Cabaré Soçaite – 2008dez

Novembro 27, 2008

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CABARÉ SOÇAITE (3)

18dez2008
Buoni Amici´s (Centro Dragão do Mar – Fortaleza)
Produção: Franciscus Galba e Ricardo Kelmer

DJs: Marquinhos e RKBaré

.babydolls200811-02Baby Dolls

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SORTEIO DE INGRESSOS
Orkut – Comunidade Amicis

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.O Cabaré Soçaite foi criado por mim em 2003, quando morava em Fortaleza e era diretor da Caboca (Confraria de Apoio às Boas Causas), um clube de cultura e entretenimento. A idéia é brincar com o tema da sensualidade e do erotismo de uma forma leve e poética, homenageando os antigos cabarés através das músicas, das imagens no telão, da decoração e da participação das pessoas com suas performances e suas vestimentas.

1a edição – Nov2003, boate do hotel Vila Galé, com show do cantor Rossé Sabadia. DJ: André Wesarusk. Produção: RK e Cristina Cabral.
2a edição – 19mar2008, Buoni Amici´s. DJs: Guga de Castro, Caú Borges e RKBaré.
Produção: RK e Franciscus Galba.
3a edição – 18dez2008, Buoni Amici´s. Show com a banda Baby Dolls. DJs: Marquinhos e RKBaré. Produção: RK e Franciscus Galba.

>> Quer levar o Cabaré Soçaite pra sua cidade? Entre em contato: rkelmer(arroba)gmail.com

>> Indique patrocinadores pra nossa festa. Se o negócio for fechado, você leva 20% de comissão.

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VÍDEO-CLIPE DA FESTA

Assistir em alta qualidade



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FOTOS DA EDIÇÃO ANTERIOR (2008mar)


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FOTOS DA FESTA (2008dez)

Clique para ampliar

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SORTEIO Vocês Terráqueas 1

Novembro 26, 2008

vtpromocaonatal2008-01

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Presenteie alguém com o livro Vocês Terráqueas

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Será sorteado 1 (um) exemplar do livro. O sorteado indicará quem receberá o presente (no Brasil) e eu enviarei pelo correio um exemplar com dedicatória. Tudo por minha conta.

PROMOÇÃO EXCLUSIVA PRA LEITORES VIPS


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PARA PARTICIPAR DA PROMOÇÃO
Deixe um comentário abaixo indicando um texto kelmérico de sua preferência. Não esqueça de escrever seu nome/sobrenome e sua cidade.

O SORTEIO
1. O sorteio será realizado em 20.12.08 (sábado). A referência será o número do 1o prêmio do sorteio da LOTERIA FEDERAL, extração de 20.12.08. Confira o resultado da extração aqui: http://www1.caixa.gov.br/loterias/loterias/federal/federal_resultado.asp

2. O número do 1o prêmio (5 algarismos) da extração será dividido pela quantidade de participantes da promoção e valerá o resto da operação para determinar o número sorteado da nossa lista oficial. Exemplo: Se o resto for 5, o sorteado será o número 5 de nossa lista. Se não houver resto, o sorteado será, obviamente, o último número da lista.

LISTA OFICIAL
A lista oficial dos participantes, com seus números para o sorteio, será atualizada aqui neste espaço.

Boa sorte! E obrigado por ser Leitor Vip.

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Saiba mais sobre o livro

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RESULTADO

O prêmio da Loteria Federal do dia 20dez foi 44674. Pra saber quem foi nosso sorteado:

44674 dividido pela quantidade de participantes (5) = 8934
Resto da operação = 4

Nosso participante sorteado é o 4
> Paula Izabela

Parabéns, garota. Agora você me diz pra quem eu devo enviar o livro. E o endereço, claro.

Muito obrigado aos outros Leitores Vips que participaram da promoção. Quem sabe da próxima vez, né? Abração.

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Um Ano na Seca – Marília (6)

Novembro 26, 2008

(Como hoje eu tô muito bonzinho, mudei de idéia e deixei este capítulo liberado pra todo mundo ler. Mas o próximo não tem perdão, será só pra Leitores Vips, viu?)

Deitei Marília na cama e por algum tempo admirei emocionado o seu corpo nu, o moreno da pele contrastando com o branco do lençol, as marquinhas do biquini, tudo formando um quadro mais bonito do que qualquer pintor poderia pintar. Putz, como as mulheres ficam lindas neste momento em que todo seu corpo é um chamado silencioso e ardente e…

- Que chamado silencioso o quê! – protestou o Jeitoso. – Me bota logo lá dentro senão vou te denunciar à Sociedade Protetora dos Animais!

Ignorei o escândalo do meu pinto. Aquele era um momento especialíssimo e não seria um pinto falante e maleducado que o estragaria. Depois de um ano e dois meses eu estaria novamente dentro de uma mulher, que coisa! Tanto tempo… A secura chegara ao fim, finalmente.

Delicadamente pousei um beijo sobre o pé daquela que naquele momento era a representante da Deusa, meu gesto simbolizando minha rendição e reverência à beleza e ao mistério daquela mulher.

- Não tem mistério nenhum, idiota! Tudo que tu tem de fazer é me…

Deixei o menino maluquinho falando sozinho e continuei o ritual. E minha língua começou sua bela jornada pelo corpo de Marília, avançando lentamente pela trilha sinuosa de suas pernas, deixando pra trás um rastro de saliva agradecida. Ela passou pelo joelho, pelas coxas, demorou-se um pouco no interior delas e finalmente chegou a seu destino, feito o andarilho sedento que alcança o oásis onde saciará sua sede na fonte da água mais pura e saborosa.

Toc, toc, toc!!!

Não, não foi minha língua que bateu na porta do oásis. Até porque oásis não tem porta, né? Foi alguém que bateu na porta do quarto. Putamerda, o marido!, pensaram as minhas células, todas arrepiadas. E elas mesmas responderam, resignadas: Agora fudeu.

Como que eu pude esquecer do marido da outra, como?!

O susto foi horrível. E o que aconteceu depois foi bem rápido, nem sei como aconteceu. Só sei que no segundo seguinte após as batidas na porta eu me encontrava atrás da poltrona, todo agachadinho, parecia um embrulho ridículo. Tenho certeza que não saltei da cama direto pra lá, nunca fui ginasta olímpico. Acho que o susto foi tão grande que meu corpo se desmaterializou e, pufff, apareceu novamente atrás da poltrona, só isso explica a velocidade.

Marília levantou, vestiu um roupão, abriu a porta e o maridão entrou, bufando de raiva, o próprio incrível Hulk. Olhou no armário, não viu ninguém lá dentro. Foi no banheiro e também não viu ninguém. Então voltou e empurrou a poltrona com o pé. E eu apareci lá atrás, nu e agachado, morto de lindo.

(continua. somente pra Leitores Vips, agora é sério.)

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Ricardo Kelmer 2008 – blogdokelmer.wordpress.com

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esperantosimbolojubilea01

Tradução para o esperanto
Leite Jr.

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Sobre a língua Esperanto: http://pt.wikipedia.org/wiki/Esperanto
Aprenda Esperanto: http://pt.lernu.net
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Soifa Jaro – Marilja (6)
El la erotika novelo de Ricardo Kelmer

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Esperantigis: Jozefo Lejte

http://tradukisto.blogspot.com

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Mi metis Mariljan sur la liton kaj momente emociita mi admiris ŝian nudan korpon, la brunecon de la haŭto kontrastanta al la heleco de la littuko, la mildajn blankajn streketojn el sunbruniĝo, ĉio ĉi faris bildon pli bela ol iu ajn pentristo povus pentri. Sja, kiel belaj fariĝas la virinoj en tiu ĉi momento, kiam ŝia tuta korpo estas kaj silenta kaj arda alvoko kaj…

- Silenta alvoko, ĉu?! – protestis Stilulo. – Vi tuj enmetu min tien aŭ mi denuncos vin al la Societo Protektanta de Bestoj!

Mi ignoris la scandalan malkondukon de mia kaco. Ĉar temis pri vere speciala momento, neniu parolanta kaj fia kaco embarasus ĝin. Post unu jaro kaj du monatoj mi denove estus en virinon, ĉu ne?! Kiel longe… La malsato fine ĉesigus, fu.

Milde mi ekkisis piedon de tiu, kiu tiam iĝis la anstataŭanta de Diino, mia ago signifanta mian kapitulacon kaj riverencon al la beleco kaj al la mistero de tiu virino.

- Nenia mistero, idioto! Ĉio, kio vi devas fari estas min…

Mi lasis la frenezan knabeton parolanta al neniu kaj daŭrigis la riton. Kaj mia lango komencis la belan promenadon sur la korpo de Marilja, malrapide antaŭenirante sur la sinuajn devojiĝojn de ŝiaj gamboj, lasante malantaŭen postsignojn el danka salivo. Ĝi pasigis la genuojn, la femurojn, iomete restis inter ili kaj finfine trafis sian destinon, kiel la soifanta pilgrimanto, kiu atingas oazon, kie malsoifos sin el la fonto de la plej pura kaj bongusta akvo.

Frap, frap, frap!!!

Ne, ne estis mia lango, kiu frapis ĉe la pordo de la oazo. Eĉ pro tio, ke oazo ne havas pordon, ĉu ne? Iu ja frapis ĉe la pordo de la ĉambro. Fek, la edzo!, pensis la tuta aro de miaj ĉeloj, ĉiuj hirtitaj. Kaj ili mem respondis kun rezigno: Ve al ni, kia merdo.

Kial mi povis forgesi la edzon de tiu ulino, kial?!

La ektimo estis nedirebla. Kaj tio, kio okazis poste, tiel rapide kuris, ke mi ne scias, kiel tio pasis. Mi nur memoras, ke en la sekundo post la frapoj ĉeporde mi troviĝis malantaŭ la brakseĝo, senmove kaŭrita, kvazaŭ ridinda pakaĵo. Mi estas certa, ke mi ne saltis el la lito rekte tien, mi neniam estis ja olimpika gimnastikisto. Mi kredas, ke la ektimo estis tiel granda, ke mia korpo malkonkretiĝis kaj, pufff, ree aperis malantaŭ la brakseĝon, nur tio eksplikas tian rapidecon.

Marilja stariĝis, vestis ĉambran robon, malfermis la pordon kaj la kara edzo eniris, virbove elspirante de kolero, kvazaŭ persone la mirinda Hulk. Li priserĉis la vestoŝrankon, ne vidis iun tie. Li iris al la banĉambro kaj ankaŭ tie neniun vidis. Do li revenis kaj puŝis la brakseĝon per la piedo. Kaj jen mi, kiu aperis tie, kaj nuda kaj en kaŭra pozicio, la plej bela bubo en la mondo.

(Originale verkita en la portugala: “Um Ano na Seca – Marília, 6″, novelo de Ricardo Kelmer.)

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Cabaré Soçaite 2008mar

Novembro 25, 2008

cabaresocaite2008-01b

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CABARÉ SOÇAITE (2)

19mar2008
Buoni Amici´s (Centro Dragão do Mar – Fortaleza)
Produção: Franciscus Galba e Ricardo Kelmer

DJs: Guga de Castro, Caú Borges e RKBaré

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SORTEIO DE INGRESSOS
Orkut – Comunidade Amicis

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.O Cabaré Soçaite foi criado por mim em 2003, quando morava em Fortaleza e era diretor da Caboca (Confraria de Apoio às Boas Causas), um clube de cultura e entretenimento. A idéia é brincar com o tema da sensualidade e do erotismo de uma forma poética e divertida, homenageando os antigos cabarés através das músicas, das imagens no telão, da decoração e da participação das pessoas com suas performances e suas vestimentas.

1a edição – Nov2003, boate do hotel Vila Galé, com show do cantor Rossé Sabadia. DJ: André Wesarusk. Produção: RK e Cristina Cabral.
2a edição – 19mar2008, Buoni Amici´s. DJs: Guga de Castro, Caú Borges e RKBaré.
Produção: RK e Franciscus Galba.
3a edição – 18dez2008, Buoni Amici´s. Show com a banda Baby Dolls. DJs: Marquinhos e RKBaré. Produção: RK e Franciscus Galba.

>> Quer levar o Cabaré Soçaite pra sua cidade? Entre em contato: rkelmer(arroba)gmail.com

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em breve

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FOTOS DA FESTA

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Dança do empenado

Dança do empenado

Aperta que cabe

Aperta que cabe

Segura a cabeça pra não perder o juizo

Segura a cabeça pra não perder o juízo

DJ Guga de Castro com a boca ocupada

DJ Guga de Castro com a boca ocupada

Menina nova na casa sempre faz sucesso

Menina nova na casa sempre faz sucesso

Será que esse sofá aguenta tanto charme?

Será que esse sofá aguenta tanto charme?

Bom demais, bom demais, bom demais...

Bom demais, bom demais, bom demais...

Dono de cabaré tem suas vantagens

Dono de cabaré tem suas vantagens

Calorumano, calorumano!!!

Calorumano, calorumano!!!

Sob a benção dos Stones

Sob a benção dos Stones

Lá em Suécia tem disso no

Lá em Suécia tem disso no

Quero sair daqui mais não

Quero sair daqui mais não

Me segura senão eu caio

Me segura senão eu caio

Mô, precisamos de um sofazim desse lá em casa...

Mô, precisamos de um sofazim desse lá em casa...

RKBaré, produtor Galba e DJ Caú Borges

RKBaré, produtor Galba e DJ Caú Borges

Meninas, olha o passarinho

Meninas, olha o passarinho

O dono do cabaré em momento relax

O dono do cabaré em momento relax

Vai aprendendo, viu, vai aprendendo...

É chato ser gostoso

Ai, papai, cabaré é bom demais!!!

Ai, papai, cabaré é bom demais!!!

Faz um mês que esse lençol não é lavado

Faz um mês que esse lençol não é lavado

De quem é esse cabelo aqui?

De quem é esse cabelo aqui?


Virgulina, essa danada

Novembro 21, 2008

Se o homem soubesse o valor que tem a mulher andaria de quatro
à sua procura

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Quando você leu a frase acima, onde fez a pausa na leitura? Após a palavra “tem”? Ou após a palavra “mulher”?

Se você é homem, é bem provável que tenha feito a pausa após a palavra “tem”. Mas se você é mulher, provavelmente fez a pausa após a palavra “mulher”.

Este é um ótimo exemplo da importância do bom uso da vírgula nos textos. Mas, independente de como lemos a frase, esse negócio de andar de quatro pode até fazer parte das nossas fantasias, mas lasca o joelho da gente…

A propósito, a ABI (Associação Brasileira de Imprensa), na campanha dos 100 anos de sua criação, usou como mote justamente a vírgula pra mostrar a importância da boa informação na construção de uma sociedade livre e democrática. Vale a pena reproduzir o texto aqui, em nome da liberdade e da democracia, causas pelas quais este escriba sonhador sempre lutará.

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A VÍRGULA

1. Vírgula pode ser uma pausa… Ou não.
Não, espere.
Não espere.

2. Ela pode sumir com seu dinheiro.
23,4.
2,34.

3. Pode ser autoritária.
Aceito, obrigado.
Aceito obrigado.

4. Pode criar heróis.
Isso só, ele resolve.
Isso só ele resolve.

5. E vilões.
Esse, juiz, é corrupto.
Esse juiz é corrupto.

6. Ela pode ser a solução.
Vamos perder, nada foi resolvido.
Vamos perder nada, foi resolvido.

7. A vírgula muda uma opinião.
Não queremos saber.
Não, queremos saber.
Uma vírgula muda tudo.

ABI: 100 anos lutando para que ninguém mude uma vírgula da sua informação.

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(Veja o filme da campanha, de 60 seg)

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Ricardo Kelmer 2008 – blogdokelmer.wordpress.com


Há algo de podre no 202 (trecho)

Novembro 21, 2008

HÁ ALGO DE PODRE NO 202

Quando crianças, as primas guardavam um terrível segredo sobre o amanhecer. Agora que são adultas, o que pode acontecer?

Terror, suspense, erotismo.

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(Este conto integra o livro Guia Prático de Sobrevivência para o Final dos Tempos)

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Trecho do conto

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SEMPRE FOMOS AMIGAS, eu e minha prima Helga, as melhores amigas, inseparáveis. Na infância parecíamos duas irmãs, de tão unidas. Os mesmos gostos, as mesmas brincadeiras. Na escola sentávamos lado a lado e corríamos de mãos dadas pelo pátio, alegres como dois passarinhos. Na verdade Helga sempre foi minha única amiga de verdade.

Foi o melhor tempo de minha vida. Éramos crianças e o mundo inteiro o cenário de uma grande brincadeira. Depois éramos quase adolescentes e o mundo passou a ser a fonte inesgotável de deslumbramento, nós duas encantadas e amedrontadas com as possibilidades que a vida descortinava à nossa frente. E tínhamos uma à outra para nos proteger e confiar nossos segredos.

Nos fins de semana ela costumava dormir lá em casa e nossas noites eram recheadas de papos sem fim, nossas músicas preferidas, nossos diários compartilhados. Quando começamos a nos interessar pelos garotos, treinávamos, uma com a outra, os beijos que mais tarde daríamos neles. Com o tempo aprendemos a compartilhar também nossos corpos, descobrindo que eles poderiam nos dar sensações muito gostosas. No escuro do meu quarto nos ensinamos mutuamente os segredos dos beijos, desde os mais simples aos mais profundos.

Helga era um sentido. Talvez o único.

Uma noite mostrei-lhe uma foto do amanhecer, uma foto muito bonita na página de uma revista. Perguntei-lhe se ela já havia visto o nascer do Sol. Helga me respondeu que não mas que sabia de um segredo. E perguntou se eu sabia guardar um segredo por toda a vida. Eu beijei meus dedos em cruz e disse que sim, que ela podia confiar em mim, eu jamais a trairia. Ela então fechou a porta do meu quarto, certificou-se de que não havia mais ninguém ali dentro e me fez sentar ao seu lado na cama. E falou baixinho em meu ouvido que do outro lado da noite não havia crianças, que por isso elas não podiam ver o amanhecer, mas que um dia, quando a gente fosse maior, a gente cruzaria a noite, juntas, sem medo, e a gente veria o amanhecer. Era o segredo. E sua promessa.

Abracei-a, confiante em suas palavras, e nessa noite dormimos juntinhas, num só abraço, cúmplices para toda a vida de um segredo que nos unia ainda mais. Protegidas de todo o mal.

Um dia sua família precisou mudar de cidade e Helga foi embora. Choramos bastante, lamentando nossa triste sina. Beijei-a com toda a doçura e disse-lhe que a amava. Ela enxugou minhas lágrimas, disse que me amava também e que tudo faria para que em breve nos reencontrássemos.

Mas a vida não seria tão simples quanto nossos planos infantis. Nossas cidades eram distantes. Nossas famílias não eram ricas. Não pudemos nos ver nas férias seguintes e tivemos de nos contentar com nossas cartas quase diárias, já que os poucos minutos que dispúnhamos ao telefone eram um nada diante das tantas coisas que tínhamos para falar. Aos poucos, porém, as cartas de Helga passaram a demorar uma semana, depois um mês, depois meses e um dia não mais vieram. Entristecida de saudade, eu insisti, escrevendo ainda mais. Mas ela nunca voltou a responder. Chorei minhas mágoas com mamãe e ela me consolou dizendo que havia outras meninas legais e que eu faria outras amizades.

Infelizmente mamãe estava errada.

Um dia, quatro anos depois de nossa despedida, soube que Helga estava na cidade e iria lá em casa jantar com a gente. Vibrei de alegria. Limpei e arrumei o quarto, troquei a cortina e pus lençóis e cobertores novos para ela dormir.

Quando a porta abriu, tive duas surpresas. Helga estava diferente, havia crescido, era uma mulher. Estava ainda mais bonita. A outra surpresa foi o rapaz que estava com ela. Era seu namorado. Ela não havia falado dele. Eu não sabia. Apesar de simpático, não me senti à vontade com sua presença. Ela não deveria tê-lo levado lá em casa.

Helga me abraçou e beijou com carinho, disse que estava com saudade. Perguntei por que não respondera às minhas cartas e ela disse que tinha preguiça de escrever mas que lia todas. Perguntei se as guardara. Ela riu, olhou para minha mãe e respondeu que sim.

Jantamos todos juntos e Helga contou as novidades, falou dos meus tios. Eu não conseguia deixar de olhar para ela. Como estava linda!

Depois do jantar conversamos todos na sala. Sentei-me entre Helga e seu namorado, assim evitaria que ele a beijasse. Quando ficou tarde, mamãe sugeriu que ela ficasse para dormir. Para minha alegria ela aceitou. Então ela despediu-se do namorado, combinando a hora que ele passaria para pegá-la no dia seguinte. Ele saiu e eu tranquei a porta.

Reservei minha cama para Helga, enquanto eu dormiria na rede. Quando ficamos a sós, puxei de baixo da cama o baú. Abri e mostrei-lhe meu maior tesouro: nossos antigos CDs, nossas fotos, meus diários, todas as suas cartas e os bilhetinhos que trocávamos durante as aulas.

Ela olhou tudo surpresa, não acreditando que eu realmente guardara tudo aquilo durante tantos anos. Segurou curiosa uma mecha de cabelo presa numa fita amarela e eu disse que era dela, ou ela não lembrava que cortávamos juntas o cabelo? Helga leu trechos de meu diário onde eu narrava meu sofrimento por estar distante dela e, nesse momento, sua voz parecia uma doce canção que falava de saudade. Perguntei-lhe se ainda me amava.

Ela parou de ler e olhou para mim. E me chamou para perto dela, na cama. Sentei a seu lado. Ela ajeitou meu cabelo e disse que gostava muito de mim, que jamais esqueceria nossa amizade. Perguntei se ela ainda sabia beijar. Ela riu e disse que sim. Pedi então que fechasse os olhos. Ela obedeceu, sorrindo. Então beijei sua boca. Ela ficou surpresa e se afastou. Perguntei se não havia gostado. Ela então falou que o que havia acontecido entre nós era coisa de crianças, que agora éramos adolescentes, quase adultas.

Respondi que ela estava enganada, que eu não a esquecera nem por um só minuto e que nossa amizade ainda era a coisa mais importante do mundo para mim. Ela me olhou carinhosamente e me abraçou. E beijou suavemente minha boca. Disse que jamais esqueceria o que vivêramos, que lembrava de tudo com muita ternura e que apesar do tempo e da distância, eu continuava sendo sua prima preferida. Insisti: ainda me amava? Sim, ela respondeu, mas que agora devíamos deixar aquelas lembranças guardadas numa caixinha e cuidar da vida, seguir em frente.

Ela juntou tudo e pôs de volta no baú. Trancou e me entregou a chave. Tentei entender o que ela fazia mas era confuso. Ela disse que já estava tarde, precisava dormir, no outro dia tinha que acordar cedo.

Helga dormiu. Eu não. Fiquei sentada no chão, ao lado da cama, vigiando seu sono para que nada de ruim lhe acontecesse. Tão bonita ela dormindo, parecia um anjo… A réstia de claridade que vinha da janela parecia acariciar seu rosto. Era como se a Lua, invejosa, também quisesse beijá-la, como eu beijei.

De repente olhei para a janela e vi que estava… amanhecendo! Levantei e fui até lá. Afastei a cortina e abri a janela. O céu já não era um breu. Por trás dos prédios ele começava a mudar de cor. A escuridão cedia espaço a bonitas nuvens alaranjadas e alguns raios pareciam furá-las e lançar-se mais acima. Era o amanhecer, o primeiro que eu presenciava em toda a minha vida.

Sorri, sentindo uma estranheza, uma sensação misturada de vitória e desconforto. E de medo. O amanhecer era bonito mas ao mesmo tempo que admirava, eu estava com medo. Então era aquele o mundo do qual falara minha prima, o mundo para o qual um dia ela prometeu que iríamos juntas… Mas eu não sabia se queria ir, não me agradava a idéia de um mundo sem crianças. Estava confusa.

Olhei para Helga, que dormia na cama. E a visão de seu rosto me encheu de coragem. Então me ajoelhei ao lado e a chamei, com ela eu não teria medo de ir. Chamei-a para que cumpríssemos o que ela uma vez prometera, que entraríamos juntas naquele mundo onde não havia crianças.

Ela se mexeu na cama, sussurrou algo e voltou a dormir. Chamei-a novamente, ela tinha que levantar, tínhamos que entrar juntas, eu não iria sem ela. Mas ela disse que era cedo, que precisava dormir, que eu fosse dormir também. Chamei-a de novo. Ela então me olhou com raiva e disse que se eu não fosse para minha rede, chamaria minha mãe.

Afastei-me, surpresa. Helga jamais havia falado comigo naquele tom. Fiquei ali olhando para ela, tentando entender. Por que ela não queria ir? Não fazia sentido. Eu não iria sozinha. Sem Helga, o que eu faria no mundo dos adultos?

Então entendi. Ela preferia ficar em nosso mundo, o mundo que ficava do lado de cá da noite. Nosso lugar era ali, naquele quarto. Protegidas.

Aliviada por ter finalmente entendido tudo, fechei a janela e deitei na rede. Quando estava quase dormindo escutei algo que chamou minha atenção. Era um som de galope, pareciam cavalos se aproximando. Olhei para a janela. Era de lá que vinha o som. Levantei e fui até lá. E vi.

Eram muitas, nem sei dizer quantas. Vinham montadas em seus cavalos bufantes, o galope alvoroçado. Gritavam e urravam e gargalhavam feito loucas. Empunhavam foices e lanças e as brandiam sobre as cabeças. Eram cadáveres humanos, esqueletos com restos de carne ainda pendurados. Criaturas semimortas, grotescas, horríveis. Pareciam saídas de seus caixões. A coisa mais pavorosa que eu já vira e haveria de ver em toda a vida.

Elas estavam logo à frente, expelindo ódio e crueldade pelos olhos vermelhos. E olhavam todas para minha janela, para onde eu estava. Todos aqueles horríveis olhos vermelhos olhando para mim. Na imensidão da cidade, no meio do concreto dos prédios, as criaturas sabiam onde eu estava. Sabiam exatamente. Olhavam fixo para mim e se aproximavam em seu galope enlouquecido e barulhento.

O desespero subiu pela minha garganta e quando eu tentei chamar Helga, minha voz simplesmente não saiu. Elas estavam chegando e eu não podia gritar. Quis correr mas minhas pernas não se mexeram. Elas se aproximavam e o barulho era cada vez maior. Como Helga podia continuar dormindo com aquele som ensurdecedor?

Enfim chegaram. Pararam diante da janela. Eu escutava seus cavalos alvoroçados, bufando, prontos para invadir o quarto. Pude sentir aquele cheiro terrível de coisa podre, de animal morto, insuportável…

(…)

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(Este conto integra o livro Guia Prático de Sobrevivência para o Final dos Tempos)


A menina, a exorcista e a cantora

Novembro 18, 2008

violenciacrianca01aLucélia Rodrigues da Silva. Quando ela tinha 12 anos seus pais a entregaram a uma empresária chamada Silvia Calabresi Lima, em troca de algumas cestas básicas. Porém, em vez de receber carinho e proteção, Lucélia ganhou um passaporte pro inferno.

Silvia percebeu que a menina estava possuída pelo diabo e então, durante quinze meses, manteve-a presa e incomunicável no apartamento, com o intuito, segundo ela própria, de tirar o demo do corpo da menina. Pra isso ela a amordaçava e amarrava, arrancava suas unhas, socava seus dentes, cortava sua língua com alicate e a obrigava a comer baratas e cocô de cachorro. Até que a polícia invadiu a masmorra, quer dizer, o apartamento, libertou Lucélia e prendeu Silvia.

Parece filme, né? Mas é um fato verídico, aconteceu em Goiânia, e você certamente lembra dele. Lucélia foi libertada em mar2008 e hoje está no Cevam (Centro de Valorização da Mulher), uma ONG de Goiânia, esperando ser adotada por alguma família. Lucélia viveu uma tragédia absurda, bizarra, uma coisa inimaginável, que pode comprometer o futuro de qualquer criança. Mas pelo menos o pior já passou, né?

Ô ilusão.

Você conhece a cantora Ana Paula Valadão? Nem eu. Mas muitos evangélicos conhecem, ela é uma dessas popistars gospel, ligada à Igreja Batista da Lagoinha, fundada por seu pai e que tem sede em Belo Horizonte. Igreja Batista da onde? Da Lagoinha. Mas vamos em frente. Lucélia, com autorização da Justiça, foi passear em Belo Horizonte, a convite da cantora, que ficara sensibilizada com o caso da menina. Lucélia, pelo jeito, voltou de lá transformada. Veja o que ela disse, segundo reportagem da revista Veja de 12nov2008:

- Eu me converti em Jesus. Preciso corrigir meu gênio.

Ela também falou sobre sua tragédia pessoal:

- A culpada fui eu. Eu, que não estava tocada por Jesus.

Primeiro a menina é usada como laboratório de novas técnicas de exorcismo. Agora é usada como objeto de promoção de igreja evangélica. Vem cá, seu Juiz, me desculpe a ignorância mas a verdadeira proteção de que essa menina precisa não seria contra religiosos? E esta Ana Paula, por que em vez de converter a menina, não foi levar Jesus pra Silvia, lá no presídio, ela sim deve estar muito precisada. Lucélia não precisa de religião, precisa é de uma família.

Mas nem tudo está perdido. Pelo menos agora Lucélia sabe que precisa de um corretivo pois ela mesma é a culpada de suas desgraças. Louvada seja a Igreja Batista da Lagoinha.

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Trechos de comentários postados
em minha coluna no Jornal O Povo.

Pra ler todos os comentários

1. sabe quem vai marcar presença na sua noite de autógrafos??? só os capetas e demônios,seus maiores inspiradores.tadinho.Jessica

2. que comentário ridículo,como pode alguém menorprezar tanto a palavra de Deus,pois eu apoio a ANA PAULA VALADÃO,serva de DEUS, e pobre de espírito quem não conhece a JESUS.sÓ ELE LIBERTA E SALVA,NINGUÉM SERÁ SALVO SE NÃO FOR POR ELE.o seu idiota,vai pedir perdão a DEUS pelo que você comentou aquí vai,seu imbecil. Há,ja ia esquecendo,SEU LIVRINHO DE MERDA,VAI SER UM FRACASSO.Edna

3. como alguém escreve um livro tão idiota como esse??? e o comentário???? filho,onde você se formou??? vou processar a falcudade que te vendeu,ops,concedeu o diploma.ainda bem que você deu uma palta de como vai ser sua noite de autógrafos,seria lamentável perder 1º o tempo indo até lá só pra ver tanta merda. - Eduarda

4. sabe onde o sr Ricardo Kelmer deveria ir dá autógrafos??? na igreja universal,para espantar o demônios dos couros.êita cabocada que ele deve ter viu!!!! espera o passaporte para o inferno,já está sendo enviado.hhhaaaaaaaaaaa…. - Fátima

5. claro que o ser Ricardo tinha que ser de São Paulo,tudo que não presta sai de lá não é verdade??? tá vindo envergonhar seu estado né.Só que aquí em Fortaleza,tem pessoas decêntes,sai fora imbecil,quem têm cultura e inteliogência,jamais vai perder tempo indo ter ver seu idiota.SAI FORA CAPETA,ESSA TERRA É DE DEUS.Caio

6. Ô SEU louis Cifher E RICARDO E CIA. VOCÊ DEVE SER O PRÓPIO CAPETA NÉ VERDADE,POIS SAIBE DE UMA COISA,DEUS É MAIS,MAIOR QUE O UNIVERSO ,E VOCÊ TEM INVEJA PORQUE NÃO CHEGA NEM NO SUBSOLO QUE ELE PISA,TÚ E TEUS DEMÔNIOS ESTÃO CONDENADOS AO LAGO DE FOGO A 2ª MORTE.Anja

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Leia a trilogia:

- A menina, a exorcista e a cantora
- Vade retro fanatismo
- O ateu e o inalcançável Mistério

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Imagem: “A Virgem castigando o menino Jesus perante três testemunhas” de Max Ernst – 1926

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Ricardo Kelmer 2008 – blogdokelmer.wordpress.com

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O strip-tease (trecho)

Novembro 15, 2008

O STRIP-TEASE

Criaturas do futuro que voltam no tempo para garantir que eles mesmos, no passado, não provoquem acontecimentos que possam apagar o futuro – assim são os Observadores.

Mistério, ficção científica, erotismo.

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(Este conto integra o livro Guia Prático de Sobrevivência para o Final dos Tempos)

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Trecho do conto

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- VOCÊ DEVIA BEBER MENOS, Zeca.

- Quer uma dose?

- Não, obrigado. Por que você anda bebendo tanto, Zeca?

- Tá na pauta, espera que vou contar.

- Certo.

- Você está bem. Bonita.

- E você, ainda farreando muito?

- Naquela época que a gente se conheceu eu estava no auge. Mas agora dei um tempo na noite.

- Aquela época faz só um ano, Zeca.

- Pois é.

- …

- Gisele, eu pedi pra você vir aqui porque tenho uma coisa importante pra lhe contar.

- Desde o início que eu sempre desconfiei que você me escondia alguma coisa.

- Verdade?

- Verdade.

- Vai ser a coisa mais estranha que você já escutou na vida. Vai achar que eu enlouqueci.

- Não vou não. Sei que muita gente acha que você é louco mas eu sei que não é. É só um pouco excêntrico. E meio fechado.

- Vai achar sim. Mesmo assim eu vou falar.

- Zeca, eu gosto muito de você, você sabe disso. Sei que você tem suas esquisitices, todo mundo tem. Só acho que podia se abrir um pouco mais comigo…

- Eu sei, você já me falou isso. Eu vou lhe contar tudo. Tenho certeza que depois você vai dizer que eu preciso fazer um tratamento e não vai mais querer saber de mim.

- Você por acaso tá vendo alguém aí do seu lado?

- Como?

- Aí do seu lado tem alguém? Você fica olhando e sorrindo como se tivesse alguém aí…

- Hummm… Esse é o problema, Gisele. Tem alguém aqui do meu lado.

- Como assim?

- É exatamente sobre isso que vou lhe falar. Escute, por favor. Primeiro escute.

- Estou escutando.

- Vamos lá. Ahn… Tudo começou numa noite em que eu estava aqui com… ahn, uma garota. A gente tinha chegado e ela tava no banheiro. E eu na cama esperando. Foi aí que eu vi pela primeira vez. Não quer mesmo tomar nada?

- Não, obrigado.

- Ele tava sentado na cadeira da minha escrivaninha. Na hora pensei: assalto, putaquipariu! Eu nu na cama e um assaltante no meu quarto. Mas não fiquei muito nervoso não, acho que foi porque estava bêbado. Então falei, na boa: ok, meu irmão, pode levar o que quiser, minha carteira taí, tem um som legal lá na sala mas por favor não faça nada com a gente… Pois bem, quem tomou susto foi ele. Levantou, me olhou de perto e perguntou se eu realmente tava vendo ele. Era como se não estivesse acreditando. “Você está me vendo mesmo, Zeca? Está realmente me vendo?” Eu fiquei sem entender, achei era algum conhecido, que ele tava muito doidão, sei lá. Então perguntei de onde me conhecia e ele levantou os braços dizendo: “Finalmente! Aleluia!” Quer continuar a ouvir?

- Claro. Eu tô ouvindo. Não era um assaltante?

- Não. Era o Observador.

- Quem?

- O Observador.

- Ah, o Observador. Deve ser novo no bairro. Ainda não conheci.

- Nem queira.

- Afinal, era amigo seu?

- Era o Observador, já disse.

- Ah, sim…

- Sério, Gisele. É assim que ele mesmo se chama. O Observador.

- Ok. E quem é o Observador?

- Vamos lá. Observadores são seres que vivem em outra dimensão ou algo assim. Levam uma vida normal por lá. Só que eles têm amigos aqui e às vezes eles têm de vir ajudar o amigo. Enquanto não conseguem, não retornam ao seu mundo, ficam presos aqui. É isso. Pelo menos foi isso que ele me disse.

- Ah, você viu seu anjo da guarda.

- Não, não. Está mais pra demônio… Um demônio pentelho. Muito chato.

- Era isso que você queria me falar?

- Tô falando sério, juro.

- Certo.

- Bem, isso tudo ele me explicaria depois mas antes a garota entrou no quarto e perguntou com quem eu tava falando e eu apontei pra ele. Mas ela não viu ninguém. Foi então que ele disse que somente eu podia vê-lo e escutá-lo, ninguém mais, que a coisa era assim mesmo. O sujeito parecia superfeliz e dizia que seus dias de solidão haviam chegado ao fim. Bem, no final a garota achou a coisa tão estranha que se vestiu e foi embora.

- E o sujeito?

- Ficou lá. Tentei tocar nele mas minha mão atravessou o cara. Aí eu disse pra mim mesmo que aquilo era um sonho muito louco e tratei de dormir. No outro dia acordei e ele continuava me observando.

- Zeca, eu…

- Espere, deixe eu terminar. Eu sei que você não tá acreditando mas deixe eu contar até o fim. Você prometeu.

- Cada promessa que a gente tem de fazer…

- Ele disse que tinha uma missão. Que não podia dizer mas que era algo que dependia de mim e que se eu fizesse a coisa certa, ele poderia ir embora.

- Olha, Zeca, eu…

- Espere…

- Olha, eu não sei o que tá acontecendo com você mas…

- Gisele, eu lhe juro que não tô inventando. E também não tô louco. Acho até que seria melhor se estivesse mesmo, seria mais fácil de aguentar esse pentelho o tempo todo do meu lado…

- Quer dizer que você tá falando sério.

- Tô.

- Não tá me gozando.

- Não.

- Então diz pra mim: eu tô falando sério.

- Eu tô falando sério.

- Sem rir, Zeca!

- Desculpa, é que essa situação é meio ridícula.

- Ridícula sou eu aqui escutando essas, essas…

- Você quer ir embora?

- Não, não. Vai, continua, eu quero escutar.

- Pois bem, onde eu parei?

- O Observador lhe disse que tinha uma missão.

- Isso. Que eu precisava fazer algo e ele tava ali pra me ajudar a fazer esse algo.

- E você não sabia do que se tratava.

- Continuo sem saber.

- Nem desconfia?

- Bem, ele me conhece como ninguém, é incrível. Tem me feito pensar muito sobre minha vida, vendo onde é que eu tô errando, os meus defeitos… Mas sei lá. Quanto mais eu procuro, mais defeito encontro.

- Todo mundo tem defeito, Zeca.

- Todo mundo tem, eu sei. Mas eu é que tenho um cobrador de atitudes 24 horas por dia, infalível. É como se fosse uma parte de mim. Não sei explicar, é uma sensação que nunca senti.

- Ele tá com você faz quanto tempo?

- Quase um ano.

- Um ano? Então quando você me conheceu ele tava junto?

- Tava. Ele não larga do meu pé, Gisele. Lembra de como a gente se conheceu?

- No balcão do Pai Herói.

- Lembra de como eu tava?

- Calça preta e camisa azul. Um gato.

- Não, tô falando do meu estado.

- Bêbado, claro.

- E morrendo de rir, não era?

- Era, tava um tanto risonho.

- Por causa dele. Ele antecipava tudo que eu ia dizer. Sabia de cor todas as minhas abordagens. “Oi. Você não se sente uma sardinha nesses bares tão lotados?” Eu abria a boca pra falar e ele falava antes. E eu começava a rir.

- Ah, era por isso?

- É um sádico gozador, me sacaneia bastante. De repente se esconde entre as pessoas e eu acho que fiquei livre dele. Quando menos espero, surge com algum comentário bem cretino. Lembra de uma vez que a gente tava numa mesa lá no Papillon e eu tive um acesso incontrolável de riso?

- Parecia um louco.

- Por causa dele. Naquela noite ele apareceu de repente com a cabeça bem aqui do meu lado e falou assim, bem sério: “Você está olhando tanto que eu vim segurá-lo pra você não cair dentro do decote dela…”

- Meu decote?!

- Eu estourei de rir. Você tava com um decote assim bem chamativo e aí fiquei imaginando eu caindo lá dentro… Você sem entender nada e eu morrendo de rir.

- Quer dizer que foi por isso. Pelo meu decote.

- Na hora foi engraçado. Mas esse cachorro tornou minha vida um inferno. Por isso tem muita gente achando que eu sou doido.

- Muita gente mesmo.

- Pudera. No começo eu até me divertia. Mas depois fui ficando irritado. Aí mandava a compostura pros diabos e discutia com ele na frente de quem fosse, dizia que ele não tinha o direito de fazer aquilo, que era uma coisa que ia contra a liberdade individual e a ética cósmica e que…

- Ética cósmica?

- Eu tava desesperado, valia qualquer coisa.

- Realmente.

- Comecei a ficar com muita raiva dele. Sabe o que é ter de conviver com alguém que conhece você profundamente e vive lhe jogando seus defeitos na cara, ironizando suas atitudes? Pois é o que ele fazia. Não perdia uma oportunidade. Você se sente nu. Você não consegue se concentrar em mais nada. Vai ler um livro e não consegue. Vai ver um filme e fica pensando em outra coisa, é um inferno. De tanto ele falar, de um tempo pra cá comecei a perceber um bocado de coisa que tenho de mudar em mim.

- Por exemplo?

- Ah… Esse sacana me fez ver o quanto eu tava sendo frívolo, superficial, o quanto era falso comigo mesmo. E me fez ver também o quanto sou dono-da-verdade.

- Ele fez isso?!

- Fez.

- E você reconheceu?

- Tive, né? Ele não deixa passar nada. Eu tô conversando com alguém e dou uma opinião assim… Pronto, lá vem ele me alfinetando. No começo eu fingia não escutar mas a coisa ficou insuportável. Então passei a discutir sério com ele, defendendo meus pontos de vista. Se ele fosse de carne e osso a gente já tinha saído na porrada.

- Você admite que é meio dono-da-verdade?

- Admito. Mas tô mudando.

- E ele sempre esteve perto, mesmo nos momentos em que a gente tava junto?

- Hum-hum.

- Até mesmo… naqueles momentos?

- Até naqueles momentos.

- Então ele me viu nua várias vezes.

- Eu não podia fazer nada, entenda.

- Ele viu tudo?

- Ele tá pregado na minha energia, Gisele. Ele também não pode fazer nada. Nem fechar os olhos pra não ver.

- Era só o que me faltava…

- Agora entende porque nunca consegui relaxar com você? Ele tava sempre perto observando… A única maneira de poder esquecer um pouco era enchendo a cara. Era mais conveniente ficar bêbado pra não pensar sobre certas coisas.

- Zeca… Olha, eu… não sei nem o que pensar. Não sei se me irrito com você, se rio dessa história absurda…

- Pode rir, não vou me importar.

- Não sei se continuo aqui escutando essas… essas loucuras… Não sei.

- Eu tinha de lhe contar, Gisele.

- Por que eu? A gente não conversa faz tanto tempo.

- Foi ele quem sugeriu. Achamos que você compreenderia, sei lá…

- Ele quem, o Observador?

- Ele mesmo. “Por que você não conta pra Gisa? Ela é uma pessoa sensível, pode ajudar…”

- Ele me chama de Gisa?

- É. Ainda tem essa intimidade.

- Ele tá aqui agora?

- Sentadinho aqui. Morrendo de rir dessa situação ridícula, o sádico. Pergunta algo pra ele.

- Eu?

- É, pergunta alguma coisa.

- Ahn… Sei lá.

- Ele tá dizendo que você dança muito bem.

- E ele já me viu dançar?

- Ele foi comigo na apresentação do seu grupo.

- Ah… Que bom. Agradeça a ele.

- Agradeça você, ele tá ouvindo.

- Ahn… Obrigado, seo Observador… Ai, Zeca! Essa situação realmente…

- Ah, ah, ah, ah!

- …

- Desculpa. É que foi engraçado.

- Zeca, você me chamou aqui pra conversar sério. Eu vim porque acreditei. Aí chego e você me vem com esse papo de Observador. Porra!

- …

- Zeca, se você estivesse em meu lugar, o que faria agora? Diga sinceramente.

- …

- Diga, o que você faria?

- Bem… Acho que me levantaria, sairia por aquela porta e tchau.

- Pois é o que vou fazer. Mas antes deixa eu dizer uma coisa: pare de beber, Zeca. Você precisa parar com isso se não quiser terminar numa pior. E se estiver bebendo pra não ter de encarar certas coisas sobre você mesmo, então lamento dizer que tá indo pelo pior caminho.

- …

- Tchau, Zeca. E tchau pro seu amigo…

- …

- Ele tem nome?

- Eu chamo de Hóbis.

- Hóbis?

- É, Hóbis. Bonitinho, não?

- Hóbis, o Observador… Tchau, Hóbis. Não deixa o Zeca beber demais.

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- EU AVISEI. Não era pra você contar assim, de uma vez só. Tinha de ser devagar.

- Agora já tá feito, Hóbis.

- E se você tiver perdido a Gisa de vez?

- O que tiver de ser, será.

- Você parece que fez isso pra se livrar dela.

- Se ela gosta de mim como você diz, então ela teria entendido melhor a coisa.

- Ela precisa de tempo, Zeca.

- Agora já tá feito.

- Ligue pra ela de novo. Agora que ela já sabe de mim, deixe que pense que você é louco mesmo. Ela também não é muito normal. Não pode tomar duas cervejas que quer fazer piruetas pelo meio da rua…

- Pelo menos ela dança bem.

- Você ainda não viu nada…

- O que você sabe sobre ela que eu não sei?

- Esqueça. Pensei alto. Vá, Zeca, ligue pra ela.

- Eu não posso ligar de novo, Hóbis! Você viu, ela tem certeza que eu pirei.

- Ela gosta de você.

- Eu também gosto dela. Desde o começo, você sabe. Mas só fiz besteira. Não dei uma dentro.

- Claro, sempre bêbado…

- Por sua causa.

- E eu estou aqui por sua causa. Então é você quem tem de fazer alguma coisa.

- E tô fazendo. Tô bebendo pra ver se morro logo de uma vez e me livro de sua chatice.

- Zeca, seu tapado imbecil. Gisa é a mulher que pode ajudá-lo, incentivá-lo. Acontece que você morre de medo daquilo que mais precisa. É um tolo.

- Se ela puder, me manda pro manicômio.

- Ligue pra ela, marque um local agradável.

- Papa-Tudo Motel. Suítes com cadeira erótica.

- Marque no Spy, convide pra tomar um suco. Por favor, nada de álcool.

- Já falei pra não me pedir isso. Bebo se eu quiser.

- Como posso deixar de pedir isso, seu burro?! É a bebida que está estragando sua vida.

- Quem está estragando minha vida é você!

- É você quem estraga a minha, incompetente! Eu poderia estar em casa, com minha família! Mas não, tenho de estar aqui com você, você que insiste em querer ser coisas que não é, que prefere viver personagens em vez de ser você mesmo!

- …

- …

- Escute, Hóbis, eu já passei uma semana sem beber e não adiantou nada, você continuou me pentelhando.

- Não são sete dias sóbrios que vão resolver os seus problemas, cretino. Olhe pra dentro de você mesmo e veja o que é que tem de mudar.

- Se soubesse, eu mudaria.

- Você sabe.

- Eu não sei, já disse!

- Sabe sim!

- Se soubesse, já teria mudado só pra me livrar de você, palhaço!

- Ah, você pensa que é agradável pra mim ficar assistindo seus porres idiotas, suas abordagens sem graça, “oi, veja só, eu um sujeito simples e você tão cheia de predicados…” Sem falar na suas performances sexuais horrorosas…

- Então vá pra merda! Aliás, fique aí mesmo. Pouco me importa se eu morrer de um coma alcoólico. Sabendo que você vai junto eu vou estar me divertindo bastante. Vamos os dois pro Inferno.

(…)

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(Este conto integra o livro Guia Prático de Sobrevivência para o Final dos Tempos)


Quando os homens não voltam para casa (trecho)

Novembro 15, 2008

QUANDO OS HOMENS NÃO VOLTAM PARA CASA

Javier Viegas é tarólogo e resolve problemas do Além. Dessa vez uma moça deseja reencontrar o namorado que foi supostamente atraído por uma bela princesa para dentro de um quadro de parede.

Mistério, místico.

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(Este conto integra o livro Guia Prático de Sobrevivência para o Final dos Tempos)

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Trecho do conto

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OI, LU… Por favor, leia a carta com atenção. Você é a única pessoa em quem confio. Saiba que, apesar de tudo, ainda amo você. Beijos. Junior.

Luciane leu o bilhete intrigada. Já fazia uma semana que não tinha notícia do namorado. No escritório avisaram que ele não ia lá fazia três dias, os porteiros do prédio não sabiam dele e seu telefone não atendia. No início pensou que Junior se chateara com a discussão que tiveram e resolvera dar um tempo. Mas aquele sumiço não fazia sentido.

Então decidira ir falar com ele. Entrou no apartamento com a chave extra que possuía. Nada viu de anormal, tudo em ordem. Sobre a cama encontrou o bilhete. E ao lado o quadro que ele tanto gostava: a princesa sentada num banco à entrada de um bosque. O mesmo quadro que originara a fatídica discussão. Nunca viu nada demais naquele quadro mas Junior nutria por ele uma admiração que ela simplesmente não entendia. Pôs o bilhete de lado, encostou-se nas almofadas da cama e começou a ler a carta.

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A margem de um lago, um pequeno ancoradouro e um bote amarrado. Um caminho que sai do ancoradouro e penetra no bosque, por entre as árvores. Logo à entrada do bosque um banco de madeira e uma princesa muito bonita, em trajes medievais, olhando triste para a curva do caminho, como se aguardasse alguém que de repente surgirá…

Encontrei o quadro numa loja de usados e gostei dele de cara. A princesa me passava uma ternura tão grande… E havia a sensação de familiaridade, era como se eu a conhecesse de algum lugar, algum tempo. Levei o quadro e pus na sala. Você deve lembrar desse dia: eu mostrei, você olhou e riu. E disse que princesas sempre fizeram o meu tipo e que se acaso eu encontrasse uma pela frente, não pensaria duas vezes e a trocaria por ela. Lembra?

Primeiro eu o pus no corredor, para olhar sempre que eu passasse. Depois trouxe para o quarto e deixei ao lado da cama, para que eu adormecesse olhando para ele de pertinho.

Várias vezes tentei lhe dizer do quanto o quadro me fascinava. Mas você apenas zombava dos meus comentários.

Para mim aquela princesa vivia sozinha no bosque. Era triste e chorava de saudade de seu país, um lugar distante e muito bonito. Mas havia um brilho de esperança nos seus olhos: ela esperava pela chegada de um cavaleiro que a libertaria. Ele viria do bosque e surgiria na curva do caminho. Ele a pegaria pela mão e juntos tomariam o barco que os levaria rumo ao belo país da princesa. Enquanto isso não acontecia, ela aguardava cantando uma canção melancólica que se espalhava pelo bosque e um dia chegaria aos ouvidos de seu libertador.

À noite eu acariciava o quadro como se isso pudesse amenizar o sofrimento da princesa. Tirava o vidro, passeava a ponta dos dedos por sobre o papel e quase podia sentir o relevo das árvores, a água do lago, a pele dela, o cabelo…

Então uma noite tive um sonho. Eu estava no bosque e seguia pelo caminho entre as árvores. Estava à procura da princesa e precisava muito encontrá-la antes que anoitecesse. E só havia uma maneira: guiar-me pela sua canção. Mas ventava muito e a voz dela se perdia nos ventos. Tentei muitos caminhos, sabia que ela estava por perto, podia sentir sua presença… mas não a encontrei. Começou a ficar escuro e eu tive medo de me perder no bosque. Então, lamentando não tê-la encontrado, voltei.

Acordei no meio da noite chorando. O sonho ainda estava presente no quarto e eu podia sentir o vento, ainda escutava os ecos da canção triste. Eu estivera tão perto… Ela estava ali, em algum lugar, tão perto… e eu não soube encontrá-la. Não fui bom o bastante para ser seu cavaleiro – era isso o que mais me doía. Chorei até adormecer.

No outro dia nem fui trabalhar, impressionado com a força do sonho. Contei para você, lembra? Pela primeira vez você escutou com atenção. Então falou que eu já estava exagerando e que se continuasse assim, ia ficar doido. Você levantou com o quadro na mão e saiu, dizendo que ia dá-lo a alguém, que, aliás, ele era até de mau gosto.

Eu a alcancei na sala. Avancei e puxei o quadro de sua mão. Mas ele escapou e caiu. Espatifou-se no chão. Foi um estrondo que ecoou por longos segundos no silêncio da sala. Quando vi o quadro no chão, os pedaços de vidro espalhados, fiquei transtornado, uma dor imensa no coração. Tentei juntar os pedaços. Você se abaixou para me ajudar, pedindo desculpas. Mas eu a empurrei, com raiva, e disse que dispensava sua ajuda. Você ficou olhando para mim, assustada. Certamente devia achar que eu não estava bem da cabeça ou então pela primeira vez teve um vislumbre do quanto aquele quadro era importante para mim. Não sei, afinal não conversamos mais. Você bateu a porta com força e foi embora.

No dia seguinte inventei uma desculpa e também não fui trabalhar, não conseguiria me concentrar. E à noite tive o segundo sonho. Estava novamente no bosque e a voz da princesa me chegava, entre os ventos. Ela estava perto, mais perto que na noite anterior, mas eu tinha medo de avançar muito e anoitecer e eu não saber mais como voltar. Eu queria prosseguir, custasse o que custasse. Mas eu tinha medo de ficar perdido no bosque para sempre. Dividido nessa dúvida mortal, decidi voltar, uma dor me dilacerando a alma por mais uma vez deixar a princesa sozinha. Mas já estava escuro e por pouco não me perdi no bosque, por pouco mesmo.

Como da outra vez, despertei logo, tão triste que suspirava. Por alguns instantes o quarto pareceu ser o bosque, tão real que toquei as folhas no chão. Rapidamente tomei o quadro no peito, como se faz com alguém que a gente gosta tanto que tem vontade de trazer para dentro de si. Apertei a princesa contra o peito enquanto fazia força para que o sonho não fugisse. E por alguns instantes deu certo: toquei um galho, segurei-o… Mas logo o bosque sumiu e eu estava novamente em meu quarto, eu e minha enorme tristeza. Então disse para a princesa ser forte e aguardar só um pouco mais, eu logo a encontraria. E foi com esse pensamento que adormeci, esperançoso de que o sono me conduzisse de volta ao bosque.

Mas não voltei. Acordei pela manhã decepcionado, sem ânimo nem para comer. Não fui trabalhar. Trabalhar como, sabendo que ela ainda estava lá, sozinha? Como preencher formulários e autorizar requisições enquanto minha princesa sofria sozinha naquele bosque?

Na noite seguinte esperei que o sonho viesse mas não veio. Não conseguia pensar em outra coisa. Então saí para dar um passeio, tentar arejar um pouco minha alma sufocada. Olhando para a lagoa, escutei a voz da princesa. Estava distante, quase não ouvia. Mas ela era sim. Fiquei radiante. Aquilo era um sinal. Então voltei para casa com a certeza de que muito em breve eu a encontraria.

Eu ainda amo você, Luciane. Mas a princesa, como explicar?, é algo mais antigo, mais profundo… Ela é de uma terra onde o tempo é diferente, sem passado nem futuro. Lá tudo acontece agora, você entende? Eu sei porque estive lá. E estarei novamente esta noite.

Beijos.

Junior

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Luciane continuou olhando para o papel. Tentava organizar as idéias mas todo o seu pensamento era um emaranhado de interrogações girando sem parar. A cabeça latejava e o coração batia descompassado. Que diabo afinal estava acontecendo?

De fato, no início não ligara. Com o tempo, porém, o interesse de Junior pelo quadro lhe botou uma pulga atrás da orelha. Mas nem de longe imaginou que a coisa pudesse chegar a tal ponto.

Não mais o viu depois do incidente com o quadro. Porém, pensando sobre o assunto, lembrou que nos últimos tempos ele andava mais quieto e pensativo, questionando coisas e vindo com considerações filosóficas a respeito de sua vida. Olhando agora, talvez houvesse faltado um pouco mais de tato de sua parte para entender o que se passava. Ele dizia que andava precisando ficar sozinho mais tempo e ela considerou que ele não mais a queria. Talvez não fosse nada disso. Talvez ele ainda a amasse mesmo.

Aqueles dias serviram para rever algumas idéias. Decidiu que pediria desculpas. E tentaria ser mais compreensiva. Ela o amava muito e não imaginava a vida sem ele. Claro que ele também tinha seus defeitos. Mas primeiro era preciso não perdê-lo, isso agora era o mais importante. Por isso resolvera procurá-lo.

Mas agora… aquela carta… E se ele estivesse lhe aprontando uma brincadeira? – pensou, subitamente irritada. Junior bem seria capaz disso sim. Ela ali preocupada e ele em algum lugar por aí, rindo de sua cara. É, ele estava lhe aprontando alguma. E ela fazendo papel de boba, perdendo tempo com os delírios de um cara metido a cavaleiro garboso e sua princesa casadoira. Conheceu outra mulher e agora inventava aquela palhaçada. Pois se quisesse, que a procurasse para esclarecer a situação. Tinha mais o que fazer.

E foi embora, batendo a porta.

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MAS ELE NÃO A PROCUROU. Os dias seguiram e a indefinição a deixava nervosa. Estava com saudades. E muito, muito preocupada. Aquela carta não fazia sentido. Não podia ser uma brincadeira. E ainda havia a questão do trabalho: ele faltava já fazia uma semana, os colegas também estavam preocupados. Breve a mãe dele ligaria para ela querendo saber notícia do filho.

No entanto, como crer naquela história? Sentia-se ridícula pensando nele num bosque encantado, procurando por uma princesa. Claro que não falara a ninguém da carta, quem levaria a sério? Mas precisava dividir com alguém aquela loucura.

Voltou ao apartamento três dias depois. Estava decidida a chamar a polícia. Foi até o quarto e pegou o quadro sobre a cama. Então percebeu algo tão estranho que teve de tapar a boca para não gritar. Ali, no quadro, no exato local onde o caminho fazia uma curva para entrar de vez no bosque, ali havia uma nova figura, uma pessoa que não estava lá da última vez. E, olhando bem… era Junior.

Luciane largou o quadro sobre a cama. Um medo gelado lhe subiu a espinha. Respirou fundo várias vezes e depois, mais calma, reuniu coragem e olhou novamente o quadro. Havia mesmo um detalhe novo na paisagem. Havia alguém vindo de dentro do bosque em direção à princesa. A imagem não estava nítida mas era uma pessoa. E o rosto parecia com o de Junior, o formato, o cabelo, os olhos… Ou será que aquela pessoa sempre estivera ali? Não, impossível.

Luciane fechou os olhos e disse para si mesma, mentalmente: Junior está dentro desse quadro. Ao mesmo tempo que resistia à idéia, sentia seu pensamento sendo atraído para ela. Junior estava naquele quadro, podia sentir isso. E quanto mais se deixava envolver pela idéia, mais absurda ela se tornava.

Olhou novamente. E se fossem dois quadros? Em sua brincadeira, Junior bem poderia ter substituído o primeiro por aquele segundo. Mas não, não. Por que ele se daria ao trabalho de fazer tudo aquilo, por quê? Não fazia sentido.

Decidiu dormir no apartamento. Estava com medo mas precisava descartar a hipótese de que seu namorado lhe pregava uma peça, ele sempre fora muito brincalhão. Dormindo ali, talvez o surpreendesse chegando para trocar o quadro. Precisava tentar.

Quase não conseguiu dormir de tanta ansiedade. Levantou assim que o dia clareou, exausta. A primeira coisa que fez foi pegar o quadro. E lá estava a mesma pessoa chegando pelo caminho – dessa vez, no entanto, a imagem estava mais nítida. E não havia dúvidas: era Junior sim. E ele estava bem próximo da princesa, quase tocando-a.

Luciane olhava impressionada. Da noite para o dia os contornos da figura adquiriram maiores detalhes, como se alguém houvesse retocado o quadro. Não havia engano: aquele era seu namorado… vestido feito um cavaleiro medieval.

- Junior… – murmurou, enquanto acariciava o quadro. – Junior, você está aí?

De repente deu-se conta do que fazia. Uma crise nervosa desceu-lhe feito uma descarga elétrica e ela começou a chorar. Chorava pelo namorado que não sabia onde estava. Chorava também pela possibilidade de estar sendo vítima de uma bizarra brincadeira. E chorava, principalmente, pela possibilidade de tudo aquilo ser verdade.

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A MOÇA DO BALCÃO suspendeu os olhos do livro que lia e olhou para Luciane.

- Bom dia. Meu namorado comprou este quadro aqui mês passado. – Luciane tirou o quadro da mochila. – Foi você quem vendeu pra ele?

A loja de usados. Quem sabe lá…

- Estou lembrada, fui eu mesma. Algum defeito? – perguntou a atendente, examinando o quadro.

- Não, não é isso. É que… bem… – Como dizer uma loucura daquela? – Você lembra se o quadro tinha esse detalhe aqui, esse cavaleiro?

- Se tinha esse homem aí? Como assim?

- Tente lembrar, é importante.

- Não estou vendo nada de errado nele.

Luciane suspirou. Não ia ser fácil.

- Moça, eu sei que você não vai acreditar mas…  Olha, eu tenho fortes motivos pra acreditar que meu namorado… caiu dentro desse quadro. – Pronto, falara. Estava dito. – Ele é esse cavaleiro que está vindo pelo caminho…

A atendente olhou para o quadro e depois para ela. Viu o rosto cansado de Luciane, a expressão angustiada.

- Seu namorado… caiu dentro do quadro?

Luciane sentiu que ia chorar novamente. Controlou-se e tentou falar. Mas não conseguiu. Sentia-se ridícula. A atendente continuava observando-a. A situação toda era absurda, irreal.

Então compreendeu que era inútil, estava fazendo papel de louca.

- Esqueça o que eu falei – ela disse, puxandoo quadro de volta, pondo-o na mochila. – Não devia ter vindo aqui.

Quando se preparava para deixar a loja, um homem surgiu, vindo da sala ao lado.

- Por favor, não vá agora.

Era um sujeito baixo, moreno, barrigudo, o cabelo preto numa enorme trança que descia pelo meio das costas. Devia ter seus cinquenta anos. Luciane olhou curiosa. Ele tinha um olhar forte mas amigável.

- Se não for incômodo, gostaria de ouvir sua história.

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A PEQUENA SALA tinha uma luminosidade suave que vinha de um vitral colorido na janela. No ar pairava um agradável cheiro de incenso. Havia objetos antigos como baús, candelabros e estatuetas. Muitos livros numa estante de madeira e belos quadros pelas paredes. Luciane sentou-se numa cadeira que parecia ter quinhentos anos de idade.

Reparou no homem que sentava do outro lado da mesa. Tinha trejeitos femininos. E falava com sotaque espanhol. Era meio calvo na frente mas atrás o cabelo descia numa trança até o meio das costas. Figura exótica.

A atendente entrou trazendo uma bandeja.

- Chá de capim santo, querida – ele falou. – É bom pros nervos. Obrigado, Ana Isaura. Agora pode nos deixar a sós, está bem? Não atendo ninguém.

- Dona Carlota tem consulta às seis, seo Javier.

- Desmarque, mulher. Diga que minha vó menstruou e que eu saí correndo pra lá. Passar bem.

Luciane riu. Exótico e gozador.

- Está gostoso, Luciane? Isso, tome que vai fazer bem. – Ele bebeu um pouco. – Dou consulta de tarô, meu anjo. E resolvo outros babados. Atendo aqui mesmo na loja. Nunca ouviu falar do tarô do Javier?

Tarô do Javier… Onde se metera?

- Você deve estar se perguntando: onde que eu fui parar, minha Virgem, não é? Mas não se preocupe, veio ao lugar certo. Eu vou ajudá-la. Vamos lá, me conte essa história direito.

Luciane pesou a situação. Certamente se tratava do maior charlatão da cidade. E aquele sotaque espanhol devia ser puro golpe de marketing. A trança enorme nas costas, o jeitão de bicha… Vai ver nem era bicha, era tudo marketing. E a túnica branca, por que não usava? Certamente para não ficar estereotipado demais. Vestia jeans, tênis e camisão estampado por fora. Aquela gente sabia como fazer a coisa.

Entretanto, por algum motivo simpatizara com ele. Tinha uns olhos pretos que olhavam duro mas eram amáveis. É, talvez não custasse nada contar para ele. Para quem mais afinal?

Então contou que Junior comprara o quadro ali e que se afeiçoara exageradamente a ele. Contou que ele falava muito da princesa mas que ela, pessoalmente, nunca viu nada de especial. Falou da crise por que passava a relação, da discussão por causa do quadro e que depois ficaram sem se falar por uns dias. Javier escutava atento.

- Uma semana depois, como ele não atendia o telefone, fui até lá. E só encontrei esse quadro. Quando voltei no outro dia, Junior começou a aparecer na paisagem, vestido de cavaleiro… – ela falou e sorriu sem jeito, nervosa, esperando que Javier sorrisse também. Mas ele continuou compenetrado, olhando em seus olhos. – E aqui estou eu.

Não falara da carta. Proposital. Queria ver até onde o sujeito era mesmo bom naquelas coisas. Fosse o caso, depois diria que não sabia da carta. Não se podia vacilar com aqueles tipos.

- E o que você acha? Qual o seu palpite?

Ele queria saber qual a sua expectativa, raciocinou Luciane. Sabendo isso, jogaria de acordo. Gente esperta.

- Pra ser sincera, não sei mesmo.

Javier pediu o quadro. Ela tirou da mochila e entregou.

- Hummm, bom gosto pra homem, heim?…

Ele segurou o quadro com as duas mãos e fechou os olhos. Por um tempo assim ficou, a cabeça reclinada para trás, num movimento circular e vagaroso, respirando fundo.

Ela acompanhava com atenção seus movimentos. Sentiu vontade de rir mas se controlou. Quando tudo se resolvesse Junior iria lhe pagar direitinho aquele ridículo todo, ah, iria sim, o cretino.

Javier abriu os olhos.

- Babado fortíssimo, meu anjo.

- Heim?

- Olha, não deu pra ver os detalhes mas fizeram coisa bem feita com seu namorado.

- Uma mulher?

- Mulher. Mas não deu pra ver de quem se trata.

- Taí, não sabia que eu tinha uma rival… – ela ironizou. E não teve como evitar a lembrança de algumas amigas, umas certas colegas de escritório dele… Mas não, aquele papo era conhecido. Agora o charlatão ia dizer que podia desfazer o feitiço e que cobrava tanto mas, como simpatizou com ela, deixava por tanto…

- Essa moça é poderosa.

- Eu conheço?

- Talvez. Mas ele conhece bem.

- E o que vai acontecer?

- Ele parece que está enfeitiçado. É como se estivesse sendo atraído por ela.

Ela lembrou da canção triste da princesa…

- Ela deve ter atraído seu namorado com este quadro. Ele veio aqui e comprou, levou pra casa. Crau! Mordeu a isca direitinho.

- Mas onde ele está agora?

- O quadro está mostrando, meu amor. A princesa representa a mulher que jogou o feitiço nele. Ele já a encontrou. Agora vão ficar juntos.

- Você quer dizer que esse cachorro está me passando um chifre por aí? – ela falou sorrindo, tentando mostrar que aquilo não a afetava. Mas se descobriu verdadeiramente irritada com a tal hipótese. Talvez aquela priminha dele que vez em quando vinha para a cidade…

- Em outras palavras… é isso mesmo.

- Mas que diabo de mulher é essa que faz um homem largar casa, trabalho, se mandar, não avisar ninguém?…

- Babado forte, meu anjo, já falei. Não crê em bruxa?

- Não.

- Pois acabou de topar com uma.

Ele só podia estar inventando tudo aquilo. Mas como explicar o que acontecia com o quadro?

- Claro que você tem o direito de desconfiar, meu bem. Acontece que enquanto você desconfia, a rival ganha terreno.

Ele pôs o quadro sobre a mesa.

- Javier, eu não sou a pessoa mais cética do mundo, pode ter certeza. Mas você há de convir que qualquer pessoa sensata concordaria que essa história parece mais uma grande loucura.

- Se é loucura, o que é que você está fazendo aqui?

(…)

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(Este conto integra o livro Guia Prático de Sobrevivência para o Final dos Tempos)


O presente de Mariana (trecho)

Novembro 15, 2008

O PRESENTE DE MARIANA

A cabocla Mariana, entidade da umbanda, propõe noivado ao moço Dedé. Noivar com ela significa conseguir estabilidade financeira mas em troca ela exige fidelidade absoluta.

Mistério, místico.

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(Este conto integra o livro Guia Prático de Sobrevivência para o Final dos Tempos)

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Trecho do conto

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ESTAMOS FAZENDO DEZ ANOS de casados, eu e Mirley. É uma mulher incrível, faço questão de lhe dizer, e continua bela e fascinante como no dia em que a conheci. Para comemorar a data viemos passar o fim de semana em nossa casa de praia. Trouxemos vinho, velas, nossos discos preferidos. Dez anos de alegrias. Dois filhos maravilhosos. Houve dificuldades, é claro, mas nosso amor superou tudo.

Nesse momento Mirley está na praia com as crianças. Preferi ficar aqui na rede da varanda, escutando Julio Iglesias, olhando as árvores do terreno, me deliciando com o vento, o som que ele faz nas folhas. Dez anos. Tantas coisas vividas…

Recordei fatos, sensações, dizeres e pequenos eventos banais. Recordei os dias difíceis, um fraquejando, o outro segurando a barra… Ri sozinho de tantos encontros e desencontros, interessantes acasos, brigas homéricas que o tempo sempre faz tornarem-se ridículas. Em dez anos de convivência acumula-se o inevitável pó das coisas corriqueiras, eu sei, eu sei, mas um olhar ainda apaixonado, acredite-me, é capaz de captar poesia por trás da mais empoeirada rotina.

E foi nesta manhã, aqui na rede a vasculhar o passado, que súbito me veio a lembrança de Mariana. Foi como se um repentino vento soprasse a areia de cima do acontecimento esquecido. Soprou e surgiu Mariana, ela e seu jeito gracioso de menina, o sorriso… E eu recordei tudo.
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ERA UMA QUARTA-FEIRA, o dia em que botavam mesa na casa de dona Neide, uma médium conhecida no bairro. Joca perguntou se eu gostaria de conhecer uma sessão de umbanda manauara e lá fomos nós.

Eu havia deixado Recife para ir morar em Manaus, onde investira todas as minhas economias num negócio de exportação. Minha namorada Mirley foi comigo mas infelizmente não se deu com o clima da região e voltou. Eu fiquei, eu e a promessa de que em breve faria algum dinheiro e voltaria também. Mas por aqueles dias, quase um ano depois, os negócios seguiam muito difíceis e o dinheiro e a esperança cada vez mais curtos. As perspectivas nada otimistas. E a saudade de Mirley me incomodava demais, feito um espinho encravado na alma. Sem ela ao meu lado, tudo era mais difícil de suportar. Quem sabe então alguma entidade poderia me dar uma mãozinha?

Formou-se a mesa. Estava concorrida a sessão daquela noite. Algumas pessoas tiveram de ficar em pé, ao redor. Como era minha primeira vez, deixaram-me sentar e bem ao lado de dona Neide, a médium, uma senhora muito distinta, do corpo mirrado, de cabelos e olhos bem pretos. Num canto da sala ficava a mesa do congá e nela pude distinguir imagens de Jesus Cristo, são Jorge, são Sebastião, são Cosme e são Damião e a da Virgem. A médium pediu a bênção de Oxalá, do Mestre Jesus, da entidade responsável pelo terreiro, que não lembro mais, e dos sete orixás: Orixalá, Ogum, Oxossi, Xangô, Yorimá, Yori e Yemanjá. Dez anos depois ainda hoje recordo dos orixás.

Nunca acreditei nessas coisas. Acho que se pode explicá-las pela auto-sugestão. E como sou tímido, aquela experiência nova me deixou pouco à vontade. Via as pessoas expondo seus problemas às entidades e aquilo me soava estranho. Vi que umas conversavam ao ouvido delas, reservadamente, mas nem assim arrumei coragem. Imaginava-me meio ridículo falando ao ouvido de um preto velho baforando fumaça de fumo de palha enquanto as pessoas faziam um fundo sonoro de cantigas meio desafinadas.

Por ocasião da visita das entidades não senti nenhuma mudança mais significativa na médium. Observava-a com discrição mas atentamente, procurando falhas ou, quem sabe, buscando comprovações do além. Uma coisa, porém, me chamou a atenção: foram as sete doses, isso mesmo, sete doses de cachaça que ela tomou durante a visita de um caboclo não-sei-quem. Sem falar nas cervejas que outras entidades pediram e tomaram. Pela lógica dona Neide, com sua fraca compleição física, terminaria a sessão bastante embriagada.

Foi no final que Mariana apareceu. Eu já interpelava Joca de canto de olho, demonstrando minha impaciência, quando dona Neide mais uma vez estremeceu, fechou os olhos e entrou em transe. De imediato percebi uma fragrância suave no ambiente, um cheiro de madeira, de mato fresco, e olhei discretamente ao redor para ver quem estaria usando perfume tão agradável.

Todos saudaram a entidade que chegava.

- Salve, Mariana.

- Salve, cabocla Mariana. Bem vinda.

- Bem vinda, Mariana do cabelo cor de telha.

- Salve, salve! – dona Neide respondeu. E percebi que sua voz se tornara mais juvenil.

- Quanto tempo que não aparece, Mariana.

- Êta, hoje tá cheio. Gente nova, homem bonito, que bom. Êta, felicidade!

Achei aquilo tudo ridículo e tive vontade de rir. Nesse exato instante, porém, o olhar de dona Neide cruzou com o meu. Tomei um susto. Aquele não era seu olhar, era outro. Estava diferente, mais brilhante, mais vivo. Tentei desviar, incomodado, mas algo me impediu.

- Esse é o Dedé – Joca tratou de me apresentar. – Gente boa, amigo meu. Tá vindo pela primeira vez.

- Tem um olho bonito, ele.

Fiquei sem saber o que dizer, as atenções todas sobre mim. Procurava algo para fazer com as mãos sobre a mesa e evitar os olhares, principalmente o de dona Neide. Era estranho: dona Neide continuava ali, ao meu lado, mas ao mesmo tempo… não parecia ser ela. Não podia ser ela.

- O moço é tímido, é? – ela falava ao meu lado, a poucos centímetros de meu rosto. Tinha um olhar meigo mas nele havia qualquer coisa de dominador. Era algo sutil mas que prendia meu olhar.

- Tá meio sem jeito, Mariana. Mas é gente boa.

- Com esse olho tem direito de ser tímido – ela disse e se virou, buscando os velhos conhecidos da mesa. Respirei aliviado.

Dona Neide, ou Mariana, cumprimentou a todos os presentes. Pude perceber que se demorava mais nos homens. Pediu notícias sobre conhecidos, perguntou sobre um e outro, riu de casos e se divertiu com uma confusão ocorrida dias antes na rua. Era uma moça alegre. Eu fiquei tão sem jeito com a situação que nem lembrei de pedir que também desse uma forcinha nos meus negócios. Me contentei em admirar seus modos graciosos e seu bom humor. Decididamente, era uma entidade cativante.

Havia algo, porém, que me chamava a atenção desde o início de seus falares. Ela perguntava por seu noivo fulano e seu outro noivo beltrano e pelo jeito parecia ter muitos noivos. Curioso, cutuquei Joca e ele me explicou, falando baixinho ao meu ouvido:

- A cabocla Mariana não morreu, foi encantada, com 17 anos e meio. Ela é muito bonita. Tem a pele branca e o cabelo ruivo, da cor de telha. E o olho azulzinho. Quando se engraça de um homem, pergunta se ele quer ser noivo dela. Homem que é noivo de Mariana consegue o que quiser nos negócios, sobe rapidinho na vida.

Senti um frio no estômago. Ajeitei-me na cadeira, mais para perto do meu amigo.

- Meu irmão é noivo dela. Tu conheceu a loja dele, Dedé. Pois antes não tinha nem onde cair morto. E não faz nem dois anos. Enriqueceu rapidinho.

- E o que faz ela se engraçar de um homem?

- Ah, não sei. Ela gosta e pronto.

- Deve ser porque ela pensa: esse daí tem pinta de vencedor, posso apostar minha reputação nele…

- Não, não é isso, te garanto que não é. Ela gosta e pronto.

- E o que ela pede em troca?

- Homem que noiva com Mariana não tem mais mulher nenhuma. Ela é ciumenta, não deixa.

- Mas não deixa como?

Alguém fez psiiiiuuu… Sorri um pedido de desculpas e me recompus. Mas o assunto era irresistível.

- Ela estraga qualquer xodó que tu arrume. Olha aquele ali, o Luís. Noivou com ela. Foi ele quem comprou esta casa e deu de presente pra dona Neide fazer as sessões. Era um pé-rapado e hoje é dono de supermercado. Em compensação faz anos que não consegue se arrumar com mulher nenhuma, Mariana sempre estraga. Não dá pra esconder dela.

- E não dá pra desfazer o trato?

- Não. E se tu insistir em tentar enganar Mariana, pior pra ti que fica sem dinheiro e sem mulher. Tem que ser muito macho pra noivar com ela. Olha o que eu te digo, Dedé.

- Pois eu topava um negócio desse.

- Tu não é doido!

- Se ela me arrumar dinheiro eu vou embora daqui e ela não me encontra nunca mais. Caso com Mirley e ainda fico com dinheiro no bolso.

- Ela não te deixa sair daqui, Dedé. Tu não sabe o poder dessa menina, tu não sabe.

Já não adiantariam os conselhos. Eu estava tomado por um estranho frenesi. Entrara ali sem acreditar em nada daquilo mas agora estava disposto a abrir uma brecha em minha incredulidade para a cabocla Mariana se ela fosse realmente capaz de me tirar do sufoco em que eu me encontrava. Quanto ao fato de ficar privado de outras mulheres, eu absolutamente não acreditava que ela ou qualquer entidade do além fosse capaz de me separar de Mirley.

- Deixe eu só te dizer uma coisa – Joca me puxou pela manga da camisa. – Tu conhece o Chiquinho, né? Ele noivou com ela. Um tempo depois ganhou uma bolada boa no bicho. Já faz dois anos, tu lembra, né? Pois aquilo que aconteceu lá na tua cidade foi obra dela, pode ter certeza. Ele tentou fugir mas ela foi atrás.

Chiquinho levava a vida traficando maconha entre Recife e Manaus. Estava nisso havia anos, tinha os contatos certos, conhecia as autoridades corruptas, sempre trabalhou sem ser importunado. Um dia ganhou no bicho e se mudou para Recife, dizia para todo mundo que queria arrumar uma mulher e ficar por lá. Eu lembrava do que acontecera com Chiquinho sim. Com uma semana de Recife fora pego pela Federal e ainda se encontrava no presídio.

Bobagem, pensei. Chiquinho se descuidara. Aquilo não fora obra de entidade ciumenta. Eu não mexia com droga, não tinha nenhum trabalho ilegal. A cabocla Mariana nada podia contra mim.

- Antes de eu ir embora, queria conversar com este moço aqui… – Mariana virou-se para mim subitamente, me pegando de surpresa. Os olhares de todos se voltaram. – Não precisa me dizer que a vida não anda fácil pra ti, né? Moço honesto, trabalhador… Vem de longe, né?

Concordei com a cabeça. Era impressionante seu olhar. Eu me sentia envolto por um estranho carinho, uma água morna, aconchegante… Aquele cheiro gostoso de mato fresco…

- Aposto que deixou namorada chorando, não foi?

Sorri encabulado.

- Sabe que a primeira coisa que elas reparam é no teu olho?

Senti as faces quentes de vergonha.

- Olho bonito. E sabe olhar do jeito que mulher gosta.

Eu não soube o que dizer.

- Precisa só respeitar um pouquinho mais as entidades. Eu sei que tu é inteligente. Mas com as entidades ninguém pode, tu já devia saber.

Disse e tocou meu braço. Decididamente não era a mão de dona Neide. Era a mão macia de uma garota.

- Mas eu respeito… – tentei consertar, incomodado pela exposição de meus secretos pensamentos.

- Então respeite mais um pouquinho que não faz mal. Elas podem te ajudar. Precisa só ser um pouquinho mais humilde. Sabe muita coisa. Mas ninguém sabe tudo.

Fiquei em silêncio, cada vez mais nervoso. Reprimenda de entidade, quem diria.

- Não sabe, por exemplo, ganhar dinheiro.

Ela falou e riu. E era uma risada de menina.

- Se quiser, Mariana te ensina.

No silêncio que se fez escutei as batidas de meu coração. O que ela estava mesmo propondo?

- Ele não tá interessado, Mariana – interrompeu Joca, batendo amavelmente em meu ombro.

- Verdade? – ela perguntou, os olhos nos meus. E por um segundo me pareceram azuis.

- Bem… eu…

- Teu caso não é difícil. Só umas coisinhas que estão emperradas.

Mariana prosseguiu me olhando, séria. Nesse momento senti algo estranho, uma leve sensação de torpor…

- Pra mim é fácil resolver.

- Em quanto tempo? – eu quis saber. Ela tinha mesmo olhos azuis. Ou era impressão minha?

- Mais rápido do que tu imagina.

Eram azuis sim. Um azul límpido, suave, quase uma carícia. Não era impressão – eu via. Não sei como. Mas eu via.

- Simpatizei contigo.

E o cabelo comprido, cor de telha. A pele branquinha, o jeito de menina levada. Não me peça para explicar – eu via.

- Mariana, ele não tá interessado – Joca nos interrompeu novamente.

- Tu continua despeitado, Joca. Só porque eu nunca quis ser tua noiva. Sabia, Dedé? – Ela olhou novamente para mim. – Sabia que ele pediu pra noivar comigo e eu não quis?

Olhei para o meu amigo. Aquilo ele nunca me dissera.

- Faz muito tempo, Mariana. Eu nem sabia o que tava fazendo.

- Por isso que ainda hoje tá nessa situação, pedindo dinheiro emprestado pro irmão. Nunca sabe o que tá fazendo.

- Você sabe que eu tô sem emprego.

Pensei em meu amigo Joca. Era mais velho que eu e já tentara muita coisa na vida. Nada deu certo. Os amigos estavam sempre lhe dando uma força. Parecia mesmo ter o estigma dos fracassados. Mariana teria visto isso nele? Por isso não aceitou noivar?

- Dedé? – ela me chamou. – Olhe, semana que vem eu volto. Pense com carinho porque eu só proponho uma vez.

- Isso é verdade – um homem falou por trás de mim. – Se não aceitar, ela não dá outra chance não.

- Espere… – Eu segurei seu braço. – Eu aceito.

Mariana abriu de novo seu sorriso lindo. Seus olhos azuis brilharam. Ela me olhou firme.

- Você quer ser meu noivo?

Pensei em Mirley, no quanto gostava dela. Ela me perdoaria? A causa pelo menos era justa. Por um segundo senti como se meu futuro estivesse sendo decidido naquele exato segundo e que qualquer que fosse a decisão tomada, não haveria como voltar atrás. O olhar de Mariana estava no meu e era como ser ternamente abraçado… Eu já não estava na sala. Estava com ela, caminhando pela floresta, Mariana e seu vestido branco, o belo cabelo ruivo numa trança caindo no ombro, nós dois rindo, nós dois molhando os pés na água fria do igarapé, nossas mãos juntas, os corpos juntinhos, seu rosto perto do meu, mais perto, mais perto, sua boca…

- Ele vai pensar, Mariana – Joca falou. – Ele vai pensar direitinho e quarta-feira lhe dá a resposta.

Olhei para ele quase com raiva.

- Então na quarta eu volto aqui pra saber – ela disse. E me empurrou levemente, voltando-se para se despedir de todos.

Logo depois dona Neide abriu os olhos e, distinta como sempre, sorriu a todos e pediu que uníssemos as mãos numa oração pelos mais necessitados e por todos os pedidos bem-intencionados que foram feitos. Eu a observei com atenção e não percebi nenhum sinal de embriaguez. Ela havia bebido muito naquela hora e meia e sequer apresentava hálito de bebida. Isso me impressionou, é verdade, mas não tanto quanto a transformação de dona Neide: em seu semblante, em sua voz e em seus gestos já não havia mais o mínimo traço da jovem Mariana. A cabocla do cabelo cor de telha, se alguma vez estivera ao meu lado, já não se encontrava mais ali.

Joca depois me falou sobre o episódio do noivado frustrado com Mariana. Confessou que na época teve muita vergonha mas que agora já havia superado. E, inclusive, agradecia todos os dias por Mariana não tê-lo querido.

Eu queria saber sobre Mariana, estava inteiramente curioso.

- Ela se engraçou mesmo de ti.

- Ela disse que já me conhecia.

- É capaz. Mas não vai cair na besteira de noivar com ela, Dedé.

- Isso parece papo de noivo desprezado…

- Eu sei que parece, eu sei. Mas me diga uma coisa: adianta ter muito dinheiro e nunca encontrar alguém pra dar o coração, homem? Adianta?

- Eu vou pra bem longe. Ela não me encontra.

- Olha o que ela disse… Tu tem de ter mais respeito.

- Respeito eu tenho. Só não consigo é acreditar.

Joca riu. Bateu em meu ombro e falou, enquanto entrávamos em casa:

- Já vi muita gente chegar aqui em Manaus do jeito que tu chegou e voltar diferente, já vi.

E riu gostosamente.

Eu não me importava de voltar diferente, desde que estivesse melhor de vida. As opiniões de Joca não me demoveriam de meus propósitos. Noivaria com Mariana, juntaria um dinheirinho e me mandaria dali. Já fazia planos até de como investir o dinheiro. Uma soparia no Recife Antigo. Ou talvez uma fábrica de gelo em Olinda.

- Não vou poder ir contigo na quarta-feira – ele avisou. – Tu vai sozinho fazer essa besteira.

Naquelas dias sonhei várias vezes com Mariana – e a sensação agradável do sonho me acompanhava o resto do dia. Várias vezes senti seu cheiro. Na rua, no ônibus: de repente sentia o cheiro gostoso de mato fresco e então sua presença tomava conta do ambiente – e algo em mim tornava-se mais calmo, mais compreensivo, mais doce.

Não tive jeito de conversar sobre isso com ninguém, nem mesmo com Joca. Com Mirley, nem pensar. O que lhe diria, que estava embevecidamente enamorado de uma entidade de 17 anos? Que pensava nela toda hora e tomava sustos quando via algum cabelo cor de telha passar na rua? Que me pegava desenhando seu nome em papel de guardanapo? Como dizer que noivaria com uma entidade de umbanda por causa de nosso futuro? Não, melhor não dizer. Seria um segredo meu e de Mariana.

(…)

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> Este conto integra o livro Guia Prático de Sobrevivência para o Final dos Tempos
> Este conto integra o livro Vocês Terráqueas – Seduções e perdições do Feminino

> Leia este conto na íntegra na versão blog do livro Vocês Terráqueas


Pequeno incidente em Hukat (trecho)

Novembro 15, 2008

PEQUENO INCIDENTE EM HUKAT

Integrante do Projeto Terra de Monitoramento Planetário descobre irregularidades comprometendo a evolução da espécie humana e se envolve em rebelião contra Deus, o supercomputador.

Suspense, ficção científica.

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(Este conto integra o livro Guia Prático de Sobrevivência para o Final dos Tempos)

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Trecho do conto

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ENTREI NA SALA do Alto Comando e fui recebido por dois subdiretores. E pela própria Wakl Egkonie, conhecida também por Dama de Ferro de Vehz pela dureza e disciplina com que sempre marca seus projetos de monitoramento planetário.

- Boa tarde, monitor Yehdu – começou a Dama de Ferro, seus olhos amarelos de vehzy fixos nos meus. – Primeiramente parabéns por seu trabalho no Departamento de RPs.

– Obrigado, senhora.

Nesses milhões de anos poucas oportunidades eu tive de ver pessoalmente a Diretora do Projeto Terra, o projeto de monitoramento planetário a cargo da InterLactea. E a cada vez ela sempre parecia mais durona.

– Como não dispomos de muito tempo, vamos direto ao assunto. Deus está com um problema e achamos que o senhor é a pessoa mais indicada para nos ajudar a resolvê-lo.

Deus, o Supercomputador do Projeto Terra, foi projetado e construído em Vehz, o planeta de onde viemos, para trabalhar com uma margem de falha operacional de apenas 0,045%, um número excelente para os Supercomputadores de monitoramento.

Foi Deus quem criou a vida no planeta Terra. Há bilhões de anos Ele mantém o tênue equilíbrio da composição atmosférica, equilíbrio exato, nem mais nem menos – condição essencial para a vida. Desde o início é Ele quem também controla o sistema de reencarnação, monitorando as consciências desde seu surgimento no início da cadeia evolutiva, como um ser unicelular, passando pelo seu aprimoramento pelos reinos mineral, vegetal e animal, até seu ingresso na espécie humana, o final da cadeia. Deus foi programado pela InterLactea para deter o controle de 99,955% de todo esse gigantesco processo, número jamais alcançado antes.

Os 0,045% restantes, porém, significavam exatamente aquilo que Deus jamais poderia prever na evolução dos seres vivos. É o imponderável com que todo Supercomputador de monitoramento tem de lidar.

No entanto Deus superou-Se. Em pleno andamento do projeto Terra, conseguiu, por si só, zerar a Sua própria margem de falha operacional. Um feito fantástico. Jamais um Supercomputador conseguira tal façanha. Aliás, nem se acreditava que Eles podiam auto-reprogramar-Se. Deus foi o primeiro. Era o primeiro Supercomputador perfeito. E era da InterLactea.

- Como o senhor sabe, monitor Yehdu, Deus tem enfrentado cada vez mais dificuldades com o crescimento de algumas RPs.

As realidades paralelas, sempre elas. Fazem parte do cinturão energético da Terra mas, como estão além da terceira dimensão, Deus não consegue monitorá-las como faz com a Terra.

- Temos fortes motivos para acreditar que o Projeto Terra esteja a ponto de sofrer uma grande sabotagem por parte de uma dessas RPs. E sabemos que Rehf Icul está por trás disso.

Rehf Icul… Não pude disfarçar a surpresa ao ouvir aquele nome. Rehf Icul era o fugitivo mais famoso do Projeto. Até aquele momento o Departamento de RPs ainda não conseguira localizá-lo. E sua fuga da base do Projeto Terra, doze séculos atrás, criara uma situação bastante constrangedora para o Alto Comando.

- De alguma forma Rehf conseguiu se esconder de todos os rastreamentos feitos em sua busca. Não sabemos como consegue. Mas isso tem lhe dado camuflagem para agir e continuar comandando os rebeldes. Descobrimos a área onde se encontra mas ainda assim Deus não consegue localizar a RP exata. Sabemos que o senhor foi seu melhor amigo desde a implantação do Projeto e doze séculos não apagam um vínculo energético como esse. Portanto sabemos que o senhor pode nos ajudar a localizá-lo.

Então era isso. Pretendiam usar meus registros para localizar o maior traidor do Projeto.

– Sabemos perfeitamente dos riscos que envolve esse tipo de rastreamento de registros, monitor Yehdu. Justamente por isso estamos dispostos a recompensá-lo de modo bastante satisfatório. Se o senhor nos levar até o vehzy traidor, em troca nós lhe concedemos a imediata graduação em monitoramento planetário. E quando retornar, terá também a chefia da Divisão Humana do projeto. O que nos diz?

Fui pego de surpresa. Quando se vai como voluntário a um projeto de monitoramento planetário, como foi o meu caso, pode-se sonhar com o cargo de monitor, que era o que eu possuía no Departamento de RPs, e depois com o de monitor graduado. O máximo que se pode alcançar é a chefia de setor pois a chefia dos departamentos e das divisões é exclusiva do Alto Comando. O que a Diretora Wakl Egkonie me propunha era algo inédito na história da Companhia InterLactea, famosa por sua disciplina e resistência a mudanças. A chefia da Divisão Humana…

Mas eu compreendia. O Conselho Galático começava a cogitar a hipótese de intervir no Projeto por conta do caso Rehf Icul e isso significaria uma multa pesadíssima para a Companhia.

Eu sabia o que poderia acontecer a Rehf se o capturassem. Seria levado a julgamento e não escaparia da pena máxima: apagariam totalmente seus registros e o fariam retornar ao início da cadeia evolutiva do planeta. Em outras palavras: anulariam todas as suas experiências vividas para que sua alma tivesse de percorrer de novo todo o caminho em direção à espécie humana, tendo que passar novamente por todos os estágios mineral, vegetal e animal. Um retrocesso de bilhões de anos, sem chances de recuperação dos registros anteriores. Um castigo cruel que as companhias têm autonomia para utilizar, desde que um membro do Conselho Galático participe do julgamento.

Conheci Rehf Icul ainda em Vehz, nosso planeta natal, antes de embarcarmos para a Terra. Logo ficamos amigos. Ele chegou a chefiar o Departamento de RPs mas começou a discordar de algumas decisões de Deus e isso lhe valeu algumas punições. Um dia ele me disse, confidencialmente, que Deus estava errando bastante e que do jeito que as coisas iam, em pouco tempo a humanidade terminaria exterminando a si própria, o que seria péssimo também para a Companhia. Eu não compartilhava de sua opinião, claro, mas jamais imaginei que ele pudesse se transformar num traidor. Logo depois ele sumiu da base e não mais voltou.

Apesar de nós vehzys não sermos tão sentimentais como os humanos, há o risco de nos apegarmos a eles, o que pode prejudicar bastante o trabalho. Acho que foi o que ocorreu com Rehf, infelizmente. E para ele era urgente tomar o controle e redefinir a atuação de Deus no Projeto Terra. Uma blasfêmia.

Bem, é verdade que nos últimos tempos a raça humana tem nos dado bons sustos. Fanatismos religiosos, guerras nucleares e desequilíbrio ecológico fizeram várias vezes o alarme vermelho soar na base do Projeto. Mas Deus sempre nos tranquilizou, mostrando que tudo estava sob controle.

- Então, o que nos diz?

- Preciso de tempo, senhora.

A princípio não é nada simpática a idéia de ter seus registros inteiramente rastreados, mesmo por uma causa como aquela. Toda a minha vida vivida até aquele momento estaria em arquivos à disposição dos diretores do Projeto.

- Decida até amanhã.

Wakl Egkonie fez sinal e dois guardas se aproximaram.

– A partir de agora eles cuidarão de sua segurança, monitor Yehdu. Pense bem no que oferecemos. E lembre-se: este é um assunto de segurança máxima. Requer sigilo absoluto.

Saí da sala e me dirigi ao meu aposento, acompanhado de dois guardas. Quando entrei, eles se posicionaram um de cada lado da porta. Senti-me quase prisioneiro.

O Alto Comando não é ingênuo. Poderia ter me chamado há séculos. Não o fizera certamente para resguardar as informações e por achar que Deus logo conseguiria localizar a RP onde Rehf se encontrava e, assim, finalmente capturá-lo. Mas isso nunca aconteceu. Certamente consideraram bastante a idéia de chamar um simples monitor a participar de tão sério assunto. Definitivamente a situação era de urgência.

Estranho pensar que seria eu quem entregaria Rehf. Eu ainda gostava dele. Mas realmente não havia alternativa. Além do que a proposta era vantajosa demais para ser desprezada em nome de uma amizade.

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ANTES DE DAR MINHA RESPOSTA, passei em revista tudo o que sabia sobre as RPs.

Missões de captura. São sempre perigosas. Temos de utilizar todo o conhecimento de que dispomos e contar com a sorte pois se Deus zerou Sua margem de erro em relação ao planeta, o mesmo não aconteceu com as realidades paralelas: elas continuam fora de Seu controle absoluto.

Realidades paralelas. Qualquer projeto de monitoramento tem invariavelmente de lidar com as RPs. Elas se formam naturalmente junto ao nascimento do planeta e são imprescindíveis ao equilíbrio do sistema planetário. Ocupam uma dimensão além da terceira e nelas a vida se desenvolve paralelamente ao planeta, com algumas diferenças. A cadeia evolutiva, por exemplo, se encerra igualmente no ser humano mas algumas possuem outras formas de vida não existentes no planeta. Seu tamanho varia: algumas não passam de um povoado mas outras são como um pequeno país. Possuem seus habitantes, suas leis, sua cultura. Algumas pouco mudaram nos últimos milhões de anos mas outras possuem tecnologia mais desenvolvida que a da própria Terra.

Autonomia das RPs. Deus não tem controle sobre as RPs como tem com a Terra. Muitas adquirem certa autonomia. A maioria de seus habitantes, por exemplo, mesmo sendo humanos, mantêm-se fora dos programas de reencarnação do Projeto. Isso quer dizer que Deus jamais saberá sobre seus estágios evolutivos, o que estão fazendo e onde estão nascendo e morrendo. Alguns desenvolvem capacidades psíquicas extraordinárias e conseguem, inclusive, retardar o próprio envelhecimento, chegando a viver centenas de anos.

Perigos. Uma RP só representa perigo a um projeto de monitoramento quando desenvolve alta tecnologia. Assim, ela pode escapar dos rastreamentos e fugir do controle de Deus. Pode também “engolir” outras, atraindo-as para seu campo energético e crescer cada vez mais. Isso pode desestabilizar o sistema planetário. Trata-se, evidente, de uma preocupação permanente de qualquer Projeto.

Congelamento de RPs. Deus não pode simplesmente apagar uma realidade paralela do mapa. O máximo que pode é “congelá-la”, como já fez com algumas pequenas RPs. Isso quer dizer paralisar momentaneamente toda a vida existente. Trata-se de um expediente extremo utilizado pelos Altos Comandos em missões de captura. Congelando uma RP, Deus pode efetuar capturas e destruir cidades. No entanto isso representa um risco enorme ao equilíbrio do cinturão energético. Quanto maior a RP, maior o risco.

Nativismo. Há realidades para todos os gostos. A maioria não causa problemas mas não raro seus habitantes terminam por desenvolver um sentimento nativista que os faz mais fortes em sua resistência aos planos de Deus para com o sistema. Mais dia menos dia se revoltam contra a interferência divina em seus assuntos. Eu, particularmente, sempre condenei os métodos violentos de que se utilizam. Mas não se pode deixar de admitir que são muito valentes e obstinados. Para a maioria deles, Deus é cruel, intolerante e só enxerga os próprios interesses da Companhia.

Claro que Deus não é cruel. Se fosse não teria tanta paciência com a raça humana. Há poucos exemplos, nos registros de monitoramento planetário, de raças com tamanho potencial para o auto-extermínio como a humana. Isso nos traz ainda mais trabalho, é claro. Mas Deus tem feito um monitoramento excelente.

Repassei mentalmente as informações até sentir o sono chegar. Então levantei-me e fui ao banheiro. No espelho, meus olhos amarelos olhavam para mim, inquiridores. Eu ainda nutria um certo respeito por Rehf, era forçoso admitir. Mas ele era um traidor da causa divina, eu não podia esquecer disso.

Respondi ao meu próprio olhar com um gesto firme. Deus podia contar comigo, como sempre. Eu aceitava a missão.

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CONECTARAM-ME DIRETAMENTE a Deus e fizeram o rastreamento, usando todos os meus registros de encontros com  Rehf. Após dois dias de tentativas, localizaram Rehf numa pequena RP até então desconhecida. Essas coisas cansam. E eu terminei exausto. Mas não havia tempo para descansos. O Alto Comando tinha muita pressa.

Deus abriria um portal para que eu entrasse na RP. Eu teria 48 horas para me encontrar com Rehf. Era o tempo máximo. Após encontrá-lo, tudo que tinha a fazer era manter-me próximo dele o tempo suficiente para que Deus pudesse transportar uma força de ocupação através de um segundo portal. Mesmo que tivesse um poderoso exército, Rehf não seria páreo para Deus.

Congelar a RP traria Rehf de volta mais facilmente, claro. Mas congelar uma RP é sempre traumático para o sistema, um preço alto demais. Por isso o Alto Comando optara por me chamar. Eu sabia que o êxito de minha missão era fundamental para os planos divinos.

Há uma maneira prática de se locomover entre realidades do cinturão da Terra: utilizando-se dos portais. Toda realidade está cheia de portais, espécies de túneis de transporte instantâneo. Pelo rastreamento, o Departamento de RPs os detecta e assim os utiliza para invasões. Mas alguns habitantes de RPs, os mais perigosos, também sabem localizá-los e os utilizam para conhecer outras realidades e para fugir das buscas do Alto Comando. No entanto, não é fácil reconhecer um portal. E é impossível saber onde ele vai dar se alguém ainda não o utilizou.

Pouco antes de partir recebi as honras da graduação diretamente de Wakl Egkonie. Eu era agora, portanto, um monitor graduado em missão de captura. A chefia da Divisão eu receberia ao retornar, prometeu-me a Diretora do Projeto. Em toda a história do Projeto Terra jamais houvera tamanho empenho divino numa missão de captura.

Então vesti a roupa para a missão e pus as lentes de contato, que os monitores em missão secreta sempre usavam para disfarçar sua origem vehzy. E entrei na cápsula de teletransporte.

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CRUZAR PORTAIS nunca é uma experiência prazerosa. Há sempre o risco de perda de registros, incluindo a memória e outras capacidades psíquicas. Em outras missões em RPs eu sofrera um bocado. Mas dessa vez Deus tinha Sua atenção voltada para mim. Isso me deixava mais tranquilo. E muito honrado.

Os dois dias nas sessões de rastreamento haviam me enfraquecido. Ainda bem que cruzar o portal não demorou mais que alguns segundos. No entanto, do outro lado me esperava um deserto. E, como estávamos atuando numa RP, havia o risco de falha operacional. E este aumentava na medida em que Deus não tinha registros sobre a RP. Resultado: caí no meio de uma tempestade de areia. Tão forte que escurecia o céu. Perigo.

Tarefa primeira: recuperar-se da vertigem que vem após essas entradas em RP. Mas com aquela tempestade, como descansar? Olhei o relógio e vi que o tempo daquela realidade não diferia do da base, eram 7h45 do primeiro dia da missão. Eu tinha 48 horas para localizar e me aproximar de Rehf Icul.

Ventos de quase cem quilômetros. Umidade mínima. Lugar difícil de se viver. Coisa de rebeldes mesmo.

Com muito esforço pus-me de pé. Saí caminhando sem enxergar. Tentava proteger os olhos, o nariz e os ouvidos mas era areia demais. Situação de emergência. Nesse instante pensei que morreria e que a missão fracassaria ali mesmo. Com a respiração cada vez mais difícil, pedi que me tirassem daquele lugar, que abrissem novamente o portal… Mas eu sabia que, com a tempestade, Deus certamente já havia perdido minha posição.

Exausto, caí e rapidamente a areia começou a me cobrir. Foi quando vi o dorht à minha frente, essa espécie de ema peluda e alada muito utilizada para transporte aéreo em algumas RPs. Vi quando o dorht dobrou suas grandes pernas, abaixou-se e dele saltou alguém.

- O que está fazendo aqui? Não escutou os alertas sobre a tempestade?

Voz feminina. Eu estava tão fraco que nada respondi, apenas aceitei a ajuda para montar o dorht e, com as forças que me restavam, me segurei à sela. O animal esticou as pernas, correu alguns passos e levantou vôo, enquanto eu fechava os olhos para protegê-los da areia.

Alguns minutos depois chegamos a um oásis e fui posto numa tenda. Estava quase sem forças e devo ter adormecido rapidamente. Acordei três horas depois.

- Bom dia. Quer tomar um café, senhor?

Uma mulher. Acocorada ao lado da cama onde eu estava deitado. Uniforme de couro marrom, botas até os joelhos, colete com ombreiras e luvas até os cotovelos. Cabelo ruivo bem curto, cortado rente. E o famoso óculos de combate esverdeado. Tecnologia rebelde.

- Onde estou? – perguntei enquanto tentava ver se ela estava armada.

- Num Posto Avançado do deserto de Hukat. Sou a oficial Kirtl.

Deserto de Hukat, posto avançado. Aos poucos fui recobrando os registros. Recobrei o vôo no dohrt. E também o portal. E a missão. Registros intactos.

(…)

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(Este conto integra o livro Guia Prático de Sobrevivência para o Final dos Tempos)


O cilindro da luz azul (trecho)

Novembro 15, 2008

O CILINDRO DA LUZ AZUL

Em sua luta para sobreviver no cenário apocalíptico de um mundo de repressão e violência, casal descobre estranhos cilindros que podem fazê-los alcançar uma nova dimensão da realidade.

Suspense, mistério.

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(Este conto integra o livro Guia Prático de Sobrevivência para o Final dos Tempos)


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Trecho do conto

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LILA CHEGOU À ESQUINA pouco antes das 22 horas. Naquele trecho havia muito lixo acumulado e as lâmpadas dos postes estavam quase todas quebradas. Olhou ao redor e certificou-se de que estava só, já haviam todos se recolhido aos seus pequenos apartamentos. A penumbra e a solidão da rua protegiam os movimentos. E também, assim ela esperava, suas perigosas intenções.

Dali podia-se escutar bem próximo os tiros e as bombas, a fronteira do bairro sendo disputada pelas gangues. Uma placa próxima anunciava a última palavra em segurança pessoal: um lança-chamas que, instalado em seu automóvel, o protegerá de assaltos. Lila conferiu mais uma vez as horas e esperou agachada junto às sombras do canto do muro.

“Ele tem que aparecer, não pode falhar…”

Quando soaram os sinos da igreja, ela olhou de novo o relógio. Agora ela era uma desobediente do toque de recolher. Toque de recolher não, “horário de descanso”, como as autoridades preferiam. Pois bem, ela pensou, respirando fundo, agora era tudo ou nada.

Um desobediente do horário podia ser preso e corria sempre o risco de ser enquadrado como destoante. E um destoante não escapava para contar a história. Esse era o fim que a esperava caso desse qualquer coisa errada.

Naquele momento Matias estava deitado no sofá do apartamento esperando por ela e dependia do sucesso de toda a operação para não morrer. Estava muito doente. Resistira o quanto pôde mas agora já lhe faltavam as forças. Lila dizia que era apenas uma indisposição passageira mas ele sabia que ela tentava apenas não assustá-lo, ambos sabiam que ele havia contraído a doença típica dos resistentes, mais cedo ou mais tarde todos eles apresentavam os mesmos sinais de tristeza, pessimismo e desânimo. Uma fraqueza geral os impedia até de comer e assim definhavam até morrer. Procurar hospitais significava entregar-se porque o Controle já conhecia a doença. A única saída continuava sendo fugir da cidade.

Não resistir, no entanto, era a preferência da grande maioria. Numa época em que a população estava quase inteiramente dominada pelos seus piores instintos, era sempre mais fácil e mais cômodo ir junto. Miséria, violência, epidemias, experimentos atômicos, poluição ambiental, ódios raciais e terrorismo religioso – o mundo sucumbira às suas próprias sombras e eram bem poucos os que conseguiam manter-se equilibrados no meio de toda a realidade confusa e opressiva.

Lila e Matias sabiam de amigos que conseguiram fugir para uma cidade próxima e de lá alcançaram a saída. No início ainda conseguiram receber algumas mensagens que foram lidas com alegria e esperança. No entanto isso fora alguns anos antes, quando a perseguição aos destoantes ainda não havia chegado aquele ponto e o controle nas estradas não era tão forte. Agora escapar estava mais difícil.

- Lila, você entende que o que vai fazer é muito arriscado, não é? – dissera Matias antes dela sair à rua aquela noite. – Pode ser o fim.

- Eu sei, meu amor. Mas a única coisa em que ainda podemos acreditar são aqueles sonhos.

- Não sei, sinceramente não sei mais… – respondera ele baixando a cabeça. A doença turvava-lhe o raciocínio e a esperança.

- É a única saída que temos, Matias. Nós já falamos sobre isso. Se eu não voltar em duas horas, deverei estar numa delegacia. Ou talvez já terão me dado fim. De qualquer modo não o entregarei, isso eu prometo.

- Ninguém resiste aos métodos deles, Lila.

-  E temos outra opção? – ela falou sem esperar resposta e saiu, fechando a porta devagar, para que os vizinhos não ouvissem.
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UM DIA OS CILINDROS CHEGARAM. Dezenas de cilindros começaram a ser trazidos pelas ondas do mar sem que ninguém soubesse de onde vinham. Amanheciam na areia das praias. Eram pequenos cilindros de vidro transparente, do tamanho de uma garrafa de refrigerante, com uma base redonda de plástico, e pareciam conter apenas ar. Mas havia uma estranha luminosidade azulada em seu interior, um belo e vago azul anil que chamava a atenção.

A imprensa logo noticiou o fato, fazendo com que muitos curiosos corressem às praias. Logo a seguir o Controle entrou em ação e seus soldados vigiaram as praias, evitando que outros cilindros chegassem à população. Além disso conseguiram recuperar muitos dos que haviam sido recolhidos. Mas não todos.

Algum tempo depois começaram os boatos. Eles diziam que destoantes conseguiam fugir da cidade utilizando o cilindro. Mas ninguém conseguia explicar como faziam isso, se é que realmente faziam. É verdade que muitos se apoderaram dos cilindros antes que o Controle interviesse na situação. E contavam-se casos de pessoas que desapareceram misteriosamente depois de entrar em contato com eles. Mas pessoas desapareciam todos os dias, nada havia de incomum nisso. Destoantes nunca voltavam.

Os boatos diziam que muitos destacaram a parte inferior dos objetos desejosos de saber o podia acontecer. A luz azul simplesmente se apagava e nada acontecia. E quem desapareceu nunca voltou para esclarecer o mistério dos cilindros.

Mas o Controle acreditava que devia haver um segredo sim. Ele negava os boatos mas seu interesse pelo caso logo se mostrou demasiado. Fiscalizou barcos e navios, entrevistou centenas de pessoas, tudo com absoluto rigor. Virou-se por todos os lados. Mas o segredo do cilindro continuava. Então recolheu todos os que conseguiu apreender, era o que podia fazer.

Quando souberam o que estava chegando à praia, Lila e Matias lembraram imediatamente dos sonhos. Anos antes, durante semanas seguidas, sonharam, os dois, com uma misteriosa luz pairando sobre o mar. Comentaram entre si o sonho e falaram sobre a forte aura de esperança que o envolvia. O que podia significar? Decidiram ficar bem atentos.

Lila ainda tentou se apoderar de algum dos cilindros mas o Controle já enviara soldados às praias. Ela então agiu rápido. Em poucas semanas fez os contatos necessários, sempre com muita discrição. Precisava chegar às pessoas certas, caso contrário seria como esbarrar numa mina explosiva. Depois de todos os contatos realizados, passaram a aguardar. Tinham apenas que suportar até que chegasse a encomenda. Mas as semanas passavam devagar e o mundo ao redor parecia ele todo uma imensa correnteza sedutora, sussurrando que desistissem, é bem melhor desistir…

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ENTÃO ELA O AVISTOU. Ele vinha pela calçada, protegido pelas sombras, caminhando rápido. Lila sentiu a expectativa quase explodindo seu coração. Olhou mais uma vez para um lado, para outro, as janelas dos apartamentos. A rua estava deserta e tudo que podia fazer era torcer para que não a vissem.

- Demorei por causa dos Cães. Eles já conseguiram controlar quase todas as entradas do bairro. Realmente, sem o mapa eu não teria conseguido passar.

Ele retirou do sobretudo um embrulho e, com cuidado, passou a ela.

- Aqui está, moça. Não me interessa o que pretende. Mas vou lhe avisando que nunca vi ninguém me dizer a utilidade disso. Este mês você é a terceira pessoa que me pede esse troço.

- E as outras duas?

- Não sei. Ninguém sabe. Olhe, eu não tenho nada a ver com o pedido dos meus clientes mas sempre aviso que tomem cuidado. Não adianta nada: os que me pedem esse troço sempre somem.

Ela entregou-lhe o dinheiro. Ele conferiu, enfiou no bolso da calça e no minuto seguinte sumia na outra esquina.

Lila sentia o coração enlouquecido. Por um instante não teve forças para sair do lugar. Não parecia real: depois de tanta espera, ali estava o cilindro. Era como se aqueles sonhos houvessem de repente se materializado em suas mãos. Teve vontade de chorar. Chorar por todo aquele tempo de espera, por todos os perigos que passaram e principalmente chorar por terem acreditado desde o início na mensagem de esperança dos sonhos. Então respirou fundo e deu o primeiro passo de volta para casa. A expectativa toda a deixara fraca.

As quadras seguintes pareceram intermináveis. Ela percebeu que algumas pessoas a viam das janelas dos prédios. Sabia que bastava uma delas discar um número para que cinco minutos depois uma viatura a recolhesse como desobediente. E tudo estaria perdido.

Sabia também que havia pessoas de todos os tipos e que nem todas concordavam com o sistema de denúncias. Mas essas pessoas não se pronunciavam para não arriscar ganharem o estigma de desobedientes, um estágio anterior a destoante. Portanto estavam sós naquela luta, ela e Matias, inapelavelmente sós. E todos os que porventura estivessem, como eles, mantendo ainda um mínimo de lucidez naquele inferno.

- Deu tudo certo? – perguntou Matias, erguendo-se do sofá e calculando os movimentos da companheira pela sala. – Você demorou…

- Ele se atrasou. Mas aqui está o cilindro

Lilá foi até a mesa e pôs lá o embrulho.

- Você está bem?

- Só um pouquinho nervosa… Mas já está passando.

- Certificou-se de que não foi seguida?

- Não fui, fique tranquilo.

Ela sentou-se ao lado dele no sofá e o abraçou. Matias estava sem forças. Uma dieta à base de comidas mais saudáveis o ajudava a preservar o restante de lucidez mas estava difícil encontrar bons alimentos no bairro.

- Meu amor… – ele disse e seus olhos esbranquiçados estavam úmidos. – Esse tempo todo você cuidando de mim e de você, sozinha… Arriscou-se tantas vezes…

- Ah, Matias, isso não é hora! – ela o interrompeu, acariciando-lhe o rosto magro e abatido.

Enquanto abraçava o companheiro, Lila lembrou do dia em que ele cansara, simplesmente cansara… Naquele dia de nada adiantaram seus apelos: Matias não resistiu e se rendeu. Simplesmente cansou de nadar contra a corrente, já não tinha forças. Discutiram e ele terminou indo embora. Deixou um bilhete em que lamentava não ter sido tão forte quanto ela e a incentivava a seguir, sem ele por perto a atrapalhar seus passos, ela era uma mulher forte, conseguiria sobreviver.

Dois anos depois ela conseguiu finalmente encontrá-lo num hospital psiquiátrico. Matias estava cego e em estado deplorável. Não duraria muito tempo naquele lugar. Então, gastando o resto de suas economias, ela subornou a vigilância e conseguiu retirá-lo de lá.

Por um ano inteiro cuidou dele até que tivesse condições de arrumar um trabalho. Mas aqueles dois anos lhe acarretaram sequelas e o máximo que conseguiu foram subempregos clandestinos que lhe desgastaram ainda mais a saúde.

Agora, quase quinze anos após tê-lo reencontrado, ele continuava cego e cada vez mais debilitado. A cegueira já não o incomodava tanto pois desenvolvera os outros sentidos e adquirira uma precisa noção do espaço, guiando-se através do som, do cheiro e da movimentação do ar. Mas o desânimo crônico voltara. Morrer era apenas uma questão de tempo. A não ser que Lila conseguisse um dos cilindros. Mas o que exatamente podiam os cilindros fazer por ele?

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(Este conto integra o livro Guia Prático de Sobrevivência para o Final dos Tempos)


Crimes de paixão (trecho)

Novembro 15, 2008

CRIMES DE PAIXÃO

Detetive investiga estranhos crimes envolvendo personagens típicos da boêmia Praia de Iracema e descobre que alguém pretende matar a noite.

Terror, mistério, erotismo.

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(Este conto integra o livro Guia Prático de Sobrevivência para o Final dos Tempos)

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Trecho do conto

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TODOS OS FREQUENTADORES do Quais Bar pararam surpresos quando chegaram no sábado e descobriram que o Olimar não aparecera para trabalhar. Afinal de contas, além de se tratar do garçom mais folclórico do boemíssimo bairro da Praia de Iracema, ele era conhecido por Penalidade, alcunha que lhe botaram os clientes por ter faltado ao trabalho uma única vez em vinte anos de profissão – justamente por ter, no dia, defendido de forma magistral uma penalidade máxima na final da Liga de Futebol do Quintino Cunha. A comemoração foi tamanha que à noite não teve condições de trabalhar. Olimar, o Penalidade.

E agora o homem faltava pela segunda vez. Era um acontecimento quase tão histórico quanto o da primeira. Gente se gabava de ter estado no bar na noite em que o Penalidade faltara. Roger Gaciano Jr., o renomado jornalista e frequentador da praia, procurando alguém para ilustrar sua matéria sobre a boemia do bairro, entrevistou quem? O garçom Penalidade, claro. E a entrevista até hoje está lá na parede do bar, plastificada para todo mundo ler.

- O Olimar não veio trabalhar?! Será que defendeu outro pênalti?

- Proponho realizarmos uma assembléia pra mudar seu nome pra Dupla Penalidade…

Especulações correram soltas por toda a noite. Apostas foram abertas, um mês de birita grátis para quem acertasse o motivo da segunda falta do Olimar. Tão carismático o homem que até mesmo sua ausência era uma festa.

Porém no domingo à noitinha, quando a mulher do Olimar chegou ao bar perguntando pelo marido, começou-se a desconfiar de algo mais sério. Dona Cândida, aflita, menino novo no braço, dizia que ele saíra sábado à tarde e desde então não teve mais notícia. Carlitos, dono do Quais Bar, sensibilizado com a aflição da mulher, propôs organizarem uma comissão para ir atrás de notícia do seu melhor garçom. Dona Cândida não se preocupasse, fosse para casa, ele mandaria um táxi deixá-la e logo estaria tudo bem, o Olimar ia aparecer.

O mistério continuou até segunda pela manhã quando o corpo do garçom Penalidade deu à praia da Barra, já em decomposição. O laudo apontaria afogamento. Era público que ele não sabia nadar, portanto jamais se arriscaria no mar. Então como podia ter se afogado? E o mais esquisito é que estava de roupa – teria caído do píer? Dinheiro e documentos no bolso. No corpo marca nenhuma de violência. O que poderia ter acontecido?

Penalidade foi enterrado no final da tarde. Consternação geral. Quase todos os seus clientes se fizeram presentes, inclusive os ocasionais e até mesmo os que lhe deviam e ultimamente evitavam aparecer. A viúva recebeu ofertas de auxílio e pôde constatar como era querido o finado. Um turbilhão de flores acompanhou a descida do caixão. Alguém puxou um violão e cantaram Beira-Mar, de Ednardo, música favorita do Olimar.

No meio do chororô ninguém escutou o Jeová, vulgo Profeta, de dentro de sua casacona preta que havia muito não via água, dizer com seu jeito grave e o olhar fixo no caixão que descia:

- Lá se vai o segundo mártir.

Ou se alguém escutou, fez que não ouviu. Já não era fácil aguentar o Profeta nos bares com seus discursos sobre profecias apocalípticas, imagine em enterro.

- Mas o fim não se fez. Ainda restam três…

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DURANTE MUITO TEMPO os bares da boêmia Praia de Iracema não tiveram como disfarçar o sentimento de luto pela morte de seu garçom mais querido. Apesar de muitos evitarem tocar no assunto, por muitas luas não se falou de outra coisa naquelas mesas. Os mais inconformados fizeram abstinência de uma semana in memoriam. Outros indagavam sobre a viúva e os meninos, como ficaram, se estavam passando dificuldades.

Mas ninguém, ninguém se deteve a relacionar a morte do garçom Penalidade com outra ocorrida três meses antes no Le Bombom, um motelzinho humilde frequentado pelas putinhas e travecas de fim de noite. A vítima fora seo Neném, dono do estabelecimento, gentil e pacato senhor de idade. Foi encontrado morto num dos quartos, estirado na cama. Estava nu e com a boca entupida com papel de bombons finos, coisa mais desumana.

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O DETETIVE ELÁDIO VIEIRA, como gosta de ser chamado (porém inapelavelmente conhecido no submundo do crime por Eládio Ratoeira), 38 de idade e 40 de baralho, que sempre se gabou de ser um detetive moderno e de nível, acordou naquela manhã numa ressaca federal. Não dormira mais que duas horas. Tomou um banho rápido e se mandou para a favela Verdes Mares. Antes deu uma passadinha no bar para tomar uma água de coco gelada, ver se melhorava da maldita. Dessa vez exageraram: o pôquer terminara às seis da manhã. E ainda pagou o equivalente a um mês de trabalho ao filho-duma-égua sortudo do Mardônio.

Eládio Ratoeira (ele que nos desculpe mas certos apelidos já fazem parte da pessoa) nunca trabalhava nas manhãs de quarta-feira. Naqueles anos todos nenhum caso foi tão importante que justificasse sua falta ao velho pôquer das terças, nem ao sagrado sono da manhã seguinte. Porém, ele conhecia dona Iza, a cigarreira, era seu cliente fazia tempo. E não teve como não se sentir abalado quando soube pelo telefone de sua morte naquela madrugada.

Reconstituição: dona Iza chega em casa, um pequeno barraco de madeira, aproximadamente às quatro da manhã. Vem da Praia de Iracema, onde trabalha como vendedora ambulante de balas e cigarros. Meia hora depois o marido sai para a fábrica, deixando mulher e filho no barraco. As primeiras chamas são avistadas logo depois por três homens que jogam sinuca num bar distante cinquenta metros. Socorrem o menino que dormia e retiram o corpo de dona Iza, já carbonizado, que jaz no chão da cozinha.

O detetive Eládio Ratoeira enxugou o suor da testa e prosseguiu em suas perguntas a vizinhos, parentes e amigos da vítima. O Sol ia alto no céu e o calor era infernal.

Ninguém da favela viu nada suspeito, nenhum fato estranho. Apesar de tudo indicar acidente, Ratoeira coçava a nuca sem entender por qual motivo a vítima não conseguira sair do pequeno barraco a tempo.

Na sexta-feira foi à Praia de Iracema. Escutou garçons e vendedores ambulantes – todos unânimes em afirmar que se tratava de pessoa querida, simpática e generosa, não cultivava inimizade. Às dez e meia fechou o caderninho e encerrou as atividades. Mas antes de ir para casa deu uma passadinha no Quais Bar, o bar do finado garçom Penalidade, só para tomar uma cervejinha. Reconstituiu as conversas da noite, uma a uma. A mulher não devia a ninguém, não era de confusão, parecia ser fiel ao marido. Nem crime passional, nem latrocínio e nem vingança. Restava acidente. Acidentes acontecem todos os dias.

Ratoeira coçou a nuca com a ponta do polegar. Alguma coisa lhe dizia que tinha cachorro naquele mato. E sua intuição nunca lhe pregava peças. Por isso lhe botaram o Ratoeira no nome. Por mais que se esforçasse não conseguira tirar o apelido. Apelido ridículo, dizia ele. Ratoeira, explicava, é para investigador de polícia, corrupto e camisa manchada de suor. Ele não. Ele tinha nível. Trabalhava de detetive porque sempre gostara de investigar mas era formado em Engenharia. Dava aulas em cursinho pré-vestibular mas seu negócio era desvendar casos. Era tão bom no que fazia que muitas vezes a própria polícia lhe solicitava auxílio. Aliás, foram eles que lhe botaram o ingrato apelido. Eládio Vieira é nome de professor, diziam. Então ficou Ratoeira. Até algumas madames, sempre preocupadas com as saidinhas dos maridos, conheciam-no pelo apelido: dessa vez eu tenho certeza que ele está me traindo, seo Ratoeira…

Mas, no fundo, até que sentia uma ponta de orgulho. De certa forma significava um reconhecimento. Então tomou um gole e olhou para o mar iluminado da Praia de Iracema, descansando a vista. Os vendedores disso e daquilo, os carrinhos de pipoca e as luzes fortes dos postes faziam aquela parte do bairro parecer um parque. Como o bairro pudera mudar tanto em tão pouco tempo? Alguns anos antes os bares não passavam de uma dúzia e conviviam pacificamente com os moradores. Agora eram mais de cem e de pouco adiantavam os esforços da associação de moradores para garantir mais tranquilidade e respeito às famílias que ainda insistiam em morar ali.

De uns moradores, em depoimentos que recolhera, escutou repetidas queixas quanto ao inferno em que se transformara a vida no bairro. Alguns chegaram a dizer que a morte da vendedora podia ter sido fruto da luta por pontos de venda, já não duvidavam de mais nada, os bares haviam trazido muitas pessoas de fora e, com elas, a violência.

Ratoeira já fora assíduo frequentador do bairro e conhecia sua história. Sabia que procedia a queixa dos moradores. Mas sabia também que a vocação boêmia do bairro vinha de longe e a proliferação dos bares era algo difícil de ser controlado por envolver muitos aspectos, entre eles a geração de empregos e o turismo cada vez mais forte.

Ele praticamente deixara de frequentar o bairro depois da massificação. Antes podia-se caminhar pelas ruas à noite, tranquilamente. Podia-se namorar olhando o mar sem medo de assalto e os frequentadores conheciam-se uns aos outros e mantinham certa cordialidade para com os moradores. Era comum encontrar uma roda de violão na calçada. A boemia continha em si uma boa dose de poesia e amizade.

Mas agora não. Em lugar de músicos, artistas, poetas e intelectuais, a Praia de Iracema via desfilar por suas ruas bandos barulhentos de mauricinhos e patricinhas, jovens obcecados pela potência do som de seus carros e a etiqueta de suas roupas. Com eles vieram assaltos, roubos de carro, brigas nos bares, mortes. Jovens brigões também descobriram o filão. Então vieram os turistas, ávidos por consumo. Depois chegaram as prostitutas, por que não haveria um pedaço também para elas? A Praia de Iracema é de todos! – dizia o slogan da campanha turística.

O detetive voltou para casa com muitos pensamentos. Mas uma coisa acima de tudo o deixou intrigado naquela noite. Embora se esforçasse para não levá-la a sério, não conseguia esquecer. Era o tal do maluco que encontrou no Quais Bar, o Profeta. Conhecia-o de vista dali dos bares. Era o mesmo bêbado cabeludo de vinte anos atrás, a mesma casaca fedorenta, a mania de rimar as frases, não mudara nada. Ele sentou-se à sua mesa sem pedir licença e falou assim:

- Sua intuição está certa, seo detetive. O que aconteceu com dona Iza não foi acidente. Mas não adianta um culpado perseguir pois a profecia vai se cumprir.

Na hora não atinou para o fato mas depois sim: como é que ele podia saber a respeito de sua intuição se não falara dela para ninguém? Eládio Ratoeira coçou a nuca, intrigado. Era só o que me faltava, pensou, um maluco lendo meus pensamentos. Bom, concluiu, virando-se na cama para dormir, até mesmo os malucos acertam uma de vez em quando…

Três dias depois o laudo do IML saiu com uma conclusão curiosa: não havia indícios de fumaça nos pulmões da vítima. Isso significava que ela morrera antes de começar o incêndio. Mas não concluía sobre a causa. Para isso seria preciso mais alguns dias.

Ratoeira coçou a nuca: quer dizer então que dona Iza já estava morta? Teria sido queda ou algo assim? Ou alguém a matara?

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- Ô GARÇOM, duas cachaças, por favor.

- A minha é dupla.

- Muito bem, seo Jeová. O que o senhor sabe a respeito da morte de dona Iza?

Jeová, vulgo Profeta, de dentro de sua velha e endurecida casaca preta, olhou para o homem à sua frente com um misto de simpatia e desdém.

- O que eu sei é o que está escrito, seo detetive…

Eládio Ratoeira estava chegando na praia quando viu passar o Profeta. Convidou-o a tomar um aperitivo, por sua conta. Quem sabe o maluco não tinha algo de interessante a contar, ele que sabia de tantas histórias do bairro? Não custava nada lhe pagar umas doses e escutar. O diabo era ter de aguentar o fedor daquela casaca…

O garçom chegou com as doses. O Profeta recebeu a sua e tomou de uma vez. Então pôs-se a falar da noite, a magia da praia e os segredos dos bares. Contou histórias da praia, lendas dos antigos moradores da área, personagens que já não existiam mais. Eládio Ratoeira escutava com atenção, surpreso com a própria paciência. O Profeta andava por ali desde o início da ocupação da praia pelos bares, ele e sua casaca, o cabelo sujo, os dentes estragados e todas as suas histórias esquisitas. Diziam que fora fotógrafo de jornal. Diziam que tivera uma banda de rock nos anos 70, Punk Froid ou algo assim. Diziam que endoidara por causa de mulher. Não havia quem não o conhecesse, quem já não lhe tivesse pago uma dose de cana. O Profeta era parte da história do bairro.

- Não duvide da realidade, seo detetive. Isso é importante pra sua profissão. Por exemplo, se eu disser que tem alguém sentado nessa mesa com a gente, alguém que veio com o senhor, o senhor duvidaria, né?

Eládio Ratoeira olhou automaticamente para o lado. Quando deu-se conta, irritou-se consigo mesmo e entendeu que já escutara demais. Meia hora ouvindo maluquices, onde andava com a cabeça? Então respirou fundo e, botando um pouco de autoridade na voz, falou que já estava tarde e que se o outro não tivesse nada de mais concreto para dizer, então fosse desculpando que ele tinha trabalho amanhã cedo.

- Garçom, a conta.

O Profeta sorriu um sorriso curto de resignação.

- Vou falar na língua que o senhor conhece, seo detetive. Me diga uma coisa. Se o senhor não sabe que eu tenho nas mãos um four de damas, então esse four de damas não existe pro senhor, não é mesmo? Não existe porque o senhor não sabe que eu tenho, não é isso? Pois ele existe sim, independente do senhor saber.

O detetive Eládio Ratoeira, 40 anos de baralho, encarou o Profeta e sentiu um calafrio lhe percorrer a espinha. O maluco sabia que ele jogava pôquer? Lia pensamentos?

Por alguns segundos manteve o olhar fixo nos olhos do homem, procurando alguma pista que indicasse qualquer coisa… Mas a expressão do outro não mudou, permaneceu impassível, o olhar manso e desarmado, tipo do sujeito incapaz de mal algum.

De repente um gato preto entrou pela porta do bar e aproximou-se da mesa, miando para o Profeta. Ele o pegou nos braços e pôs no colo, acariciando-lhe o pelo.

- O senhor está investigando somente o caso de dona Iza, não é? Pois vou ampliar um pouco mais seu horizonte. É só porque simpatizei com a sua honestidade.

Eládio Ratoeira esperou. Dos braços do Profeta o gato preto o observava com seus olhos amarelos.

- Olhe, a morte de dona Iza tem dois precedentes. Um é seo Neném, dono do motel, morto cinco meses atrás. O outro é o garçom Penalidade, morto faz dois meses. Eu sei que o senhor sabe, eu sei. Mas ainda não ligou os fatos. Os três eram personagens conhecidos na praia, faziam parte da paisagem. Atente pra ironia, homem: o dono do motel, que vendia sexo, morreu na cama. O garçom, que vendia bebida, morreu afogado. E a cigarreira morreu queimada.

- Morreu antes de ser queimada – interrompeu Ratoeira, dando-se conta, um segundo depois, que revelava um segredo de trabalho.

- É o simbolismo que vale. A noite está morrendo através de seus personagens. A profecia é desumana mas é real.

- Que profecia?

- O senhor conhece. Um dia a noite da Praia de Iracema vai morrer.

Eládio Ratoeira perdeu a paciência. Pagou a conta e levantou-se.

- Pelo que me consta, seo Profeta, e talvez não conste ao senhor, é que foi uma mulher loira, bonita e aparentando vinte e poucos anos, trajando vestido preto, que foi vista na companhia de seo Neném poucos minutos antes dele ser encontrado morto. Nada de símbolo.

- Então, homem? Pra que melhor simbolismo? Uma loira bonita e cruel, vestida de preto… A cool girl will kill you in a darkened room… O senhor conhece essa música?

Pronto, o maluco sabe inglês, pensou Ratoeira, coçando a nuca com o polegar.

- O senhor está tão obcecado em descobrir o assassino que não consegue ver o óbvio.

Ratoeira caminhou para a calçada e, parando para puxar a chave do carro, pôde ouvir o Profeta lá na mesa, ainda com o gato nos braços:

- Toinho, Tereza, Tarzan… Quem é o próximo de amanhã?

(…)

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(Este conto integra o livro Guia Prático de Sobrevivência para o Final dos Tempos)


O íncubo

Novembro 15, 2008

O ÍNCUBO

Íncubos eram demônios que invadiam o sono das mulheres para copular com elas – uma difundida crença medieval. Mas… e se ainda existirem?

Místico, erotismo.

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(Este conto integra o livro Guia Prático de Sobrevivência para o Final dos Tempos)

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Ele virá com um sonho mas será real. Porque habita a realidade mais profunda – e inadmissível, não esqueça – dos seus desejos. Chegará devagar e sem alarde. E deixará os sapatos à entrada para poder pisar delicadamente o seu chão e sentir desde o início todos os detalhes de sua presença. Ele, o meticuloso.

Haverá uma roupa no sofá da sala, você anda meio desleixada?… Quem será o moço no porta-retrato, seu namorado? Que diria se acaso soubesse que ele esteve em seu apartamento a essa hora da noite? A porta de seu quarto estará trancada, evidente, mas ele já sabe que você anseia por essa visita. E é exatamente por isso que poderá vir e entrar. Se esse encontro não existisse antes em seu pensamento, minha querida, ele não passaria jamais por esta porta, aberta ou fechada.

Ele entrará em seu quarto enquanto acostuma os olhos à penumbra do ambiente, os olhos que a encontrarão dormindo na cama. Já haverá algum tempo que não se vêem, ele estará curioso em saber como você está. Você dormirá tranquila, os lábios roçando o travesseiro e os cabelos escorrendo pelas curvas do seu rosto suave. Então ele se permitirá profanar a harmonia do quadro e afastará para o lado uma mecha de cabelo que insiste em querer seus lábios. Ele, o profano.

Não, de forma alguma ele se sentirá culpado por invadir assim sua intimidade mais secreta, logo você, tão cheia de recatos. Porque foi você quem quis assim embora jamais o revele, nem a si mesma. É essa a lógica dele: você tem de chamá-lo para que ele possa vir. Estará, portanto, somente realizando um velho desejo seu – você é que sempre foi boba para admitir os próprios pensamentos. Ele, aliás, gostaria imensamente de estar presente quando, pela manhã, você sonolenta a lavar o rosto, viesse a primeira lembrança do sonho que teve, tão estranho, tão louco… Mas tão real, não?, tão real… Ah, ele daria um dedo para vê-la, daria sim, você estancando subitamente, em pé ao espelho, os olhos na expressão de quem lembra, o gesto suspenso na vã tentativa de congelar o resto de lembrança que vai morrendo, morrendo… E a cara de incredulidade e espanto. Mas não, ele não poderá estar presente. Isso nunca lhe será permitido. Seus poderes não resistem longe dos sonhos.

incubo009aEle puxará a ponta do lençol, descobrindo seu ombro magro. Mais um pouco e surgirão aos seus olhos agradecidos os seus seios, descansando serenos e alheios no ritmo calmo de sua respiração. Ele não resistirá e deixará escapar um sorriso… Nesse momento já não poderá evitar de se deter um pouco e comparar a imagem que tem à mulher que conhece, tão pudica. Se você pudesse despertar agora, certamente teria um de seus repentes de indignação e bradaria que ele está violando sua intimidade e que não tem o direito. Mas nesse sonho, minha querida, não há lugar para violências. E, além do mais, não foi você quem o chamou? E quem melhor que ele, o que capta o que se esconde, para entender a beleza tímida dos seus seios?

Então, de repente, para total surpresa dele… você se moverá. E virará o corpo para o lado, privando dos seus seios o olhar dele. Ele confessará, do alto de suas vivências no assunto, que, tsc-tsc, por essa não esperava. E não esperava mesmo. Então sussurrará ao seu ouvido, sorrindo uma revolta bem-humorada, que certos pudores não têm jeito, não adormecem nunca.

Em sinal de protesto retirará, de uma vez, o lençol que ainda cobre o restante de seu corpo. E terá outra surpresa o nosso amigo. Duas, para ser exato. Quem, em algum tempo, poderia imaginar, inclusive ele, que aquele autêntico recato ambulante dormisse nua, inteira e despojadamente nua? E, mais curioso ainda, que fosse tão surpreendentemente desejável sem vestes?! Ninguém certamente, você sempre fez questão de se ocultar demais. E ele muito menos, ele que há algum tempo flagra a ânsia dessa aventura por trás das couraças de sua defesa.

Retirado o lençol, o profano se afastará da cama e se posicionará melhor para observar, pintor orgulhoso do novo quadro. Você nua e sem defesa. Entregue aos olhos de um homem como jamais imaginou que pudesse. A pele brilhando na penumbra. O corpo inteiramente nu, convidativamente disposto sobre a cama, finalmente autorizado, nihil obstat. Ah, ele se deliciará enormemente ao vê-la aprisionada em sua própria nudez. Deliciosamente prisioneira. Insuspeitavelmente bela.

E ele percorrerá com os olhos comovidos as paisagens de seu corpo, montes e planícies, savanas e cavernas. Gozará sinceramente enternecido todas as minúcias de sua pele e procurará novos ângulos para sua beleza inconsciente – e finalmente despudorada. Um fino e cruel ladrão de intimidades, desumano e desrespeitador. Ora, convenhamos…, ele dirá, um pouco de perversidade não faz mal a mulher nenhuma! Principalmente a você que sequer admite durante o dia o que se permite em sonhos…

Então ele perceberá, desconfiado, a sua respiração mais intensa, o ritmo mais acelerado. Aproximará o rosto do seu, já antevendo a nova surpresa, e por fim constatará sua excitação. Ora, ora, ele exclamará sorrindo, então o sonho já começou…  Então, enquanto se despe ao lado da cama, observará seus movimentos angustiados e impacientes, como se buscasse alguém ausente.

Ele comparecerá a esse encontro porque você o quer, vamos deixar isso bem claro, mas também porque anda curioso em saber o que existe por trás de toda essa sua aparente frieza e indiferença. Aparente sim, ele sabe disso. Mesmo nas mulheres, bichos ardilosos que sempre foram, o olhar nem sempre acompanha a velocidade da mentira – ou da habilidade, como queira. E foi o olhar, minha querida, foi exatamente esse pequeno detalhe que naquele dia a denunciou, a você e suas tão bem cuidadas aparências. Foi apenas um encontro instantâneo de olhares, você talvez esteja lembrada, foi tudo muito rápido, um quase nada, é verdade. Somente um desejo que, por um segundo, escapou sorrateiro de sua vontade e que, ao perceber o olhar dele, ato contínuo, voltou a ser frieza e desdém. Ah, mas já era tarde. Ele agora sabia de tudo.

Jogada a roupa a um canto, ele deitará ao seu lado na cama, já chega de perversidade. Sentirá então o calor receptivo e o aroma delicado de sua pele. Você jogará ao chão velhos escrúpulos que por lá ficarão enquanto ele não se for e decerto que se espantarão ante toda sua disposição revelada. Seus olhos estarão sempre fechados mas verão tudo em seu sonho. Só não verão os olhos dele, o que fará mais difusa ainda sua recordação. Se pudesse, ele confessaria que por vezes lhe falta a cumplicidade do olhar, em algumas mulheres bem mais que em outras. Mas as regras são essas, o que se pode fazer?

Enquanto sua boca o procura e seus braços exigem com avidez o corpo dele, ele sorrirá dessa sua insuspeitada ardência. E finalmente fechará os olhos, deslizando para dentro do seu sonho, envolto pela velha sensação de vertigem, dor e alívio que essa queda lhe provoca. E só retornará quando novamente abri-los.

incubo009aNo outro dia você lembrará de quase tudo mas sua lembrança será como névoa que aos poucos, e sem que possa evitar, irá se dissipando, terminando por se transformar naquela sensação de já ter vivido algo assim em algum dia, algum lugar…

Mas como, se tudo foi apenas um sonho?, você se perguntará, sempre surpresa com a qualidade das lembranças. Lembranças que a farão sorrir pelos cantos do dia, subitamente envergonhada. O que foi? – a amiga indagará, desconfiada, e você disfarçará, procurando qualquer coisa para se ocupar e fugir do flagrante. Mas nem sempre conseguirá conter o sorriso que, fora do seu controle, denunciará a si mesma uma descarada satisfação.

Você pensará nele, sim, pensará. E por pouco não se renderá ao desejo, várias e vacilantes vezes ao lado do telefone. Sussurrará na rua, sem querer, o nome do maldito. Mas ao mesmo tempo evitará de todas as formas encontrá-lo pois se sentirá nua nesse encontro. Perceberá um vento gelado lhe roçar os pêlos e trazer arrepios toda vez que se recordar dessa noite. Ventos do outro mundo? Lera certa vez alguma coisa sobre demônios que invadem o sono das mulheres para copular com elas, lendas medievais. A história não lhe saíra da cabeça.

Demônios… Não sabia que pudessem ser tão competentes, você pensará, permitindo-se afinal brincar um pouco. Bem competentes…

Mas não, não – você sacudirá a cabeça, abandonando tal absurdo, e voltará aos afazeres. Entrar no sonho dos outros, imagina, seria o fim do mundo…

Mas e se fosse possível? E se realmente eles pudessem…

Não, não, foi tudo um sonho – você repetirá mais uma vez, lutando contra a vontade que arde de vê-lo novamente. Foi apenas um sonho louco e alguma coincidência. E além do mais há muito que essas coisas não existem.

(…)

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A vertigem (trecho)

Novembro 15, 2008

A VERTIGEM

Seo Pepeu é o louco da cidade. Dizem que possui dois bichinhos mágicos: um localiza objetos perdidos e outro faz as pessoas se encontrarem. Mas ele está velho e tem de passar a alguém a missão de cuidar dos bichinhos.

Mistério, místico.

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(Este conto integra o livro Guia Prático de Sobrevivência para o Final dos Tempos)

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Trecho do conto

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CONHECI SEO PEPEU numa tarde mormacenta. Eu já trabalhava na capital e havia voltado a Quixadá para um fim de semana com a família. Dona Necy segurou meu braço na rua e disse que dessa vez eu não escapava, ia provar do seu doce de caju. Estava muito quente e o calor parecia brotar do chão e nos envolver feito abraço que não desprega mais.

E lá fui eu, rebocado por aqueles braços gordos, comer do doce de caju, tempos que ela me convidava. Dona Necy me acomodou numa cadeira de balanço, dessas que não existem mais nas cidades grandes, dessas que ainda embalam o silêncio dos sertões com seu nheco-nheco dengoso. E me fez repetir o prato duas vezes. Enquanto comia, aparava as gotas de suor que desciam pelo meu rosto, quase pingando sobre o doce.

Eu já me preparava para ir embora e aguardava apenas uma brecha na conversa quando ele apareceu à porta, vindo lá de dentro, silencioso e resguardado. Alto. Branco. Muito magro.  E, apesar do forte calor, vestia paletó, como se fosse sair. Seo Pepeu era solteiro e não tivera filhos e, apesar da idade, quase 80 anos, ainda guardava saúde. O pouco cabelo, liso e todo branco, resistia em fios cuidadosamente penteados. Vaidoso, era algo que ele prezava muito: vestir-se bem para ir passear com os “seus bichinhos”.

Chegou à porta e ficou a me observar, sem expressão qualquer no rosto ossudo. Ou melhor, eu diria uma expressão sim: de atenção. Mas uma atenção toda própria, tão silenciosa e escondida que a qualquer um pareceria alheamento. Mas a mim não. A mim me cutucou a curiosidade. De uma forma tal que jamais esqueceria aquele primeiríssimo instante. Aqueles segundos em que o meu olhar esteve em seus olhos me desenterraram do fundo da alma uma espécie de pavor que eu não conhecia. Não foi medo dele. Não. Foi, antes, um desconforto, uma insegurança. Como se quem me olhava pelos olhos de seo Pepeu estivesse na verdade desdenhando de minha privilegiada posição de são e normal. Como se, de algum modo, aquele que me observava soubesse mais de mim que eu próprio. E isso foi assustador.

A partir de então dominou-me um enorme fascínio por sua pessoa, que me prenderia inapelavelmente a seu mundo estranho, à sua lógica misteriosa e insana.

- Ô, Pepeu, não vai dar boa tarde ao rapaz, não?

Foi dona Necy quem, enfim, nos desgrudou os olhos e me livrou daquele estranhamento. Então pude sorrir e relaxar os músculos. O pavor, tão rápido quanto veio, também se foi, feito gato que se espanta com o movimento e sai correndo. Ficou em seu lugar somente o desconforto de se ter a loucura como companheira de sala.

Boa tarde que nada, ele continuou calado, me olhando da porta, atento e inexpressivo. Evitei cruzar seu olhar novamente. Levantei e disse a dona Necy que precisava ir. Ela me abraçou e quando olhei para me despedir dele, o lugar estava vazio.

- Ligue não, é primo torto de mamãe. Juízo meio mole. Morava com ela, em Caiçarinha. Ano retrasado ela morreu e a gente trouxe ele pra morar com a gente. Ele gostou de você, viu?

- De mim? Me olhando daquele jeito?

- É o jeito dele. Quando não gosta, nem olha pra pessoa. Mas de você gostou.

- E esses tais bichinhos dele?

- Pois é, os bichinhos… Você ouviu falar, né? O povo diz que ele tem pacto com o demo. Tem nada. Faz mal nem a muriçoca. Pepeu gosta de dizer que o mundo está pra acabar, que ele não sabe com quem deixar seus bichinhos, essas coisas doidas – e dona Necy riu. A loucura do agregado da família a divertia. – Vai pedir pra você vir de novo aqui, pode apostar. Se não vier por ele, venha pelo menos pra comer mais um pouquinho do doce que tem mais, viu?

Voltei para Fortaleza. Mas os olhos de seo Pepeu não me deixaram em paz. Eu me perguntava por que cargas dágua me sentira tão incomodado com eles. Por que me sentira nu, como se soubessem de segredos meus?

Mas havia outra coisa. Por trás daqueles olhos se agitava um véu de possibilidades mágicas, de coisas do outro mundo. Sim, eu podia sentir o véu quase a roçar em mim. Era como se aquele que me espreitava por trás dos olhos ausentes de seo Pepeu fosse íntimo dos mistérios. E eu já não acreditava em mistérios.

Voltei a Quixadá semanas depois, outro fim de semana com a família. Outra vez dona Necy me pegou pelo braço e me fez degustar seu saboroso doce de caju, a calda avermelhada escorrendo da colher, o prato repetido. E, mais uma vez, ele surgiu à porta, silencioso feito um gato.

- Olha quem veio ver você, Pepeu.

- Ele veio comer o doce.

Ele falou. A frase foi tão natural, dita assim tão desprovida de emoção, que não percebi se escondia ironia ou não escondia nada mesmo. Mas havia uma tal lucidez das coisas por trás dela que me impressionou. Claro que eu não fora vê-lo. Ele sabia do que falava.

- Pepeu perguntou por você. Você gostou dele, não foi, Pepeu?

Silêncio. Voltara ao normal. Em pé, encostado à porta, os olhos ausentes em mim.

Dona Necy puxou o papo para outros assuntos e terminei perguntando por Milena, uma garota da cidade. Foi a dica para ela me botar a par das últimas, quem estava grávida de quem e quem levara fora de quem. Eu me divertia e de vez em quando percebia um ligeiro esboço de sorriso no rosto de seo Pepeu. Imaginava se por dentro ele não se divertia também com aquela bobagem toda. Após um comentário de dona Necy sobre uma ou outra menina mais avançadinha, tentei brincar com ele, sem nem esperar resposta:

- No seu tempo a coisa era diferente, heim, seo Pepeu?

Ao que ele respondeu, para meu espanto:

- Meu tempo é hoje.

Falou e continuou da mesma maneira, inabalável. Eu ri sem jeito, procurando logo escavar naquela frase algum indício de brincadeira que me livrasse do incômodo de ter sido repreendido. Mas estava claro: ele me censurara pelo comentário.

Nunca esqueci esse momento. O Sol se punha por trás da casa mas ainda estava quente. O suor me grudava a camisa ao assento da cadeira. Seo Pepeu à minha frente, alto e magro, metido naquele paletó que me dava calor só de olhar. Seus olhos nos meus e aquela frase ecoando em minha cabeça: meu tempo é agora. Nunca esqueci.

Saí de lá tão incomodado que cheguei a ter raiva dele. No fundo era raiva de mim mesmo por ter sido ingênuo a ponto de tratá-lo como uma criança que não entende o que se passa. Mas como então se deve tratar os loucos, senão como crianças que não vêem o mundo como nós, normais, o vemos? Ou não? Ou os loucos possuem algo de sábio que não enxergamos e isso atentaria contra nossa tão orgulhosa compreensão das coisas?

Da terceira vez que o vi, o motivo foi uma caneta. Eu ganhara uma linda caneta de minha mãe, presente de formatura, e a havia perdido em Quixadá. Encontrei dona Necy na praça e contei-lhe o caso.

- Por que não pede ao Pepeu pra procurar pra você?

- Como assim?

- Ele encontra as coisas perdidas, não sabia? Por isso que o povo adora ele. Vamos lá em casa.

Fomos até sua casa, eu muito curioso com aquela história. Dona Necy foi buscá-lo no quarto e ele veio, em seu paletó branco, impecável. Ela lhe explicou que eu havia perdido um objeto de valor e queria recuperá-lo. De novo, quase imperceptivelmente, julguei ver um esboço de sorriso, uma luzinha de satisfação em seu rosto… que um segundo depois se foi, morreu, sem deixar vestígio.

Seo Pepeu olhou por alguns instantes para mim e a seguir sussurrou ao ouvido de dona Necy.

- Ele disse que se você trouxer um chocolate pra ele, ele encontra sua caneta.

Levar-lhe um chocolate? Coisa de menino. E eu que, por um rápido instante, chegara quase a crer que ele possuía mesmo algum dom mágico…

Mas topei a brincadeira. Fui na mercearia próxima e voltei com o chocolate. Pensei que ele fosse devorá-lo ali mesmo mas não, guardou-o no bolso do paletó e tornou a falar ao ouvido de dona Necy.

- Agora você espera que a caneta aparece.

Por um instante eu quase acreditara. Sabe como é, essa gente do interior tem umas coisas com espíritos, demônios… Mas agora via que era tudo uma brincadeira entre eles, aquela espécie de concessão que os familiares fazem à loucura. Ri do teatro todo e de mim mesmo e depois fui embora, de novo engasgado na garganta o incômodo por ter feito papel de tolo.

Porém, além disso, veio mais uma vez aquela sensação, o véu suave dos mistérios a me roçar a alma. A loucura parece ser cúmplice de estranhas realidades e ter passe livre para outros mundos. E é como se estes, de vez em quando, nos acenassem pelos olhos dos loucos. Com seo Pepeu era assim. Ele me fazia voltarem velhos cheiros da infância, um tempo onde também tínhamos passagem livre para o outro mundo. Um tempo onde tínhamos amigos que os adultos não viam e com eles dividíamos segredos.

Por isso o desapontamento que senti. Não com ele, na verdade, mas comigo, por ter me deixado crer, por um instante, que o outro mundo estava de volta.

Mas já não creio nos mistérios. Não há mais espaço para eles nessa vida. Não há tempo para conjeturar sobre outras realidades. Quem o faz ou são os ociosos ou os que não suportam a realidade.

Pois não é que dois dias depois, já em Fortaleza, a caneta perdida não me inventa de aparecer? Apareceu. E num local pouco provável: sobre a geladeira. Fiquei parado, a caneta na mão, roendo o pensamento, tentando entender de que possível modo ela fora parar ali se eu a perdera em Quixadá.

A única explicação era eu estar enganado. A caneta talvez tivesse vindo comigo a Fortaleza e… E o quê? Eu a teria posto sobre a geladeira? Isso não. Eu não fizera isso. Só se meu colega Júlio, que morava comigo, estivesse me pregando uma peça.

À noite falei com ele seriamente sobre a caneta. Estava mesmo encucado. Mas Júlio não me levou a sério. Riu da importância que eu dava ao caso e disse que talvez eu fosse sonâmbulo e não sabia.

Achei prudente não contar de seo Pepeu e resolvi esquecer aquele mistério.

Mas seo Pepeu já me pegara pelo pé. Volta e meia me vinham aqueles olhos ausentes de expressão mas que eu sabia me espreitarem atentos, fazendo vir à tona coisas que eu já havia esquecido. Eu não tinha medo dele. Mas me incomodava aquela desconfiança de que ele na verdade via muito além do que eu pressupunha. E isso me fazia dividido. Se por um lado brisas suaves do outro mundo sopravam através de seo Pepeu, por outro seus olhos pareciam querer me desmascarar, como se eu fosse culpado de algo.

(…)

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(Este conto integra o livro Guia Prático de Sobrevivência para o Final dos Tempos)

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Agenda nov2008

Novembro 15, 2008

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E a turnê nordestina prossegue. Continuo em Fortaleza, divulgando o novo livro, fazendo umas palestras e produzindo umas festinhas safadas. Pros amigos e leitores que são mais chegados no RK escritor ou no RK festeiro, aqui vão alguns toques:

19nov (quarta-feira)
Sessão de Autógrafos na Bienal Internacional do Livro
Será no estande 52 da Secult, de 20h a 22h. Estarei lá com o livro novo, Vocês Terráqueas, e com os demais livros. Durante a Bienal todos os livros se encontram à venda no mesmo espaço. A entrada é grátis.

21nov (sexta-feira)
Farra no Cabaré Alheio
Como é o RK festeiro que atualmente sustenta o RK escritor, vem aí mais uma festinha daquelas que vovó não passaria nem calçada. Será no Buoni Amici´s (Centro Dragão do Mar). No comando do som, os DJs Marquinhos, Guga de Castro e RKBaré. Samba rock, black music, disco, ritmos latinos, brega e musga lenta, pra dançar solto e coladinho. Hora do apagão. Concurso Mata Eu (fem e masc): suba no palco, jogue seu charme e ganhe R$ 50 em consumo. Ingresso: R$ 12.

28nov (sexta-feira)
Sessão de Autógrafos + 20 Anos do Badauê
Aproveitarei a festa 30 e Alguns Anos, que a promoter Cristina Cabral realiza mensalmente no anexo do Docentes e Decentes (rua Ana Bilhar 1445, entre Manoel Jesuíno e Assis da Picanha) e farei uma sessão de autógrafos de 20h a 23h. Depois comemoraremos o aniversário de 20 anos do Badauê, o memorável bar que tivemos, eu, Nelsinho e Paulo Marcio, na Praia de Iracema entre 1988 e 89. Ingresso normal da festa: R$ 20. Ingresso pros sobreviventes do Badauê: R$ 10.

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A TURNÊ KELMÉRICA CONTA COM A PARCERIA DE
Kingston – Expressão Gráfica – Garin Cópias
Luce Galvão de Sá ArquiteturaRossana Romcy


As jóias de Rossana

Novembro 14, 2008

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A temporada cearense de lançamento do livro Vocês Terráqueas, que já contava com o apoio da Kingston e de Luce Galvão de Sá Arquitetura, agora tem também o apoio de Rossana Romcy.

Rossana é um dos novos nomes no ramo de design de jóias. A criatividade aliada ao bom gosto de suas peças, que unem sementes, metais e pedras preciosas e são feitas a mão, já chamam a atenção não somente do mercado nacional mas de países como Itália e Portugal, pólos da moda mundial.

Trabalhando junto com seu marido e ourives Alexandre Ortiz, Rossana dá asas à criatividade na criação de peças únicas e exclusivas. A designer também trabalha sob encomenda, criando de acordo com a necessidade e o desejo do cliente.

Site Rossana Romcy


O Irresistível Charme da Insanidade 1-5

Novembro 14, 2008

O amor insano. O amor desafiador do tempo. O amor que descortina as mais absurdas possibilidades do ser.

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CAPÍTULO 1
5a parte
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- Não leve a mal mas como você consegue ser tão… otimista?

- As coisas sempre dão certo se a gente tá no caminho certo.

- E como eu sei que tô no caminho certo? Pelas placas indicativas?

- O caminho certo tem sempre uma plaquinha com um coração.

Caminho com um coração. Ele riu. O que era aquilo? Uma aula do jardim da infância?

- Mas você há de convir que o normal é ter sempre alguma garantia na vida, um trabalho, planos…

- Concordo com a garantia mas não com os planos.

- Mas você tem de planejar alguma coisa. Essa é a garantia. Se não planejar, as coisas saem do controle.

Ela riu alto, como se ele houvesse contado uma boa piada.

- Se não há tentativa de controle, Luca, como as coisas vão sair do controle?

Lógica perfeita…, ele suspirou, admitindo. Mas absurda.

- Você prefere que as coisas estejam sempre fora de seu controle?

- Sabe o que eu acho? Que o controle sobre as coisas começa no exato momento em que a gente abdica dele.

Ele pensou um pouco mas aquilo parecia tolo demais para ser levado a sério.

- Desculpe, Isadora, mas eu sinceramente acho que você não tá falando sério. Ninguém pode pensar assim. Mais cerveja?

- A vida me dá tudo o que preciso, Luca. Por isso não faço planos. Vivo um dia a cada vez. Se eu fizer o certo hoje, o amanhã já vai começar certo também.

- Qual a sua religião?

- Viver a vida. Conhece?

- A mesma minha. Também vou levando a vida.

- Não. Eu não levo a vida. Eu deixo que ela me leve. É diferente.

- Pra mim é a mesma coisa.

- Levar a vida é cansativo. Prefiro fazer minha parte e relaxar.

- Aí a vida se resolve sozinha?

- Ela se resolve da melhor maneira possível.

Levar a vida sem planejar nada…, ele repetiu em seu pensamento. Aquilo lhe soava inteiramente absurdo, um desatino. Como tantas coisas podiam se ajeitar por si próprias, o trabalho, a banda?… E o aluguel do apartamento, quem pagaria? E as contas? E o carro? E as relações pessoais, os casos amorosos? Como tudo isso se ajeitaria por si só? Definitivamente não era possível. A vida era uma grande boiada e era preciso domá-la o tempo todo, conduzindo-a pelos caminhos certos. Talvez a vida de Isadora fosse mais simples, mais fácil de gerenciar… Mas não, não. Aquilo era uma ilusão, um romantismo. Podia-se levar a vida com bom humor, tudo bem. Mas deixar correr solta, sem planejamento? No entanto ela parecia acreditar firmemente em cada palavra que dizia. Tinha de admitir que, vindo dela, aquela loucura toda até que possuía um certo charme. Mas mesmo os loucos são convincentes.

Luca tomou mais um gole. Talvez fosse melhor fazer o que ela dizia: relaxar.

- E essa cicatriz aí? Posso pegar?

- Lembrancinha de um passeio de jangada. Fizemos um blues pra ela. Quer ouvir?

Ela riu, disse que sim e ele cantarolou:

Não quero a dor de mais um bis
Depois só resta a cicatriz
Então não me peça, babe…
Não me peça pra te amar…

- Você se feriu no amor e ficou com medo de amar de novo.

- Normal, né?

- Ferida cicatriza, Luca.

- Mas algumas ardem forte até o fim…

Ela quis saber sobre a banda e ele contou dos outros componentes, os shows que faziam, os planos de gravar um CD, tocar em outras cidades. Isadora contou das praias que conheceu naquelas semanas, o quanto se sentia em casa em todos os lugares, o quanto se sentia mais perto de si mesma assim solta pelo mundo.

- Luca, você acredita em vidas passadas?

- Por quê?

- Acredita ou não?

Ele pensou rápido. Não acreditava, claro, impossível acreditar em bobagens daquelas. Mas e se o sucesso da noite dependesse de uma boa resposta?

- Depende.

- Como depende?

- Depende do dia.

- Sei… E como tá o dia hoje?

Ele olhou para o céu, coçou a cicatriz. Tomou um gole.

- Hoje eu acho que acredito em tudo.

- Humm… Isso é ótimo. Então olhe pra trás.

Ele se virou e viu um casal entrando no restaurante.

- Marcela e Guilherme, meus amigos de Belém. Pode acreditar.

Os três se apresentaram.

- Prazer. Luca.

- É Luca ou Lucas? – quis saber Marcela.

- Sem o S. Você também estava no sonho?

- Não. – Marcela riu. – Mas eu sabia que vocês iriam se encontrar.

- Vocês têm de convir que essa história é meio…

- Meio, não, totalmente louca – interrompeu Marcela, rindo com Isadora. – Mas acho tão romântico!

- Ei, Luca. Você disse que hoje é um dia para acreditar em tudo – lembrou Isadora.

- É. Mas preciso beber um pouco mais.

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(continua)

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Mais sobre o livro O Irresistível Charme da Insanidade

Pra adquirir o livro (impresso ou eletrônico):
rkelmer(arroba)gmail.com


Essa loirinha desmiolada de sol

Novembro 10, 2008

elamar01dOs leitores que ultimamente receberam livros meus pelo correio certamente perceberam que o endereço do remetente não é de São Paulo mas de Fortaleza. Explico: tô passando uma temporada no Ceará e desde setembro despacho daqui meus livros vendidos pela internet. Vim finalizar em Fortaleza o novo livro, Vocês Terráqueas, e a nova edição de bolso dos demais, aproveitando a parceria que tenho com a Expressão Gráfica e com a Garin, e vim também pra participar da Bienal Internacional do Livro (12 a 21nov) e fazer umas palestras.

A idéia era retornar pra São Paulo até dezembro mas como tô precisando de uma graninha urgente pra pagar os custos do novo livro e também pra comprar um notebook, decidi voltar a produzir festas temáticas, algo com que trabalhei por vários anos. Então adiei o retorno, possivelmente pra depois do Carnaval. Produzir uma festa não me dá tanto prazer quanto publicar um livro mas dá menos trabalho. E sempre dá um dinheirinho muito bem-vindo que ajuda a bancar o RK escritor.

Fortaleza é assim, pro RK escritor ela não tem horizontes a oferecer mas pro RK festeiro ela escancara as pernas. Essa loirinha desmiolada de sol… Fortaleza será sempre assim, inculta, dengosa e bela. Sempre que venho, ela me vem com agradinhos, diz que eu deveria ficar, que mereço vida melhor do que a que levo sozinho em São Paulo, alugando quartinhos minúsculos, sem os amigos que tenho aqui, os dengos e as facilidades…

Ela diz isso mas tá cansada de saber que nosso amor é um amor impossível. E sabe muito bem que agora sou um cara compromissado com São Paulo, a quem ela desdenhosamente chama de Paulete Periguete. Ciúmes, claro, tem cidade que é muito ciumenta. E Paulete não tem nada de oportunista, pelo contrário. Ela pode até não ser tão calorosa quanto Fortaleza mas é bem curvilínea e, aiai, são as curvas de seus horizontes que mais seduzem o RK escritor.

- Mas duvido que ela seja mais ecônomica que eu – Fortaleza começa a ladainha, enquanto brinca de sereia na areia da praia pros meus olhos. Cidade adora se comparar com a outra, ô mania horrível. De fato, Fortaleza não é dispendiosa como São Paulo. Mas finjo que não escuto a provocação e continuo olhando o mar, gosto de ver as ondas indo e vindo, é um dos meus mantras visuais favoritos.

- Duvido que ela tenha uma marquinha de biquíni assim – a loirinha insiste, com a graciosidade tristonha das cidades que sabem que seus argumentos são ótimos mas que não vão adiantar.

- Duvido que ela faça gostoso como eu faço, duvideodó… – ela sussurra, sua voz sapeca sibilando em meu ouvido junto com o vento de outubro. E dessa vez eu concordo, claro, imagina se vou discordar. Não, loirinha, ninguém faz o que você faz, principalmente depois da terceira vodca.

Fortaleza é assim, a derradeira brisa de verão, um gosto de beijo roubado na fila do embarque, a felicidade com visto vencido.

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Ricardo Kelmer 2008 – blogdokelmer.wordpress.com


Amor em liberdade

Novembro 6, 2008

O que você ama no outro? A pessoa em si? Ou o fato dela ser sua propriedade? E como pode saber que ela é só sua?

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Tânia tem 47 anos, é pedagoga e recentemente separou-se do marido, com quem teve um filho. É uma mulher ligada à espiritualidade, gosta de ler sobre filosofia e psicologia e desde a separação vem mudando sua compreensão de muitas coisas, principalmente as relações humanas. Tânia não acredita mais no tradicional modelo de relacionamentos que a sociedade impõe a homens e mulheres e busca encontrar alguém que entenda algo que para ela é fundamental: amar não significa querer a posse do outro.

Raissa tem 22 anos, é estudante de publicidade. Solteira e bonita, ela adora sair à noite pra beber, dançar e se divertir com os amigos. Gosta de homens e também de mulheres. Apesar de não faltar pretendente, Raissa atualmente está solteira. Pra ela, namoro é bom, sim, mas só se a outra pessoa não quiser prendê-la com idéias estúpidas e limitadas sobre sexualidade e relacionamentos. Ela quer alguém que a aceite como ela é: livre pra viver e pra amar, sem enquadramentos comportamentais e ciúmes doentios. Se não for assim, prefere seguir solteira.

Duas mulheres, duas gerações, experiências bem diferentes de vida. Ambas, porém, estão insatisfeitas com as opções que a sociedade lhes oferece quando o assunto é relacionamento. Ambas querem liberdade pra serem o que são e pra viverem o amor como acham que devem vivê-lo. Mas não tem sido fácil encontrar outras pessoas como elas. Onde estarão?

Tânia, nossa pedagoga, rompeu com o velho modelão quando entendeu que exigir fidelidade do outro pode até ser prova de amor, mas de amor possessivo, que não ama o outro mas a posse e o controle do outro. Ela sabe que fidelidade é uma invenção cultural e que as mulheres a levam mais a sério que os homens. Como não quer mais alimentar hipocrisia em suas relações, não mais exigirá fidelidade sexual de seu homem – ela apenas não quer saber caso aconteça e que ele tenha cuidado com doenças. Ela deseja um homem que seja atraído pela liberdade que ela oferece à relação, o que não quer dizer que ela deseje infidelidade e promiscuidade. No entanto, os homens que encontra não conseguem lidar bem com a idéia de uma relação franca e honesta assim. Eles parecem preferir o velho modelo, em que um engana o outro e ambos fingem não perceber. Tânia quer compromisso, sim, mas sem mentiras veladas. O amor e a liberdade não são excludentes – ela diz, do alto da sabedoria de sua maturidade.

Nossa publicitária, apesar da pouca idade, parece também já ter intuído que o amor com liberdade deve ser o verdadeiro guia de seus relacionamentos. Mas Raissa sabe também que sua liberdade pessoal assusta muita gente. Ela não disfarça a irritação quando fala das pessoas “tão normais”, essa gente que aceita pra si os moldes de relações impostos, sem sequer considerar que tais moldes podem jamais lhes servir. Raissa quer se doar ao amor mas não quer se dar a regras que não foram feitas pra ela. Ela quer voar a dois pelos céus do amor e não dividir a dois a prisão do amor. Ela quer amar mas não quer aprisionar o amor por medo de perdê-lo. Pra Raissa, entre amor que controla e amor que liberta, ela prefere o segundo, mesmo com seus riscos. Mas o primeiro tem os seus riscos também, porra! – ela exclama, do alto de seu jeito rebelde.

Tânia e Raissa não se conhecem mas fazem parte da mesma tribo, o das pessoas que não aceitam velhos modelos de relacionamento baseados na propriedade e no controle e procuram viver de acordo com seu próprio entendimento de amor e felicidade. Elas estão fartas de moralismos, preconceitos e hipocrisias que levam as pessoas a mentir pra quem amam e pra si mesmas, a viver relacionamentos falsos, a aprisionar e se aprisionar em regras estúpidas e a deixar de viver a vida verdadeira em troca de aprovação social. Pessoas como Tânia e Raissa também desejam compromisso – mas com o outro e não com a posse do outro. Não tem sido fácil pra elas encontrar parceiros mas, aos poucos, como sempre aconteceu na história da humanidade, os revolucionários acabam se atraindo e se encontrando.

Não é fácil mudar velhos conceitos. Porque as pessoas sempre esquecem que a verdade em que crêem é uma verdade pra elas e não necessariamente pra todos. Os modelos tradicionais de relacionamento associam o amor à posse do outro e, por isso, ser livre ou deixar o outro livre é algo que soa logo como brincadeira, descompromisso, promiscuidade… Esse velho modelo não entende que um casal é feito de duas individualidades, que casais possam ser harmoniosos e felizes vivendo separados e que as pessoas possam ter outras relações e continuar se amando. Esse modelo só aceita o amor se no pacote vier junto posse e exclusividade. Até mesmo mulheres que desejam relacionamentos mais verdadeiros sentem dificuldade em considerar outros modelos de viver o amor. Elas deveriam parar um pouquinho e pensar: como podemos viver relações verdadeiras se queremos antes ser donos do outro?

O que você ama no outro? A pessoa em si? Ou o fato dela ser sua propriedade? E como pode saber que ela é só sua? Quem só sabe amar de modo possessivo não consegue conceber que o amor possa existir de outras formas. É esse velho e intransigente modelo que não serve pra pessoas como Tânia e Raissa, que querem amar e ser amadas, como qualquer um de nós, mas querem ser amadas por serem livres e querem amar pessoas livres. Os outros, que vivam eles o seu amor de posse, esse que exige antes de tudo possuir o outro. O que elas querem é outro amor, aquele que exige antes de tudo… amar.

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Ricardo Kelmer 2008 – blogdokelmer.wordpress.com

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EmBuscaDaMulherSelvagem-02base4bMais sobre liberdade e o feminino selvagem:

> A mulher selvagem - Ela anda enjaulada, é verdade. Mas continua viva na alma das mulheres
> A mulher livre e eu – A liberdade dessa mulher reluz no seu jeito de ser o que é – e ela é o que todas as outras dizem ou buscam ser, mas só dizem e buscam, enquanto ela tranquilamente… é
> Em busca da mulher selvagem – Era por ela que eu sempre me apaixonava, essa mulher que era quem ela mesma desejava ser e não a mulher que a família, religião e sociedade impunham que ela fosse
> Amor em liberdadeO que você ama no outro? A pessoa em si? Ou o fato dela ser sua propriedade? E como pode saber que ela é só sua?
> As fogueiras de Beltane
As fogueiras estão acesas, a filha da Deusa está pronta. O casamento sagrado vai começar

LIVROS

> Mulheres que correm com os lobos - Mitos e histórias do arquétipo da mulher selvagem (Clarissa Pinkola Estés -  Editora Rocco, 1994)
> A prostituta sagrada – A face eterna do feminino (Nancy Qualls-Corbert – Editora Paulus, 1990)
> As brumas de Avalon
- (Marion Zimmer Bradley – Editora Imago, 1979)

> Mais sobre Livros neste blog

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Comentarios01

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COMENTÁRIOS

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01 – Queridíssimo Ricardo, você parece que lê a alma das pessoas! Obrigada, muito obrigada pelo trecho do seu texto sobre Raísa (“AMOR EM LIBERDADE”), que você postou em meu scrapbook. Falou direto ao meu coração. Obrigada mesmo, foi um presentão de aniversário! Beijos, que você continue sempre tão abençoado. Branduir, Rio de Janeiro-Rj – dez2008