Um Ano na Seca – Marília (3)

Agosto 30, 2008

Voltando à mesa. Lá tava eu confuso, sem saber o que deduzir. Tentava me concentrar na conversa de qualquer maneira, até virei a cadeira e sentei assim meio de lado pra não ter que olhar praquele par de melões morenos caindo do caixote da Ceasa bem na minha frente… e eu há mais de um ano sem comer. O Kelminho, inclusive, já havia levado mais dois tapas e de nada adiantou, ele também queria ver os peitos da santista, claro, pau da gente também é gente.

É, tava difícil. A idéia de que aquela morena fornida podia estar interessada em algo mais que simplesmente comprar meus livros me deixava num estado tal de excitação e dúvidas e fantasias e nervosismo e esperanças e insegurança que de repente tive medo de perder o controle e, sei lá, fazer uma besteira grande, tipo saltar pra dentro daquele decote, me agarrar nos peitos da morena ali na frente de todo mundo e ficar gritando lá pendurado: Fome zero! Campanha da fraternidade!! Eu podia tá roubando mas tô aqui pedindo só uma chupadinha!!!

Olhei as horas no celular. Ela imediatamente perguntou se eu tinha pressa e eu ia dizer que mais ou menos mas ela me interrompeu e disse que fecharíamos a conta, que ela fazia questão de pagar, que pagaria no cartão e que se eu não me importasse, nós dois iríamos ao hotel dela pegar o dinheiro dos livros, que ela queria comprar todos. Todos? Sim, quero todos, mas o dinheiro tá no meu quarto, vamos lá comigo pegar? Ahn, no seu quarto? Sim, no meu quarto, vamos?

Todos os livros… Vamos comigo no meu quarto… Aquelas palavras esvoaçavam feito borboletas em minha cabeça. Eu precisava responder algo, e de preferência algo assim que não revelasse meu estado de semi-debilidade mental.

Subir, quarto, mim Tarzan, iú Jane – foi o que consegui dizer. Acho que foi uma boa resposta pois ela sorriu e rapidamente levantou-se, apontando pro hotel na outra quadra.

Fiz rapidamente umas contas pra saber quanto dava o total dos livros. Putz, daria pro supermercado quase do mês inteiro, que maravilha. E o Jeitoso, claro, fazia as contas dele: decote + caipirinhas + convite pra subir ao quarto = ripa na xulipa!!! Calma, Jeitoso, a lógica das mulheres não é como a sua, eu tentei explicar. Mas é como eu disse antes, leitorinha: quando eles estão assim, não tem jeito que dê jeito, como cantava o Raimundo Soldado. E quando eles estão assim há 1 ano e 2 meses, ou a gente vai logo pra guerra ou então volta pra casa e toca duas seguidas pra poder dormir.

Quando atravessamos a rua, deixei ela sair um pouco antes e finalmente consegui olhar a bunda da moça. Foi bem rápido mas foi o suficiente. A santista era muuuito bem nutrida de glúteos. Aiaiai… Pobre de mim.

Entramos no elevador e ela epertou o 12. Eu havia posto a mochila à frente da cintura, você sabe, o Jeitoso a essa altura parecia uma garrafa de coca-cola fechada depois de dez minutos chacoalhando, estava a um milímetro de explodir. Aí no 2 a porta abriu, era o andar do restaurante, e um senhor entrou. Vestia terno e gravata, parecia que ia ou vinha de um jantar de negócios. Ele olhou pra Marília e, sério, perguntou se ela tava indo pro quarto. Ela respondeu que sim. Depois a porta abriu no 12 e eu e ela saímos. Antes da porta fechar, percebi que o senhor olhava fixamente pra ela, muito sério.

Caminhamos pelo corredor até a porta de seu quarto. Não resisti e perguntei quem era aquele homem do elevador. E ela respondeu: Meu marido. Gelei no mesmo instante. Como assim, marido?, pensei, tentando organizar as idéias. Mas no Orkut o seu estado civil está como solteira, né? – pensei em perguntar. Mas desisti.

Primeiro aqueles peitões em minha cara. Depois me convida pra subir ao seu quarto. E depois me revela que é casada – e o marido tá ali no hotel! Afinal, leitorinha, que tipo de seres são vocês, heim? Por que vocês fazem isso???

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(continua no próximo capítulo. ou não. não sei, tô muito confuso)

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Ricardo Kelmer 2008 – blogdokelmer.wordpress.com

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Sala Vip – Ago2008

Agosto 30, 2008

Muito obrigado a você que é Leitor Vip e, assim, me ajuda a viabilizar financeiramente minha carreira de escritor independente.

Com a internet e os recursos dos blogs, já não dependemos exclusivamente das editoras pra publicar e vender nossos trabalhos. Viva!!! Com este blog, por exemplo, elimino os atravessadores (editoras, livrarias e distribuidores) e lido diretamente com o leitor, o que barateia o custo final do produto.

Se você é Leitor Vip deste blog, já recebeu a senha que dá acesso aos Arquivos Secretos. Espero que esteja aproveitando bem! Tô acertando com patrocinadores e em breve faremos o primeiro dos sorteios exclusivos pros leitores vips.

A seguir a relação dos textos (até agora) dos Arquivos Secretos. Pra ler, clique aqui.

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A professora de literatura do meu marido – Graziela, professora de lieteratura, linda, culta… e escrava sexual.

Minha experiência omossexual – Umas férias no sítio, aquele clima idílico, a Natureza… Ih, vai rolar!

O último homem do mundo – O sonho de Agenor é que todas as mulheres do mundo o desejem. Para isso ele está disposto a fazer um pacto com o diabo. Mas há um velho ditado que diz: cuidado com o que deseja pois você pode conseguir… (Na íntegra apenas p/ Leitores Vips)

A torta de chocolotae – Sexo e chocolate. Para muita gente as duas coisas têm tudo a ver. Para Celina era bem mais que isso… (Na íntegra apenas p/ Leitores Vips)

Um ano na seca – O que pode acontecer a um homem sem sexo por tanto tempo? (Na íntegra apenas p/ Leitores Vips)

A Jurema e as portas da percepção – Relato completo de uma experiência xamânica que mudou a vida do escritor

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Amiga eleitora, amigo eleitor

Agosto 26, 2008

Olá, amigo eleitor, amiga eleitora. Estou aqui… Heim? Ah, é, esqueci. Mulher tem que vir antes, tem que puxar o saco delas. Ok, vamos começar de novo. Meu cabelo não assanhou? Olá, amiga eleitora, amigo eleitor. Estou aqui… Ah, é mesmo, tem que olhar no olho. Televisão é um saco.

Olá, amiga eleitora, amigo eleitor. Estou aqui, ocupando um pouco de sua valiosa atenção, pra lhe dizer que sou um candidato diferente. Eu mereço o seu voto. Por quê? Porque sou franco. De todos esses rostos que você vê todo dia na sua tevê, e tem cada assombração, né, eu sou o único verdadeiro. Por quê? Porque eu digo a verdade, duela a quien duela… Heim? Não pode dizer isso? Lembra o ex-presidente? Ah, pega mal, já entendi. Desculpe, minha amiga, meu amigo, mas temos que seguir os marqueteiros. Afinal pagamos caro por esses modernos maquiadores de palanque.

Primeiro vamos logo deixar claro uma coisa. Esqueça esse negócio de representatividade. Político não representa ninguém a não ser ele mesmo. Se algum colega meu disser o contrário, das duas uma: ou ele está mentindo ou ainda não entrou no jogo. Ainda. Você vota e esquece pois eles vão esquecer você. Estamos entendidos? Muito bem.

Por que estou na carreira política? Ora, porque é o melhor emprego do universo. Pelo menos no Brasil. Você trabalha pouco, ganha muito e não sabe o que fazer com tanto privilégio. De quatro em quatro anos você distribui dentadura na favela, meia dúzia de cadeira de roda pra instituição beneficente, treina o sorriso e aprende a responder pergunta cabeluda com aquela frase que começa com “Veja bem…”. Aí você bota uma roupinha mais simplizinha, sai no sol quente apertando mão cheia de calo, põe criancinha feia no colo, promete coisas impossíveis, posa ao lado do prefeito e pronto, tem mais quatro anos de moleza pela frente. E se souber fazer a coisa, ainda garante umas indicações, assegura umas verbinhas pro município, abre uma estrada em frente à sua fazenda… Projeto de lei? Ah, isso é muito chato. Mas vá lá, você contrata uma turma aí, eles estudam o caso e preparam um projeto bacana, distribuição de colchonete pra população carente. Pro povo, quando cair morto, pelo menos não bater a cabeça.

Não, não estou sendo cínico, estou sendo franco. Você, por acaso, não ia querer um emprego desses, com direito a férias toda semana, abono, jeton, extra, extra adicional, auxílio paletó, auxílio cueca, custo moradia, custo telefone, custo tudo? Sem falar nas aposentadorias. Sem falar que você mesmo aumenta seu salário, já pensou? Sem falar na impunidade parlamentar. Sem falar nos desvios. Ah, minha amiga, meu amigo, nada se cria, tudo se desvia. Tem gente que desvia avião, um troço grande daquele, imagine merenda escolar, que cabe no bolso da calça. Sim, tem essa tal de CPI, eu sei. Mas, cá pra nós, CPI na verdade significa Comissão que Parece que Investiga. Você acha que político vai sacanear o colega de profissão na cara dele? Não vai, é tudo comprometido. Olhe, vou lhe contar um segredinho. Sabe aquela porta do Congresso Nacional? Ela fecha bem devagar, né? Sabe por quê? Pra não prender o rabo da gente.

Se eu penso no país? Pra quê? O país por acaso pensa em mim, pensa em você? País não pensa. E este nosso não vai mudar nunca. Mudam as moscas, minha filha, mas a merda é a mesma. Quem é rico fica mais rico e quem é pobre que se dane, quem mandou nascer liso? Como é que pobre consegue empréstimo se banco só empresta dinheiro pra quem já tem dinheiro? Como é que alguém vai deixar de ser pobre se só pra poder trabalhar tem de passar quatro horas preso num ônibus? Aliás, como é que alguém pode ganhar dinheiro se passa o dia inteiro trabalhando?

Político é um bandido eleito. Estou exagerando? Então veja o percentual de políticos envolvidos em algum tipo de crime. É bem maior que a média da população. Política é bandidagem politicamente correta. Mas tem que saber fazer senão com o tempo a profissão fica desacreditada. Por falar em tempo, o meu acabou. Foi um prazer conversar com você. Espero que me honre com seu valioso voto. Tudo que prometo é franqueza. Aliás, já estou cumprindo. Meu nome é Franco Fortuna, o único político que cumpre antes de prometer.

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Ricardo Kelmer, 2004 – blogdokelmer.wordpress.com

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O último homem do mundo (4)

Agosto 26, 2008
O sonho de Agenor é que todas as mulheres do mundo o desejem. Para isso ele está disposto a fazer um pacto com o diabo. Mas há um velho ditado que diz: cuidado com o que deseja pois você pode conseguir…

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CAP. 4

O dia seguinte foi normal como todos os outros dias do carteiro Agenor. Envelopes, endereços, campainhas que não funcionavam, cães que detestavam carteiros. Entregas e entregas sob o sol da manhã e sob o sol da tarde. Nada demais. Mas nesse dia, pela primeira vez, o feio, tímido e desengonçado Agenor olhou as mulheres com certa segurança. Na lanchonete olhou para a moça que servia e lhe piscou um olho. Mas a moça não correspondeu e virou o rosto. Ele sorriu e apenas pensou: Deixe estar…

O dia terminou sem novidades. Após o jantar pediu bênção à mãe, dona Fafá, e se recolheu. Antes, porém, olhou-se no espelho. Nada mudara em seu rosto, em seu corpo, ele continuava o feio de sempre. Mas era apenas o primeiro dia, explicou a si mesmo. Em breve as coisas seriam diferentes.

No segundo dia as coisas também não foram diferentes. Envelopes, encomendas, endereços, cães antipáticos, o sol. A mesma caminhada diária, a mesma rotina. Tudo continuava igual. E as mulheres de Jubá também. Nenhuma lhe pareceu mais simpática. Continuavam todas em seu mundo distante, princesas inalcançáveis de um reino a ele não permitido. Nem Dorinha, pela qual era secretamente apaixonado, mostrou-se mais acessível. Uma pena pois Dorinha era tão bonita, prendada, trabalhadeira. Poderia ser sua mulher…

O terceiro dia também não trouxe novidades. O quarto dia também. Passou-se uma semana e nada aconteceu. Agenor olhava-se ao espelho e via, decepcionado, que continuava feio e desajeitado. E a vida também era a mesma, ele suando de número em número e as mulheres limpas e perfumadas a ignorá-lo.

A segunda semana também correu igual, assim como a terceira. Um mês e nada, nenhuma mudança em sua vida.

Naquela noite Agenor virou-se na cama e sentiu-se imensamente triste por seu desejo não ter sido realizado. O diabo bem que dissera: era um pedido difícil.

Talvez houvesse errado na formulação do pedido, será? Talvez não houvesse escolhido as palavras exatas, isso era comum nas histórias dos pactos com o demo. Mas onde errara? De todas as que pensara, aquela era a melhor frase. Não podia dizer “Quero todas as mulheres” pois o diabo simplesmente poderia fazê-lo continuar querendo. Listar as mulheres que queria que o desejassem também não era uma boa idéia pois terminaria deixando alguma de fora e, além do mais, as mulheres crescem, envelhecem, está sempre nascendo mulher.

“Quero que todas as mulheres do mundo me desejem” era a melhor maneira de pedir. Não importaria sua pobreza, sua feiúra e sua falta de jeito se elas o desejassem. E sendo “todas as mulheres do mundo” não haveria risco de deixar nenhuma de fora, entrariam todas, da mais feia à mais linda, da mais pobre à mais rica, da mais anônima e insignificante à mais famosa e cobiçada. Todas o desejariam e a ele caberia apenas escolher quem delas teria o privilégio de realizar seu desejo. Você sim, você não. Ah, seria o paraíso!

Súbito lembrou-se de um detalhe, algo que havia lhe escapado durante todo aquele tempo: sua mãe. Dona Fafá também estava incluída na relação! Claro. Sua mãe querida, viúva, que tão bem cuidava do filho único. Sua mãe era uma mulher e, sendo assim, também o desejaria. E agora?

Agenor percebia sobressaltado que a formulação não fora perfeita. O que fazer com o desejo de sua mãe? Ou ela, por ser mãe, estaria automaticamente excluída das possibilidades? O diabo Soloniel seria razoável, entenderia a questão? E se seu pai fosse vivo, o que não acharia de uma marmota dessa?

Agenor puxou o lençol e se cobriu, como se assim pudesse se esconder de tantos pensamentos e dormir. Demorou uma eternidade para conseguir pegar no sono.

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(continua)

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> Este conto integra o livro Baseado nisso – Liberando o bom humor da maconha


Pesadelos do Além

Agosto 21, 2008

Nada pode ser mais aterrorizante pra um escritor que a seguinte situação: dia do lançamento de seu novíssimo livro, ele sentado numa mesinha, o lugar todo preparado, a pilha de livros em espiral, o fotógrafo ao lado pra registrar as presenças ilustres… e ninguém aparece. Putz, que horror!!

Acabo de descobrir, porém, que existe um pesadelo bem pior. Não, não falo desses textos com falsa autoria que analfabetos literários repassam aí pela internet, matando o escritor de vergonha por ver que milhares de pessoas acham mesmo que ele escreveu aquele texto horroroso. Isso é de lascar mas nesse caso pelo menos podemos ir à tevê e nos defender.

O pior pesadelo prum escritor é ser psicografado. Ou melhor: ser mal psicografado. Putz, me dá uma fininha de nervoso só de imaginar essa possibilidade… Não acredito em Deus mas se um troço desse me acontecer, depois de morto, é claro, juro que entrarei com um processo contra ele por permitir uma barbaridade dessa. Espíritos, reencarnação, psicografias, todo mundo é livre pra acreditar no que quiser, até em promessa de político. Mas não deviam mexer com quem não comunga da mesma crença, e tão mais se a pessoa já bateu as botas.

Foi dia desses. Alguém me enviou uma letra musical que teria sido escrita por John Lennon depois de morto. A letra era tão cheia de beatitudes e bem-aventuranças, uma pieguice espiritual tão grande, que das duas uma: ou John de repente virara coroinha ou então onde ele estava só rolava fumo da pior espécie. Putz! Só alguém que não conhece porra nenhuma de John Lennon poderia supor que aquela coisa horrenda seria obra dele. Poisbem. Depois desse dia o alerta vermelho foi acionado na Central RK e percebi a gravidade da situação: e se eu morresse e alguém psicografasse uma crônica minha que falasse de seres de luz, irmãos trevosos, jardins celestiais e coizitais? Argh!!!

Uma mania horrorosa, a desse povo, de converter a gente depois que a gente morre – eu, heim! Magali, por exemplo. Além de atéia, Magali sempre foi uma escrota de marca maior e nunca nem botou os pés numa igreja. Aí um dia Magali morre e uma semana depois, no centro espírita, recebem uma mensagem dela: Queridos paizinhos, amada irmãzinha, que a graça de Deus e Nosso Senhor Jesus Cristo ilumine vossos corações e… Como é? Amada irmãzinha?! Mas um dia antes de morrer ela queria decapitar a irmã e jogar a cabeça no lixão! Vossos corações?! Mas a safada não tinha nem primeiro grau completo! Então ela, além de se converter e virar santa assim que morreu, ainda fez um supletivo de português? Não, isso é demais.

Imagino que nesse ponto do texto haja algum espírita indignado comigo. Paciência. Particularmente, pra mim faz sentido que após a morte haja algum tipo de continuação da vida ou que, após morrer, o cidadão desperte e entenda que tudo foi uma viagem de LSD mucho loca, sei lá. Mas psicografia? Bem, isso até poderia ser interessante caso a vida pós-morte fosse bem tediosa e a única diversão de um escritor como eu se resumisse a ditar contos de sacanagem pro meu público encarnado. Mas acho que ainda não existe centro espírita moderninho assim pra topar receber esse tipo de cartinha.

Então quero desde já deixar claro, claríssimo, que eu, Ricardo Kelmer, terráqueo nascido em 1964 na província de Fortaleza Desmiolada de Sol, atribuído da autoridade a mim concedida por eu ser eu mesmo, e de plena posse de minhas faculdades mentais, não, melhor tirar essa última parte, eu não autorizo ninguém, absolutamente ninguém, a psicografar, psicoaudializar ou canalizar ou receber seja como for quaisquer textos de minha autoria, na íntegra ou em parte. Heim? Não, nem mesmo se o texto for de sacanagem. Não dá pra abrir exceções pois não terei como criar um grupo de avaliação pra autenticação autoral. Ninguém tá autorizado e pronto. E quem disser que recebeu, meus representantes legais poderão processar o engraçadinho.

Ufa! Agora já posso partir em paz. Mas… e se um dia eu, lá dos cafundós do Além, sentir uma vontade danada de escrever um novo livro? Como farei se ninguém estará autorizado a psicografar? Não tem problema: escreverei o livro e darei um jeito de publicar no Além mesmo, não se preocupem, até porque por essa época certamente alguns leitores meus já estarão por lá. Mas novos leitores desencarnados serão sempre bem-vindos, claro! Afinal, já pensou eu, sentado na mesinha do Além, a pilha de livros toda linda em espiral, a equipe de tevê do CulturAlém a postos… e ninguém aparece? Que horror!

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Ricardo Kelmer, ago2008 – blogdokelmer.wordpress.com


O Despertar do Herói (treiler da palestra)

Agosto 15, 2008

Pra ver em tela maior, clique aqui

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Tá no ar o treiler da palestra O Despertar do Herói - A jornada sagrada de auto-realização nos mitos, no cinema e em nossas vidas.

Esta é uma das minhas palestras mais solicitadas, tanto por empresas quanto por colégios e faculdades. Nela falo de Mitologia, Psicologia, Autoconhecimento e Realização Pessoal numa linguagem simples pra mostrar que o mito da Jornada do Herói, presente nas histórias de tantas culturas, nos livros e nos filmes, é uma metáfora do processo de auto-realização, a jornada individual de todos nós rumo à nossa essência mais verdadeira.

Da mesma forma que os heróis dos mitos e do cinema, cada um de nós tá predestinado a se realizar verdadeiramente e, com isso, tornar-se o grande Herói de sua própria vida. Mas antes é preciso, como o herói de Matrix, despertar, distinguir-se da massa, conhecer-se e assumir a tarefa que dará sentido à existência.

Saiba mais sobre as palestras

 


Profissão Escritor – Pergunte aqui

Agosto 14, 2008

Você gostaria de perguntar algo sobre a profissão de escritor, processo de criação etc?

01- Amanda, Belo Horizonte-MG – dez/2006
primeira curiosidade que tenho: quando você decidiu expor sua arte, tinha quantos anos? E, seus familiares davam palpites sobre você ter decidido trabalhar com a escrita? segunda: suas lindas obras sobre mulheres são baseadas em mulheres reais ou você imagina elas? (parei de numerar) Como você faz pra escrever um texto? Tipo, você tem a idéia e começa a escrever ou você escreve a todo tempo, “tudo” pode ser um tema para seu texto? Já fez algum texto em dupla? …eu poderia encher essa página, mas me responde primeiro essas.. tem mais…

01a (quando você decidiu expor sua arte, tinha quantos anos?)
RK - Comecei a mostrar o que escrevia aos 10 anos, eram redações do colégio e historinhas curtas. Na adolescência escrevia poemas, letras de música e contos eróticos (já era tarado naquele tempo). Eu mostrava tudo pra amigos e namoradas. Aos 18, na faculdade, publiquei um livretinho de poemas xerografado, junto com o comparsa Roberto Maciel, e a gente vendia de mão em mão – com a grana ia tomar umas no boteco depois da aula. Nessa época comecei a escrever crônicas. Com 27 anos comecei a publicar crônicas em jornal. Aos 30 publiquei o primeiro livro.

01b (seus familiares davam palpites sobre você ter decidido trabalhar com a escrita?)
RK - Meus pais gostavam de ver meu interesse pelos livros e pela literatura mas como sabiam que a carreira de escritor era algo muito difícil e incerto, preferiam pro filho algo mais convencional e seguro, como uma carreira militar (estudei dos 11 aos 14 anos em colégio militar) ou que eu trabalhasse com meu pai, que era dono de uma clínica veterinária ou então que eu prestasse concurso pro Banco do Brasil, essas coisas. Faziam isso sem me pressionar. Mas eu insisti em ser escritor e ainda hoje pago um alto preço pela decisão. Vilma e Galvão respeitaram minha escolha e sempre que eu precisei, eles me ajudaram. Isso foi fundamental. Mesmo temerosos, foram os meus pais meus maiores incentivadores.

01c (suas lindas obras sobre mulheres são baseadas em mulheres reais ou você imagina elas?)
RK – Obrigado pelo “lindas obras”, você é muito generosa. Meus trabalhos sobre mulheres são baseados em mulheres “reais” e “não reais”. No primeiro caso, são textos que nasceram da minha história individual, das mulheres que conheci. Alguns são registros fiéis de determinada experiência, outros misturam lembrança e fantasia. Quando a personagem da história é “não real”, eu imaginei a mulher. Nesse caso ela pode ser uma reunião de aspectos femininos de várias mulheres que conheci pessoalmente ou que só conheço de longe.

01d (Como você faz pra escrever um texto? Tipo, você tem a idéia e começa a escrever ou você escreve a todo tempo)
RK – Eu engravido da idéia e tenho que botar pra fora. Às vezes o texto sai rápido, outras vezes demora muito e o parto é difícil e doloroso, principalmente quando o texto envolve aspectos psicológicos meus dos quais ainda não estou bem consciente. Nesse caso, além de um trabalho profissional e artístico, é também algo terapêutico, de autoconhecimento. Por outro lado, quando tento parir um texto sem passar por esse processo natural de gravidez, estou então escrevendo algo que não pediu pra nascer e, muitas vezes, que não quer nascer mesmo. O resultado é quase sempre um texto ruim. Pelo menos pra mim. Por isso não gosto de aceitar escrever sobre temas que não me pediram, eles mesmos, pra serem escritos.

01e (Já fez algum texto em dupla?)
RK – Em dupla não mas já criei roteiros de sitcom pra tevê em equipes de cinco, sete pessoas. Funciona mas é preciso metodologia, disciplina e um líder pra guiar a equipe pela viagem das idéias. Só funciona mesmo se cada um trabalhar pra equipe e não valorizando apenas suas próprias idéias.

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02- Milani Iskandar, Goiânia-GO – dez/2006
oq te levou a começar a escrever?! qnd foi q descobriu q qria ser escritor?! e q tipo d texto foi o primeiro pra vc falar é isso q qro!? Li a cronica em q vc fala do livro do Fernando Sabino e tals… tava vendo a sua resposta falando q vc engravida da ideia e tals… eu já sou diferente só consigo escrever qnd to muito triste, na maioria das vezes eu escrevo entre lágrimas e dps de alguns dias pego o texto pra ler e nem acredito q fui eu q escrevi… ja aconteceu isso com vc?!

02a (qq te levou a começar a escrever?!)
RK - Antes de pensar em escrever, eu fui fisgado pela leitura. Eu tinha 7 anos e havia aprendido a ler. E adorava ficar na biblioteca do colégio Santo Inácio, em Fortaleza, folheando os livros infantis. Havia algo de mágico naquele ambiente, nos livros… Eu estava encantado com a descoberta da leitura. Acho que foi aí que a literatura me fisgou. Ainda na infância, contraí uma pneumonia que me obrigou a ficar vários dias de cama e meu pai teve a brilhante idéia de me dar livros e revistas pra eu me ocupar durante a recuperação. Ainda hoje lembro da sensação de felicidade por ter aquelas coisas todas pra ler. Foi então que me deu vontade de também criar histórias como as que eu lia.

02b (qnd foi q descobriu q qria ser escritor?! e q tipo d texto foi o primeiro pra vc falar é isso q qro!?)
RK -
Aos 9 anos eu tentava escrever versinhos pras minhas professoras. Como não sabia, um dia pedi ajuda ao meu pai. Ele, muito gozador, escreveu num papel e me mostrou: Pra minha professora / Dona Conceição / Receba em seu aniversário / Este caroço de feijão. Putz, fiquei puto, claro. Quanto desrespeito pra com um poeta iniciante! Mas foi aos 10 que comecei a escrever minhas primeiras historinhas, curtinhas, geralmente de aventura. Aí a ficha caiu e eu vi que era aquilo mesmo que eu queria pra minha vida.

02c (só consigo escrever qnd to muito triste, na maioria das vezes eu escrevo entre lágrimas e dps de alguns dias pego o texto pra ler e nem acredito q fui eu q escrevi… Ja aconteceu isso com vc?!)
RK -
Muita gente escreve apenas se estiver motivado por emoções. Porém, se você deseja realmente ser uma escritora profissional, não pode depender de estados emocionais propícios. Terá que aprender a escrever profissionalmente, ou seja, produzir textos como um artesão produz suas peças pra vendê-las e assim se sustentar. Essa mecanização do processo às vezes decepciona os candidatos a escritor pois muitos ainda estão iludidos com a idéia romântica de escrever sob as ordens do coração e coizital. Mas a mecanização do ato de escrever é importante porque prepara o escritor pras exigências do mercado. Quanto a se surpreender com o que se escreve, isso ocorre porque durante o processo criativo a consciência se abre pro inconsciente e expressa em forma de arte os conteúdos desconhecidos que vêm de lá, desse lado de nós mesmos que não conhecemos. Nesse momento você está num estado especial de consciência, como sob efeito de uma droga, e cria. Depois você volta ao estado de consciência ordinário, onde geralmente não há tanto contato com o inconsciente, e então se surpreende com o que criou, mais ou menos quando lembra do que fez durante um porre. Sua missão agora é integrar devidamente à consciência os novos conteúdos de seu ser que vieram à tona. Se conseguir, você alargará sua consciência, tornando-se mais consciente de si mesma, de suas potencialidades, seus medos, e se tornará cada vez mais íntima de si mesma. E conhecerá melhor suas potencialidades criativas. Estará no caminho pra ser uma pessoa autoconsciente e equilibrada e também uma escritora criativa e competente.

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03- Gabriel de Fassio, Brasília-DF - abr/2007
Oi, tudo bem! Tenho algumas dúvidas sobre o processo de criação da obra literária. Quando você começa a escrever, mesmo ser for um texto longo (romance, por exemplo), já sabe o destino das personagens e o que ocorrerá durante a trama? Não sei o que é melhor: ter uma idéia inicial e desenvolver o tema até chegar ao final, ou realizar um esboço das idéias e apenas começar a escrever quando a trama já estive bem desenvolvida na mente do escritor. Como você procede?

RK - Não existe um método melhor que outro quando o assunto é processo de criação. Cada escritor acaba desenvolvendo seus próprios métodos. No meu caso, na maioria das vezes os textos (curtos ou longos) nascem de uma idéia inicial e eu começo a escrever sem saber exatamente como terminará. Gosto de deixar que o próprio texto mostre o caminho e confio tanto nesse processo que jamais tenho qualquer dúvida que dará certo. E sempre dá. De uns anos pra cá, porém, passei a unir o RK escritor com o RK roteirista e em alguns textos longos de ficção (conto ou romance) prestabeleço um esquema de apoio, determinando de antemão o percurso da história, as viradas da trama e até mesmo o final.

Pra você ver como esse lanve de processo criativo é louco, vou te contar algo bem curioso. Enquanto escrevia meu romance “O irresistível charme da insanidade” empaquei num determinado ponto do desenvolvimento do personagem Luca. Como na história ele lia o I Ching, tive a idéia de tirar um I Ching pro personagem – quem sabe o oráculo chinês não me clarearia as coisas? Sei que parece estranho mas como eu estudo o I Ching e sei de suas potencialidades, achei que poderia funcionar. E, de fato, o hexagrama que saiu me deu a idéia que eu precisava pra finalizar a construção do personagem. No seu caso, talvez seja interessante testar os dois métodos e vercomo eles funcionam: numa história você deixa a história se escrever por si própria e em outra você prestabelece um roteiro.

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Gostaria de perguntar algo sobre esses temas? É só deixar seu recado nos comentários aqui embaixo que logo responderei neste mesmo espaço.


O Irresistível Charme da Insanidade 1-2

Agosto 14, 2008

O amor insano. O amor desafiador do tempo. O amor que descortina as mais absurdas possibilidades do ser.

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CAPÍTULO 1
2a parte

Olhou o violão encostado na entrada da barraca. A música… Sua grande paixão. No início tocava apenas para os amigos e namoradas seu repertório de rock e mpb. Tímido, demorou a mostrar as próprias músicas que compunha na solidão do apartamento, entre doses generosas e viajantes espirais de fumaça.

Uma noite conheceu Junior Rível, o bluseiro, e ele o convidou a cantar na banda que estava montando, ainda não tinha nome, seria uma banda de blues. Blues?, pensou Luca. Bem, não era exatamente sua praia…

- A gente faz junto as músicas, vai ser moleza.

- Não sei compor blues, Junior.

- Sem bronca. Você faz as letras e eu musico.

É, podia ser divertido…

- Pensa bem, cidadão: shows, uísque, mulheres!

Argumento irresistível.

- Topado – respondeu Luca, apertando a mão do novo amigo. – Festa é o que nos resta.

Nascia assim a amizade entre Luca e Junior Rível e nascia também a Bluz Neon. Blues e rock na noite de Fortaleza. E muita, muita irreverência. Os cachês eram baixos, muitas vezes se apresentavam de graça, mas o prazer de tocar compensava tudo. Quem sabe um dia fariam sucesso, seriam reconhecidos…

A banda era o passaporte perfeito para fugir da realidade cinza e opressiva. O rock era ideal para gritar, protestar, botar tudo para fora. E o blues traduzia em música aquela tal melancolia, aquele sentir-se distante, a solidão da alma…

- Sabe quando você tá há muito tempo longe de casa, a sensação de que já tá na hora de voltar?

- Sei não, cidadão. Mas isso dá um blues… De volta pra casa…

- Estamos todos indo, babe…

- Heim? Estão me introduzindo?

- Não avacalha, Junior Rível.

(continua)

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Protegido: ARQ SECRETOS – A Jurema e as portas da percepção

Agosto 12, 2008

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Minha noite com a Jurema

Agosto 12, 2008

Em 1999 participei de um ritual no Santo Daime, com a Ayahuasca. Foi uma experiência intensa e reveladora – mas extremamente difícil, que exigiu muito de mim, física e psicologicamente, durante várias horas. Dia seguinte, ainda assustado, estava convicto que jamais me meteria com isso novamente, que o melhor era que meu interesse por estados especiais de consciência ficasse apenas nos livros e filmes.

Mas mudei de opinião após refletir bastante sobre tudo que me ocorrera. Entendi que esse tipo de experiência podia, de fato, me ajudar a entender melhor a vida e a mim mesmo. Concluí que alguns fatores me impediram de aproveitar melhor a oportunidade, como o orgulho, as regras e filosofia da seita e o medo de perder o controle. Eu precisava de outra chance. Estava disposto a tomar novamente o chá e empreender nova viagem ao interior de mim mesmo. Porém, só tentaria novamente se fosse fora do ambiente das seitas.

A oportunidade chegou no ano seguinte: o convite de uma amiga antropóloga para participar de um ritual xamânico com o chá de Jurema, outra planta psicoativa, que cresce no semi-árido nordestino. Aconteceria na casa de um seu amigo, também antropólogo, e seria algo mais descontraído e desvinculado de dogmas – que normalmente compõem as seitas que utilizam chás de plantas de poder.

Nessa noite memorável fui conduzido para dentro de mim mesmo pelo próprio espírito da planta, que me guiou, comunicou-se comigo, me assustou, me fez rir e ensinou coisas maravilhosas.

Sim, sei perfeitamente que afirmar isso soa como atentado à racionalidade. Mas não me importo. Aprendi definitivamente nessa noite que o que chamamos razão é apenas uma das ferramentas humanas para apreender a realidade e que ela, a razão, deve ser descartada em certas situações onde precisamos ampliar a percepção da vida. Se nessa noite eu insistisse para que meu lado racional se mantivesse no controle dos fatos, repetiria o mesmo erro da experiência anterior, com a Ayahuasca, quando usei a orgulhosa racionalidade durante horas, num esforço ingênuo, inútil e muito doloroso, tão-somente para barrar o curso natural da experiência. A racionalidade é vital para a vida, sim, mas infelizmente ela se convenceu que a realidade deve ter seu exclusivo carimbo para poder existir.

Nessa noite de 2000, uma hora após ingerido o chá de Jurema, eu estava deitado tranquilo e confortável no sofá da sala e experimentava um intenso fluxo de idéias que se sucediam sem que eu tivesse total controle sobre elas. Foi aí que senti uma forte presença e entendi que se tratava da própria planta, ou melhor, o espírito da planta. Evitando racionalizar sobre o que me ocorria, logo percebi que deveria deixar que a própria Jurema me conduzisse pela experiência. Isso significava confiar inteiramente no fluxo natural das idéias e sensações, abdicando de qualquer controle racional sobre elas. Então fechei os olhos e soltei-me das últimas resistências. Mesmo um pouco temeroso ainda, depositei toda minha confiança na estranha força feminina que se apresentava e que em seguida, como se apenas esperasse minha concordância, passou a me conduzir pelas mais diversas idéias, sensações, sentimentos e revelações.

Mal a Jurema se manifestou fui tomado de um imenso respeito por ela, uma reverência que jamais sentira em minha vida. Entendi logo que ela era sábia e poderosa, além de muito, muito antiga. E era bastante amorosa, sem deixar de ser dura quando necessário. Ela não falava, pelo menos não como entendemos o “falar”, mas eu me sentia inteiramente envolto pela grandiosidade de sua presença como, imagino, um peixe “sente” o mar, e era através desse sentir que se processava a comunicação, através do meu pensamento e também do meu corpo. Eu me sentia protegido e muitíssimo grato por ser tocado por sua imensa sabedoria e generosidade. Se abria os olhos, essa comunicação perdia a força em meio às tantas informações do ambiente, por esse motivo mantinha-os fechados e bastava isso para me sentir novamente amado, compreendido e protegido pela espírito da Jurema.

Durante as quatro horas seguintes o espírito da planta esteve bem presente, me conduzindo, com firmeza mas amigavelmente, por um corredor cheio de portas. A cada porta que se abria eu me deparava com uma nova experiência interior, vivenciando sensações, idéias, sentimentos e revelações importantes sobre minha vida, meus relacionamentos, meu trabalho. Houve momentos de alegria e êxtase mas também momentos de tensão em que me vi forçado a encarar e repensar questões delicadas de minha própria personalidade. Houve também um momento em que me deparei com uma porta e nesse momento fui tomado de um terror nunca antes sentido. Eu não sabia o que me esperava além da porta mas sentia que era algo terrível. Então implorei à planta para me dispensar daquela experiência, fosse qual fosse. Para meu imenso alívio ela me atendeu. Anos mais tarde eu entenderia que a tal porta estava relacionada à experiência de doar-se para o amor, sentimento que na época eu reprimia em mim com veemência. Mas isso é outra história.

A Jurema mostrou-me também a urgente necessidade de respeitarmos o planeta e de cuidarmos dele e nesses momentos o espírito da Jurema era o próprio espírito da Terra. Em vários momentos me emocionei e chorei baixinho. Sem dúvida, foi a experiência mais intensa e mais incrível que vivi em minha vida.

autotransformação

Pela manhã não consegui dormir, ainda eufórico. Sentia-me renascido, mais vivo e disposto do que jamais fui, maravilhosamente bem. Era como despertar de um longo sono.

A experiência dessa noite me transformou em outra pessoa. O senso de estar atavicamente ligado à Terra trouxe-me uma notável segurança e tornou-me mais confiante e tranquilo, ciente de minhas origens e de meu papel no mundo. Minha vida ganhou um novo sentido. É difícil explicar mas algo deslocou-se dentro de mim, mudando para sempre minha noção de quem sou eu, minha relação com o mundo e também minha noção do que é este planeta. Entendi que tudo tem uma espécie de consciência e que é possível se comunicar com animais, plantas e minerais e aprender com eles. Como, porém, esta comunicação não se processa no nível da racionalidade, é muito difícil para o intelecto aceitar tal fato, preferindo tratá-lo com desdém e descartá-lo como fantasia, superstição ou patologia.

Mas para mim não há dúvidas. Nessa noite abri minha alma para a sabedoria da Jurema e, através da planta, reconectei-me à minha verdadeira origem, à força sagrada que me gerou e que me nutre dia após dia: a Terra. Senti a imensidão de seu amor e me surpreendi por ter vivido tanto tempo sem senti-lo. Em termos junguianos, poderia dizer que vivi uma profunda experiência com o arquétipo da Mãe Terra, sendo envolvido por sua imensa força e vivenciando-o em ambas as polaridades, positiva e negativa, êxtase e terror. Mas nesse momento dispenso quaisquer explicações científicas, preferindo ater-me ao que, de fato, vivi, ou seja, um encontro com o espírito da Terra, essa mãe generosa e compreensiva que ama a todos os filhos, mesmo que eles tenham esquecido de onde vieram e o que devem fazer. Mas ela alerta: o preço que o filho pode ter de pagar por esse esquecimento é a sua própria destruição.

Os antigos já sabiam e os cientistas de hoje já reúnem provas: a Terra é um imenso organismo vivo. Além disso é dotada de um tipo de autoconsciência que ainda não entendemos bem, dona de um avançado senso de auto-regulação bioquímica e capaz de se comunicar perfeitamente com tudo que nela existe, inclusive os seres humanos. Animais, vegetais e minerais, tudo que há na Terra são como células de um corpo que precisam estar em harmonia para que o todo funcione bem. Infelizmente as células chamadas humanos cortaram a ligação espiritual com sua origem e se desconectaram do todo, passando a se entender como algo separado. Essa ilusão tem causado terríveis problemas ao organismo inteiro, principalmente à espécie humana.

Plantas mestras como a Jurema têm o poder de despertar as pessoas. Mas entendo o medo que a maioria têm de largar sua racionalidade e saltar no escuro de suas próprias possibilidades espirituais. Entendo também o pavor que as religiões cristãs têm da Natureza, sempre demonizando-a. No fundo, é o velho medo de ser livre. Porém, já que isso ocorre, seria maravilhoso se ao menos educássemos nossos filhos no respeito sagrado à Natureza e eles entendessem que a Terra é nossa casa. Ensinar isso já seria uma forma de lhes deixar um mundo muito melhor.

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Ricardo Kelmer, ago2008 – blogdokelmer.wordpress.com

Ler “A Jurema e as portas da percepção”, relato detalhado da experiência narrada nesta crônica

> Este texto integra o livro A Arte Zen de Tanger Caranguejos

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COMENTÁRIOS

001 – sobre Minha Noite com a Jurema, a riqueza e o cuidado nos detalhes do ambientes e sentimentos, me fez sentir tudo que você viveu…achei demais… Teca Baima, Fortaleza-CE – mar/2005

002 – Adorei, muito, mas muito interessante essa sua experiência com a planta Jurema. Acredito bastante nesse tipo de experiência de encontro consigo mesmo e acho extremamente importante e válido, principalmente não sendo esse encontro ligado a nenhuma seita religiosa, por ele ser somente entre vc e a natureza… um dia será a minha vez… Daniela Cecchi, Rio de Janeiro-RJ – jun/2005

003 – Nem imagina como foi importante para mim ler sua experiência c Jurema. Desde 1ª dia q frequentei santo daime aqui em portugal q senti e “vi” que deveria estar incluída num ritual diferente em que, tal como você, poderia aproveirtar melhor a experiência. Infelizmente aqui em Portugal não é possível. Tudo que existe acaba por não ser uma variante do Daime onde os comandantes se conhecem. E se eu fosse a falar dos preços que praticam aqui, entao, vc ficaria abismado. Tenho uma pós-graduação (sou antropóloga) para finalizar sobre o assunto e por falta de apoio e oportunidade de recorrer a outras experiências não me é possível fazê-lo. Obrigada por seu texto. Anabela, Portugal – jul/2006

004 – Olá! estive lendo seus trabalhos e adorei! e sobre a experiência com a Jurema.. sabe me informar como é feito o chá e em que dosagem? sabe de algum site que explica isso ? ou tem algum contato que possa me ajudar? desde já muito grato! abraços e parabéns pela iniciativa. Felipe Mansoldo, Rio de Janeiro-RJ - dez/2006

005 – Gostei do seu relato sobre a Jurema. Engraçado. Talvez meio cósmico. Justamente há algumas semanas tive duas experiências com a Jurema e coincidentemente ao navegar em seu site dei de cara com esse texto. Vou relatar meu lance com a Jurema. As duas experiências tiveram intuitos opostos. Em uma, quis algo mais espiritualizado, por assim dizer. Na outra, química pura. A primeira foi fantástica. A segunda, bad trip. Talvez pelo fato de eu ter encarado a segunda tentativa sem o respeito inerente à sagrada planta. Eu deveria ter feito o contrário, ou melhor, nem deveria ter feito a segunda. O primeiro contato foi brando, poucas visões e muito tato. Senti uma ampliação incomensurável do toque. Ao me tocar, sentia toda minha essência e significado, chegando ao ponto de suscitar em saber minha existência nessa Terra maravilhosa. Sem pretensão alguma, senti o quanto eu era importante, especialmente para mim mesmo. Nem parei muito para pensar sobre ego, mas acho que tal experiência tocou nevralgicamente nele.

Na segunda experiência, apenas dei enfoque ao lado químico da planta. Pretendi sentir as moléculas de DMT me invadindo e apoveitar o que isso me traria. Foi péssimo. A onda veio muito turbulenta. Tive várias visões alucinadas. Exemplo, a parede do meu quarto que é branca ficou completamente dourada, e um relógio que fica nela sobressaiu-se, tornando se fluorescente, quase que saltando dela. Um prédio vizinho de fundos transformou-se num daqueles monumentos da Ilha de Páscoa e aproximou-se da minha janela a ponto de espiar para ver o que estava acontecendo comigo. Noutras horas o prédio se afastava e eu o via distante como um farol de navegação. O “som” do silêncio chegava a incomodar. Parecia o Ohm, ecoando fundo e intermitente. O mal estar físico foi grande. Muita náusea. Uma sensação de estar bêbado com cachaça. Daqueles porres que você quer “sarar” e não consegue. Durante toda viagem tive consciência do meu estado e procurava me acalmar para que a pira passasse logo. Demorou umas cinco horas. Quando acabou, contabilizei o lado bom da coisa e concluí que a Jurema deve ser encarada com propósitos mais elevados. Ricardo Rodriguez, São Bernardo do Campo-SP – jan/2007

006 – olá!!! Kelmer sou uma leitora sua de Fortaleza e tb estudante de Jornalismo “ tô na luta´´´ já estive em umas de suas palestras q por sinal, me fez refletir muito sobre a vida sua palestra era uma reflexão sobre o filme Dom Juan com uma visão dos vários eu dentro de nós mesmo .enfim… pra mim foi em um momento de bloqueios q vida nos cria e q me ajudou muito ………Mas essa agora sobre uma noite com Jurema….rsrsrs cara vc é muito bom no escreve isso é muito louco !!!!!!!!!! mas como ñ ter sentido. Essa porra de racionalidade q muitas vezes nos impedi de viver e fazer algo ..sei lá tb pq tô te escrevendo isso….. Mas sucesso!!!!!!! Waleska Thompson, Fortaleza-CE – jun/2007

007 – Olha, hj li um texto seu sobre a sua experiência com a Jurema e, nossa, me tocou completamente! Como vc adentrou na essência da experiência…Parabéns pelo respeito e pela vivência que, imagino, tenha sido muito válida p ti… Estamos nos preparando para comungar com ela no próximo sábado…Apareça!!!rsrsrsrs!!! Rerlyn, Garanhus-PE – jan2009


Um Ano na Seca – Marília (2)

Agosto 11, 2008

No último capítulo eu havia recebido a ligação de uma leitora de Santos que passava uns dias no Rio e desejava me conhecer pessoalmente e comprar uns livros meus. Fiz logo as contas: se ela comprar dois, já vai dar pra fazer o supermercado da semana, ô maravilha, não aguento mais comer miojo com xarope de groselha.

Paralelamente às minhas contas, o Jeitoso também fez as dele: 1 ano e 2 meses sem encarar uma piriquita, 14 meses sem molhar o biscoito, 54 semanas sem ensaboar a banana, 378 dias sem acoplar à nave mãe, 9072 horas sem espetar o cassaco…

Se você, leitorinha querida, tivesse um pingolim aí pendurado entre suas pernocas, você saberia o tanto que esses seres podem ser chatos, insuportavelmente chatos, quando estão desesperados na secura. A gente vai à praia e tem que ficar sentado pra não passar por tarado sem-vergonha. A gente olha pruma chave de fenda e o pingolim só vê a fenda, é um horror, um horror.

Poisbem. Peguei o busão e fui encontrar Marília no bar perto do hotel onde ela tava hospedada, em Copacabana. Ela me acenou de uma mesa na calçada, de frente pro mar, um ótimo lugar. Tava bronzeada, certamente pegara um solzinho. E era mesmo carnuda, do jeito que eu aprecio, humm. Vestia jeans e uma camisa preta com um top preto. Infelizmente não deu pra ver a bunda quando ela levantou pra me cumprimentar com dois beijinhos mas tudo bem, eu tiraria a dúvida assim que ela fosse ao banheiro. Na mesa havia uma caipirinha pela metade.

Sentei e ela perguntou se eu aceitava uma caipirinha, eu disse que sim. Ela fez sinal pro garçom trazer mais uma e aí danou-se a falar, disse que tinha chegado mais cedo pra ver o por-do-sol, que adorava ir ao Rio de janeiro, que aquela já era a segunda caipirinha, que adorava caipirinha, que caipirinha era sua perdição, e que era uma honra conhecer pessoalmente o autor dos textos que tanto a faziam rir no computador do trabalho, falou dos que mais gostava, quis saber de onde eu tirava tanta idéia e como era o processo de criação e pediu pra ver os livros, eu tirei da mochila e pus sobre a mesa, ela olhou todos, achou a capa do Insanidade bonita…

Eu juro, leitorinha, juro que tentei prestar atenção a tudo que ela dizia. Mas não dava. Com aqueles peitos olhando pra mim, simplesmente não dava. Marília tinha peitos grandes e bonitos, até aí tudo bem. O problema é que metade deles tava pra fora do top, sem exagero. Acho que ela errou o número quando comprou. Ou na pressa de fazer a mala, se enganou e botou o top da filha de oito anos. Será que todas as minhas leitoras de Santos andam assim, com os peitos pra fora?

Senti que o Jeitoso começava a se inquietar. Aproveitei que Marília pedia mais uma caipirinha pra ela e dei um tabefe no Jeitoso, plá!, te aquietaí, ô saidinho, não vai me estragar uma venda boa! Mas o perturbado não se aquietou, tive que cruzar a perna pro outro lado pra disfarçar. E diabo dessa mulher que não se levanta pra ir ao banheiro! Ô Marília, minha filha, você não mija não? Não, claro que não perguntei isso, imagina, também não sou tão sem noção assim, né? Que juízo você faz de mim!

Por falar em juízo, vem cá, leitorinha, me diz uma coisa com toda sinceridade… O que uma mulher pretende quando vai encontrar um cara pela primeira vez e deixa metade dos peitos pra fora da roupa, heim? Você, leitorinha, você já fez isso? Conhece alguma mulher que faz isso? Você deve saber, afinal você é mulher, você tem peitos, quer dizer, eu suponho que tenha. Não é possível que uma mulher faça isso assim de graça, sem ter noção da confusão que vai causar, principalmente pra sujeitos sensíveis como eu. Putz, vocês são realmente tão cruéis assim, são? Me diga que não, por favor, senão vou perder pra sempre o resto de confiança que eu ainda tinha na raça feminina…

Ué? Não vai me dizer nada? Vai me deixar na dúvida mesmo? Ah, é? Pois não continuo mais a historinha.

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Ricardo Kelmer 2008 – blogdokelmer.wordpress.com

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Protegido: Um ano na seca (na íntegra)

Agosto 11, 2008

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O último homem do mundo (3)

Agosto 9, 2008
O sonho de Agenor é que todas as mulheres do mundo o desejem. Para isso ele está disposto a fazer um pacto com o diabo. Mas há um velho ditado que diz: cuidado com o que deseja pois você pode conseguir…

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CAP. 3

– Ei, espere! – gritou Agenor, nervoso. – Vou fazer o meu pedido. Agora.

O diabo parou e voltou-se. E aguardou, apoiado em sua bengala.

– Eu…

– Sim?

– Eu quero que todas as mulheres…

– Estou ouvindo.

– Eu quero que todas as mulheres do mundo me desejem.

Pronto, dissera. Estava feito. E uma vez formulado, o pedido não podia mais ser mudado, ele sabia. Não dava mais para voltar atrás.

Agenor aguardava, a respiração suspensa, as palavras ecoando em seus ouvidos: todas as mulheres… do mundo… me desejem… De repente, pela primeira vez, seu desejo lhe pareceu ridículo e despropositado… Era como se as palavras, finalmente pronunciadas, concretizadas solenes no ar, tivessem o poder de lhe abrir os olhos.

– Hummm… Bom pedido, bom pedido – disse o diabo, balançando a cabeça, coçando a barbicha branca. – Fazia tempo que eu não topava com um desse. Deixe-me ver…

Agenor aguardava, nervoso. Teria sido um pedido difícil demais? Será que zombaria dele? Estaria estudando suas palavras, procurando brechas para poder enganá-lo?

– Claro que é difícil. Fazer todas as mulheres do mundo desejarem um cara feio, pobre e desengonçado como você é missão que pode consagrar um diabo pela eternidade inteira. Sabe o que significa a eternidade inteira, jovem?

A eternidade? Sim, claro, Agenor respondeu com a cabeça. Quer dizer, não, não sabia. Ou sim?

O diabo continuava coçando a barbicha, apoiado na bengala, olhando para as estrelas… Eram segundos que para Agenor pareciam séculos.

– Teve muita sorte de pegar um profissional como Soloniel, meu jovem. O que você pediu requer a experiência que só eu possuo, acredite. Pois muito bem. Dê-me o documento.

Agenor puxou do bolso uma folha de papel dobrada. Nela estavam a frase exata de seu pedido, data, local e a assinatura.

– Perfeito – falou o diabo, guardando o papel no bolso do sobretudo. – Então estamos combinados. Toque aqui.

Apertaram-se as mãos.

– Na hora certa virei buscar o pagamento pelo serviço. Adeus.

Agenor viu o diabo sumir mato adentro. Então respirou fundo. Fizera o pacto. Estava feito. O diabo realizaria seu desejo, era isso que importava.

Ele conseguira. Não era um fraco. Quanto à sua alma, pensou, já descendo a pedra a caminho da cidade, perdê-la seria um preço pequeno diante do grandioso futuro que o aguardava.

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(continua)

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> Este conto integra o livro Baseado nisso – Liberando o bom humor da maconha


Não saia com ele (1)

Agosto 6, 2008

Sabe aquele carinha que aprontou pra cima de você? Que mentiu, te enganou, te ludibriou, disse que estava apaixonado mas que só queria mesmo era te comer – e você caiu direitinho? Lembra da raiva que você sentiu do cafajeste? Lembra que você quase cometeu um crime, ainda bem que na hora não tinha nenhuma faca por perto, lembra?

Ah, seria ótimo se existisse um lugar onde você pudesse botar a foto do demente e alertar a todas as mulheres sobre quem na verdade ele é, né, um crápula vil e mentiroso, um colecionador de xoxotas barato. Xoxotas baratas, não, leia direito, menina! Até porque a sua não tá em liquidação, né? Poisbem. Já pensou como isso seria útil à sociedade e, principalmente, à classe feminina?

Pois este lugar existe, acabei de descobrir. O site se chama Não Saia Com Ele (www.naosaiacomele.com) e lá estão todos os canalhas que aprontaram com vocês. Bem, todos não, claro, pois canalha é um bicho danado pra se reproduzir, todo dia nascem milhares, e cada vez mais sorrateiros e ardilosos, nem o site mais ágil do mundo daria conta de atualizar os números e estratégias de mercado da canalhice masculina. Mas lá dá pra ter uma boa noção do tipo de sacripanta maquiavélico que uma pobre e indefesa mulher pode encontrar numa única encarnação na Terra.

O site, que certamente é uma iniciativa do atento e atuante Sindicato das Coitadas, funciona assim: você publica seu relato, bota a foto do calhorda ordinário que só queria te comer, disponibiliza informações sobre o patife (cidade, imeio, orkut etc) e quem quiser pode comentar, te apoiar e apedrejar o meliante. Você pode escrever livremente pois o site garante o anonimato e nem checa a veracidade das informações. Ou seja, você pode ser beeeem escrota mesmo, exagerar na canalhice do crápula nojento e até diminuir cinco centímetros no tamanho do pau do desgraçado só pra ficar rindo, imaginando a cara do pilantra salafrário quando ele souber. Vingança malígrina!

Putz… As mulheres andam muito vingativas, dona Orestina. Bons tempos em que a gente podia ser canalha à vontade, sem medo de ser fichado pelo Sindicato das Coitadas. O pior não é nem ser fichado, isso no outro dia sai na urina, e além do mais até os melhores partidões do planeta têm a ficha suja. Chato mesmo é ver reveladas publicamente todas as nossas incríveis táticas maquiavélicas, arquitetadas com esmero durante anos, e de repente ter que trocar todas elas pois vai que a próxima coitada acessou o site e conferiu nossa ficha quilométrica, né?

Por exemplo, a velha tática de dizer que eu ainda não terminei com a outra porque domingo é o aniversário dela e obviamente seria pouco cavalheiresco dar esse tipo de presente. Essa é boa mas já não ia colar mais. E nem certas versões da clássica vou botar só a cabecinha. Heim? Nessa você não cai? Não diga isso, fia, essa é a tática rainha, funciona desde o tempo do tataravô da Chita e vai continuar funcionando porque o que pega mesmo é o jeitinho com que se diz. Tipo assim: se a gente disser que vai botar só a cabecinha, você vai achar super-grosseiro e pode até vomitar encima da gente, eca. Maaaas… se a gente disser que não quer transar mas quer apenas sentir um pouquinho da divina sensação de estar às portas do santuário da mulher mais maravilhosa que a gente já conheceu e levar essa sensação na lembrança feito uma bênção e dormir agarradinho com essa sensação pra poder sonhar com o dia em que a gente finalmente poderá ter essa divina sensação de verdade e… Tá vendo? O pingolim já entrou.

Bem, mas deve haver algo de positivo nessa vingança do Sindicato das Coitadas. Sim, claro que há! Agora somos obrigados a frequentarmos cursos de reciclagem profissional pra ficar por dentro das novas necessidades do mercado. É, isso é bom, mas o investimento não vai sair barato e alguém terá que pagar a conta. Adivinha quem. Isso mesmo, vocês! Afinal agora vocês são financeiramente independentes e estão tomando nossos postos de trabalho, nem em posto de gasolina a gente arruma mais emprego. Ou seja: os canalhas continuarão sendo canalhas como sempre foram e você, querida, ainda terá que desembolsar uma graninha considerável…

Gente, estamos complicando a coisa mais do que precisa. Onde ficou aquele doce tempo, em que a gente fingia que não queria apenas sexo, vocês fingiam que acreditavam e depois espalhavam pras amigas que a gente não prestava e elas não resistiam à tentação de conferir pra ver se era verdade mesmo?…

Pelo retorno aos velhos tempos! Era mais simples e saía mais barato pra todo mundo.

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Ricardo Kelmer ago2008 – blogdokelmer.wordpress.com

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Leia também
>> Não saia com ele – Titiko

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O Irresistível Charme da Insanidade 1-1

Agosto 6, 2008

O amor insano. O amor desafiador do tempo. O amor que descortina as mais absurdas possibilidades do ser.

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CAPÍTULO 1
1a parte

Luca esticou o braço direito e fez o sinal de carona. O caminhão diminuiu a velocidade e parou no acostamento. Ele pegou a mochila no chão e correu para mais uma carona, o violão debaixo do braço.

- Indo pra onde, jovem? – perguntou o motorista.

- Em frente.

- Assim é que se diz! Sobe aí.

Luca subiu, pôs a mochila e o violão entre as pernas e acomodou-se no banco. Seguia de Fortaleza para Pipa, litoral sul do Rio Grande do Norte. Pegara uns dias de folga da copiadora, ficaria longe das cópias coloridas tamanho A3, panfletos para cortar, folhetos para missa de sétimo dia… Tudo que queria era armar a barraca e descansar a cabeça, escapar por uns dias do círculo vicioso do cotidiano. Sair da gaiola.

Tirou o óculos escuro e esticou o pescoço para fora da janela, sentindo o vento no rosto. Pelo espelho pôde ver a cicatriz na face direita e lembrou do passeio de jangada em Paracuru, a onda forte desequilibrando-o, o rosto batendo no pau da vela… Tudo porque queria impressionar uma antiga paixão. Amar era mesmo um perigo. Ficou a cicatriz enfeiando seu rosto e no início pensou em cirurgia mas agora já não se imaginava sem a velha cicatriz de estimação, até um blues ela ganhara de presente. Achou o rosto gordo e pensou que talvez fosse hora de outro regime, já começava a engordar novamente. Os trinta anos estavam chegando, precisava fazer exercício, andava se cuidando pouco.

Duas horas depois o caminhão parou num posto de combustível e ele desceu. Agora era esperar pelo ônibus que iria para Pipa. Ele não ia se arrepender, foi o que o motorista disse, a praia era bonita e as meninas muito bacanas. Luca sorriu. Meninas bacanas.

Poucos quilômetros antes de Pipa, o ônibus passou pelas ruas de uma cidadezinha e parou quase à beira da encosta para que os passageiros pudessem tirar fotos. Luca desceu do ônibus e teve uma surpresa: à sua frente descortinou-se a paisagem que o deixou abobalhado. Lá embaixo o rio se unia ao mar, num encontro tranquilo. Não era muito largo, dava para atravessar a nado, e havia uma pequena ilha bem na foz, complementando a beleza do quadro. Além da margem, por sobre a copa das árvores, o Sol se punha devagar, salpicando a água de reflexos, e vez em quando um boto saltava.

- Que cidade é esta? – perguntou ao motorista.

- Tibau do Sul. Daqui a gente segue pela costeira até chegar em Pipa. Quinze minutos.

Luca lembrou do que os amigos falavam sobre Pipa, as praias lindas, as pousadas, o agito dos barzinhos, gente do mundo todo… Aquela súbita visão, porém, o fez mudar de idéia. Ficaria um ou dois dias ali.

Mochila às costas, ele caminhou pela trilha que seguia para oeste margeando o rio, afastando-se do mar. À sua direita ficava a encosta e ele podia escutar, pouco abaixo, as águas do rio estalando na margem, batendo de leve nas rochas. Minutos depois alcançou o camping, na verdade um pequeno espaço arborizado onde viajantes armavam suas barracas. Ao lado um boteco que anunciava refeições simples e mais adiante uma barraca azul, nenhuma outra mais. Uma frondosa mangueira seria seu teto. Alguns passos e pronto, estaria à beira da encosta, o rio quinze metros lá embaixo esperando-o para um banho.

Já escurecia quando abriu a espreguiçadeira na beira da encosta. Dali via bem o encontro do rio com o mar, a ilhota na foz, a encosta do outro lado. Ergueu um solitário brinde ao momento e virou a dose de uísque. Depois um sonzinho no violão para saudar o lugar. Cinco dias largado na praia, longe dos problemas do dia-a-dia, sem pensar em dinheiro, trabalho, aluguel do apartamento, contas atrasadas, as multas do fusca…

Por que a vida não era mais fácil de ser vivida?, ele pensou. Por que ela sempre insistia em desarrumar seus planos? Era como se a mão pesada do destino, estúpida e intransigente, sempre se metesse em suas chances de ser feliz. Era preciso então ser mais esperto que a mão do destino, controlar os acontecimentos para que a vida não trouxesse más surpresas. Talvez o segredo da vida fosse esse: tratá-la como a uma boiada, sempre atento para os bichos não saírem do controle. Viver era isso, uma luta sem tréguas contra o imprevisível, contra a mão injusta e traiçoeira dos acidentes de percurso. Era preciso controlar a vida.

(continua)

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Pra ler todos os capítulos já publicados

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Protegido: ARQ SECRETOS – A torta de chocolate (na íntegra)

Agosto 2, 2008

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A torta de chocolate (3)

Agosto 2, 2008
Sexo e chocolate. Para muita gente as duas coisas têm tudo a ver. Para Celina era bem mais que isso…

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Dias depois Celina chegou em casa com uma caixinha comprida de papelão, embrulhada para presente, que guardou no congelador da geladeira. À noite, após tomar banho, trancou-se no quarto e pôs uma musiquinha suave para tocar. Depois penteou-se vagarosamente diante do espelho e tirou a roupa. Ajoelhada sobre a cama, abriu a caixinha e desembrulhou do papel alumínio um pau todo de chocolate, maciço, vinte centímetros de comprimento, cinco de espessura.

Durante algum tempo ela não conseguiu deixar de olhar para o objeto marrom escuro em sua mão. Era lindo, perfeito, imponente… e absolutamente irresistível. Deu-lhe uma leve lambida com a ponta da língua e o gosto do chocolate fez seu corpo inteiro se arrepiar. Depois lambeu a partir da base, a língua percorrendo devagarinho toda a extensão do objeto, até chegar à cabeça, que pôs inteira na boca, detonando uma explosão de saliva.

Então deitou-se e abriu as pernas. E segundos depois o pau de chocolate estava todo dentro de sua buceta, indo e vindo, derretendo-se, misturando-se aos seus fluidos… E quando o gozo chegou, ela retirou o pau dentro de si e levou à boca, e comeu com sofreguidão, enquanto novas ondas de prazer surgiam dentro dela, uma após outra, e outra de novo, e quando tudo terminou, Celina só teve forças para virar de lado e adormecer, vencida pelos tantos orgasmos, o corpo, o cabelo, o lençol, tudo lambuzado de chocolate.

Um pau de chocolate era delicioso. Mas não era uma torta de chocolate. Pena que não existiam paus de torta de chocolate, lamentava-se Celina.

Um dia veio-lhe a revelação. Foi enquanto comia um pedaço de torta na confeitaria. No momento em que sentia a torta se desmanchando na boca, ela pensou em como se sentiria a torta naquele exatíssimo instante. Como seria ser cortada, estripada, dilacerada e depois devorada, sem compaixão, inteiramente devorada, até o último pedaço, devorada até que nada mais restasse?

A partir daí, e por várias vezes, julgou ter chegado bem perto da resposta, da sensação exata, quase pôde sentir o que a torta sentia, quase… Mas no último instante algo lhe escapava, como um gosto que se perde na boca e não mais se encontra.

Até que um dia teve a idéia. Uma idéia perfeita. Mas que necessitava de um plano igualmente perfeito. E ela começou a arquitetar seu plano, passo a passo, com muita paciência.

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(Se você é Leitor Vip, clique aqui para ler o conto na íntegra. Se ainda não é, clique aqui.)

Este e outros textos você encontra no livro Vocês Terráqueas


Sitcom Mano a Mano

Agosto 2, 2008

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INFORMAÇÕES SOBRE O SITCOM MANO A MANO,
DO QUAL RICARDO KELMER FOI UM DOS ROTEIRISTAS

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O primeiro sitcom brasileiro em formato clássico foi Mano a Mano, exibido e reprisado pela RedeTV em 2005 e produzido pela produtora americana Picante Pictures, com roteiristas brasileiros.

Mano a Mano conta a história de dois jovens irmãos que não se conhecem até o dia em que um deles, Marcos, o milionário aristocrático, vai à falência e é obrigado a ir morar com o meio-irmão Robinho, que é pobre e vive na favela. Marcos leva consigo Boris, seu fiel mordomo, e os dois tentarão se adaptar à difícil realidade dos morros cariocas. De um lado o orgulhoso e pedante ex-milionário, do outro lado o garoto humilde do morro, ligado em hip-hop.

Unindo o mundo dos ricos com o mundo dos pobres, juntando negros e brancos, morro e asfalto, Mano a Mano faz do choque cultural sua isca para atrair os espectadores. A história aborda a realidade cotidiana da favela e seus problemas básicos de forma leve e bem-humorada, deixando a violência de lado para mostrar o lado alegre e lúdico do morro.

Os doze episódios da primeira temporada de Mano a Mano foram dirigidos por Vicente Barcellos e João Camargo. Os roteiristas são: Ana Paul, Fábio Danesi Rossi, Gustavo Melo, Luciana Bezerra, Macarrão (Alexandre Magalhães), Ricardo Kelmer e Ricardo Tiezzi. Participaram também os roteiristas: Claudio Yosida, Nixxon Alves e Silva, Rinaldo Teixeira, Ricardo Barretto e Nina Crintzs.

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PERSONAGENS DE MANO A MANO

Confira os personagens do sitcom e os atores que os representam

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Marcos (Rafael Maia) – Ex-milionário, meio-irmão de Robinho. Falido, vai morar na favela com o irmão. É orgulhoso e pedante e fará de tudo para sair de lá.

Robinho (Silvio Guindane) – Meio-irmão de Marcos. Mora com sua tia Rita na favela e namora Rose. Tem um programa na rádio comunitária com o amigo Jonas.

Jonas (Leandro Firmino) – Amigo de Robinho, dono de uma rádio comunitária. Está sempre revoltado com o sistema.

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Dona Rita (Kenya Costta) – Costureira. Criou Robinho após a morte de sua mãe (mãe de Marcos) e trabalhou numa das empresas da família de Marcos.

Lucyennes (Marcelo Sandryni) – Homossexual, é a secretária brincalhona e espalhafatosa de dona Rita, amiga de infância de Robinho e Jonas.

Rose
(Juliana Alves) – Namorada de Robinho. É ciumenta e sonha em casar e ter filhos.
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Carmem (Ana Karine) – Amiga rica de Marcos. Acha excitante a realidade da favela.

Boris (Henrique César) – Mordomo de Marcos, ajudou a criá-lo. É inteiramente fiel ao patrão.

Maria Joana (Jackie Brown) – Trabalha na rádio e apresenta um programa de reggae. Vive chapada.

DJ Menor
(Luiz Antonio do Nascimento) – Trabalha na rádio. Menor de idade, quer ser como Jonas.

Chulé (Babu Santana) – Chefe do tráfico no morro. Sempre dá seu jeitinho para conseguir o que deseja.

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Homens infiéis, mulheres inconformadas (1)

Agosto 1, 2008

Ronaldo Fenômeno. O maridão bombeiro da Suzana Vieira. Jogadores do Flamengo. Ron Wood, o Rolling Stone. Hugh Grant, o ator inglês. Putz, a lista é tão grande quanto a população masculina do planeta. Homens que traem. Por quê? Por que eles traem? Por que, mesmo casados, bem casados, com mulheres lindas, ricas e maravilhosas, mesmo quando estão apaixonados, mesmo quando amam, por que diabo esses caras não conseguem ser monogâmicos?

Você já deve ter se feito esta pergunta muitas vezes, né, leitorinha? Por que os homens (tá, não são todos, são 99%) não conseguem ser exclusivos de uma única mulher? Por que o merda do Rafael me traiu com aquela quenga, que nem bunda tem? Como o Demétrio teve coragem de me chifrar com aquela desqualificada que distribui panfleto na porta do metrô, como, como?! Por que vocês não conseguem ser fiéis, por quêêêêê?????

Calma, também não precisa ficar histérica. A resposta à sua pergunta tá na própria pergunta, fia: nós não conseguimos porque… não conseguimos. É uma resposta simplista, que não esclarece nada? Pode ser. Mas é a resposta mais franca possível, acredite, mesmo em se tratando de um assunto em que franqueza é algo que costuma não estar presente.

Nós não conseguimos e pronto. Podemos até tentar por um tempo. Mas lá adiante não conseguimos. Podemos até perceber, conscientemente, que não vale a pena correr o risco, que mais cedo ou mais tarde seremos descobertos, que arruinaremos uma relação maravilhosa, ela pedirá o divórcio, ficará com a casa da praia, o carro novo e o disco do Pixinguinha… mas mesmo assim não resistimos ao canto da sereia e vamos em frente.

Mas por que não conseguimos resistir? Bem, há quem alegue razões biológicas: desde o tempo do tatatatatatataravô da Chita que nós machos sempre tentamos espalhar nossos genes no maior número possível de fêmeas e milhões de anos agindo assim nos faz continuar agindo assim, como se já nascêssemos com essa tendência natural, feito esse computador aí que você comprou e que já veio com os programas instalados. Putz, acabei de misturar Chita com Microsoft, mazé issuaí.

Entretanto há quem negue esse papo de biologia, afirmando que é desculpa fajuta, que os machos se aproveitam da cultura machista pra mijarem fora do seu peniquinho caseiro. Nesse caso, teríamos que estudar outras sociedades pra ver se esse raciocínio procede. Deve haver estudos nesse sentido, sim, mas desconfio que todos foram feitos por homens…

E há quem junte as duas coisas, biologia e cultura: enquanto a primeira empurra, a segunda incentiva o comportamento não-monogâmico dos nossos machos.

O papo tá muito bom mas depois eu continuo, a vizinha do 501 veio pedir uma xícara de açúcar. Engraçado essas coincidências… Sempre que ela vem, minha mulher nunca tá em casa.

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Ricardo Kelmer 2008 – blogdokelmer.wordpress.com

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