QUANDO OS HOMENS NÃO VOLTAM PARA CASA
Javier Viegas é tarólogo e resolve problemas do Além. Dessa vez uma moça deseja reencontrar o namorado que foi supostamente atraído por uma bela princesa para dentro de um quadro de parede.
Mistério, místico.
.
(Este conto integra o livro Guia Prático de Sobrevivência para o Final dos Tempos)
.
.
Trecho do conto
.
OI, LU… Por favor, leia a carta com atenção. Você é a única pessoa em quem confio. Saiba que, apesar de tudo, ainda amo você. Beijos. Junior.
Luciane leu o bilhete intrigada. Já fazia uma semana que não tinha notícia do namorado. No escritório avisaram que ele não ia lá fazia três dias, os porteiros do prédio não sabiam dele e seu telefone não atendia. No início pensou que Junior se chateara com a discussão que tiveram e resolvera dar um tempo. Mas aquele sumiço não fazia sentido.
Então decidira ir falar com ele. Entrou no apartamento com a chave extra que possuía. Nada viu de anormal, tudo em ordem. Sobre a cama encontrou o bilhete. E ao lado o quadro que ele tanto gostava: a princesa sentada num banco à entrada de um bosque. O mesmo quadro que originara a fatídica discussão. Nunca viu nada demais naquele quadro mas Junior nutria por ele uma admiração que ela simplesmente não entendia. Pôs o bilhete de lado, encostou-se nas almofadas da cama e começou a ler a carta.
.
A margem de um lago, um pequeno ancoradouro e um bote amarrado. Um caminho que sai do ancoradouro e penetra no bosque, por entre as árvores. Logo à entrada do bosque um banco de madeira e uma princesa muito bonita, em trajes medievais, olhando triste para a curva do caminho, como se aguardasse alguém que de repente surgirá…
Encontrei o quadro numa loja de usados e gostei dele de cara. A princesa me passava uma ternura tão grande… E havia a sensação de familiaridade, era como se eu a conhecesse de algum lugar, algum tempo. Levei o quadro e pus na sala. Você deve lembrar desse dia: eu mostrei, você olhou e riu. E disse que princesas sempre fizeram o meu tipo e que se acaso eu encontrasse uma pela frente, não pensaria duas vezes e a trocaria por ela. Lembra?
Primeiro eu o pus no corredor, para olhar sempre que eu passasse. Depois trouxe para o quarto e deixei ao lado da cama, para que eu adormecesse olhando para ele de pertinho.
Várias vezes tentei lhe dizer do quanto o quadro me fascinava. Mas você apenas zombava dos meus comentários.
Para mim aquela princesa vivia sozinha no bosque. Era triste e chorava de saudade de seu país, um lugar distante e muito bonito. Mas havia um brilho de esperança nos seus olhos: ela esperava pela chegada de um cavaleiro que a libertaria. Ele viria do bosque e surgiria na curva do caminho. Ele a pegaria pela mão e juntos tomariam o barco que os levaria rumo ao belo país da princesa. Enquanto isso não acontecia, ela aguardava cantando uma canção melancólica que se espalhava pelo bosque e um dia chegaria aos ouvidos de seu libertador.
À noite eu acariciava o quadro como se isso pudesse amenizar o sofrimento da princesa. Tirava o vidro, passeava a ponta dos dedos por sobre o papel e quase podia sentir o relevo das árvores, a água do lago, a pele dela, o cabelo…
Então uma noite tive um sonho. Eu estava no bosque e seguia pelo caminho entre as árvores. Estava à procura da princesa e precisava muito encontrá-la antes que anoitecesse. E só havia uma maneira: guiar-me pela sua canção. Mas ventava muito e a voz dela se perdia nos ventos. Tentei muitos caminhos, sabia que ela estava por perto, podia sentir sua presença… mas não a encontrei. Começou a ficar escuro e eu tive medo de me perder no bosque. Então, lamentando não tê-la encontrado, voltei.
Acordei no meio da noite chorando. O sonho ainda estava presente no quarto e eu podia sentir o vento, ainda escutava os ecos da canção triste. Eu estivera tão perto… Ela estava ali, em algum lugar, tão perto… e eu não soube encontrá-la. Não fui bom o bastante para ser seu cavaleiro – era isso o que mais me doía. Chorei até adormecer.
No outro dia nem fui trabalhar, impressionado com a força do sonho. Contei para você, lembra? Pela primeira vez você escutou com atenção. Então falou que eu já estava exagerando e que se continuasse assim, ia ficar doido. Você levantou com o quadro na mão e saiu, dizendo que ia dá-lo a alguém, que, aliás, ele era até de mau gosto.
Eu a alcancei na sala. Avancei e puxei o quadro de sua mão. Mas ele escapou e caiu. Espatifou-se no chão. Foi um estrondo que ecoou por longos segundos no silêncio da sala. Quando vi o quadro no chão, os pedaços de vidro espalhados, fiquei transtornado, uma dor imensa no coração. Tentei juntar os pedaços. Você se abaixou para me ajudar, pedindo desculpas. Mas eu a empurrei, com raiva, e disse que dispensava sua ajuda. Você ficou olhando para mim, assustada. Certamente devia achar que eu não estava bem da cabeça ou então pela primeira vez teve um vislumbre do quanto aquele quadro era importante para mim. Não sei, afinal não conversamos mais. Você bateu a porta com força e foi embora.
No dia seguinte inventei uma desculpa e também não fui trabalhar, não conseguiria me concentrar. E à noite tive o segundo sonho. Estava novamente no bosque e a voz da princesa me chegava, entre os ventos. Ela estava perto, mais perto que na noite anterior, mas eu tinha medo de avançar muito e anoitecer e eu não saber mais como voltar. Eu queria prosseguir, custasse o que custasse. Mas eu tinha medo de ficar perdido no bosque para sempre. Dividido nessa dúvida mortal, decidi voltar, uma dor me dilacerando a alma por mais uma vez deixar a princesa sozinha. Mas já estava escuro e por pouco não me perdi no bosque, por pouco mesmo.
Como da outra vez, despertei logo, tão triste que suspirava. Por alguns instantes o quarto pareceu ser o bosque, tão real que toquei as folhas no chão. Rapidamente tomei o quadro no peito, como se faz com alguém que a gente gosta tanto que tem vontade de trazer para dentro de si. Apertei a princesa contra o peito enquanto fazia força para que o sonho não fugisse. E por alguns instantes deu certo: toquei um galho, segurei-o… Mas logo o bosque sumiu e eu estava novamente em meu quarto, eu e minha enorme tristeza. Então disse para a princesa ser forte e aguardar só um pouco mais, eu logo a encontraria. E foi com esse pensamento que adormeci, esperançoso de que o sono me conduzisse de volta ao bosque.
Mas não voltei. Acordei pela manhã decepcionado, sem ânimo nem para comer. Não fui trabalhar. Trabalhar como, sabendo que ela ainda estava lá, sozinha? Como preencher formulários e autorizar requisições enquanto minha princesa sofria sozinha naquele bosque?
Na noite seguinte esperei que o sonho viesse mas não veio. Não conseguia pensar em outra coisa. Então saí para dar um passeio, tentar arejar um pouco minha alma sufocada. Olhando para a lagoa, escutei a voz da princesa. Estava distante, quase não ouvia. Mas ela era sim. Fiquei radiante. Aquilo era um sinal. Então voltei para casa com a certeza de que muito em breve eu a encontraria.
Eu ainda amo você, Luciane. Mas a princesa, como explicar?, é algo mais antigo, mais profundo… Ela é de uma terra onde o tempo é diferente, sem passado nem futuro. Lá tudo acontece agora, você entende? Eu sei porque estive lá. E estarei novamente esta noite.
Beijos.
Junior
.
Luciane continuou olhando para o papel. Tentava organizar as idéias mas todo o seu pensamento era um emaranhado de interrogações girando sem parar. A cabeça latejava e o coração batia descompassado. Que diabo afinal estava acontecendo?
De fato, no início não ligara. Com o tempo, porém, o interesse de Junior pelo quadro lhe botou uma pulga atrás da orelha. Mas nem de longe imaginou que a coisa pudesse chegar a tal ponto.
Não mais o viu depois do incidente com o quadro. Porém, pensando sobre o assunto, lembrou que nos últimos tempos ele andava mais quieto e pensativo, questionando coisas e vindo com considerações filosóficas a respeito de sua vida. Olhando agora, talvez houvesse faltado um pouco mais de tato de sua parte para entender o que se passava. Ele dizia que andava precisando ficar sozinho mais tempo e ela considerou que ele não mais a queria. Talvez não fosse nada disso. Talvez ele ainda a amasse mesmo.
Aqueles dias serviram para rever algumas idéias. Decidiu que pediria desculpas. E tentaria ser mais compreensiva. Ela o amava muito e não imaginava a vida sem ele. Claro que ele também tinha seus defeitos. Mas primeiro era preciso não perdê-lo, isso agora era o mais importante. Por isso resolvera procurá-lo.
Mas agora… aquela carta… E se ele estivesse lhe aprontando uma brincadeira? – pensou, subitamente irritada. Junior bem seria capaz disso sim. Ela ali preocupada e ele em algum lugar por aí, rindo de sua cara. É, ele estava lhe aprontando alguma. E ela fazendo papel de boba, perdendo tempo com os delírios de um cara metido a cavaleiro garboso e sua princesa casadoira. Conheceu outra mulher e agora inventava aquela palhaçada. Pois se quisesse, que a procurasse para esclarecer a situação. Tinha mais o que fazer.
E foi embora, batendo a porta.
.
MAS ELE NÃO A PROCUROU. Os dias seguiram e a indefinição a deixava nervosa. Estava com saudades. E muito, muito preocupada. Aquela carta não fazia sentido. Não podia ser uma brincadeira. E ainda havia a questão do trabalho: ele faltava já fazia uma semana, os colegas também estavam preocupados. Breve a mãe dele ligaria para ela querendo saber notícia do filho.
No entanto, como crer naquela história? Sentia-se ridícula pensando nele num bosque encantado, procurando por uma princesa. Claro que não falara a ninguém da carta, quem levaria a sério? Mas precisava dividir com alguém aquela loucura.
Voltou ao apartamento três dias depois. Estava decidida a chamar a polícia. Foi até o quarto e pegou o quadro sobre a cama. Então percebeu algo tão estranho que teve de tapar a boca para não gritar. Ali, no quadro, no exato local onde o caminho fazia uma curva para entrar de vez no bosque, ali havia uma nova figura, uma pessoa que não estava lá da última vez. E, olhando bem… era Junior.
Luciane largou o quadro sobre a cama. Um medo gelado lhe subiu a espinha. Respirou fundo várias vezes e depois, mais calma, reuniu coragem e olhou novamente o quadro. Havia mesmo um detalhe novo na paisagem. Havia alguém vindo de dentro do bosque em direção à princesa. A imagem não estava nítida mas era uma pessoa. E o rosto parecia com o de Junior, o formato, o cabelo, os olhos… Ou será que aquela pessoa sempre estivera ali? Não, impossível.
Luciane fechou os olhos e disse para si mesma, mentalmente: Junior está dentro desse quadro. Ao mesmo tempo que resistia à idéia, sentia seu pensamento sendo atraído para ela. Junior estava naquele quadro, podia sentir isso. E quanto mais se deixava envolver pela idéia, mais absurda ela se tornava.
Olhou novamente. E se fossem dois quadros? Em sua brincadeira, Junior bem poderia ter substituído o primeiro por aquele segundo. Mas não, não. Por que ele se daria ao trabalho de fazer tudo aquilo, por quê? Não fazia sentido.
Decidiu dormir no apartamento. Estava com medo mas precisava descartar a hipótese de que seu namorado lhe pregava uma peça, ele sempre fora muito brincalhão. Dormindo ali, talvez o surpreendesse chegando para trocar o quadro. Precisava tentar.
Quase não conseguiu dormir de tanta ansiedade. Levantou assim que o dia clareou, exausta. A primeira coisa que fez foi pegar o quadro. E lá estava a mesma pessoa chegando pelo caminho – dessa vez, no entanto, a imagem estava mais nítida. E não havia dúvidas: era Junior sim. E ele estava bem próximo da princesa, quase tocando-a.
Luciane olhava impressionada. Da noite para o dia os contornos da figura adquiriram maiores detalhes, como se alguém houvesse retocado o quadro. Não havia engano: aquele era seu namorado… vestido feito um cavaleiro medieval.
- Junior… – murmurou, enquanto acariciava o quadro. – Junior, você está aí?
De repente deu-se conta do que fazia. Uma crise nervosa desceu-lhe feito uma descarga elétrica e ela começou a chorar. Chorava pelo namorado que não sabia onde estava. Chorava também pela possibilidade de estar sendo vítima de uma bizarra brincadeira. E chorava, principalmente, pela possibilidade de tudo aquilo ser verdade.
.
A MOÇA DO BALCÃO suspendeu os olhos do livro que lia e olhou para Luciane.
- Bom dia. Meu namorado comprou este quadro aqui mês passado. – Luciane tirou o quadro da mochila. – Foi você quem vendeu pra ele?
A loja de usados. Quem sabe lá…
- Estou lembrada, fui eu mesma. Algum defeito? – perguntou a atendente, examinando o quadro.
- Não, não é isso. É que… bem… – Como dizer uma loucura daquela? – Você lembra se o quadro tinha esse detalhe aqui, esse cavaleiro?
- Se tinha esse homem aí? Como assim?
- Tente lembrar, é importante.
- Não estou vendo nada de errado nele.
Luciane suspirou. Não ia ser fácil.
- Moça, eu sei que você não vai acreditar mas… Olha, eu tenho fortes motivos pra acreditar que meu namorado… caiu dentro desse quadro. – Pronto, falara. Estava dito. – Ele é esse cavaleiro que está vindo pelo caminho…
A atendente olhou para o quadro e depois para ela. Viu o rosto cansado de Luciane, a expressão angustiada.
- Seu namorado… caiu dentro do quadro?
Luciane sentiu que ia chorar novamente. Controlou-se e tentou falar. Mas não conseguiu. Sentia-se ridícula. A atendente continuava observando-a. A situação toda era absurda, irreal.
Então compreendeu que era inútil, estava fazendo papel de louca.
- Esqueça o que eu falei – ela disse, puxandoo quadro de volta, pondo-o na mochila. – Não devia ter vindo aqui.
Quando se preparava para deixar a loja, um homem surgiu, vindo da sala ao lado.
- Por favor, não vá agora.
Era um sujeito baixo, moreno, barrigudo, o cabelo preto numa enorme trança que descia pelo meio das costas. Devia ter seus cinquenta anos. Luciane olhou curiosa. Ele tinha um olhar forte mas amigável.
- Se não for incômodo, gostaria de ouvir sua história.
.
A PEQUENA SALA tinha uma luminosidade suave que vinha de um vitral colorido na janela. No ar pairava um agradável cheiro de incenso. Havia objetos antigos como baús, candelabros e estatuetas. Muitos livros numa estante de madeira e belos quadros pelas paredes. Luciane sentou-se numa cadeira que parecia ter quinhentos anos de idade.
Reparou no homem que sentava do outro lado da mesa. Tinha trejeitos femininos. E falava com sotaque espanhol. Era meio calvo na frente mas atrás o cabelo descia numa trança até o meio das costas. Figura exótica.
A atendente entrou trazendo uma bandeja.
- Chá de capim santo, querida – ele falou. – É bom pros nervos. Obrigado, Ana Isaura. Agora pode nos deixar a sós, está bem? Não atendo ninguém.
- Dona Carlota tem consulta às seis, seo Javier.
- Desmarque, mulher. Diga que minha vó menstruou e que eu saí correndo pra lá. Passar bem.
Luciane riu. Exótico e gozador.
- Está gostoso, Luciane? Isso, tome que vai fazer bem. – Ele bebeu um pouco. – Dou consulta de tarô, meu anjo. E resolvo outros babados. Atendo aqui mesmo na loja. Nunca ouviu falar do tarô do Javier?
Tarô do Javier… Onde se metera?
- Você deve estar se perguntando: onde que eu fui parar, minha Virgem, não é? Mas não se preocupe, veio ao lugar certo. Eu vou ajudá-la. Vamos lá, me conte essa história direito.
Luciane pesou a situação. Certamente se tratava do maior charlatão da cidade. E aquele sotaque espanhol devia ser puro golpe de marketing. A trança enorme nas costas, o jeitão de bicha… Vai ver nem era bicha, era tudo marketing. E a túnica branca, por que não usava? Certamente para não ficar estereotipado demais. Vestia jeans, tênis e camisão estampado por fora. Aquela gente sabia como fazer a coisa.
Entretanto, por algum motivo simpatizara com ele. Tinha uns olhos pretos que olhavam duro mas eram amáveis. É, talvez não custasse nada contar para ele. Para quem mais afinal?
Então contou que Junior comprara o quadro ali e que se afeiçoara exageradamente a ele. Contou que ele falava muito da princesa mas que ela, pessoalmente, nunca viu nada de especial. Falou da crise por que passava a relação, da discussão por causa do quadro e que depois ficaram sem se falar por uns dias. Javier escutava atento.
- Uma semana depois, como ele não atendia o telefone, fui até lá. E só encontrei esse quadro. Quando voltei no outro dia, Junior começou a aparecer na paisagem, vestido de cavaleiro… – ela falou e sorriu sem jeito, nervosa, esperando que Javier sorrisse também. Mas ele continuou compenetrado, olhando em seus olhos. – E aqui estou eu.
Não falara da carta. Proposital. Queria ver até onde o sujeito era mesmo bom naquelas coisas. Fosse o caso, depois diria que não sabia da carta. Não se podia vacilar com aqueles tipos.
- E o que você acha? Qual o seu palpite?
Ele queria saber qual a sua expectativa, raciocinou Luciane. Sabendo isso, jogaria de acordo. Gente esperta.
- Pra ser sincera, não sei mesmo.
Javier pediu o quadro. Ela tirou da mochila e entregou.
- Hummm, bom gosto pra homem, heim?…
Ele segurou o quadro com as duas mãos e fechou os olhos. Por um tempo assim ficou, a cabeça reclinada para trás, num movimento circular e vagaroso, respirando fundo.
Ela acompanhava com atenção seus movimentos. Sentiu vontade de rir mas se controlou. Quando tudo se resolvesse Junior iria lhe pagar direitinho aquele ridículo todo, ah, iria sim, o cretino.
Javier abriu os olhos.
- Babado fortíssimo, meu anjo.
- Heim?
- Olha, não deu pra ver os detalhes mas fizeram coisa bem feita com seu namorado.
- Uma mulher?
- Mulher. Mas não deu pra ver de quem se trata.
- Taí, não sabia que eu tinha uma rival… – ela ironizou. E não teve como evitar a lembrança de algumas amigas, umas certas colegas de escritório dele… Mas não, aquele papo era conhecido. Agora o charlatão ia dizer que podia desfazer o feitiço e que cobrava tanto mas, como simpatizou com ela, deixava por tanto…
- Essa moça é poderosa.
- Eu conheço?
- Talvez. Mas ele conhece bem.
- E o que vai acontecer?
- Ele parece que está enfeitiçado. É como se estivesse sendo atraído por ela.
Ela lembrou da canção triste da princesa…
- Ela deve ter atraído seu namorado com este quadro. Ele veio aqui e comprou, levou pra casa. Crau! Mordeu a isca direitinho.
- Mas onde ele está agora?
- O quadro está mostrando, meu amor. A princesa representa a mulher que jogou o feitiço nele. Ele já a encontrou. Agora vão ficar juntos.
- Você quer dizer que esse cachorro está me passando um chifre por aí? – ela falou sorrindo, tentando mostrar que aquilo não a afetava. Mas se descobriu verdadeiramente irritada com a tal hipótese. Talvez aquela priminha dele que vez em quando vinha para a cidade…
- Em outras palavras… é isso mesmo.
- Mas que diabo de mulher é essa que faz um homem largar casa, trabalho, se mandar, não avisar ninguém?…
- Babado forte, meu anjo, já falei. Não crê em bruxa?
- Não.
- Pois acabou de topar com uma.
Ele só podia estar inventando tudo aquilo. Mas como explicar o que acontecia com o quadro?
- Claro que você tem o direito de desconfiar, meu bem. Acontece que enquanto você desconfia, a rival ganha terreno.
Ele pôs o quadro sobre a mesa.
- Javier, eu não sou a pessoa mais cética do mundo, pode ter certeza. Mas você há de convir que qualquer pessoa sensata concordaria que essa história parece mais uma grande loucura.
- Se é loucura, o que é que você está fazendo aqui?
(…)
.
(Este conto integra o livro Guia Prático de Sobrevivência para o Final dos Tempos)