Sala Vip – Ago2008

agosto 30, 2008

Muito obrigado a você que é Leitor Vip e, assim, me ajuda a viabilizar minha carreira de escritor independente.

Se você é Leitor Vip deste blog, já recebeu a senha que dá acesso aos Arquivos Secretos. Espero que esteja aproveitando bem! Em breve faremos o primeiro dos sorteios exclusivos pros Leitores Vips.

A seguir a relação dos textos (até agora) dos Arquivos Secretos. Pra ler, clique aqui.

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> A professora de literatura do meu marido – Graziela, professora de lieteratura, linda, culta… e escrava sexual.

> Minha experiência omossexual – Umas férias no sítio, aquele clima idílico, a Natureza… Ih, vai rolar!

> A Jurema e as portas da percepção – Relato completo de uma experiência xamânica que mudou a vida do escritor

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Amiga eleitora, amigo eleitor

agosto 26, 2008

Ricardo Kelmer 2004

Estou aqui, ocupando um pouco de sua valiosa atenção, pra lhe dizer que sou um candidato diferente. Eu mereço o seu voto. Por quê? Porque sou franco

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Olá, amigo eleitor, amiga eleitora. Estou aqui… Heim? Ah, é, esqueci. Mulher tem que vir antes, tem que puxar o saco delas. Ok, vamos começar de novo. Meu cabelo não assanhou? Olá, amiga eleitora, amigo eleitor. Estou aqui… Ah, é mesmo, tem que olhar no olho. Televisão é um saco.

Olá, amiga eleitora, amigo eleitor. Estou aqui, ocupando um pouco de sua valiosa atenção, pra lhe dizer que sou um candidato diferente. Eu mereço o seu voto. Por quê? Porque sou franco. De todos esses rostos que você vê todo dia na sua tevê, e tem cada assombração, né, eu sou o único verdadeiro. Por quê? Porque eu digo a verdade, duela a quien duela… Heim? Não pode dizer isso? Lembra o ex-presidente? Ah, pega mal, já entendi. Desculpe, minha amiga, meu amigo, mas temos que seguir os marqueteiros. Afinal pagamos caro por esses modernos maquiadores de palanque.

Primeiro vamos logo deixar claro uma coisa. Esqueça esse negócio de representatividade. Político não representa ninguém a não ser ele mesmo. Se algum colega meu disser o contrário, das duas uma: ou ele está mentindo ou ainda não entrou no jogo. Ainda. Você vota e esquece pois eles vão esquecer você. Estamos entendidos? Muito bem.

Por que estou na carreira política? Ora, porque é o melhor emprego do universo. Pelo menos no Brasil. Você trabalha pouco, ganha muito e não sabe o que fazer com tanto privilégio. De quatro em quatro anos você distribui dentadura na favela, meia dúzia de cadeira de roda pra instituição beneficente, treina o sorriso e aprende a responder pergunta cabeluda com aquela frase que começa com “Veja bem…”. Aí você bota uma roupinha mais simplizinha, sai no sol quente apertando mão cheia de calo, põe criancinha feia no colo, promete coisas impossíveis, posa ao lado do prefeito e pronto, tem mais quatro anos de moleza pela frente. E se souber fazer a coisa, ainda garante umas indicações, assegura umas verbinhas pro município, abre uma estrada em frente à sua fazenda… Projeto de lei? Ah, isso é muito chato. Mas vá lá, você contrata uma turma aí, eles estudam o caso e preparam um projeto bacana, distribuição de colchonete pra população carente. Pro povo, quando cair morto, pelo menos não bater a cabeça.

Não, não estou sendo cínico, estou sendo franco. Você, por acaso, não ia querer um emprego desses, com direito a férias toda semana, abono, jeton, extra, extra adicional, auxílio paletó, auxílio cueca, custo moradia, custo telefone, custo tudo? Sem falar nas aposentadorias. Sem falar que você mesmo aumenta seu salário, já pensou? Sem falar na impunidade parlamentar. Sem falar nos desvios. Ah, minha amiga, meu amigo, nada se cria, tudo se desvia. Tem gente que desvia avião, um troço grande daquele, imagine merenda escolar, que cabe no bolso da calça. Sim, tem essa tal de CPI, eu sei. Mas, cá pra nós, CPI na verdade significa Comissão que Parece que Investiga. Você acha que político vai sacanear o colega de profissão na cara dele? Não vai, é tudo comprometido.

Se eu penso no país? Pra quê? O país por acaso pensa em mim, pensa em você? País não pensa. E este nosso não vai mudar nunca. Mudam as moscas, minha filha, mas a merda é a mesma. Quem é rico fica mais rico e quem é pobre que se dane, quem mandou nascer? Como é que pobre consegue empréstimo se banco só empresta dinheiro pra quem já tem dinheiro? Como é que alguém vai deixar de ser pobre se só pra poder trabalhar tem de passar quatro horas preso num ônibus? Aliás, como é que alguém pode ganhar dinheiro se passa o dia inteiro trabalhando?

Político é um bandido eleito. Estou exagerando? Então veja o percentual de políticos envolvidos em algum tipo de crime. É bem maior que a média da população. Política é bandidagem politicamente correta. Mas tem que saber fazer senão com o tempo a profissão fica desacreditada. Por falar em tempo, o meu acabou. Foi um prazer conversar com você. Espero que me honre com seu valioso voto. Tudo que prometo é franqueza. Aliás, já estou cumprindo. Meu nome é Franco Fortuna, o único político que cumpre antes de prometer.

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Ricardo Kelmer – blogdokelmer.wordpress.com

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> Tornozeleira neles – Nossos parlamentares são como crianças que devem sempre ser vigiados de pertinho – um minuto de desatenção e pronto, já estão fazendo o que não devem

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> Os tumores malignos do Congresso – Enquanto o salário mínimo sua e sofre pra acompanhar a inflação, os parlamentares presenteiam-se com estupendos salários, zombando dos idiotas que os elegeram

> Sete de Setembro Negro – Vista preto no Dia da Independência em protesto contra a corrupção e a impunidade.

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Pesadelos do Além

agosto 21, 2008

Ricardo Kelmer 2008

O pior pesadelo pra um escritor é ser psicografado. Ou melhor: ser mal psicografado

Nada pode ser mais aterrorizante pra um escritor que a seguinte situação: dia do lançamento de seu novíssimo livro, ele sentado na mesinha, o lugar todo preparado, a pilha de livros em espiral, o fotógrafo ao lado pra registrar as presenças ilustres… e ninguém aparece. Putz, que horror!

Acabo de descobrir, porém, que existe um pesadelo bem pior. Não, não falo desses textos com falsa autoria que analfabetos literários repassam aí pela internet, matando o escritor de vergonha por ver que milhares de pessoas acham mesmo que ele escreveu aquele texto horroroso. Isso é de lascar mas nesse caso pelo menos podemos ir à tevê e nos defender.

O pior pesadelo pra um escritor é ser psicografado. Ou melhor: ser mal psicografado. Putz, me dá uma fininha de nervoso só de imaginar essa possibilidade… Não acredito em Deus mas se um troço desse me acontecer, juro que entrarei com um processo contra ele por permitir uma barbaridade dessa. Espíritos, reencarnação, psicografias, todo mundo é livre pra acreditar no que quiser, até em promessa de político. Mas fazer isso com a pessoa depois que ela já bateu as botas, aí é muita covardia.

Foi dia desses. Alguém me enviou uma letra musical que teria sido escrita por John Lennon depois de morto. A letra era tão cheia de beatitudes e bem-aventuranças, uma pieguice espiritual tão grande, que das duas uma: ou John de repente virara coroinha ou então onde ele estava só rolava fumo da pior espécie. Putz! Só alguém que não conhece porra nenhuma de John Lennon poderia supor que aquela coisa horrenda seria obra dele. Poisbem. Depois desse dia o alerta vermelho foi acionado na Central RK e percebi a gravidade da situação: e se eu morresse e alguém psicografasse uma crônica minha que falasse de seres de luz, jardins celestiais e coisitais? Argh!!!

Mania horrorosa a desse povo, de converter a gente depois que a gente morre. Magali, por exemplo. Além de ateia, Magali sempre foi uma escrota de marca maior e nunca nem botou os pés numa igreja. Aí um dia Magali morre e uma semana depois, no centro espírita, recebem uma mensagem dela: Queridos paizinhos, amada irmãzinha, que a graça de Deus e Nosso Senhor Jesus Cristo ilumine vossos corações e… Como é? Amada irmãzinha?! Mas um dia antes de morrer ela queria decapitar a irmã e jogar a cabeça no lixão! Vossos corações?! Mas Magali não tinha nem primeiro grau completo! Então ela, além de se converter e virar santa assim que morreu, ainda fez um supletivo de português? Não, isso é demais.

Imagino que nesse ponto do texto haja algum espírita indignado comigo. Paciência. Particularmente, pra mim faz sentido que após a morte haja algum tipo de continuação da vida ou que, após morrer, o cidadão desperte e entenda que tudo foi uma viagem de LSD mucho loca, sei lá. Mas psicografia? Bem, isso até poderia ser interessante caso a vida pós-morte fosse tão tediosa que a única diversão de um escritor como eu se resumisse a ditar contos de sacanagem pro seu público encarnado. Mas acho que ainda não existe centro espírita moderninho assim pra topar receber esse tipo de cartinha.

Então quero desde já deixar claro, claríssimo, que eu, Ricardo Kelmer, terráqueo nascido em 1964 na província de Fortaleza Desmiolada de Sol, atribuído da autoridade a mim concedida por eu ser eu mesmo, e de plena posse de minhas faculdades mentais, não, melhor tirar essa última parte, eu não autorizo ninguém, absolutamente ninguém, a psicografar, psicoaudializar ou canalizar ou receber seja como for quaisquer textos de minha autoria, na íntegra ou em parte. Heim? Não, nem mesmo se o texto for de sacanagem. Não dá pra abrir exceções pois não terei como criar um grupo de avaliação pra autenticação autoral. Ninguém tá autorizado e pronto. E quem disser que recebeu, meus representantes legais poderão processar o engraçadinho.

Ufa! Agora já posso partir em paz. Mas… e se um dia eu, lá dos cafundós do Além, sentir uma vontade danada de escrever um novo livro? Como farei se ninguém estará autorizado a psicografar? Não tem problema: escreverei o livro e darei um jeito de publicar no Além mesmo, não se preocupem, até porque por essa época certamente alguns leitores meus já estarão por lá. Mas novos leitores desencarnados serão sempre bem-vindos, claro! Afinal, já pensou eu, sentado na mesinha do Além, a pilha de livros toda linda em espiral, a equipe de tevê do CulturAlém a postos… e ninguém aparece? Que horror!

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Ricardo Kelmer – blogdokelmer.wordpress.com

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> O dilema do escritor seboso – Certos escritores amadurecem cedo. Tenho inveja desses. Porque nunca viverão o constrangimento de não se reconhecerem em suas primeiras obras

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01- Adorei, Ricardo! Denise Santiago, São Paulo-SP – jan2012

02- genial… Glaucia Costa, Fortaleza-CE – jan2012

03- Ai ai, ai, essa Jurema te fez um belo estrago! kkkkkkkk, tô aqui rolando de rir! Lindão, se você for primeiro do que eu pode sussurrar seus textos no meu ouvido que eu prometo ser fiel às suas sacanagens, será um imenso prazer psicografar suas criações! E desde já te prometo ser fiel nas insanidades e nas filosofias! Maria do Carmo Antunes, São Paulo-SP – jan2012

04- De fato, Kelmer. Quero inclusive te informar que dentre o próprio meio espírita se reconhece que muita abobrinha foi e vem sendo escrita na área da psicografia. Hoje ando afastado do movimento, mas mesmo quando fui parte integrante dele questionava esses absurdos. Só vejo um contra-senso em teu texto. Se você não crê nessa possibilidade comunicativa, não deveria, teoricamente, incomodar-se em nada quanto à fidedignidade das mesmas num futuro batimento de botas. rsrsrsrs A não ser é claro, que você tenha se utilizado da licença poética. Brennand de Sousa Bandeira, Fortaleza-CE – jan2012

05- O escritor transmite as ideias q lhe vem à cabeça. Cabe ao leitor optar pela interpretação que mais lhe agrade… ou mesmo discordar de tudo q está escrito. Denise Santiago, São Paulo-SP – jan2012


O Despertar do Herói (treiler da palestra)

agosto 15, 2008

Ricardo Kelmer 2008

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Tá no ar o treiler da palestra O Despertar do HeróiA jornada sagrada de autorrealização nos mitos, no cinema e em nossas vidas.

Esta é uma das minhas palestras mais solicitadas, tanto por empresas quanto por colégios e faculdades. Nela falo de Mitologia, Psicologia, Autoconhecimento e Realização Pessoal numa linguagem simples pra mostrar que o mito da Jornada do Herói, presente nas histórias de tantas culturas, nos livros e nos filmes, é uma metáfora do processo de autorrealização, a jornada individual de todos nós rumo à nossa essência mais verdadeira.

Da mesma forma que os heróis dos mitos e do cinema, cada um de nós tá predestinado a se realizar verdadeiramente e, com isso, tornar-se o grande Herói de sua própria vida. Mas antes é preciso, como o herói de Matrix, despertar, distinguir-se da massa, conhecer-se e assumir a tarefa que dará sentido à existência.

Saiba mais sobre as palestras

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Profissão Escritor – Pergunte aqui

agosto 14, 2008

Ricardo Kelmer 2008

Você gostaria de perguntar algo sobre a profissão de escritor, processo de criação etc?

01- Amanda, Belo Horizonte-MG – dez2006
primeira curiosidade que tenho: quando você decidiu expor sua arte, tinha quantos anos? E, seus familiares davam palpites sobre você ter decidido trabalhar com a escrita? segunda: suas lindas obras sobre mulheres são baseadas em mulheres reais ou você imagina elas? (parei de numerar) Como você faz pra escrever um texto? Tipo, você tem a idéia e começa a escrever ou você escreve a todo tempo, “tudo” pode ser um tema para seu texto? Já fez algum texto em dupla? …eu poderia encher essa página, mas me responde primeiro essas.. tem mais…

01a (quando você decidiu expor sua arte, tinha quantos anos?)
RK - Comecei a mostrar o que escrevia aos 10 anos, eram redações do colégio e historinhas curtas. Na adolescência escrevia poemas, letras de música e contos eróticos (já era tarado naquele tempo). Eu mostrava tudo pra amigos e namoradas. Aos 18, na faculdade, publiquei um livretinho de poemas xerografado, junto com o comparsa Roberto Maciel, e a gente vendia de mão em mão – com a grana ia tomar umas no boteco depois da aula. Nessa época comecei a escrever crônicas. Com 27 anos comecei a publicar crônicas em jornal. Aos 30 publiquei o primeiro livro.

01b (seus familiares davam palpites sobre você ter decidido trabalhar com a escrita?)
RK - Meus pais gostavam de ver meu interesse pelos livros e pela literatura mas como sabiam que a carreira de escritor era algo muito difícil e incerto, preferiam pro filho algo mais convencional e seguro, como uma carreira militar (estudei dos 11 aos 14 anos em colégio militar) ou que eu trabalhasse com meu pai, que era dono de uma clínica veterinária ou então que eu prestasse concurso pro Banco do Brasil, essas coisas. Faziam isso sem me pressionar. Mas eu insisti em ser escritor e ainda hoje pago um alto preço pela decisão. Vilma e Galvão respeitaram minha escolha e sempre que eu precisei, eles me ajudaram. Isso foi fundamental. Mesmo temerosos, foram os meus pais meus maiores incentivadores.

01c (suas lindas obras sobre mulheres são baseadas em mulheres reais ou você imagina elas?)
RK – Obrigado pelo “lindas obras”, você é muito generosa. Meus trabalhos sobre mulheres são baseados em mulheres “reais” e “não reais”. No primeiro caso, são textos que nasceram da minha história individual, das mulheres que conheci. Alguns são registros fiéis de determinada experiência, outros misturam lembrança e fantasia. Quando a personagem da história é “não real”, eu imaginei a mulher. Nesse caso ela pode ser uma reunião de aspectos femininos de várias mulheres que conheci pessoalmente ou que só conheço de longe.

01d (Como você faz pra escrever um texto? Tipo, você tem a idéia e começa a escrever ou você escreve a todo tempo)
RK – Eu engravido da ideia e tenho que botar pra fora. Às vezes o texto sai rápido, outras vezes demora muito e o parto é difícil e doloroso, principalmente quando o texto envolve aspectos psicológicos meus dos quais ainda não estou bem consciente. Nesse caso, além de um trabalho profissional e artístico, é também algo terapêutico, de autoconhecimento. Por outro lado, quando tento parir um texto sem passar por esse processo natural de gravidez, estou então escrevendo algo que não pediu pra nascer e, muitas vezes, que não quer nascer mesmo. O resultado é quase sempre um texto ruim. Pelo menos pra mim. Por isso não gosto de aceitar escrever sobre temas que não me pediram, eles mesmos, pra serem escritos.

01e (Já fez algum texto em dupla?)
RK – Em dupla não mas já criei roteiros de sitcom pra tevê em equipes de cinco, sete pessoas. Funciona mas é preciso metodologia, disciplina e um líder pra guiar a equipe pela viagem das ideias. Só funciona mesmo se cada um trabalhar pra equipe e não valorizando apenas suas próprias ideias.

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02- Milani Iskandar, Goiânia-GO – dez2006
oq te levou a começar a escrever?! qnd foi q descobriu q qria ser escritor?! e q tipo d texto foi o primeiro pra vc falar é isso q qro!? Li a cronica em q vc fala do livro do Fernando Sabino e tals… tava vendo a sua resposta falando q vc engravida da ideia e tals… eu já sou diferente só consigo escrever qnd to muito triste, na maioria das vezes eu escrevo entre lágrimas e dps de alguns dias pego o texto pra ler e nem acredito q fui eu q escrevi… ja aconteceu isso com vc?!

02a (qq te levou a começar a escrever?!)
RK - Antes de pensar em escrever, eu fui fisgado pela leitura. Eu tinha 7 anos e havia aprendido a ler. E adorava ficar na biblioteca do colégio Santo Inácio, em Fortaleza, folheando os livros infantis. Havia algo de mágico naquele ambiente, nos livros… Eu estava encantado com a descoberta da leitura. Acho que foi aí que a literatura me fisgou. Ainda na infância, contraí uma pneumonia que me obrigou a ficar vários dias de cama e meu pai teve a brilhante ideia de me dar livros e revistas pra eu me ocupar durante a recuperação. Ainda hoje lembro da sensação de felicidade por ter aquelas coisas todas pra ler. Foi então que me deu vontade de também criar histórias como as que eu lia.

02b (qnd foi q descobriu q qria ser escritor?! e q tipo d texto foi o primeiro pra vc falar é isso q qro!?)
RK -
Aos 9 anos eu tentava escrever versinhos pras minhas professoras. Como não sabia, um dia pedi ajuda ao meu pai. Ele, muito gozador, escreveu num papel e me mostrou: Pra minha professora / Dona Conceição / Receba em seu aniversário / Este caroço de feijão. Putz, fiquei puto, claro. Quanto desrespeito pra com um poeta iniciante! Mas foi aos 10 que comecei a escrever minhas primeiras historinhas, curtinhas, geralmente de aventura. Aí a ficha caiu e eu vi que era aquilo mesmo que eu queria pra minha vida.

02c (só consigo escrever qnd to muito triste, na maioria das vezes eu escrevo entre lágrimas e dps de alguns dias pego o texto pra ler e nem acredito q fui eu q escrevi… Ja aconteceu isso com vc?!)
RK -
Muita gente escreve apenas se estiver motivado por emoções. Porém, se você deseja realmente ser uma escritora profissional, não pode depender de estados emocionais propícios. Terá que aprender a escrever profissionalmente, ou seja, produzir textos como um artesão produz suas peças pra vendê-las e assim se sustentar. Essa mecanização do processo às vezes decepciona os candidatos a escritor pois muitos ainda estão iludidos com a ideia romântica de escrever sob as ordens do coração e coisital. Mas a mecanização do ato de escrever é importante porque prepara o escritor pras exigências do mercado. Quanto a se surpreender com o que se escreve, isso ocorre porque durante o processo criativo a consciência se abre pro inconsciente e expressa em forma de arte os conteúdos desconhecidos que vêm de lá, desse lado de nós mesmos que não conhecemos. Nesse momento você está num estado especial de consciência, como sob efeito de uma droga, e cria. Depois você volta ao estado de consciência ordinário, onde geralmente não há tanto contato com o inconsciente, e então se surpreende com o que criou, mais ou menos quando lembra do que fez durante um porre. Sua missão agora é integrar devidamente à consciência os novos conteúdos de seu ser que vieram à tona. Se conseguir, você alargará sua consciência, tornando-se mais consciente de si mesma, de suas potencialidades, seus medos, e se tornará cada vez mais íntima de si mesma. E conhecerá melhor suas potencialidades criativas. Estará no caminho pra ser uma pessoa autoconsciente e equilibrada e também uma escritora criativa e competente.

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03- Gabriel de Fassio, Brasília-DF - abr2007
Oi, tudo bem! Tenho algumas dúvidas sobre o processo de criação da obra literária. Quando você começa a escrever, mesmo ser for um texto longo (romance, por exemplo), já sabe o destino das personagens e o que ocorrerá durante a trama? Não sei o que é melhor: ter uma idéia inicial e desenvolver o tema até chegar ao final, ou realizar um esboço das idéias e apenas começar a escrever quando a trama já estive bem desenvolvida na mente do escritor. Como você procede?

RK - Não existe um método melhor que outro quando o assunto é processo de criação. Cada escritor acaba desenvolvendo seus próprios métodos. No meu caso, na maioria das vezes os textos (curtos ou longos) nascem de uma ideia inicial e eu começo a escrever sem saber exatamente como terminará. Gosto de deixar que o próprio texto mostre o caminho e confio tanto nesse processo que jamais tenho qualquer dúvida que dará certo. E sempre dá. De uns anos pra cá, porém, passei a unir o RK escritor com o RK roteirista e em alguns textos longos de ficção (conto ou romance) prestabeleço um esquema de apoio, determinando de antemão o percurso da história, as viradas da trama e até mesmo o final.

Pra você ver como esse lance de processo criativo é louco, vou te contar algo bem curioso. Enquanto escrevia meu romance O Irresistível Charme da Insanidade empaquei num determinado ponto do desenvolvimento do personagem Luca. Como na história ele lia o I Ching, tive a ideia de tirar um I Ching pro personagem – quem sabe o oráculo chinês não me clarearia as coisas? Sei que parece estranho mas como eu estudo o I Ching e sei de suas potencialidades, achei que poderia funcionar. E, de fato, o hexagrama que saiu me deu a ideia que eu precisava pra finalizar a construção do personagem. No seu caso, talvez seja interessante testar os dois métodos e ver como eles funcionam: numa história você deixa a história se escrever por si própria e em outra você prestabelece um roteiro.

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Você gostaria de perguntar algo sobre esses temas? É só deixar seu recado nos comentários aqui embaixo que logo responderei neste mesmo espaço.

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O Irresistível Charme da Insanidade – cap 2

agosto 14, 2008

O amor insano. O amor desafiador do tempo. O amor que descortina as mais absurdas possibilidades do ser.

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O IRRESISTÍVEL CHARME DA INSANIDADE

CAPÍTULO 2
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DO RESTAURANTE, enquanto tomava café, Luca observava o camping ao lado. A barraca azul estava lá, no mesmo lugar, a alguns metros da sua. Mas Isadora não estava. Moça interessante…, ele pensou. Interessante mas infelizmente maluca. Aquelas ideias de levar a vida sem planos… Então ela estava ali porque sonhara com um cara que não conhecia e que devia encontrá-lo numa praia do Nordeste? E o cara era ele? E aquela história de saltar no abismo? Não. Era muita doidice.

Após o café Luca pegou a trilha, rumando para leste, em direção ao mar. Quando chegou à encosta, o sol já ia alto no céu, a bola de fogo sobre o horizonte impondo-se lentamente dia adentro. Enquanto admirava a paisagem, ele não pôde evitar de se comparar a ela: a Natureza não fazia força alguma para ser o que era, ao passo que sua vida era o oposto…

De repente os gritos de uns garotos pegando onda o despertaram de seus devaneios. Ficou olhando para eles, admirado de suas habilidades, os corpos feito pranchas, deslizando firmes na água. Levantou e desceu a encosta, disposto a se divertir um pouco com o mar. Quando chegou, percebeu que as ondas eram maiores que imaginava mas entrou mesmo assim, escolhendo ficar um pouco distante dos garotos para não atrapalhar.

Na primeira onda que se ergueu à sua frente, faltou-lhe coragem e ele mergulhou para escapar, quase sendo arrastado pelo repuxo. Desistiu também na segunda, com medo. Na terceira, a mesma coisa. Começou a se achar ridículo.

Quando a onda seguinte veio, jurou para si mesmo que não desistiria e aguardou sua chegada. Ela veio e, quando chegou, ele deixou-se erguer. A onda ganhou mais força e de repente quebrou. No instante seguinte ele viu-se solto no ar, caindo, e a imensa massa de água caindo por cima dele. Luca perdeu totalmente o controle do próprio corpo e, submerso, passou a girar e girar, feito um boneco desengonçado. Em certo momento bateu a cabeça na areia e ficou tão zonzo que sequer sabia para que lado estava o céu.

De repente, quando já estava esgotado e respirando água, tudo ficou silencioso e sem dor. Parecia não estar mais na água. Parecia estar fora do tempo. Então ela surgiu bem à sua frente… uma mulher de vestido branco… Era bonita e olhava silenciosa e compreensiva para ele. Soube instantaneamente que a conhecia de muito tempo atrás, tanto tempo que seria inútil tentar lembrar. Ela lhe estendeu a mão e ele compreendeu que se a aceitasse, todo sofrimento se dissiparia como um sonho ruim do qual se desperta. Tudo que precisava era segurar sua mão, só isso…

Então sentiu agarrarem seus cabelos. Percebeu que o puxavam à superfície. Por um segundo pensou em protestar, em pedir para ficar ali embaixo, mas não teve forças. Foi levado pelos garotos para a areia, onde vomitou e aos poucos foi melhorando. Eles explicaram que ele não deveria mergulhar sozinho, que aquelas ondas eram muito perigosas. Luca agradeceu e ficou ali, sentado na areia, enquanto os garotos voltaram para o mar e continuaram desafiando com naturalidade as enormes ondas. Como conseguiam controlá-las?

Quando chegou ao camping foi que realmente se deu conta de que quase morrera. Que merda! Estava vivo por um triz. Entrou na barraca e sentou-se, assustado, ainda envolvido pelas sensações. Lembrou da alucinação, a mulher de branco – por que ela lhe era tão familiar? E lembrou também que, por um rápido instante, teve em suas mãos a decisão do que aconteceria, que poderia tentar o derradeiro esforço para se salvar ou poderia aceitar a morte.

Não teve tempo de decidir. Mas… e se realmente tivesse tido chance de optar? Prosseguiria lutando, se debatendo e sofrendo até o último instante ou se deixaria levar, tranquilamente, para longe do sofrimento, junto à mulher de branco?

Levantou, buscando afastar o incômodo que sentia. Não gostava daquelas coisas, a morte, o além… Melhor não contar para ninguém e esquecer o assunto. Então armou a espreguiçadeira e pegou o violão. Um pouco de música para afugentar o além.

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UMA LUA MINGUANTE subia no céu de Tibau do Sul junto com as primeiras estrelas. Em frente à barraca azul uma pequena fogueira crepitava, mantendo afastado o frio da noite. Sobre uma toalha, Isadora arrumava um prato com queijo.

– Faz séculos que não faço um piquenique – disse Luca, chegando com o vinho.

– Aproveita que está em pé e guarda este livro, por favor.

– I Ching, o livro das mutações… – ele disse, pegando o livro das mãos dela e pondo dentro da barraca. – Já ouvi falar.

– É o oráculo do Taoísmo – ela respondeu. – Funciona como um instrumento pra você se investigar psicologicamente, pra captar os seus movimentos internos e harmonizá-los com os externos.

– Muito místico pro meu gosto.

– Você se concentra numa questão, mexe as varetas ou as moedas, anota os resultados e no final lê a mensagem. Mas o objetivo de todo taoísta é um dia não precisar mais de oráculo pra conseguir captar os movimentos.

– E pra quem não acredita, como eu, funciona?

– Sempre funciona. Mas talvez você não capte a essência da mensagem.

Luca abriu o vinho e serviu.

– Vamos brindar a quê? – ele perguntou.

– Aos movimentos que nos trouxeram até essa fogueira.

– Boa.

Tocaram os copos e beberam. E ele reparou como ela estava bonita sob a luz bruxuleante da fogueira.

– E a história que você disse que ia me contar?

Ela olhou séria para ele. Em seus olhos Luca pôde ver o reflexo inquieto do fogo, a dança colorida das labaredas… Nesse momento teve uma sensação estranha, um princípio de vertigem. Sentiu-se puxado para dentro de um outro estado de ser, mais leve, mais distante…

– Dois anos atrás comecei a ter um sonho recorrente – ela começou. – Era sempre o mesmo lugar, na Espanha, um povoado pequeno… Parecia final da Idade Média, século dezesseis, por aí. No sonho tinha uma criança brincando mas eu nunca via os olhos dela. Esse sonho se repetiu durante meses. Fiz hipnose com uma terapeuta e as imagens vieram mais fortes. Aí eu pude ver os olhos da menina. E me vi neles. E percebi que aquela criança era eu.

– Ora veja – comentou Luca, tentando não transparecer sua incredulidade em relação aqueles assuntos.

– Vi vários fatos da vida dessa menina passarem diante de mim, como num filme. Não só vi – eu vivi. Ou melhor, revivi, sentindo as sensações da menina. Não lembrei tudo mas lembrei muita coisa dessa vida.

– Como era a menina?

– Ela se chamava Catarina. Era uma adolescente pobre quando se casou com um alemão e foi morar com ele na Alemanha. Ele era um homem rico e ela aprendeu a ser uma dama. Ela tinha tudo pra levar uma vida tranquila e confortável mas um dia conheceu um missionário português e se apaixonou perdidamente… Enrique, o nome dele. Era jesuíta e conhecia pessoas importantes, viajava pra muitos países, sabia outras línguas. E era meio bruxo.

– Como assim?

– Pertencia a uma ordem secreta, essas coisas. Usava os sonhos pra saber o que rolava na Corte, as tramas políticas da Igreja, entrava no sonho dos outros… Ele visitava Catarina nos sonhos e juntos viviam experiências em outros planos da realidade, uma coisa bem louca. Um dia ela fugiu com Enrique. Mas algo deu errado na fuga e ele desapareceu.

– Morreu?

– Não sei. Porque na verdade Catarina nunca soube. Mas é uma curiosidade que eu tenho. É provável que tenha sido preso ou algo assim. Catarina procurou por ele durante anos, de cidade em cidade. Mas não encontrou. Nem nos sonhos ele apareceu mais.

– Deve ter arrumado outra.

– Não. Ele a amava demais.

– Esse negócio de amar demais nunca termina bem. Mas e depois?

– Ela… Bem, ela enlouqueceu.

– Enlouqueceu? De verdade?

Isadora demorou a responder. Luca percebeu que ela estava emocionada.

– Sim, ficou louca, de verdade. A falta de Enrique a consumiu até o fim da vida. E ela morreu assim, procurando por ele.

Durante algum tempo ninguém falou nada e o silêncio que se formou era como uma sombra entre eles. Luca teve vontade de perguntar que interesse ela tinha em lhe contar aquela história mas sentia que não devia fazê-lo, que era melhor ficar quieto. Em vez disso, perguntou:

– Você lembrou mesmo de tudo isso?

– É mais que lembrar, Luca. Eu vivi de novo.

– E você acredita mesmo que foi essa Catarina?

– Eu não acredito. Eu fui.

Isadora olhou para a fogueira. Apanhou algumas pedrinhas e atirou às chamas.

– E você, Luca? Essa história não lhe diz nada?

– Não acredito em reencarnação.

– E o bruxo português?

– O que é que tem ele?

Ela continuou jogando pedrinhas na fogueira. Luca abriu a boca para repetir a pergunta quando outra ideia lhe veio.

– Peraí. Você não está achando que eu sou esse Enrique, né?

Ela não respondeu.

– Naquele seu sonho, eu disse isso, que fui esse Enrique?

– Não. Mas eu reconheci Enrique em você – Ela virou o rosto, olhando calmamente em seus olhos.

Luca riu, constrangido.

– Foi depois desse sonho que decidi largar tudo. E vim atrás de você.

Ele simplesmente não sabia o que dizer.

– Só que tem algo errado… – ela falou, esforçando-se para sorrir. – Era pra você lembrar também.

Ele respirou fundo, tentando organizar as ideias. Então aquela mulher largara tudo para encontrar alguém de outro tempo, de outra vida, que ela agora procurava nessa vida, viajando pelas praias do Nordeste? E ela achava que ele era o tal alguém? Então estava explicado o comportamento estranho dela, as insinuações… Mas aquilo era uma loucura, uma completa loucura. E era como uma névoa a envolvê-lo…

– Isadora, tenho uma sugestão – ele disse de repente. Precisava se afastar daquele assunto – Vamos ouvir música? Eu trouxe o violão.

Ela fez que sim com a cabeça. Ele levantou, avisou que primeiro iria ao banheiro e saiu, dirigindo-se ao restaurante. Quando retornou, Isadora não estava mais lá. Ele olhou para a barraca azul fechada e suspirou, desanimado.

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LUCA ABRIU UM OLHO, depois outro e finalmente os dois juntos. Ainda estava escuro e fazia um pouco de frio. Ajeitou-se sob o lençol, lembrando a noite anterior, as doidices de Isadora, sua tal vida na Espanha, Catarina, o bruxo português… A insanidade tinha olhos cor de mel.

Súbito escutou seu nome. A voz de Isadora. Levantou-se e, enrolado no lençol, abriu a barraca. Agora já era dia e chovia fininho.

– Serviço de despertador pro senhor Luca de Luz Neon. Meio-dia.

Isadora sorria à sua frente. Estava ainda mais bela…

– Meio-dia? Caramba, dormi demais.

– Vem.

– Pra onde?

– Passear.

– Com essa chuva aí?

– Claro. Há quanto tempo você não brinca na chuva?

Ele esfregou os olhos, pensando na capacidade que ela tinha de dizer certas coisas como se fossem as mais simples e lógicas do mundo.

Minutos depois seguiam caminhando lado a lado pela estradinha de areia. A chuva caía leve, formando poças e espalhando pelo ar um frescor relaxante. Em pouco tempo estavam ensopados.

– Se eu chegar gripado na gráfica vai ser uma merda.

– Esqueça só por um momento que pode adoecer.

– E eu não comi nada ainda. Acho melhor…

Mas ela já saía correndo à sua frente. Luca apressou o passo, desajeitado, a água escorrendo pelo rosto. Isadora já havia sumido na curva. Ele começou a correr e um chinelo atolou na poça de lama.

– Isadora, me espera!

Então, de repente, ele lembrou que um dia… muito tempo atrás… uma noite… E parou de correr, tomado pela inquietante sensação de já ter vivido aquele momento antes, em algum tempo longínquo, quando? Um dejá-vu. Isadora sumindo na chuva, sumindo… os pingos nos olhos, um trovão ecoando… ele ali parado, ofegante, ela sumindo, ele gritando seu nome… Onde vivera aquela mesma cena, e quando, em que impossível tempo?

Continuou ali, parado sob a chuva, absorvido pela misteriosa sensação. Mas foi por pouco tempo pois logo dominou-o um angustiante pressentimento de que se não corresse, aquela mulher sumiria de sua vida mais uma vez.

Mais uma vez?

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AINDA CAÍA UM RESTO de chuva quando a noite desceu em Tibau do Sul. No restaurante da pousada, Luca e Isadora tomavam um caldo de peixe, ele saboreando cada pedaço daquele delicioso momento: o gosto do caldo, a chuva, a musiquinha na rádio… Luca sentia a cabeça flutuar leve e os pensamentos vagarem sem critérios. Pela primeira vez naquela viagem sentia-se verdadeiramente descontraído. Os problemas que o esperavam em Fortaleza agora pertenciam a uma distante realidade e a realidade em que ele estava naquele momento era feita de coisas tão simples…

Ele olhou para Isadora à sua frente, entretida em seu prato, e admirou-se de como ela combinava com o momento, a chuva que caía lá fora, a simplicidade do lugar… Isadora parecia viver num outro patamar de apreensão das coisas, que ele não alcançava. Ela percebia a essência das coisas com naturalidade, enquanto ele precisava de muitíssimo esforço para… ser simples.

Que horas? Talvez algo entre seis e sete, ele calculou mentalmente. Ou oito e nove. Poderia perguntar mas não, não queria saber do tempo, o tempo já não importava, estar com Isadora era como estar fora dele.

Ela o havia arrancado de seu sono e o levara para conhecer as delícias de uma tarde chuvosa, um velho prazer esquecido de infância. Correram pela estrada, tomaram cachaça e olharam a chuva debaixo de tetos de palha. Riram de velhas piadas e comeram milho assado. E agora estavam ali, tomando caldo de peixe. Um dia perfeito. Como todos os dias deveriam ser.

– Desculpa por ontem, Luca. Não queria que ficasse constrangido com aquela história que contei.

– Você realmente sonhou comigo? – ele perguntou, dividido entre a curiosidade e o receio de retomar aqueles assuntos.

– Podemos falar de outra coisa?

– Claro.

Ele sentiu-se aliviado. Melhor mesmo não falar daquilo. Havia algo ali que o incomodava bastante, algo que ele não sabia precisar.

– Então me fala sobre o Taoísmo, fiquei curioso. É uma religião antiga, né?

– Tem uns cinco mil anos. Há o lado religioso mas prefiro o filosófico.

– E como é?

– Não vou te contar.

– Por quê?

– Você vai rir.

– Prometo que não rio.

– Ah, pensando bem, é pra rir mesmo.

– Não vou rir, eu juro.

– Filosoficamente falando, o Taoísmo é um modo intuitivo de entender a realidade. Um modo que o jeito ocidental, com toda sua lógica científica, não consegue entender. Dá um nó no pensamento.

– Como seria um modo intuitivo de entender a realidade?

– Captar os movimentos naturais da vida pra agir em harmonia com eles. É isso que o Taoísmo ensina.

– Então um taoísta é alguém ligado à Natureza?

– É alguém que está conectado com o Tao, ou seja, consigo mesmo e com a Natureza, com as verdades simples e naturais. O Tao é a unicidade de tudo que existe, aquilo que liga todas as coisas e liga também o eu ao todo. Se você se harmoniza com o Tao, fica mais simples viver. Mesmo vivendo no ritmo louco da cidade grande, é possível se manter ligado com a mente da Natureza.

– Mente da Natureza? Você andou fumando?

– Não – ela respondeu, rindo. – Deixa ver se consigo explicar. A Natureza é a vida e a vida tem seus movimentos, suas estações. É essa conexão com o natural que guia o taoísta por entre todo o caos. Sabe quando a gente se apega demais a uma coisa? Isso é antinatural. Porque aquela coisa se transforma o tempo todo e a gente continua apegado a algo que não existe mais. O que não muda, apodrece. Esse dinamismo é o Tao.

– O Tao seria um deus?

– O Tao não é uma entidade personalizada como os deuses das religiões. É algo impessoal, que não tem vontade nem tem moral. O Tao já é a própria ação da vida, o fluxo natural da realidade.

– Não sei se entendi.

– É porque não dá pra explicar o Tao. Só dá pra intuir.

– Aliás, sinceramente, nem sei o que tem pra entender nisso aí.

– Quem pergunta sobre o Tao não o imagina. E quem responde não o conhece.

– Estar em harmonia com as coisas… Isso me cheira a uma certa passividade, não?

– Pelo contrário. Captar o fluxo do Tao é um difícil trabalho interno, uma alquimia interior. Mas depois que consegue, você se ajusta às forças naturais da vida e se torna um com tudo que existe.

– E se eu quiser ir contra o Tao?

– Vai viver cansado.

Viver cansado… Luca escutou o eco daquelas incômodas palavras.

– Quem é uno com o Tao não precisa fazer nada. E, no entanto… nada deixa por fazer.

– Mas isso é contraditório.

– Eu não disse? Dá um nó no pensamento.

– Tao tem tradução?

– O ideograma chinês que corresponde ao Tao é feito de pé mais cabeça. O caminho, o sentido.

– Pra mim está mais pra “sem pé nem cabeça”… – Ele falou e riu. – Ops, desculpa.

– Não faz mal, pode rir – ela disse, rindo também. – Se não houvesse gargalhadas, não seria o Tao.

Ele terminou de tomar o caldo e ficou olhando para ela, se deliciando com o que via: os olhos cor de mel, o cabelo molhado, a boca bem torneada, os seios se insinuando por baixo da camiseta… e maluca, deliciosamente maluca.

De repente ela ergueu o rosto e seu olhar interceptou o dele. Ele sentiu-se flagrado em seu desejo sexual.

– Pensando em quê, Luca de Luz Neon?

– Ahn… nada.

– Eu sei. Quer que eu diga?

Ele fez que sim com a cabeça. Ela tomou a última colher do caldo, limpou a boca e falou, naturalmente:

– Nos meus peitos.

Ele não acreditou no que escutou.

– E, se quer saber, eu estava a-do-ran-do…

Primeiro foi o olhar de idiota dele. Depois foram as mãos, apertando-se sobre a mesa. Depois as bocas, o beijo ávido, o inadiável encontro das línguas. Depois a conta paga com urgência, pode ficar com o troco, o último gole apressado de cerveja, o caminho de volta para a barraca, correndo, debaixo de chuva…

Chegaram ofegantes e enlameados. Entraram na barraca dele e ajoelharam-se um de frente para o outro. Ela suspendeu a camiseta, lhe exibindo os seios, e sussurrou:

– Vem.

Ele se lançou sobre os seios daquela mulher com todas as mãos e bocas e línguas que possuía, como se fossem mangas maduras e suculentas e ele um miserável esfomeado. Ela agarrou sua cabeça e o puxou para si, enquanto arrancavam o que tivessem de roupa e rolavam, quase derrubando a barraca. Depois ela pôs-se por cima, prendeu seus braços e o cavalgou, subindo e descendo, subindo e descendo…

Luca fechou os olhos, em êxtase. Sentia-se envolvido pelas sensações de uma forma como nunca antes havia sentido. O olhar meio hipnótico de Isadora, a maciez da pele, o cheiro gostoso, o som musical de seus gemidos, o sabor irresistível de seu beijo… Tudo nela era bom demais, como podia ser tão bom? E tudo o envolvia de tal modo que pela primeira vez ele fazia sexo sem pensar exatamente no que fazia. Em vez de racionalizar, simplesmente fechou os olhos e deixou-se levar pelas sensações… a sensação de compartilhar seu corpo… a sensação de que algo o engolia… em sucções contínuas… ritmadas… o engolia…

De repente a explosão. Num segundo seus pedaços foram lançados para todos os lados numa velocidade impensável, milhões de fragmentos expelidos para o Cosmos sem fim. Então, enfraquecido pelo esforço, sentiu que deixava de existir, lentamente, diminuindo, apagando, morrendo… Para sempre.

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PRIMEIRO UM OLHO. Depois o outro. Luca mexeu-se sob o lençol, lembrando de Isadora, o passeio na chuva, a transa na barraca… A transa mais louca e mais maravilhosa de toda sua vida.

Então olhou para o lado e não viu Isadora. Teve um mau pressentimento. Levantou rapidamente e saiu. E lá fora, sob a luz clara do dia, não viu a barraca azul. Nem sinal dela. Ficou parado, sem saber o que concluir. Novamente sentiu a vertigem, uma sensação estranha de estar escorregando para dentro de um sonho… Por um instante foi tomado por um medo terrível de que Isadora jamais houvesse existido.

Pôs o óculos escuro, correu até o restaurante e lá perguntou pela moça da barraca azul. Ela já havia ido embora, respondeu um dos filhos de dona Zezé. Ele sentou-se, triste por não estar com Isadora mas aliviado por constatar que ela existia, que tudo acontecera de verdade. Pediu um café forte e foi sentar-se à entrada do restaurante. Enquanto tomava o café, olhou para o camping, para a barraca azul que não mais estava lá, e de repente a ausência de Isadora era um imenso e eterno vazio em sua alma. Que estranha sensação… Como era possível que algo que três dias antes sequer existia pudesse agora encher o seu ser de um vazio sem fim?

Quando chegou de volta à barraca foi que percebeu o papel dobrado sobre o lençol:

Te encontrei. Agora não há mais retorno. Salte no abismo.

 

Uma hora depois, após desarmar a barraca e pagar sua conta, ele caminhava pela estradinha de areia em direção à rua onde pegaria o ônibus que o levaria para Natal, onde tomaria outro ônibus para Fortaleza. Nesse instante, uma pequena cobra marrom surgiu à frente, cruzando lentamente a estradinha. Ele estancou e recuou um passo. Não gostava de cobras, elas lhe faziam lembrar a morte, a morte que quase o levara no mar de Tibau do Sul. A cobra também parou e por alguns segundos ficou ali, olhando para ele. E depois seguiu seu caminho, sumindo mato adentro. Luca se certificou que não havia perigo e prosseguiu, imaginando o pesadelo que seria despertar à noite com uma cobra dentro da barraca.

– Mas bem pior seria despertar dentro da cobra… – brincou.

No ônibus, ele leu o bilhete pela décima vez. Saltar no abismo. Que abismo?

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(continua)

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Ricardo Kelmer – blogdokelmer.wordpress.com

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CAPÍTULOS
Prólogocap 1cap 2cap 3
cap 4

cap 5 – cap 6 – cap 7 – cap 8
cap 9 – cap 10 – cap 11 – cap 12

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Protegido: A Jurema e as portas da percepção (VIP)

agosto 12, 2008

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Minha noite com a Jurema

agosto 12, 2008

Ricardo Kelmer 2001

Nessa noite memorável fui conduzido para dentro de mim mesmo pelo próprio espírito da planta, que me guiou, comunicou-se comigo, me assustou, me fez rir e ensinou coisas maravilhosas

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Em 1999 participei de um ritual no Santo Daime, com o chá Ayahuasca. Foi uma experiência intensa e reveladora – mas extremamente difícil, que exigiu muito de mim, física e psicologicamente, durante várias horas. Dia seguinte, ainda assustado, estava convicto que jamais me meteria com isso novamente, que o melhor era que meu interesse por estados especiais de consciência ficasse apenas nos livros e filmes.

Mas mudei de opinião após refletir bastante sobre tudo que me ocorrera. Entendi que esse tipo de experiência podia, de fato, me ajudar a entender melhor a vida e a mim mesmo. Concluí que alguns fatores me impediram de aproveitar melhor a oportunidade, como o orgulho, as regras e filosofia da seita e o medo de perder o controle. Eu precisava de outra chance. Estava disposto a tomar novamente o chá e empreender nova viagem ao interior de mim mesmo. Porém, só tentaria novamente se fosse fora do ambiente das seitas.

A oportunidade chegou no ano seguinte: o convite de uma amiga antropóloga para participar de um ritual xamânico com o chá de Jurema, outra planta psicoativa, que cresce no semiárido nordestino. Aconteceria na casa de um seu amigo, também antropólogo, e seria algo mais descontraído e desvinculado de dogmas – que normalmente compõem as seitas que utilizam chás de plantas de poder.

Nessa noite memorável fui conduzido para dentro de mim mesmo pelo próprio espírito da planta, que me guiou, comunicou-se comigo, me assustou, me fez rir e ensinou coisas maravilhosas.

Sim, sei perfeitamente que afirmar isso soa como atentado à racionalidade. Mas não me importo. Aprendi definitivamente nessa noite que o que chamamos razão é apenas uma das ferramentas humanas para apreender a realidade e que ela, a razão, deve ser descartada em certas situações onde precisamos ampliar a percepção da vida. Se nessa noite eu insistisse para que meu lado racional se mantivesse no controle dos fatos, repetiria o mesmo erro da experiência anterior, com a Ayahuasca, quando usei a orgulhosa racionalidade durante horas, num esforço ingênuo, inútil e muito doloroso, tão-somente para barrar o curso natural da experiência. A racionalidade é vital para a vida, sim, mas infelizmente ela se convenceu que a realidade deve ter seu exclusivo carimbo para poder existir.

Nessa noite de 2000, uma hora após ingerido o chá de Jurema, eu estava deitado tranquilo e confortável no sofá da sala e experimentava um intenso fluxo de ideias que se sucediam sem que eu tivesse total controle sobre elas. Foi aí que senti uma forte presença e entendi que se tratava da própria planta, ou melhor, o espírito da planta. Evitando racionalizar sobre o que me ocorria, logo percebi que deveria deixar que a própria Jurema me conduzisse pela experiência. Isso significava confiar inteiramente no fluxo natural das ideias e sensações, abdicando de qualquer controle racional sobre elas. Então fechei os olhos e soltei-me das últimas resistências. Mesmo ainda um pouco temeroso, depositei toda minha confiança na estranha força feminina que se apresentava e que em seguida, como se apenas esperasse minha concordância, passou a me conduzir pelas mais diversas ideias, sensações, sentimentos e revelações.

Mal a Jurema se manifestou fui tomado de um imenso respeito por ela, uma reverência que jamais sentira em minha vida. Entendi logo que ela era sábia e poderosa, além de muito, muito antiga. E era bastante amorosa, sem deixar de ser dura quando necessário. Ela não falava, pelo menos não como entendemos o “falar”, mas eu me sentia inteiramente envolto pela grandiosidade de sua presença como, imagino, um peixe “sente” o mar, e era através desse sentir que se processava a comunicação, através do meu pensamento e também do meu corpo. Eu me sentia protegido e muitíssimo grato por ser tocado por sua imensa sabedoria e generosidade. Se abria os olhos, essa comunicação perdia a força em meio às tantas informações do ambiente – por esse motivo mantinha-os fechados e bastava isso para me sentir novamente amado, compreendido e protegido pela espírito da Jurema.

Durante as quatro horas seguintes o espírito da planta esteve bem presente, me conduzindo, com firmeza mas amigavelmente, por um corredor cheio de portas. A cada porta que se abria eu me deparava com uma nova experiência interior, vivenciando sensações, ideias, sentimentos e revelações importantes sobre minha vida, meus relacionamentos, meu trabalho. Houve momentos de alegria e êxtase mas também momentos de tensão em que me vi forçado a encarar e repensar questões delicadas de minha própria personalidade. Houve também um momento em que me deparei com uma porta e nesse momento fui tomado de um terror nunca antes sentido. Eu não sabia o que me esperava além da porta mas sentia que era algo terrível. Então implorei à planta para me dispensar daquela experiência, fosse qual fosse. Para meu imenso alívio ela me atendeu.

A Jurema mostrou-me também a urgente necessidade de respeitarmos o planeta e de cuidarmos dele e nesses momentos o espírito da Jurema era o próprio espírito da Terra. Em vários momentos me emocionei e chorei baixinho. Sem dúvida, foi a experiência mais intensa e mais incrível que vivi em minha vida.

autotransformação

Pela manhã não consegui dormir, ainda eufórico. Sentia-me renascido, mais vivo e disposto do que jamais fui, maravilhosamente bem. Era como despertar de um longo sono.

A experiência dessa noite me transformou em outra pessoa. O senso de estar atavicamente ligado à Terra trouxe-me uma notável segurança e tornou-me mais confiante e tranquilo, ciente de minhas origens e de meu papel no mundo. Minha vida ganhou um novo sentido. É difícil explicar mas algo deslocou-se dentro de mim, mudando para sempre minha noção de quem sou eu, minha relação com o mundo e também minha noção do que é este planeta. Entendi que tudo tem uma espécie de consciência e que é possível se comunicar com animais, plantas e minerais e aprender com eles. Como, porém, esta comunicação não se processa no nível da racionalidade, é muito difícil para o intelecto aceitar tal fato, preferindo tratá-lo com desdém e descartá-lo como fantasia, superstição ou patologia.

Mas para mim não há dúvidas. Nessa noite abri minha alma para a sabedoria da Jurema e, através da planta, reconectei-me à minha verdadeira origem, à força sagrada que me gerou e que me nutre dia após dia: a Terra. Senti a imensidão de seu amor e me surpreendi por ter vivido tanto tempo sem senti-lo. Em termos junguianos, poderia dizer que vivi uma profunda experiência com o arquétipo da Mãe Terra, sendo envolvido por sua imensa força e vivenciando-o em ambas as polaridades, positiva e negativa, êxtase e terror. Mas gosto de entender a coisa assim: vivi um íntimo encontro com o espírito da Terra, essa mãe generosa e compreensiva que ama a todos os filhos, mesmo que eles tenham esquecido de onde vieram e o que devem fazer. Mas ela alerta: o preço que o filho pode ter de pagar por esse esquecimento é a sua própria destruição.

Os antigos já sabiam e os cientistas de hoje já reúnem provas: a Terra é um imenso organismo vivo. Além disso é dotada de um tipo de autoconsciência que ainda não entendemos bem, dona de um avançado senso de autorregulação bioquímica e capaz de se comunicar perfeitamente com tudo que nela existe, inclusive os seres humanos. Animais, vegetais e minerais, tudo que há na Terra são como células de um corpo que precisam estar em harmonia para que o todo funcione bem. Infelizmente as células chamadas humanos cortaram a ligação com sua origem e se desconectaram do todo, passando a se entender como algo separado. Essa ilusão tem causado terríveis problemas ao organismo inteiro, principalmente à espécie humana.

Plantas mestras como a Jurema têm o poder de despertar as pessoas. Mas entendo o medo que a maioria tem de largar sua racionalidade e saltar no escuro de suas próprias possibilidades psíquicas. Entendo também o pavor que as religiões cristãs têm da Natureza, sempre demonizando-a. No fundo, é o velho medo de ser livre. Porém, já que isso ocorre, seria maravilhoso se ao menos educássemos nossos filhos no respeito sagrado à Natureza e eles entendessem que a Terra é nossa casa. Ensinar isso já seria uma forma de lhes deixar um mundo muito melhor.

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Ricardo Kelmer – blogdokelmer.wordpress.com

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> Este texto integra o livro A Arte Zen de Tanger Caranguejos

> A Jurema e as portas da percepção (VIP)
Relato detalhado da experiência narrada em Minha Noite com a Jurema. Exclusivo para Leitor Vip. Basta digitar a senha do ano da postagem.

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LEIA TAMBÉM

> Xamanismo de vida fácil – A tradição xamânica dos povos primitivos experimenta uma espécie de retorno, atraindo o interesse de pesquisadores e curiosos

> Rio Droga de Janeiro – Série de três artigos sobre a questão da proibição das drogas

> Minha noite com a JuremaNessa noite memorável fui conduzido para dentro de mim mesmo pelo próprio espírito da planta, que me guiou, comunicou-se comigo, me assustou, me fez rir e ensinou coisas maravilhosas

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Comentarios01 COMENTÁRIOS
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01- sobre Minha Noite com a Jurema, a riqueza e o cuidado nos detalhes do ambientes e sentimentos, me fez sentir tudo que você viveu…achei demais… Teca Baima, Fortaleza-CE – mar2005

02- Adorei, muito, mas muito interessante essa sua experiência com a planta Jurema. Acredito bastante nesse tipo de experiência de encontro consigo mesmo e acho extremamente importante e válido, principalmente não sendo esse encontro ligado a nenhuma seita religiosa, por ele ser somente entre vc e a natureza… um dia será a minha vez… Daniela Cecchi, Rio de Janeiro-RJ – jun2005

03- Nem imagina como foi importante para mim ler sua experiência c Jurema. Desde 1ª dia q frequentei santo daime aqui em portugal q senti e “vi” que deveria estar incluída num ritual diferente em que, tal como você, poderia aproveirtar melhor a experiência. Infelizmente aqui em Portugal não é possível. Tudo que existe acaba por não ser uma variante do Daime onde os comandantes se conhecem. E se eu fosse a falar dos preços que praticam aqui, entao, vc ficaria abismado. Tenho uma pós-graduação (sou antropóloga) para finalizar sobre o assunto e por falta de apoio e oportunidade de recorrer a outras experiências não me é possível fazê-lo. Obrigada por seu texto. Anabela, Portugal – jul2006

04- Olá! estive lendo seus trabalhos e adorei! e sobre a experiência com a Jurema.. sabe me informar como é feito o chá e em que dosagem? sabe de algum site que explica isso ? ou tem algum contato que possa me ajudar? desde já muito grato! abraços e parabéns pela iniciativa. Felipe, Rio de Janeiro-RJ – dez2006

05- Gostei do seu relato sobre a Jurema. Engraçado. Talvez meio cósmico. Justamente há algumas semanas tive duas experiências com a Jurema e coincidentemente ao navegar em seu site dei de cara com esse texto. Vou relatar meu lance com a Jurema. As duas experiências tiveram intuitos opostos. Em uma, quis algo mais espiritualizado, por assim dizer. Na outra, química pura. A primeira foi fantástica. A segunda, bad trip. Talvez pelo fato de eu ter encarado a segunda tentativa sem o respeito inerente à sagrada planta. Eu deveria ter feito o contrário, ou melhor, nem deveria ter feito a segunda. O primeiro contato foi brando, poucas visões e muito tato. Senti uma ampliação incomensurável do toque. Ao me tocar, sentia toda minha essência e significado, chegando ao ponto de suscitar em saber minha existência nessa Terra maravilhosa. Sem pretensão alguma, senti o quanto eu era importante, especialmente para mim mesmo. Nem parei muito para pensar sobre ego, mas acho que tal experiência tocou nevralgicamente nele.

Na segunda experiência, apenas dei enfoque ao lado químico da planta. Pretendi sentir as moléculas de DMT me invadindo e apoveitar o que isso me traria. Foi péssimo. A onda veio muito turbulenta. Tive várias visões alucinadas. Exemplo, a parede do meu quarto que é branca ficou completamente dourada, e um relógio que fica nela sobressaiu-se, tornando se fluorescente, quase que saltando dela. Um prédio vizinho de fundos transformou-se num daqueles monumentos da Ilha de Páscoa e aproximou-se da minha janela a ponto de espiar para ver o que estava acontecendo comigo. Noutras horas o prédio se afastava e eu o via distante como um farol de navegação. O “som” do silêncio chegava a incomodar. Parecia o Ohm, ecoando fundo e intermitente. O mal estar físico foi grande. Muita náusea. Uma sensação de estar bêbado com cachaça. Daqueles porres que você quer “sarar” e não consegue. Durante toda viagem tive consciência do meu estado e procurava me acalmar para que a pira passasse logo. Demorou umas cinco horas. Quando acabou, contabilizei o lado bom da coisa e concluí que a Jurema deve ser encarada com propósitos mais elevados. Ricardo Rodriguez, São Bernardo do Campo-SP – jan/2007

06- olá!!! Kelmer sou uma leitora sua de Fortaleza e tb estudante de Jornalismo “ tô na luta´´´ já estive em umas de suas palestras q por sinal, me fez refletir muito sobre a vida sua palestra era uma reflexão sobre o filme Dom Juan com uma visão dos vários eu dentro de nós mesmo .enfim… pra mim foi em um momento de bloqueios q vida nos cria e q me ajudou muito ………Mas essa agora sobre uma noite com Jurema….rsrsrs cara vc é muito bom no escreve isso é muito louco !!!!!!!!!! mas como ñ ter sentido. Essa porra de racionalidade q muitas vezes nos impedi de viver e fazer algo ..sei lá tb pq tô te escrevendo isso….. Mas sucesso!!!!!!! Waleska Thompson, Fortaleza-CE – jun2007

07- Olha, hj li um texto seu sobre a sua experiência com a Jurema e, nossa, me tocou completamente! Como vc adentrou na essência da experiência…Parabéns pelo respeito e pela vivência que, imagino, tenha sido muito válida p ti… Estamos nos preparando para comungar com ela no próximo sábado…Apareça!!!rsrsrsrs!!! Rerlyn, Garanhus-PE – jan2009

08- Conheci o site procurando sobre autoconhecimento. Li um texto intitulado “Minha noite com Jurema”. Achei louco… bacana… Vou continuar visitando sempre o site!! Jana, Belo Horizonte-MG – mar2010

09- Maravilhoso o seu texto, as plantas mestras são como mães, duras quando preciso, mas sempre acolhedoras…eu nunca tomei Jurema, mas já tomei várias vezes a ayhuasca, e entendo perfeitamente o que escreveu, em uma experiência dessa a entrega é primordial, mas se entregar deve ser um dos atos mais difíceis do ser humano, na minha opinião….linda experiência sua, me emocionei lendo, porque me enxerguei também nela, gratidão por partilhar…tenho muitos relatos de quem já tomou a ayhuasca, que um dia quero transformar em um livro, é gostoso de ler e ver que as pessoas também sentem o que a gente sente…Obrigada… Silmara Oliveira, São Paulo-SP – ago2011

10- A razão não passa de uma porta trancada… O seres humanos são corpos estranhos no organismo Terra… Humm, gostei desse texto! Maria do Carmo Antunes, São Paulo-SP – jan2012

11- Vesti a carapuça com seu relato, e concordo que a mente/razão pode ser uma grande traíra quando buscamos um caminho de ampliação de consciência da realidade, mesmo sem o auxílio de plantas de poder (na meditação, por exemplo)…E como disse a Maria, esse assunto dá muuuito pano pra manga, afff…. Sheila Bombonato, Fortaleza-CE – jan2012

12- Huasca.. Huasca.. tenho vivências com essa belezinha. Quando desocupar aqui eu conto :) Nathalie Sterblitch, Resende-RJ – jan2012

13- Estive no Céu do Mapiá, o centro do Santo Daime no Rio de Janeiro por duas vezes. Cantei, rezei, dancei e tomei o chá a noite toda em intervalos de duas horas e a rigor não senti muita diferença. Só um leve torpor. Em alguns amigos a coisa funcionou… Fernando Veras, Camocim-CE – jan2012

14- Li seu texto e me recordei de uma experiência similar que tive em 1988 com uma amiga que dividia uma kitnet comigo em Ribeirão Preto, foi muito parecido com seu relato, inclusive revivi a experiência, como se o tempo que passou não existisse mais e eu ainda pudesse sentir as sensações que ficaram tão marcadas naqueles dias, tudo muitíssimo parecido, apenas a droga foi outra e a experiência foi em dupla e durou quase uma semana, pois nos empolgamos, conseguimos sentir juntas tudo que vc sentiu e ainda telepatizamos nossas impressões e trocamos muitas sensações indescritíveis e inesquecíveis, as impressões que isso deixou em mim foram tão profundas que mudaram o curso da minha vida e todas as pessoas com quem falei sobre isso até hoje deboxaram de mim, mas eu tenho plena certeza que foi transcendental e único, meio surreal, pois essa amiga não tinha tanta afinidade comigo, mas conseguimos juntas um canal de sintonia fora do normal e vivemos muitas sensações além juntas. Cibele Baptista, Barretos-SP – jan2012


Um ano na seca

agosto 11, 2008

O que pode acontecer a um homem após um ano sem sexo?
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Esta série foi publicada originalmente em capítulos semanais no antigo blog Kelmer Para Mulheres. Aqui você pode lê-la na íntegra, com os comentários.

Em 2008 Ricardo Kelmer publicou em seu blog, em capítulos semanais, a série Um Ano na Seca, um relato verídico de sua tragicômica experiência de abstinente sexual. Dosando humor e suspense, a história prendeu a atenção dos leitores por vários meses, principalmente das mulheres, que puderam conhecer certas particularidades do universo do desejo masculino que geralmente os homens preferem não revelar.

A versão livro de Um Ano na Seca foi lançada em nov2010. Livreto de bolso, 48 páginas.

PARA ADQUIRIR

PELO BLOG  DO KELMER

SITE DA VIA LIBIDO SEX SHOP (aceita cartão de crédito)
Via Libido Sex Shop – Av. Abolição, 2427 – Fortaleza-CE – 85-3242.9595

E TAMBÉM NA FESTA CABARÉ SOÇAITE

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UM ANO NA SECA

Ricardo Kelmer 2008
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EU JÁ FIQUEI UM ANO sem sexo. Verdade. Quer saber mesmo? Foi quando eu tinha 4 anos.

Ahahahah! Desculpe, leitorinha, não resisti à piada. Agora falando sério, já fiquei um ano no perigo sim, e eu já era quarentão, olha que coisa. Em 2004 eu havia me mudado pro Rio de Janeiro e, sem amigos com quem sair, sem namorada e sem dinheiro, tudo que eu fazia era ir pro trabalho e voltar pra casa. No começo não teve problema algum pois minha energia tava tão voltada pro trabalho e pra economizar grana que as ex-namoradas resolviam o problema. Comassim? Ora, era só lembrar delas na hora do banho…

Mas depois de seis meses a coisa começou a ficar feia e as ex já não resolviam, eu já havia homenageado todas elas, tava até repetindo.

Putz, mas será que você tá realmente interessada nesse papo de punheteiro véi safado? Bem, sejamos francos: se você frequenta este blog, é porque santa você não é, né? Então dá licença que eu vou continuar a história.

Seis meses de Rio de Janeiro. Seis meses sem dar nenhumazinha. Morando sozinho, vivia de casa pro trabalho e do trabalho pra casa, a energia totalmente voltada pra economizar o máximo de dinheiro possível. Sem amigos homens com quem sair, sem namorada, sem nem um rolinho sequer, o jeito era ficar em casa escrevendo e ouvindo música, bebendo sozinho. Vivia uma fase de repensar a vida e reavaliar valores, precisava mesmo de solidão.

No começo o tesão até que ficou comportado. Eu me resolvia com as ex-namoradas mesmo, homenageando-as durante o banho: apoiava um braço na parede, escolhia a ex da vez e mandava ver. A água quentinha escorrendo pelo corpo é uma diliça mas o perigo dessa posição, não sei se você sabe, é que as pernas ficam bambas, a vista escurece e bufo!, a gente cai pro lado, se estatelando duro no chão. Um dia caí e bati a cabeça na privada, fiquei com um galo horrível na testa durante uma semana. Mas os acidentes também têm seu lado positivo. Esse me fez perceber, finalmente, que aquilo já tava passando dos limites. No outro dia tomei uma decisão: revesti a privada com uma esponja.

Um dia abateu-se sobre mim a desgraça: eu lá, sob o chuveiro, pronto pra mais uma homenagem quando percebi que… o estoque de ex havia se esgotado. Simplesmente não tinha mais nenhuma ex, todas já haviam passado por aquele chuveiro, até mesmo os casos, os rolos de um mês, de uma semana, de uma noite, as ficantes, todas, todas. Putz, e agora? Desesperado, vesti uma roupa e saí. Nunca fui de pagar por sexo mas tava decidido: só voltaria pra casa acompanhado.

Voltei com Daniele, uma morena linda, jeitinho meigo, uma bunda doce e irresistível. Ainda tentei barganhar o preço mas o dono da banca foi irredutível. Paguei oito reais, pus a Sexy na mochila e voltei pra casa. Sou um cara exigente com mulher, até mesmo com mulher de papel, não gasto meus zóides com qualquer peladona não. Qualé? Tá pensando que achei os bichinhos no lixo?

Daniele me fez companhia durante algumas semanas. Como ela não gostava de água, namorávamos na cama mesmo, nada de chuveiro. Até que um dia…

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NÃO FOI NADA ENGRAÇADO ficar um ano inteiro sem sexo mas se isso hoje diverte o respeitável público, então ótimo, vou encarar a coisa como, digamos assim, uma saudável reciclagem das desgraças da minha vida pregressa.

Poisbem. Durante algumas semanas eu e Daniele vivemos bons momentos mas… havia um probleminha. Eu sempre queria Dani de quatro, ela ficava linda assim. Mas na hora H, quando eu tava chegando lá, a página virava e Dani passava pra outra posição, uma posição bem sem graça, que merda. Acabamos discutindo, eu querendo Dani safada de quatro e ela se querendo toda comportadinha numa poltrona.

Percebi que meus sentimentos já não eram os mesmos do início. Então fui até a janela e disse, sem olhar pra ela, mirando o fim de tarde lá fora: Beibe, preciso de um tempo. Ela ficou meio tristinha mas entendeu na boa. É uma vantagem das mulheres de papel, elas sempre entendem quando o cara precisa de um tempo. Daniele acabou na quarta gaveta do guarda-roupa, junto com a caixinha do brau. Até hoje desconfio que foi ela quem fumou o precioso, um especialíssimo que eu tinha guardado pro carnaval. Mas tudo bem, foi bom enquanto durou. Meses depois eu me mudei de Botafogo e desde então não tenho notícia de Dani, acho que a coitada caiu da mudança. Sorte de quem pegou.

Com isso, acabei voltando às ex-namoradas debaixo do chuveiro. Nada contra, claro, mas acontece que naquela secura de seis meses eu já havia homenageado todas elas, não havia sobrado nem mesmo uma fulana que anos atrás me atacou numa festa, terminamos num hotelzinho vagabundo e, quando acordei de manhã, a última coisa que eu lembrava era a gente saindo da festa e cadê que eu conseguia lembrar do nome da criatura? Nem do rosto eu lembrava mais. E até eu hoje não lembro. Imagine o estado do cidadão… Poisbem, até essa eu homenageei, lá debaixo do chuveiro. Homenageei sim, pra você ver a consideração que eu tenho com minhas ex e até com as taradas de festa, viu?

Foi aí que um amigo me apresentou Sonja. Que não era de papel.

Ih, infelizmente acabou o espaço. Posso continuar semana que vem? Não? Ah, mocinha, não seja tão exigente comigo, entenda minha situação, eu tô precisando desabafar, aprendi isso com vocês, botar pra fora os sentimentos, né isso? Então, tô botando. Mas não dá pra botar tudo de uma vez. Se você estiver aqui na próxima semana, eu continuo. Você vem, beibe?

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EU HAVIA CONTADO pra um camarada sobre minha trágica situação e ele, compadecido, combinou que me apresentaria a uma ninfeta deveras generosa chamada Sonja. O nome dela é esse mesmo?, perguntei. Não, não era. Era nome de guerra. Ah, tá. Sonja, a guerreira

Mas do jeito que eu tava a perigo, ela é quem teria que se defender.

Marcamos pra uma quinta-feira, lá mesmo em meu apartamento em Botafogo. Na hora marcada meu amigo chegou, devidamente acompanhado da ninfeta. Ele nos apresentou, fazendo umas piadinhas que me deixaram meio sem jeito. E ela pelo jeito já devia estar acostumada. Sentei na poltrona e eles no sofá. Botei um Led Zeppelin pra gente escutar mas acho que ela não curtiu muito, gostava mais de ripirrope. Servi domecq mas ela não bebeu, Sonja não bebia. Logo depois meu amigo foi embora, me deixando a sós com a ninfeta. Eu tava meio nervoso mas ela tava na dela, tranquila, me olhando com aqueles olhos grandes e verdes que ela tinha.

Lá pelas tantas achei que já tava bom de lero-lero: peguei Sonja pela mão e levei pra sacada pra gente ver o Cristo iluminado. Enquanto ela olhava eu não me aguentei mais nas calças e, bufo!, derrubei-a no chão, que nem um homem das cavernas alucinado. E comecei a soprar dentro dela. Nunca em toda a minha vida eu tinha feito aquilo, juro. Soprei durante meia hora e no final eu tava caído no chão, botando os bofes pra fora, parecia que havia corrido uma maratona. Em compensação Sonja tava bem cheinha. Meu amigo tinha razão: ela era bem fornida. Peituda e bunduda do jeito que homem do sexo masculino gosta.

Meu amigo me garantira que ela tava bem limpinha, ele a havia lavado no dia anterior. Mas achei melhor garantir e dei um bom banho na Sonja, com detergente e água sanitária, até botei um rexona no sovaco dela. De volta à sacada, nos encostamos na grade e enquanto eu bulinava sua bunda, recitei uns poemas do Vinicius pra fazer um clima assim meio romântico, de tudo ao meu amor serei atento. Olhei pra Sonja e ela tava de boca aberta, os olhos arregalados, certamente enternecida com meu esforço por agradá-la. Ela não me disse mas senti que meu amigo, com ela, não valorizava muito as preliminares. Homens…

Então os sete meses sem sexo gritaram dentro de mim e perguntei se ela queria ir pro meu quarto ou se preferia fazer ali mesmo. Você escolhe, Ricardinho… Acho que ela falou isso, não lembro bem. É que eu já tinha tomado metade do domecq e quando chego nesse ponto, dou pra ouvir coisas, ver gente morta, é um horror. Então eu escolhi o lugar, e escolhi ali mesmo, na sacada, sacomué, Sonja, sempre fui chegado em sexo em locais inusitados. Foi quando ela falou, maliciosa: Locais inusitados assim tipo o meu cu, né, fofo?

Nesse exato instante eu me apaixonei. Quem não se apaixonaria?

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SEMANA PASSADA EU PAREI na parte em que eu encoxava Sonja na sacada do meu palacete de Botafogo. E, enquanto recitava Vinicius, descobria-me apaixonado por uma boneca inflável, dessas mais fuleragens possíveis, até remendo ela tinha, acredita? Adivinha onde? Poizé. Meu amigo deve ter abusado muito da moça, coitada.

Aliás, homem na secura é um horror, você nem imagina do que somos capazes de fazer. E jovens, então, quando os hormônios são os nossos verdadeiros governantes e a cabeça de baixo sempre fala mais alto? Putz… Heim? Controle de qualidade? O que é isso?

No interior, até hoje o povo come jumenta, o povo homem, claro. Diz que é bem quentinho, aconchegante… E que ela nunca liga no dia seguinte já achando que tá comprometida pro resto da vida.

Por falar em jumenta… Corta agora pros meus saudosos vinte anos. A gente ia pra praia e na volta passava por um terreno onde sempre havia uma jumentinha amarrada, a Jupira. A Jupira tinha um bundããão… Pois a Jupira era apaixonada os quatro pneus e o estepe pelo meu amigo Perretis, é sério, era só a gente parar o carro que ela já se virava assim de ladinho e ficava toooda dengosa pra ele. E a Jupira ainda era fiel: um dia eu quis dar umazinha com ela e ela não quis não, só queria se fosse o Perretis. Putz, fiquei arrasado, quando um homem chega nesse ponto de nem jumenta aceitar, é mesmo a decadência total…

O Netonha, outro amigo fuleragem, na sua infância lá no Crateús era o terror das galinhas. Galinha de pena mesmo. Sim, é sempre bom explicar, porque em Crateús, sabe como é, né, ô terra boa… Diz que na casa do Netonha não escapou uma galinha: ele chegava das festas do sábado e, meio truviscado da cabeça, ia pro terreiro atrás da casa e traçava todas. O melhor é que no domingo o almoço sempre era galinha, a família toda comia, até o padre ia pra esses almoços. Uia.

Um outro amigo, o Marquim, uma vez comeu um peixe. Verdade. Ou era uma peixa? Não sei. Só sei que o peixe morreu e ele ficou muito arrependido e deixou de comer peixe. Mas o Marquim não conta, ele era tarado, nem caule de bananeira o disgramado dispensava, diz que tem uma textura boa. E eu? Bem, como minha infância foi urbana, não tive sorte de ter essas namoradinhas do dadivoso reino animal. Mas devo admitir que lá em casa sempre teve umas poodles bem fofinhas… Mas não, cachorra por cachorra, melhor as sem pelo. Mas uma vez eu estuprei um rolo de papel higiênico, eu juro. Ué, qual é o problema? Nenhuma menina queria me dar! E aquele era o único buraco decente que tinha por perto…

E você, leitorinha querida, fica só rindo dessas histórias cavernosas, né? Fica aí só achando graça desse bizarro universo masculino, né? Mas aposto que você também já teve aqueles dias de desespero em que a bacurinha só falta pegar um autofalante e gritar: Uma caridade, pelo amor de Jesuscristim!!! Ora se já não teve…

Taí, agora fiquei curioso. Mulher também sofre quando os hormônios sexuais botam a boca no trombone e, no entanto, não tem ninguém pra aliviar a tensão? Bem, imagino que vocês não apelam pros jumentos, afinal animal por animal, já bastam os homens, né, fia? Mas pra alguma coisa vocês devem apelar. Quem quer contar primeiro? Ah, vamos lá, boneca, fica só entre nós, vai. Pensa que eu não sei que você agora tá rindo aí do outro lado do computador, é? Poizeu sei. Se tá rindo é porque tem o que contar. Conta! Conta! Conta!

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ONDE PAREI MESMO? Ah, tá, eu e Sonja na sacada do apartamento, quinto andar, eu com meio litro de conhaque na cachola, irc! Bêbado que nem um gambá, sim, deploravelmente bêbado, mas a poucos segundos de finalmente acabar com a maldita seca que já durava sete meses. Poisbem. Após seu singelo consentimento, Sonja encostou-se na grade da sacada, de costas pra mim, aquele bundão espetaculoso, e eu abri a calça, baixei a cueca e botei o Jeitoso pra fora. Poizé, o nome dele é Jeitoso, tinha esquecido de apresentar vocês. Também conhecido no submundo do crime desorganizado como Jeitosão 17. Então. Nem preciso dizer como ele tava, né? Parecia menino em dia de aniversário, uma animação só.

Abri as nádegas de Sonja e vi que seu cu era rosado, um tipo raro por essas bandas. Não sei se você sabe, leitorinha, mas na Tabela de Estética Anal o cu rosado só perde pro cu salmon, este é raríssimo, tem gente que morre sem conhecer um cu salmon. Poisbem, Sonja tinha um cu rosado, muito simpático e convidativo, com certeza meu amigo já se deliciara bastante por aquelas vias. Afastei-me pra trás e mandei um golão no conhaque, um brinde a mim por suportar com tamanha dignidade sete difíceis e eternos meses sem dar umazinha sequer.

Nesse momento, porém, soprou um vento repentino e Sonja, vupt, voou por sobre a grade da sacada. Desesperado, larguei o copo e corri pra segurar. Mas não deu tempo: Sonja havia caído, despencado no meio da escuridão da noite. Putz. Fiquei ali parado por um tempo sem acreditar. Seo idiota incompetente!, gritou o Jeitoso, já murcho e muito puto, nem mulher inflável tu consegue segurar? Quando o sujeito não consegue nem manter uma relação com uma boneca inflável, ele precisa admitir que chegou ao fundo do poço.

Peguei o elevador e desci pro poço, quer dizer, pro térreo. Procurei lá embaixo na área lateral e não encontrei Sonja. Onde ela estaria? Olhei lá pra cima e entendi: ela caíra numa das sacadas abaixo da minha. E agora?

Voltei pro apartamento num dilema mortal. Não podia abandonar Sonja assim dessa maneira. E tudo que houve entre nós? E todo o futuro lindo que nos esperava? E seu cu rosado? Mas, por outro lado, cadê a coragem pra bater na porta do vizinho às duas da manhã? Oi, minha namorada caiu na sua sacada, você poderia pegar pra mim?

Não, minha dignidade jamais me permitiria descer tanto. Preferível comprar uma boneca nova pro meu amigo. Que merda… Desculpa, Sonja, eu não queria que tudo terminasse assim… A não ser… A não ser que eu desse uma de Homem-Aranha…

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TRUVISCADO DE DOMECQ como eu tava, considerei seriamente a hipótese de me pendurar na minha sacada e saltar pra sacada de baixo. O Resgate de Sonja – sexo, suspense, emoção… e uma perna quebrada. Felizmente um resquício de bom senso me fez desistir da aventura. Mas nem sempre tive esse tal bom senso, viu, isso é coisa da idade.

Restava-me bater na porta do vizinho. Às três da madrugada. Eu até poderia fazer isso, dada a minha lastimável condição de secura. Mas onde ficaria minha reputação de moço sério, trabalhador e respeitador dos bons costumes? Eu seria rebaixado à categoria de cruel estuprador de bonecas infláveis, que horror.

Voltei ao meu apê arrasado. E caí na cama à beira de um ataque de choro. Minha pobre Sonja, coitadinha, passaria o resto da noite no chão sujo de uma sacada, ao relento, nua e abandonada. Poderia pegar um resfriado, a bichinha. Adormeci exausto e deprimido. Putz, eu estivera a centímetros de dar fim àquela secura desgraçada que já durava sete meses… Mas o vento levou minha felicidade.

Tive pesadelos terríveis. Num deles Sonja me esnobava e preferia se suicidar a trepar comigo, e então se atirava da sacada. Irgh! Será que eu sou assim tão asqueroso? Só porque depois dos 40 comecei a ficar barrigudo, careca e banguelo? No outro pesadelo o vizinho do 702, logo o idiota do 702, enrabava minha Sonja na sacada e eu acordei suando de ciúmes, desesperado, ouvindo Sonja uivando de prazer… Que dor!

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ACORDEI NO DIA SEGUINTE numa ressaca horrorosa. A primeira coisa que fiz foi correr pra sacada e procurar por Sonja. Enquanto procurava, minha atenção foi atraída pro colégio que ficava ao lado do meu prédio. Era a hora do intervalo e os alunos jogavam futebol no campo de areia. E pareciam especialmente animados naquele dia, correndo e gritando bastante. Quando saquei o motivo, quase tive uma síncope cardíaca: a bola do jogo era nada mais nada menos que… minha querida Sonja, que subia e descia pelo ar, toda desmantelada, um braço já faltando, parecia um molambo voador.

Gritei pra eles pararem com aquela selvageria mas não me ouviram. Então desci e fui correndo até o colégio, expliquei o que acontecera e minutos depois um funcionário me trouxe o corpo de Sonja, seco e totalmente desfigurado, a cabeça decepada… Levei-a de volta pra casa, tentei encher e remontar mas foi impossível, o estrago fora enorme. Teria que comprar outra boneca pro meu amigo. Então deitei Sonja na cama e, olhando ela ali deitadinha… de bundinha murcha pra cima… pensei que ela merecia uma última e sincera homenagem.

Em toda minha vida de perigoso maníaco sexual eu nunca antes havia transado com uma boneca inflável. Nem com um cadáver. Agora quebraria dois tabus de uma só tacada. Olha só aonde a minha secura havia me levado! Estuprar uma boneca inflável morta, toda murcha, sem braço e sem cabeça…

Mas o estrago fora ainda maior do que eu imaginava. Aqueles monstrinhos assassinos haviam enchido os buracos de Sonja com todo tipo de coisa. Só da bucetinha dela tirei uma borracha, duas tampas de caneta Bic, um mp3 quebrado, um boneco Power Rangers e um bagaço de maçã, que horror. E o cu, o belo cuzinho rosado de Sonja, haviam tampado com um chiclete. Que absurdo, as pessoas não têm mais sentimento! Como podem fazer isso com um ser humano inflável?

Não deu, amiga, simplesmente não deu. Por mais maníaco sexual que eu seja, tudo tem um limite, né? A secura continuaria. Eita fase de urubu danada…

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APÓS A TRISTE DESVENTURA com Sonja, dei um tempo em minhas desesperadas tentativas de acabar com a secura sexual, que já chegava aos oito meses, que horror. Achei que era melhor me aquietar e deixar que as coisas acontecessem de forma mais natural. O problema é que as coisas não estavam acontecendo nem naturalmente e nem antinaturalmente, a maré tava braba mesmo. Sozinho numa cidade estranha, sem amigos, sem namorada, sem dinheiro pra sair, o que me restava?

Então tive uma ideia genial: decidi montar um harém. Sim, o Kelmer Harém de Celebridades (KHC). Pra quê? Ô, minha filha, que pergunta boba… Pra dar uma variada em minhas punhetas, lógico. Sim, variar, afinal fazia oito meses que eu homenageava minhas ex-namoradas quase diariamente, nem elas tavam aguentando mais tanta homenagem. Pra você ter uma ideia, desde que começara a secura, só pra Aninha eu já tinha tocado 105 punhetas. Você sabe o que significa isso, leitorinha querida? Pois vou te dizer. Se uma ejaculada tem em média 100 milhões de zóides, então só pensando na bunda da Aninha foram 10 bilhões de zóides que jamais tiveram nem jamais terão sequer uma remotíssima chance de ver um óvulo robolando à sua frente, coitados, ninguém merece.

Poisbem. Em poucos dias o melhor harém que jamais existiu na face da Terra tava todinho dentro do meu noutibuk, que era velhinho mas que com a chegada das meninas rejuvenesceu cinco anos. Tinha de um tudo no harém: loira, morena, ruiva, negra, índia, japonesa, esquimó. Tinha odaliscas do presente e do passado, de Brigitte Bardot às Sheilas do Tchan. Tinha celebridades e anônimas, lobas e ninfetas, profissionais e amadoras, ai, as amadoras. Infelizmente minha musa Ana Paula Bandeirinha ainda não havia posado pra Playboy… Senão ela também estaria no harém. Aliás, ela teria um harém só pra ela.

– Ricardinho, harém de uma odalisca só não existe…

– Ahnnn… É verdade, Ana Paula. Mas você teria mesmo assim. Pra você não tem impedimento.

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MAS CALMA LÁ, LEITORINHA. Só porque era um harém, não vá pensando que era só ser bonitinha ou gostosinha que já tava dentro. Nananinanão. Punheteiro safado sem-vergonha também tem seus critérios, ora! Afinal punheta é coisa séria, é uma homenagem singela e sincera às mulheres que amamos. E por mais tarado que a gente seja, a gente também tem nossas objeções. Essas modelos magricelas e sem bunda, por exemplo. Comigo não têm vez, quem gosta de osso é arqueólogo. Então magricela não entrou nenhuma.

Por falar em bunda, numa segunda fase o Harém de Celebridades se especializou: criei o harém dos peitos e o harém das bundas, olha que chique. Claro que por causa da minha tara que você já conhece, o harém das bundas ficou beeeeem mais numeroso. E como era o harém que eu mais visitava, todas queriam estar nele. Mas me mantive incorruptível. Adriane Galisteu, por exemplo, tentou dar uma de penetra mas foi barrada na porta, é muita pretensão mesmo! Gisele Bundchen tentou entrar também mas ficou só no harém dos peitos. Sim, Gisele, eu sei que os gringos admiram sua bunda, eu sei. Mas no Brasil, a média pra passar é bem mais alta, viu, fia?

O KHC tava indo bem. O problema era que, com essa minha velha mania de justiça, eu insistia em revezar as meninas, uma homenagem pra cada uma, pra que elas não se sentissem preteridas, você sabe, rola muita inveja nesse meio. Mas, putz, eram centenas de odaliscas! Se eu sentisse saudade da Karina Bacchi ou da Mulher Samambaia, que, por sinal, constavam com todo merecimento nos dois haréns, eu teria que esperar cinco anos pra poder vê-las de novo.

– Ah, não, Riquinha, assim não – Karina reclamou, é lógico. – Pode dar logo um jeito nessa situação.

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FOI ENTÃO QUE DESCOBRI algo revolucionário: era possível organizar as fotos num arquivo tipo slide e botar no automático. Uaaaaau! Ficou uma maravilha. O KHC tornou-se dinâmico, e eu nem precisava mais ficar clicando, agora a outra mão tava liberada pra dar um gole no Domecq. Minhas odaliscas agora desfilavam ordenadamente, uma após a outra, cinco segundos pra cada uma me seduzir com suas curvas, protuberâncias e malemolências…

– Ops, a Luma já foi chamada, Sabrina. É a minha vez. Tchau.

– Tchau, Grazielli. Depois me vê lá no Pânico, viu?

Algumas tinham mais fotos que outras, claro, e por isso se demoravam mais pros meus olhos. Porém, depois estavam livres o resto do dia pra fazer o que quisessem, passear no shopping, tomar chá com as amigas, fazer a escova… Estavam livres até pra me trair com quem quisessem. Desde que no outro dia estivessem de volta, lindas e dadivosas, tudo bem.

Ah, foram três meses de paz e tranquilidade com minhas meninas…

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UM DIA FUMEI UNZINHO. Você já transou fumada, leitorinha? Uau, é uma loucura… Comigo as sensações ficam tão amplificadas que eu todo viro um imenso caleidoscópio sensitivo, o tempo estica… Poisbem, fumei, deitei na cama, pus o noutibuk do ladinho e mandei ver. Foi tão bom, mas tão bom, mas tão bom, e o gozo tão intenso, tão intenso, e viajei pra tão longe, tão longe… que de repente só escutei o barulho: Pôôôu!!! Abri os olhos e vi que o noutibuk tinha caído no chão. Que merda.

Tantas mulheres lindas e gostosas de uma vezada só foi demais pro meu velho noutibuk de guerra. Dia seguinte mandei o coitado pra oficina mas não teve jeito de recuperar. Resultado: perdi todas as minhas meninas. Três meses formando meu harém e, de repente, elas se vão numa só gozada. Ô gozada poderosa! Fiquei tão arrasado que não tive forças pra chamá-las de volta, não quis mais saber de Danielas, nem de Julianas, nem de qualquer mulher de pixels. Nem mulher de papel. Nem de plástico. Enchi o saco de punheta. Quer dizer, esvaziei o saco. Caramba, eu precisava de uma mulher de verdade, dessas que todo dia passavam por mim na rua. E não me percebiam. Mas naquela cidade estranha, sem amigos e sem dinheiro, como fazer?

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NO CAPÍTULO ANTERIOR, você lembra, eu tava arrasado por ter perdido meu Harém de Celebridades, tão cuidadosamente e criteriosamente montado. E tava sem qualquer ânimo pra montá-lo de novo, apesar de toda a insistência das meninas. Até a Vera Fischer implorou, olhassó, a Verinha, ela que naquele tempo andava quietinha, uma santa. Até a Priscila Fantim, aiai, que nunca posou pelada, prometeu que posaria caso eu reativasse o superfamoso e hiperconcorrido Kelmer Harém de Celebridades.

– Puxa, Rica, tô arrasada… Você seria o único motivo pra eu virar uma peladona.

– Gosto muito de você, Priscila, mas não vai dar.

– Se você não me quiser, vou entrar pro convento!

Como você pode perceber, leitorinha querida, Priscila não virou freira. Mulher quando se sente recusada pode ser pior que mulher na TPM. E se juntar as duas coisas? Putz, nem quero imaginar…

Poizentão. Não reativei o KHC, eu simplesmente não aguentava mais mulher de pixels. Eu precisava agora é de uma mulher de verdade, de carne e osso, mais carne que osso, claro. Eu precisava dar umazinha, só umazinhazinha, já tava na secura havia 11 meses!

Foi quando apareceu a oportunidade de um trabalho inusitado: escrever um roteiro sobre prostituição na Vila Mimosa. Uau!

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ENTÃO FUI CONTRATADO pra escrever o roteiro de uma revistinha em quadrinhos pra uma ong que trabalhava com prostitutas na Vila Mimosa, tradicional zona de prostituição do centro do Rio de Janeiro. O roteiro deveria abordar temas como saúde, prevenção, doenças sexualmente transmissíveis e coisital. Topei na hora, tava muito precisando de um dinheirinho na conta, não aguentava mais comer miojo.

Imagine um centro comercial popular, desses que existem nos centros das metrópoles, aquele movimento incessante, os corredores cheios de gente olhando vitrine e comprando, a barulheira, a confusão… Pois a Vila Mimosa é a mesma coisa, sendo que as lojas são uma centena de bares e boates com quartinhos e a mercadoria é sexo. E é 24h!!! Fiquei bobo de ver.

Na Vila Mimosa tem menina de 18 e de 70 anos. Boa parte vive do que lhe dá a Vila Mimosa. Mas algumas têm emprego formal (diaristas, vendedoras, secretárias…) e batem ponto lá alguns dias por semana pra completar o orçamento. Uma pequena parte mantém os estudos, ainda bem. Há também as meninas que cursam faculdade. E há também mulheres de nível superior, acredite, cheguei a entrevistar uma professora de geografia e uma enfermeira. E há também muitas mulheres casadas, que são mães, e às vezes os maridos ou maridas sabem de tudo.

Mesmo sendo mais culta ou mais bonita, não importa: se a mulher quer trabalhar na Vila Mimosa, tem que se adequar ao esquema popular e de alta rotatividade. Então o preço médio era (em 2005) R$ 25 por meia hora, sendo que R$ 5 ela repassava ao dono do estabelecimento pelo uso do quartinho. Conheci algumas que faziam uma média de 8 a 10 programas nos dias bons.

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FIZ TRÊS VISITAS à Vila Mimosa pra entrevistar as meninas. Na segunda noite conheci Rose, uma morena de seus 22 anos, e ela me contou sua história, o noivado desfeito, o desemprego em Goiânia, o filho pra sustentar, a ida pro Rio… Ela era bonita, tinha certa classe e usava vestidinho e sandália, tudo muito mimoso. E tinha uma boa bunda. Na terceira vez conversamos mais e, como agradecimento, presenteei-a com um crédito de R$ 10 no vendedor ambulante de calcinhas, dava pra comprar duas. Ela adorou e me deu um singelo beijo no rosto.

Puta nunca foi minha especialidade, você sabe. Nada contra, mas é que gosto quando a mulher também me deseja, gosto de beijar na boca, servir bebidinha, botar música pra ela, recitar poeminha safado no ouvidinho, rir junto, admirá-la enquanto vou e volto dentro dela… Ou seja, sou um cara romântico mesmo, assumo. Safado, ok, – mas romântico. Então meu pau não se entusiasmou com a Vila Mimosa. Porém…

Naquela noite, como já havia fechado todas as entrevistas, sentei numa mesa pra tomar uma e relaxar, curtir o visual das meninas, os modelitos, o delicioso teatro do sexo pago. E convidei Rose pra beber comigo. Ela explicou que estava trabalhando, claro, tinha que fazer dinheiro. Mas como havia me achado um cara legal…

Conversamos descontraidamente por uma hora. Ela se soltou e falou mais sobre sua vida, contou deta-lhes dos programas, suas preferências, que às vezes, com uns poucos homens, ela sentia prazer mas que, na verdade, pra ser bem sincera, gostava de foder mais com mulher.

Você sabe, né, leitorinha, eu gosto de mulheres bissexuais, minhas melhores namoradas eram bi, sinto uma espécie de simpatia gratuita, uma cumplicidade natural com elas. Foi Rose me falar isso e, pronto, o Jeitoso virou o incrível Hulk dentro de minha calça: Me solta, me soltaaa, me soltaaaaaa!!

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EU TOMAVA UMA CERVEJA na Vila Mimosa, conversando com a morena Rose, e ao ouvi-la contar sobre os programas que fazia e sobre suas transas com mulheres, o Jeitoso, coitado, que havia 11 meses não via uma xaninha na sua frente, simplesmente enlouqueceu e virou o incrível Hulk dentro da minha calça, parecia um bicho destruindo a jaula: Me solta, seu disgramado, eu quero saiiiiirrr!!!

– Cabô o doce…

– Não me atrapalha que eu tô concentrado.

É Tábata, minha barata voadora de estimação. Não pode me ver escrevendo sobre mulheres que fica logo enciumada, fica voando na frente da tela toda histérica. Uma barata com ciúmes, pode uma coisa dessa?

– Cabô o doce e eu tô com fomeeeee…

Hummm, dessa vez não é ciúme. O docim de amendoim acabou mesmo, o potinho que fica aqui do lado do computador tá vazio. Putz, vou ter que sair pra ir na bodega comprar mais, eu e Tábata não passamos sem essas barrinhas deliciosas.

Dá um tempo, leitolinha linda do meu colação. Volto já pra contar o final da história. Vem, Tábata. Bota o agasalho que tá frio.

E ainda gosta de passear, pode?

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PRONTO, VOLTEI. Tábata, de barriga cheia, ronca quietinha dentro do meu tênis. Eu já disse pra ela não dormir lá, é perigoso, mas ela simplesmente é louca pelo meu chulé. Pode?

Continuando a história. Estávamos numa mesa, eu e Rose, no interior de um daqueles barzinhos com jeito de boate, o bar embaixo e os quartinhos encima. Com a pressão insuportável do Jeitosão (quando ele tá assim, é pior que você na TPM, acredite), percebi que havia chegado a hora, os onze meses de secura terminariam naquela noite mesmo. Ufa! Ainda bem que o pesadelo não passaria de um ano. Já que não foi com namorada, nem com amiga caridosa, nem com boneca inflável, seria com puta mesmo. Nada contra puta, claro, tenho muito respeito e admiração pela profissão, acho até que já fui puta numa vida passada. Mas ter que pagar por sexo, logo eu, que até outro dia era o terror da Praia de Iracema, quem diria…

Falei pra Rose que queria fazer um programa com ela. Ela, parecendo surpresa, disse que não esperava pois eu dissera que nosso contato seria apenas em função das entrevistas. Você quer mesmo?, ela perguntou.

– Ele quer! Ele quer sim!!! Nós queremos!!!!! – gritou o Jeitoso, que nem um louco.

– Quem falou isso? – Rose quis saber, olhando ao redor.

– Ahn… Fui eu, sou ventríloquo, sabia? – falei, antes que o de baixo se manifestasse novamente. – Mas vamos ao que interessa, né?

Ventríloquo de bilau, ainda tem essa. Poisbem. Enquanto Rose ia ao balcão e solicitava um quarto à dona do estabelecimento, aproveitei e pedi que Jeitoso tivesse modos, ele tava simplesmente indomável, que coisa, rapaz, essa não foi a educação que eu te dei, viu?

Que nada. Ele continuou lá, arrebentando a jaula.

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ENQUANTO SUBÍAMOS A ESCADINHA em espiral, eu olhava pra bunda de Rose bem à frente dos meus olhos como o centroavante que há vários jogos não marca e que agora vai bater o pênalti e olha pra bola, ela ali, só esperando ele chutar… É um momento mágico. Mesmo que não haja ninguém vendo o jogo, todo o mundo pára, sabia? Poissaiba, o Universo inteiro pára, o tempo pára, nada mais importa. Os astrônomos estão errados. Não houve um Big Bang, houve um Big Pênalti.

O ambiente do primeiro andar era de penumbra e havia um corredor com três quartinhos de cada lado. Entramos num deles. Antes, porém, olhei de novo pro final do corredor pra me certificar de que o que eu via não era nenhuma alucinação. Não, não era. Ali, encostado à parede do fim do corredor, estava uma privada, com um cestinho ao lado lotado de papel. Uma privada! Sem porta, sem nada. Apenas uma privada no fim do corredor, que coisa mais surreal. E, pelo odor, que era bem real, alguém tinha comido uma panelada vencida e depositado lá. Argh… Como alguém conseguiu fazer cocô naquele local? E se eu chego e tem um cidadão cagando?

O quartinho era um cubículo de dois metros por um. Tinha um elevado de cimento bem estreito com um colchonete, uns cabides e só. E as paredes eram apenas divisórias que sequer chegavam ao teto, o que nos permitia escutar tudo o que acontecia nos outros quartinhos. Hummm. Confesso que nesse momento cogitei desistir…

Mas não, não. Eu já havia ido longe demais pra voltar. Vamos, Rica, respire fundo e vá em frente, garoto!

Respirar fundo. Eu até tentei. Mas aquela panelada estragada não deixou. Teria que ficar vinte minutos sem respirar, será que eu conseguiria? Aliás, vinte não, dezoito, o tempo corria.

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TIREI A ROUPA RAPIDINHO. Rose também. Ué, não tem nem um leçolzinho?, perguntei. E ela explicou que não sabia, que não fazia programas naquela casa, fazia na outra em frente. Vesti a roupa novamente e desci a escada. No balcão, pedi um lençol à dona, uma senhora que pelo jeito tinha muitos quilômetros de lençóis rodados. Ela perguntou se a menina que tava comigo não trouxera o lençol dela. Não, ela não trouxe, respondi, procurando manter meu famoso equilíbrio zen. A senhora então falou: Não costumo fazer isso mas vou te emprestar o meu, tá, depois me devolve. E me entregou um lençol dobrado, aparentemente limpo.

Subi a escada evitando pensar naquelas palavras “não costumo”, “emprestar”, “me devolve”… Eu só tinha agora dezesseis minutos.

Cobri o colchonete com o lençol emprestado (ai…), tirei a roupa novamente e sentei. Rose sentou ao meu lado. Do quartinho ao lado alguém sussurrava, hum, ahmm, aaahrnmmff…

De repente lembrei do meu primeiro namoro, doze anos, foi meio daquele jeito, os dois sentadinhos lado a lado, quer namorar comigo?, aceito, então tá, amanhã a gente continua. Isso lá é hora de lembrar uma coisa dessa, homem! Afastei a lembrança inoportuna e tentei me concentrar, vamos lá, garoto. Quinze minutos. Comecei a acariciar o corpo de Rose… a cintura… as pernas… beijei seus seios… apalpei sua bunda… Quando olhei pro Jeitoso, não acreditei: ele simplesmente não se manifestava. Ué, cadê o incrível Hulk?

– Não priemos cânico, não priemos cânico – falei pra mim mesmo, fingindo um senso de humor que naquele momento tava muito longe de ter. Doze minutos. Pense rápido, garoto, pense rápido. Então perguntei a Rose se ela, bem, se ela poderia me fazer um boquete. Afinal um copo dágua e um boquete não se negam a ninguém, né?

– Sem camisinha não dá.

– Ah, claro, claro…

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PEGUEI A CALÇA e, depois de procurar em todos os bolsos, encontrei uma salvadora camisinha na carteira, ufa! Voltei e sentei ao lado de Rose, que aguardava com uma paciência profissional. Peguei a camisinha, posicionei o Jeitoso e… Quem disse que camisinha desenrola em pau murcho? Aiaiai… Dez minutos. Metade do tempo já tinha ido pelo ralo e eu nem de pau duro tava, que merda. Vamos ao plano B, é o jeito. Então comecei a me masturbar freneticamente, tentando não ligar pra onda de terror que me engolfava mais e mais a cada instante.

– Vamulá, sua cobra caolha, não me abandone logo agora…

Mas o Jeitoso continuou desanimado. Oito minutos. O foda da brochada é esse maldito terror que imediatamente nos envolve logo que sentimos cheiro de brochada no ar, essa imediata sensação de que não, não vamos conseguir. Tsc, tsc, minha amiga leitora, você não saberá nunca o que é isso, só nós sabemos. Mas eu conseguiria sim, vamulá, pensamento positivo, neurolinguística, método Silva de controle mental, nunca desista de seus sonhos… Putz, mas com aquele fedor horrendo ali do lado tava realmente difícil.

– Rose, será que você não poderia abrir uma exceção e me chupar sem camisinha? Eu tenho essa cara de maluco mas eu sou limpinho. E por ele só passou menina bacana, viu? Bem, quer dizer…

Não, eu não falei nada disso. Mas quase falei, de tão desesperado. Em vez disso pedi pra ela tocar uma pra mim, quem sabe a mão feminina, mais delicada… Rose, compreensiva, aceitou, ufa. Sete minutos. Agora vai, agora vai.

Fechei os olhos e convoquei todas as ex-namoradas e casos e rolos e rolitos possíveis, por favor, Beatriz, me acode, você também, Silvinha, e você, Karine, seis minutos, e você, Bibi, aquelazinha que a gente deu no meio do laranjal, lembra, vamos, Maristela, Renata, cinco minutos, Tânia, Karine, Karine já foi, não, a outra, Gil, Andréa, Jaque, Beatriz, Beatriz já foi, mas vai de novo, vai de novo, quem mais, Leka, Paulinha, quatro, Larissa, Milene, que Milene?, aquela da garagem do prédio, ah, sim, Valéria, três, Laurita, dois, Bebel, um…

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– VINTE MINUTOS! Vinte minutos!

A voz vinha de algum lugar próximo, uma voz abafada, meio metálica…

– Vinte minutos! Desocupandôôô!!!

Abri os olhos. A voz feminina vinha de um tubo de PVC que saía da parede. Era a dona lá embaixo nos avisando que o tempo acabara. Sistema de som engenhoso…

– Putamerda, seu desgraçado duma figa! Não era você quem tava todo enlouquecido vinte minutos atrás?!! Como que você me faz uma coisa dessa, seu traíra!

Não, eu não falei isso, sou incapaz de gritar com ele, o Jeitosão tem muito crédito comigo, você nem imagina o quanto ele já me salvou. Só pensei. Dentro da minha mente extenuada e entristecida. Aliás, se eu fosse ele, também teria sentido a pressão, coitado, o quartinho feio, o lençol emprestado, os vizinhos barulhentos, a privada surreal, a panelada vencida, o tempo acabando… Pô, paudagente também é gente.

Afastei a mão de Rose e levantei. Vesti a roupa e calcei o tênis, enquanto ela se vestia também. Procurei algo pra dizer, na verdade pra não ter que escutar os hummms e ahnrmfs que vinham dos outros quartinhos, mas não achei nada que valesse a pena ser dito, dizer o quê? Descemos, devolvi o lençol (quem seria o próximo?), paguei pelo quarto e paguei Rose também. Ela ainda tentou se desculpar mas eu não deixei e falei que tudo bem, a companhia dela tinha sido muito agradável. E nos despedimos.

Caminhei até a praça e esperei passar algum ônibus, tendo como companhia a plena convicção do ridículo de tudo aquilo. Um dia ainda escreverei sobre isso e darei boas risadas, era o que eu pensava, pra ocupar o pensamento na madrugada fria e solitária. Mas o pensamento sempre escorregava pra um único fato: em três semanas a secura completaria um ano. Um ano.

O ônibus chegou e parou no ponto. O motorista abriu a porta e ele entrou, o centroavante que no último minuto do jogo chuta o pênalti pra fora.

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DEPOIS DESSA ENTENDI que devia me concentrar no trabalho e esquecer esse negócio de buceta. Até que consegui. Em parte, claro, pois o bicho homem masculino nunca consegue esquecer de verdade do famoso pé-de-barriga rachado. Mas fiz direitim meu trabalho de roteirista e recebi meu dinheirim suado. Suado e broxado.

Aí aconteceu duma leitora me enviar um imeio dizendo que iria prum congresso no Rio e queria aproveitar e comprar uns livros meus diretamente comigo, aproveitar e me conhecer pessoalmente, que ela só conhecia pelos meus textos na internet, que por sinal gostava muito e coisital. Claro, claro, será uma honra, eu disse.

Macaco velho, fui logo no Orkut dela pra saber quem era a criatura. Marília o nome dela, era de Santos, solteira (humm), bebia (oba) e não fumava (obaaaa). Era uma balzaca morena, razoavelmente bonita, parecia ser mulher carnuda mas como as fotos eram todas bem comportadas, não deu pra ver bem as curvas da estrada de Santos.

Pô, Kelmérico, deixa de ser tarado véi seboso! A moça quer apenas comprar uns livros, só isso, é tudo apenas negócio. Você e sua mente suja…

Bem, na verdade eu mesmo não pensei bobagem, juro que pensei apenas na graninha. Quem pensou bobagem foi ele, o Jeitoso, como sempre, esse pedaço cilíndrico de carne pendurado que só pensa naquilo, é um horror. Coitado, mais de um ano sem frequentar piriquitas e rabichos, a gente entende, a gente entende.

Então no dia marcado ela me ligou. Tava num barzinho perto do hotel, não era longe de onde eu morava, será que eu podia ir lá? Claro, claro. Troquei de roupa, botei os livros na mochila e peguei o busão.

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FIZ LOGO AS CONTAS: se ela me comprar dois livros, já vai dar pra fazer o supermercado da semana, ô maravilha, não aguento mais comer miojo com xarope de groselha.

Paralelamente às minhas contas, o Jeitoso também fez as dele: um ano e dois meses sem encarar uma piriquita, 14 meses sem molhar o biscoito, 54 semanas sem ensaboar a banana, 378 dias sem acoplar à nave mãe, 9072 horas sem espetar o cassaco…

Se você, leitorinha querida, tivesse um pingolim aí pendurado entre suas pernocas, você saberia o tanto que esses seres podem ser chatos, insuportavelmente chatos, quando estão desesperados na secura. A gente vai à praia e tem que ficar sentado pra não passar por tarado sem-vergonha. A gente olha pruma chave de fenda e o pingolim só vê a fenda, é um horror, um horror.

Poisbem. Peguei o busão e fui encontrar Marília no bar perto do hotel onde ela tava hospedada, em Copacabana. Ela me acenou de uma mesa na calçada, de frente pro mar, um ótimo lugar. Tava bronzeada, certamente pegara um solzinho. E era mesmo carnuda como nas fotos, do jeito que eu aprecio, humm. Vestia jeans e uma camisa preta com um top preto. Infelizmente não deu pra ver a bunda quando ela levantou pra me cumprimentar com dois beijinhos mas tudo bem, eu tiraria a dúvida assim que ela fosse ao banheiro. Na mesa havia uma caipirinha pela metade.

Sentei e ela perguntou se eu aceitava uma caipirinha, eu disse que sim. Ela fez sinal pro garçom trazer mais uma e aí danou-se a falar, disse que tinha chegado mais cedo pra ver o por-do-sol, que adorava ir ao Rio de Janeiro, que aquela já era a segunda caipirinha, que adorava caipirinha, que caipirinha era sua perdição, e que era uma honra conhecer pessoalmente o autor dos textos que tanto a faziam rir no computador do trabalho, falou dos que mais gostava, quis saber de onde eu tirava tanta ideia e como era o processo de criação e pediu pra ver os livros, eu tirei da mochila e pus sobre a mesa, ela olhou todos, achou a capa do Insanidade bonita…

Eu juro, leitorinha, juro que tentei prestar atenção a tudo que ela dizia. Mas não dava. Com aqueles peitos olhando pra mim, simplesmente não dava. Marília tinha peitos grandes e bonitos, até aí tudo bem. O problema é que metade deles tava pra fora do top, sem exagero. Acho que ela errou o número quando comprou. Ou na pressa de fazer a mala, se enganou e botou o top da filha de oito anos. Será que todas as minhas leitoras de Santos andam assim, com os peitos pra fora?

Senti que o Jeitoso começava a se inquietar. Aproveitei que Marília pedia mais uma caipirinha pra ela e dei um tabefe no Jeitoso, plá!, te aquietaí, ô saidinho, não vai me estragar uma venda boa! Mas o perturbado não se aquietou, tive que cruzar a perna pro outro lado pra disfarçar. E diabo dessa mulher que não se levanta pra ir ao banheiro! Ô Marília, minha filha, você não mija não? Não, claro que não perguntei isso, imagina, também não sou tão sem noção assim, né? Que juízo você faz de mim!

Por falar em juízo, vem cá, leitorinha, me diz uma coisa com toda sinceridade… O que uma mulher pretende quando vai encontrar um cara pela primeira vez e deixa metade dos peitos pra fora da roupa, heim? Você, leitorinha, já fez isso? Conhece alguma mulher que faz isso? Você deve saber, afinal você é mulher, você tem peitos, quer dizer, eu suponho que tenha. Não é possível que uma mulher faça isso assim de graça, sem ter noção da confusão que vai causar, principalmente pra sujeitos sensíveis como eu. Putz, vocês são realmente tão cruéis assim, são? Me diga que não, por favor, senão vou perder pra sempre o resto de confiança que eu ainda tinha na raça feminina…

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VOLTANDO À MESA. Lá tava eu confuso, sem saber o que deduzir. Tentava me concentrar na conversa de qualquer maneira, até virei a cadeira e sentei assim meio de lado pra não ter que olhar praquele par de melões morenos caindo do caixote da Ceasa bem na minha frente… e eu há mais de um ano sem comer. O Jeitoso, inclusive, já havia levado mais dois tapas e de nada adiantou, ele também queria ver os peitos da santista, claro, paudagente também é gente.

É, tava difícil. A ideia de que aquela morena fornida podia estar interessada em algo mais que simplesmente comprar meus livros me deixava num estado tal de excitação e dúvidas e fantasias e nervosismo e esperanças e insegurança e expectativas que de repente tive medo de perder o controle e, sei lá, fazer uma besteira grande, tipo saltar pra dentro daquele decote, me agarrar nos peitos da morena ali na frente de todo mundo e ficar gritando lá pendurado: Fome zero! Campanha da fraternidade!! Eu podia tá roubando mas tô aqui pedindo só uma chupadinha!!!

Olhei as horas no celular. Ela imediatamente perguntou se eu tinha pressa e eu ia dizer que mais ou menos mas ela me interrompeu e disse que fecharíamos a conta, que ela fazia questão de pagar, que pagaria no cartão e que se eu não me importasse, nós dois iríamos ao hotel dela pegar o dinheiro dos livros, que ela queria comprar todos. Todos? Sim, quero todos, mas o dinheiro tá no meu quarto, vamos lá comigo pegar? Ahn, no seu quarto? Sim, no meu quarto, vamos?

Todos os livros… Vamos comigo no meu quarto… Aquelas palavras esvoaçavam feito borboletas zonzas em minha cabeça. Eu precisava responder algo, e de preferência algo assim que não revelasse meu estado de semi-debilidade mental.

Subir, quarto, mim Tarzan, iú Jane – foi o que consegui dizer. Acho que foi uma boa resposta pois ela sorriu e rapidamente levantou-se, apontando pro hotel na outra quadra.

Fiz rapidamente umas contas pra saber quanto dava o total dos livros. Putz, daria pro supermercado quase do mês inteiro, que maravilha. E o Jeitoso, claro, fazia as contas dele: decote + caipirinhas + convite pra subir ao quarto = ripa na xulipa!!! Calma, Jeitoso, a lógica das mulheres não é como a sua, eu tentei explicar. Mas é como eu disse antes, leitorinha: quando eles estão assim, não tem jeito que dê jeito, como cantava o Raimundo Soldado. E quando eles estão assim há catorze meses, ou a gente vai logo pra guerra ou então volta pra casa e toca duas seguidas pra poder dormir.

Quando atravessamos a rua, deixei ela sair um pouco antes e finalmente consegui olhar a bunda da moça. Foi bem rápido mas foi o suficiente. A santista era muuuito bem nutrida de glúteos. Aiaiai… Pobre de mim.

Entramos no elevador e ela epertou o 12. Eu havia posto a mochila à frente da cintura, você sabe, o Jeitoso a essa altura parecia uma garrafa de coca-cola fechada depois de dez minutos chacoalhando, estava a um milímetro de explodir. Aí no 2 a porta abriu, era o andar do restaurante, e um senhor entrou. Vestia terno e gravata, parecia que ia ou vinha de um jantar de negócios. Ele olhou pra Marília e, sério, perguntou se ela tava indo pro quarto. Ela respondeu que sim. Depois a porta abriu no 12 e eu e ela saímos. Antes da porta fechar, percebi que o senhor olhava fixamente pra ela, muito sério.

Caminhamos pelo corredor até a porta de seu quarto. Não resisti e perguntei quem era aquele homem do elevador. E ela respondeu: Meu marido. Gelei no mesmo instante. Como assim, marido?, pensei, tentando organizar as ideias. Mas no Orkut o seu estado civil está como solteira, né? – pensei em perguntar. Mas desisti.

Primeiro aqueles peitões em minha cara. Depois me convida pra subir ao seu quarto. E depois me revela que é casada – e o marido tá ali no hotel! Afinal, leitorinha, que tipo de seres são vocês, heim? Por que vocês fazem isso???

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ENTRAMOS NO QUARTO. Marília fechou a porta, acendeu a luz e disse que eu ficasse à vontade pois ela iria ao banheiro. O quarto era bacana, cama de casal, poltrona, abajur, cortina na janela, um quadro bonito na parede, frigobar, controle de som e tevê na cama. Aproveitei pra olhar dentro do guarda-roupa: nada de roupas masculinas, que estranho. Será que o marido estava hospedado em outro quarto?

O Jeitoso tava como eu, confuso, mas perguntou se eu tinha levado camisinha, ele sempre pergunta, menino atento, foi bem ensinado. Sim, eu tinha. Aliás, nos últimos tempos camisinha comigo sempre perdia a validade, que horror.

Marília voltou do banheiro e sentou na cama. E pediu pra eu sentar também. Sentei. Ela pediu que eu lhe mostrasse os livros. Abri a mochila, tirei e pus sobre a cama. Enquanto ela selecionava um exemplar de cada, eu tentava não olhar pro decote dela, parecia até que os peitos haviam crescido depois da ida ao banheiro. Marília perguntou quanto era, eu disse que era tanto mas daria um desconto, mas ela disse que não aceitava o desconto, tirou o dinheiro da bolsa e me entregou. Agora eu quero uma dedicatória bem especial, primeiro neste aqui – e me estendeu o primeiro livro.

– Quer tomar algo pra se inspirar? Um uisquinho?

Um uisquinho? Hummm, o que realmente aquela mulher tinha em mente? Bem, seriam seis dedicatórias especiais, eu precisaria de inspiração mesmo. Aceitei. Ela então levantou, abriu o armário e tirou de lá… uma garrafa de Jack Daniel´s! Lacrada. Eu não acreditei quando vi. Acho que ela percebeu minha cara de idiota:

– Eu sabia que você ia gostar…

Putz. Minha bebida predileta. Ela certamente lera em meu site ou no Orkut. Será que ela comprara minha bebida predileta só pra que eu escrevesse umas dedicatórias nos livros dela? Ou havia algo mais? Será que ela havia bolado tudo aquilo, todos aqueles detalhes, o encontro no bar, o decotão assassino, o convite pra subir ao quarto, o Jack Daniel´s, tudo foi pra me seduzir? Ou aquele era o jeito dela mesmo, simpática e espontânea, e a minha mente pérfida, junto com o Jeitoso, claro, é que imaginava besteira? Mas… e o marido? Onde ele estaria naquele momento?

Tirei o lacre e devolvi a garrafa. Ela serviu dois copos, eu disse que queria sem gelo, ela disse que preferia com, pôs três pedras no dela e brindamos. Ao escritor, ela disse. Qual escritor? Você, seu bobo. Ah, claro… eu… a mim, claro… não, a mim e a você, à leitoa, quer dizer, à leitora do escritor.

Putz, leitoa é foda. Será possível que eu não consigo falar nada que preste nesses momentos? Pelo menos uma vez na vida eu bem que poderia fazer como aqueles caras do cinema, que mesmo nas situações mais inesperadas sempre dizem a frase perfeita que a mulher quer ouvir.

Brindamos e bebemos. Só o cheiro do Jack já me leva às nuvens, é sério. E o primeiro gole, hummm, o líquido descendo a garganta feito um fogo gostoso queimando por dentro, a saliva que ato contínuo inunda a boca, o calor no estômago… e um acorde de blues soando em algum lugar de minha alma, sempre, sempre toca um blues quando bebo Jack Daniel´s. Ah, leitorinha, beber esse uísque não é apenas beber um bom bourbon – é beber junto a história do blues, é beber com Muddy, Buddy, Billie, Eric, Jim, Janis e todos os outros.

E tem outra coisa. Jack Daniel´s é um poderoso excitante pra mim. No sentido sexual, inclusive. Não sei bem o porquê mas é uma bebida que me deixa com tesão, que coisa louca, né? E se Marília sabia que eu gostava tanto do Jack, devia saber também desse complemento. Aiai. Que mulher era aquela?

Sentei-me na poltrona pra escrever as dedicatórias. Marília perguntou se eu não preferia escrever com música e antes que eu pudesse responder ela ligou o rádio e Tim Maia preencheu o quarto com seu vozeirão, acho que era Azul da cor do mar. Achei ótimo. Mas quem disse que consegui escrever alguma coisa? Travei total, não consegui me concentrar. Aquela situação, eu e Marília naquele quarto, o lance do marido dela…

– Acho que preciso de outra dose… – pedi, após entornar o resto da primeira. E precisava mesmo, juro, meu coração estava aos pulos. Ah, se eu pudesse decifrar o que ela tencionava com tudo aquilo… Ou ela não queria nada, queria apenas brincar comigo e na verdade estava se deliciando com meu sofrimento? Gente, isso não se faz com o cidadão trabalhador. O que vocês ganham com isso, meninas, heim? Será uma espécie de necessidade atávica de vingança sobre os homens? Putz, logo comigo que defendo tanto vocês, que sacanagem.

Marília pegou a garrafa e enquanto me servia novamente, comentou que gostava muito daquela música. Então tomei coragem pra fazer a pergunta.

– Marília… ahn… você… aquele senhor…

– Depois você escreve – ela disse, me interrompendo e puxando delicadamente a caneta da minha mão. – Vamos dançar?

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DANÇAR?, EU PERGUNTEI, talvez não tivesse ouvido muito bem. Sim, dançar, esta música é tão linda…, ela respondeu, como se convidar pra dançar um escritor que tá no seu quarto de hotel autografando livros fosse assim a coisa mais normal, corriqueira e lógica do mundo.

Levantei da poltrona e no instante seguinte lá estávamos nós dois dançando ao som de Tim Maia, girando devagarinho no meio do quarto, coladinhos, rosto com rosto, o perfume dela… e os peitos a pressionar meu tórax, aqueles dois peitões impossíveis de não sentir… eu afastava o rosto um pouquinho e podia vê-los logo abaixo do equador do meu queixo, os dois montes da perdição, aquele abismo entre eles sussurrando meu nome, Kelmeeeeeeer… Kelmeeeeeeer…, sim, não sei se você sabe, leitorinha, mas há peitos que sussurram nossos nomes, é um mistério milenar, os Peitos Sussurrantes, ninguém explica. Poizé, eles sussurram e aí lá estamos nós, Ulisses eternamente a resistir ao chamado das sereias… ou a se jogar no mar.

Pois Ulisses não resistiu. Livrou-se das cordas que o mantinham preso ao mastro e, tchibum!, joguei-me ao mar. Não deu pra resistir, seo delegado, me prenda, me jogue na masmorra, me leve à guilhotina, mas a certas coisas o homem peniano masculino simplesmente não consegue resistir, o senhor sabe, né? Não deu pra resistir, leitorinha: no instante seguinte meu rosto se encontrava entre os peitos de minha leitora, as mãos a arrancar o top, aquele par de peitos impossíveis saltando fora e minha boca absolutamente descontrolada, sem conseguir se decidir entre um e outro, entre o outro e o um, os dois ao mesmo tempo, os três se três houvessem.

Foi a poltrona que amparou nossa queda. Caímos sentados, eu na poltrona, Marília em meu colo, de frente pra mim, os peitos em minha boca. Eu todo era um par de mãos enlouquecidas e uma boca descontrolada, um andarilho esfomeado diante do par de mangas maduras e suculentas, eu era o Tesão em esTado bruTo. E Marília em meu colo, forçando minha cabeça contra suas mangas, o sumo delas já escorrendo da minha boca, eu gemendo, ela assanhando meu cabelo, cravando as unhas no couro cabeludo, ela também rendida ao descontrole do desejo urgente.

Então era isso mesmo que ela queria…, pensei, num raro momento em que meu pensamento perdido conseguiu unir duas ideias. Tá vendo, eu não disse, eu não disse?, mandou de lá o Jeitoso, a voz abafada pelo peso do corpo de Marília a esfregar-se sobre ele. É curioso… Paudagente só pensa em sexo mas, vendo as coisas do ângulo dele, o ângulo de baixo, tudo são bundas e bucetas, tocas pra entrar, reentrâncias a preencher. Não dá pra culpá-los por pensarem sempre assim. Ok, Jeitosão, você tava certo, nunca mais discutirei com você.

Então Marília levantou-se, deixando meu colo. Minhas mãos pareciam pregadas com velcro nos peitos dela, tão difícil foi soltá-los. De pé à minha frente, ela arrancou o que sobrava do top e libertou de vez seus peitos, libertas quae sera chupem. Não sei se você sabe, leitorinha, mas todos os peitos anseiam por serem libertados, e é por isso, arrááá!, é por isso que eles sussurram nossos nomes: eles clamam por seus libertadores. Os Peitos Sussurrantes, mistério resolvido.

Marília tirou o jeans, a calcinha e deitou-se na cama, todinha nua, e sussurrou: Vem, meu escritor tarado. Escritor tarado só podia ser eu, não havia mais nenhum escritor naquele quarto. Levantei da poltrona e cinco segundos depois já havia atirado longe roupa, meia e tênis e tava agora ao lado dela na cama. Foi nesse exato instante, admirando seu corpo nu ao meu lado, que o descontrole e a impaciência, de repente, cederam lugar a outra sensação, a velha sensação que me acomete quando chega o momento da união sexual e que me faz ser possuído por um misto de encantamento e reverência à Mulher, aquela súbita percepção do Sagrado que a figura feminina simboliza, a certeza de que outra vez serei instrumento da vontade da Deusa na reedição do casamento sagrado do feminino com o masculino.

Parece estranho falar disso agora, eu sei, mas é que o sexo pra mim é algo místico. E a mulher que tá comigo nunca é apenas uma mulher: ela é a Filha da Deusa. E por isso ela é também a própria Deusa. Que me escolheu, entre todos, pra ser seu cavaleiro no sagrado ritual da fertilidade e…

– Porra! Deixa de viadagem e me põe logo lá dentro! – berrou o Jeitoso, me interrompendo. O danado tava lá todo empertigado, parecia uma serpente naja pronta pro bote.

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DEITEI MARÍLIA NA CAMA e por algum tempo admirei emocionado seu corpo nu, o moreno da pele contrastando com o branco do lençol, as marquinhas do biquini, tudo formando um quadro mais bonito do que qualquer pintor poderia pintar. Putz, como as mulheres ficam lindas neste momento em que todo o seu corpo é um chamado silencioso e ardente e…

– Que chamado silencioso o quê! – protestou o Jeitoso. – Me bota logo lá dentro senão vou te denunciar à Sociedade Protetora dos Animais!

Ignorei o escândalo do meu pinto. Aquele era um momento especialíssimo e não seria um pinto falante e maleducado que o estragaria. Depois de um ano e dois meses eu estaria novamente dentro de uma mulher, que coisa! Tanto tempo… A secura chegara ao fim, finalmente.

Delicadamente pousei um beijo sobre o pé daquela que naquele momento era a representante da Deusa, meu gesto simbolizando minha rendição e reverência à beleza e ao mistério daquela mulher.

– Não tem mistério nenhum, idiota! Tudo que tu tem de fazer é me…

Deixei o menino maluquinho falando sozinho e continuei o ritual. E minha língua começou sua bela jornada pelo corpo de Marília, avançando lentamente pela trilha sinuosa de suas pernas, deixando pra trás um rastro de saliva agradecida. Ela passou pelo joelho, pelas coxas, demorou-se um pouco no interior delas e finalmente chegou a seu destino, feito o andarilho sedento que alcança o oásis onde saciará sua sede na fonte da água mais pura e saborosa.

Toc, toc, toc!!!

Não, não foi minha língua que bateu na porta do oásis. Até porque oásis não tem porta, né? Foi alguém que bateu na porta do quarto. Putamerda, o marido!, pensaram as minhas células, todas arrepiadas. E elas mesmas responderam, resignadas: Agora fudeu.

Como que eu pude esquecer do marido da outra, como?!

O susto foi horrível. E o que aconteceu depois foi bem rápido, nem sei como aconteceu. Só sei que no segundo seguinte após as batidas na porta eu me encontrava atrás da poltrona, todo agachadinho, parecia um embrulho ridículo. Tenho certeza que não saltei da cama direto pra lá, nunca fui ginasta olímpico. Acho que o susto foi tão grande que meu corpo se desmaterializou e, pufff, apareceu novamente atrás da poltrona, só isso explica a velocidade.

Marília levantou, vestiu um roupão, abriu a porta e o maridão entrou, bufando de raiva, o próprio incrível Hulk. Olhou no armário, não viu ninguém lá dentro. Foi no banheiro e também não viu ninguém. Então voltou e empurrou a poltrona com o pé. E eu apareci lá atrás, nu e agachado, morto de lindo.

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TU QUERIA COMER MINHA MULHER, ô cabeludo? Quem, eu? Com esse pinto murcho aí? Quem, ele? Minha mulher me falou muito bem de ti. Quem, ela? Tão bem que eu me apaixonei. Ih, agora fudeu…

Não, isso não rolou. Rolou apenas em minha mente doentia de roteirista de sitcom enquanto eu me agachava atrás da poltrona que nem um guaxinim com dor de barriga e esperava meu triste fim. Roteirista tem esse vício, tá sempre retocando as cenas da vida.

Mas já que falamos de piada, tem aquela clássica em que o marido chega em casa e o amante da mulher se esconde atrás do aparelho de som mas deixa o saco aparecendo e aí o marido nota algo estranho no aparelho e a mulher diz que é porque mandou trocar o botão do volume, que agora o botão é penduradinho, novo dezáine, aí o marido quer testar e bota um disco da Maria Bethania e aperta o saco do coitado achando que é o botão do volume e o cara geme baixinho, segurando o grito, aí o marido diz que não tá ouvindo a música e, crau!, gira o saco do cara todinho e aí o cara não aguenta e solta o berro: Aaaaaaaaaiiiiiiiiiiiii!!!!!!!!! E continua imediatamente, cantando: Minha Mãe, minha Mãe Menininhaaaaaaa…

– Já vai – gritou Marília, enquanto rapidamente vestia um roupão. Ela fez sinal pro guaxinim com dor de barriga continuar atrás da poltrona e se dirigiu à porta. O Jeitoso, coitado, tava mais apavorado que eu – cinco segundos antes ele era o fodão do pedaço e agora o infeliz tava tão encolhido que parecia que tinha entrado dentro do saco. O pinto que virou tatu. Ah, não ria, leitorinha, não seja cruel. Paudagente também é gente.

Escutei a porta abrir e percebi que Marília falava alguma coisa que não compreendi pois o som do rádio continuava ligado. Depois escutei som de passos entrando no quarto, passo de homem. Agachei-me ainda mais, a testa colada no chão, e preparei-me pra morrer naquela posição ridícula. Tão novo, quarenta anos, na flor da idade. Tinha um futuro brilhante pela frente, venderia livro que nem Paulo Coelho (mas recusaria a Academia de Letras), casaria com a Priscila Fantin num ritual xamânico à beira-mar, tomaria demorados banhos de Jack Daniel´s em seu ofurô…

Pô, agora falando sério: tanta gente bacana aí pra morrer e morro eu! Por que não o Maluf ou o casal Garotinho?

Dizem que nesses momentos o filme da vida da gente passa diante dos olhos, né? Pra mim não passou filme nenhum. Tudo que vi, por baixo da poltrona, foi um par de sapatos pretos masculinos ao lado da cama. Depois eles deram meia-volta e saíram de meu campo de visão. E escutei a porta do quarto fechar.

– Pode sair daí, gatinho.

A voz de Marília, me chamando.

– Não, obrigado, tá bom aqui, miaaau…

Ela me puxou pelo braço e me mostrou a bandeja sobre a cama.

– Eu tinha pedido um lanchinho pra gente e esqueci, a recepção mandou deixar. Tá com fome?

Eu não tava com fome mas talvez fosse melhor mesmo dar um tempo, forrar o estômago. Aproveitar e perguntar sobre o marido, vai que da próxima vez é ele quem bate na porta. Meu coração ainda ribombava no peito, afinal segundos antes eu tava a centímetros da morte e agora tava diante de um sanduíche árabe delicioso e de uma bela morena peituda vestida num robe branco me servindo uma nova dose de Jack Daniel´s. Diadorim tem razão, viver é muito arriscoso.

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O LANCHE TAVA DELICIOSO, deu pra forrar bem o estômago, e o bendito Jack me fez relaxar. Mas só relaxei verdadeiramente depois que Marília me explicou tudo: ela e o marido viviam um casamento não muito ortodoxo, separados mas ainda morando na mesma casa, e como eram sócios num negócio, às vezes viajavam juntos e geralmente ficavam no mesmo hotel. Eu não deveria temer nada, ela garantiu.

Putz. Gente civilizada é otre chose.

Depois ela serviu mais Jack pra gente e riu muito, lembrando do meu jeito apavorado atrás da poltrona. Ri também, né, já dava pra rir da desgraça. Aproveitei e contei a tal da piada do marido que chega em casa e o amante se disfarça de aparelho de som, o que provocou uma crise de risos em Marília de tal forma que ela não conseguia mais parar de rir e eu ria da risada dela e durante um tempão ficamos nós dois lá na cama, nus e abraçados, gargalhando que nem dois dementes, rindo até chegar às lagrimas. Ai, rir é muito bom, e rir a dois, assim, é um prazer quase sexual. Sexo risal.

Enquanto aos poucos se esgotava o estoque de riso e nossos corpos se acalmavam, a boca de Marília começou a deslizar por meu peito, pela barriga, o umbigo… até chegar ao Jeitoso, já pronto pro serviço. Ela o envolveu delicadamente com a mão, sentindo-o pulsar, e falou baixinho:

– Ai, Jesus, que pau fantástico…

– Você diz isso pra todos…

– Eu juro.

– Ele é só três centímetros acima da média nacional, já pesquisei na Wikipedia.

Fiquei olhando a outra lá toda meiga em sua paixão à primeira vista pelo meu pau. Tem mulher que se apaixona pelo paudagente, é tão mimoso isso, dá vontade de tirar uma foto dela abraçada com ele pra levar sempre na carteira. Mas cá pra nós, leitorinha, o Jeitoso não tem nada demais. É até meio torto pro lado direito e tem uma marquinha que os fetiches sadomasoquistas de uma doida um dia me deixaram. Em concurso de beleza de pau, que nem aquele da piada do corcunda, ele levaria uma chuva de ovo.

Mas reconheço no parceiro uma grande virtude: ele é estrategicamente anatômico, vai enlarguecendo assim discretamente, como se pra permitir que o orifício vá se acostumando com o volume dele, e assim, quando você se dá conta, pufff, El Ludibriador já tá todo serelepe lá dentro. É um chato convencido insuportável – mas é realmente jeitoso.

Poizentão. O Jeitosão teve que ralar pra caramba nessa noite. Um ano sem sexo, você sabe o que é isso? A sorte é que Marília é do tipo que gosta muito do leriado, senão ela não teria aguentado as cinco horas de nheconheco. Mas aguentou com louvor toda a sequência de boquete, meia-nove, frango-assado, torninho frontal, torninho costal, diladinho, poltrona, janela, pia do banheiro, cahorrinho, segura-peão, carrossel da Xuxa, garupa de rã e a clássica posição chinesa ventania no bambuzal. Uau! A morena teve três, quatro, cinco, seis orgasmos e eu sempre retendo o gozo, deixando pro final.

Que maravilha quando uma mulher se entrega ao sexo livremente, sem pudores ou medo de ser considerada isso ou aquilo. Sim, eu sei que isso também depende de quem tá com ela, do quanto o outro ou a outra a deixa à vontade. Mas há mulheres que naturalmente gostam do sexo pelo sexo em si, como os homens, e se isso pode assustar alguns deles, a mim fascina e encanta. Juro que não temo as mulheres livres.

Quando avisei que iria gozar, ela parou e sugeriu uma nova posição. E assim fizemos. Sentei-me bem na beirinha da cama com as pernas abertas, pra fora da cama, e deitei as costas. Marília ajoelhou-se no chão, entre minhas pernas, e envolveu meu pau com seus peitões generosos. Uma espanhola!, pensei, adorando a ideia de ser masturbado pelos peitos dela.

Hummm… Foi a melhor espanhola que já recebi nas últimas sete encarnações, inclusive a que vivi na Andaluzia. E o mais louco é que enquanto subia e descia seus peitos em torno do meu pau, ela ainda o chupava! Perfeito, leitorinha, simplesmente perfeito, só você tendo um pau pra saber como é.

Tive um orgasmo inesquecível, longo, intenso e emocionante. Urrei e me sacudi que nem um bicho. E ejaculei tanto que Marília se atrapalhou e não conseguiu engolir tudo. Quando eu enfim ressuscitei, lambi-lhe nos peitos e no pescoço as sobras fugitivas do meu gozo e as dividi com ela em sua boca. E logo depois apagamos os dois, bêbados e exaustos, abraçados sobre a cama em desalinho, roupas e lençóis e travesseiros e livros e pratos e copos e talheres pra todo lado, o hotel fora bombardeado, tudo destruído.

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DESPERTEI SEI LÁ QUE HORAS, ainda bêbado e de pau duro, e quando vi Marília nua ao meu lado, dormindo de bunda pra cima, não resisti. Como é que resiste? Ai, Marilinha.

Abri-lhe as nádegas e admirei seu cu retraído-depilado-castanho médio, um tipo de boa cotação no mercado, bom que se diga. E caí de língua. Aos poucos, sem pressa, ela começou a reagir às minhas lambidas. Passei gel no dedo e brinquei com seu cu e aí sim ela começou a gemer. Depois dois dedos, depois três… e o resto foi com o jeitosão ludibriador de reentrâncias traseiras. E foi assim que ela acordou, sua bunda preenchida de mim, docemente estuprada em sonho real, Marilinha gemendo as palavras mágicas não-pára e mete-mais, ô coisa boa encontrar uma mulher que tem prazer pela bunda. E foi assim, meio dormindo, meio acordada, que Marília gozou mais uma vez, agora junto comigo, coisa boa gozar junto, dois cometas cujas trajetórias se cruzam no infinito espaço sideral e explodem numa chama orgástica que por instantes aquece a eterna noite fria do Universo.

Quando despertei novamente, já amanhecia lá fora. Vesti-me rápido e peguei a mochila. A morena adormecida de Santos continuava lá, curtindo o céu dos guerreiros sexuais, sem imaginar o alcance do maravilhoso presente que ela me dera aquela noite e o tanto que eu lhe seria grato por todos os seculum seculorum. Deixei um beijo agradecido em seu generoso derrière e saí, me deliciando por saber que estava ali dentro o registro do meu prazer, hummm, diliça.

Minutos depois, enquanto esperava o ônibus na Nossa Senhora de Copacabana, não pude deixar de atentar pro significado de estar ali, numa rua com aquele nome. A Deusa Eterna, reencarnada em trajes cristãos, ganhara nome de avenida. Bela homenagem, sem dúvida. Mas melhor homenagem lhe fazem sempre os amantes, ofertando-lhes a união de seus corpos e a essência sagrada de seus gozos transcendentais, reverenciando a Deusa do Amor e se fazendo instrumentos pra mais uma reedição do sagrado casamento alquímico entre o Feminino e o Masculino. Pro bem do mundo. Pro bem da vida.

Se o chato do Jeitoso estivesse em condições, ele já estaria reclamando desse papo místico. Mas ele agora era um morto-vivo, tadinho, dormiria o dia todo, só acordando pra mijar. Ele merece. Paudagente também é gente.

O ônibus chegou, hora de ir pra casa. A secura chegara ao fim, que alívio. Um ano e dois meses, que coisa… Só pode ter sido praga de ex, eu, heim!

Durante o trajeto a paisagem que eu via eram as cenas dessa história ridícula, todas as tentativas frustradas de sexo, tantas trapalhadas. Quem sabe um dia eu não escreveria essa história? Mas quem leria algo tão bizarro, punhetas, brochadas, um cara que conversa com seu pau?

– Tem gosto pra tudo, abestado – rosnou o outro lá embaixo, voltando, por alguns segundos, de sua dormência.

E outra vez o menino maluquinho tinha razão, tive de admitir. Tem gosto pra tudo.

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FIM

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Ricardo Kelmer – blogdokelmer.wordpress.com

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SÉRIES ERÓTICAS DESTE BLOG

> As aventuras de Diametral e Ninfa Jessi – A mais bela e safada história de amor jamais contada.

> As taras de Lara – Desde pequena que Lara só pensa naquilo. E ai do homem que não a satisfaz.

> Um ano na seca – O que pode acontecer a um homem após doze meses sem sexo?

> O último homem do mundoO sonho de Agenor é que todas as mulheres do mundo o desejem. Para isso ele está disposto a fazer um pacto com o diabo. Mas há um velho ditado que diz: cuidado com o que deseja pois você pode conseguir…

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> Por trás do sexo anal - Há algo de divinamente demoníaco no sexo anal que, literalmente, a-lu-ci-na algumas mulheres

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Comentarios01COMENTÁRIOS
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01- Sobre seu ano de abstinência uma curiosidade: vc contou o tempo? como foi o primeiro encontro? Suely, Brasília-DF – 2008

02- Meu desejo de ruiva é que você termine a historinha de 1 ano de seca. kkk Sucesso, Kelmer. Rafaela, Campina Grande-PB – 2008

03- Fiquei curiosa pra saber como vc foi levando a secura depois do 6º mês. Conta, vai! Ah, não esquece de contar também como foi que vc saiu desse 1 ano de secura! A pobrezinha sobreviveu? (brincadeirinha…) Jéssica (de onde mesmo?)- 2008

04- muito me interessou a sua experiência de um aninho sem nada..pobrezinho.. pq eu, nossaaaa, meu namo já sabe quando fico irritada.. das duas uma ou é tpm ou é falta…conte aí mais de como vc saiu dessa, todas nós mujeres queremos saber!!! besos ;) GG, Fortaleza-CE – 2008

05- Você tá é enrolando, não quer continuar sua saga para nós, sensíveis mulheres que somos, nos deleitarmos com sua seca quase nordestina. Continue, continue… Rafaela, Campina Grande-PB – 2008

06- Como é que pode? Fico uma semana esperando ansiosamente você postar e no final das contas você não termina a história..Isso não é coisa que se faça com suas pobres leitoras! hehe Ow Kelmer, continuuaaaa, por favor. Flávia, Fortaleza-CE – 2008

07- Dessa vez, vc se superou! Sua narrativa tá tão engraçada que eu fiquei rindo sozinha feito doida, na frente do micro. Mas esse suspense todo já tá me dando ansiedade.  Conta logo o resto da saga, vaaaiii!!! Jessica (de onde mesmo?) – 2008

08- Oi meu querido…rapaz as meninas estão com toda razão..(vc faz muuuuuito suspense…)conta logooooo…vc não imagina o quanto nos deliciamos lendo suas histórias, reais ou não, e outra é tudo de bom vermos a opnião sincera de um homem, saber o que vcs pensam é tudo. Ahhh, quanto as risadas da Jéssica ela não está só (EU TAMBÉM.. HEHEHEH). PIOR, QUE SEMPRE LEIO NO TRABALHO… KKKKKK BJOOOOO. GG, Fortaleza-CE – 2008

09- Continua a história do 1 ano na seca q está ótima, tô imaginando quem seja a Sonja. Daniela, São Paulo-SP – 2008

10- Meu desejo pra 2008: saber o final da saga kelmérica de 1 ano na seca. Não faça assim, clemência!!! Prometo lhe indicar novos leitores. Mas, por favor, continue a saga da estiagem! Jessica - 2008

11- Ei, isso não vale! Ah, seu chantagista safado !!! Tô aqui, tremendo feito viciada (que de fato estou) nas tuas histórias, e vc me vem com essa, não vai terminar de contar sobre a tua abstinência… Isso não se faz, viu?! Hunf! Cristie - 2008

12- entresafra é fogo…continua e estoria meu escritor-favorito, vai. Christina, Rio de Janeiro-RJ – 2008

13- É. Eu não fazia idéia mesmo, fico sempre lhe subestimando e nunca acho que você vai se superar na continuação da saga de secura de 1 ano. E deve ser por isso mesmo que tomarei um remedinho pra cólicas daqui a pouquinho. Vai matar outro de rir, Kelmer, aliás, Ricardinho! (falei isso com a boca aberta e olhos arregalados, enternecidos…kkk) Rafaela, Campina Grande-PB – 2008

14- Vc sabe tudo… e a Sonja também… INCRIVEL…”catártico” Ô Ricardooooo Termina essa estória pelamordeDeus…rsrsr… Cristina Rodrigues, Santos-SP – 2008

15- hum.. já ficou assanhado lembrando da sonja e seu orifício dilicioso.. arráaaa Sou uma das leitoras que como foi mesmo que você disse .. ah.. as “bem comidas”.. meu marido faz a parte dele direitinho!! aiai Mas é claro que as vezes, ele está lá no seu dia de trabalho árduo e eu aqui em casa a pensar na vida…. ai já viu né.. não sei por causa de quê..??? começa a vim um fogo e olho para o relógio e penso: mãos pra que te quero.. e ai meu filho vai eu e o travesseiro, rolando de uma lado para outro… quer os detalhes né safado.. eu não.. só se você me explicar primeiro essa tal posição da ventania no bambuzal.. Pandora, Goiânia-GO – 2008

16- Hahahahaha! Diz que homem na secura é um horror…mulher mal comida então, sem comentários. O mau humor chega a ser quase palpável, ninguém merece! Ainda bem que meu namorado me mantem assim, muito, muito bem humorada. Lu Robles, São Paulo-SP – 2008

17- Fui seca na sua saga e vc não escreveu quase nada. rsrsrsrs Tá querendo matar a gente de curiosidade? Gosto dos seus textos com uma pitada de pimenta. rsrsrsrs. Alessandra Pereira, Brasília-DF – 2008

18- caramba, vc tem que continuar com os posts de ‘um ano na seca’, e quando acabar continue em ‘dois anos na seca’ e assim sucessivamente :D hahaha. Vamille - 2008

19- “Um Ano na Seca” me faz entender muuuiiito sobre o universo masculino. Rosa, Fortaleza-CE – 2008

20- Quando eu penso “Kelmer já esgotou toda inspiração que tinha, desse Um Ano de Seca não vai sair mais nada, já deu o que tinha que dar!”, lá vem tu com essa história de fazer um roteiro sobre prostituição na Vila Mimosa. Tá, já die meu braço a torcer. Agora continue, seu cabra. Rafaela, Campina Grande-PB – 2008

21- Desconfio que você tem um lado SADO… E olha que disso eu entendo, rsrsrs. Conte logo o final dessa história com a Rose. Mesmo usando minha imaginação, não é a mesma coisa. bjs. Clara Yasmin, Rio de Janeiro-RJ – 2008

22- Ai, Kelmer, e a Rose, hein? Marréóviu, marréclaro que eu quero ver esse final. Foi ou não? Beijos, querido! Cada vez mais fã, seu mimoso! Rosa, Fortaleza-CE – 2008

23- Como pode alguém fazer de uma situação ruím ,uma coisa engraçada,só vc mesmo,olha eu parecia uma louca rindo aqui no meu trabalho,kkkk,momentos taum engraçados,e que é dificíl naum te encaixar na foto,pq minha mente é fértil demais,por outro lado vc acaba passando para suas leitorinhas o homem romantico,carismatico e sensual que vc é,e fora outras cositas massss…..rsrsrs,deixa pra lá,dá vontade de ler td de novo.bjus e abraços. Lucia Lima, Fortaleza-CE – dez2010

24- Muito bem escrito e divertido. Adorei tudo, da Sonja à Marília. bjo. Renata Regina, São Paulo-SP – fev2011

25- Hoje li ‘um ano na seca’ e como me diverti! Espero me divertir mais sendo uma leitorinha VIP! Bjo! Gloria Guimarães, Fortaleza-CE – mar2011

26- Menino, hoje, quer dizer, ontem, tirei pra ler teu blog, e fui me envolvendo de um jeito que não consegi fazer outra coisa… São exatamente 3h25 e desde as 23h to aqui morrendo de rir das tuas loucuras, principalmente do Um ano na seca. Tu parece q tá dentro da cabeça da gente, ou que instalou um programa q percebe todas as nossas movimentações. Adorei a historia, voltarei sempre que sentir saudades de vc ;) Grande beijo meu caro, obrigada por mais esse prazer literário… Nadine Araújo, Fortaleza-CE – out2011

27- Finalmente consegui terminar de ler. Chorei do começo ao fim (DE TANTO RIR!!!). O que é isso, meu filho? Eu tava ficando com tanta pena de você que tava quase reescrevendo o final da história pra te dar uma força. Mas confesso, foi bastante enriquecedor, aprendi sobre termos e objetos que não conhecia, kkkkkkkkkk. Só você mesmo pra escrever tanta maluquice! Adorei! Maria do Carmo Antunes, São Paulo-SP – jan2012

28- ah eu adoreiiiiiiiiii……=D. Laís, São Paulo-SP – jan2012


Não saia com ele (1)

agosto 6, 2008

Ricardo Kelmer 2008

Bons tempos em que a gente podia ser cafajeste à vontade, sem medo de ser fichado pelo Sindicato das Coitadas

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Sabe aquele carinha que aprontou pra cima de você? Que mentiu, te enganou, te ludibriou, disse que estava apaixonado mas que só queria mesmo era te comer e você caiu direitinho? Lembra da raiva que você sentiu do cafajeste? Lembra que você quase cometeu um crime, ainda bem que na hora não tinha nenhuma faca por perto, lembra?

Ah, seria ótimo se existisse um lugar onde você pudesse botar a foto do demente e alertar a todas as mulheres sobre quem na verdade ele é, né, um crápula vil e mentiroso, um colecionador de xoxotas barato. Xoxotas baratas, não, leia direito, menina! Até porque a sua não tá em liquidação, né? Poisbem. Já pensou como isso seria útil à sociedade e, principalmente, à classe feminina?

Pois este lugar existe, acabei de descobrir. O site se chama Não Saia Com Ele (www.naosaiacomele.com) e lá estão todos os canalhas que aprontaram com vocês. Bem, todos não, claro, pois canalha é um bicho danado pra se reproduzir, todo dia nascem milhares, e cada vez mais sorrateiros e ardilosos, nem o site mais ágil do mundo daria conta de atualizar os números e estratégias de mercado da canalhice masculina. Mas lá dá pra ter uma boa noção dos tipos de sacripantas maquiavélicos que uma pobre e indefesa mulher pode encontrar numa única encarnação na Terra.

O site, que certamente é uma iniciativa do atento e atuante Sindicato das Coitadas, funciona assim: você publica seu relato, bota a foto do calhorda ordinário que só queria te comer, disponibiliza informações sobre o patife (cidade, imeio, orkut etc) e quem quiser pode comentar, te apoiar e apedrejar o meliante. Você pode escrever livremente pois o site garante o anonimato e nem checa a veracidade das informações. Ou seja, você pode ser beeeem escrota mesmo, exagerar na canalhice do crápula nojento e até diminuir cinco centímetros no tamanho do pau do desgraçado só pra ficar rindo, imaginando a cara do pilantra salafrário quando ele souber. Vingança malígrina!

Putz… As mulheres andam muito vingativas, dona Orestina. Bons tempos em que a gente podia ser cafajeste à vontade, sem medo de ser fichado pelo Sindicato das Coitadas. O pior não é nem ser fichado, isso no outro dia sai na urina, e além do mais até os melhores partidões do planeta têm a ficha suja. Chato mesmo é ver reveladas publicamente todas as nossas incríveis táticas maquiavélicas, arquitetadas com esmero durante anos, e de repente ter que trocar todas elas pois vai que a próxima coitada acessou o site e conferiu nossa ficha quilométrica, né?

Por exemplo, a velha tática de dizer que eu ainda não terminei com a outra porque domingo é o aniversário dela e obviamente seria pouco cavalheiresco dar esse tipo de presente. Essa é boa mas já não ia colar mais. E nem certas versões da clássica “vou botar só a cabecinha”. Heim? Nessa você não cai? Não diga isso, mizifia, essa é a tática-rainha, funciona desde o tempo do tataravô da Chita e vai continuar funcionando porque o que pega mesmo é o jeitinho com que se diz. Tipo assim: se a gente disser que vai botar só a cabecinha, você vai achar supergrosseiro e pode até vomitar encima da gente, eca. Maaaas… se a gente disser que não quer transar mas quer apenas sentir um pouquinho da divina sensação de estar às portas do santuário da mulher mais maravilhosa que a gente já conheceu e levar essa sensação na lembrança feito uma bênção e dormir agarradinho com essa sensação pra poder sonhar com o dia em que a gente finalmente poderá ter essa divina sensação de verdade e… Tá vendo? O pingolim já entrou.

Bem, mas deve haver algo de positivo nessa vingança do Sindicato das Coitadas. Sim, claro que há! Agora somos obrigados a frequentar cursos de reciclagem profissional pra ficar por dentro das novas necessidades do mercado. É, isso é bom, mas o investimento não vai sair barato e alguém terá que pagar a conta. Adivinha quem. Isso mesmo, vocês! Afinal agora vocês são financeiramente independentes e estão tomando nossos postos de trabalho, nem em posto de gasolina a gente arruma mais emprego. Ou seja: os canalhas continuarão sendo canalhas como sempre foram e você, querida, ainda terá que desembolsar uma graninha considerável…

Gente, estamos complicando a coisa mais do que precisa. Saudade daquele doce tempo, em que a gente fingia que não queria apenas sexo, vocês fingiam que acreditavam e depois espalhavam pras amigas que a gente não prestava e elas não resistiam à tentação de conferir pra ver se era verdade mesmo.

Pelo retorno aos velhos tempos! Era mais simples e saía mais barato pra todo mundo.

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Ricardo Kelmer – blogdokelmer.wordpress.com

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OBS.: Aparentemente, o site naosaiacomele.com.br foi retirado do ar, certamente por conta de reclamações por parte dos homens que tiveram seus dados e fotos expostos. Prevendo que isso pudesse acontecer, felizmente copiei alguns depoimentos. Eles são ótimo material pra escrever crônicas sobre os universos feminino e masculino.

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LEIA TAMBÉM

> Não saia com ele (1) – Bons tempos em que a gente podia ser cafajeste à vontade, sem medo de ser fichado pelo Sindicato das Coitadas.

> Não saia com ele – Titiko – Parece que a Renata tava mais interessada em restaurante chique do que em namorar… Coitadinha

> Menu de homem – Na onda da mulher-melancia, mulher-jaca, mulher-filé e outras classificações femininas hortifrutigranjeiras, nada mais justo que nós, homens do sexo masculino, sermos também classificados.

> Como afugentar um homem – Velha tendência feminina, essa ansiedade louca pelo amor, essa mania de fazer a relação ocupar todo o espaço na vida de ambos…

> Amar duas mulheres – Não se preocupe, eu te entendo, bode velho, eu também sempre tive essa fantasia de comer a Hello Kitty

> Sexo neles, beleza nelas – Sexo pros homens. Beleza pras mulheres. O mundo muda, tudo muda – menos isso

> A garçonete rolante – E como ela já tem nome de vodca, uau, nosso Stone deve ficar louco sem saber se come ou se bebe a moça

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Comentarios01COMENTÁRIOS
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01- KKKKKKKKKKKKKKKKK bravo KKKKKKKKKKKKKKKKKK. Séfora Tavares, Fortaleza-CE – jan2012

02- kkkkkkkkkkkkk mentira que isso existe? se comporte Marcos Moraes senão pode ser fichado no sindicato das coitadas! =P kkkkkkkkk. Samantha Pimentel, Campina Grande-PB – jan2012

03- Porra Ricardo Kelmer num divulga isso não cara, assim se ferra com a classe. kkkkk. Adorei o texto. Marcos Moraes, Campina Grande-PB – jan2012

04- Fantastico! Silvana Reis, Lisboa-Portugal – jan2012

05- kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk….adorei o texto Kelmer. Castiele Holanda, Fortaleza-CE – jan2012



O Irresistível Charme da Insanidade – cap 1

agosto 6, 2008

O amor insano. O amor desafiador do tempo. O amor que descortina as mais absurdas possibilidades do ser.

 

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O IRRESISTÍVEL CHARME DA INSANIDADE

CAPÍTULO 1

LUCA DESPERTOU assustado. Sonhara com um abismo, imenso e escuro, bem à sua frente, um abismo aterrorizante… Esfregou os olhos e soltou um longo bocejo enquanto esticava as pernas sob a poltrona da frente. Olhou pela janela do ônibus e viu a paisagem passando, a vegetação próxima, as casinhas simples à beira da estrada, uma serra mais adiante… Felizmente não havia abismos por ali, ele pensou, aliviado.

Mais um pouco e estaria em Pipa, a famosa praia no litoral sul do Rio Grande do Norte. Fazia seis meses, desde quando acertara a folga com a gráfica, que sonhava com aquela viagem. Agora tudo que faria pelos quatro dias seguintes, até domingo, seria descansar a cabeça e esquecer dos problemas em Fortaleza. Sozinho. Sem relógio, sem celular e sem internet.

Na verdade levara o celular, sim. Com acesso à internet. Mas, como ele mesmo se prometera, era só para conferir se alguma garota havia deixado um recado urgente, nada mais. E também para ver se um amigo depositara em sua conta a grana que lhe devia. Ah, e também para acompanhar a venda de ingressos para o próximo show da banda, isso era muito importante. Pequenos cuidados, só isso, para que a vida não saísse do controle.

Pelo reflexo da janela pôde ver seu rosto, o cabelo assanhado, a expressão sonolenta… Viu a cicatriz na face direita e lembrou do acidente, o galho da árvore lhe batendo no rosto, ainda era adolescente. Tudo porque queria impressionar uma garota. Amar era mesmo um perigo.

No fim da tarde, poucos quilômetros antes de Pipa, o ônibus passou por uma cidadezinha e, do alto da encosta, Luca gostou do que viu. À sua esquerda, lá embaixo, se espalhava uma grande lagoa, que mais à frente se transformava em rio e corria suave para o mar. Além da lagoa, por sobre a copa das árvores, o sol se punha devagar, salpicando a água de reflexos que se misturavam aos botos que saltavam.

Encantado com a paisagem, Luca sentiu seu olhar capturado por aquela beleza poética, quase musical…

– Que cidade é esta? – perguntou à senhora do banco ao lado.

– Tibau do Sul. É uma antiga vila de pescadores.

Luca lembrou do que os amigos falavam sobre Pipa, as praias lindas, as pousadas, o agito dos barzinhos, gente do mundo todo. No entanto, aquela paisagem…

Levantou da poltrona, foi até a cabine do motorista e pediu que ele parasse. Mudara de ideia. Ficaria em Tibau do Sul.

Mochila às costas e violão debaixo do braço, ele caminhou de volta pela estrada e, à entrada da cidade, seguiu em direção ao mar, até a beira da encosta, onde havia um barzinho de estilo rústico. Escolheu uma mesa sob a palhoça, pediu uma dose de cachaça e sentou, deliciando-se com a brisa marinha e o cheiro da maresia. Havia um barco ancorado e um bando de gaivotas brincava no céu. A luz do fim de tarde banhava a paisagem de uma atmosfera meio onírica e de repente ele sentiu-se fora do tempo, tudo ao seu redor flutuando feito um pedaço de terra que se solta do continente da realidade…

Foi nesse momento, feito uma ânsia, que a canção quis sair. Não apenas queria, ela precisava sair. Rapidamente, ele puxou o violão e… a música não saiu. Tentou vários acordes mas nenhum deles conseguiu expressar devidamente a alma daquele instante. Outra hora talvez, ele pensou, levemente frustrado, encostando o violão. E virou de um gole a bebida.

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JÁ ERA NOITE quando Luca alcançou o camping, um pequeno espaço arborizado próximo ao rio que a dona do terreno, dona Zezé, uma senhora divorciada, alugava para campistas. Ao lado ficavam sua casa, uma pequena pousada e o restaurante, tudo muito simples. Como não estavam na alta estação e nem era feriado, a pousada estava vazia e no camping havia apenas uma barraca azul e nenhuma outra mais.

– Embaixo daquela mangueira é um lugarzinho bom pra você ficar, faz muita sombra – sugeriu dona Zezé. – Mas antes não quer comer alguma coisa? Você tá muito magro.

– Eu venho depois, obrigado.

Em poucos minutos Luca armou a barraca e trocou de roupa. Alguns passos para o norte e estaria à beira da encosta, o rio alguns metros lá embaixo esperando-o para um banho. Melhor impossível. Mas o banho ficaria para o dia seguinte, estava muito cansado.

No restaurante ele comeu um sanduíche com refrigerante, conversou mais um pouco com dona Zezé e conheceu seus dois filhos adolescentes, que moravam com ela e a ajudavam a administrar o negócio. Depois voltou à barraca e deitou. O sono, porém, não veio rapidamente como ele queria. A simplicidade e a beleza daquele lugar, em vez de relaxá-lo, de repente lhe trouxeram muitos pensamentos…

Por que a vida não era mais fácil de ser vivida?, ele se indagou. Em vez disso, era preciso estar sempre atento para que a vida não fugisse do controle, sempre esperto para que a mão traiçoeira do destino não se metesse em suas chances de ser feliz. Por quê?

Um contínuo e angustiante esforço de se estabilizar e economizar dinheiro – era a isso que se resumira sua vida. Quando tinha dezoito anos e cursava administração na faculdade, imaginava que logo estaria numa situação tranquila, sem afobações financeiras. Mas o futuro aconteceu diferente. Após empregar-se numa gráfica, abandonou a faculdade e passou a se dedicar mais ao violão, um velho prazer da adolescência. Tinha agora vinte e oito anos e tudo continuava difícil e empacado.

Dois anos antes ainda morava com a mãe, dona Glória, e a irmã Celina, que namorava o baterista da banda. O pai morrera quando eles eram bem pequenos e a mãe não casara novamente. Agora o emprego de gerente na gráfica lhe garantia o aluguel da quitinete, onde morava sozinho. Meia dúzia de shows por mês ajudavam a manter a duras penas o velho fusca, a comprar comida, pagar as contas, tomar uns uísques e pronto, era só. As despesas eram medidas e contadas e recontadas nos mínimos detalhes, um sufoco permanente. Dona Glória já desistira de aconselhar o filho a tentar concurso público e se casar. Ser gerente de gráfica, dizia ele, era o máximo de concessão que podia fazer. E quanto a casamento…

– Tô fora, mãe. O amor descontrola muito a vida da gente.

Sentia-se cansado. A sensação era de que, apesar de todos os esforços dos últimos anos, continuava andando em círculos, girando sobre o mesmo ponto, sempre girando, sempre…

Olhou para o violão deitado ao lado. Pelo menos havia a música. E a banda. Dois anos antes conhecera Junior Rível, que o convidou a cantar na banda que estava montando. Inseguro, hesitou em aceitar.

– Pensa bem, cidadão – insistiu Junior – Muito show, muito uísque. E muita mulher!

Argumento irresistível.

– Topado – respondeu Luca, apertando a mão do novo amigo. – Festa é o que nos resta nessa vida.

– Opa. Isso dá um blues.

Nascia assim a amizade entre Luca e Junior Rível. E nascia também a Bluz Neon. Festa é o que nos resta – era o lema da banda. Blues, rock e irreverência na noite de Fortaleza. Os cachês eram baixos e muitas vezes se apresentavam de graça mas o prazer de tocar compensava tudo. E para Luca a Bluz Neon era o refúgio perfeito, onde podia se esconder da claridade traiçoeira dos dias. À noite ele estava a salvo, tudo sob perfeito controle. A noite sim, era segura, com seus bares, uísques e amores sob controle. Era como um sonho bom. O único defeito era que no outro dia ele sempre tinha que acordar.

Teus olhos se acendem nos neons
É o frisson de bar em bar
É preciso ser feliz, é urgente
Um romance caliente
Antes do dia nos lembrar
Que o sonho não resiste à luz solar

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NO DIA SEGUINTE Luca levantou tarde, sentindo-se ainda cansado. Demorara bastante a adormecer, envolto em seus mil pensamentos. Será que nem ali, naquele paraíso, conseguiria relaxar de verdade?

Fazia uma manhã de sol claro em Tibau do Sul. Luca pôs o óculos escuro, deixou a barraca e foi ao restaurante da pousada tomar café. Mais tarde, após um demorado banho de rio, ele voltou ao camping. Sentia-se mais disposto. Qual fora a última vez em que entrara num rio? Nem lembrava. Mas precisava fazer aquilo mais vezes.

Após trocar de roupa, dirigiu-se ao restaurante para almoçar e foi nesse momento que ela surgiu.

– Oi…

Ele virou-se e viu uma garota. Era bonita e aparentava a mesma idade que ele. Usava short jeans, camiseta e sandália.

– Oi – ele respondeu, simpático.

– Sou sua vizinha de barraca. Isadora.

– Prazer. Luca.

– Luca… – ela repetiu, experimentando o nome em sua boca. – Luca…

Ela riu, mantendo nele o olhar. Está tão diferente…, pensou, reparando em seu corpo magro, o cabelo despenteado, a cicatriz na face…

– Está sozinho?

– Agora não estou mais.

– Que bom! Já almoçou?

– Não. Minha vizinha me daria a honra? – Ele brincou de fazer um galanteio, como se tirasse um chapéu da cabeça.

– Hummm… Como recusar?

No restaurante, ele sugeriu moqueca de peixe e ela aceitou. Luca percebeu que ela tinha belos olhos cor de mel. Percebeu também que ela o olhava de um modo estranho e sentiu-se incomodado. A cerveja chegou e ele sugeriu um brinde:

– Aos encontros.

– Encontros, não – ela corrigiu. – Reencontros.

Reencontros? Ele não entendeu mas deixou para lá. E bebeu. Ela quis saber de onde ele era e ele respondeu que morava em Fortaleza.

– Fortaleza… Um dia vou conhecer. E o que você faz?

– Trabalho numa gráfica mas meu negócio é música. Tenho uma banda, a Bluz Neon.

– O que vocês tocam?

– Blues, rock e o que der na telha futebol clube.

– Deve ser bem legal. Eu sou de São Paulo. Conhece?

– Não. Mas você não tem muito sotaque.

– É que morei em vários lugares quando era pequena. Peguei gosto por viagem. Me sinto cidadã do mundo, sabe?

– Não tem medo de viajar sozinha?

– Claro que não.

– Se precisar, tem uma lan house na entrada da cidade.

– Ah, não, nada de computador nessa viagem. Não trouxe nem o celular.

– Sério? Por quê?

– Digamos que eu… preciso me conectar mais comigo mesma.

– Sei – ele respondeu, sem ter certeza se realmente sabia. – E o que você faz em São Paulo?

– Trabalhava num banco. Mas pedi as contas pra poder fazer essa viagem. Faz um mês que viajo pelo litoral nordestino.

Bonita e interessante, Luca pensou, enquanto tomava um longo gole de cerveja. Mas por que o olhava daquele jeito estranho?

– Posso perguntar uma coisa, Isadora?

– Claro.

– Por que você está me olhando assim?

– Ahn… é que você… você me lembra alguém.

– Quem?

Ela girou o copo entre os dedos, nervosa.

– E você, não tem a impressão que também me conhece?

– Por quê? A gente se conhece?

Ela sorriu e novamente não respondeu. Luca achou melhor não insistir, talvez ele a fizesse lembrar de alguém que ela não queria lembrar, é, talvez fosse isso.

– Nossa moqueca chegou – ele avisou, mostrando o garoto que se aproximava com a bandeja.

Serviram-se e comeram. Luca pediu outra cerveja, animado. Segundo dia e um almoço com uma gata daquele naipe… Nada mal. Cervejinha, barracas vizinhas… Nada mal mesmo.

– Você por acaso já viveu na Espanha, Luca?

– Não. Por quê?

– Tem certeza?

– Claro. Mas por quê? Você morou lá?

E de novo ela não respondeu. Em vez disso, sorriu desconcertada e olhou para fora do restaurante. Ele continuava intrigado. Ela o confundia com outro, devia ser isso. Mas que era uma gracinha, isso era.

– E daqui você vai pra onde, Isadora?

– Por aí. Sem planos.

– Sem planos? Caramba, você deve ser uma pessoa bem otimista.

– Claro. No final tudo sempre dá certo.

– Admiro essa sua confiança na vida.

– E por que eu iria desconfiar dela?

– Pelo simples fato de que se você não planejar e se precaver, as coisas saem do controle. Não acha?

Ela riu como se ele houvesse contado uma boa piada e respondeu:

– Você sabe quando é que começamos a ter controle sobre as coisas?

– Não. Mas é o tipo da coisa que eu gostaria muitíssimo de saber.

– É quando abdicamos de ter controle sobre elas.

Luca pensou um pouco, buscando compreender. Mas desistiu.

– Não entendi.

– Ora… Se não há tentativa de controle, como as coisas vão sair do controle?

– Ah… – Luca riu, achando que era uma brincadeira. Mas logo percebeu que não era.

– Você está falando sério?

– Claro que sim.

Lógica perfeita…, ele pensou. Mas absurda demais para ser levada a sério. As suas coisas, por exemplo, de que modo se ajeitariam por si próprias? O trabalho, a banda, o aluguel do apartamento, a manutenção do carro… E os casos amorosos? Como tudo isso se resolveria por si só? Não, definitivamente não era possível. A vida era uma grande boiada e era preciso domá-la o tempo todo. O que Isadora propunha não passava de um mero romantismo. No entanto, tinha de admitir que, vindo dela, aqueles absurdos até que possuíam um certo charme…

Após o almoço pegaram um ônibus e seguiram para Pipa, onde passearam, conheceram as pousadas e as lojinhas e tomaram sorvete na pracinha. Isadora contou das praias que conheceu naqueles dias, o quanto se sentia em casa em todos os lugares e como se aproximava mais de si mesma assim, solta pelo mundo.

– E você, Luca? Gosta de viajar também?

– Gosto. Mas não assim como você.

– Tem medo de se perder?

– Acho que eu gosto mais da segurança da minha cidade. Lá eu sei me mover bem.

– Entendi. E essa cicatriz aí?

– Lembrancinha de um passeio de jangada. Fizemos um blues pra ela. Quer ouvir?

Ela respondeu que sim e ele cantou:

Amar é um perigo
Só eu sei o que eu passei
Nesse abismo deu vertigem
E a angústia não se desfez
Não quero a dor de mais um bis
Depois só resta a cicatriz
Só não me peça, beibe
Não me peça pra te amar

 

– Você teve uma decepção amorosa muito forte? – ela quis saber.

– Tive. Mas já faz tempo.

– Até esses sofrimentos têm seu lado positivo.

– Claro que têm. Depois disso fiquei vacinado.

– Como assim? Não quer mais amar novamente?

– Prefiro não me arriscar. Amar é um perigo.

– É mesmo – Ela riu. – O melhor perigo do mundo.

Luca riu também. Mas não concordava, é claro.

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CHEGANDO AO CAMPING, de volta a Tibau do Sul, Luca perguntou se Isadora gostaria de beber algo, ele tinha um vinho na barraca.

– Preciso te dizer uma coisa, Luca.

– O quê?

– Eu sonhei com você.

– Comigo? Quando?

– Seis meses atrás.

– Mas a gente nem se conhecia…

– Era você.

– Sério? Era eu mesmo, assim como você me vê agora?

– Não, sua imagem não era muito nítida. Mas era você.

– Não entendo. Como pode uma coisa dessa?

– Mistérios da vida. E você?

– Eu o quê?

– Nunca sonhou comigo?

Eu adoraria dizer que sim, beibe… – ele quase respondeu.

– Não.

Isadora sorriu sem graça, desapontada.

– No sonho que eu tive, você me pedia pra gente se encontrar nessa praia.

– Você realmente está falando sério?

– Estou. Eu lembrei de tudo quando acordei, só não sabia qual era a praia. Mas sabia que ficava nessa região. E que havia um rio. Aí, na semana passada, quando cheguei em Tibau do Sul, senti que seria aqui que eu encontraria você.

O que significava aquilo?, pensou Luca, coçando a cicatriz no rosto, cada vez mais intrigado. Seria uma cantada? Se fosse, então era bem original.

– Você disse mais uma coisa no sonho.

– O quê?

– Que eu precisava te ajudar.

– Ajudar em quê?

– A saltar no abismo.

– Que abismo?!

– Não sei. Foi o que você disse. Então aqui estou.

– Juro que não sei de nenhum abismo – ele respondeu. E de repente lembrou… lembrou vagamente de um sonho… Sonhara com um abismo aqueles dias. Sim, um abismo… escuro… ameaçador…

Coincidência, ele pensou, livrando-se da lembrança incômoda. Apenas coincidência.

– Não sabe mesmo? – ela perguntou novamente.

– E mesmo que soubesse, quero distância de abismo. Não gosto deles.

Ele queimava os neurônios, procurando entender tudo aquilo… Ela devia estar brincando, devia ser isso, uma brincadeira. Ou então não batia bem da cabeça. Seria louca?

– Se você realmente veio de tão longe por causa de um sonho… Então o que aconteceria se eu não aparecesse?

– Bem… Na verdade eu não quis pensar muito nisso.

– Acho que devia ter pensado.

– E você devia ter lembrado de mim.

Ele percebeu uma certa irritação no tom da frase. Isadora olhava para o céu estrelado e torcia as mãos, impaciente.

– Desculpa, Luca, não quis ser grosseira – ela falou, voltando-se para ele. – É que eu… estou confusa. Eu achava que você… que você também…

– Foi só um sonho, uma coincidência.

– Não pode ter sido só isso – ela respondeu, quase interrompendo-o. E prosseguiu sussurrando, mais para si mesma que para ele: – Não pode.

Luca sentia-se meio perdido, sem saber o que deduzir de tudo aquilo. Como alguém podia sonhar com uma pessoa que não conhece e sair por aí em busca dela, sem qualquer garantia de encontrá-la? Isso era tão absurdo, tão inconcebível… Ela não podia estar falando sério. Mas também não parecia estar brincando. Só havia uma explicação: era louca. E com loucos não se podia argumentar.

– Escuta, por que a gente não esquece esse assunto e toma um vinho? Você gosta de…

– Você acredita em vidas passadas, Luca? – ela o interrompeu.

– Vidas passadas? Por quê?

– Acredita ou não?

Ele pensou rápido. Não acreditava, claro, impossível acreditar naquelas bobagens. Mas e se o sucesso da noite estivesse nas mãos de uma boa resposta?

– Depende.

– De quê?

– Depende do dia.

– Sei. E como estará seu dia amanhã?

– Amanhã… Acho que é um bom dia pra se acreditar em tudo.

– Ótimo. Porque tenho uma história bem louca pra te contar.

– Por que não conta hoje?

– Porque… – Ela pensou um pouco. – Porque eu é que não estou num bom dia pra acreditar em tudo.

Enquanto ele procurava algo para dizer, ela abriu a barraca e entrou.

– Boa noite, Luca.

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(continua)

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Ricardo Kelmer – blogdokelmer.wordpress.com

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A torta de chocolate

agosto 2, 2008
Sexo e chocolate. Para muita gente as duas coisas têm tudo a ver. Para Celina era bem mais que isso…..

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A TORTA DE CHOCOLATE

Ricardo Kelmer 2007

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Foi em sua festa de aniversário de dez anos. Celina havia distribuído os pedaços da torta de chocolate entre os parentes e amigos e agora comia feliz o seu pedaço. Ela sentiu a torta se desmanchando em sua boca, o doce meio amargo do chocolate, a saliva se misturando à torta, envolvendo, dissolvendo…

Muitas outras vezes sentira aquela mesma sensação maravilhosa, aquele mesmo deixar-se flutuar pelos céus do sabor, o prazer incomparável… Mas dessa vez foi diferente. Houve uma outra sensação, que surgiu como uma onda suave, nascendo em algum lugar indefinido do corpo e avançando por todos os lados ao mesmo tempo, uma onda trazendo outra atrás dela, várias ondas que não se pode deter, que se espalham e vão se espalhando, invadindo, preenchendo, assustando, enquanto o coração se acelera, a respiração fica ofegante…

Foi ali mesmo na sala, em pé ao lado da mesa e em frente a todo mundo, ali mesmo, saboreando o último pedaço da torta de chocolate, que Celina teve o primeiro orgasmo de sua vida.

O que começou naquele dia, aos dez anos, prosseguiu naturalmente, fazendo Celina experimentar orgasmos sempre que comia uma saborosa torta de chocolate. Nesse instante a experiência se repetia e ela se sentia misturar ao próprio pedaço de torta que comia, o chocolate irresistível, a saliva tomando sua boca inteira, o coração a bater forte, aquele calor interior, a vista escurecendo, as pernas fraquejando…

Foram muitas tortas maravilhosas, incontáveis. Algumas, porém, se tornaram inesquecíveis. Aquela do aniversário, por exemplo, era a mais cara da padaria do seo Nuno, tanto que o pai só comprava em datas especiais. Mas às vezes ele cedia à insistência da filha e chegava do trabalho trazendo a surpresa mais que aguardada, que serviria de sobremesa para os jantares seguintes. O primeiro pedaço Celina comia na mesa, junto com o pai e a mãe, mas sempre de forma contida. Era o segundo pedaço o especial, esse sim, que ela comia de madrugada, os pais já dormindo. A menina Celina caminhava silenciosamente até a geladeira, de camisola e pantufas de coelhinho, pegava um grande pedaço e se trancava com ele no quarto, e lá, deitadinha na cama, afastava as bonecas de pano e, esquecida do mundo e de si mesma, entre doces murmúrios de languidez, deliciava-se entre seus múltiplos orgasmos de chocolate.

Depois Celina conheceu outras tortas, como a do novo colégio, que tinha pedaços de morango, era uma delícia, mas que precisava comer trancada num boxe do banheiro para poder gozar sossegada. Havia também a do café do Cine Gazeta, uma torta divina, com uva e leite condensado, que durante anos lhe proporcionou públicos orgasmos semanais, após a sessão de arte, ela sentadinha na mesa do canto, ao lado dos pôsteres dos filmes, sozinha, as coxas roçando uma na outra por baixo da mesa, os olhinhos revirados por trás do óculos escuro.

Um dia, conversando com uma amiga da faculdade de publicidade, contou que sentia prazer quando transava, sim, mas que não se comparava ao prazer que lhe davam suas tortas queridas. Aquilo era normal? Teria ela algum distúrbio sexual? A amiga riu muito e ao final lhe sugeriu ir a uma sex shop.

Dias depois Celina chegou em casa com uma caixinha comprida de papelão, embrulhada para presente, que guardou no congelador da geladeira. À noite, após tomar banho, trancou-se no quarto e pôs uma musiquinha suave para tocar. Depois penteou-se vagarosamente diante do espelho e tirou a roupa. Ajoelhada sobre a cama, abriu a caixinha e desembrulhou do papel alumínio um pau todo de chocolate, maciço, vinte centímetros de comprimento, cinco de espessura.

Durante algum tempo ela não conseguiu deixar de olhar para o objeto marrom escuro em sua mão. Era lindo, perfeito, imponente… e absolutamente irresistível. Deu-lhe uma leve lambida com a ponta da língua e o gosto do chocolate fez seu corpo inteiro se arrepiar. Depois lambeu a partir da base, a língua percorrendo devagarinho toda a extensão do objeto, até chegar à cabeça, que pôs inteira na boca, detonando uma explosão de saliva.

Então deitou-se e abriu as pernas. E segundos depois o pau de chocolate estava todo dentro de sua buceta, indo e vindo, derretendo-se, misturando-se aos seus fluidos… E quando o gozo chegou, ela retirou o pau dentro de si e levou à boca, e comeu com sofreguidão, enquanto novas ondas de prazer surgiam dentro dela, uma após outra, e outra de novo, e quando tudo terminou, Celina só teve forças para virar de lado e adormecer, vencida pelos tantos orgasmos, o corpo, o cabelo, o lençol, tudo lambuzado de chocolate.

Um pau de chocolate era delicioso. Mas não era uma torta de chocolate. Pena que não existiam paus de torta de chocolate, lamentava-se Celina.

Um dia veio-lhe a revelação. Foi enquanto comia um pedaço de torta na confeitaria. No momento em que sentia a torta se desmanchando na boca, ela pensou em como se sentiria a torta naquele exatíssimo instante. Como seria ser cortada, estripada, dilacerada e depois devorada, sem compaixão, inteiramente devorada, até o último pedaço, devorada até que nada mais restasse?

A partir daí, e por várias vezes, julgou ter chegado bem perto da resposta, da sensação exata, quase pôde sentir o que a torta sentia, quase… Mas no último instante algo lhe escapava, como um gosto que se perde na boca e não mais se encontra.

Até que um dia teve a idéia. Uma idéia perfeita. Mas que necessitava de um plano igualmente perfeito. E ela começou a arquitetar seu plano, passo a passo, com muita paciência.

Primeiro entrou numa comunidade virtual de adoradores de torta de chocolate. Lá conheceu muitas outras pessoas que, como ela, sabiam exatamente o que vinha a ser esse louco arrebatamento provocado por um pedaço de torta de chocolate se desfazendo na boca. Ali na comunidade as experiências eram todas compartilhadas e Celina aprendeu novas receitas e soube de outros lugares onde poderia degustar uma boa torta.

Como a associação entre chocolate e prazer sexual era um tema recorrente nas conversas, foi fácil para ela pesquisar sem revelar sua estranha condição e chegar à conclusão da qual já desconfiava: somente ela era capaz de ter orgasmos apenas comendo um pedaço de torta. Celina adorou saber disso. Decididamente, era uma mulher muito especial.

Mas não era essa constatação o objetivo principal do plano.

Meses depois participou do encontro da comunidade, num piquenique realizado no parque da cidade. Lá conheceu pessoalmente vários membros da comunidade, fez amizades e, é claro, provou de todas as tortas levadas pelos novos amigos, todas deliciosas, sim, e em vários momentos Celina precisou de boa dose de autocontrole para não gozar ali mesmo, sentada na grama do parque, entre uma dúzia de pessoas que acabara de conhecer. Preferiu manter seu segredo.

O dia marcado para a execução da parte final do plano foi um sábado, seis meses após seu ingresso na comunidade. Uma estratégica espera de seis meses.

Os convidados chegaram em seu apartamento no final da tarde e Celina os recebeu com alegre hospitalidade. Eram três homens, os três que ela escolhera, com cuidado e paciência, após tê-los conhecido pessoalmente nos encontros da comunidade. Os três mais interessantes.

Ela serviu suco e refrigerante e avisou que a torta que ela mesmo preparara seria servida após o filme. Dito isso, ligou o DVD e começaram a ver um documentário sobre… tortas de chocolate, claro, que mostrava a história da iguaria, suas variadas versões, as receitas, os clubes de amantes de tortas de chocolate e até os torneios que eram realizados para eleger as melhores tortas do mundo.

Quando o filme terminou, Celina podia escutar o som da saliva na boca dos convidados: como ela calculara, já estavam todos famintos. Um deles perguntou sobre a torta e ela pediu um pouco mais de paciência pois queria mostrar um outro filme, este sobre o preparo da torta vencedora do último concurso realizado. E assim, por mais uma hora, os convidados de Celina assistiram a um bombardeio de cenas de torta de chocolate e a cada imagem ela podia escutar os suspiros de absoluto encanto dos três homens.

Quando terminou, ela acendeu a luz da sala e viu no rosto de todos eles o mais puro e genuíno olhar da fome. Celina sorriu por dentro: estavam no ponto.

Então pediu que ficassem ali na sala e num minuto ela os chamaria para finalmente comer. E eles obedeceram, esfregando as mãos, lambendo os lábios, salivando…

Quando a voz de Celina os chamou, os três homens se dirigiram à cozinha mas quando lá chegaram, nada viram. Onde estava a torta? E Celina, para onde fora?

Aqui! – era a voz dela, e vinha do quarto ao lado. Eles riram da brincadeira da amiga e foram para lá. E quando chegaram, viram algo incrível. A luz do quarto estava apagada e do banheiro vinha uma fraca luz que envolvia de penumbra o ambiente. E na cama, sobre o lençol branco, repousava… uma imensa torta de chocolate, de três níveis, uma de chocolate preto, outra de chocolate branco e outra de brigadeiro. Havia também uvas vermelhas e chantilly.

Durante algum tempo eles ali ficaram, em pé à entrada do quarto, olhando para o inacreditável objeto disposto sobre a cama. Não havia qualquer dúvida: era a torta mais linda, mais inconcebivelmente perfeita que jamais veriam em toda a vida. Foi quando, de repente, a silhueta de alguém surgiu no vão da porta do banheiro. Era Celina. Nua. Inteiramente nua.

Ela manteve-se lá por um longo minuto, enquanto passeava a mão pelo próprio corpo, acariciando-se languidamente. Depois saiu caminhando, passou bem perto dos três homens e deu a volta na cama, parando do outro lado. E eles continuaram do mesmo jeito, imóveis, sem sequer piscar o olho.

Celina subiu na cama e, de pé, posicionou-se de costas para eles, as mãos na cintura. Depois pôs um pé de cada lado da torta e ficou assim, as pernas abertas, de costas, a torta entre seus pés. Os três homens olhavam pasmados, sem acreditar e sem conseguir desviar os olhos da cena. Celina então pôs uma mão em cada joelho, dobrou as pernas e foi descendo… descendo lentamente… a bunda se aproximando da torta, se aproximando… a brancura de sua bunda contrastando com o marrom do chocolate…

Então ela parou, sua bunda como que suspensa no ar, pouco acima da torta. Durante aqueles intermináveis segundos, a bunda de Celina, aberta logo acima da torta, era uma imagem tão absurda que nenhum dos três conseguiu dizer qualquer palavra, como se estivessem aguardando tão somente que a realidade voltasse ao normal e no instante seguinte finalmente entendessem, aliviados, que tudo não passara de uma alucinação coletiva.

Subitamente Celina deixou-se cair e a realidade de sua bunda despencando sobre a torta, afundando por entre o chocolate, enterrando-se como uma grande cereja no alto do bolo, era real demais para ser suportada. Os três homens então avançaram, enquanto a bunda de Celina prosseguia deslizando sobre a torta, mexendo-se em movimentos circulares, o chocolate grudando-se à sua pele, espalhando-se pelas nádegas, depois pela cintura, as pernas, os braços, os seios…

Instantes depois Celina sentia seis mãos que mais pareciam doze a deslizar sobre seu corpo, e ela se sentiu apalpada, agarrada e puxada de um lado para outro como se cada mão quisesse ficar com um pedaço, e depois foram as bocas a experimentá-la, e ela se sentiu lambida, mordida e comida, três bocas fartando-se de seu corpo-chocolate, e depois, na mistura dos corpos achocolatados, ela sentiu-se preenchida ao mesmo tempo por três carnudos e pulsantes paus de chocolate que, feito colheres enlouquecidas, chafurdaram em seu interior, indo e voltando, entrando e saindo, enchendo-a e esvaziando-a, mais rápido, com força, mais rápido ainda, com mais força, até que o gozo chegou, intenso e avassalador, e no derradeiro pensamento que teve antes de desfalecer de tanto prazer, Celina sorriu em paz, pois finalmente não apenas entendera o que sentia uma torta de chocolate: ela agora era a própria torta, uma grande e bela torta de chocolate, devorada viva por três homens famintos e enlouquecidos.

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Este texto integra o livro Vocês Terráqueas – Seduções e perdiçoes do feminino

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MAIS SOBRE SEXUALIDADE FEMININA

> Cabaré Soçaite – Uma festa de sensualidade – Se você tem medo do desejo feminino, é melhor não ir…

> O íncubo – Íncubos eram demônios que invadiam o sono das mulheres para copular com elas – uma difundida crença medieval. Mas… e se ainda existirem?

> Lolita, Lolita – Ela é uma garotinha encantadora. E eu poderia ser seu pai. Mas não sou…

> A gota dágua – A tarde chuvosa e a força urgente do desejo. Ela deveria resistir mas…

> A torta de chocolate – Sexo e chocolate. Para muita gente as duas coisas têm tudo a ver. Para Celina era bem mais que isso…..

> O mistério da cearense pornô da California – Uma artista linda e gostosa, intelectual e transgressora, que adora perversões e, entre uma e outra orgia, luta pela liberação feminina

> Vocês Terráqueas – Seduções e perdições do feminino – Livro de contos e crônicas sobre a mulher

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01- Ola, Kelmer Amei o conto, nao tem como dizer, uma DELiCIA,com certeza me estimulou a ler outros e por que não ,lhe conhecer melhor. Abraços.Valesca, ago2008

02- Amo este conto com sabor chocolate!!!!!!! Chris, Rio de Janeiro-RJ – ago2008

03- Ao ler A TORTA DE CHOCOLATE… Meus deuses, pensei: Kelmer, vc é um tarado!! Em seguida: Acho que tb sou uma tarada!! risos Não, falando sério, me diz de onde vc tirou inspiração para escrever este conto??? Fiquei super… ahhnn, super, sabe?! rss… Outra coisa, por favor, imploro: me diz onde fica esta Fantástica Fábrica de Chocolates??!!! rss. Ilde Nascimento, São Luís-MA – abr2009

04- me gusta! Wanessa Bentovski, Fortaleza-CE – dez2011

05- Este fez-me transpirar… :P Susana X Mota, Leiria-Portugal – dez2011

06- delíciaaaa. Vanessa Lua, Fortaleza-CE – dez2011

07- Uma combinação esplêndida… :9. Nadine Araújo, Fortaleza-CE – dez2011

08- Torta de chocolate? Humm, adoro!!! ( a torta e o conto). Maria do Carmo Antunes, São Paulo-SP- dez2011


Sitcom Mano a Mano

agosto 2, 2008

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INFORMAÇÕES SOBRE O SITCOM MANO A MANO,
DO QUAL RICARDO KELMER FOI UM DOS ROTEIRISTAS

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O primeiro sitcom brasileiro em formato clássico foi Mano a Mano, exibido e reprisado pela RedeTV em 2005 e produzido pela produtora americana Picante Pictures, com roteiristas brasileiros.

Mano a Mano conta a história de dois jovens irmãos que não se conhecem até o dia em que um deles, Marcos, o milionário aristocrático, vai à falência e é obrigado a ir morar com o meio-irmão Robinho, que é pobre e vive na favela. Marcos leva consigo Boris, seu fiel mordomo, e os dois tentarão se adaptar à difícil realidade dos morros cariocas. De um lado o orgulhoso e pedante ex-milionário, do outro lado o garoto humilde do morro, ligado em hip-hop.

Unindo o mundo dos ricos com o mundo dos pobres, juntando negros e brancos, morro e asfalto, Mano a Mano faz do choque cultural sua isca para atrair os espectadores. A história aborda a realidade cotidiana da favela e seus problemas básicos de forma leve e bem-humorada, deixando a violência de lado para mostrar o lado alegre e lúdico do morro.

Os doze episódios da primeira temporada de Mano a Mano foram gravados na cidade do Rio de Janeiro e dirigidos por Vicente Barcellos, João Camargo e Estela Renner. Os roteiristas são: Ana Paul, Fábio Danesi Rossi, Gustavo Melo, Luciana Bezerra, Macarrão (Alexandre Magalhães), Ricardo Kelmer e Ricardo Tiezzi. Participaram também os roteiristas: Claudio Yosida, Nixxon Alves e Silva, Rinaldo Teixeira, Ricardo Barretto e Nina Crintzs.

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PERSONAGENS DE MANO A MANO

Confira os personagens do sitcom e os atores que os representam

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Marcos (Rafael Maia) – Ex-milionário, meio-irmão de Robinho. Falido, vai morar na favela com o irmão. É orgulhoso e pedante e fará de tudo para sair de lá.

Robinho (Silvio Guindane) – Meio-irmão de Marcos. Mora com sua tia Rita na favela e namora Rose. Tem um programa na rádio comunitária com o amigo Jonas.

Jonas (Leandro Firmino) – Amigo de Robinho, dono de uma rádio comunitária. Está sempre revoltado com o sistema.

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Dona Rita (Kenya Costta) – Costureira. Criou Robinho após a morte de sua mãe (mãe de Marcos) e trabalhou numa das empresas da família de Marcos.

Lucyennes (Marcelo Sandryni) – Homossexual, é a secretária brincalhona e espalhafatosa de dona Rita, amiga de infância de Robinho e Jonas.

Rose
(Juliana Alves) – Namorada de Robinho. É ciumenta e sonha em casar e ter filhos.
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Carmem (Ana Karine) – Amiga rica de Marcos. Acha excitante a realidade da favela.

Boris (Henrique César) – Mordomo de Marcos, ajudou a criá-lo. É inteiramente fiel ao patrão.

Maria Joana (Jackie Brown) – Trabalha na rádio e apresenta um programa de reggae. Vive chapada.

DJ Menor
(Luiz Antonio do Nascimento) – Trabalha na rádio. Menor de idade, quer ser como Jonas.

Chulé (Babu Santana) – Chefe do tráfico no morro. Sempre dá seu jeitinho para conseguir o que deseja.

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OFICINA ON LINE DE SITCOM
A primeira oficina de roteiro de sitcom pela internet do Brasil foi criada em 2007 pelo escritor e roteirista Ricardo Kelmer.

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Homens infiéis, mulheres inconformadas (1)

agosto 1, 2008

Ricardo Kelmer 2008

Há quem negue esse papo de biologia, afirmando que é desculpa fajuta, que os machos se aproveitam da cultura machista pra mijarem fora do seu peniquinho caseiro

Ronaldo Fenômeno. O maridão bombeiro da Suzana Vieira. Jogadores do Flamengo. Ron Wood, o Rolling Stone. Hugh Grant, o ator inglês. Putz, a lista é tão grande quanto a população masculina do planeta. Homens que traem. Por quê? Por que eles traem? Por que, mesmo casados, bem casados, com mulheres lindas, ricas e maravilhosas, mesmo quando estão apaixonados, mesmo quando amam, por que diabo esses caras não conseguem ser monogâmicos?

Você já deve ter se feito esta pergunta muitas vezes, né, leitorinha? Por que os homens (tá, não são todos, são 99%) não conseguem ser exclusivos de uma única mulher? Por que o merda do Rafael me traiu com aquela quenga, que nem bunda tem? Como o Demétrio teve coragem de me chifrar com aquela desqualificada que distribui panfleto na porta do metrô, como, como?! Por que vocês não conseguem ser fiéis, por quêêêêê?????

Calma, mizifia, também não precisa ficar histérica. A resposta à sua pergunta tá na própria pergunta: nós não conseguimos porque… não conseguimos. É uma resposta simplista, que não esclarece nada? Pode ser. Mas é a resposta mais franca possível, acredite, mesmo em se tratando de um assunto em que franqueza é algo que costuma não estar presente.

Nós não conseguimos e pronto. Podemos até tentar por um tempo. Mas lá adiante não conseguimos. Podemos até perceber, conscientemente, que não vale a pena correr o risco, que mais cedo ou mais tarde seremos descobertos, que arruinaremos uma relação maravilhosa, ela pedirá o divórcio, ficará com a casa da praia, o carro novo e o disco do Pixinguinha… Mas mesmo assim não resistimos ao canto da sereia e nos atiramos ao mar da traição.

Mas por que não conseguimos resistir? Bem, há quem alegue razões biológicas: desde o tempo do tatatatataravô da Chita que nós machos sempre tentamos espalhar nossos genes no maior número possível de fêmeas, e milhões de anos agindo assim nos faz continuar agindo assim, como se já nascêssemos com essa tendência natural, feito esse computador aí que você comprou e que já veio com os programas instalados. Putz, acabei de misturar Chita com Microsoft, mas é isso aí.

Entretanto há quem negue esse papo de biologia, afirmando que é desculpa fajuta, que os machos se aproveitam da cultura machista pra mijarem fora do seu peniquinho caseiro. Nesse caso, teríamos que estudar outras sociedades pra ver se esse raciocínio procede. Deve haver estudos nesse sentido, sim, mas desconfio que todos foram feitos por homens…

E há quem junte as duas coisas, biologia e cultura: enquanto a primeira empurra, a segunda incentiva o comportamento não-monogâmico dos nossos machos.

O papo tá muito bom mas depois eu continuo, a vizinha do 501 veio pedir uma xícara de açúcar. Engraçado essas coincidências… Sempre que ela vem, minha mulher nunca tá em casa.

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Ricardo Kelmer – blogdokelmer.wordpress.com

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O Blog do Kelmer concorre ao Prêmio BlogBooks 2009!
categoria Universo Masculino

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LEIA NESTE BLOG

> Menu de homem – Na onda da mulher-melancia, mulher-jaca, mulher-filé e outras classificações femininas hortifrutigranjeiras, nada mais justo que nós, homens do sexo masculino, sermos também classificados.

> Homens infiéis, mulheres inconformadas - Há quem negue esse papo de biologia, afirmando que é desculpa fajuta, que os machos se aproveitam da cultura machista pra mijarem fora do seu peniquinho caseiro

> Como afugentar um homem – Velha tendência feminina, essa ansiedade louca pelo amor, essa mania de fazer a relação ocupar todo o espaço na vida de ambos…

> Amar duas mulheres – Não se preocupe, eu te entendo, bode velho, eu também sempre tive essa fantasia de comer a Hello Kitty

> Sexo neles, beleza nelas – Sexo pros homens. Beleza pras mulheres. O mundo muda, tudo muda – menos isso

> A garçonete rolante – E como ela já tem nome de vodca, uau, nosso Stone deve ficar louco sem saber se come ou se bebe a moça

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01- Ha, ha, ha, muito engraçadinho! Vocês aceitariam a mesma resposta “simplista”? Hufff! Maria Do Carmo Antunes, São Paulo-SP – dez2011

02- Olha só: já vi muitos estudos falando que as mulheres, hoje, estão traindo tanto quanto os homens. Isso faz parte da revolução/evolução feminina (genes + cultura), então? Eu acho que a concepção do que se quer é de cada um. Assim como as atitudes. E também que o que leva muita gente ao ato é a falta de companheirismo. Porque a um amigo não se trai. Sim, sou careta (e feliz) :) Luciana Robles, São Paulo-SP – dez2011

03- Se a mulher não da uma canja, vamos atráz da Galinha. Andre Soares Pontes, Fortaleza-CE – dez2011

RK: Por que, biologicamente, a mulher não tende tanto à poligamia quanto o homem? Não seria, talvez, por causa da maternidade? Sim, pois a maternidade sempre a obrigou a se resguardar mais pra proteger o bebê em seu útero e, depois, a cuidar do bebê em casa ou na caverna, enquanto o homem tinha que estar fora, caçando, guerreando, fazendo comércio etc., o que naturalmente lhe traz mais relacionamentos e possibilidades sexuais. Agora que a mulher tem menos filhos e tem vida social mais ativa, ela também tá sujeita a novas relações fora do casamento, inclusive sexuais. Mesmo assim, o comportamento herdado durante milênios dos ancestrais ainda condiciona a grande maioria das mulheres a não admitir sexo fora do casamento, nem pro parceiro nem pra ela. Falei besteira? Pedindo ajuda aos universitários biólogos Marcos A. Scaico e Celia Terpins. :-)

05- Resumindo: homem trai porque pode, porque o mundo sempre foi dominado pelos homens, mulher fica na dela, etc. E porque antes o homem não tinha como saber se um filho era dele mesmo, etc. Com as mudanças culturais e tecnológicas do século recente, as mulheres passaram a trair também, etc. Não é biológico, é cultural. Em outros países, como França ou Noruega, traição feminina é muito mais comum. Acho que nem é chamada de “traição”. Sei lá. Algo assim. Etc. Luciano ES, São Paulo-SP – dez2011

06- Marcos A. Scaico Resposta de ex-biólogo, ex-ufólogo e ex-cêntrico: Não, Ricardito. Não está falando besteira. Pelo menos, não mais do que outros que se arriscam nesse assunto. Recomendo muito a leitura de “O macaco nu” do Desmond Morris. Mas isso é mesmo importante, meu? Por que saber porquê? Prefiro achar que estamos aqui para viver e não para entender. Marcos Scaico, São Paulo-SP – dez2011

07- Dhara Bastos ricardo li o macaco nu e ateh hoje eu presto atençao no cheiro das pessoas… traiçao e o pecao de todos nos, nao achas? Dhara Bastos, Fortaleza-CE – dez2011

RK: Li o Macaco Nu e adorei. Foi o livro que me despertou o interesse por antropologia evolutiva. De fato, viver é mais interessante. Os bichos, sempre sábios, apenas vivem. (e também há poligamia entre eles…)



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