Viver como Vinicius viveu

Novembro 14, 2009

Viver outra vez aquele frio na barriga que antecede cada subida ao palco, recitar seus poemas por aí e mostrar a grandeza do Vinicius homem e artista – putz, tem sido tão gratificante fazer isso!

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RKViniciusDeMoraes-02aVinicius voltou pra mim, ô maravilha. Na verdade, o poetinha nunca se foi – eu é que, em face de outros encantos, esqueci o quanto dele se encanta meu pensamento. Curioso como a gente consegue se afastar dos nossos valores mais essenciais. Um dia, plim!, a ficha cai e a gente se assusta por ter vivido tanto tempo sem viver as nossas mais belas verdades, aquelas que fazem a gente se sentir vivo em cada vão momento.

Invoco agora as lembranças pra tentar entender. Lá vai eu, menino bobo de dez anos, dar de presente pra professora uns versinhos que meu pai me ajudava a fazer. Depois o adolescente a descobrir a força das erupções: da poesia e das espinhas no rosto. E nos poemas, sempre ela, a Mulher, primeiro nas rimas ingênuas das paixonites não correspondidas e, depois, nos versos livres dos amores juvenis pelas mesas dos botecos. E, pairando sobre aqueles dias, Vinicius a espalhar seu canto.

Nas rodas de violão da década de 80, eu sempre pedia Vinicius, pra rir meu riso e derramar meu pranto. Nas viagens de ônibus pelo país, seus livros pra passar o tempo. Na inauguração do bar do amigo, olha eu, solene e copo na mão, recitando Receita de mulher. No festival de vídeo, olha lá eu de novo, no palco a agradecer o prêmio – e o vídeo era uma homenagem ao velho Vina. E nos ouvidos rendidos da mulher amada, é minha boca que pousa suave a lhe sussurrar os versos do poetinha. Poesia, música e amores, e o fascínio quase religioso pelo Feminino – era só isso que importava. Viver não era preciso. Necessário apenas viver como poeta, seja com pesar ou contentamento. Como Vinicius viveu.

Invadindo meus dias sem pedir licença, eis porém que chegam outros tempos, vestidos de anos 90, e com eles outros bares, outras viagens, outros livros e músicas, outras mulheres, uma outra vida. E um casamento difícil, com a carreira de escritor, em nome da qual eu ganharia e também abdicaria da própria vida. Meus discos do Vinicius, nem gosto de lembrar, se perderam nas tantas mudanças e seus livros eu precisei vender no sebo pra pagar o aluguel, essa mensal angústia de quem vive. Na memória, os poemas deram lugar a fórmulas de sobrevivência como escritor. E o viver como ele viveu, ah, isso foi ficando cada vez mais espremido num cantinho da vida.

Ela quer um poema agora, Vina, exclusivo pra ela. Como você fazia nessas horas? (1993)

Casadão com a carreira, mudo pro Rio de Janeiro em 1995 e no ano seguinte pra São Paulo. Porém, sem conseguir me manter como escritor, volto pra Fortaleza. Sete anos depois tento novamente o Rio, viro roteirista de TV, e em 2006 aporto mais uma vez na Pauliceia, viro palestrante e professor de roteiro, tudo pra sustentar esse casamento. Uma noite vem a ideia de montar uma palestra nova e é então que a ficha cai: uma palestra sobre Vinicius. Plim! Como não pensei nisso antes? A ideia rapidamente evolui: montar não uma palestra, mas um espetáculo sobre o poetinha. Viniciarte. Pliiimmm!!!

Imediatamente tratei de reler suas obras e reuni novamente suas músicas, faminto desse amor que um dia eu tive. Mergulhei em biografias, vi filmes e conversei com pessoas que o conheceram pessoalmente. Em busca de algo que bem representasse o espírito de sua vida e obra, criei um roteiro que simula o ensaio do espetáculo que um grupo de amigos fará em 2013, no ano de seu centenário: amigos reunidos, uísque na mesa, clima descontraído, os erros e acertos de um ensaio e, entre poemas e canções, eles descobrindo as diversas facetas de Vinicius e o encanto do mundo por sua arte. É uma montagem simples, que espero que reflita a alma leve e despojada de Vinicius, assim como também a singeleza, a emoção e a devoção à Vida que tão bem marcaram sua obra e seu viver.

De Pitú pra Chivas. Pelo menos nisso, poetinha, eu evoluí. (2009)

Uau… Eu consegui ressuscitar a velha chama que vinte anos atrás aquecia de imortalidade os meus dias, minha vida andava precisada disso. Viver outra vez aquele frio na barriga que antecede cada subida ao palco, recitar seus poemas por aí e mostrar a grandeza do Vinicius homem e artista – putz, tem sido tão gratificante fazer isso! Espero que eu realmente seja digno dessa tarefa a que me incubi e que, pensando bem, é antes de tudo um resgate de mim mesmo. Que ironia isso… Enquanto despendia toda minha energia pra manter meu casamento com a escrita, esqueci de viver como poeta. Bem, meu casamento continua firme mas agora sou um escritor que sabe de algo valioso: maior que a sina da escrita, é ela, a poesia da vida, que faz tudo ser infinito enquanto dura.

Saravá, Vininha, saravá.

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Ricardo Kelmer 2009 – blogdokelmer.wordpress.com

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> Agenda de apresentações do Viniciarte

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RK em “Ausência”, de Vinicius de Moraes
Violão: Moacir Bedê interpreta Insensatez (Vinicius e Tom Jobim)
Quinta Poética, Casa das Rosas, 29out2009
Realização: Editora Escrituras

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Comentarios01 >> COMENTÁRIOS

01- Onde já se viu, criatura, casar com a carreira e abandonar a tua belíssima FÊMEA DE DENTRO? Tá dooooido? Lembra do que tu escreveu sobre fascínio religioso pelo feminino? Pois é… Andastes des-ligado DELA? Entonces, se re-ligue. De fascínio ao religamento, já imaginou RK? FODAS RELIGADORAS BÁRBARAS! GOZOS TRANSBORDANTES! Patrícia Lobo, Salvador-BA – nov2009

02- Oi Ricardo, Tudo bem? Adoro ler o que escreve, pena não poder entrar no seu blog aqui do computador do meu trabalho. Torço por vc e que a inspiração seja sua eterna companheira. Parabéns!! Abraços. P.S.: Lembrando: Sou aquela moça do bolo de choclate que vc não comeu…rsrsrsrs. Fátima, Brasília-DF – nov2009

03- cara, vc realmente escreve muuuuito bem! aproveitar frases dele, encaixar tão bem nas suas… PARABÉNS!!!! me emocionou, assim como os poemas do poeta… bjão. Celia Terpins, São Paulo-SP – nov2009

04- Vinícius bom é Vinícius poeta… o “poetinha” é machista e duro do ouvido! Emblemática é a correspondência entre Chico e ele (Chico, o ouvido perfeito….). Em Valsinha, Vinícius sugere q mude “vestido decotado” para “vestido dourado”. Chico responde q com “dourado” a tônica fica na sílaba errada… É verdade: qtas pessoas vc conhece q compõem letras e não se ligam nisso? Ficaria “douradú”… em vez de “dourádo”, ou, como ficou, “decotádo”. bjs. Betty, São Paulo-SP – nov2009

05- Olá Ricardo, gostei muito da sua crônica. O mais engraçado foi a leitura desse texto justamente hoje, quando deixei de fazer umas coisas super-chatas e decidi vir para casa fazer algo mais bacana… Um abraço. Glauber Moura, Brasília-DF – nov2009

06- So good Kelmer. Juliana Guedes, Fortaleza-CE – nov2009

07- RK, é por estas e outras que vc será meu eterno Guru!!! Marcos André Borges, Fortaleza-CE – nov2009

08- Legal conhecer gente do bem, do bom, da boa…embriagado da mais pura poesia e boemia. 2013 promete! Q suba o país, viniciando com K. Muito bom ouvi-lo! Repassei aos amigos q não desistem de navegar pela vida, apesar de tantos desencontros. Parabéns! Marcia Matos Barbosa, Fortaleza-CE – nov2009

09- Bom ver você assim, entusiasmado. Quem já passou por essa vida e não viveu, pode ser mais, mas sabe menos que você…. Danielle Fernandes, Fortaleza-CE – nov2009

10- Que texto lindo!!! Adorei!!! Gosto muito do seu jeito de escrever….jeito que encanta, que dá vontade de quero mais……. rs Abração aí!!! Biah Carfig, São Paulo-SP – nov2009

Bom ver você assim, entusiasmado. Quem já passou por essa vida e não viveu, pode ser mais, mas sabe menos que você….

Eu só queria que você soubesse

Novembro 10, 2009

LETRAEuSoQueriaQueVoceSoubesse-01a

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Eu só queria que você soubesse
(Ricardo Kelmer e Humberto Pinho)

Eu só queria que você soubesse
Que as minhas noites são tão vazias
E o meu coração é tão velho sem você
Eu sirvo mais uma dose enfim
Eu olho a cidade
Da janela só a cidade sabe de mim

Eu ouço música na madrugada
Eu tinha tanta música pra fazer
Sirvo uma dose, me visto pra sair
Eu tinha tanto pra dizer
Onde está a seção de acompanhantes?
Quanto vale um corpo sem você?

Eu só queria que você soubesse
Que eu durmo muito tarde
E até a cidade tem sensibilidade
E que comprei aquele vinho da promoção
Eu só queria que você soubesse
Que você não tem coração

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Ricardo Kelmer 1995 – blogdokelmer.wordpress.com

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RAIO X DA PARCERIA

Você me permite umas considerações sobre esta música?

Fiz a letra desse blues numa das madrugadas solitárias de minha primeira fase carioca (1995-1996). Mostrei pro Humberto, que gostou e musicou. Em 2004, antes de eu embarcar pra ir morar novamente no Rio de Janeiro, ele gravou em seu estúdio, apenas voz e violão. É o único registro que temos pois a música não foi gravada por mais ninguém.

Quando escrevi, tive o cuidado de deixar o gênero incerto, ou seja, quem fala pode ser uma mulher ou um homem, apesar do protagonista buscar uma seção de acompanhantes e isso ser uma prática mais masculina. Numa letra, a incerteza proposital do gênero permite que tanto homens como mulheres se identifiquem e possam cantar sem ter que alterar o texto.

Por falar em alterar, houve alterações na letra. Em parcerias, isso é comum, e usarei este caso pra mostrar como elas podem enriquecer o trabalho. Na letra original, o verso é “Que as minhas noites são tão vazias” mas Humberto gravou “Que as minhas noites são tão sozinhas”. Gostei, mas prefiro o original por causa da aliteração (repetição das mesmas letras ou sílabas) provocada pela letra V (vazias, velho, você).

Outra mudança foi no verso “Quanto vale um corpo sem você?”, que na gravação ficou “Quanto vale um corpo sem o seu?” Outra vez prefiro o original mas é interessante perceber como as duas formas possuem curiosas sutilezas de significados. Vejamos:

“Quanto vale um corpo sem você?” – O protagonista ou a protagonista, no auge da solidão, busca a seção de acompanhantes e se pergunta quanto poderia valer um corpo que não fosse o da pessoa amada, “um corpo sem você”.

“Quanto vale um corpo sem o seu?” – Aqui a pergunta muda o foco. Quanto valeria o corpo do próprio protagonista privado do corpo da pessoa amada?

Mas houve uma mudança que aprovei. No original, era assim:

Eu olho a cidade da janela
Só a cidade sabe de mim

O protagonista tá na janela olhando a cidade e somente a cidade sabe de sua dor. Na gravação, porém, o ritmo obrigou Humberto a fazer uma leve pausa entre “cidade” e “janela” e essa mudança, mesmo sendo bem sutil, levou o “da janela” mais pra perto do verso seguinte e isso causou, pelo menos pra mim, um efeito visual e de sentido bem mais interessante.

Eu olho a cidade
Da janela só a cidade sabe de mim

O protagonista continua olhando a cidade, isso não mudou. Mas agora o verso “Da janela só a cidade sabe de mim” parece emoldurar a cidade na janela e isso traz o protagonista de volta ao ambiente interno do apartamento. Ou seja, agora a cidade tá na janela e observa o protagonista em sua dor e solidão.

A montagem aí de cima, uma mulher deitada na cama, vestida apenas com um salto alto, tocando-se, e a cidade observadora de fundo… Sabe que tô começando a gostar de fazer essas montagens?

A seguir, o clipe. É um dos que usei pra divulgação de meu livro Vocês Terráqueas. Escolhi e trabalhei as imagens pondo como protagonista uma mulher, e pra fazer a edição usei o Windows Movie Maker, tudo bem dentro das minhas limitações, vá desculpando.

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Clipe da música


Filme: Desconstruindo Harry

Novembro 4, 2009

FILMEDesconstruindoHarry-10Desconstruindo Harry

FICHA TÉCNICA

Deconstructing Harry
EUA, 1997 – 95 min
Elenco: Woody Allen, Kirstie Alley, Tobey Maguire, Demi Moore, Robin Williams, Billy Crystal e outros
Roteiro e direção: Woody Allen
Indicado ao Oscar de Melhor Roteiro Original

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RK COMENTA

Niilismos e orgasmos

Harry Block é um conhecido escritor que usa e abusa de referências autobiográficas em seus livros, o que acaba por incomodar seus amigos, familiares e amantes, que se descobrem nas histórias publicadas e não gostam nada de como foram retratados. Em meio a uma crise criativa, abandonado pela amante e preparando-se para ser homenageado pela própria escola que no passado o expulsou, Harry passa a se relacionar com seus próprios personagens, que lhe mostrarão novas formas de compreender sua vida confusa.

Eis mais um daqueles deliciosos personagens cheios de neuras de Woody Allen. Harry gasta todo seu dinheiro com análise, advogados e putas e ele é o primeiro a prevenir suas amantes para que não se apaixonem por ele. Acusado por sua ex-mulher de levar a vida baseado tão-somente em niilismo, cinismo, sarcasmo e orgasmo, ele consegue irritá-la ainda mais dizendo que com um slogan desses, seria eleito presidente da França.

Desconstruindo Harry é um filme muito divertido, principalmente para escritores que se relacionam intensamente com sua própria obra e com seus personagens. Se você costuma escrever inspirado diretamente em seus relacionamentos e nem sempre consegue distinguir o que inventou em seus textos daquilo que copiou da vida, então conheça Harry Block. E dê boas risadas dele e de você também.

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Ricardo Kelmer 2009 – blogdokelmer.wordpress.com

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Filme-01a.

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Ser mulher não é pra qualquer um

Outubro 31, 2009

É dada a saída, lá se vai o trenzinho. Num vagão as Belas, abalando nos modelitos, no outro as Madrinhas, abalando com o isopor e o estojinho de primeiro-socorro

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BelasDaTarde-1993-03bEra no último dia do ano. Uns caras desciam pra avenida Beira-Mar vestido de mulher pra jogar bola. Tudo de vestido e cerveja na mão. Ideia genial, de uma só vez homenagear o melhor da vida: mulher, futebol e cerveja. Não necessariamente nessa ordem, é claro.

Avisei os amigos e em 1988 engrossamos o cordão da Volta da Jurema, tudo empolgado querendo ser mulher por um dia. Euzinha botei uma sainha, blusinha de alça com enchimento, meia tarrafa, uma maquiagem assim bem básica e calcei… o conga. Bicha pobre, tadinha. Nem peruca tinha. Mas descolei uma bolsa escândalo pra levar a garrafa de Ypióca. Mulher moderna é assim, pinguça e pragmática.

Meu batismo feminino foi de sangue: subi no carro, ele arrancou e saí bolando pelo asfalto, que nem tatu-bola, eu e a cachaça. Levantei zonza, procurando meu brinco, a saia toda torta, um peito no chão, a própria mulamba. Na mão o gargalo da garrafa, tudo que restou da companheira. E no braço… hummm, um corte horrível, que me custaria doze pontos externos e oito internos. Hoje mostro a cicatriz com orgulho: tá vendo, eu estive lá.

Aí o grupo cresceu e uma multidão ia pra Volta assistir ao desfile das bonecas, uma centena de ensandecidas aprontando na Beira-Mar, desfilando em carroça de jumento, invadindo ônibus, agarrando os bofes, gritinhos, xiliques e coreografias. Um verdadeiro carnaval fora de época.

Anos depois a festa tinha trio elétrico, axé music, muita bicha legítima e político querendo aparecer, ô racinha… Criamos então, em 93, um bloco dissidente: As Belas da Tarde. E elegemos como paraninfa Catherine Deneuve, claro. Ela foi convidada mas seus compromissos não permitiram, tudo bem. Passamos a desfilar no pré-carnaval e a cada ano escolhíamos a Bela Rainha, que botava a faixa e abria o desfile, glória máxima na vida de uma Bela. Nosso ritual era sagrado: concentração ao meio-dia, modelitos-arraso, batons, brilhos e, por favor, qualquer coisa pra beber, o que é isso?, licor de ovos, serve. As amigas e namoradas ajudavam na produção, lutando pelo título de Bela Madrinha. Diferente desses blocos onde os caras botam um limão no sutian e se acham mulher, a gente fazia questão de ficar bonita. Pra entrar no bloco tinha que ser convidada, isso mesmo, era coisa séria. Afinal ser mulher não é pra qualquer um.

É dada a saída, lá se vai o trenzinho. Num vagão as Belas, abalando nos modelitos, no outro as Madrinhas, abalando com o isopor e o estojinho de primeiro-socorro. Quarenta belas, uma parte já totalmente alucinada e a outra já clinicamente morta. O trenzinho percorre faceiro as avenidas ao som de Frenéticas, Xuxa e Ney Mato-Grosso e quem está na rua corre pra não ser violentado pelo bando de tarada. As tevês cobrem a pouca-vergonha: “Estamos aqui na avenida Abolição e o trânsito está um caos, os policiais são impotentes diante do furor uterino das Belas enlouquecidas!” A passagem pela Beira-Mar é apoteótica: as Belas invadem os hotéis gritando “Ar-ren-ti-nos! Ar-ren-ti-nos!” Os gerentes ficam em estado de choque. Os seguranças tentam barrar a turba mas, você sabe, é impossível deter um magote de bonecas bárbaras, tudo doida pra sentar no colo de um gringo, tomar o uísque dele e detonar a lagosta.BelasDaTarde-02b

Uma vez pegaram um banhista e levaram a sunga dele, deixaram o coitado pelado no meio do calçadão. Ninfômanas! Outra vez o bloco invadiu o Náutico, interrompeu o jogo de tênis e levou as bolas. Vândalas! A outra desmiolada, debutando no bloco com seus primaveris 16 anos, bicha linda mas inexperiente na vidaloca, saltou de bico na piscina sem perceber que tinha apenas meio metro de fundo: foi direto pro hospital com a testa aberta, bem feito, quem manda dar desgosto à família! E a outra que caiu do trenzinho? Foi salva da morte pelo pai que levou a filha transviada pra farmácia e enquanto ele comprava soro fisiológico, não é que a condenada se apaixona por um creme de queratina e cai por cima da prateleira, derrubando tudo? Ô mulherzinha, deixa de ser desgovernada! E você não vai crer mas teve um ano que uma Bela absolutamente sem juízo pegou no pingolim do soldado, acredita? Pois foi. Enquanto o soldado corria atrás, a Bela gritava: Mal-agradecido, não te chupo mais! Que coisa. Botavam o quê na bebida dessas moças?

No fim do percurso a gente contabilizava as sobreviventes. E os namoros que restavam. Algumas Belas iam tomar glicose, outras esticavam a noite, insaciáveis. Mas a maioria não sabia mais nem em que ano estava. Uma vez, no dia seguinte, encontraram uma Bela semimorta no jardim de uma casa, ô vontade de ser uma orquídea… Outras conseguiam a incrível façanha de arrumar namorada, isso mesmo, namorada, vestido de quenga, a peruca parecendo um guaxinim molhado, o rímel escorrendo, aquele lastimável estado de embriaguez. É, tem gosto pra tudo. Pensando bem, nossas amigas eram mesmo sabidas: se aproveitavam da confusão pra fisgar aquele gatinho que nunca dava bola pra elas.

Em 96 o bloco desfilava pela Praia de Iracema seguindo a bandinha de metais. Ao passar pela igrejinha, na hora da missa, as Belas, mui beatas, suspenderam a música, caminhando em silêncio, respeitosas. Uma até baixou o vestido, escondendo a peruca chanel que levava dentro da calcinha. Porém… uma Bela isprito-de-porco não resistiu e soltou o refrão: “Na casa do Senhor não existe Satanás!” Pronto, as outras acompanharam, “Xô, Satanás, xô, Satanás”, a bandinha se animou, a festa voltou e os fiéis, apavorados, saíram correndo da igreja pensando que o próprio demo chegava com sua horda de dementes. Um ano depois o Tribunal do Santo Ofício excomungaria todas as Belas, bem feito. Com exceção de uma que se arrependeu da vida pecaminosa e virou Carmelita.BelasDaTarde-01a

A essa altura o bloco já estava em franca decadência, as Belas todas velhas, barrigudas, cheias de pelanca. A época áurea dos corpinhos malhados havia passado e já tinha Bela pai de família levando os filhos pro desfile. Hummm, melhor parar. E assim as Belas da Tarde desceram a cortina, encerrando sua vistosa história de purpurina e alegria. Mas tem muito marmanjo aí que, por via das dúvidas, ainda guarda a meia arrastão no fundo da gaveta – eu, por exemplo. Sei lá, vai que um dia bate assim um revival. Já estamos excomungadas mesmo…

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Ricardo Kelmer 2005 – blogdokelmer.wordpress.com

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Foto 1: Valmir Jr (A Perestroika da Fanta Uva), André Barbacena (A Filha de Glorinha) e RK (Angélica)
Foto 2: Valmir Jr (Bela Rainha 1993 com o modelito A Perestroika da Fanta Uva), RK (Angélica) e Rian Batista (Inês Fiúza)
Foto 3: O famigerado trenzinho. RK, Fred Schlaepffer (de biquinho), Emílio Schlaepffer, Marcio Régis, Nelsinho Machado (bicha séria), Vicente Vieira (de óculos) e Fábio Fabão. A bela de chapéu, afff, até hoje não sei quem é esta criatura risonha.


Viniciarte em Pinheiros 30out

Outubro 22, 2009

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E prossegue a temporada do espetáculo Viniciarte que eu, o músico Moacir Bedê e a cantora Vanessa Moreno estamos fazendo no Espaço Cultural Alberico Rodrigues, em Pinheiros. É a nossa segunda apresentação lá. As próximas estão agendadas pra 21nov e 19dez.

O miniteatro do Espaço Alberico Rodrigues possibilita que ambientemos o espetáculo num clima intimista parecido com os famosos pocket shows que Vinicius fazia no Rio na década de 1960, nas boates de Copacabana. O público assiste ao espetáculo em mesas, próximo ao palco, e pode fazer pedidos ao bar.

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Viniciarte – Vida, música e poesia de Vinicius de Moraes

Três amigos ensaiam o espetáculo sobre Vinicius de Moraes que apresentarão em 2013, no ano de seu centenário, mostrando poemas, músicas e fatos curiosos sobre a vida do poeta. No clima descontraído do ensaio, entre erros e acertos, eles descobrem as variadas facetas de Vinicius e sua real dimensão na cultura brasileira.

ViniciarteCartazRK-202a.
Dia:
30out – sexta-feira – 20h

Local:
Esp Cult Alberico Rodrigues – Pça Benedito Calixto, 159 – Pinheiros
– SP-SP
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Textos, direção e poemas:
Ricardo Kelmer
Músicas: Moacir Bedê e Vanessa Moreno
Duração: 1h30

Ingresso:
R$ 15
Reservas: 11-3064.3920 e 3064.9737
Apoio:
Letra de Bar e TV da Praça

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ViniciarteCartazVanessaMoreno-202dViniciarteCartazMoacirBede-202e

COMPONENTES

Ricardo Kelmer: escritor, roteirista, palestrante e produtor cultural.
Vanessa Moreno: cantora e instrumentista, integrante do quarteto feminino Julietas.
Moacir Bedê: instrumentista e compositor, lançou em 2009 seu primeiro CD.

VENDAS
Celia Terpins, 11-9129.1530 – celiaterpins(arroba)ig.com.br

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Ricardo Kelmer 2009 – blogdokelmer.wordpress.com


Quatro cinco

Outubro 21, 2009

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Essas mensagens de aniversário
Que me chegam na noite calma
Tão queridas
Estão todas respondidas
Assim eu quero
No correio mais sincero
De minhalma

Quatro cinco
Viver com afinco

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Ricardo Kelmer 2009 – blogdokelmer.wordpress.com


Em busca da mulher selvagem

Outubro 19, 2009

Era por ela que eu sempre me apaixonava, essa mulher que era quem ela mesma desejava ser e não a mulher que a família, religião e sociedade impunham que ela fosse

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EmBuscaDaMulherSelvagem-02base4bFoi Marília quem me emprestou esse livro, em 2002, quando eu já andava curioso a seu respeito. Depois Rafaela me deu um de presente. E depois ganhei a versão digital. Ou seja, esse livro queria mesmo vir pra mim, e foram as mulheres que o trouxeram. Li e fiquei encantado. Nas páginas de Mulheres que correm com os lobos estava o que eu intuía sobre as mulheres e a relação entre os gêneros mas ainda não sabia verbalizar. O livro me chegou numa fase em que eu já lidava melhor com meus aspectos femininos e, por isso, me identifiquei profundamente com ele e com a histórica questão da domesticação da mulher.

Terminei a leitura sentindo em minha alma uma avalanche de ideias e sensações mas sentindo também que levaria um bom tempo até que tudo aquilo assentasse e eu conseguisse organizar meus pensamentos e reagrupar as verdades que, embora não fossem tão novas pra mim, agora eram obviamente, estupidamente claras. Através de mitos e lendas coletados em várias partes do mundo, a autora mostra como sobreviveu, mesmo escondida sob muitas formas simbólicas, o arquétipo do feminino selvagem, o modelo da mulher conectada com os ritmos e valores da Natureza e de sua própria natureza, o modelo da mulher livre. Um livro belíssimo, que tem ajudado muitas mulheres a resgatar o que séculos de repressão lhes usurparam: o direito de serem o que quiserem. Um livro que fala essencialmente do feminino mas também fala de homens e deveria ser lido pelos dois.

A mim, o livro de Clarissa me fez especialmente entender que, em minha vida, desde cedo me fascinou o arquétipo do feminino selvagem. Por causa disso sempre me atraíram as mulheres de iniciativa, as desafiadoras da cultura machista, as que recusavam o modelito cristão de mulher virtuosa, as que se rebelavam contra regras sociais idiotas, convenções sexuais sem sentido, modelos de relacionamento baseados na posse do outro e tudo que objetivava manter a mulher submissa e sob controle. Era por ela que eu sempre me apaixonava, essa mulher que era quem ela mesma desejava ser e não a mulher que a família, religião e sociedade impunham que ela fosse.

Esse livro me trouxe uma das mais importantes revelações que já tive, que a mulher da minha vida é e sempre foi uma só: a mulher livre. E que foi essa mulher que, mesmo sem saber, eu sempre busquei em minhas relações, ainda que a temesse. E que foi por ela que abandonei muitas mulheres, ao intuir, sem saber explicar nem pra mim, que eu jamais poderia ser totalmente eu ao lado de uma mulher domesticada.

Porém, como aceitar e amar essa mulher liberta sem, antes, eu mesmo me libertar do que também me limitava? Pra merecê-la, eu também precisava me libertar de vez de qualquer pretensão de controlá-la, esse resquício maldito de minha herança cultural-religiosa.

A ficha caiu após ler Mulheres que correm com os lobos: esse livro me ajudou a assimilar o feminino em meu ser e foi isso, exatamente isso que me fez deixar de temê-lo, me fez mais selvagem no sentido psicológico-arquetípico, me fez mais livre. O efeito prático disso tudo é que agora eu finalmente estava aberto pra relações mais igualitárias e, principalmente, pra receber a mulher livre que tanto buscava em minhas relações. Então ela veio, enfim ela pôde vir. Veio linda, plena e radiante, e eu vi em seus olhos o reflexo dela própria em mim. E desde então continua vindo, e eu e ela somos lobos que cruzam florestas atraindo-se pela fome louca que temos um do outro.

E eu sei que ela sempre virá, porque esse amor que trazemos em nós, geralmente incompreendido por não erguer cercas de posse e jaulas de controle, é o amor que aprendemos a respeitar em nossa própria natureza e que nos alimenta de alegria e liberdade a alma selvagem.

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Ricardo Kelmer 2009 – blogdokelmer.wordpress.com

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EmBuscaDaMulherSelvagem-02base4c

Mais sobre liberdade e o feminino selvagem:

> A mulher selvagem - Ela anda enjaulada, é verdade. Mas continua viva na alma das mulheres
> A mulher livre e eu – A liberdade dessa mulher reluz no seu jeito de ser o que é – e ela é o que todas as outras dizem ou buscam ser, mas só dizem e buscam, enquanto ela tranquilamente… é
> Em busca da mulher selvagem – Era por ela que eu sempre me apaixonava, essa mulher que era quem ela mesma desejava ser e não a mulher que a família, religião e sociedade impunham que ela fosse
> Amor em liberdadeO que você ama no outro? A pessoa em si? Ou o fato dela ser sua propriedade? E como pode saber que ela é só sua?
> As fogueiras de Beltane
As fogueiras estão acesas, a filha da Deusa está pronta. O casamento sagrado vai começar

LIVROS

> Mulheres que correm com os lobos - Mitos e histórias do arquétipo da mulher selvagem (Clarissa Pinkola Estés -  Editora Rocco, 1994)
> A prostituta sagrada – A face eterna do feminino (Nancy Qualls-Corbert – Editora Paulus, 1990)
> As brumas de Avalon
- (Marion Zimmer Bradley – Editora Imago, 1979)

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Comentarios01 >> COMENTÁRIOS

.001- Não tenho a menor dúvida, RK, que é pelas mulheres Lilith – mulheres serpentes, que tu é fascinado e arriadinho. Tua alma é Lilithiana, criatura de Deus e do Diabo, de Abraxas!!!! Tava com saudade de tu. Rauariú, sacerdote do Grande Mistério Andrógino? Onde mora o perigo, querido, também mora a salvação, a conjunção. Pat Maria, Salvador-BA – out2009

002- Gostei do que vc escreveu. Ando relendo de novo o livro e vejo quantas coisas se assemelham a mim. Parabens. Um abraço. Christina Costa, Brasília-DF – out2009

003- Li há pouco tempo a biografia de Leyla Diniz.Essa sim é a personificação do feminino selvagem. Bjs. Mônica Burkleward, Recife-PE – out2009

004- Nossa adorei o trecho. Síntese do que venho exercitando na minha vida. Jamille Abdalah, São Paulo-SP – out2009

005- Grande Kelmer, você, como sempre, produzindo textos bacanas e bem bolados. Esse do feminino, então, show de bola, a foto foi por demais bem feita. parabéns!!! Forte abraço. Luís Olímpio Ferraz Melo, Fortaleza-CE – out2009

006- Kelmer, vou correndo ler o livro Mulheres que correm com os lobos. Essa mulher, livre, que dá banana pro machismo, que vive plenamente todos os prazeres hedonistas que lhe interessam, que toma iniciativa (mesmo sabendo do preço que paga por isso), essa mulher, sou eu! Beijão e.. valeu o toque. Vou xeretar teu blog pra saber mais. Meire Viana, Fortaleza-CE – out2009

007- Meninas, vale entrar no blog e dar uma conferida… Beijos. Ana Zanelli, Rio de Janeiro-RJ – out2009

008- Kelmer, até que enfim um homem entendeu o livro da Clarisse… (!) Claudia Santiago de Abreu, Rio de Janeiro-RJ – out2009

009- Que crônica ótima,gostei,só nÂo sei se me encaixo ‘100% nesse modelo de MULHER SELVAGEM viu. bjo parabéns pelo o trabalho fantástico. Eunyce Fragoso, Campina Grande-PB – out2009

010- Ei amigo,que bom que você descobriu as mulheres que correm com lobos… Que elas sempre estejam presentes no seu mundo! Se cuida tá! Lua, Fortaleza-CE – out2009

011- vc é especial, realmente quer e gosta de conhecer a alma feminina. faz de um tudo para compreender!!! Uma tarefa um tanto complicada,,,, Haja paciência!!! rs. Vânia Farah, São Paulo-SP – out2009

012- Quem tem medo da mulher livre?? O homem preso, oras (risos) Beijos ternurentos Tô adorando o livro…pena estar na correria e estar com tempo reduzido a zero…. mas logo termino… Beijos, outros. Clau Assi, São Paulo-SP – out2009

013- Ricardo, eu sou tua fã demais!!!! Vc é www.tudodebom.com.br/quehomeéesse!!!!! O sonho de consumo de toda mulher selvagem, incluindo eu mesma, claro! Bjs;. Karla K, Fortaleza-CE – out2009

014- Hoje tive oportunidade de entrar no seu blog, por indicação de uma amiga. Fizemos parte de um grupo de vivências apoiadas na leitura do Mulheres que correm com lobos e ela me recomendou a leitura da sua crônica Em busca da mulher selvagem. Fiquei encantada. Acabei lendo também os contos As fogueiras de Beltrane, que amei, Um ano na seca e a crônica Homens perfeitos também alopram. Interessante como você circula com competência rara entre o sagrado/mítico/profano/humor… Será com prazer que voltarei à sua página. Parabéns belos belos textos e por suas múltiplas artes. Elvira, Brasília-DF – out2009


Mulheres que correm com os lobos

Outubro 17, 2009

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Mulheres que correm com os lobos
Clarissa Pinkola Estés (Editora Rocco)

Os lobos foram pintados com um pincel negro nos contos de fada e até hoje assustam meninas indefesas. Mas nem sempre eles foram vistos como criaturas terríveis e violentas. Na Grécia antiga e em Roma, o animal era o consorte de Artemis, a caçadora, e carinhosamente amamentava os heróis. A analista junguiana Clarissa Pinkola Estés acredita que na nossa sociedade as mulheres vêm sendo tratadas de uma forma semelhante. Ao investigar o esmagamento da natureza instintiva feminina, Clarissa descobriu a chave da sensação de impotência da mulher moderna. Seu livro, Mulheres que correm com os lobos, ficou durante um ano na lista de mais vendidos nos Estados Unidos.

Abordando 19 mitos, lendas e contos de fada, como a história do patinho feio e do Barba-Azul, Estés mostra como a natureza instintiva da mulher foi sendo domesticada ao longo dos tempos, num processo que punia todas aquelas que se rebelavam. Segundo a analista, a exemplo das florestas virgens e dos animais silvestres, os instintos foram devastados e os ciclos naturais femininos transformados à força em ritmos artificiais para agradar aos outros. Mas sua energia vital, segundo ela, pode ser restaurada por escavações “psíquico-arqueológicas” nas ruínas do mundo subterrâneo. Até o ponto em que, emergindo das grossas camadas de condicionamento cultural, apareça a corajosa loba que vive em cada mulher.

(Sinopse extraída do site da Editora Rocco)

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RK COMENTA

Foi Marília quem me emprestou esse livro, em 2002, quando eu já andava curioso a seu respeito. Depois Rafaela me deu um de presente. E depois ganhei a versão digital. Ou seja, esse livro queria mesmo vir pra mim, e foram as mulheres que o trouxeram. Li e fiquei encantado. Nas páginas de Mulheres que correm com os lobos estava o que eu intuía sobre as mulheres e a relação entre os gêneros mas ainda não sabia verbalizar. O livro me chegou numa fase em que eu já lidava melhor com meus aspectos femininos e, por isso, me identifiquei profundamente com ele e com a histórica questão da domesticação da mulher.

Terminei a leitura sentindo em minha alma uma avalanche de ideias e sensações mas sentindo também que levaria um bom tempo até que tudo aquilo assentasse e eu conseguisse organizar meus pensamentos e reagrupar as verdades que, embora não fossem tão novas pra mim, agora eram obviamente, estupidamente claras. Através de mitos e lendas coletados em várias partes do mundo, a autora mostra como sobreviveu, mesmo escondida sob muitas formas simbólicas, o arquétipo do feminino selvagem, o modelo da mulher conectada com os ritmos e valores da Natureza e de sua própria natureza, o modelo da mulher livre. Um livro belíssimo, que tem ajudado muitas mulheres a resgatar o que séculos de repressão lhes usurparam: o direito de poderem ser o que quiserem. Um livro que fala essencialmente do feminino mas também fala de homens e deveria ser lido pelos dois. (Em busca da mulher selvagem)

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Ricardo Kelmer 2009 – blogdokelmer.wordpress.com

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> Para ler na íntegra a crônica Em busca da mulher selvagem

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EmBuscaDaMulherSelvagem-02base4bMais sobre liberdade e o feminino selvagem:

> A mulher selvagem - Ela anda enjaulada, é verdade. Mas continua viva na alma das mulheres
> A mulher livre e eu – A liberdade dessa mulher reluz no seu jeito de ser o que é – e ela é o que todas as outras dizem ou buscam ser, mas só dizem e buscam, enquanto ela tranquilamente… é
> Em busca da mulher selvagem – Era por ela que eu sempre me apaixonava, essa mulher que era quem ela mesma desejava ser e não a mulher que a família, religião e sociedade impunham que ela fosse
> Amor em liberdadeO que você ama no outro? A pessoa em si? Ou o fato dela ser sua propriedade? E como pode saber que ela é só sua?
> As fogueiras de Beltane
As fogueiras estão acesas, a filha da Deusa está pronta. O casamento sagrado vai começar

LIVROS

> Mulheres que correm com os lobos - Mitos e histórias do arquétipo da mulher selvagem (Clarissa Pinkola Estés -  Editora Rocco, 1994)
> A prostituta sagrada – A face eterna do feminino (Nancy Qualls-Corbert – Editora Paulus, 1990)
> As brumas de Avalon
- (Marion Zimmer Bradley – Editora Imago, 1979)


A revista que é um porre… de Literatura

Outubro 14, 2009

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Saiu a edição de estreia da revista do meu projeto Letra de Bar! Ela se chama Letra de Bar e será distribuída gratuitamente no circuito boêmio-cultural de São Paulo, com prioridade nos espaços parceiros do projeto. O desenho da capa da revista, que você vê aí encima, é do Hemetério, um dos grandes nomes do cartum nacional. Com esse porre de literatura, irc!, ele captou com perfeição o espírito do projeto.

É uma revista simples, com aquele ar de coisa alternativa, quase um fanzine. Ela tem oito páginas em tamanho 21×30cm, papel sulfite branco, e foi impressa em off-set com fotolito. A tiragem inicial é de dois mil exemplares. A revista Letra de Bar é voltada ao público médio, com informações rápidas e sem aprofundamentos, em tom descontraído, própria pra ser lida nos bares e nos ambientes corridos da cidade grande. O foco é no livro e em tudo que tá ligado ao mundo dos livros. O leitor saberá sobre livros e escritores famosos, conhecerá novos autores e gente que ama os livros e saberá de filmes e espetáculos relacionados a livros, escritores e literatura. ANUNCIOLetraDeBar-01a

Evidentemente que não pensamos em concorrer com as revistas das grandes redes de livrarias, como a Cultura e a Saraiva, pois nossa revista é um braço do projeto Letra de Bar e um dos objetivos do projeto, além de promover o gosto pela leitura e o amor pelos livros, é atuar junto aos novos autores, ajudando a divulgar seu trabalho.

Publicar um livro até que é fácil. Fazer um lançamento também. Mas e depois? Esperar que os leitores descubram e comprem o livro na livraria ou no site não é a melhor estratégia. Poisbem. Além de oferecer opções de editoras e bares culturais pro lançamento, o Letra de Bar oferece ao autor a oportunidade de manter seu livro em evidência através dos eventos literários promovidos pelo projeto, proporcionando aquele valioso contato pessoal entre escritores e leitores e oferecendo ao autor um canal de vendas permanente.

Se você é autor ou conhece um autor que poderia se interessar em participar, no blog do projeto há mais informações:

> letradebar.wordpress.com

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Ricardo Kelmer 2009 – blogdokelmer.wordpress.com

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Parceiros e anunciantes do Letra de Bar

Bar de Ontem – Celia Terpins Palestras e Espetáculos
Editora Baraúna – Escola Universo Colorido
- Sarau de Ontem
Gabriel Sousa Arquitetura – O Autor na Praça - Quintal Catering
Jornal da Praça Benedito Calixto – Sebo Alternativa


As Terráqueas caíram no Bardo

Outubro 7, 2009

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E as minhas Terráqueas, coitadas, seguem dando duro pra me sustentar, eu, gigolô de minhas próprias personagens. Agora elas darão o ar da graça no Bardo Batata, nos Jardins, onde o Proyecto Sur Paulista (das produtoras Dora Dimolitsas e Lucia Gonczy) e o Letra de Bar promoverão um lançamento do Vocês Terráqueas, junto com um show do falomenal Moacir Bedê Trio, com participação da cantora Silvia Nicolatto.

Como nessa noite estarei comemorando meu aniversário de 45 primaveras (mas o corpinho continua de 27…), aviso logo que não me responsabilizarei pelos meus atos. Isso significa que vai ser novamente aquele infame roteiro kelmérico, com agravantes: na segunda dose pegarei o microfone e falarei minhas velhas bobagens e gracinhas de sempre. Na quarta dose lerei umas crônicas picantes pra esquentar a piriquita da noite. Lá pela sexta dose, invadirei o show de meu amigo Zé di Bedis e, crente que tô arrasando, obrigarei o desgraçado a fazer comigo uns números musicais com poemas de Vinicius. Na oitava subirei na mesa e imitarei o Sidney Magal e na décima dose, alguém por favor chame os seguranças.

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Lançamento Vocês Terráqueas + show Moacir Bedê e banda

Lançamento do livro Vocês Terráqueas – Seduções e perdições do Feminino, com leituras de textos do livro pelo autor. Em seguida, show de Moacir Bedê e banda, que tocarão música instrumental brasileira, com participação da cantora Silvia Nicolatto e do escritor Ricardo Kelmer (poemas e músicas de Vinicius de Moraes). Realização: Proyecto Sur e Letra de Bar. Local:  Bardo Batata. Rua Bela Cintra, 1333, Jardins. Inf.: 3068.9852 e 3086.2111. Couvert artístico: R$ 10.

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Vocês Terráqueas
Seduções e perdições do Feminino

> Mais sobre o livro


Dois morros

Outubro 1, 2009

Quando o seio dela finalmente surgiu, meio à mostra na blusa entreaberta, minha mão vacilou. Ela então disse: Fecha os olhos

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doismorros01aMinha mão vacilou quando o seio dela surgiu, meio à mostra… Não, não, melhor começar pelo morro, o outro. Vamos lá. No início era o simples, o natural. Não era chique nem tinha futuro. No alto do morro só umas casinhas pequenas e um espaço de grama e areia, uns arbustos, um pé de pau acolá. Era 1984 e eu garoto fuçador de recantos descobria o mirante natural do Morro Santa Terezinha e subia lá pra tocar violão com os amigos, luarada, fogueirinha de papel, namorar…

A gente sentava na grama, o litrão de rum no centro da roda. Os namorados iam pro carro, mais afastado, economizar o motel. Quem se apertava fazia xixi na ribanceira. Ir aonde ninguém havia ido, era excitante. Sem medo de assalto, sem pensar no tempo, a vida era agora.

Um dia, agora sim, um dia os seios dela surgiram. Aonde você tá me levando?, Isabella perguntou provocante. O fusca véi subia o morro, se peidando todo, serpenteando pelas ruazinhas, as casinhas simples, o povo na calçada, o charme suburbano. Pro céu, minha linda… Não, falei isso não, só tive vontade. Mas na última curva pedi: Fecha o olho. Quando ela abriu, era o postal noturno da cidade, encima o céu piscante de estrelas e lá embaixo os prédios, as luzes, o neon dos letreiros coloridos. Ela boba: Como você descobriu isso? Eu mais bobo: E você, como eu descobri você?

Aí a tiazinha botou umas cervejas em sua geladeira, uns refrigerantes. A gente ia lá na casinha dela e batia palma. Ela levantava do sofá onde via tevê e, sonolenta, trazia uma cerva e uns copinhos. Quanto é, tia? É só tanto. Tem mais gelada não? Tem não, meu fi, a geladeira tá desmantelada. A gente pagava e ela dizia: Pode deixar os cascos lá que depois eu pego. E aconselhava as meninas: Quando vier de novo, fia, traz um agasalho, mode o vento frio.

Um dia a cerveja veio com isopor. Estava melhorando. Outra noite cheguei lá e tomei um susto: a tia espalhara umas mesinhas, umas cadeiras de reclinar. Mode as menina não sujar o vestido, né, meu fi? Aí o vizinho começou a vender cerveja também. Já dava pra escolher se ficava na tia ou no tio, que chique. Depois já dava pra tomar caipirinha, beliscar um peixinho frito com tomate e cebola. O movimento aumentou e a filharada da tia veio ajudar. O mirante lotava, às vezes nem lugar pra sentar, um imenso bar ao ar livre, gente interessante, sempre aparecia um violão, um Pink Floyd no toca-fita… Tudo ainda simples e delicioso. O tempo ainda era agora.

Perdida entre beijos incontidos e abraços descontrolados, minha mão percorreu as curvas do copo dela, serpenteando, errando aqui, acertando mais na frente. Quando o seio dela finalmente surgiu, meio à mostra na blusa entreaberta, minha mão vacilou. Ela então disse: Fecha os olhos. Quando abri, a paisagem nua de seus seios reluzia à minha frente, dois morros a conquistar. E lá fui eu, garoto fuçador de recantos, legítimo ocupador do morro.

Nos anos 90 aos moradores venderam suas casas pros empresários, tudo de olho no bolo que crescia. Todo mês abria bar, pastelaria, restaurante. Virou chique subir o morro. Gente bacana bem vestida, turista tirando foto. Música ao vivo, restaurante limpinho, artesanato, peixe na telha. O progresso invadiu o morro com alvará. Mas… havia algo estranho. Pescadores e rendeiras agora eram comerciantes. Não havia lugar pra tanto automóvel. O barulho incomodava os moradores. Menina nova alugava o corpo magrinho nas quebradas da noite. Garoto trazia cocaína pro motorista. E a tal da urbanização asfaltou as ruazinhas e jogou uma praça feia por cima da grama.

Reivindicando seu pedaço do bolo, a violência também subiu o morro, claro. Roubos, assaltos, mortes. Os empresários resistiram, se organizaram, clamaram por segurança. Mas ela, mouca, não escutou. E assim a gente bacana desceu o morro e não voltou mais. O bolo murchou. E o futuro se foi, deixando o gosto bom do que devia ter ficado só no agora.

O morro não é mais chique, Isabella, mas ainda está lá. E eu queria que você soubesse que aquela noite também, continua no mesmo lugar, sem amanhecer, seus seios em minhas mãos, dois morros conquistados, eu turista já pensando em voltar. Tudo está lá ainda, meu nome gemido em sua boca, eu errando e acertando as ruas de seu corpo, indo aonde ninguém fora. Nossa história ainda se conta lá encima, na grama, suburbana, pegando cerveja na tiazinha. Nossa história, juvenil, desmantelada e urgente, mode a hora. Com tomate e cebola. No mirante perfeito do nós dois agora.

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Ricardo Kelmer 2004 – blogdokelmer.wordpress.com

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Este e outros textos você encontra no livro Blues da Vida Crônica
Este e outros textos você encontra no livro Vocês Terráqueas

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Comentarios01

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COMENTÁRIOS

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01- Parabéns pelo texto DOIS MORROS, ele é de uma beleza e singularidade fantástica. Li com muito cuidado para encontrar as suas nuances de poesia e de realidade. Confesso ter achado simplismente belo, real, nu e cru, porém belo. P.S.: A partir desta descoberta prometo procurar outros textos teus para que através dele venha deliciar-me com tuas letras e com teu estilo. FS Garcia, Fortaleza-CE – ago2008



Iassim vamos – Alberico Rodrigues

Setembro 26, 2009

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Conheci o Espaço Cultural Alberico Rodrigues em jul2009. Fica em Pinheiros, vizinho à praça Benedito Calixto. O espaço é uma concretização dos sonhos e ideais de seu proprietário, o professor Alberico, ou Alberix, como eu gosto de chamá-lo. Após sair do interior da Bahia e rodar mundo estudando e dando aulas de literatura, Alberix entendeu que deveria por sua experiência a serviço da cultura de seu país. Foi com esse nobre ideal que em 1988 ele montou seu espaço, que hoje é referência cultural na capital paulista.

Cheguei por lá atraído pelo canto das sereias, acho que as mesmas que me atraíram quando pequeno e me levaram a ser escritor. Entrei e logo gostei do que vi: uma livraria de livros novos e usados, mais à frente uma loja de CDs e DVDs e aos fundos um café-bar. No primeiro andar um teatro de bolso para 60 pessoas. E uma deliciosa área externa onde se pode sentar à mesa e comer e beber com os amigos e ficar olhando o movimento da praça em frente, honrosamente acompanhado dos bustos de Machado e Camões. Diliça.

Pra minha sorte, Alberix gostou de mim e do meu trabalho. E recebeu de braços abertos as minhas kelmerices. Foi lá, por exemplo, em agosto, que estreamos o Viniciarte, espetáculo que criei sobre Vinicius de Moraes e que foi o primeiro evento realizado pelo meu projeto Letra de Bar. Aliás, o Viniciarte seguirá lá em cartaz uma vez por mês. E foi lá também que, em setembro, lancei meu livro Vocês Terráqueas, que, pra minha honra, Alberix gostou bastante e logo pôs à venda na livraria. Valeu, Alberix. Acho que juntos poderemos fazer muitas coisas boas.AlbericoRodrigues-01b

Sobre o Vocês Terráqueas, ainda farei lançamentos em outros bares, dentro do projeto Letra de Bar. E sobre o Viniciarte, Celia Terpins segue vendendo-o pra empresas, clubes e hotéis. Ela gostou muito do espetáculo e acredita que podemos até viajar com ele por outras cidades. Então, se você curte Vinicius de Moraes, quital levar o espetáculo pra sua cidade, hum? Aproveita que o precinho tá bom.

E sobre o Letra de Bar, em outubro será lançado o primeiro número da revista impressa, que terá edições bimestrais e será distribuída gratuitamente no circuito boêmio-cultural da cidade de São Paulo. O projeto divulgará o que estiver relacionado ao mundo dos livros: novos autores, livrarias, editoras, gráficas, empresas e profissionais da área e também filmes e espetáculos baseados em livros, além de entrevistas.

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Corta pro apê da Paulete. Paulete Hetê. Ela prepara aquele capuccino que só ela sabe fazer enquanto eu, no noutibuk dela, reviso o roteiro do Viniciarte. Em algum lugar toca um blues. Paulete me serve o capuccino e depois vai fazer alongamento na sala. Seu corpo nu se integra à paisagem da pauliceia lá fora na janela. Ou será o contrário?

- Pô, Paulete, assim eu não consigo trabalhar.

- Vinicius conseguia.

- Eu não sou Vinicius.

- Não é mas tá cada vez mais vivendo como ele. Amores, literatura, música, poesia, bares, viagens…

- Pensando bem, é verdade.

- E ainda monta um espetáculo sobre ele.

- O poetinha sempre foi meu guia, você sabe.

- Você também deixará de ser escritor pra ser artista?

- Sempre fui as duas coisas. Não pode?

- Escritor e artista. E agora produtor cultural. E editor de jornal. E palestrante. E professor de roteiro. Que horas você vai escrever livro?PauleteHete-106a

- Posso escrever antes de dormir.

- Você nem dorme mais. Já viu como tá tua cara? Vai assustar as leitorinhas.

- Em breve eu diminuo o ritmo de trabalho e…

- Ahahahah! Comigo ninguém diminui o ritmo, Rica querido. Você entrou na pista, agora tem que correr senão é atropelado.

- Não quero correr. Quero celebrar.

- Um Vinicius cearense pra eu sustentar. Eu mereço.

- Agora pára de me exibir a bunda que eu tenho que trabalhar, vai.

- Que o poetinha não escute essa heresia.

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Ricardo Kelmer 2009 – blogdokelmer.wordpress.com


Homens perfeitos também alopram

Setembro 21, 2009

O homem beijou a mão da moça, abraçou a moça, beijou no rosto, beijou mais, beijou mais ainda, depois abraçou mais forte, deu uma encoxada federal, dobrou a moça no meio

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RichardGereEShilpaShetty01Meu xará Richard Gere é mesmo um partidão. Bonito, charmoso, classudo, sexy, culto, inteligente, bom ator, rico, antenado com causas humanitárias, amigão do Dalai Lama… Putz, que mais um terráqueo poderia ser? Não é à toa que tanta mulher sonha com ele.

Tive uma namorada que era absolutamente alucinada por este cidadão. Ela tinha uma pasta com tudo sobre ele, fotos, matérias, entrevistas… A danada tinha até a corda do banjo que ele tocava nos tempos do ginásio, nem sei como conseguiu. Durante meses, por causa desse namoro, eu fui ao banheiro com o bonitão lá me observando das paredes, ele e aquele seu olhar doce-safado, que as mulheres adoooooram.

Mas até mesmo um cara perfeito como Richard Gere pisa na bola. Você certamente se lembra. Em 2007 ele simplesmente não se aguentou nas calças diante da beleza de Shilpa Shetty, a atriz indiana vencedora do Big Brother da Inglaterra. Num evento na Índia, mostrado pela tevê pro mundo inteiro, ele foi parabenizá-la e, de repente, pufff, bateu o neandertal tarado que vive em nós homens do sexo masculino. E aí o todo-cavalheiro Richard não ficou só nos parabéns…

O homem beijou a mão da moça, abraçou a moça, beijou no rosto, beijou mais, beijou mais ainda, depois abraçou mais forte, deu uma encoxada federal, dobrou a moça no meio, mordeu a orelha dela, engoliu o brinco, tudo isso sem parar de beijar, os dois quase caem no chão… Quase que Richard gera um indianozinho ali mesmo. Ele devia estar à procura de Mr. Goodbar no cangote da moça, só pode. Depois o Lancelote da Filadelfia ainda genuflexou-se e fez umas reverências à donzela. A indiana, realmente uma linda mulher, tomou um susto – mas tava na cara que ela tava amaaaaando. Depois deve ter sonhado com isso durante semanas. Você também sonharia, né, leitorinha?

Poizé. Mas pelas leis indianas, lá esses atos carinhosos em público têm limite, e muito limite. Resultado: o ainda enxuto gigolô americano teve decretada uma ordem de prisão contra ele na Índia, se pisasse lá de novo iria em cana. Sem perdão. Olha que mancha terrível no currículo do nosso Lancelote… E a indiana teve que prestar esclarecimentos sobre por que não impediu que Richard fizesse o que fez. Ahahahah! Depois o Brasil é um país machista. E mesmo que a moça quisesse, seu dotô, ela ia fazer o quê, o homem parecia um polvo alucinado!!!

Mas a força do destino sempre protege os homens perfeitos. Pro bem do currículo do meu xará, a justiça da Índia revogou a ordem de prisão. Deve ter sido influenciada pelos gritos de revolta das fãs indianas. Agora ele pode voltar lá, êba! E rever a bela Shilpa, êêêba! Dá-lhe Shilpa!!!

Aliás, a Shilpa é uma terráquea bem mimosa. E ainda tem esse nome assim, ahn, assim meio estiloso, né? E nomes estilosos como esse atraem coisas estranhas mesmo. Quer ver? Tem alguém perto de você agora, leitorinha? Tem? Então pronuncie o nome dessa moça em voz alta, três vezes: Shilpa, Shilpa, Shilpa. E veja o que acontece.

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Ricardo Kelmer 2008 – blogdokelmer.wordpress.com

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Veja o vídeo

O homem beijou a mão da moça, abraçou a moça, beijou no rosto, beijou mais, beijou mais ainda, depois abraçou mais forte, deu uma encoxada federal, dobrou a moça no meio

Don Juan DeMarco baixa em Pinheiros

Setembro 16, 2009

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Cinema, Tela da Alma é uma série de palestras que faço usando filmes pra mostrar como a força e o encantamento do cinema são capazes de nos tocar profundamente a alma e nos instigar a viver a vida de modo mais verdadeiro. Sempre em linguagem acessível e de forma descontraída, essas palestras nos fazem ver os filmes por um olhar mitológico e psicológico, refletindo na tela as nossas próprias vidas, os nossos sonhos, os medos e anseios e a velha busca pela nossa essência mais legítima, que o corre-corre do cotidiano tão bem nos faz esquecer.

A primeira palestra deste ciclo atual será Razão e Sentimento em Conflito. Trata-se de uma abordagem bem humorada do filme Don JuanDeMarco, mostrando como os personagens principais, o jovem Don Juan e seu psiquiatra, representam o velho conflito entre intelecto (a visão fria e racional da vida) e coração (a poesia e o romantismo). Outros aspectos analisados: estrutura do roteiro e fotografia.

Outros filmes que integram o ciclo de palestras Cinema Tela da Alma: Matrix, Caçador de Andróides (Blade Runner), Piaf, Uma Mente Brilhante, Encontro Marcado e Alucinações do Passado.

Horários
18h30: exibição do filme
20h: intervalo para o café
20h15: palestra
21h30: encerramento

Local:  Espaço Cultural Alberico Rodrigues
Praça Benedito Calixto, 159 – Pinheiros (estacionamento na praça)
Inf.: 3064.3920 e 3064.9737
Investimento: R$ 10

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Ricardo Kelmer 2009 – blogdokelmer.wordpress.com

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> Crônica Razão e sentimento em conflito
> Palestras de RK


Razão e sentimento em conflito

Setembro 16, 2009

Razão e sentimento são funções psicológicas que auxiliam o ego a lidar com a realidade. Porém, quando o ego se apega demasiadamente a uma delas, ocorre o desequilíbrio psíquico

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RazaoESentimentoEmConflito-02O filme Don Juan DeMarco é mesmo maravilhoso. Sua história é boa e divertida, o roteiro perfeito, os atores estão muito bem e a trilha sonora é linda. As mulheres suspiram com o romantismo da trama, a poesia das imagens, a vitória do amor. É um filme que traz bons temas para discussão, como o donjuanismo e a dificuldade da ciência médica de lidar com o que ela diagnostica como loucura. No entanto, em minha palestra Razão e Sentimento em Conflito, uso o filme para falar de outro tema: o conflito entre intelecto e coração.

Não é à toa que esta palestra é muito solicitada por empresas. Cada vez mais elas percebem a urgente necessidade de terem funcionários psicologicamente equilibrados. O motivo é óbvio: pessoas harmonizadas consigo mesmas aprendem melhor, produzem melhor e vivem melhor. Investir na saúde de seus funcionários, física e psicológica, é um excelente investimento para qualquer empresa.

Em Don Juan DeMarco temos dois personagens em conflito: o psiquiatra renomado e o jovem problemático. O psiquiatra tem sua vida inteiramente regida pela lógica científica, ele é racional ao extremo, sempre frio em suas conclusões. O jovem é o oposto: sua vida é puro sentimento e emoção e ele só enxerga a vida pelas lentes da poesia, da aventura e do amor. Qual dos dois está certo?

Os dois estão errados. A prova disso são suas próprias vidas: o médico está cansado e desestimulado e seu casamento perdeu a paixão. E o jovem, frustrado por um amor não correspondido, desistiu de viver. Ambos perderam a vitalidade, o tesão pela vida. O motivo: eles esgotaram as possibilidades que razão e sentimento, sozinhas, têm para oferecer.

Razão e sentimento são funções psicológicas que auxiliam o ego a lidar com a realidade. Porém, quando o ego se apega demasiadamente a uma delas, ocorre o desequilíbrio psíquico e surgem os insucessos em vários aspectos da vida. A razão sempre busca entender a realidade pela ótica do intelecto, que é incapaz de abarcar toda a complexidade da vida. A razão não quer exatamente ser feliz: ela quer ter razão, sempre. Certamente você conhece alguém assim, que só admite a lógica racional para explicar a tudo. E o sentimento entende a realidade pela ótica da sensibilidade emotiva, o que também é insuficiente para lidar com a grandeza da vida. Muitas pessoas agem assim, achando que a pureza de seus sentimentos a tudo resolverá.

Em algum momento da vida o crescimento psíquico exigirá do ego o equilíbrio dessas funções. Se seguir a diretriz autocurativa de sua própria psique, a pessoa saberá conciliar razão e sentimento e sairá do conflito renovada. Passará a se relacionar com a vida usando as duas funções de modo equilibrado e consciente, sabendo reconhecer as ocasiões em que deve usar mais intelecto ou mais coração.

Tanto nos relacionamentos com a família, com amigos ou num casamento, como também no dia-a-dia profissional, esse equilíbrio psíquico é fundamental. Assim como o psiquiatra frio e o jovem romântico tiveram que entrar em intenso conflito antes de integrarem em si o que lhes faltava, às vezes é preciso chegarmos a um ponto crucial de desequilíbrio interno, que causa o desequilíbrio externo, e afundar na crise para, somente assim, reconhecer e integrar o que nos falta e sermos mais inteiros e harmonizados com nós mesmos, com os outros e com o mundo em volta.

Portanto, é bom ficar atento. Se a vida parece ter chegado a um ponto insustentável e viver de repente tornou-se uma sucessão de dias sem sentido, talvez esteja na hora de aceitar o outro lado que até agora negamos em nossa própria alma, mesmo que, a princípio, esse outro lado pareça limitado ou ingênuo. Ou louco demais.

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Ricardo Kelmer 2007 – blogdokelmer.wordpress.com

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DonJuanDeMarco-01Don Juan DeMarco
(Don Juan DeMarco, EUA, 1995)

Argumento e direção: Jeremy Leven
Elenco: Johnny Depp, Marlon Brando, Rachel Ticotinn, Bob Dishy e Geraldine Pailhas

Um renomado psiquiatra prestes a se aposentar aceita, num último desafio à sua brilhante carreira, cuidar do rapaz que diz ser a reencarnação de Don Juan, o maior amante da História. Ele tenta trazê-lo de volta à realidade mas o caso foge de seu controle e ele percebe que ali, naquele estranho mundo de fantasia, romances e aventuras, pode estar o segredo para transformar sua própria vida, seu casamento e até sua noção de realidade.

> Palestras de RK


Kelmer no Toma Lá Dá Cá

Setembro 12, 2009

Aqueles aloprados moradores do condomínio Jambalaya descobriram meu livro

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KelmerMorcegoLivro-20Você alguma vez já se sentiu como se o mundo estivesse de cabeça pra baixo?

Foi pensando nisso que um dia decidi estudar os morcegos, que, como todo mundo sabe, veem o mundo de cabeça pra baixo e nunca ficam tontos. Os morcegos estão neste planeta há 50 milhões de anos e são os únicos mamíferos que voam – além da Mulher Maravilha, é claro. Passei anos morando em cavernas, observando os morcegos e extraindo deles importantes aprendizados pra nossa vida, inclusive, sim!, pra vida sexual.

Mas o que tudo isso tem a ver com você no Toma Lá Dá Cá da Globo, Kelmer? Calma, vou chegar lá.

O resultado dessas pesquisas tá em meu livro Socorro! Eu sou um morcego e o mundo está de cabeça para baixo! Ele mostra que podemos aprender muito com os morcegos e seu superdesenvolvido senso de equilíbrio e programação espacial. Uma obra que não pode faltar em sua estante, desde que ela seja bem resistente pois o livro tem 1710 páginas e acompanha um lindo e mimoso morcego empalhado de brinde. Uma editora húngara teve a coragem de publicá-lo em 1993 e assinei com o nome de Kelmer Cönka (pronuncia-se concá). Isso tudo bem antes do Chico Buarque escrever Budapeste, viu?

Praticando a reprogramação no metrô

Praticando a reprogramação no metrô

Morcegos dormem de ponta-cabeça. E também copulam e parem filhotes e veem os gols da rodada assim porque essa posição mostrou ser uma boa vantagem adaptativa, principalmente pra voar: basta soltar-se da pedra ou do galho, bater as asas e aproveitar a força da gravidade pra obter rapidamente boa velocidade. Isso pode nos ensinar, a nós humanos, sobre como superar crises: se nos pendurarmos de cabeça pra baixo, as ideias se soltarão mais facilmente rumo à saída do problema. Funciona. O chato é que nessa posição as moedas caem do bolso mais facilmente também.

Em relação a parir filhos de cabeça pra baixo, no interior da China esse método é aplicado há séculos. O sangue das mamães chinesas desce pra cabeça e elas ficam bem coradinhas, podendo tirar foto logo após o parto com aquela cara de quem acabou de voltar das férias em Jericoacoara. E a vantagem dessa posição pros bebês é que eles já nascem campeões de ping-pong. Não sei o que uma coisa tem a ver com a outra mas se você olhar a classificação dos mundiais de ping-pong, só dá chinês, é um horror.

E quanto a transar de cabeça pra baixo, essa prática proporciona grandes benefícios pra circulação sanguínea, além de permitir que o casal discuta a relação numa nova perspectiva. Homens detestam discutir a relação de cabeça pra baixo, eu sei, mas assim pelo menos os desgraçados não dormem.

Invertendo a ótica do problema

Invertendo a ótica do problema - exercícios pra fazer em casa

O livro foi um fiasco, vendeu apenas dois exemplares, ambos comprados por um bofe americano chamado Bruce Wayne, que pediu dedicatória no segundo exemplar pra seu amigo Dick. Não sei mas algo me diz que o motivo do fracasso foi porque o livro ficava de cabeça pra baixo nas livrarias. E eu? Eu doei os direitos do livro pra Sociedade Protetora dos Morcegos Sem Pernas (tadinhos, eles dormem deitados) e no ano seguinte montei uma banda de rock, que tinha uma tiete chamada Beatriz que me pirou o cabeção e, aí sim, meu mundo ficou de ponta-cabeça. Mas isso é outra história.

Eis, porém, que no episódio de 08.09.09 do sitcom da Globo Toma Lá Dá Cá, aqueles aloprados moradores do condomínio Jambalaya descobriram meu livro. Putz, fiquei muito surpreso. Arnaldo leu (ele sabe húngaro?) e virou um novo homem, seguindo as lições de reprogramação dos morcegos pra organizar melhor sua vida. Rita também gostou. E Copélia… Ai, Copélia… Bem, eu não pretendia tornar público o nosso passado caliente mas, agora que todo mundo já sabe, resta-me agradecer-lhe mais uma vez pela paciência de aguentar minhas pesquisas e meus morcegos. Aliás, cá pra nós, Copélia pode até ser extravagante e sem juízo mas uma coisa eu garanto: ela é o tipo de mulher que dá certo até de cabeça pra baixo. E como dá.

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Ricardo Kelmer 2009 – blogdokelmer.wordpress.com

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> Veja o vídeo Kelmer no Toma Lá Dá Cá
Busque o episódio “Álvara é um show” e veja o vídeo 3
(Dona Álvara faz lançamento de seu DVD no Jambalaya)

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Um ano na seca (04) Sonja

Setembro 10, 2009

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Sonja – Soprando forte

Onde eu parei mesmo? Ah, sim, a Sonja. Poizentão. Eu havia contado pra um camarada sobre minha trágica situação e ele, compadecido, combinou que me apresentaria a uma ninfeta deveras generosa chamada Sonja. O nome dela é esse mesmo?, perguntei. Não, não era. Era nome de guerra. Ah, tá. Sonja, a guerreira.

Mas do jeito que eu tava a perigo, ela é quem teria que se defender.

Marcamos pra uma quinta-feira, lá mesmo em meu apartamento em Botafogo. Na hora marcada meu amigo chegou, devidamente acompanhado da ninfeta. Ele nos apresentou, fazendo umas piadinhas que me deixaram meio sem jeito. E ela pelo jeito já devia estar acostumada. Sentei na poltrona e eles no sofá. Botei um Led Zeppelin pra gente escutar mas acho que ela não curtiu muito, fazia o tipo mais ripirrope. Servi domecq mas ela não bebeu, Sonja não bebia. Logo depois meu amigo foi embora, me deixando a sós com a ninfeta. Eu tava meio nervoso mas ela tava na dela, tranquila, me olhando com aqueles olhos grandes e verdes que ela tinha.

Lá pelas tantas achei que já tava bom de lero-lero: peguei Sonja pela mão e levei pra sacada pra gente ver o Cristo iluminado. Enquanto ela olhava eu não me aguentei mais nas calças e, bufo!, derrubei-a no chão, que nem um homem das cavernas alucinado. E comecei a soprar dentro dela. Nunca em toda a minha vida eu tinha feito aquilo, juro. Soprei durante meia hora e no final eu tava caído no chão, botando os bofes pra fora, parecia que havia corrido uma maratona. Em compensação Sonja tava bem cheinha. Meu amigo tinha razão: ela era bem fornida. Peituda e bunduda do jeito que homem do sexo masculino gosta.

Meu amigo me garantira que ela tava bem limpinha, ele a havia lavado no dia anterior. Mas achei melhor garantir e dei um bom banho na Sonja, com detergente e água sanitária, até botei um rexona no sovaco dela. De volta à sacada, nos encostamos na grade e enquanto eu bulinava sua bunda, recitei uns poemas do Vinicius pra fazer um clima assim meio romântico, de tudo ao meu amor serei atento. Olhei pra Sonja e ele tava de boca aberta, os olhos arregalados, certamente enternecida com meu esforço por agradá-la. Ela não me disse mas senti que meu amigo, com ela, não valorizava muito as preliminares. Homens…

Então os sete meses sem sexo gritaram dentro de mim e perguntei se ela queria ir pro meu quarto ou se preferia fazer ali mesmo. Você escolhe, Ricardinho… Acho que ela falou isso, não lembro bem. É que eu já tinha tomado metade do domecq e quando chego nesse ponto, dou pra ouvir coisas, ver gente morta, é um horror. Então eu escolhi o lugar, e escolhi ali mesmo, na sacada, sacomué, sempre fui chegado em sexo em locais inusitados. Foi quando Sonja falou, maliciosa: Locais inusitados assim tipo o meu cu, né, fofo?

Nesse exato instante eu me apaixonei. Quem não se apaixonaria?

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(Continua. Desde que você vote no Blog do Kelmer pro Prêmio BlogBooks. As votações vão até 18set2009. É só clicar aqui.)

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Ricardo Kelmer 2007-2008 – blogdokelmer.wordpress.com

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>> COMENTÁRIOS

01- É. Eu não fazia idéia mesmo, fico sempre lhe subestimando e nunca acho que você vai se superar na continuação da saga de secura de 1 ano. E deve ser por isso mesmo que tomarei um remedinho pra cólicas daqui a pouquinho. Vai matar outro de rir, Kelmer, aliás, Ricardinho! (falei isso com a boca aberta e olhos arregalados, enternecidos…kkk) – Rafaela, Campina Grande-PB

02. Vc sabe tudo… e a Sonja também… INCRIVEL…”catártico” Ô Ricardooooo Termina essa estória pelamordeDeus…rsrsr… – Cristina Rodrigues, Santos-SP


Recaídas da paixão

Setembro 6, 2009

No dia seguinte, após uma noite sem fim de comemorações, você acorda. Abre o olho e ela está ao seu lado, bem juntinho, linda e sorridente

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RecaidasDaPaixao-02Não lembro exatamente como começou nosso caso. Talvez tenha sido quando meus olhos de criança viram pela primeira vez aquelas camisas entrando em campo. Meu padrinho me levara ao estádio, era decisão de campeonato, a cidade toda no clima do jogo. Aquele estádio imenso, o gramado verdinho, a festa das torcidas, a emoção à flor da pele – eu descobrira um mundo encantado. Infelizmente meu time perdeu mas eu já estava fisgado: voltei para casa com uma tristeza de adulto, a primeira dor de cotovelo. E na alma levava uma coisa nova, uma paixão vibrante, um sentido a mais a me acompanhar na longa e estranha viagem da vida.

Tem gente que morre e não entende uma paixão assim. Mas paixão nunca foi para se entender. Tem quem veja futebol como doença. Mas doença é viver sem paixão. Tem mulher que quando seu homem sai para o estádio, ela se sente trocada por onze marmanjos. Nada a ver, Beth, são coisas incomparáveis, entenda… Felizmente tem mulher que entende. Tem até as que também vivem a sua paixão. Quando é pelo time rival, putz, é um problema: dia de clássico é dia de briga, pode apostar. Mas quando o casal torce pelo mesmo time, ah, que suprema compatibilidade! Sabe lá o que é se vestir junto para ir ao estádio, escutar agarradinho o CD com os gols da campanha vitoriosa, o hino do clube, ver os gols da rodada no motel… Que romântico!

Em nome da paixão a gente faz de um tudo, você sabe, né? Um amigo meu namorava uma garota que detestava futebol. Um dia, cansada de se sentir trocada, ela deu-lhe as contas e foi embora. Meu amigo, desesperado, foi atrás. Ela relutou mas aceitou voltar, com uma condição: ele deveria ser menos fanático por futebol. Sim, claro, meu amor – ele concordou, aliviado. Na semana seguinte ela apareceu com dois ingressos para o teatro. Uma peça bem romântica para comemorar nossa volta – disse ela. Quando ele viu a data, não acreditou. Seria no mesmo dia e hora de um jogão decisivo. E agora, como fazer? O amigo apelou: foi ao teatro mas levou um radinho escondido na calça e acompanhou o jogo pelo fone de ouvido, torcendo e suando loucamente em silêncio, sentadinho, comedido, que tortura. Tudo para satisfazer dois amores geniosos.

- Tá gostando do balé, amor?

- Claro, meu bem. Impedimento!

- Heim?

- Impedimento. Nada será impedimento pro nosso amor…

Às vezes essa paixão faz da vida um inferno: time ruim, gols perdidos, derrotas para o maior rival. Terrível! Além da dor, ainda tem que aguentar a gozação. Há quem exagere e até agrida e mate por conta disso. Aí sim é doença. Por outro lado, quando o time está bem, vence todas e é campeão, ah, a vida se transforma num sonho maravilhoso, tudo melhora e até acordar cedo para trabalhar é gostoso, acredite. Nesses momentos somem as dívidas do cartão, desaparecem inquietações existenciais e até os programas evangélicos da madrugada ficam bons de ver.

Como todo romance, tem também as brigas, claro. Às vezes você passa anos distante, desinteressado, magoado. Quer nem ouvir falar. Mas um dia você decide ir ao jogo, é dia de clássico. Manda lavar a velha camisa e liga para os amigos. Chega ao estádio e aos poucos retornam detalhes esquecidos de um antigo ritual: as bandeiras feito estandartes, as batucadas, o grito de guerra, a cervejinha antes de subir, nada mudou. O time entra em campo e você levanta para aplaudir, a torcida rival vaia, o coração aperta, pede mais uma cerveja – a velha magia está de volta. No intervalo desce para o banheiro e discute o pênalti não marcado. Depois é o segundo tempo, o nervosismo crescente, o impedimento escandaloso, o gol que não sai. Lá está você esfregando as mãos, suando, mordendo todas as unhas, torcendo, torcendo e de repente… gooooooooool!!! Pronto, você vira ninguém no turbilhão da alegria. Atira longe o chinelo e beija o vendedor de amendoim. Paga cerveja para todo mundo. Que bonito as bandeiras tremulando, a torcida delirando, vendo a rede balançar…

No dia seguinte, após uma noite sem fim de comemorações, você acorda. Abre o olho e ela está ao seu lado, bem juntinho, linda e sorridente, toda carinhosa, pedindo para ser tocada mais uma vez, a camisa do seu time. Você sorri de volta, beija a camisa, se ajeita sob o lençol e fecha os olhos, buscando novamente aquele sonho gostoso onde o centro-avante dribla dois e toca na saída do goleiro.

Mas não era você quem dizia que vocês dois não tinham mais nada a ver? – prepare-se que alguém vai perguntar. Pois não tente explicar, colega. Paixão antiga é assim mesmo, não tem explicação. Um dia ela reaparece, mais bonita e desejável que nunca, e você se vê na marca do pênalti. Aí só tem um jeito: é tocar com firmeza e correr para o abraço.

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Ricardo Kelmer 2004 – blogdokelmer.wordpress.com

Este e outros textos você encontra no livro A Arte Zen de Tanger Caranguejos

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Lolita, Lolita

Setembro 3, 2009

A calcinha desce suave pelas coxas finas, beija os joelhos, pousa nos pezinhos… Engulo seco. Diante de mim a luz dos meus dias, fogo em minha alma

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LolitaLolita-03A cena sempre me extasia, sua língua faceira saltando três vezes… Olho em silêncio enquanto ela lambe o papel, fecha o baseado e acende, segurando na ponta de seus dedinhos finos. Ela puxa a fumaça devagar, os olhinhos fechados, tão linda… E eu amo sua boca enquanto ela solta a fumaça. A boca. Que ela sempre esquece entreaberta, na medida exata, meio dedo, ela faz de propósito, sabe que não resisto. O que essas colegiais andam aprendendo no intervalo do recreio?

Vai, fuma, minha amiga quem me deu, você vai gostar. Hoje não, meu anjo, obrigado. Ah, é?, então eu não faço aquilo. Então cumpro minha parte no trato, dou uma tragadinha, o suficiente para que a doce chantagista se satisfaça. Ela me mostra a língua, me chama de velho careta. Entendam, quero sóbrios os meus sentidos, para depois passar todas as imagens, uma por uma, e recordar… e recordar… até que seja novamente terça-feira.

Trancada a porta da suíte. Cerradas as cortinas. Os pequenos cuidados de sempre. Mas as cortinas, eu sei, ela depois abrirá para olhar a cidade, ela e seu prazer de me desobedecer. E eu paciente a puxarei para dentro, perigoso ficar na sacada, meu anjinho, eu já disse, principalmente assim de calcinha. Ela protestará, claro: Seu chato, parece meu pai! E citará probabilidades, uma chance em mil de alguém reconhecê-la ali no vigésimo andar. Mas vocês hão de convir, já foi sorte demais encontrá-la, não tenho mais idade para abusar do destino.

No frigobar ela se diverte: iogurtes, suquinhos e chocolates que devora e guarda na mochila, levará para a amiga. Na TV, pára nos clipes musicais, essas bandas modernas com nomes estranhos e garotos idiotas que ela adora. Ela zomba do meu ciúme cantarolando em seu inglês vacilante, o que me faz lembrar de seu curso, justamente onde ela deveria estar agora. Mas vocês vão entender, as terças são minhas.

Ela vem para a cama, lânguida e relaxada. Tira minha camisa e brinca com os pelos brancos do meu peito, me aperta as sobras da barriga. Com meus suspensórios brinca de me chicotear, rindo como fosse a coisa mais engraçada do mundo. Depois salta da cama: Me dispa, escravo, é uma ordem. Sim, minha princesa.

Fico na ponta da cama, ela à minha frente. Tiro seu uniforme com cuidado, da outra vez rasguei a saia. Desabotoo a camisa e os seios pequenos me olham. Pergunto se estão com saudade e ela os move para cima e para baixo: Sim, estamos… E outra vez morre de rir. As meias brancas mantenho no lugar, quase no joelho, gosto assim. A fita no cabelo também. Ela ergue a saia plissada e surge a calcinha, hoje é azul claro, combina com a tarde. A vontade é de arrancá-la, me controlo, o coração quer sair do peito. A calcinha desce suave pelas coxas finas, beija os joelhos, pousa nos pezinhos… Engulo seco. Diante de mim a luz dos meus dias, fogo em minha alma.

É nas curvas de seu corpo quase infantil que eu me desgoverno: tento dirigi-la mas ela faz o que tem vontade e minhas juntas sofrem para segui-la. Ela geme sob o peso de meu corpo, dança sobre ele, senta em meu rosto, vira de costas, sim, sou tua Lolita, para sempre, sim… Lembro do trato e ela cumpre a promessa, bebendo-me até a última gota, adora observar minhas reações. Depois, na telinha da máquina, ela apaga as fotos em que está feia e zomba da minha expressão apaixonada, manda por e-mail, pliiis, você nunca manda, malvado… Ela me oferece chiclete e diz que a amiga quer um dia participar também… Paro, sem acreditar no que ouço. Você não devia ter contado, nossa felicidade não precisa de mais ninguém! Mas ela é minha amiga… Foda-se sua amiga, já falamos disso, quer estragar tudo, tem merda na cabeça??!!

Vamos em silêncio até o shopping, uma lágrima escorre de seu olho. Que eu não vejo porque não ouso olhar mas sei, porque é a mesma lágrima que tremula no meu. Paro e ela sai do carro, fecha a porta. Três passos e retorna, e emoldura o rosto na janela, e sussurra: Fica assim não, desculpa… A boca. Por favor, não quero que acabe, pliiis… A boca entreaberta, meio dedo. Meu coração se derrete. Entrego-lhe o dinheiro do cinema e do lanche, mais um pouco para gastar com bobagens. Te amo, ela diz sorrindo, e eu respondo eu também. Ela conta orgulhosa que verá um filme de 14 anos, entrará com a carteira de uma colega. Não precisa correr, meu anjo, tem tempo. Mas ela já se virou. E lá se vai minha Lolita, correndo estabanada pelo estacionamento, mochila às costas, as pernas, as meias brancas. Tão linda em seu prazer de me contrariar.

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Ricardo Kelmer 2005 – blogdokelmer.wordpress.com

Este e outros textos você encontra no livro Vocês Terráqueas

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Comentarios01 >> COMENTÁRIOS

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01- O primeiro conto q li foi sobre a Lolita… sorriso… fiquei um pouco incomodada, sabe aquela coisa hipócrita de achar a menina mto nova, mas no fundo sentindo maior tesão pela coisa??? Pois é, lembrei também q sempre tive uma queda, não, um TOMBO, por homens assim 15, 20 anos mais velhos (e hj isto me é complicado… rsss). Ilde Nascimento, São Luís-MA – abr2009


Um ano na seca (03) Daniele

Setembro 3, 2009

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Daniele – Safada ou comportadinha

A saga kelmérica Um Ano na Seca tem feito rir algumas leitoras sádicas. Não foi nada engraçado ficar um ano inteiro sem sexo mas se isso hoje diverte o respeitável público, então ótimo, vou encarar a coisa como, digamos assim, uma saudável reciclagem das desgraças da minha vida pregressa.

Onde parei no capítulo passado? Ah… Daniele, a morena de papel. Que comprei na banca por oito pilas e levei pra casa quando eu já tava a seis meses sem dar umazinha. Poisbem. Durante algumas semanas eu e Daniele vivemos bons momentos mas… havia um probleminha. Eu sempre queria Dani de quatro, ela ficava linda assim. Mas na hora H, quando eu tava chegando lá, a página virava e Dani passava pra outra posição, uma posição bem sem graça, que merda. Acabamos discutindo, eu querendo Dani safada de quatro e ela se querendo toda comportadinha numa poltrona.

Percebi que meus sentimentos já não eram os mesmos do início. Então fui até a janela e disse, sem olhar pra ela, olhando o fim de tarde lá fora: Beibe, preciso de um tempo. Ela ficou meio tristinha mas entendeu na boa. É uma vantagem das mulheres de papel, elas sempre entendem quando o cara precisa de um tempo. Daniele acabou na quarta gaveta do guarda-roupa, junto com a caixinha do brau. Até hoje desconfio que foi ela quem fumou o precioso, um especialíssimo que eu tinha guardado pro carnaval. Mas tudo bem, foi bom enquanto durou. Meses depois eu me mudei de Botafogo e desde então não tenho notícia de Dani, acho que a coitada caiu da mudança. Sorte de quem pegou.

Com isso, acabei voltando às ex-namoradas debaixo do chuveiro. Nada contra, claro, mas acontece que naquela secura de seis meses eu já havia homenageado todas elas, não havia sobrado nem mesmo uma fulana que anos atrás me atacou numa festa, terminamos num hotelzinho vagabundo e, quando acordei de manhã, a última coisa que eu lembrava era a gente saindo da festa e cadê que eu conseguia lembrar do nome da criatura? Nem do rosto eu lembrava mais. E até eu hoje não lembro. Imagine o estado do cidadão… Poisbem, até essa eu homenageei, lá debaixo do chuveiro. Homenageei sim, pra você ver a consideração que eu tenho com minhas ex e até com as taradas de festa, viu?

Foi aí que um amigo me apresentou Sonja. Que não era de papel.

Ih, infelizmente acabou o espaço. Posso continuar semana que vem? Não? Ah, mocinha, não seja tão exigente comigo, entenda minha situação, eu tô precisando desabafar, aprendi isso com vocês, botar pra fora os sentimentos, né isso? Então, tô botando. Mas não dá pra botar tudo de uma vez. Se você estiver aqui na próxima semana, eu continuo. Você vem, beibe?

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Ricardo Kelmer 2007-2008 – blogdokelmer.wordpress.com

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>> COMENTÁRIOS

01. Continua a história do 1 ano na seca q está ótima, tô imaginando quem seja a Sonja. Daniela, São Paulo-SP

02. Meu desejo pra 2008: saber o final da saga kelmérica de 1 ano na seca. Não faça assim, clemência!!! Prometo lhe indicar novos leitores. Mas, por favor, continue a saga da estiagem! – Jessica (de onde mesmo?)