dúvida do tanto que gosto de ti.

Respirei fundo e encontrei forças para perguntar:

– Um presente?

– Se tu não puder vir na quarta-feira que vem, eu vou saber que tu aceitou o presente de Mariana.

Percebi uma lágrima descendo de seu olho.

– E mesmo que tu me esqueça, eu vou estar sempre intercedendo por ti, viu? Agora vai, moço bonito, vai.

E me empurrou delicadamente. Feito isso, despediu-se rápido de todos e se foi. Foi-se o aroma de mato fresco. Foi-se a água morninha.

Saí de lá arrasado e fui procurar Joca. Não levava mágoa alguma de Mariana, pelo contrário, ela realmente me cativara e por ela eu era todo carinho. Mas não conseguia crer que fizera tantos planos em vão. E a famosa soparia no Recife Antigo? E a fábrica de gelo em Olinda?

– Ela gostou de ti – Joca falou, me consolando. – E se gostou, vai dar um jeito de te ajudar.

Não adiantaram as palavras de Joca. Estava tão triste que não tinha ânimo para nada. Os dias seguintes foram um inferno, mal conseguia levantar da cama. Trabalhar era uma tortura. Até a fome perdi. Estava deprimido e decepcionado com tudo, com a vida e principalmente comigo mesmo por um dia ter acreditado que uma entidade iria dar jeito em minha vida.

Como meu telefone estava cortado e só religariam na segunda-feira, fiz disso desculpa para não falar com Mirley. Não queria que ela percebesse meu estado. Joca me chamou para sair mas recusei: passaria o fim de semana trancado em casa. Não tinha vontade alguma de ver o mundo lá fora.

Na segunda-feira o telefone foi religado e à noite, assim que cheguei do trabalho, ele tocou. Era Mirley. Eu ainda estava triste mas consegui disfarçar. Ela então disse que uma das filiais da empresa de um amigo seu, no interior de Pernambuco, ficara sem gerente e que ele pensara em mim para ocupar a vaga. Explicou que tentou falar comigo no fim de semana mas não conseguiu, e que talvez seu amigo já houvesse conseguido um substituto. Falei que estava interessado e Mirley me passou o telefone de seu amigo.

Desliguei o telefone ansioso. Seria um castigo enorme perder aquela oportunidade graças a um telefone cortado por falta de pagamento. Liguei para o número anotado mas deu ocupado. Liguei de novo, liguei outra vez – sempre ocupado. Não consegui sequer levantar do sofá de tão ansioso.

Na centésima tentativa o amigo de Mirley enfim atendeu. Felizmente a vaga ainda existia. O salário não era tão bom quanto eu gostaria mas, como a filial ficava numa cidade próxima a Recife, eu estaria pertinho de Mirley e poderíamos nos ver todo fim de semana.

Acertamos tudo na mesma noite. Ele tinha pressa e perguntou se podia marcar minha passagem para quarta-feira, dois dias depois.

– Sim, claro – respondi, decidido. – Pode marcar.

Desliguei o telefone e fiquei parado, ainda sem acreditar. Então subitamente entendi. Era o presente de Mariana…

As lágrimas desceram sem que eu pudesse evitar. Ali, no sofá, tive uma crise de choro como jamais tivera. Lembrava de Mariana entre lágrimas agradecidas e só conseguia balbuciar: obrigado, obrigado…

Na quarta-feira, no aeroporto, despedi-me de Joca e pedi que agradecesse por mim a Mariana. E que dissesse que eu jamais a esqueceria. Ele riu:

– Precisa dizer não. Ninguém esquece Mariana.

Na quarta-feira, durante a viagem, eu só pensava na sessão. Naquele momento certamente estavam todos à mesa, olhando para as entidades no rosto de dona Neide. Sentia-me bem, confiante, a alma leve. Sabia, com toda a certeza que se pode ter, que aquele voo era o mais protegido do planeta.

No aeroporto de Recife, peguei minha mala e fui procurar por Mirley. Enquanto a aguardava senti um aroma familiar, um frescor gostoso…

De repente o toque em meu ombro. Meu coração gelou. Virei-me devagar, já sabendo o que veria. E vi. O cabelo avermelhado, a pele clara, os olhos salpicando azuis…

Nesse instante um rio de águas mornas passou por mim e eu me deixei levar pelas águas envolventes, o cheiro fresco de mato, a contínua melodia da floresta… Minha alma foi tomada por uma doce sensação de arrebatamento e enquanto dois lindos olhos azuis me acariciavam, tudo que eu conseguia fazer era sorrir, sorrir…

– Desculpe – ela disse, sorrindo sem jeito. – Pensei que era outra pessoa.

– Como?… – falei, voltando ao aeroporto, sentindo novamente os pés no chão. A garota aguardou que eu dissesse algo mas nada encontrei para dizer. Ela acenou para algumas pessoas mais adiante e depois sorriu para mim:

– Boa sorte. Tchau.

Fiquei parado, vendo a garota se afastar e correr para seus amigos. Não sabia o que pensar. Nesse instante escutei meu nome e vi Mirley se aproximando. Confuso, ainda procurei pela garota ruiva mas ela já havia sumido na multidão. Mirley me abraçou forte e chorou em meu ombro. Quase um ano que não nos víamos, tanta saudade…

– Que cara estranha é essa, Dedé?

– Foi a viagem… – respondi – Mas tá tudo bem. Já jantou?

Fomos embora rapidamente. No dia seguinte eu já assumiria a gerência da filial, havia muito trabalho à frente. Uma vida nova me esperava, dessa vez bem perto da mulher que eu amava.

E quanto à garota do aeroporto, já sei, já sei. Você certamente está pensando que eu acho que aquela era Mariana. Pois era sim.

Não tente me dissuadir. Nem me peça lógica, eu não a tenho nem para mim. Basta-me a certeza, pura e agradecida, que ainda hoje trago aqui no peito, de que a menina faceira que de repente sorriu para mim no aeroporto de Recife era Mariana sim, a cabocla Mariana do cabelo cor de telha, encantada aos 17 anos e meio, e que naquela noite de quarta-feira aproveitou uma folguinha na sessão de dona Neide para me ver pela última vez e, ao seu modo, me desejar felicidades.

É esta a história. Num momento de angústia e desamparo, eu estive disposto a ser noivo de Mariana e lhe desafiar os poderes. Ela me queria também. Mas o destino não quis assim. Mariana então, em sinal de amor, me concedeu um presente, uma oportunidade única de mudar para melhor a minha vida – oportunidade que agarrei com todas as forças.

É esta a história de Mariana. Que até hoje trago no peito, banhada em água morna, no cheiro do mato fresco. Durante os primeiros meses, ainda impressionado com tudo que acontecera, eu lembrava de Mariana todo dia e em silêncio agradecia. Aos poucos fui esquecendo, absorvido pelo trabalho intenso, a família que crescia. À medida que minha vida se equilibrava Mariana foi se tornando uma lembrança cada vez mais distante, até que sumiu. Talvez ela já não precisasse mais interceder tanto por mim, minha vida finalmente seguia seu rumo natural.

Hoje, porém, dez anos depois, aqui na casa de praia, ela voltou em minha lembrança. E em meu coração. E me fez lembrar de tudo outra vez.

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MIRLEY ACABA DE CHEGAR da praia com as crianças. Elas trazem um balde lotado de conchas. Laís diz que vai plantá-las no quintal para que nasça um pé de concha. Filipe repreende a irmã por acreditar nessas besteiras que os adultos dizem. Sento na beirada da rede e pergunto se eles apanharam sozinhos todas aquelas conchas ou se quem teve o trabalho foi a mãe deles. Filipe diz que uma moça os ajudou. Mirley diz que as crianças adoraram a tal garota de um jeito que ela jamais viu antes. Enquanto despeja as conchas no chão, Filipe me diz:

– Ela era bonita, pai. O olho da cor desse balde.

Olho para o balde azul, já sentindo algo estranho.

– E o cabelo vermelho, daquela cor.

Antes de Laís apontar para o telhado da casa eu já havia entendido. Sinto meu coração gelar, um súbito vácuo na alma. Seguro-me à rede como se segurasse a vontade de sair correndo em direção à praia.

– A pele tão branca, Dedé… – Mirley diz, ligando a ducha do jardim para o banho das crianças. – Não sei como aquela moça aguenta ficar nesse sol quente.

Levanto da rede sentindo uma coisa no peito, uma alegria estranha, uma melancolia, uma excitação, tudo misturado. Caminho em silêncio até a sala. No balcão sirvo uma dose de uísque e viro de uma vez. O ardor faz meus olhos marejarem. Um disfarce inútil para as lágrimas que não consigo controlar.

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> Este conto integra os livros
Guia de Sobrevivência para o Fim dos Tempos
e
Vocês Terráqueas – Seduções e perdições do feminino

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Saiba mais sobre a cabocla Mariana, os aspectos psicológicos e arquetípicos de sua crença: Mariana quer noivar

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Comentarios01 COMENTÁRIOS
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01- Vc sabe que sou apaixonada por Mariana… Bateu comigo e foi a história que mais me pegou, do único livro seu que li. Saudades… Ana Karla Dubiela, Fortaleza-CE – jan2005

02- Caro Ricardo, Gostaria de fazer um comentário sobre o seu conto da cabocla Mariana, que vc diz ser uma entidade de umbanda. Gostaria de lhe informar que as entidades de umbanda, principalmente os caboclos, que são orixás menores não fazem este tipo de exigência dos filhos de fé da umbanda, ao contrário são entidades elevadíssimas. Este tipo de pedido saõ de entidades provinientes dos catimbós, macumbas e outros rituais que lidam com magia negra e pesada. Faço este comentário pois a umbanda sofre muito preconceito por ser confundida com este tipo de coisa. Inclusive seria muito rico para seus conhecimentos que vc lesse as obras sobre umbanda esotérica de Matta e Silva e Rivas Neto. O seu conto prejudica a corrente astral de umbanda pois ajuda a alimentar nos leigos o tabu e o preconceito contra essa religião tão bela. Gostaria de solicitar que vc não citasse a umbanda nele. Atenciosamente. Clícia Karine, Crateús-CE – jan2005

03- Olá amigo, estou escrevendo de Fortaleza, sobre este texto fabuloso, gostaria que soubesse o quanto eu me sentio atraído pela historia pra ser sincero eu passaria o dia todo lendo e não cansaria. Abraços de seu amigo, fã, etc. Eudes Martins, Fortaleza-CE – mar2005

04- Acima de tudo, pela licença de ler completa a história. Depois, porque ela é belíssima! Não concordo com a leitora que falou que era uma falta de respeito ás entidades. Acho que se não é uma aventura verdadeira meresceria ser… Não gostei, Ricardo. Adorei! Parabéns e que a cabocla Mariana sempre traga sucesso na sua vida. Afinal, quem ficou apaixonado com ela uma vez e escreveu essa bela homenagem tão cheia de sensibilidade e meiguice deveria gozar da proteção da encantada. Abraço e mais uma vez, muito obrigado pela sua gentileza. PS.- desculpe-me o meu português, por favor. Milton, Montevidéu-Uruguai – abr2005

05- Já estava curiosa a respeito do final.Pura ficção, será?Acho que os leitores sempre se indagam sobre isso.Até pq, vivenciei coisas tão estranhas qt essa. Talvez, descobrir nas histórias uma possibilidade de verdade,nos faça mais “íntimos” do autor. Ah..outra coisa: adoro ler td q tem a ver com Recife.Morei lá por 4 anos e costumo dizer que minha alma é recifense.Vou lá pelo menos duas vezes ao ano, rever os amigos e o meu mar de todas as cores. Mônica Burkle Ward, Niterói-RJ – mai2005

06- Olá Ricardo! Bem gostei bastante do texto e gostaria de saber até que ponto a história é veridica ou mesmo se a sua pessoa já esteve em contato com a entidade pois quem a conhece sabe que a atração pela entidade é verídica, eu mesmo quando a encontro na casa de um amigo meu aqui em São Paulo me sinto atraido, é impressionante o poder de sedução desta entidade cá entre nós é a mulher que todo homem gostaria de ter. D. Mariana como conhecemos aqui em São Paulo é muito bela! É a estrela do tambor de mina aqui de São Paulo. Vinícius de Almeida, São Paulo-SP – mai2005

07- oi , me chamo regina vilhena, sou do para debelem mesmo, e no momneto estou no japao, acredito em tudo qeu lir, pois conehco marina de longos anos e ate hoje nao consigo fazer nada em minah vida sem a orientação dela, sabia sua historia muit bonita, sau fe tbm, sabe caro amigo neste exato momneto eu estou passando aki por muita dificulada sem trablaho sem casa para morar, mas a minah fe em deus em primeiro lugar e em mariana nao perco, tenho comigo ja vairas historia de maraina que ja aconteceu comigo, coisas que ela me disse qeu aconteceria e aconteceu de verdade, sabe provas , coisas reaais ate essa minah viagem apra ca foi ela qeu me mandou sei qeu to pado mento pois como ela me me mandou um recado essa semana . me disse asssim qeu tem certo sofrimentos que ela nao pode evitar. agora to muito feliz em ter lido sua historia e espero nao perder o contato com vc. se quzier pode me adicionar no seu msn ok fica com e cabocla mariana dos anjos perreira . assim que eu chamo para ela proteja nos dois. Regina Vilhena, Japão – mar2006

08- Só tenho um comentário a fazer : Adorei sua estória sobre a Mariana!Um grande abraço! Sidiany Colares Alencar – Fortaleza-CE – abr2006

09- Estou acompanhando o conto da cabocla Mariana. Não sou entidade da umbanda mas também trago sorte e prosperidade pra quem eu gosto e exijo fidelidade, que não precisa ser absoluta, basta que eu não saiba dos acontecidos. Não me importo muito em ser traída, pior é ser deixada. rsrsrs. Marcia Sucupira, Fortaleza-CE – mai2006

10- Li o conto da Cabloca Mariana, primeiro achei longo, mas nao consegui parar de ler…. bom, muito bom. Fabiana Vasconcelos, Boston-EUA – abr2006

11- O que mais gostei da Mariana e aquela mistura balanceada de realidade com ficcao, aquela pulguinha atras da orelha para as coisas que nao sabemos explicar, que sao dificies de acreditar, mas estao la… e so dar uma chance pra elas acontecerem. Fabiana Vasconcelos, Boston-EUA – mai2006

12- eu li o conto! Criativo… abraços. Priscila Saboya, Fortaleza-CE – jan2010

13- tive o prazer de conhecer o Blog do Kelmer quando pesquisava sobre a cabocla Mariana e me deparei com o conto O Presente de Mariana….lindo, encantador. Danyela Freitas, Belém-PA – mar2011

14- Oi, Ricardo. Tô sem net em casa , mas vim numa lan so pra te falar umas coisas…. Desde ontem eu tava toda depre( nao sei por que/ na verdade, sei, mas nao vou falar aqui…rsrsrsr), acordei e tirei o “vocês Terráqueas” da estante e fui ver os textos que ainda nao havia lido…. voce me arrepiou com “presente de Mariana” , e pelo arrepio, pensei: nao lembro quanto paguei nesse livro, mas valeu a pena!!!! Irlane Alves, Fortaleza-CE – jul2011

15- conto do livro VOCÊS TERRAQUEAS legal. Weslen Queiroz, Juazeiro do Norte-CE – ago2011

16- Adorei este conto, demais! Ligia Eloy, Lisboa-Portugal – ago2011


Pequeno incidente em Hukat

novembro 15, 2008

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Integrante do Projeto Sapiens descobre irregularidades comprometendo a evolução da espécie humana e se envolve em rebelião contra Deus, o psicomputador.

Suspense, ficção científica.

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(Este conto integra o livro Guia de Sobrevivência para o Fim dos Tempos)

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PEQUENO INCIDENTE EM HUKAT
Ricardo Kelmer 1997

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ENTREI NA SALA DO ALTO COMANDO e fui recebido por dois diretores e pela própria Wakl Egkonie, a diretora geral do projeto.

– Prazer em conhecê-lo, monitor Yehdu Arhkan – ela disse, apertando minha mão, o semblante sério. – Primeiramente parabéns por seu trabalho no Departamento de RPs. Funcionários como o senhor dignificam o nome da companhia.

– Obrigado, senhora.

Em quatro mil e quinhentos anos poucas oportunidades eu tivera de ver pessoalmente Wakl Ekgonie, a diretora geral do Projeto Sapiens, o projeto de monitoramento de novas espécies a cargo da companhia InterPlan. E a cada vez ela parecia mais durona.

– O senhor sabe que há algum tempo Deus tenta reparar a instabilidade em seu sistema operacional, sem êxito. Achamos que pode ajudar-nos a resolver o problema.

Fiquei surpreso. Sim, como monitor do Departamento de Realidades Paralelas, as RPs, eu tinha conhecimento do problema da instabilidade de Deus. Mas como eu poderia ajudá-Lo?

Construído em Vehz, o planeta de onde viemos, Deus era o mais avançado psicomputador de sua geração e o grande trunfo da InterPlan em sua luta para tornar-se a melhor companhia de monitoramento de novas espécies da galáxia. Um psicomputador é o centro vital de um projeto de monitoramento, capaz de comunicação psíquica com os integrantes do projeto e com a espécie monitorada, além de monitorar as realidades paralelas do cinturão dimensional do planeta e gerenciar a comunicação com a sede da companhia no planeta natal. No Projeto Sapiens Deus fazia tudo isso com velocidade e precisão jamais alcançadas por nenhum psicomputador de nenhuma companhia, o que enchia de orgulho todos os vehzys.

O objetivo de um projeto de monitoramento é desenvolver uma espécie dominante em determinado planeta, controlando sua evolução psíquica para garantir que ela sobreviva às dificuldades naturais e possa, no futuro, estabelecer contato com espécies de outros planetas e integrar a União Galática. A espécie escolhida por Deus foi um hominídeo que, duzentos mil anos atrás, começava a destacar-se no planeta Terra por sua notável capacidade de adaptação: o Homo sapiens.

Junto com a primeira leva de integrantes do Alto Comando e da equipe de monitoramento, Deus foi enviado à base terráquea do projeto pelo portal dimensional que liga Vehz à Terra. A conexão com o Homo sapiens foi estabelecida pela captação dos registros psíquicos de uma amostra que representava os grupos mais evoluídos da espécie. A partir daí Deus poderia, sem que os humanos jamais se dessem conta disso, monitorar e influenciar a evolução psíquica do Homo sapiens até o prazo final do projeto, quando a base seria desativada e Deus e os vehzys voltariam para casa.

– Será uma honra poder ajudar, diretora. Mas como eu faria isso?

– Recentemente Deus descobriu que Rehf Icul pode ser o motivo da instabilidade.

Outra surpresa. Rehf Icul era o desertor mais perigoso do projeto. E até mil anos atrás era meu melhor amigo.

– Como é de seu conhecimento, monitor, ainda não capturamos Rehf Icul e seu bando de rebeldes porque, por conta da instabilidade, Deus não consegue localizar a RP onde eles estão. Se Rehf for mesmo a causa da instabilidade, é mais um motivo para que seja capturado. Como o senhor era seu melhor amigo, sabemos que pode ajudar-nos a localizá-lo.

Então era isso. Pretendiam usar meus registros psíquicos para capturar o maior traidor do Projeto Sapiens. Eu sabia o que poderia acontecer a Rehf se o pegassem: seria novamente preso, julgado por alta traição e condenado à pena máxima, ou seja, todos os seus registros psíquicos seriam transferidos para uma minhoca sintética que ficaria eternamente exposta no Museu do Monitoramento da companhia, em Vehz. A autoconsciência de Rehf seria mantida, o que significa que ele continuaria para sempre pensando como Rehf, mas estaria limitado às possibilidades físicas da minhoca. A pena máxima era a forma com que a InterPlan punia aos que traíam o projeto, um duro castigo, é verdade, mas devidamente autorizado pelo Tribunal das Monitorias.

Eu e Rehf nos tornamos amigos ainda crianças, em Vehz, e foi por meio dele que passei também a me interessar por projetos de monitoramento. Para nossa felicidade entramos juntos para a InterPlan, que já comandava o Projeto Sapiens. Seu profundo conhecimento em psicologia de novas espécies rapidamente despertou o interesse de outras companhias mas a InterPlan soube mantê-lo, levando-o para o Alto Comando da companhia. Fomos transferidos para a base terráquea na mesma época, há três mil anos, eu como monitor no Departamento de RPs e ele na direção do Departamento Humano, substituindo o antigo diretor que se aposentara. Entretanto, Rehf começou a discordar de algumas decisões de Deus e perdeu o cargo. Como insistia em discordar e divulgar suas ideias subversivas, foi diagnosticado com a Síndrome de Ohj e passou a receber tratamento psiquiátrico. Um dia, durante uma visita que lhe fiz no hospital, ele me disse que se Deus prosseguisse errando, logo a humanidade exterminaria a si própria, o que poderia significar o fim do projeto e um imenso prejuízo para a InterPlan, além do desperdício de uma espécie com excelente potencial. Aquilo obviamente era uma blasfêmia mas relevei sua opinião, pois era evidente que ainda não estava curado, e respondi-lhe que não se preocupasse pois Deus era infalível e sabia o que fazia. Foi a última vez que o vi pois no dia seguinte ele foi enviado para a prisão de segurança máxima na RP de Groor, onde os presos ficam incomunicáveis, e então entendi que seu caso era mais grave do que eu imaginava. Por medida de precaução, junto com ele foram enviados todos os pacientes que também sofriam da síndrome, doze ao todo, entre homens e mulheres. Oitocentos anos depois Rehf liderou uma rebelião e, conhecedor dos portais que interligam as RPs, fugiu de Groor com os outros doze e desde então estão desaparecidos. Foi assim que perdi meu grande amigo.

Sim, é verdade que nos últimos tempos os humanos nos deram alguns sustos: fanatismos religiosos, guerras nucleares e desequilíbrio ecológico fizeram várias vezes o alarme soar na base. Isso, porém, deve-se a uma tendência autodestrutiva da espécie, existente desde antes do projeto, mas que, graças a Deus, está sob controle.

– Somos cientes dos riscos que envolvem tal missão, monitor Yehdu – prosseguiu a diretora geral, olhando-me firme nos olhos. – Por isso estamos dispostos a recompensá-lo à altura. O senhor nos leva ao vehzy traidor e em troca nós lhe concedemos a imediata graduação em monitoramento. E quando retornar da missão, terá também a direção do Departamento de RPs.

Por essa eu jamais esperaria. Quando alguém entra para um projeto de monitoramento, sabe que terá muito serviço pelos próximos cinco mil anos – um quarto do tempo médio de vida de um vehzy – antes de se aposentar. E sabe também que chegará no máximo ao cargo de monitor graduado pois a direção dos departamentos é exclusiva do Alto Comando das companhias. O que a diretora Wakl Egkonie me propunha era algo inédito.

– Então, o que nos diz?

– Preciso pensar, senhora.

Para participar de missões de emergência como a que me era proposta, era necessário ter os registros psíquicos totalmente monitorados por Deus. Isso significava que enquanto eu estivesse em missão, Ele acompanharia todas as minhas experiências sensoriais e mentais, ou seja, veria o que eu veria, escutaria e saberia de todos os meus pensamentos, sentimentos, sensações e intuições.

– Decida até amanhã. – Wakl Egkonie fez sinal e dois guardas se aproximaram. – Eles cuidarão de sua segurança, monitor Yehdu. E lembre-se: este é um assunto de segurança máxima.

Saí da sala, acompanhado dos guardas, e me dirigi ao prédio dos alojamentos. Entrei em meu aposento e os guardas posicionaram-se do lado de fora, um de cada lado da porta.

O Alto Comando poderia ter me chamado logo após a fuga de Rehf, duzentos anos atrás. Não o fizera por achar que Deus logo localizaria Rehf – o que estranhamente nunca aconteceu. Certamente consideraram bastante a ideia de chamar um simples monitor a participar de tão sério assunto e, ainda mais, de oferecer-lhe um cargo no Alto Comando. Definitivamente a situação era de urgência.

Eu entrara no projeto quatro mil e quinhentos anos antes, ainda em Vehz. Em quinhentos anos eu me aposentarei e voltarei para casa, para minha família e os amigos que lá deixei, e viverei até o fim da minha vida com comodidade. Porém, aposentando-me como diretor do Departamento de RPs eu seria quase um rei em Vehz. Isso compensava o alto risco da missão?

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NAQUELA NOITE, sozinho em meu aposento, repassei algumas informações importantes. Se eu aceitasse a missão, não poderia esquecer nenhum detalhe.

Avatares. Todos os que trabalham na base dos projetos são avatares de si mesmos, ou seja, são suas consciências temporariamente instaladas num corpo físico criado à semelhança do da espécie monitorada, enquanto o corpo original permanece na sede da companhia, no planeta natal, em repouso total induzido. Se o avatar morre, o corpo original também morre. Na base trabalham simultaneamente centenas de funcionários, cientistas e soldados que se aposentam após cinco mil anos de serviço e são substituídos. Eles não têm qualquer contato com a espécie monitorada mas os relatórios produzidos pelo psicomputador permitem o acompanhamento detalhado da evolução psíquica da espécie.

Realidades paralelas. Elas fazem parte do cinturão dimensional de todo planeta e, assim como a base do projeto, não ocupam a mesma dimensão espacial do planeta, o que impede que elas sejam descobertas pela espécie monitorada. Podem ser pequenas como um asteroide ou grandes como a lua terráquea e nelas a vida se desenvolve como no planeta, com algumas variações evolutivas em determinadas espécies. Instalada em alguma RP, a base é o centro de operações dos projetos.

Portais. As RPs do cinturão do planeta, inclusive a base, são interligadas por portais dimensionais, que se formam espontaneamente e funcionam como túneis de teletransporte em missões científicas ou de busca de desertores. Há portais na Terra mas apenas a base tem acesso a eles, o que impede que os desertores que habitam as RPs teletransportem-se para o planeta, tenham contato com os humanos e causem ainda mais problemas.

Síndrome de Ohj. É uma doença típica dos projetos de monitoramento e acontece quando o monitor apega-se de tal forma à espécie monitorada que tem comprometida sua isenção profissional, chegando inclusive a envolver-se em atos de indisciplina. A síndrome é tratada no hospital da base, geralmente com êxito. O caso de Rehf era especial porque ele fora um integrante do Alto Comando e tinha informações importantes sobre o projeto – capturá-lo era uma questão de honra para a InterPlan. Apesar de não ter qualquer contato com Rehf desde sua ida para a prisão em Groor, eu lembrava sempre dele e lamentava que houvesse adoecido tão seriamente. Eu admirava sua coragem mas ele era um traidor e merecia ser punido.

Deus podia contar comigo, como sempre. Eu aceitava a missão.

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A SESSÃO DE RASTREAMENTO dos meus registros demorou alguns minutos e o resultado indicou que Rehf muito provavelmente encontrava-se em Hukat, uma RP para a qual jamais houvera qualquer tipo de missão.

Eu não era um soldado e sim um funcionário burocrático do Departamento de RPs, que trabalhava organizando relatórios e jamais estivera fora da base. Agora, porém, teria que ir a uma RP desconhecida, entrando sozinho para não provocar suspeitas, usando falsa identidade, e deveria aproximar-me de Rehf o bastante para que Deus localizasse sua posição exata e autorizasse a invasão pela Força de Combate. E eu teria que fazer isso em no máximo doze horas porque depois, por se tratar de uma RP ainda desconhecida, Deus perderia minha localização. Era uma missão muito perigosa mas Deus tinha Sua atenção focada em mim e isso me deixava mais tranquilo. E muito honrado por servi-Lo.

Pouco antes de partir na missão Hukat, recebi as honras da graduação diretamente de Wakl Egkonie, como ela prometera. Eu era agora um monitor graduado e receberia a direção do Departamento de RPs ao retornar. Sim, eu tinha plena noção no que estava envolvido: em toda a história do Projeto Sapiens jamais houvera tamanho empenho numa missão de captura.

Fui enviado a Hukat no início da manhã. A base agora encontrava-se em alerta total e Deus acompanhava todos os meus pensamentos e ações. Felizmente cruzar o portal não demorou mais que alguns segundos. Infelizmente, porém, caí num deserto, no meio de uma tempestade de areia tão forte que escurecia o céu. Perigo.

Tarefa primeira: recuperar-se da tontura que vem após a entrada numa RP. Mas com aquela tempestade, como descansar? Com muito esforço pus-me de pé. Situação de emergência, nível 3. Procurei proteger os olhos, o nariz e os ouvidos mas era imensa a quantidade de areia. Emergência nível 4. Tonto e com a respiração cada vez mais difícil, tentei caminhar mas a areia já me cobria as pernas. Emergência máxima. Tudo indicava morte iminente e fracasso total da missão.

Então vi o dorht à minha frente, essa espécie de ema peluda e alada, utilizada para transporte aéreo em algumas RPs. O dorht dobrou suas grandes pernas, abaixou-se e dele saltou um vulto negro.

– A não ser que saiba respirar sob a areia, aconselho-o a vir comigo agora.

Era uma mulher. Ela ajudou-me a subir no dorth e, com as forças que me restavam, abracei-a firme pela cintura. O animal esticou as pernas, correu alguns passos e levantou voo, enquanto eu fechava os olhos para protegê-los da areia. Tudo que eu desejava naquele momento era sair dali e respirar normalmente.

Alguns minutos depois chegamos a um oásis livre da tempestade e a mulher me ajudou a chegar a uma tenda, onde deitei numa esteira e desmaiei. Acordei uma hora depois. Sentada na areia à entrada da tenda, a mulher me observava. Vestia-se toda de preto, com calça, botas pretas e uma túnica curta, além de um turbante que lhe cobria quase todo o rosto, deixando à mostra apenas seus olhos verdes. Ela me estendeu um cantil com água.

– Beba. Precisa se hidratar.

– Onde estou? – perguntei, sentando. Sentia-me bem melhor mas um pouco confuso.

– Posto avançado do deserto de Hukat. Meu nome é Kirtl.

Deserto de Hukat… Aos poucos recobrei os registros, o portal, o voo no dohrt… Missão Hukat. Registros intactos.

– Seu rosto me parece familiar – ela prosseguiu. – Como se chama?

Enquanto bebia a água reparei que ela portava na cintura uma pistola de laser, de uso exclusivo das forças de segurança de Groor. Certamente era uma das fugitivas.

– Sakiz. – Meu nome escolhido para a missão. – Sou monitor do Departamento de RPs e acabei de desertar.

– Como posso ter certeza?

– Rehf Icul me conhece. Pode levar-me até ele?

– Por enquanto não. Terá que ficar aqui comigo.

– Por quê?

– Estamos em alerta máximo. O Alto Comando planeja invadir Hukat.

Contive-me para não demonstrar surpresa. Como sabiam daquela informação? Eu precisava fazer com que me levasse até Rehf. E agora só havia um meio.

Saltei e joguei-me sobre ela, derrubando-a no chão. Rolamos até que eu ficasse por cima. No entanto, quando eu me preparava para tomar sua pistola, ela tocou-me o pescoço e imediatamente senti uma terrível câimbra nos músculos da garganta. Sem conseguir respirar, tive de largá-la e fiquei no chão, contorcendo-me de dor. Ela me algemou e foi sentar novamente à entrada da tenda.

– Devia agradecer por sua vida, monitor. Não escaparia daquela tempestade.

Sentei, respirando com dificuldade. Enquanto me recuperava, calculei que Rehf devia estar ali desde a fuga de Groor. Certamente aprenderam a lutar na prisão. Talvez possuíssem mais armas trazidas de lá.

– Por que o Alto Comando o enviou para cá?

Continuei calado. Precisava rapidamente descobrir um meio de convencê-la a me levar a Rehf.

– Respeitarei seu direito de não falar, monitor, mas lembre-se que agora é meu prisioneiro. E que da próxima vez não serei tão boazinha.

– Ainda pode se entregar, Kirtl. E Deus lhe assegurará um julgamento justo.

– Se confia tanto assim na justiça de Deus, é porque realmente não sabe o que acontece nesse projeto.

A síndrome de Ohj. Ela fazia as pessoas perderem o respeito por Deus. Era lamentável.

– Por oitocentos anos fui prisioneira em Groor, esperando um julgamento que nunca veio. Oitocentos anos forçada a trabalhos pesados e sendo obrigada a me prostituir para ter o que comer. Onde está a justiça de Deus?

Aquilo era uma blasfêmia.

– Se o que diz fosse verdade, Deus teria alertado o Alto Comando sobre tais abusos e…

– E o quê? Enviaria os Anjos para lá? – ela riu. – Os Anjos eram frequentadores assíduos de Groor, monitor. Eu me prostituía justamente para eles.

Anjos era o apelido desdenhoso do Alto Comando. Se aquilo fosse verdade, as informações provenientes de Groor provavelmente estariam sendo filtradas antes de chegarem ao Departamento de RPs. Mas, evidentemente, era muito mais provável que ela estivesse mentindo.

– Os Anjos eram muito indelicados, monitor, faziam coisas detestáveis. É uma pena que meus irmãos vehzys tenham se transformado em meros registros ambulantes, sem sentimento. Mas a culpa não é só deles: a frieza e a arrogância de Deus, esse Deus que agora me escuta por meio de você, contaminaram todo o projeto, a ponto de esquecerem que ele é apenas um psicomputador. Na base, quando se fala seu nome, todos só faltam abaixar a cabeça.

Deus, frio e arrogante? Como ela podia falar assim? Eram termos tão chocantes que a simples menção me dava ímpetos de atacá-la.

– Monitorando a psique humana com essa prepotência, Deus está levando todos os humanos a crer em apenas um deus. E, além disso, a chamá-lo pelo nome dele: Deus. Acha que isso é apenas coincidência?

Ela estava deliberadamente me provocando. Eram argumentos estúpidos mas eu não podia perder o controle.

– Se os abusos que você relatou são verdadeiros, isso significa que Deus nos enganou a todos. Quem merece mais crédito, o mais avançado psicomputador da galáxia ou uma traidora do projeto?

– Acha então que inventei a história?

Não respondi, era inútil. Nesse instante ela ergueu a túnica e começou a abrir o colete de couro que vestia por baixo. O seio direito surgiu para meus olhos. O outro, no entanto, não apareceu. Em seu lugar estava uma enorme cicatriz, muito feia.

O asco me subiu à garganta e engoli seco. Seu seio parecia ter sido extirpado. Desviei o olhar. Aquilo não era verdade. Ela estava tentando me iludir.

– Apesar dos Anjos, monitor, hoje me sinto mais inteira que quando cheguei em Groor – ela disse enquanto fechava o colete. – Acredite nisso.

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AQUELA SITUAÇÃO não podia continuar. Deus perderia minha localização em algumas horas e a missão seria abortada. Eu tinha que encontrar Rehf de qualquer maneira. E logo.

– Kirtl?

Ela estava do lado de fora da tenda.

– Preciso ver Rehf.

– Impossível.

– Você certamente sabe que manter prisioneiro um monitor significa…

– Significa uma honra para mim – ela falou, interrompendo-me. – Você é a nossa primeira visita oficial em Hukat. A propósito, sei que não foi sincero quanto ao seu nome. Como realmente se chama?

Já não havia motivos para continuar mentindo.

– Yehdu.

Ela arregalou os olhos, surpresa.

– Yehdu Arhkan? Departamento de RPs?

– Sim.

– Bem que seu rosto não me era estranho! – ela exclamou enquanto entrava na tenda e abria as algemas, soltando minhas mãos. – Venha, vou levá-lo a quem procura.

– Sério? Ao menos explique essa mudança tão brusca.

– Saberá logo.

Ela caminhou rumo ao dorht e eu a segui. Antes de montarmos ela avisou, pondo o dedo em minha garganta:

– Ainda é meu prisioneiro, monitor. Não esqueça.

Nenhuma vantagem em provocar conflito, afinal ela me levaria a Rehf. Porém, se ela sabia que Deus monitorava a situação, por que faria isso?

Sobrevoamos uma parte do deserto e chegamos a um outro oásis. Vi as tendas, os dorhts e também os outros fugitivos de Groor. Vestiam-se de modo parecido com Kirtl, estavam armados e a tensão no ar era quase palpável.

Fui conduzido à base de uma rocha e entramos por uma pequena abertura. Descemos dezenas de metros por um estreito corredor iluminado por tochas e entramos numa sala de paredes de pedra. Enquanto eu me perguntava sobre como Rehf me receberia após oitocentos anos, vi algo que simplesmente não pude acreditar. Ocupando um espaço no canto da sala, vi um psicomputador.

– Rehf? – Kirtl falou. – Yehdu Arhkan está aqui.

Olhei ao redor e não vi ninguém. Então escutei:

– Yehdu… Meu velho amigo.

Avaliação imediata dos registros vocais. Checagem positiva: era mesmo Rehf. Mas eu continuava sem vê-lo.

– Onde ele está? – perguntei a Kirtl.

– Rehf está na Terra. Mas por meio de Deusa pode se comunicar conosco.

Informação falsa. Não existiam portais de teletransportes entre a Terra e as RPs.

– Agora vou deixá-los a sós – ela disse, saindo da sala.

Aquele psicomputador ali, numa RP, no fundo de uma caverna, não fazia nenhum sentido. E o que era Deusa? Então, aos poucos, a imagem de Rehf surgiu no centro da sala num holograma de tamanho real. Ele estava vestido com uma longa túnica branca e sandálias. Seu cabelo crescera, chegava aos ombros. Tinha o semblante calmo e sorria, o mesmo sorriso amável que sempre tivera. Por alguns instantes olhei fascinado para aquela imagem à minha frente. Era estranho rever meu antigo amigo, meus sentimentos estavam confusos…

– Talvez não esteja entendendo algumas coisas, Yehdu – Rehf falou, fazendo-me voltar à sala. – Posso esclarecer. Mas antes deixe-me dizer que estou muito feliz em reencontrá-lo e que lembro sempre com carinho da nossa amizade.

– Gostaria de dizer o mesmo, Rehf – afirmei, reassumindo o controle sobre mim mesmo. – Mas você é um traidor do projeto.

– Compreendo seu ponto de vista, Yehdu.

– Que psicomputador é este?

– É Deusa. Irmã gêmea de Deus.

Deusa. Absolutamente nenhum registro. Ele mentia.

– Você é um ótimo monitor, Yehdu, e parabéns pela graduação. Mas duvido que receba a direção do Departamento de RPs.

Como ele podia saber de tudo aquilo?

– Você foi ingênuo de pensar que eles permitiriam isso. E de acreditar tanto em Deus. Mas age assim porque é um bom vehzy.

– Deus não me enganaria.

– Você não sabe tudo que envolve este projeto, Yehdu. Não sabe, por exemplo, que o Projeto Sapiens original consistia de dois psicomputadores gêmeos, um na base representando o princípio yang e outro numa RP representando o princípio yin, os dois trabalhando em harmonia, complementando-se, como sendo um só.

– Você… está mentindo.

– Duzentos mil anos atrás o projeto foi iniciado com os dois psicomputadores mas Deus, aproveitando-se de uma atualização no sistema de Deusa, convenceu o Conselho da companhia que ela deveria sair do projeto e que ele poderia atuar sozinho, inclusive porque, dessa forma, seria possível maquiar alguns dados do projeto perante o Tribunal das Monitorias. E o Conselho aceitou.

Deusa… De fato, eu sabia que no início do projeto havia dois psicomputadores e que um deles, por apresentar sérios defeitos, fora desativado.

– Deus excluiu Deusa do projeto e ela foi desativada – prosseguiu Rehf. – Para Deus sua irmã deixou de existir. Desde então o Alto Comando passou a basear-se apenas nos dados de Deus, ou seja, numa visão yang das questões, e, evidentemente, o equilíbrio psíquico do Homo sapiens rompeu-se com a negação da própria completude.

Enquanto olhava para a imagem de Rehf à minha frente, eu efetuava rápidas combinações de dados. Mas tudo era estranho demais e eu começava a ficar confuso. Rehf não estava na Terra, não podia estar, isso era impossível. Ele só podia estar em Hukat, talvez naquela caverna. Eu precisava ganhar tempo para que Deus o localizasse.

– Como você poderia saber de tudo isso?

– Quando ainda estávamos em Vehz, eu achava que o projeto corria perfeitamente bem. Assim como você, Yehdu, eu confiava cegamente em Deus e na versão oficial sobre a desativação do segundo psicomputador. Foi somente após chegar à base, monitorando os humanos de perto, que vi que a espécie estava unilateralizada em seu desenvolvimento psíquico, supervalorizando os aspectos masculinos e desprezando os femininos, e isso obviamente gerava crescente desequilíbrio na espécie e no planeta. Você certamente lembra dos meus protestos, que fui preso e que fugi de Groor com meus companheiros. Vim para Hukat porque tinha informações de que esta era a única RP que Deus não conseguia rastrear. E aqui encontrei o motivo: Deusa.

Senti estremecer algo dentro de mim. Por um instante tive medo de que aquilo tudo fosse verdade.

– Após religá-la a Deus, tivemos acesso a todos os registros dele. É por isso que sabemos o que se passa na base.

– Mas como conseguiu despistar Deus durante duzentos anos?

– Deus mesmo o fazia. Sempre que localizava esta RP, a presença de Deusa o confundia e ele automaticamente rejeitava os dados. Deus realmente se convencera que sua irmã não existia.

Aquilo tudo podia ser verdade? Que outras coisas mais a respeito do projeto não constariam em meus registros?

– Infelizmente Deus tornou-se obcecado pelo poder. Acha que conduz a humanidade no melhor caminho mas ninguém, nem mesmo um psicomputador, pode estar num bom caminho enquanto renega sua própria natureza integral. Encantados com a aparente autossuficiência de Deus, o Conselho deu-lhe carta branca até mesmo para decidir sobre julgamentos e condenações, o que obviamente é uma temeridade. Porém, como ele maquia os dados do projeto, o Tribunal das Monitorias não sabe nada sobre os absurdos que são cometidos.

Eu estava atônito.

– Felizmente conseguimos reativar Deusa e ela reconectou-se à psique da humanidade, o que fortaleceu os aspectos femininos, mas é preciso mais. Foi justamente esse maior equilíbrio psíquico do Homo sapiens que gerou a instabilidade no sistema operacional de Deus. Para repará-la, ele só tem uma opção: voltar sua atenção para cá.

– Então minha vinda a Hukat… foi uma armadilha para Deus?

– Prefiro dizer que foi um remédio amargo mas necessário. Trazendo você aqui e forçando Deus a reconhecer de novo a existência de Deusa, ele entenderá que precisa reincluí-la no projeto. Assim a espécie humana será salva da destruição iminente e Deus seguirá trabalhando como no início, junto com sua antiga e legítima parceira. Evidentemente o Conselho da InterPlan, em Vehz, não gostará nada disso pois terá que se explicar com o Tribunal das Monitorias.

Os dados não batiam. Eu não sabia o que deduzir de tudo aquilo. Ao mesmo tempo em que me sentia traído por Deus, e para mim isso era algo impensável, tinha medo de estar sendo enganado por Rehf.

– Você está mesmo na Terra?

– Sim. Escolhi uma região no Oriente Médio pela semelhança com Hukat. Ainda estou me adaptando mas tem sido uma experiência gratificante viver entre os humanos. E em breve meus doze companheiros virão para cá.

– Mas… isso é impossível.

– Deus nos ensinou que o único portal para a Terra fica na base, não é? Aí em Hukat há um também. E vim para a Terra porque se Deus quiser me capturar, precisará intervir diretamente no planeta, enviando a Força de Combate, o que ele só fará se estiver totalmente louco pois isso levará o caos ao planeta. Os humanos descobrirão a verdade sobre o Projeto Sapiens e isso poderá ser o fim do projeto.

– Lamento informar, Rehf, mas acho que esqueceu um detalhe. Em último caso Deus pode fazer a desconexão do avatar com o corpo original. Se isso acontecer você despertará em Vehz e todo o seu esforço será em vão.

– Deusa agiu primeiro. A desconexão reversa já foi feita.

Desconexão reversa. Nenhum registro.

– Mais uma nova informação para você, Yehdu. Só Deus pode fazer a desconexão do avatar com o corpo original, é verdade, mas é possível transferir em definitivo a consciência para o avatar, e só Deusa é que pode fazer isso, o que se chama desconexão reversa. Meu corpo original está morto em Vehz e meu avatar agora é meu único corpo. A mesma coisa ocorreu com meus companheiros. Agora somos humanos e nosso mundo é a Terra.

Aquilo tudo era tão absurdo que eu não conseguia mais raciocinar.

– Sua chegada nessa caverna, Yehdu, obriga automaticamente Deus a reconhecer de novo a existência de Deusa. Se ele preferir esconder a verdade do Alto Comando, que ainda acha que Deusa está desativada, não poderá ordenar a invasão de Hukat. Sem poder invadir Hukat e sem poder intervir na Terra, o que resta a ele?

O que Rehf dizia fazia sentido. Mas não podia ser verdade…

– Deus está me vendo e ouvindo agora, Yehdu. Como o notável psicomputador que é, ele sabe que a saída para tais dilemas é vivenciar a dor dilacerante dos opostos até o fim para, então, poder nascer a terceira via. Ou seja, só lhe resta entregar os pontos e reconduzir Deusa de volta ao projeto. A terceira via soa como a própria morte, eu sei, mas na verdade é sempre um renascimento.

Quem falava agora era o sábio Rehf Icul que tanto aprendi a admirar, uma das maiores autoridades da galáxia em psicologia de novas espécies. Como eu pude simplesmente esquecer de tudo que ele me ensinara?

– Para o Alto Comando eu e meus companheiros sofremos da síndrome de Ohj. Mas nós sabemos que quem está doente é Deus. E agora que você também sabe, chegou o momento de decidir seu destino. Se quiser juntar-se a nós, será muito bem vindo. Tenho de deixá-lo agora.

– Espere. Nós ainda… nos veremos?

– Sinceramente não sei pois é impossível prever o que Deus fará.

– Rehf, espere…

O holograma sumiu e fiquei ali, olhando para o vazio, zonzo com todas aquelas informações. Se Rehf realmente encontrava-se na Terra, a missão fora em vão. Se, ao contrário, ainda estava em Hukat, então eu tinha poucas horas para encontrá-lo.

E se a intenção era me confundir totalmente, ele o conseguira.

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– REHF SEMPRE FALOU muito bem de você. Dizia que um dia também descobriria a verdade.

Eu e Kirtl retornáramos ao posto no primeiro oásis. Já havia anoitecido e estávamos sentados na areia, encostados a uma pedra, olhando o céu estrelado de Hukat. Eu ainda não sabia o que concluir de tudo aquilo mas já não via Kirtl como inimiga.

– Não sei o que descobri. A única coisa que sei é que ainda estou em missão oficial. No entanto, se Rehf realmente não está aqui, talvez não valha a pena atacar Hukat.

– Ele não está aqui, acredite.

– Queria saber o que Deus pensa agora que sabe novamente da existência de… Sua irmã.

– Talvez ele aceite Deusa novamente. Ou surte de vez.

Eu estava fragilizado. As últimas experiências me deixaram mesmo bastante confuso e inseguro. Não sabia o que pensar, não sabia o que faria dali para frente. Sentia-me desamparado, como jamais me sentira em toda a vida.

– Você lembra de Vehz? – ela perguntou-me.

– Bastante.

– Quando vai voltar?

– Daqui a quinhentos anos.

– Falta pouco. Vai sentir falta daqui?

– Acho que não. Nunca me acostumei com os humanos, com sua autodestrutividade.

– Eles não têm culpa. Fazem guerras e matam em nome de Deus e, no entanto, Deus não passa de um psicomputador deslumbrado com o poder.

Aqueles termos ainda me incomodavam… Porém, se tudo aquilo era mesmo verdade, ela tinha total razão.

– Yehdu… Acha que para nós também existe algo como Deus, um psicomputador para monitorar nossa própria evolução?

– Um Deus? Para nós?

Ri da ideia. Era ridículo pensar que podíamos também estar sendo monitorados.

– Não há nenhum registro disso.

– Registros! Esta é a doença da nossa espécie, Yehdu. Achamos que a vida se resume em equações, níveis, relatórios… Foi nossa obsessão pelo controle de dados que criou um psicomputador fanático por si próprio. Precisamos de menos registros e mais sentimentos.

Kirtl me fazia raciocinar por outros ângulos. Era desagradável ter de admitir que as coisas talvez fossem de uma maneira bem diferente daquela que eu sempre me acostumara a ver.

– Acho que este é um tempo difícil para os humanos, mudanças drásticas poderão acontecer. Mas e nós, Yehdu, estaremos em melhor situação, você sendo enganado por Deus durante todo esse tempo e eu tratada como doente, sempre fugindo?

Eu não tinha a resposta.

– Por que não fica conosco?

– Não quero ser julgado traidor. Muito menos viver para sempre como uma minhoca de museu.

– Se fizer a desconexão reversa, não correrá esse risco.

Ela tinha razão. Mas tornar-me definitivamente humano era um procedimento radical e eu desejava voltar a Vehz.

– Agora você sabe de tudo, Yehdu. Por que não luta pela verdade?

Lutar pela verdade. Sim, eu poderia fazer isso não fosse por um detalhe…

– Porque… não sei mais qual é a verdade.

Eu estava à beira de um colapso nervoso, suando e tremendo bastante. Kirtl percebeu e me abraçou com carinho. E aceitei seu abraço. Eu me sentia tomado por uma solidão cósmica, absolutamente sem tamanho. Velhas verdades caíam aos meus pés e no lugar delas não havia nada. Qual sensação era a mais insuportável: trair Deus ou ser traído por Ele?

O abraço de Kirtl me aliviou e aos poucos me acalmei. Ela retirou o turbante e pude ver seu rosto suave, o cabelo negro cortado curto. Parecia agora uma simples garota e não a perigosa desertora perseguida pelo Alto Comando. Vendo-a assim, bela e afetuosa, não resisti e beijei-a, e seus lábios mornos me fizeram reviver antigas sensações… Quando eu havia trocado carinhos pela última vez? Pensei que talvez valesse a pena juntar-me a ela, lutar pelo futuro dos humanos, tornar-me também um deles…

Olhei o relógio. Logo findaria o prazo de doze horas. Rehf Icul não devia estar mesmo em Hukat. O que Deus faria?

– Kirtl, pode me levar ao lugar onde me encontrou? Voltarei para a base.

– Tem certeza que deseja isso?

– Logo mais estarei aposentado e voltarei para meu planeta e minha família. Isso é tudo que me resta.

Ela olhou-me e sorriu. Era um sorriso triste e resignado.

– Eu entendo.

Minutos depois alcançamos o lugar do deserto onde eu havia chegado e desci do dorth.

– Boa sorte, Kirtl – despedi-me, sabendo que provavelmente nunca mais a veria.

– Para você também, Yehdu.

Caminhei até o local exato e segundos depois comecei a sentir o desconforto típico da experiência de ser teletransportado. Eu estava nas mãos de Deus.
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Teletransporte do monitor Yehdu Arhkan finalizado com sucesso e encerramento da missão Hukat. Confirmo? SIM.
Disponibilização para o Alto Comando dos arquivos da missão Hukat. Confirmo? NÃO.
Destruição total dos arquivos da missão Hukat. Confirmo? SIM.
Preparação da Força de Combate para intervenção na Terra. Confirmo? SIM.
Deportação imediata do monitor Yehdu Arhkan para Vehz sob a acusação de alta traição. Confirmo? SIM.
Condenação do monitor Yehdu Arhkan à pena máxima. Confirmo? SIM.

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Ricardo Kelmer – blogdokelmer.wordpress.com

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> Este conto integra o livro Guia de Sobrevivência para o Fim dos Tempos

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Crimes de paixão

novembro 15, 2008

Detetive investiga estranhos crimes envolvendo personagens típicos da boêmia Praia de Iracema e descobre que alguém pretende matar a noite.

Terror, mistério, erotismo.

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(Este conto integra o livro Guia de Sobrevivência para o Fim dos Tempos)

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CRIMES DE PAIXÃO
Ricardo Kelmer 1994

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TODOS OS FREQUENTADORES do Quais Bar pararam surpresos quando chegaram no sábado e descobriram que o Olimar não aparecera para trabalhar. Afinal de contas, além de se tratar do garçom mais folclórico do boemíssimo bairro da Praia de Iracema, ele era conhecido por Penalidade, alcunha que lhe botaram os clientes por ter faltado ao trabalho uma única vez em vinte anos de profissão – justamente por ter, no dia, defendido de forma magistral uma penalidade máxima na final da Liga de Futebol do Quintino Cunha. A comemoração foi tamanha que à noite não teve condições de trabalhar. Olimar, o Penalidade.

E agora o homem faltava pela segunda vez. Era um acontecimento quase tão histórico quanto o da primeira. Gente se gabava de ter estado no bar na noite em que o Penalidade faltara. Roger Gaciano Jr., o renomado jornalista e frequentador da praia, procurando alguém para ilustrar sua matéria sobre a boemia do bairro, entrevistou quem? O garçom Penalidade, claro. E a entrevista até hoje está lá na parede do bar, plastificada para todo mundo ler.

– O Olimar não veio trabalhar?! Será que defendeu outro pênalti?

– Proponho realizarmos uma assembleia pra mudar seu nome pra Dupla Penalidade…

Especulações correram soltas por toda a noite. Apostas foram abertas, um mês de birita grátis para quem acertasse o motivo da segunda falta do Olimar. Tão carismático o homem que até mesmo sua ausência era uma festa.

Porém, no domingo à noitinha, quando a mulher do Olimar chegou ao bar perguntando pelo marido, começou-se a desconfiar de algo mais sério. Dona Cândida, aflita, menino novo no braço, dizia que ele saíra sábado à tarde e desde então não teve mais notícia. Carlitos, dono do Quais Bar, sensibilizado com a aflição da mulher, propôs organizarem uma comissão para ir atrás de notícia do seu melhor garçom. Dona Cândida não se preocupasse, fosse para casa, ele mandaria um táxi deixá-la e logo estaria tudo bem, o Olimar ia aparecer.

O mistério continuou até segunda pela manhã quando o corpo do garçom Penalidade deu à praia da Barra, já em decomposição. O laudo apontaria afogamento. Ele não sabia nadar, portanto jamais se arriscaria no mar. E o mais esquisito é que estava de roupa – teria caído do píer? Dinheiro e documentos no bolso. No corpo marca nenhuma de violência. O que poderia ter acontecido?

Penalidade foi enterrado no fim da tarde. Consternação geral. Quase todos os seus clientes se fizeram presentes, inclusive os ocasionais e até mesmo os que lhe deviam e ultimamente evitavam aparecer. A viúva recebeu ofertas de auxílio e pôde constatar como era querido o finado. Um turbilhão de flores acompanhou a descida do caixão e alguém puxou um violão para cantar Beira-Mar, de Ednardo, música favorita do Olimar.

No meio do chororô ninguém escutou o Jeová, vulgo Profeta, de dentro de seu casacão preto que havia muito não via sabão, dizer com seu jeito grave e o olhar fixo no caixão que descia:

– Lá se vai o segundo mártir.

Ou se alguém escutou, fez que não ouviu. Já não era fácil aguentar o Profeta nos bares com seus discursos sobre profecias apocalípticas, imagine em enterro.

– Mas o fim não se fez. Ainda restam três…

Apesar de muitos evitarem tocar no assunto, por uma lua inteira não se falou de outra coisa nas mesas dos bares da Praia de Iracema. Os mais inconformados fizeram abstinência etílica de três dias in memoriam. Outros beberam sem parar durante três dias.

Entretanto, ninguém, ninguém se deteve a relacionar a morte do garçom Penalidade com outra ocorrida três meses antes no Le Bombom, um motelzinho humilde frequentado pelas putinhas e travecas de fim de noite. A vítima fora seo Neném, dono do estabelecimento, gentil e pacato senhor de idade. Foi encontrado morto num dos quartos, estirado na cama. Estava nu e com a boca entupida com papel de bombons finos, coisa mais desumana.

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O DETETIVE ELÁDIO VIEIRA, como gosta de ser chamado (porém inapelavelmente conhecido no submundo do crime por Eládio Ratoeira), 38 de idade e 40 de baralho, que sempre se gabou de ser um detetive de nível, acordou naquela manhã numa ressaca federal. Não dormira mais que duas horas. Tomou um banho rápido e pegou um táxi para a favela Verdes Mares. Daquela vez exageraram: o pôquer terminara às seis da manhã. E ainda pagou o equivalente a um mês de trabalho ao filho-duma-égua sortudo do Mardônio.

O detetive Eládio Ratoeira (ele que nos desculpe mas certos apelidos já fazem parte da pessoa) nunca trabalhava nas manhãs de quarta-feira. Naqueles anos todos nenhum caso foi tão importante que justificasse sua falta ao velho pôquer das terças nem ao sagrado sono da manhã seguinte. Porém, ele conhecia dona Iza, a cigarreira, era seu cliente fazia tempo. E não teve como não se sentir abalado quando soube pelo telefone de sua morte naquela madrugada.

Quando terminou de fazer suas perguntas a vizinhos, parentes e amigos da vítima, o detetive Ratoeira rumou para seu escritório, no centro da cidade. Sentado em sua mesa com vista para a Catedral, comparou as informações que tinha e montou sua reconstituição. Dona Iza chega em casa, um pequeno barraco de madeira na favela Verdes Mares, aproximadamente às quatro da manhã. Vem da Praia de Iracema, onde trabalha como vendedora ambulante de balas e cigarros. Meia hora depois o marido sai para a fábrica, deixando mulher e filho no barraco. As primeiras chamas são avistadas logo depois por três homens que jogam sinuca num bar distante cinquenta metros. Socorrem o menino que dormia e retiram o corpo de dona Iza, já carbonizado, que jaz no chão da cozinha.

Ninguém da favela viu nada suspeito, nenhum fato estranho. Apesar de tudo indicar acidente, Ratoeira coçava a nuca sem entender por qual motivo a vítima não conseguira sair do pequeno barraco a tempo.

À noite foi à Praia de Iracema. Escutou garçons, taxistas e vendedores ambulantes – todos unânimes em afirmar que se tratava de pessoa querida, simpática e generosa, não cultivava inimizade. Às onze fechou o caderninho e encerrou as atividades. Mas antes de ir para casa deu uma passadinha no Quais Bar, o bar do finado garçom Penalidade, só para molhar o bico numa cachacinha. Reconstituiu as conversas da noite, uma a uma. A mulher não devia a ninguém, não gostava de confusão, era fiel ao marido. Nem crime passional, nem latrocínio e nem vingança. Restava acidente.

Ratoeira coçou a nuca com a ponta do polegar. Alguma coisa lhe dizia que tinha cachorro naquele mato. E sua intuição nunca lhe pregava peças. Por isso lhe botaram o Ratoeira no nome. Por mais que se esforçasse, não conseguira tirar o apelido. Apelido ridículo, dizia ele, Ratoeira é para investigador de polícia, corrupto e camisa manchada de suor. Ele não, ele tinha nível. Trabalhava de detetive porque sempre gostara de investigar mas era formado em Engenharia. Dava aulas em cursinho pré-vestibular mas seu negócio era desvendar casos. Era tão bom no que fazia que muitas vezes a própria polícia lhe solicitava auxílio. Aliás, foram eles que lhe botaram o ingrato apelido: Eládio Vieira é nome de professor, diziam. Então ficou Ratoeira. Até algumas madames, sempre preocupadas com as saidinhas dos maridos, conheciam-no pelo apelido: Dessa vez eu tenho certeza que ele está me traindo, seo Ratoeira…

Então tomou um gole e olhou para o mar iluminado da Praia de Iracema, descansando a vista. Os vendedores disso e daquilo, os carrinhos de pipoca e as luzes fortes dos postes faziam aquela parte do bairro parecer um parque. Como o bairro pudera mudar tanto em tão pouco tempo? Alguns anos antes os bares eram meia dúzia e conviviam pacificamente com os moradores. Agora eram mais de cem e de pouco adiantavam os esforços da associação de moradores para garantir mais tranquilidade e respeito às famílias que ainda insistiam em morar ali.

De uns moradores, em depoimentos que recolhera, escutou repetidas queixas quanto ao inferno em que se transformara a vida no bairro. Alguns chegaram a dizer que a morte da vendedora podia ter sido fruto da luta por pontos de venda, já não duvidavam de mais nada, os bares haviam trazido muitas pessoas de fora e, com elas, a violência.

Ratoeira já fora assíduo frequentador do bairro e conhecia sua história. Sabia que procedia a queixa dos moradores. Mas sabia também que a vocação boêmia do bairro vinha de longe e a proliferação dos bares era algo difícil de ser controlado por envolver muitos aspectos, entre eles a geração de empregos e o turismo cada vez mais forte.

Ele praticamente deixara de frequentar o bairro depois da massificação. Antes podia-se caminhar pelas ruas à noite, tranquilamente. Podia-se namorar olhando o mar sem medo de assalto e os frequentadores conheciam-se uns aos outros e mantinham certa cordialidade para com os moradores. Era comum encontrar uma roda de violão na calçada. A boemia continha em si uma boa dose de poesia e amizade.

Mas agora não. Em lugar de músicos, artistas, poetas e intelectuais, a Praia de Iracema via desfilar por suas ruas bandos barulhentos de mauricinhos e patricinhas, jovens obcecados pela potência do som de seus carros e a etiqueta de suas roupas. Com eles vieram assaltos, roubos de carro, brigas nos bares, mortes. Traficantes de drogas e jovens brigões também descobriram o filão. Então vieram os turistas, ávidos por consumo. Depois chegaram as prostitutas, por que não haveria um pedaço também para elas? A Praia de Iracema é de todos! – dizia o slogan da campanha turística.

O detetive voltou para sua quitinete com muitos pensamentos e uma pulga atrás da orelha. Embora se esforçasse para não levá-lo a sério, não conseguia esquecer do Profeta, o maluco que encontrou no Quais Bar. Conhecia-o de vista dali dos bares. Era o mesmo bêbado cabeludo de vinte anos atrás, o mesmo casacão fedorento, a mania de rimar as frases, não mudara nada. Ele sentara-se à sua mesa sem pedir licença:

– Sua intuição está certa, seo detetive. O que aconteceu com dona Iza não foi acidente. Mas não adianta um culpado perseguir pois a profecia vai se cumprir.

Na hora não atinou para o fato mas depois sim: como é que ele podia saber a respeito de sua intuição se não falara dela para ninguém? Era só o que me faltava, pensou intrigado, um maluco lendo meus pensamentos. Bem, concluiu, virando-se na cama para dormir, até mesmo os malucos acertam uma de vez em quando…

Três dias depois o laudo do IML saiu com uma conclusão curiosa: não havia indícios de fumaça nos pulmões da vítima. Isso significava que ela morrera antes de começar o incêndio. Mas não concluía sobre a causa. Para isso seria preciso mais alguns dias.

Ratoeira coçou a nuca: quer dizer então que dona Iza já estava morta? Teria sido queda ou algo assim? Ou alguém a matara?

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– Ô GARÇOM, duas cachaças, por favor.

– A minha é dupla.

– Muito bem, seo Jeová. O que o senhor sabe a respeito da morte de dona Iza?

Jeová, vulgo Profeta, de dentro de seu velho e endurecido casacão preto, olhou para o homem à sua frente com um misto de simpatia e desdém.

– O que eu sei é o que está escrito, seo detetive…

Naquela noite, uma semana após a morte de dona Iza, Eládio Ratoeira reencontrara o Profeta pelas ruas da Praia de Iracema e o convidou-o a tomar um aperitivo, por sua conta. Talvez o maluco tivesse algo de interessante a contar, ele que vivia dia e noite a realidade do bairro. O diabo era ter de aguentar o fedor daquele casaco…

O garçom chegou com as bebidas. O Profeta tomou a sua cachaça de dois goles e então pôs-se a falar da noite, da magia da praia e dos segredos dos bares. Contou histórias do bairro, lendas dos antigos moradores da área, personagens que já não existiam mais. Eládio Ratoeira escutava com atenção, surpreso com a própria paciência. O Profeta andava por ali desde o início da ocupação da praia pelos bares, ele e seu casaco, o cabelo sujo, os dentes estragados e todas as suas histórias esquisitas. Diziam que fora fotógrafo de jornal. Diziam que tivera uma banda de rock nos anos 70, Punk Froid ou algo assim. Diziam que endoidara por causa de mulher. Não havia quem não o conhecesse, quem já não lhe tivesse pago uma dose de cana.

– Não duvide da realidade, seo detetive. Isso é importante pra sua profissão. Por exemplo, se eu disser que tem alguém sentado nesta mesa com a gente, alguém que veio com o senhor, o senhor duvidaria, né?

Eládio Ratoeira olhou automaticamente para o lado. Quando deu-se conta, irritou-se consigo mesmo e entendeu que já escutara demais, meia hora ouvindo maluquices, onde andava com a cabeça? Então respirou fundo e, botando um pouco de autoridade na voz, falou que já estava tarde e que se o outro não tivesse nada de mais concreto para dizer, então fosse desculpando que ele tinha trabalho amanhã cedo. E pediu a conta.

O Profeta sorriu um sorriso curto de resignação.

– Vou falar na língua que o senhor conhece, seo detetive. Me diga uma coisa. Se o senhor não sabe que eu tenho nas mãos uma quadra de damas, então essa quadra não existe pro senhor, não é mesmo? Não existe porque o senhor não sabe que eu tenho, não é isso? Pois ele exista sim, independente do senhor saber.

O detetive Eládio Ratoeira, 40 anos de baralho, encarou o Profeta e sentiu um calafrio lhe percorrer a espinha. O maluco sabia que ele jogava pôquer? Então lia mesmo pensamentos?

Por alguns segundos manteve o olhar fixo nos olhos do homem, procurando alguma pista que indicasse qualquer coisa… Mas a expressão do outro não mudou, permaneceu impassível, o olhar manso e desarmado, tipo do sujeito incapaz de mal algum.

De repente um gato preto entrou pela porta do bar e aproximou-se da mesa, miando para o Profeta. Ele o pegou nos braços e pôs no colo, acariciando-lhe o pelo.

– O senhor está investigando somente o caso de dona Iza, não é? Pois vou ampliar um pouco mais seu horizonte. É só porque simpatizei com a sua honestidade.

Eládio Ratoeira esperou. Dos braços do Profeta o gato preto o observava com seus olhos amarelos.

– Olhe, a morte de dona Iza tem dois precedentes. Um é seo Neném, dono do motel, que morreu cinco meses atrás. O outro é o garçom Penalidade, morto faz dois meses. Eu sei que o senhor sabe, eu sei. Mas ainda não ligou os fatos. Os três eram personagens conhecidos na praia, faziam parte da paisagem. Atente pra ironia, homem: o dono do motel, que vendia sexo, morreu na cama. O garçom, que vendia bebida, morreu afogado. E a cigarreira morreu queimada.

– Morreu antes de ser queimada – interrompeu Ratoeira, dando-se conta, um segundo depois, que revelava um segredo de trabalho.

– É o simbolismo que vale. A noite está morrendo através de seus personagens. A profecia é desumana mas é real.

– Que profecia?

– O senhor conhece. Um dia a noite da Praia de Iracema vai morrer.

Eládio Ratoeira perdeu de vez a paciência. Pagou a conta e levantou-se.

– Pelo que me consta, seo Profeta, e talvez não conste ao senhor, é que foi uma mulher loira, bonita e aparentando vinte e poucos anos, trajando vestido preto, que foi vista na companhia de seo Neném poucos minutos antes dele ser encontrado morto. Nada de símbolo. Foi assassinato e vou provar.

– Então, homem? Pra que melhor simbolismo? Uma loira bonita e cruel, vestida de preto… A cool girl will kill you in a darkened room… O senhor conhece essa música?

Pronto, o maluco sabe inglês, pensou Ratoeira, coçando a nuca.

– O senhor está tão obcecado em descobrir o assassino que não consegue ver o óbvio.

Ratoeira caminhou para a calçada e, enquanto acenava para o táxi, pôde ouvir o Profeta lá na mesa, ainda com o gato nos braços:

– Toinho, Tereza, Tarzan… Quem é o próximo de amanhã?

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DURANTE OS DIAS QUE SEGUIRAM, o detetive Eládio Ratoeira aguardou com expectativa o segundo laudo sobre a morte de dona Iza. Finalmente obteve uma informação: os legistas não conseguiam descobrir a causa mortis. Simplesmente não sabiam.

A conversa com o Profeta repercutia insistente em sua cabeça. Aquela história da profecia sobre a morte da Praia de Iracema era antiga mas era apenas mais uma das histórias malucas sobre o bairro. O povo ficava fumando maconha nos becos e inventando aquelas coisas. A verdade verdadeira era que seo Neném morrera de ataque cardíaco e a mulher loira fora realmente vista na noite do crime por duas testemunhas. O garçom Olimar morrera afogado e não havia suspeitos. O caso de dona Iza é que era o mais misterioso. As mortes, porém, não tinham ligação entre si, como supunha o Profeta.

De qualquer modo, os casos do garçom e do dono do motel não eram da sua conta. O garçom certamente caíra sozinho do píer, embriagado. E a loira suspeita de matar seo Neném estava sendo procurada pelo polícia. Seu problema era a cigarreira, descobrir por que ela não conseguira escapar do incêndio.

Eládio Ratoeira ligou o chuveiro e meteu-se debaixo da água fria. O que precisava era de um bom banho e de uma mesinha de pôquer divertida. Quadra de damas… Quem sabe não seria uma dica para a mesa daquela noite? Bem que podia ser. Descontar o que o Mardônio lhe ganhara da última vez.

Após o banho vestiu-se rapidamente e foi encontrar o resto do pessoal no Papagaio, o único bar que aceitava receber aquela mesa de pôquer, uma mesa no depósito do primeiro andar, é verdade, mas aceitava. Mesa de cinco, uma garrafa de conhaque, pratinho de amendoim. Do lado de suas fichas uma foto da Danusa pelada, secretária do escritório vizinho ao seu, era para dar sorte, patuá antigo, ela até já casara. O cacife vale vinte, primeira pausa à meia-noite, mexeu no patuá do outro vale uma advertência, o prêmio é um, dois e quatro cacifes, vamos jogar que o jogo é jogado e tomem cuidado que hoje eu tô invocado…

Ratoeira tentava se concentrar no jogo mas não podia aparecer uma dama na mesa que logo lembrava da conversa do outro. Como o maluco podia saber que ele jogava pôquer? Será que era por isso que o chamavam de Profeta, tinha o dom de adivinhar coisas?

As três cartas da mesa começaram a ser abertas. Uma dama de espadas surgiu. Precisava se concentrar no jogo.

Toinho, Tereza, Tarzan… Mas até o Tarzan estava metido naquela história? Ratoeira achou engraçado e riu. Precisava se concentrar, estava muito disperso.

A segunda carta da mesa: dama de paus.

Toinho, Tereza, Tarzan… Todos começavam com T. Será que o maluco queria dizer que o nome do próximo a morrer começava com T?

Então a dama de copas apareceu na mesa. Trinca de damas na mesa! Uma exclamação geral percorreu a mesa. Todos se entreolharam, sorrindo maliciosos. Quem tivesse a dama de ouro faria a quadra. Se alguém tinha, sorriu para disfarçar a felicidade. E quem não tinha, sorriu para esconder o medo.

Ratoeira sentia o coração pulando dentro do peito. Ergueu o olhar e, do outro lado da mesa, deu de cara com os olhos desconfiados do Mardônio por trás da fumaça do baseado. Voltou às suas cartas. Ou se concentrava ou então o demônio do Mardônio lhe adivinharia o jogo.

Já havia visto a primeira de suas duas cartas. Era um dois de paus. A outra estava por trás. Faria um pequeno suspense para si próprio. Então, num impulso, dobrou a aposta, ainda sem saber qual era sua segunda carta, uma jogada no escuro. Claro que era arriscado. Não costumava fazer aquilo mas era o tipo da coisa que podia funcionar como um bom golpe psicológico nos outros jogadores. Tomou um gole do conhaque. Tinha de aparentar calma.

Então Mardônio pôs várias fichas sobre a mesa, dobrando a aposta mais uma vez. E tornou a encará-lo. Os outros jogadores desistiram e sobraram eles dois. Ratoeira, ainda sem ver a segunda carta, pagou a aposta. Alguém assobiou, surpreso.

Ratoeira tentou manter-se tranquilo. A coisa estava ficando séria. Respirou longamente e decidiu finalmente ver a segunda carta. Seu próximo lance dependia dela. Se fosse a dama de ouros, iria com a aposta até o fim do mundo. Tinha que ser a dama. Tinha que ser a quadra. A quadra do Profeta.

Ratoeira deslizou os dedos lentamente, fazendo a pressão exata para que a carta de trás não surgisse de todo. Fazia suspense para os outros e para si próprio. Podia sentir que Mardônio o observava atentamente, pronto para interpretar qualquer mínimo gesto seu. Os outros não ousavam falar nada. Era a maior aposta da noite.

Ratoeira deslizou os dedos mais um pouco. Descobrindo o lado inferior esquerdo, percebeu pelo desenho que a carta era uma figura, não era um número. O coração disparou. Tinha uma trinca de damas já certa e agora aquela carta podia ser a outra dama que faltava. Ou era um rei ou um valete ou uma dama. Tinha de ser a dama de ouros.

Continuando o suspense, descobriu um pouco da parte superior esquerda e a letra começou a aparecer, em cor vermelha, aos poucos, devagarinho, a cor vermelha…

Ratoeira, 40 de baralho, não acreditou no que viu. Por alguns segundos não conseguiu pensar em qualquer coisa. Depois imaginou que alguém aprontara alguma brincadeira idiota para cima dele. Mas ninguém ria. Estavam todos sérios aguardando sua decisão.

Ratoeira engoliu seco. Em sua mão estava uma carta que não era rei, nem valete e nem dama. Em sua mão estava um macabro esqueleto sobre um cavalo, empunhando uma foice. E a letra, no canto superior da carta, era um T. Um T vermelho como sangue.

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TÂNIA MARA PAROU em frente ao espelho do banheiro e enxugou os longos cabelos negros. Passou uma escova e jogou-os para trás. E parou para se olhar. Sua experiência como loira durara apenas seis meses, não foi muito proveitosa, poucos aprovaram. Até mesmo Rian, seu gato, estranhou a mudança. Ficava olhando para ela com seus olhos amarelos, olhando como se não reconhecesse aquela mulher loira. Agora seus cabelos eram negros novamente, a cor do seu gato e das roupas que usava, e era confortável reencontrar a velha imagem.

Vivia um bom momento. Os shows estavam acontecendo. Os rapazes da nova banda eram músicos competentes e juntos faziam um bom trabalho. A noite aos poucos tomava conhecimento de Tânia Mara. Ah, a vida devia ser sempre assim, ela falou para a imagem no espelho, cantar blues e viver as emoções. De preferência bem fortes, meu bem.

Deu uma última olhada no corpo nu refletido, o corpo que assumidamente usava como arma, nos palcos e na vida. Pôs duas gotas de perfume nas mãos e passou na nuca e no colo. Apalpou os seios. Olhou-os de perfil. E vestiu uma camiseta preta, que lhe desceu até metade das coxas. No espelho viu seu rosto ao lado do de Jim Morrison, refletido do poster da parede de trás. Antes de deixar o banheiro e dirigir-se ao quarto, beijou-o na boca.

– Você não me engana, cara. Sei que está vivo. Um dia a gente se encontra.

No toca-disco da sala, era ele, o Rei Lagarto, quem cantava: If you give this man a ride, sweet family will die… Killer on the road. Tânia Mara fechou os olhos, escutou a música e respirou fundo. Mordeu o lábio. Eu resisto a tudo, meu bem, menos às tentações… No quarto, pegou a garrafa de Jack Daniel´s na mesinha de cabeceira e foi para a sala. Parou na porta, segurando a garrafa e olhando para o homem no chão encostado no sofá. O relógio da parede lhe dizia que demorara vinte minutos no banho. Vinte minutos para o que ele terá é pouco…, ela pensou, sorrindo.

– Tim-tim… – ela brindou, após servir os copos.

– A você. Desumana Tânia.

– A mim.

Enquanto Jim cantava a mortal carona na estrada, Tânia Mara bebeu um pouco do uísque e olhou para o homem à sua frente. Conhecera-o por ocasião de um show, uma semana antes. Logo que chegou ao bar seus olhares se cruzaram de um modo estranho e durante o show pôde perceber como ele a olhava com desejo. Cantou o tempo todo excitada, sentindo a calcinha molhada. E fez seu melhor show. Quando saiu do camarim passou pela mesa para chamar sua atenção. A isca funcionou: ele a convidou para um drinque e ela aceitou. Ele elogiou sua voz e as músicas, principalmente Desumano Blues. Ela gostou do jeito dele, misterioso. Além do mais, ele falou: Você tem o jeito da noite… E isso ficou em sua cabeça, não esqueceu. O jeito da noite.

Rian surgiu de repente, vindo da cozinha, e foi enroscar-se em suas pernas. Ela pôs o gato preto em seus braços.

– Escapou, né, safado? Vem, vamos voltar. Hoje você não pode ficar comigo, entenda…

Ela saiu em direção à cozinha e voltou logo depois.

– Quem é você, Tânia?

– Uma garotinha sortuda sob os holofotes da noite.

– Ou só mais um anjo perdido na noite da cidade?

Ela imitou uma garotinha tímida e desprotegida, brincando com os dedos. Então foi até a estante botar novamente o disco para tocar. Podia sentir o olhar dele em suas costas, deslizando pelos seus contornos. Ele agora vai levantar e vir até aqui…

– Também gosta de Jim Morrison? – perguntou ela, pousando a agulha novamente na última música.

– Gosto mais de Tânia Mara.

A voz dele bem atrás, podia senti-la em seu pescoço.

– Por que você diz que eu tenho o jeito da noite?

– Porque a noite é desumana.

Desumana…, pensou ela, saboreando o que escutara.

– Nada que eu possa evitar, meu bem…

– Você tem futuro, Tânia Mara.

– Eu sei.

– Comigo.

– Com você? Essa parte do roteiro não recebi.

– Se quiser, posso levá-la daqui, exibir sua voz pelo mundo, vivermos uma tórrida paixão. No fim morreremos de amor em Paris. Na banheira de um quarto de hotel.

– Tentador… Mas os lagartos não morrem em Paris, querido.

Primeiro foi o braço dele em sua cintura, puxando-a com força. Em seguida foi a sua boca invadindo a dele, as línguas sem cerimônia. Depois as mãos, a camiseta subindo, rasgando, as mãos em suas costas, em seu pescoço, nos seios, seu corpo nu nos braços dele, no meio da sala. Depois foi o sofá, depois as roupas dele, a urgência, o suor. Depois as estrelas, as estrelas… E os teclados gotejantes de um blues morrendo aos poucos, sob a chuva. Depois o silêncio. Desumano silêncio.

“Meu bem, esta cidade ensurdece
e você esquece do que eu tenho pra dizer.
Meu bem, a noite é desumana
Fumando e bebendo sozinha em meu apê…”

(Tânia Mara – Desumano Blues)

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FOI O TENENTE TRINDADE, amigo informante na polícia, quem avisou Eládio Ratoeira. Imediatamente ele pegou um táxi e conseguiu chegar ao apartamento da vítima antes da imprensa, quando a polícia ainda recolhia material e fazia as fotos. Ratoeira conferiu o estrago com os próprios olhos. Viu o corpo nu da cantora, belo e ensanguentado, estirado de bruços no tapete, as pernas abertas, o pescoço rasgado. A polícia já havia recolhido alguns objetos para análise pericial, entre eles dois copos e um disco de vinil partido ao meio com restos de sangue.

– Conhece, Ratoeira? – perguntou o tenente Trindade, mostrando o disco partido.

– L. A. Woman. Um crime quebrar um vinil desses.

Ratoeira caminhou pelos aposentos. No mural do quarto viu fotos, bilhetinhos, cartazes de show… De repente um gato preto surgiu correndo e foi meter-se debaixo do guarda-roupa. Pela ração na cozinha, Ratoeira deduziu que morava com a moça. Tentou pegá-lo mas o gato saltou e em dois tempos estava no parapeito da janela, olhando para ele. Por um instante lhe passou pela cabeça que o bichano podia estar tentando dizer algo, gatos são meio bruxos. Fixou o olhar nos olhos do animal e perguntou:

– Quem foi? Eu sei que você sabe.

O gato, imóvel no parapeito, continuou olhando para ele. E miou.

– Então é este seu método, Ratoeira… Interrogação felina.

Ele virou-se e viu o tenente, parado na porta.

– A vizinha disse que o nome dele é Rian. Em francês quer dizer…

– Nada.

– Exatamente. Ou seja: ele não sabe nada.

Enquanto o tenente Trindade ria, Ratoeira pegou o gato nos braços e o acariciou.

– Não se deve duvidar da realidade… Né, Rian?

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ELÁDIO RATOEIRA SENTOU-SE no sofá da sala de sua quitinete. Ligou a TV mas não prestou atenção. Seu pensamento estava na Praia de Iracema…

Tânia Mara, o nome da moça. Bonita. Vinte e três anos, cantora de blues. Tinha uma banda e os frequentadores dos bares a conheciam. Estava na cidade havia um ano, morava sozinha. Fizera um show na noite de terça e depois não foi mais vista. Quem descobriu o corpo foi o gaitista da banda, dois dias depois. Como ela não havia comparecido ao ensaio nem atendia o telefone, ele fora até seu apartamento. A porta não estava trancada e ele entrou, encontrando o corpo estendido no tapete.

Tânia Mara… O T da charada, pensou Ratoeira. Cantora da noite. Morreu com o pescoço rasgado por um disco. Indícios de luta corporal, ela certamente resistiu. Mas o assassino era mais forte e a derrubou. Virou-a de costas no tapete da sala, deitando sobre ela. Tapou-lhe a boca com um lenço para que não gritasse. Quebrou o disco ao meio e rasgou-lhe o pescoço. Enquanto a hemorragia a enfraquecia, ele a sodomizou ao som de Riders on the Storm…

– Miaaauuu…

Ratoeira despertou com o miado do gato aos seus pés.

– Tá com fome, Rian?

Levantou-se e pôs mais ração no pratinho. Depois, ainda com a cena do crime em sua mente, pegou caneta e papel. E escreveu o nome de todas as vítimas. Primeiro o dono do motel, que morreu na cama. Três meses depois o garçom, que morreu afogado. Dois meses depois, a cigarreira, que morreu queimada. Um mês depois, a cantora, morta com o pescoço rasgado por um disco. Nenhum latrocínio. Nem crime passional, nem vingança. Em seis meses quatro crimes sem sentido. Mas simbolicamente coerentes, como dizia o Profeta. Ratoeira coçava a nuca, pensando se a polícia estaria a par daquela suposta relação entre os crimes. Coincidência ou não, ele já não conseguia deixar de relacioná-los.

Mas como o Profeta sabia que a próxima vítima começaria pela letra T? Ou teria sido apenas um palpite? Ratoeira escreveu o nome das vítimas no papel. Neném, Penalidade, Iza e Tânia, em sequência cronológica. N, P, I e T. Não formavam nada lógico à primeira vista. Tentou algumas combinações mas nada lhe chamou a atenção. Então percebeu que os dois primeiros eram apelidos. O nome verdadeiro do seo Neném era Nilton, a mesma inicial. Mas o nome do garçom era Olimar.

Substituiu a letra P de Penalidade pela letra O de Olimar. Tinha agora N, O, I e T.

Um relâmpago cruzou o interior de sua mente. Um arrepio percorreu-lhe o corpo de cima a baixo. Ratoeira ficou olhando para o papel, sem acreditar.

A profecia.

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– EU SABIA QUE VOCÊ VIRIA. Quer sentar?

Jeová, o profeta da praia, ele e seu casacão preto e imundo.

– Uma dose de cana pro Profeta – pediu Ratoeira ao garçom.

– Tripla – acrescentou Jeová, grave como sempre. – A moça merece.

– Como você sabia que seria ela?

– Tudo que sei é o que está escrito.

– E o que está escrito?

– Que chegou o fim dos tempos.

– Isso eu também sei. Que mais?

– Que a noite desta praia está condenada.

– Condenada por quem?

O garçom chegou com a bebida. Eládio Ratoeira observou o Profeta erguer o copo cheio de cachaça à altura do nariz, fechar os olhos e cheirar. Ia repetir a pergunta quando o outro abriu os olhos.

– As pessoas dizem que eu sou louco. O que o senhor acha?

– Não acho nada. Quem está tentando matar a noite?

– A noite está morrendo… – prosseguiu o Profeta, entre um e outro gole. – Mas a morte sempre vem, seo detetive. Ninguém sai vivo daqui. A noite dessa praia morre quando abrem um novo bar, por mais estranho que pareça. A noite morre quando esses boyzinhos vêm desfilar suas grifes por aqui, quando as barraquinhas na rua vendem bebida aos menores, quando os próprios garçons fornecem cocaína aos clientes e os taxistas e donos de motéis fazem vista grossa pros turistas e suas menininhas de doze anos.

Ratoeira escutava, seus olhos nos olhos vermelhos do Profeta.

– A noite morre toda vez que alguém é assaltado na esquina escura, quando um carro é roubado, quando brigam os garotões valentes de academia. A noite morre quando a mãe se exaspera ao ouvir o choro do bebê que não consegue dormir por causa do som alto do bar vizinho. A noite morre nas músicas dos carros, nas churrascarias que trazem gente de bairros distantes e que não entende a brisa da praia. A noite morre porque esse é o destino de todos. E a culpa não é de ninguém. Por isso não adianta o senhor procurar o culpado.

– O que fazer então?

– Os dias estranhos nos alcançaram, seo detetive. Seguiram nosso rastro e destruíram nossas alegrias mais simples. Nada a fazer.

– Tem de haver um assassino.

– A Praia de Iracema é de todos… – O Profeta sorriu tristemente, olhando o mar pela janela do bar: – Todos têm direito a uma cota de seu linchamento.

– E você, não tem pena dela? Ou das vítimas?

– Lamento pelos filhos da praia, que tentam perpetuar o que já é passado. Esses amam a noite e morrem com ela. Muitos nem nasceram aqui mas são feitos da mesma maresia. É ruim se apegar demais ao que vai morrer. Koi-guera.

Ratoeira escutou com atenção. Dessa vez as palavras do Profeta, por mais loucas que fossem, pareciam ter alguma coerência. Ou será que sempre tiveram e ninguém nunca percebera?

– Quem será o próximo?

– O senhor ainda não desconfia?

– A letra E é de Eládio?

– O que o senhor acha?

– Faria sentido. O assassino matou o sexo, a diversão, a droga e a música. Não falta mais nada. Matar quem quer desmascará-lo seria o último passo. O grand finale.

O Profeta escutava, sério.

– Quem matou a cantora foi um homem, eu sei que foi, o mesmo que esteve com ela depois do show, bebendo no bar. Se vários foram os assassinos, então eles estão obedecendo à sequência “noite” nas mortes. Ele ou eles trabalham pra quem?

– O senhor não entende. Quem matou os quatro foram os mesmos que matam a Praia de Iracema, a cada noite, a cada violência. E eles não têm consciência disso, matam por ignorância. Pensando bem, talvez seja melhor acabar de vez com sua agonia. Matar antes que ela morra. Matar por amor – acrescentou o Profeta, bebendo o resto da cachaça e levantando-se da mesa.

– O que vai acontecer quando morrer a letra E?

– Cumpre-se a profecia.

– Como assim?

– Pensei que o senhor já tivesse entendido… É a parte mais óbvia da história, seo detetive.

Sempre que pensava na profecia, Ratoeira sentia-se meio ridículo. Mas já não podia evitar.

– A noite morre… – repetiu o Profeta, saindo em direção à porta. – Nada lhe ocorre?

Enquanto pensava nas palavras do Profeta, Raoteira puxou a carteira para pagar a conta. Foi quando percebeu que o copo de cachaça do Profeta continuava cheio, do jeito que chegara.

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ELÁDIO RATOEIRA ENTROU EM CASA e foi direto ao quarto. Tirou os sapatos e deitou-se com a roupa que estava, os olhos pesando de tanto sono. Precisava de uma noite bem dormida.

Mas… algo estranho estava acontecendo… Acendeu o abajur e viu Rian, deitado na cama, olhando para ele. Então percebeu que Rian na verdade era uma gata. E estava parindo, exatamente naquele momento, estava tendo gatinhos em sua cama, vários gatinhos saindo sem parar, vários, muitos…

Ratoeira abriu os olhos. A luz do quarto estava acesa. Passou a mão no rosto suado, compreendendo que sonhara. Se as coisas continuassem daquele jeito terminaria precisando de um tratamento. No pôquer do mês anterior vira uma carta com a figura da morte, um esqueleto montado num cavalo, a letra T, que loucura. Terminou jogando as cartas na mesa, indignado com o que pensava ser uma brincadeira idiota dos amigos. Teve que pedir para sair, tão abalado que ficou com a visão da carta. Depois viu o copo cheio de cachaça do Profeta quando, na verdade, vira-o bebendo tudo bem à sua frente. E agora tinha pesadelo com uma gata parindo em sua própria cama.

Tomou um banho frio e depois pegou um pedaço de pizza da geladeira. Comeu sem esquentar. A tevê exibia o clipe da Intocáveis Putz Band tocando o Manifesto das Bem-Aventuranças, todos vestidos feito monges, capuzes, o clima sombrio… Ratoeira desligou, irritado. Aquelas mortes estavam inspirando até mesmo as bandas da cidade.

Olhou para Rian, dormindo no sofá. Estaria sentindo falta da antiga dona? Lembrou do sonho, a gata parindo. O que podia significar? Parto… nascimento… algo importante que virá… Mas o quê? Quando?

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“NO DIA 28 DE DEZEMBRO completam-se nove meses da primeira morte.”

Eládio Ratoeira olhou para a frase que escrevera, pensando em quanto aquilo era estranho. Deixaria um depoimento escrito a respeito de tudo que sabia sobre as mortes, caso algo viesse a acontecer com ele. Na carta admitia que podia muito bem estar fantasiando mas não podia desprezar o simbolismo de que falava o Profeta.

Podia muito bem dar o caso de dona Iza por encerrado: os legistas finalmente admitiram que havia sim vestígios de fumaça nos pulmões da vítima e, portanto, ela morrera asfixiada, fora um acidente. Mas isso lhe parecera algum tipo de armação, talvez os legistas realmente não tivessem descoberto a causa da morte. E como se tratava de gente pobre e não havia nenhum interesse maior no caso, inventaram tal conclusão.

As outras mortes continuavam sem culpados. A polícia concluíra que o garçom realmente se afogara. Quanto a seo Neném, nenhuma pista sobre a tal loira de preto. Nem sobre o assassino da cantora.

Mas as estranhas mortes viraram assunto indispensável e frequentavam as mesas da Praia de Iracema todo tipo de suposições, desde as que acusavam ser tudo obra para desviar a atenção das eleições às que denunciavam maquiavélicos planos de empresários dispostos a substituir os bares por hotéis de luxo.

E havia os que reiteravam o que dizia o Profeta: faltava apenas uma morte para que a profecia se cumprisse e a noite da Praia de Iracema morresse de vez. Por isso era preciso aproveitar o que ainda restava, as noites estavam no fim. Bandas compunham músicas sobre as mortes. Nas mesas os poetas vendiam cordéis macabros. Nas ruas as camisetas circulavam com os dizeres “Esta pode ser a última noite. Aproveite. Comigo.” Bares pegavam carona na onda e faziam promoções. “ApocaLIP-se!” – assim convocava seus clientes o Lip Bar. Alguns mais supersticiosos vendiam barato seus pontos para evitar prejuízo maior: se não haverá noite, quem irá aos bares?

A noite, porém, ainda estava viva. E naquele 28 de dezembro, exatos nove meses após a morte de seo Neném, Ellen Star faria na Boate Circus a sexta apresentação de seu macabro espetáculo transformista Mate-me Que Eu Já Te Matei, que tratava exatamente de todas aquelas mortes. E era lá que Eládio Ratoeira estaria.

“Nove meses que tudo começou. Hoje o mistério será decifrado. Tenho que estar lá. Se estou fantasiando, nada acontecerá e os crimes seguirão sem solução. Mas se estou certo, então alguém morrerá. E talvez eu descubra quem é o assassino.”

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ERA QUASE MEIA-NOITE quando Eládio Ratoeira chegou à boate Circus e sentou-se numa mesa mais ao fundo. Pediu uma cachaça e foi ao banheiro. Aproveitou para observar o ambiente, balcão, cozinha, corredores. A boate não era grande, cabiam ali umas vinte mesas. No canto havia um pequeno palco. Em caso de confusão, a porta principal seria estreita demais para evacuação rápida.

Todas as mesas estavam cheias quando as luzes se apagaram.

– Estão todos aí? – uma voz cavernosa ecoou pela boate. – O espetáculo vai começar.

A cortina se abriu para o primeiro ato. Uma voz feminina cantando ao som de um piano. Você me olha desse jeito… Pensa que eu não sei que você quer me comprar… O cenário de um quarto de motel. Um homem deitado na cama. Uma mulher loira num vestido negro com uma generosa fenda lateral, exibindo suas belas pernas. Mas eu não estou à venda, meu bem… A mulher caminhando devagar até a cama. Ratoeira ajeitou-se na cadeira, impressionado com a beleza da atriz. O que está à venda é seu sonho de ter o que você pode pagar…

Ellen Star foi a loira que era amante do dono do motel que morria de ataque cardíaco durante um orgasmo. Depois foi o garçom que se encontrou no píer com o amante de sua mulher, que o empurrou ao mar. Ratoeira demorou a acreditar que Ellen também era o ator que interpretava o garçom. Como alguém podia ser tão convincente como mulher e também como homem?

Em todas as cenas Ellen dublava músicas especialmente escolhidas. Na terceira ela era um garoto que tentou roubar dinheiro do barraco da cigarreira e causou o incêndio que a vitimou.

– Ellen é ela ou ele? – perguntou Ratoeira ao garçom.

– É um mistério. Mais uma cachaça?

A cena da cantora começou com Ellen Star dublando Little Girl Blue, uma canção muito triste na voz de Janis Joplin, e Ratoeira pôde observar como as pessoas estavam bastante absortas no espetáculo, algumas visivelmente emocionadas. Havia no ar um clima de comoção mas também de suspense. No momento em que a cantora chegava em casa radiante de felicidade por ter feito o melhor show de sua vida, Ratoeira escutou um miado. Procurou no palco mas não viu gato algum. Então escutou novamente, dessa vez mais forte, e viu as cabeças se virando, todos procurando saber de onde vinha o som.

Vinha do lado da entrada. Ratoeira virou-se e na penumbra percebeu um homem em pé, encostado na parede, de frente para o palco, vestido num sobretudo preto. Olhando melhor, percebeu que o rosto dele estava pintado, lembrando o de um gato. Faria parte do show? No palco a cantora rasgava com um disco de vinil a própria garganta, morrendo feliz e realizada. Quando Ratoeira olhou novamente, o homem havia sumido.

Ratoeira coçou a nuca, cada vez mais nervoso. Algo o inquietava. Havia algum mau presságio no ar, ele podia senti-lo.

A quinta cena começara e Ellen Star representava uma travesti batendo seu ponto na esquina, sob a luz fraca de um poste. Saia branca curtíssima, meias pretas, salto alto, o cabelo ruivo chanel revelando o pescoço fino. Os olhos sombreados e os lábios vermelhos. Os carros passavam e ela, insinuante, fazia trejeitos e jogava piadinhas aos motoristas. Tocava um envolvente bolero chamado Lupiscínica, de onde vinha a frase-título do espetáculo.

Vamos adiar essa briga, amor…

De repente um automóvel parou mais à frente. Ellen sorriu. A luz traseira acendeu-se e o carro voltou de ré. Ellen ajeitou a saia e assumiu posição de espera.

Na madrugada sonolento, de bolero em bolero…

O carro parou ao lado e o vidro fumê baixou, surgindo os rostos de uma garota e de um garoto. A travesti aproximou-se pelo lado da garota, debruçou-se na janela e sorriu, os seios como se numa bandeja.

A tua boca guarda segredos de mim…

– Boa noite, jovens.

– Oi – a garota falou.

– Ontem vocês passaram por aqui, não passaram?

– Você é boa observadora.

– Sou boa também em outras coisas…

E hoje sinto ciúmes até da tua falta…

– Você é homem ou mulher?

– Sou o que você e ele quiserem, meu bem.

– Quanto custa desvendar o mistério?

– Pra vocês faço por cem.

Mas não vou matar ninguém por tua causa…

– Você é muito bonita.

– E vocês são uma gracinha.

– Bonito, teu peito…

– Quer pegar? – perguntou a travesti, levando a mão da garota até seu seio. – Concorrência desumana, né, querida?

– Outra noite a gente vem com mais calma – disse o garoto.

– Mas não demora, viu? Posso não estar aqui.

– Vai mudar de ponto?

– Eu sou a noite, meu bem. A noite sempre chega ao fim.

Mate-me que eu já te matei…

Um homem. Vestido num sobretudo preto. Rosto pintado como um gato. Surgiu de algum lugar da escuridão da rua. Tão silencioso que de repente ele já estava lá, na calçada. Aproximou-se.

No momento em que a travesti virou-se, ele desferiu-lhe um violento soco no rosto. Ela caiu no chão, sobre o meio-fio, quase no asfalto.

Assustada, Ellen passou a mão no canto da boca e percebeu que sangrava. O homem continuava em pé. O automóvel arrancara. E o bolero havia terminado. Ele meteu a mão sob a roupa e puxou um revólver.

Ratoeira sentiu o coração gelar. O único som era o dos automóveis passando pela avenida. Ratoeira viu Ellen Star levantar-se e encarar com altivez o sujeito à sua frente. Foi ela quem gritou, a mão sobre os lábios feridos:

– Você tinha que estragar tudo, né?

Quando o homem empunhou a arma e apontou para ela, Ratoeira não ousou piscar os olhos. Estava petrificado, a respiração presa, toda a sua atenção concentrada nos dois, a travesti que olhava para o homem e o homem que atiraria nela.

O tempo parecia ter parado. Há quantos segundos aguardava? Ratoeira não mexia um único músculo. Alguma coisa iria acontecer no próximo instante e ele não fazia ideia do que seria.

Um pensamento lhe veio rápido à mente: e aqueles carros passando, aqueles prédios todos ao redor? Ninguém via nada? Ninguém para gritar, impedir um crime? Aquelas janelas todas, centenas, milhares de janelas… A noite da cidade tinha tantos olhos e, no entanto, ninguém via nada…

Ellen Star moveu-se rapidamente e de dentro da bolsa sacou um revólver, apontando-o com as duas mãos para o homem. A arma disparou. Um grande estrondo, o eco permanecendo no ar por longos segundos, a fumaça subindo do cano…

Ratoeira viu Ellen afastar-se para trás, cambalear sobre os saltos altos, perder o equilíbrio e chocar-se contra o poste feito um triste boneco desengonçado. Depois escorregou para o chão e ficou lá, inerte, enquanto os faróis seguiam indiferentes pela avenida. E as janelas nada viam.

O homem do sobretudo, ainda segurando o revólver, avançou. Ele agachou-se sobre o corpo de Ellen, passou a mão levemente por seu rosto e falou baixinho:

– Meu amor…

Então ergueu-se e saiu caminhando devagar pela calçada. E atravessou a avenida, num passo tranquilo, sem olhar para os lados. Um carro freou bruscamente para não atropelá-lo e quase provocou um acidente com outros carros. Na confusão, os passantes perceberam o corpo na calçada e se ajuntaram ao redor.

Eládio Ratoeira também foi para lá, abrindo caminho entre a multidão. Dirigiu-se até o corpo caído. Viu o sangue espalhado pela roupa, escorrendo para o chão. Suspendeu a cabeça de Ellen enquanto ela abria os olhos devagar. No meio de sua expressão serena surgiu um doce sorriso:

– Aquela cartomante me paga…

– Como? – indagou Ratoeira.

– Ela me garantiu que… ai…. eu morreria em Paris…

– Aguente mais um pouco, Ellen.

– É o fim, meu belo amigo. O fim das doces mentiras… das noites em que tentamos morrer…

– Não fale. O socorro está chegando.

– Você… ai, como dói… faz parte deste teatro ridículo?

– Ahn… sim… – ele respondeu, sem saber o que dizia.

– Acho que minha participação termina aqui… Você gostou?

Ratoeira virou-se para as pessoas ao redor, elas e seus rostos impassíveis.

– Quem é ele, Ellen? Um cliente seu?

– Ele não tem culpa…

Ratoeira percebeu que ela respirava com cada vez mais dificuldade.

– Por que ele atirou em você?

– A profecia. Tem que ser cumprida.

Ratoeira desgrudou o cabelo ensanguentado da boca de Ellen e, olhando para aquele rosto bonito, lembrou-se do que ela dissera ao casal do carro: Eu sou a noite…

– O que vai acontecer agora?

– Acabou a peça, meu bem. As luzes se acendem.

Então ela fechou os olhos. E sua cabeça tombou para o lado no momento em que as luzes se acendiam. Ratoeira olhou para o corpo imóvel em seus braços, o belo corpo de Ellen. Percebeu que um seio estava de fora, um seio bonito. Olhou para as pernas. Lentamente estendeu o braço e tocou o sexo de Ellen, apalpando-o…

– Essa técnica eu não conhecia, Ratoeira.

Ele virou-se rápido, retirando a mão. Reconheceu o tenente Trindade, em pé, a viatura parada atrás. Pousou a cabeça de Ellen no chão e ficou de pé, a roupa encharcada de sangue.

Ratoeira olhou o relógio: uma da manhã. Foi então que percebeu que a claridade não vinha dos faróis de carro algum. Nem vinha dos prédios ao redor. Estava clara a noite da Praia de Iracema. Estranhamente clara.

Desumanamente clara, diria o outro.

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Ricardo Kelmer – blogdokelmer.wordpress.com

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TRILHA SONORA DESTA HISTÓRIA

- Beira-mar (Ednardo) – E um gosto de você que foi ficando… e a noite enfim findando… igual a todas as demais

- Riders on the storm (The Doors) – Pegue uma carona na tempestade desse som

- Quanto você paga (Ricardo Kelmer e Toinho Martan) – Você me olha desse jeito… Pensa que eu não sei que você quer me comprar?

- Little girl blue (R. Rodgers e L. Hart) – Querida, você não vê que está na hora?

- Lupiscínica (Augusto Pontes e Petrúcio Maia) – Bolerão maravilhoso, na inesquecível interpretação de Teti e Ednardo

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> Este conto integra o livro
Guia de Sobrevivência para o Fim dos Tempos

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O íncubo

novembro 15, 2008

Íncubos eram demônios que invadiam o sono das mulheres para copular com elas, uma difundida crença medieval. Mas… e se ainda existirem?

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O ÍNCUBO
Ricardo Kelmer 1991

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Ele virá como num sonho mas será real. Porque habita a realidade mais profunda – e inadmissível, não esqueça – dos seus desejos. Chegará devagar e sem alarde. E deixará os sapatos à entrada para poder pisar delicadamente o seu chão e sentir desde o início todos os detalhes de sua presença. Ele, o meticuloso.

Haverá uma roupa no sofá da sala, você anda meio desleixada? Quem será o moço no porta-retrato, seu namorado? Que diria se acaso soubesse que ele esteve em seu apartamento a essa hora da noite? A porta de seu quarto estará trancada, evidente, mas ele já sabe que você anseia por essa visita. E é exatamente por isso que poderá vir e entrar. Se esse encontro não existisse antes em seu pensamento, minha querida, ele não passaria jamais por essa porta, aberta ou fechada.

Ele entrará em seu quarto enquanto acostuma os olhos à penumbra do ambiente, os olhos que a encontrarão em sua cama, dormindo tranquila, os lábios roçando o travesseiro e o cabelo escorrendo pelas curvas do seu rosto suave. Então ele se permitirá profanar a harmonia do quadro e afastará para o lado uma mecha de cabelo que insiste em querer seus lábios. Ele, o profano.

Não, de forma alguma ele se sentirá culpado por invadir assim sua intimidade mais secreta, logo você, tão cheia de recatos. Porque foi você quem quis assim embora jamais o revele, nem a si mesma. É essa a lógica: você tem de chamá-lo para que ele possa vir. Ele estará, portanto, somente realizando um velho desejo seu. Aliás, ele gostaria imensamente de estar presente quando, pela manhã, você sonolenta a lavar o rosto, viesse a primeira lembrança do sonho que teve, tão estranho, tão louco… Mas tão real, não? Ah, ele adoraria vê-la, você estancando subitamente, em pé ao espelho, os olhos na expressão de quem lembra, o gesto suspenso na vã tentativa de congelar o resto de lembrança que vai fugindo, fugindo… E a cara de incredulidade e espanto. Mas não, ele não poderá estar presente, seus poderes não resistem longe dos sonhos.

Ele puxará a ponta do lençol, descobrindo seu ombro magro. Mais um pouco e os seios surgirão aos seus olhos agradecidos, descansando suaves e alheios no ritmo sereno de sua respiração. Ele não resistirá e deixará escapar um sorriso… Nesse momento já não poderá evitar deter-se um pouco e comparar a imagem que tem à mulher que conhece, tão pudica. Se você pudesse despertar agora, certamente teria um de seus repentes de indignação e bradaria que ele está violando sua intimidade e que não tem o direito. Mas nesse sonho, minha querida, não há lugar para violências. E, além do mais, não foi você quem o chamou? E quem melhor que ele, o que capta o que se esconde, para entender a beleza tímida dos seus seios?

Então, de repente, para total surpresa dele… você se moverá, virando o corpo e privando-o da visão de seus seios. Ele confessará, do alto de suas vivências no assunto, que, tsc-tsc, por essa não esperava. Então sussurrará ao seu ouvido, sorrindo uma revolta bem-humorada, que certos pudores não têm jeito, não adormecem nunca…

Em sinal de protesto ele retirará, de uma vez, o lençol que ainda cobre o restante de seu corpo. E terá outra surpresa o nosso amigo. Duas, para ser exato. Quem, em algum tempo, poderia imaginar, inclusive ele, que aquele autêntico recato ambulante dormisse nua, inteira e despojadamente nua? E, mais curioso ainda, que fosse tão desejável sem vestes?! Ninguém, certamente, você sempre fez questão de se ocultar demais. E ele muito menos, ele que há algum tempo flagra a ânsia dessa aventura por trás das couraças de sua defesa.

Retirado o lençol, o profano se afastará da cama e se posicionará melhor para observar, pintor orgulhoso do novo quadro. Você nua e sem defesa. Entregue aos olhos de um homem como jamais imaginou que pudesse. A pele brilhando na penumbra. O corpo inteiramente nu, convidativamente disposto sobre a cama, finalmente autorizado, nihil obstat. Ah, como ele se deliciará ao vê-la aprisionada em sua própria nudez…

E ele percorrerá com os olhos comovidos as paisagens de seu corpo, montes e planícies, savanas e cavernas. Gozará enternecido todas as minúcias de sua pele e procurará novos ângulos para sua beleza inconsciente – e finalmente despudorada. Um fino e cruel ladrão de intimidades, desumano e desrespeitador. Ora, convenhamos, ele dirá, um pouco de perversidade não faz mal a mulher nenhuma! Principalmente a você que sequer admite durante o dia o que se permite em sonhos…

Então ele perceberá, desconfiado, a sua respiração mais intensa, o ritmo acelerado. Aproximará o rosto do seu, já antevendo a nova surpresa, e por fim constatará sua excitação. Ora, ora, ele exclamará sorrindo, então o sonho já começou… E, enquanto se despe ao lado da cama, observará seus movimentos angustiados e impacientes, como se buscasse alguém ausente.

Ele comparecerá a esse encontro porque você o quer, vamos deixar isso bem claro, mas também porque anda curioso em saber o que existe por trás de toda essa sua aparente frieza e indiferença. Aparente, sim, ele sempre soube disso, pois mesmo nas mulheres, bichos ardilosos que sempre foram, o olhar nem sempre acompanha a velocidade da mentira – ou da habilidade, como queira. E foi o olhar, minha querida, foi exatamente esse pequeno detalhe que naquele dia a denunciou, a você e suas tão bem cuidadas aparências. Foi apenas um encontro instantâneo de olhares, tudo muito rápido, é verdade, somente um desejo que por um segundo escapou sorrateiro de sua vontade e que, ao perceber o olhar dele, voltou logo a ser desdém. Ah, mas já era tarde. Ele agora sabia de tudo.

Jogada a roupa a um canto, ele deitará ao seu lado na cama, já chega de perversidade. Sentirá então o calor receptivo e o aroma delicado de sua pele. Você jogará ao chão velhos escrúpulos que por lá ficarão enquanto ele não se for e decerto que se espantarão ante toda sua disposição revelada. Seus olhos estarão sempre fechados mas verão tudo em seu sonho. Só não verão os olhos dele, o que fará mais difusa ainda sua recordação.

Enquanto sua boca o procura e seus braços exigem com avidez o corpo dele, ele sorrirá dessa sua insuspeitada ardência. E finalmente fechará os olhos, deslizando para dentro do seu sonho. E só retornará quando novamente abri-los.

No outro dia você lembrará de quase tudo mas sua lembrança será como névoa que aos poucos se dissipará, terminando por se transformar na sensação de já ter vivido algo assim em algum dia, algum lugar…

Mas como, se tudo foi apenas um sonho?, você se perguntará, sempre surpresa com a qualidade das lembranças que a farão sorrir pelos cantos do dia, subitamente envergonhada. O que foi? – a amiga indagará, desconfiada, e você disfarçará, procurando qualquer coisa para se ocupar e fugir do flagrante. Mas nem sempre conseguirá conter o sorriso que, fora do seu controle, denunciará a si mesma uma descarada satisfação.

Você pensará nele, sim, e por pouco não se renderá ao desejo, várias e vacilantes vezes ao lado do telefone. Sussurrará na rua, sem querer, o nome do maldito mas ao mesmo tempo evitará encontrá-lo pois se sentiria nua nesse encontro. E toda vez que se recordar dessa noite perceberá um vento gelado lhe roçar os pelos e trazer arrepios. Ventos do outro mundo? Lera certa vez alguma coisa sobre demônios que invadem o sono das mulheres para copular com elas, lendas medievais. A história não lhe saíra da cabeça.

Demônios… Não sabia que pudessem ser tão competentes, você pensará, permitindo-se afinal brincar um pouco. Muito competentes…

Mas não, não – você sacudirá a cabeça, abandonando tal absurdo, e voltará aos afazeres. Entrar no sonho dos outros, imagina, seria o fim do mundo…

Mas… e se fosse possível? E se realmente eles pudessem…

Não, não, foi tudo um sonho – você repetirá mais uma vez, lutando contra a vontade que arde de vê-lo novamente. Foi apenas um sonho louco e alguma coincidência. E, além do mais, há muito que essas coisas não existem.

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Ricardo Kelmer – blogdokelmer.wordpress.com.

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> Este conto integra o livro
Guia de Sobrevivência para o Fim dos Tempos

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MAIS SOBRE SEXUALIDADE FEMININA

> As fogueiras de Beltane – A sexualidade sem culpa de uma sacerdotisa pagã

> A noiva lésbica de Cristo – Se hoje a sexualidade feminina ainda apavora a mentalidade cristã, no século 17 ela era algo absolutamente demoníaco

> Cabaré Soçaite – Uma festa de sensualidade – Se você tem medo do desejo feminino, é melhor não ir…

> O íncubo – Íncubos eram demônios que invadiam o sono das mulheres para copular com elas uma difundida crença medieval. Mas… e se ainda existirem?

> Lolita, Lolita – Ela é uma garotinha encantadora. E eu poderia ser seu pai. Mas não sou…

> A gota dágua – A tarde chuvosa e a força urgente do desejo. Ela deveria resistir mas…

> A torta de chocolate – Sexo e chocolate. Para muita gente as duas coisas têm tudo a ver. Para Celina era bem mais que isso…

> Vocês Terráqueas – Seduções e perdições do feminino – Livro de contos e crônicas sobre a mulher

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SÉRIES ERÓTICAS DESTE BLOG

> As aventuras de Diametral e Ninfa Jessi – A mais bela e safada história de amor jamais contada.

> As taras de Lara – Desde pequena que Lara só pensa naquilo. E ai do homem que não a satisfaz.

> Um ano na seca – O que pode acontecer a um homem após doze meses sem sexo?

> O último homem do mundoO sonho de Agenor é que todas as mulheres do mundo o desejem. Para isso ele está disposto a fazer um pacto com o diabo. Mas há um velho ditado que diz: cuidado com o que deseja pois você pode conseguir…

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Comentarios01 COMENTÁRIOS
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01- Eu já lí esse texto no jornal…muito louco..muito bom mesmo gostei, parabéns! Paulo César Cândido, Fortaleza-CE – abr2007

02- Mais outra crônica soberba!!! Humberto de Melo Batista, Fortaleza-CE – abr2007

03- SURPREENDENTE! Sou sua fã! E se fã é sinônimo de fanática…também sou! ;^) Grande beijo! Danila Gomes, Fortaleza-CE – abr2007

04- Oi, Ricardo ! Tuas crônicas são pra lá de inusitadas.E é isso que faz a grande diferença.Cada tema ! kkkk gosto demais do teu estilo de satirizar. Estou repassando para os meus contatos, Um grahde abraço ! Zinah Alexandrino, Fortaleza-CE – abr2007

05- acabei de ler o teu íncubo, fiquei impressionada, você realmente conhece o feminino, o mais escondido do feminino, neste conto você escreveu sobre algo que me acompanha desde a infância. IK, São Paulo-SP – fev2011

06- ‎”Você dormirá tranquila, os lábios roçando o travesseiro e os cabelos escorrendo pelas curvas do seu rosto suave. Então ele se permitirá profanar a harmonia do quadro e afastará para o lado uma mecha de cabelo que insiste em querer seus lábios.” Que malvadeza! :D Muito bom, Ricardo!!! Thanks! Cristiane Rocha, São Paulo-SP – abr2011

07- Tradução do trecho que você citou, Cristiane: “Você capotará na cama depois do vuco-vuco, mordendo a fronha e toda desgrenhada, com o cabelo por cima da cara de exausta. O caba, enxerido, não satisfeito em aperrear teu cansaço, ainda vai te perturbar por mais, começando a tirar os cabelos enfiados na tua boca.” Lincoln Silveira, Fortaleza-CE – abr2011


Agenda nov2008

novembro 15, 2008

Ricardo Kelmer 2008

rk200810-037c1fotolevymota

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E a turnê nordestina prossegue. Continuo em Fortaleza, divulgando o novo livro, fazendo umas palestras e produzindo umas festinhas safadas. Pros amigos e leitores que são mais chegados no RK escritor ou no RK festeiro, aqui vão alguns toques:

19nov (quarta-feira)
Sessão de Autógrafos na Bienal Internacional do Livro
Será no estande 52 da Secult, de 20h a 22h. Estarei lá com o livro novo, Vocês Terráqueas, e com os demais livros. Durante a Bienal todos os livros se encontram à venda no mesmo espaço. A entrada é grátis.

21nov (sexta-feira)
Farra no Cabaré Alheio
Como é o RK festeiro que atualmente sustenta o RK escritor, vem aí mais uma festinha daquelas que vovó não passaria nem calçada. Será no Buoni Amici´s (Centro Dragão do Mar). No comando do som, os DJs Marquinhos, Guga de Castro e RKBaré. Samba rock, black music, disco, ritmos latinos, brega e musga lenta, pra dançar solto e coladinho. Hora do apagão. Concurso Mata Eu (fem e masc): suba no palco, jogue seu charme e ganhe R$ 50 em consumo. Ingresso: R$ 12.

28nov (sexta-feira)
Sessão de Autógrafos + 20 Anos do Badauê
Aproveitarei a festa 30 e Alguns Anos, que a promoter Cristina Cabral realiza mensalmente no anexo do Docentes e Decentes (rua Ana Bilhar 1445, entre Manoel Jesuíno e Assis da Picanha) e farei uma sessão de autógrafos de 20h a 23h. Depois comemoraremos o aniversário de 20 anos do Badauê, o memorável bar que tivemos, eu, Nelsinho e Paulo Marcio, na Praia de Iracema entre 1988 e 89. Ingresso normal da festa: R$ 20. Ingresso pros sobreviventes do Badauê: R$ 10.

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A TURNÊ KELMÉRICA CONTA COM A PARCERIA DE
Kingston – Expressão Gráfica – Garin Cópias
Luce Galvão de Sá ArquiteturaRossana Romcy

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As jóias de Rossana

novembro 14, 2008

Ricardo Kelmer 2008

rossanaromcy01.

A temporada cearense de lançamento do livro Vocês Terráqueas, que já contava com o apoio da Kingston e de Luce Galvão de Sá Arquitetura, agora tem também o apoio de Rossana Romcy.

Rossana é um dos novos nomes no ramo de design de jóias. A criatividade aliada ao bom gosto de suas peças, que unem sementes, metais e pedras preciosas e são feitas a mão, já chamam a atenção não somente do mercado nacional mas de países como Itália e Portugal, pólos da moda mundial.

Trabalhando junto com seu marido e ourives Alexandre Ortiz, Rossana dá asas à criatividade na criação de peças únicas e exclusivas. A designer também trabalha sob encomenda, criando de acordo com a necessidade e o desejo do cliente.

Site Rossana Romcy

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Essa loirinha desmiolada de sol

novembro 10, 2008

Ricardo Kelmer 2008

Duvido que ela tenha uma marquinha de biquíni assim – a loirinha insiste, com a graciosidade tristonha das cidades que sabem que seus argumentos são ótimos mas que não vão adiantar

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Os leitores que ultimamente receberam livros meus pelo correio certamente perceberam que o endereço do remetente não é de São Paulo mas de Fortaleza. Explico: tô passando uma temporada no Ceará e desde setembro despacho daqui meus livros vendidos pela internet. Vim finalizar em Fortaleza o novo livro, Vocês Terráqueas, e a nova edição de bolso dos demais, aproveitando a parceria que tenho com a Expressão Gráfica e com a Garin, e vim também pra participar da Bienal Internacional do Livro (12 a 21nov) e fazer umas palestras.

A ideia era retornar pra São Paulo até dezembro mas como tô precisando de uma graninha urgente pra pagar os custos do novo livro e também pra comprar um notebook, decidi voltar a produzir festas temáticas, algo com que trabalhei por vários anos. Então adiei o retorno, possivelmente pra depois do Carnaval. Produzir uma festa não me dá tanto prazer quanto publicar um livro mas dá menos trabalho. E sempre dá um dinheirinho muito bem-vindo que ajuda a bancar o RK escritor.

Fortaleza é assim, pro RK escritor ela não tem horizontes a oferecer mas pro RK festeiro ela escancara as pernas. Essa loirinha desmiolada de sol… Fortaleza será sempre assim, inculta, dengosa e bela. Sempre que venho, ela me vem com agradinhos, diz que eu deveria ficar, que mereço vida melhor do que a que levo sozinho em São Paulo, alugando quartinhos minúsculos, sem os amigos que tenho aqui, os dengos e as facilidades…

Ela diz isso mas tá cansada de saber que nosso amor é um amor impossível. E sabe muito bem que agora sou um cara compromissado com São Paulo, a quem ela desdenhosamente chama de Paulete Periguete. Ciúmes, claro, tem cidade que é muito ciumenta. E Paulete não tem nada de oportunista, pelo contrário. Ela pode até não ser tão calorosa quanto Fortaleza mas é bem curvilínea e, aiai, são as curvas de seus horizontes que mais seduzem o RK escritor.

– Mas duvido que ela seja mais ecônomica que eu – Fortaleza começa a ladainha, enquanto brinca de sereia na areia da praia pros meus olhos. Cidade adora se comparar com a outra, ô mania horrível. De fato, Fortaleza não é dispendiosa como São Paulo. Mas finjo que não escuto a provocação e continuo olhando o mar, gosto de ver as ondas indo e vindo, é um dos meus mantras visuais favoritos.

– Duvido que ela tenha uma marquinha de biquíni assim – a loirinha insiste, com a graciosidade tristonha das cidades que sabem que seus argumentos são ótimos mas que não vão adiantar.

– Duvido que ela faça gostoso como eu faço, duvideodó… – ela sussurra, sua voz sapeca sibilando em meu ouvido junto com o vento de outubro. E dessa vez eu concordo, claro, imagina se vou discordar. Não, loirinha, ninguém faz o que você faz, principalmente depois da terceira vodca.

Fortaleza é assim, a derradeira brisa de verão, um gosto de beijo roubado na fila do embarque, a felicidade com visto vencido.

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Ricardo Kelmer – blogdokelmer.wordpress.com

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LEIA TAMBÉM

> Inculta e bela, dengosa e cruel – Então arrumei de novo a mochila, me despedi com muitos beijos, seu hálito de vodca me soprando toda a sorte do mundo, eu barquinho de papel rio abaixo, louco para ir, doido para ficar

> Maior que meu horizonte (por Wanessa, inspirado na crônica Inculta e bela, dengosa e cruel)E quando eu penso que ele já está de novo envolvido em meus contornos, hipnotizado pelo balanço dos meus quadris e minha maré, ele foge

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Amor em liberdade

novembro 6, 2008

Ricardo Kelmer 2008

O que você ama no outro? A pessoa em si? Ou o fato dela ser sua propriedade? E como pode saber que ela é só sua?

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Tânia tem 47 anos, é pedagoga e recentemente separou-se do marido, com quem teve um filho. É uma mulher ligada à espiritualidade, gosta de ler sobre filosofia e psicologia e desde a separação vem mudando sua compreensão de muitas coisas, principalmente as relações humanas. Tânia não acredita mais no tradicional modelo de relacionamentos que a sociedade impõe a homens e mulheres e busca encontrar alguém que entenda algo que para ela é fundamental: amar não significa querer a posse do outro.

Raíssa tem 22 anos, é estudante de publicidade. Solteira e bonita, ela adora sair à noite pra beber, dançar e se divertir com os amigos. Gosta de homens e também de mulheres. Apesar de não faltar pretendente, Raíssa atualmente está solteira. Pra ela, namoro é bom, sim, mas só se a outra pessoa não quiser prendê-la com ideias estúpidas e limitadas sobre sexualidade e relacionamentos. Ela quer alguém que a aceite como ela é: livre pra viver e pra amar, sem enquadramentos comportamentais e ciúmes doentios. Se não for assim, prefere seguir solteira.

Duas mulheres, duas gerações, experiências bem diferentes de vida. Ambas, porém, estão insatisfeitas com as opções que a sociedade lhes oferece quando o assunto é relacionamento. Ambas querem liberdade pra serem o que são e pra viverem o amor como acham que devem vivê-lo. Mas não tem sido fácil encontrar outras pessoas como elas. Onde estarão?

Tânia, nossa pedagoga, rompeu com o velho modelão quando entendeu que exigir fidelidade do outro pode até ser prova de amor, mas de amor possessivo, que não ama o outro mas a posse e o controle do outro. Ela sabe que fidelidade é uma invenção cultural e que as mulheres a levam mais a sério que os homens. Como não quer mais alimentar hipocrisia em suas relações, não mais exigirá fidelidade sexual de seu homem  ela apenas não quer saber caso aconteça e que ele tenha cuidado com doenças. Ela deseja um homem que seja atraído pela liberdade que ela oferece à relação, o que não quer dizer que ela deseje infidelidade e promiscuidade. No entanto, os homens que encontra não conseguem lidar bem com a ideia de uma relação franca e honesta assim. Eles parecem preferir o velho modelo, em que um engana o outro e ambos fingem não perceber. Tânia quer compromisso, sim, mas sem mentiras veladas. O amor e a liberdade não são excludentes ela diz, do alto da sabedoria de sua maturidade.

Nossa publicitária, apesar da pouca idade, parece também já ter intuído que o amor com liberdade deve ser o verdadeiro guia de seus relacionamentos. Mas Raíssa sabe também que sua liberdade pessoal assusta muita gente. Ela não disfarça a irritação quando fala das pessoas “tão normais”, essa gente que aceita pra si os moldes de relações impostos, sem sequer considerar que tais moldes podem jamais lhes servir. Raíssa quer se doar ao amor mas não quer se dar a regras que não foram feitas pra ela. Ela quer voar a dois pelos céus do amor e não dividir a dois a prisão do amor. Ela quer amar mas não quer aprisionar o amor por medo de perdê-lo. Pra Raíssa, entre amor que controla e amor que liberta, ela prefere o segundo, mesmo com seus riscos. Mas o primeiro tem os seus riscos também, porra!  ela exclama, do alto de seu jeito rebelde.

Tânia e Raíssa não se conhecem mas fazem parte da mesma tribo, o das pessoas que não aceitam velhos modelos de relacionamento baseados na propriedade e no controle e procuram viver de acordo com seu próprio entendimento de amor e felicidade. Elas estão fartas de moralismos, preconceitos e hipocrisias que levam as pessoas a mentir pra quem amam e pra si mesmas, a viver relacionamentos falsos, a aprisionar e se aprisionar em regras estúpidas e a deixar de viver a vida verdadeira em troca de aprovação social. Pessoas como Tânia e Raíssa também desejam compromisso  mas com o outro e não com a posse do outro. Não tem sido fácil pra elas encontrar parceiros mas, aos poucos, como sempre aconteceu na história da humanidade, os revolucionários acabam se atraindo e se encontrando.

Não é fácil mudar velhos conceitos. Porque as pessoas sempre esquecem que a verdade em que creem é uma verdade pra elas e não necessariamente pra todos. Os modelos tradicionais de relacionamento associam o amor à posse do outro e, por isso, ser livre ou deixar o outro livre é algo que soa logo como brincadeira, descompromisso, promiscuidade… Esse velho modelo não entende que um casal é feito de duas individualidades, que casais possam ser harmoniosos e felizes vivendo separados e que as pessoas possam ter outras relações e continuar se amando. Esse modelo só aceita o amor se no pacote vier junto posse e exclusividade. Até mesmo mulheres que desejam relacionamentos mais verdadeiros sentem dificuldade em considerar outros modelos de viver o amor. Elas deveriam parar um pouquinho e pensar: como podemos viver relações verdadeiras se queremos antes ser donos do outro?

O que você ama no outro? A pessoa em si? Ou o fato dela ser sua propriedade? E como pode saber que ela é só sua? Quem só sabe amar de modo possessivo não consegue conceber que o amor possa existir de outras formas. É esse velho e intransigente modelo que não serve pra pessoas como Tânia e Raíssa, que querem amar e ser amadas, como qualquer um de nós, mas querem ser amadas por serem livres e querem amar pessoas livres. Os outros, que vivam eles o seu amor de posse, esse que exige antes de tudo possuir o outro. O que elas querem é outro amor, aquele que exige antes de tudo… amar.

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Ricardo Kelmer – blogdokelmer.wordpress.com

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Mais sobre liberdade e o feminino selvagem:

EmBuscaDaMulherSelvagem-02base4c

> A mulher selvagem - Ela anda enjaulada, é verdade. Mas continua viva na alma das mulheres

> A mulher livre e eu – A liberdade dessa mulher reluz no seu jeito de ser o que é – e ela é o que todas as outras dizem ou buscam ser, mas só dizem e buscam, enquanto ela tranquilamente… é

> Em busca da mulher selvagem – Era por ela que eu sempre me apaixonava, essa mulher que era quem ela mesma desejava ser e não a mulher que a família, religião e sociedade impunham que ela fosse

> Amor em liberdade – O que você ama no outro? A pessoa em si? Ou o fato dela ser sua propriedade? E como pode saber que ela é só sua?

> As fogueiras de Beltane – As fogueiras estão acesas, a filha da Deusa está pronta. O casamento sagrado vai começar

> Medo de mulher - A mulher é um imenso mistério, que o homem jamais alcançará

> Alma una – Eu faço amor com a Terra / Sou a amante eterna / Do fogo, da água e do ar / Sou irmã de tudo que vive / Ninfa que brinca com a vida / Alma una com tudo que há

> Quem tem medo do desejo feminino? (1) – A maternidade, a castidade e a mansidão de Nossa Senhora como bom exemplo, e a força, a independência e a liberdade sexual da puta como exemplo contrário, a ser jamais seguido.

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LIVROS

> Mulheres que correm com os lobos - Mitos e histórias do arquétipo da mulher selvagem (Clarissa Pinkola Estés -  Editora Rocco, 1994)

> A prostituta sagrada – A face eterna do feminino (Nancy Qualls-Corbert – Editora Paulus, 1990)

> As brumas de Avalon (Marion Zimmer Bradley – Editora Imago, 1979)

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CABARÉ SOÇAITE

> Cabaré Soçaite – Uma festa de sensualidade – Se você tem medo do desejo feminino, é melhor não ir…

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Comentarios01COMENTÁRIOS
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01 – Queridíssimo Ricardo, você parece que lê a alma das pessoas! Obrigada, muito obrigada pelo trecho do seu texto sobre Raísa (“AMOR EM LIBERDADE”), que você postou em meu scrapbook. Falou direto ao meu coração. Obrigada mesmo, foi um presentão de aniversário! Beijos, que você continue sempre tão abençoado. Branduir, Rio de Janeiro-RJ – dez2008


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